A Modernidade e o Problema do Conhecimento

(Tempo de leitura: 4 - 8 minutos)

A história dos estudos psicológicos está entrelaçada à história da modernidade e às suas vicissitudes. São múltiplas as relações das ‘psicologias’ com os movimentos de expansão e, principalmente de retraimento do espaço das virtudes morais, pois foi exatamente deste duplo movimento que nasceu o ‘psicológico’. (Figueiredo, 2002)

A partir do século XVII o exame da interioridade tem como meta o acesso à verdade e a fuga das ilusões, alternando-se os filósofos na atribuição da razão (os racionalistas) ou dos sentidos (os empiristas) como via privilegiada do conhecimento. Segundo Ferreira (2005) a questão do conhecimento se impôs no cenário moderno a partir das incertezas presentes no século XVI em consequência do declínio do modo de vida feudal. Para isso contribuíram fatores como a retomada da vida urbana, o incremento do comércio como forma de produção de riqueza, a constituição dos Estados Modernos, as Grandes Navegações e a descoberta de novos povos, a invenção da imprensa, a Reforma (e a contra-reforma) religiosa e, por fim, o surgimento da física matemática.

Ferreira (2005) diz que é possível falar de racionalismo em três sentidos: psicológico, advogando a superioridade do pensamento sobre os estados afetivos; metafísico, afirmando a inteligibilidade da realidade; e gnosiológico, referente a teoria do conhecimento, em que a fonte dos saberes seria oriunda da razão, e não dos sentidos.

O empirismo em suas diversas manifestações comporta um componente psicológico, a suposição de que todo o conhecimento provém dos sentidos; e um gnosiológico, a afirmação de que só o conhecimento empírico é válido. Estes elementos estão presentes no empirismo moderno de George Berkeley, John Locke e David Hume, constituindo a principal corrente antagônica ao racionalismo gnosiológico.

Figueiredo e Santi (2004) falam que tanto no racionalismo como no empirismo tratava-se de estabelecer novas e mais seguras bases para as crenças e para as ações humanas, e procuravam-se essas bases no âmbito das experiências subjetivas.

A modernidade e a volta das monarquias

Tradicionalmente, considera-se que a Idade Média chegou ao fim em 1453, ano em que Constantinopla foi dominada pelos turcos otomanos, colocando fim ao Império Bizantino. Essa é apenas uma data convencionada, pois a passagem da Idade Média para a Idade Moderna resultou de uma série de transformações que mudaram profundamente o mundo ocidental.

Em quase toda a Europa Ocidental (com exceção das comunidades islâmicas e judias), durante a Idade Média a vida das pessoas era determinada pelos ensinamentos e pela ação da Igreja Católica. Era um sistema rígido com verdades absolutas, com uma delimitação fixa do certo e do errado; sem mobilidade social. No século XIII a Escolástica veio numa tentativa de conciliar fé e razão.

A partir do século X as invasões e as epidemias diminuíram consideravelmente o que fez com que a população aumentasse. No final do século XI as Cruzadas, retiraram a Europa do imobilismo cultural e econômico. Cidades surgiram ou renasceram. O comércio floresceu, o dinheiro voltou a circular. Há um retorno às monarquias e o Rei passa a constituir o principal agente da construção do Estado Moderno. No século XIV o Renascimento rejeitou a cultura Medieval, presa aos padrões da Igreja Católica, abriu espaço para o pensamento crítico e a diversidade de idéias. Na égide desse movimento prega-se a individualidade e a racionalidade. Valores supremos da Modernidade.

O teocentrismo perde lugar para o antropocentrismo. E o Humanismo propõe o homem como centro de preocupações e indagações dos pensadores. As ciências avançam largamente e o mundo vê desmoronar a velha teoria geocêntrica.

Conflitos Religiosos, Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). A França reduz o império quase à condição de um Estado a mais entre tantos outros. A Suécia, protestante, surge como uma nova potência, enquanto a Holanda e a Suíça são reconhecidas como Estados independentes e soberanos. Há um novo equilíbrio na Europa. E ele representa, sobretudo, a consolidação da burguesia. A Holanda torna-se uma poderosa república de burgueses comerciantes e financistas, que organizam sólidas empresas – a Companhia das Índias Ocidentais e a Companhia das Índias Orientais – que após a decadência da Espanha, passam a monopolizar o comércio marítimo. (Abrão, 2004)

A Inglaterra, em plena revolução iniciada em 1640, promulga o Ato de Navegação (1651), proibindo o transporte de importações inglesas em navios que não sejam seus ou de países produtores. Na Inglaterra a burguesia lança as bases da indústria moderna, enquanto setores da nobreza se aburguesam, passando a explorar as terras de modo capitalista.

Na França, a burguesia associa-se à Coroa, que busca se fortalecer e concentrar o poder. O rei afasta os nobres de várias funções do governo e recruta os serviços dos burgueses, promovendo-os a uma condição de uma nova aristocracia – a “nobreza de toga”. O resultado dessa aliança é o absolutismo, base da política agressiva da França, que no século XVII, sob Luiz XIV, o Rei-Sol transforma-se na maior potência da Europa.

Em meio a esse quadro que nasce e se desenvolve o pensamento moderno, marcado pela confiança na razão. Mas como ressalta Abrão (2004), esse é um racionalismo diferente daquele que vinha caracterizando o mundo ocidental. Abrão (2004) diz que desde a Grécia Antiga a razão pôde pretender abarcar o mundo porque, de certa forma, o próprio mundo era concebido como racionalmente ordenado e unificado. Nos tempos modernos, no entanto, essa imagem já não existia. Não há mais a pólis, o Império ou uma igreja única; a realidade apresenta-se dispersa, múltipla e relativa. “Cabe à razão, a tarefa de reunificar o mundo, reproduzi-lo, representá-lo.” (Abrão, 2004, pág. 184)

Mas essa operação de representar, de “tornar de novo presente” a imagem unificada do mundo é também destruir o que se apresenta como disperso e desconexo; a representação nega e ultrapassa a realidade visível e sensível, e produz um outro mundo reordenado pela razão. (Abrão, 2004)

Os pensadores modernos retomam o significado da expressão grega ta mathema, isto é “conhecimento completo”. A insistência no problema do método é crucial, porque o mundo exterior não mais fornece a garantia da certeza do conhecimento. “A razão não tem mais no que se apoiar a não ser nela mesma, e por isso precisa criar um método seguro.” (Abrão, 2004, pág. 185).

Costuma-se situar o início da modernidade com o pensamento de Descartes, o fundador do funcionalismo moderno. Ele propôs estabelecer as condições de possibilidade para a obtenção de um conhecimento seguro da verdade. Figueiredo e Santi (2004) lembram que Descarte é tomado como inaugurador da Modernidade no sentido de que ele marca o fim de todo um conjunto de crenças que fundamentavam o conhecimento. O homem moderno não buscava a verdade em um além, em algo transcendente.

O filósofo Francis Bacon, contemporâneo de Descartes, pode ser apresentado como o fundador do moderno empirismo. Para Bacon a razão deixada em total liberdade pode se tornar tão especulativa e delirante que nada do que produza seja digno de crédito. É necessário dar à razão uma base nas experiências dos sentidos e na percepção; desde que essa percepção tenha sido purificada, liberada de erros e enganos a que está submetida no cotidiano.

A sociedade que se formou na Europa durante a Idade Moderna constitui um modelo complexo e especifico de organização social, econômica e política. Figueira (2005) fala que enquanto parte da economia, dominada pelo comércio, era capitalista, outra parte apresentava resquícios do sistema feudal. O Estado praticava o poder de forma absolutista, mas o dinheiro comandava a vida econômica e social. A burguesia oferecia seu apoio aos monarcas, mas a nobreza continuava a ter privilégios entre os grupos sociais.

Referencias:

Figueiredo, Luis Cláudio. A invenção do Psicológico – quatro séculos de subjetivação: 1500-1900. São Paulo: Escuta, 2002.

Ferreira, A. A. L. O Múltiplo Surgimento da Psicologia. In: Jacó - Vilela, A. M.; Ferreira, A. A. L.; Portugal, F. T. (orgs.). História da Psicologia: rumos e percursos. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2005.

Abrão, Bernadette Siqueira. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural Editora, 2004.

Ariés, Philippe. História da Vida Privada. Companhia das Letras, 1991.

Figueira, D. G. História. São Paulo: Ática, 2005.

Figueiredo, L.C. e Santi, P.L. R. Psicologia: uma (nova) introdução. São Paulo: EDUC, 2004.

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