Emoções: uma construção reflexiva

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Resumo: Por ser um tema indispensável ao controle de distúrbios comportamentais no contexto atual, a emoção se destaca como objeto de estudo em muitas pesquisas. A percepção de sua relação com o funcionamento do organismo desperta a necessidade do psicólogo ser capaz de lidar com o universo das emoções. Desse contexto emerge a problemática que direciona esta pesquisa; afinal, o que é necessário para lidar com tantas emoções? Nesse sentido, o presente estudo objetiva construir um referencial teórico que possa embasar estudantes da Psicologia e áreas afins, levando os leitores a uma reflexão sobre a importância desse conhecimento no seu fazer profissional. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza descritiva e exploratória, tendo como elemento inicial uma revisão na literatura. Foi realizada uma busca em banco de dados MEDLINE, LILACS e SCIELO, empregando-se os descritores: emoção, fisiologia, psicologia. Os dados foram organizados na construção deste artigo, sintetizando conhecimentos obtidos, numa construção reflexiva. Expõem-se definições, substratos neurais, pressupostos básicos e teóricos nas diferentes abordagens científicas, classificação de estados emocionais, além de uma associação entre emoções e psicologia com ênfase na saúde e doença, buscando a partir desse momento, subsídios para o enfretamento de questões abrangentes à prática profissional. O aprofundamento do tema no decorrer da pesquisa acrescentou uma fundamentação teórica, de cunho científico, permitindo um entendimento sobre as emoções vivenciadas no cotidiano das autoras, levando a concluir a pertinência dessa temática na formação de um psicólogo, visto sua influência positiva ou negativa no âmbito da saúde.

Palavras-chave: Emoções. Fisiologia. Psicologia.

1. Introdução

No cotidiano de qualquer ser humano, a cada minuto vivido estão sendo ativadas operações mentais como emoção ou razão, as quais, segundo Lent (2010) compreendem as funções mais complexas do cérebro humano. Entre todos os seres, o homem parece o mais emocional, expressa calma, euforia, medo, tristeza, alegria, prazer, raiva e amor, entre tantas outras emoções que enriquecem a vida e conferem paixão e caráter às ações humanas.

Por se tratar de um tema indispensável ao controle de muitos distúrbios comportamentais no contexto atual, a emoção tem se destacado como objeto de estudo em muitas pesquisas. A percepção da relação entre emoção e o funcionamento do organismo desperta para a necessidade do psicólogo ser capaz de lidar com o universo das emoções, não apenas com as emoções do outro, mas também com as suas próprias emoções. Desse contexto emerge a problemática que direciona essa pesquisa; afinal, o que é necessário para lidar com tantas emoções?

Nesse sentido, o presente estudo objetiva construir um referencial teórico que possa embasar estudantes da Psicologia e áreas afins, levando os leitores a uma reflexão sobre a importância desse conhecimento no seu fazer profissional.

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza descritiva e exploratória, tendo como elemento inicial uma revisão na literatura. Foi realizada uma busca em banco de dados MEDLINE, LILACS e SCIELO, empregando-se os descritores: emoção, fisiologia, psicologia; além da leitura de clássicos como Kandel et al (2002), Carlson (2002), Damásio (2000), Cortez e Silva (2008), Kolb e Whishaw (2002), Lent (2008, 2010), Myers (2006), Aires (2012), entre outros.

Os dados foram organizados na elaboração deste artigo, sintetizando os conhecimentos obtidos, numa construção reflexiva. Expõem-se definições, substratos neurais, pressupostos básicos e teóricos nas diferentes abordagens científicas, classificação de estados emocionais, além de uma associação entre emoções e psicologia com ênfase na saúde e doença, buscando a partir desse momento, subsídios para o enfretamento de questões abrangentes à prática profissional.

O aprofundamento do tema no decorrer da pesquisa acrescentou uma fundamentação teórica, de cunho científico, permitindo um entendimento sobre as emoções vivenciadas no cotidiano das autoras, levando a concluir a pertinência dessa temática na formação de um psicólogo pelo seu valor científico, pelo crescimento e maturidade pessoal e profissional, além da contribuição que poderá trazer aos indivíduos, uma vez que alterações típicas desses estados tem influência positiva ou negativa no âmbito da saúde.

2. Fundamentação Teórica

2.1 Entendendo as Emoções

Apesar das emoções implicarem em muitos processos corporais, Kandel et al.,  (2002) enfatizam que ainda não há definição científica precisa do termo emoção. Essa dificuldade de se definir emoção segundo Lent, (2008) resulta da existência de muitos conceitos, cujas diferenças são atribuídas a diversidade de enfoques dados à temática por cada autor ou escolas de pensamentos também diferentes.

Do ponto de vista biológico, “a emoção pode ser definida como um conjunto de reações químicas e neurais subjacentes à organização de certas respostas comportamentais básicas e necessárias à sobrevivência dos animais” (LENT, 2008, p.254). Esse conceito enfatiza alguns aspectos importantes que permeiam as discussões sobre as emoções: a existência de um substrato neural organizador das respostas aos estímulos emocionais e da própria percepção da emoção, além de uma sua função biológica, uma vez que as respostas comportamentais, ao se ajustarem a situações específicas, aumentam as chances de sobrevivência.

Sistemas neurais em humanos produzem respostas diversas, facilitando a adaptação às diferentes flutuações ambientais, além de resultar em uma dimensão subjetiva, transformando-as em uma experiência única. Um exemplo pertinente conforme Carlson (2002) é que se tratadas injustamente as pessoas ficam bravas, ao verem alguém sofrer ficam tristes e ao permanecerem perto de alguém a quem ama ficam felizes.

Nesse sentido, Kandel et al. (2002), destacam aspectos das emoções: sentimento, que pode ser positivo ou negativo; comportamentos específicos e padrões de ajustes fisiológicos correspondentes. Apesar da maioria das pessoas aplicarem a palavra emoção aos sentimentos e não aos comportamentos, é o comportamento e não a experiência individual que tem consequências para a sobrevivência e para a reprodução humana, conforme Carlson (2002).

Foram as funções úteis dos comportamentos emocionais que guiaram a evolução do nosso cérebro. Os sentimentos que acompanham estes comportamentos apareceram muito depois (CARLSON 2002, p.340).

Neste contexto, Aires (2012, p.354) afirma “tradicionalmente, distingue-se a expressão da experiência emocional”, esclarecendo experiência como estados subjetivos, frutos da introspecção consciente, enquanto que a expressão pode ser medida objetivamente por respostas comportamentais, alterações endócrinas e autonômicas; daí porque se conhece mais sobre os substratos neurais da expressão emocional do que sobre a experiência emocional.

O fato das manifestações fisiológicas serem mensuráveis, segundo Lent (2010), permitem que a emoção seja analisada mais facilmente com os métodos da neurociência. No homem, a descrição do componente subjetivo da emoção é de difícil controle, uma vez que apenas o próprio indivíduo tem acesso a ele, e os outros ficam impossibilitados de realizar uma verificação confiável de veracidade ou exatidão. No contexto atual, o registro da atividade cerebral pode ser conseguido por imagens ou traçados eletro ou magneto fisiológicos.

O pioneiro no estudo das emoções foi Charles Darwin (1809-1882), cujas observações estão no livro “A expressão das emoções no homem e nos animais”, Observando expressões faciais de seus filhos e de pessoas de culturas diferentes, registrou padrões de expressões emocionais semelhantes, concluindo serem essas expressões inatas, cuja natureza hereditária permite que as mesmas estejam sujeitas a evolução como qualquer outra característica das espécies. Enfatizando que a emoção tem utilidade para a vida dos animais, tem valor adaptativo por garantir a vida dos indivíduos e das espécies ( DARWIN, 2000).

Nesse sentido, Lent (2010) afirma que são admitidas três grandes utilidades da emoção: a sobrevivência do indivíduo, da espécie e a comunicação social. Socialmente as emoções cumprem a função de transmitir os sentimentos de um indivíduo para o outro, sinalizando por meio da expressão facial o estado em que se encontram, facilitando a interação, o convívio social, criando, separando e mantendo relacionamentos interpessoais. Estudos de Paul Ekman evidenciaram que pessoas de diferentes culturas e civilizações não têm dificuldades de reconhecer algumas expressões faciais umas das outras (LENT, 2008).

2.2 Substratos Neurais da Emoção

Uma resposta emocional, de acordo com Carlson (2002), consiste em três tipos de componentes: comportamental, autonômico e hormonal. O componente comportamental pode estar representado na atividade motora apropriada à situação específica, enquanto que as respostas autonômicas facilitam os comportamentos, garantem a execução de movimentos necessários e as respostas hormonais reforçam as respostas autonômicas. Estes componentes são controlados por sistemas neurais distintos, dos quais se destacam os mais significativos.

2.2.1 Amígdala

Consiste em vários grupos de núcleos, cada um apresentando diferentes aferências e eferências. Sua estimulação produz ansiedade e sentimento de medo, enquanto que lesões resultam em uma aparente perda dos aspectos emocionais, que podem estar ligados as experiências cognitivas (AIRES, 2012). Indivíduos com lesões nessa área, ao enfrentarem situações que produzem respostas emocionais fortes, não tem grande probabilidade de lembrar-se desses episódios.

Cahill et al. (1996 apud CARLSON, 2002), avaliaram pessoas em um equipamento de PET (Tomografia por emissão de pósitrons) após assistirem filmes emocionalmente neutros e excitantes. O relato de acontecimentos ocorridos nos filmes excitantes aumentava a atividade da amígdala direita, porém o mesmo não acontecia quando recordavam cenas do filme emocionalmente neutro. Além disso, as pessoas demonstraram maior facilidade de relatarem cenas do filme excitante, de crimes violentos. Até palavras ameaçadoras, quando lidas, provocaram aumento bilateral na atividade da amígdala.

Esses conhecimentos, segundo Aires (2012), permitem afirmar que a amígdala fornece um elo entre os processamentos cognitivo e emocional, provavelmente ligados à experiência emocional, além de modular áreas hipotalâmicas e mesencefálicas, responsáveis pela expressão de diversos comportamentos ligados à expressão emocional. Convém destacar que

A amígdala é necessária para a sobrevivência das espécies. Ela influencia as respostas autônomas e hormonais por meio de conexões com o hipotálamo, além de influenciar nossa consciência de consequências positivas e negativas de eventos e objetos por suas conexões com o córtex pré-frontal (KOLB e WHISHAW 2002, p.435).

2.2.2 Hipotálamo

Segundo Kolb e Whishaw (2002), o hipotálamo age no sistema endócrino e no sistema nervoso autônomo (SNA). Influencia a seleção de comportamentos no resto do cérebro, via sistema límbico, estando envolvido no controle neural de comportamentos que garantem a preservação do indivíduo ou da espécie, permanecendo então, cercado de um alto teor emocional.

Um animal descerebrado, com secções abaixo do hipotálamo expressa apenas fragmentos de atividade emocional, ficam limitados nas alterações viscerais e somáticas características da raiva, exibindo respostas emocionais de maneira desconexa. Por outro lado, a remoção do tecido cerebral superior ao corpo mamilar do hipotálamo, produz um conjunto de reações que caracterizam o estado de raiva, desencadeando todos os sinais da atividade simpática como ereção de pela hipertensão, taquicardia e sudorese entre outras (CORTEZ E SILVA (2008). Essas observações enfatizam sua relação com as manifestações sintomáticas e não com a geração das emoções. É o hipotálamo considerado centro da expressão emocional.

2.2.3 Córtex orbitofrontal

O córtex orbitofrontal está localizado na base dos lobos frontais, revestindo a região cerebral que fica logo acima das órbitas. Recebe aferências do tálamo, córtex temporal, área tegmental ventral, sistema olfativo e amígdala, das quais chegam informações ambientais e os planos realizados pelo restante dos lobos frontais. Suas eferências distribuem-se para várias regiões cerebrais, incluindo o córtex cingulado, a formação hipocampal, o córtex temporal, o hipotálamo lateral e a amígdala, além de outras regiões do córtex frontal, permitindo-lhe influenciar uma variedade de respostas comportamentais e fisiológicas, incluindo as respostas emocionais organizadas pela amígdala (CARLSON, 2002).

Jacobsen, Wolf e Jackson (1935 apud CARLSON, 2002) ao removerem lobos frontais em chimpanzé, substituíram crises de ira por atos de bom comportamento. Repercussões desses achados são sentidas nos dias atuais. A lobotomia frontal foi utilizada como tratamento para distúrbios comportamentais em humanos por muito tempo. Na década de 1950, milhares de pessoas foram submetidas a essa primeira forma de psicocirurgia, principalmente para reduzirem os sintomas da angústia emocional, ansiedade, obsessões, compulsões e do medo infundado (KOLB E WHISHAW, 2002).

Apenas uma década após, estudos mostraram que apesar das reações emocionais patológicas serem eliminadas nesse procedimento, as normais também eram abolidas, causando sérias alterações na personalidade. Apesar das várias técnicas desenvolvidas, todos os tipos de lobotomia pré-frontal prejudicam os lobos frontais, principalmente o córtex orbitofrontal, uma vez que as conexões entre essa área e o resto do cérebro são destruídas. Devido a esses resultados e a descoberta de drogas e métodos terapêuticos que aliviam os sintomas das pessoas sem produzir efeitos colaterais tão drásticos, o procedimento da lobotomia finalmente foi abandonado segundo Valenstein (1986 apud CARLSON, 2002).

2.2.4 Sistema límbico

Em Kolb e Whishaw (2002) constata-se que o sistema límbico desenvolveu-se como um anel de estruturas ao redor do tronco encefálico de anfíbios e répteis, denominado de lobo límbico pelo neuroanatomista francês Broca, em 1878. As estruturas desse lobo límbico são um córtex primitivo, nos mamíferos são o córtex no giro cingulado e a formação hipocampal, a qual compreende uma estrutura cortical que é o hipocampo e o córtex adjacente a ele, denominado córtex parahipocampal. Investigações posteriores evidenciaram a existência de conexões entre seus componentes e o hipotálamo, além do importante papel no comportamento e expressão das emoções. Nessa Concepção moderna do sistema límbico uma rede interconectada de estruturas conforme figuras 01 (A) e 01 (B), controlam a expressão emocional (CORTEZ E SILVA, 2008).

Conexões extensas da amígdala com o hipotálamo e córtex, o corpo mamilar do hipotálamo e o córtex pré-frontal. 01(B)- Representação esquemática das principais conexões do sistema límbico. Fonte: Kolb e Whishaw (2002, p.419), modificada pelas autoras.

Figura 01(A)-. Conexões extensas da amígdala com o hipotálamo e córtex, o corpo mamilar do hipotálamo e o córtex pré-frontal. 01(B)- Representação esquemática das principais conexões do sistema límbico. Fonte: Kolb e Whishaw (2002, p.419), modificada pelas autoras.

Sabe-se hoje que este sistema interage com todos os sistemas funcionais do cérebro, segundo Aires (2012), praticamente impossível definir com exatidão quais seriam seus limites.

2.3 Principais Teorias sobre as Emoções

Por envolver estados complexos do ser humano, as emoções são objetos de interpretações diversas que se organizam em várias perspectivas. A maioria das formulações é de caráter fisiológico, algumas datam do século passado, porém nenhuma delas aborda todos os aspectos das emoções.

Uma das primeiras teorias para se explicar as emoções foi elaborada pelo psicólogo e filósofo americano William James (1842-1910) e o psicólogo dinamarquês Karl Lange (1834-1900), onde propuseram que as emoções são experimentadas a partir da percepção das alterações fisiológicas no organismo (LENT, 2008). Explica que a emoção ocorre após o córtex receber sinais acerca das alterações do nosso estado fisiológico, afirmando que “ficamos tristes porque choramos, zangados porque brigamos e assustados porque trememos, contrário ao senso comum que afirma choramos por estar tristes, xingamos por estar zangados e trememos por estar com medo".

 A teoria de James-Lange foi considerada implausível pelo psicólogo Walter Cannon (1871-1943), justificando este, que as respostas corporais não seriam diversificadas suficientemente para evocar diferentes emoções. Nesse sentido Cannon indaga: “a aceleração do coração será um sinal de medo, raiva ou amor?” Enfatiza ainda que respostas como alterações na frequência cardíaca, na transpiração e na temperatura corporal não acontecem tão rapidamente a ponto de dispararem emoções súbitas, ainda destaca juntamente com Bard, (1898-1977), concluíram que a resposta fisiológica e as experiências emocionais ocorrem ao mesmo tempo: “o estímulo que dispara a emoção é encaminhado simultaneamente para o córtex cerebral, causando a consciência da emoção, e para o sistema nervoso simpático, causando a excitação corporal” (MYERS,2006, p.362).

A formulação da teoria de Cannon-Bard aponta que duas estruturas subcorticais, o hipotálamo e o tálamo têm uma dupla função; fornecer os comandos motores coordenados que regulam os sinais periféricos da emoção, e enviar ao córtex informações necessárias para a percepção cognitiva das emoções, Lent (2008). Nesse sentido, vem a teoria afirmar que o coração dispara no momento em que as pessoas experimentam o medo; mais especificamente, que um não causa o outro conforme explicitava a teoria de James-Lange.

Apesar das evidências que as respostas fisiológicas são muitas vezes as mesmas, e de que a afirmativa de James-Lange sobre as emoções serem experienciadas pelos diferentes estados do corpo parecer improvável, novas e discretas evidências mostram distinções fisiológicas entre as emoções, tornando aceitável essa teoria. Na luta contra os próprios sentimentos de depressão e pesar, James acabou acreditando na possibilidade de um controle das emoções a partir das manifestações externas de qualquer emoção que se queira experienciar. “Para se sentir alegre sente-se de forma animada, olhe ao redor animadamente, e aja como se a alegria estivesse lá(MYERS, 2006, p.362). De acordo com Lent (2008), a teoria Cannon–Bard, foi à primeira tentativa concreta de elucidar as bases neurais das emoções atraindo o interesse de muitos neurocientistas na tentativa de revelar as regiões neurais e os mecanismos envolvidos.

Nesse contexto, o anatomista James Papez (1883-1958) substituiu a ideia de centros coordenadores da emoção isolados, para o conceito de circuito, um conjunto de áreas associadas. Concluiu que o lobo límbico e as estruturas subcorticais associadas oferecem a base neural para as emoções e propôs em 1937 um circuito, denominado sistema límbico ou circuito límbico de Papez, pelo qual a emoção alcançaria a consciência, provavelmente, no córtex cerebral (KOLB E WHISHAW, 2002).

Na teoria de Papez, a atividade originada nas áreas de associação neocorticais é transportada para o hipocampo, através dos giros do cíngulo e parahipocampal. Após o processamento dessa informação no hipocampo, sinais são enviados ao núcleo mamilar do hipotálamo, daí ao núcleo anterior do tálamo que envia sinais ao giro do cíngulo (Cf. figuras 1A e 1B, pag. 13), para produzir o sentimento associado com a emoção. Conexões intracorticais levam os sinais até hipocampo, e a experiência emocional é sustentada através de uma atividade reverberante dentro do circuito. Nesse sentido, o pensamento pode intervir no comportamento emocional, e o processamento do comportamento pode influenciar os pensamentos e sentimentos sem requerer feedback sensorial periférico (CORTEZ E SILVA, 2008).

A teoria de Papez foi ampliada por Paul MacLean que construiu uma proposta mais abrangente para o cérebro emocional, acrescentando em 1952, às estruturas do circuito de Papez, a amígdala e o córtex pré-frontal (LENT, 2008). A teoria de MacLean assume que o sistema límbico é o sistema central na mediação das emoções, colocando a teoria de Papez sobre uma sólida base experimental; concorda que o hipotálamo é o efetor da expressão emocional e que o córtex cerebral avalia as qualidades efetivas da experiência, combinando-as com os estados sensoriais do medo, raiva, amor e ódio. Para MacLean, o hipocampo seria um córtex afetorreceptor, a formação hipocampal, um córtex afetomotor e o giro do cíngulo, um centro víscero-motor, integrando respostas autônomas e somatomotoras, bem como experiências emocionais. Esses mecanismos, segundo o autor, sugerem “quão intensamente a emoção pode paralisar o sentimento e a ação conjuntamente” (CORTEZ E SILVA, 2008, p.23).

Na década de 1960, Stanley Schachter e Jerome Singer, psicólogos sociais trazem uma nova solução para as primeiras teorias, propondo a teoria dos dois fatores, segundo a qual a emoção tem dois componentes: excitação física e o rótulo cognitivo (MYERS, 2006).

Schachter e Singer (1962 apud MYERS, 2006) constataram que um estado de agitação pode ser interpretado como uma determinada emoção ou como outra bastante diferente, dependendo da forma que ela foi percebida. Nesse sentido Myers (2006, p.363) sugere, “insulte pessoas que acabaram de ser excitadas (...) e elas facilmente atribuirão de forma errônea seu estado à provocação”. Os sentimentos de raiva certamente serão maiores do que o de pessoas que foram insultadas, mas que não tinham sido excitadas anteriormente, concluindo então que a excitação pode intensificar qualquer emoção (MYERS, 2006, p.363).

Como James e Lange, Schachter e Singer afirmavam que a experiência da emoção aumenta a partir da consciência da resposta corporal. Como Cannon, Bard, eles afirmavam que as emoções são semelhantes fisiologicamente e, diferentemente de James-Lange, sugeriram que o córtex cria uma resposta cognitiva para a informação periférica de acordo com a expectativa e o contexto social de cada um, sendo essa a primeira teoria a envolver os aspectos social e cognitivo, uma vez que destaca o relacionamento com outros indivíduos na avaliação da resposta emocional de um determinado contexto. A interpretação emerge do contato com o outro, Casanova et al., (2009), esclarecem nessa perspectiva culturalista ser a emoção aprendida num certo tipo de sociedade. Esse aspecto social é considerado na teoria do psicólogo e médico francês Henri Wallon (1879-1962), segundo a qual, a emoção tem dupla origem: biológica e social; destacando também seu papel na garantia da sobrevivência da espécie e a característica peculiar dos estados emocionais serem contagiantes.

Pesquisas em neurologia mostram que a emoção pode ser experienciada antes da cognição. Há vias neurais na emoção que não passam por áreas corticais envolvidas no pensamento. Um desses atalhos pode partir do olho ou da orelha, chegando à amígdala via tálamo, permitindo uma resposta emocional rápida antes da intervenção do cognitivo; o que explica às vezes que pessoas têm expressões faciais de felicidade ou tristeza, antes mesmo de entender o porquê delas. Como a amígdala manda mais projeções para o córtex do que recebe dele, é mais fácil, segundo Ledoux e Armony (1999 apud Myers, 2006) os sentimentos controlarem os pensamentos do que o pensamento comandar os sentimentos.

Damásio (2000) acrescentou um aspecto importante da relação entre emoção e fatores cognitivos, em sua hipótese do marcador somático. Observou que pacientes com lesão no lobo frontal analisam o mundo de modo bastante racional, porém, tomam decisões sociais e pessoais definitivamente irracionais, argumentando que o raciocínio dessas pessoas, consciente ou inconscientemente não é mais afetado pelo substrato neural que forma a base da emoção e propondo que os estímulos externos ou internos que normalmente não são percebidos conscientemente, induzem a emoção.  Essa hipótese sugere como as emoções estão ligadas a pensamentos, decisões e ações de uma pessoa. Segundo Kolb e Whishaw (2002), a teoria é atraente, porque explica o fato de as mesmas respostas autonômicas poderem acompanhar diferentes emoções.

Entre as várias teorias da psicologia é pertinente destacar algumas abordagens que enfocam as emoções. Conforme pode ser observado na teoria psicodinâmica de Freud (1989), esse grande pensador do século XX traz uma contribuição significativa ao entendimento da emoção, ao ampliar o conceito de emoção para o de afeto e demonstrar através da Psicanálise que tudo que registramos em nossa psiqué são as representações afetivas vinculadas às experiências emocionais. De acordo com Gomes (2003) apesar de Freud não ter publicado trabalho específico sobre a emoção, em vários pontos de sua obra são detectadas referências ao tema. Na sua concepção, afetos são processos de descarga ou acumulação de tensão que acontecem no aparelho psíquico e são percebidos pela consciência como sensações que vão do prazer ao desprazer, conforme transcrito nos fragmentos escritos por Freud em 1926:

Fazemos a hipótese da existência de... Um sistema, um órgão, cuja excitação, por si só, faz com que o fenômeno que chamamos consciência se produza. Este órgão pode ser excitado tanto do exterior... quanto do interior, onde pode tomar conhecimento, primeiro, das sensações [sentimentos] no isso [id], e em seguida, igualmente, dos processos no eu [ego]. (Freud, 1926/1994, p. 21 apud GOMES, 2003, p.122)

Freud considera que, exceto quando são suprimidos, os afetos são obrigatoriamente percebidos pela consciência (FREUD 1915/1982 apud GOMES, 2003).

Segundo Moreira (1999, p.3), “a psicologia cognitiva preocupa-se com o processo de compreensão, transformação, armazenamento e utilização das informações, envolvidas no plano de cognição”. Essa abordagem defende que o ser humano ao nascer é uma “tábua rasa”, e que todo o conhecimento provém da aprendizagem do cotidiano, acredita que o comportamento provoca as emoções e que, corrigindo-se o comportamento as emoções também serão. Os principais investigadores dessa abordagem, acreditam que o desenvolvimento do ser humano se dá através da aprendizagem. Segundo Carrara (2005), as emoções se manifestam através do comportamento do individuo. E assim, o terapeuta comportamentalista acredita que a partir de planos diários e repetitivos, estará induzindo o paciente a certos comportamentos, nos quais as suas emoções vão sendo modificadas. Assim, o paciente irá adquirir maior capacidade de resistência ás frustrações e pressões no seu cotidiano. A abordagem cognitivista é caracterizada por dar ênfase às crenças do homem, desde o seu nascimento e que os pensamentos baseados nela de uma forma consciente ou não, são as causas das emoções.

2.4 Algumas das Emoções

Segundo Damásio (2005 apud SEPULVIDA, 2010, as emoções compreendem a três categorias conforme se evidencia na tabela 1).

Tabela 1 – Classificação de emoções segundo Damásio (2005) apud Sepulvida (2010).

Categorias

Características

Tipos

Primárias
(universais)

Inatas, facilmente identificáveis entre seres de uma mesma espécie e partilhadas por todos.

Emoção de choque

Emoção colérica

Emoção afetuosa

Secundárias
(sociais)

Aprendidas, consideradas resposta a uma emoção primária.

Estados afetivos sensoriais

Estados afetivos vitais

Mistas

De fundo

Rapidamente decodificadas pelo sujeito em diferentes contextos.

Agradáveis

Desagradáveis

Fonte: autoras.

Damásio (2005 apud Sepulvida, 2010) esclarece a emoção de choque como aquela que representa ameaça ao indivíduo; na colérica há anulação de objeto que representa algum incômodo e na afetuosa há inclinação ao prazer. Destaca nos estados afetivos sensorial: prazer e dor; nos estados afetivos vitais: mal-estar, bem-estar, animação e desanimação e, nas mistas, conflitos de grande ou pequena repercussão na conduta individual.

Harris, (1996) classifica as emoções como simples e complexas a partir do critério de serem ou não reconhecidas por meio da expressão facial, respectivamente. Tanto as simples como as complexas podem ser positivas, se surgem de situações agradáveis e negativas, se surgem de situações desagradáveis ou mistas que envolvem misturas de estados afetivos contrastantes como amar e odiar um alguém ao mesmo tempo.

Pelo menos seis emoções são universais: alegria, raiva, vergonha, medo, surpresa e tristeza (DAVIDOFF, 2001). A alegria, tristeza, medo e raiva são destacadas nesse artigo por terem sido as mais experienciadas e vivenciadas pelas autoras desse trabalho.

2.4.1 Alegria

Na categoria das emoções positivas a alegria é uma das emoções que englobam o amor, a paixão, o prazer, o bom humor e a felicidade. É a mais procurada pelo ser humano, ajudando-o a ultrapassar dificuldades e outros sentimentos negativos (CASANOVA et al., 2009).

A alegria surge em contextos considerados seguros, por situações em que podem apresentar a realização de algum objetivo pessoal. A alegria é “um estado de animo particular que se forma a partir de um prazer físico, moral ou intelectual e se exterioriza habitualmente com o riso”. Porém “nem sempre o riso exprime alegria, nem todas as experiências se exprime com riso”,SENISE (1950, p. 16 apud NUNES, 2007).

Pessoas felizes percebem o mundo mais seguro, tomam decisões mais facilmente, tem rapidamente sucesso nos empregos, são mais cooperativas, perseguem formas de vida mais saudável, que lhes dê mais satisfação.

2.4.2 Raiva

Para Davidoff (2001), a raiva é uma emoção característica por fortes sentimentos de contrariedade, os quais são acionados por ofensas reais ou imaginárias. A raiva é considerada normal, e em determinada quantidade saudável, tornando-se necessária para a sobrevivência, visto que, em situações que exijam comportamentos agressivos, impulsiona o ser humano a lutar e a se defender.

Quando a raiva é combustível para atos verbais ou físicos agressivos, levando mais tarde a arrependimentos, ela se torna mal adaptativa, podendo ferir as pessoas. Hostilidade crônica está relacionada a doenças cardiovasculares, porém, de acordo com Myers (2006), “expressões controladas de raiva são mais adaptativas que explosões de raiva ou sentimentos hostis.” Participantes de pesquisas realizadas por Averill (1983 apud MYERS, 2006) reagiram mais frequentemente de forma assertiva do que injuriosa, ao estarem com raiva; sua raiva os levava a falar mais alto que o agressor, diminuindo então a provocação. Simplificando, Myers (2006, p.379) acrescenta que “expressar a raiva pode ser temporariamente tranquilizante se ela não nos levar a sentimentos de culpa ou ansiedade”.

Myers (2006) enfatiza duas sugestões de especialistas para lidar melhor com nossas raivas: a primeira, esperar. O tempo de espera diminui o nível de excitação fisiológica; a segunda, lidar com ela de modo a não estar sempre irritado com qualquer problema pequeno, nem ficar passivamente pensando nas coisas que provocaram esse estado. Procurar acalmar-se de outras maneiras, exercitando-se, realizando uma tarefa agradável ou conversando com amigos. E se outra pessoa o machucar, segundo pesquisadores, a sugestão dos mais velhos de perdoar pode ser a melhor saída.

2.4.3 Medo

O medo pode ser venenoso. Ele pode nos atormentar roubar o nosso sono e preocupar nosso pensamento. As pessoas podem literalmente morrer de medo. O medo pode ser contagioso (MYERS 2006, p.376).

Normalmente, quando o medo surge, o indivíduo transpira, treme, olha ao redor e sente vontade de se proteger. A presença desses impactos fisiológicos possibilita o indivíduo a enfrentar o perigo ou a fugir dele. Nesse sentido ele é um motivador para a defesa, sinaliza para um dano físico ou psicológico iminente que se manifesta na ativação do SNA simpático (CASANOVA et al., 2009).

Para Kolb e Whishaw (2002) a produção do medo é fundamental na preservação das espécies porque as respostas fisiológicas produzidas nesse estado leva a maioria das pessoas a minimizar o contato com animais, objetos e lugares perigosos e a maximizar o contato com coisas seguras, aumentando as chances de sobrevivência. Frequentemente o medo é adaptativo, de acordo com Myers (2006) o medo de inimigos reais ou imaginários aproxima as pessoas contribuindo para a vida em grupos, o medo de acidentes nos protege de perigos, o medo de punição ou retaliação pode nos impedir de machucar o outro, além de ajudar a abordar um problema e a ensaiar estratégias para resolvê-lo.

Além de ativar estratégias de enfrentamento em situações difíceis outro ponto positivo do medo é promover a aprendizagem. Psicólogos perceberam que pode-se aprender a ter medo de qualquer coisa, e, que é possível estar biologicamente preparado para aprender alguns medos mais rapidamente do que outros.

Para McNally (1987, apud  MYERS, 2006, p. 376),

Nós humanos aprendemos a temer cobras, aranhas e penhascos rapidamente, tendo provavelmente esses medos ajudado na sobrevivência de nossos ancestrais, porém, somos menos propensos a temer carros, eletricidade, bombas e o aquecimento global que são muito mais perigosos do que aqueles; tendo então, os medos da idade da pedra nos deixado despreparados para os perigos modernos.

Testes em laboratórios demonstram que a experiência ajuda a moldar o medo ou a sua falta, porém os genes também são importantes. Recentemente, cientistas isolaram um gene que influencia a resposta da amígdala a situações assustadoras. Segundo Hariri et al., (2002 apud MYERS, 2006), indivíduos com uma versão curta desse gene tem reduzida quantidade de uma proteína que acelera a recaptação do neurotransmissor serotonina. Com mais serotonina ativando os neurônios da amígdala, as pessoas apresentam respostas mais intensas a imagens assustadoras.

2.4.4 Tristeza

A tristeza é um estado emocional intrínseco a todo ser humano privado de determinada satisfação pessoal e emocional. É uma reação do organismo quando o mesmo se depara profundamente com sua fragilidade (ARAUJO, 2012).

 Percebe-se, então, que embora a tristeza torne a pessoa infeliz por algum momento, também pode estimular e manter um comportamento produtivo.

A função da tristeza é enfatizada por Negrelli Jr. (2012), como um mecanismo de alerta para as pessoas sobre algo que não está bem. Nesse sentido o alarme provoca uma reflexão com a intenção de fazer o indivíduo solucionar o que está errado. Embora não seja agradável sentir-se triste é necessário que se dê atenção a essa emoção. O grande problema dessa emoção ocorre quando algumas pessoas não lhe dão a devida importância e, consequentemente, não buscam soluções e não resolvem seus problemas. Resolver as tristezas que surgem em nosso cotidiano faz parte do caminho para a felicidade, afirma o autor.

2.5 Relações entre Emoções e Saúde

O senso comum reconhece tão sabiamente a relação entre a emoção e a saúde:

Não precisamos dizer a ninguém que os estados psicológicos causam reações físicas. Nervosos com um primeiro encontro sentimos o estômago embrulhar. Ansiosos quando falamos em público, vamos constantemente ao banheiro. Brigando com um membro da família, sofremos dores na cabeça, (MYERS 2006, p.386).

Diariamente estamos cercados de situações cujos estímulos disparam respostas fisiológicas para o enfrentamento daquele momento. A regulação que adéqua o organismo às variações ocorre pela liberação de hormônios e neurotransmissores em momentos de fortes emoções, conforme se observa na primeira fase do estresse (SELYE, 1965 apud CAMELO e ANGERAMI, 2004). Se essas reações surgem com muita frequência, o indivíduo pode experimentar outras fases do estresse e seus sistemas orgânicos virem a apresentar algumas respostas patológicas.

Para Chaves (2006), os sistemas fisiológicos podem ser alterados por excesso de solicitação, o sistema imunológico torna-se incapaz de defender o organismo e o individuo pode ter a sua cognição afetada, reduzindo seu rendimento intelectual e até mesmo provocando reações negativas, que comprometem a sua vida sócio-ocupacional. Nesse sentido, Nascimento e Quinta (1998) alertam que emoções negativas, quando intensas e frequentes podem influenciar o individuo a terem práticas não saudáveis como o consumo de tabaco, álcool e outras drogas, ficando sedentários e apáticos. Por outro lado, Ballone et al., (2007) destacam que as emoções influenciam a saúde também por meio de suas propriedades motivacionais e de condutas saudáveis como os exercícios físicos e dieta equilibrada, entre outros.

As emoções nem sempre demonstram o que há de bom nas pessoas, podendo causar comportamentos inadequados socialmente. Os sentimentos que vão contra nossos ideias acabam sendo recalcados, armazenados no inconsciente. As energias de nossas emoções precisam ser descarregadas para não se manifestarem como perturbações neuróticas e físicas. A raiva pode causar comportamentos violentos e o medo causar depressões e até mesmo o suicídio. Dessa forma os transtornos psíquicos acabam sendo resultados de reações excessivas e incontroláveis das emoções (FREUD, 1989 apud CHAVES, 2006).

De acordo com Myers (2006), a psicologia da saúde tem contribuído para o campo interdisciplinar da medicina, proporcionando novos caminhos para a prevenção e tratamento de doenças; entre as preocupações da psicologia da saúde destacam-se os efeitos do estresse e a promoção de uma vida saudável.

A vida afetiva, emoções e sentimentos são condições intrínsecas do homem sendo um aspecto fundamental na vida psíquica. Assim sendo, todo ser humano necessita ter uma boa vida afetiva, uma vida saudável, repleta de emoções e sentimentos que não acarretem graves desequilíbrios homeostáticos.                       

2.6 O Psicólogo e as Emoções – um momento reflexivo

Ninguém precisa lhe dizer que os sentimentos dão cor à vida, ou que em momentos de estresse eles podem perturbá-la ou mesmo salvá-la (MYERS 2006, p.361).

 Esta frase convida a reflexão sobre um aspecto relevante na psicologia que é o estudo dessa temática. Por mais diversificadas que tenham sido as situações vivenciadas em meio aos escritos de pesquisadores, cujas teorias e resultados experimentais emergiam de uma realidade às vezes surpreendente e em outras assustadoras, nada se compara à vivência de uma dupla de formandas em Psicologia, que objetiva durante um ano escrever um artigo sobre as emoções. Nada seria escrito se tudo não tivesse sido compartilhado.

Enquanto os livros enfatizam que se deparar com pressões, cobranças e situações novas proporcionam alterações fisiológicas, as autoras experimentam o medo de não saber se é isso que querem, de não saber o que e como fazer ou de não cumprir os prazos. Enquanto os artigos destacam que a incapacidade de lidar com as emoções causam perturbações orgânicas, a dupla visita médicos e realiza exames. Enquanto pesquisadores divulgam que sentimentos comandam pensamentos, ou o contrário; as formandas exercitam o bom humor e tornam-se mais solidárias. Enquanto experimentos demonstram que aprender a pensar mais positivamente faz as pessoas se sentirem melhor, as autoras desse trabalho entram em sintonia com a figura do psicólogo, terapeuta capacitado a tentar de várias maneiras ensinarem às pessoas caminhos novos e mais construtivos de pensar e lidar com as emoções.

Cabe ao psicólogo saber discernir entre as respostas emocionais consideradas simples por não envolverem pensamento consciente e, portanto, difíceis de serem alteradas, e aquelas emoções que, conforme destaca Myers (2006), incluem humores como a depressão e sentimentos complexos como amor e ódio, as quais, por serem afetados diretamente por nossas interpretações, memórias e expectativas, são suscetíveis à modificação.  Para essas emoções, aprender a pensar mais positivamente sobre nós mesmos e sobre o mundo ao nosso redor, nos faz sentirmos melhor. Intrinsecamente a essa aprendizagem emerge o profissional da psicologia tentando ajudar pessoas inseguras e infelizes, entre tantos outros adjetivos, a mudar suas mentes.

 Para que esse papel seja cumprido é necessário ter conhecimentos específicos em sua formação que lhe permitam uma utilização de técnicas adequadas para lidar, a princípio, com suas próprias emoções e em seguida com aquelas que se depara em seu convívio social e profissional. Deve estar atento ao fato de que a psicoterapia é uma interação planejada, emocionalmente investida e confiante entre um profissional treinado e alguém que sofre de problemas psicológicos.

3. Metodologia

O estudo se caracteriza como uma pesquisa de caráter qualitativo, de natureza descritiva e exploratória. Conforme Gil (1991), enquanto a pesquisa descritiva visa descrever as características de determinado fenômeno, a pesquisa exploratória busca proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo explícito, envolvendo para tanto, levantamento bibliográfico e análise de exemplos que estimulem a compreensão. Como procedimento inicial foram consultados livros clássicos na psicologia, fisiologia e neurociências, além de artigos disponíveis na biblioteca da Universidade Potiguar e na internet e em sites de natureza cientifica. Foi realizada uma busca por meio de banco de dados MEDLINE, LILACS, e Scielo, empregando-se os descritores: emoções, fisiologia, psicologia. Os dados foram selecionados conforme sua relevância ao alcance dos objetivos propostos e em seguida, organizados na construção deste artigo.

4. Discussão

Os achados de Darwin destacaram a questão da sobrevivência, do valor adaptativo das emoções por garantir a vida dos indivíduos e das espécies. Lent (2010) elenca outra grande utilidade das emoções, a comunicação social. Esse vínculo entre emoções e sobrevivência é facilmente demonstrado nas emoções de raiva, na produção de comportamentos agressivos e na emoção medo, causador de comportamentos de ameaça ou fuga. Compreende-se então que cada emoção tem uma função biológica; até mesmo aquelas negativas tem uma função positiva. Conforme verificado nos comportamentos de raiva e medo, as pessoas se aproximam a procura de proteção, transmitem sentimentos, sinalizando por meio da expressão facial o estado em que se encontram, criando, separando e mantendo relacionamentos interpessoais (KOLB E WHISHAW (2002).

Uma antiga controvérsia sobre as emoções refere-se ao tempo dos sentimentos em relação às respostas fisiológicas que ocorrem no seu desenvolvimento. Enquanto James e Lange afirmam que a emoção é sentida após a percepção das respostas fisiológicas, Cannon e Bard acreditam que ambas ocorrem concomitantemente, Lent (2008). Embora essas teorias clássicas expliquem as emoções numa perspectiva fisiológica e discordem no que se refere às diferenças entre as emoções, constata-se em James e Lange que as reações físicas são um ingrediente importante da emoção, e em Cannon e Bard, que há mais na experiência das emoções do que somente na leitura da fisiologia dos indivíduos.

Uma segunda controvérsia refere-se a estar ou não a emoção separada da cognição. Nesse sentido, conforme Myers (2006), a teoria de Schachter afirma a possibilidade de rótulos cognitivos serem um ingrediente essencial para a emoção. Ledoux, (1998) em suas suposições destaca que algumas respostas emocionais bastante simples, ocorrem instantaneamente, antes do processo consciente.

5. Considerações Finais

Ao perpassar por uma significativa pesquisa bibliográfica, buscando subsídios na fisiologia e psicologia para a compreensão das emoções, pode-se concluir que apesar do progresso científico e tantas pessoas experimentarem no cotidiano uma diversidade de estados emocionais, no estudo das emoções ainda residem algumas controvérsias e lacunas. A tristeza comprova que novos estudos são necessários a fim de suprirem essa escassez na literatura.

Evidenciou-se que a genética e o aprendizado são fatores de impacto nas emoções, porém, mesmo as pessoas sendo biologicamente susceptíveis a sua aquisição, como acontece no medo, resultados experimentais asseguram que pode ocorrer aprendizagem pela experiência ou observação.

Nesse contexto, é pertinente destacar a necessidade de controle das emoções, de modo a não permitir que ela se torne obstáculos na vida das pessoas. Entende-se aqui que dominá-las não significa obter imunidade às emoções consideradas negativas; para controlá-las é preciso conhecê-las. E para esse conhecimento deve o psicólogo investir na sua formação, obtendo teoria e técnicas que lhes preparem para o enfrentamento das situações diversas vivenciadas por si e pelos outros. Além desse crescimento e maturidade pessoal e profissional, há ainda a contribuição que esses saberes poderão trazer a saúde dos indivíduos, uma vez que alterações típicas desses estados acarretam distúrbios afetivos.

A complexidade da temática desperta para a compreensão do porque da emoção ter sido objeto de formulações de tantas teorias e controvérsias, sinalizando para um campo aberto a outras investigações que poderão estar agregando novos conhecimentos aos já descobertos. Mesmo com os diferentes enfoques de cada abordagem, quer seja fisiológica, cognitiva, psicodinâmica ou social, entre outras; cada uma delas contribui para a compreensão das emoções como necessárias à sobrevivência visto serem estas, o próprio movimento da vida nas decisões, alertando quanto aos limites, promovendo a comunicação e  unindo as pessoas mesmo que haja diferenças religiosas e culturais; as emoções são universais.

O aprofundamento do tema no decorrer da pesquisa acrescentou uma fundamentação teórica, de cunho científico, permitindo um entendimento sobre tantas emoções vivenciadas no cotidiano das autoras, cumprindo então os objetivos propostos ao presente trabalho. Assim, concluímos que:

A emoção é uma experiência subjetiva que envolve a pessoa toda, a mente e o corpo. É uma reação complexa desencadeada por um estímulo ou pensamento e envolve reações orgânicas e sensações pessoais. É uma resposta que envolve diferentes componentes, nomeadamente uma reação observável, uma excitação fisiológica, uma interpretação cognitiva e uma experiência subjetiva (PINTO, 2001).

Sobre o Artigo:

Artigo apresentado à Universidade Potiguar – UnP, como parte dos requisitos para obtenção do título de Bacharel em Psicologia.

Sobre os Autores:

Lukenya Laize Silva da Cunha - Bacharelanda em psicologia. Universidade Potiguar. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Regilene Ferreira da Silva - Bacharelanda em psicologia. Universidade Potiguar. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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