Natureza, Percepção e o Problema do Conhecimento

(Tempo de leitura: 8 - 15 minutos)

Resumo: Pretendemos investigar a teoria de Hans Jonas para compreendermos as equivocadas concepções do conceito de natureza bifurcada e a recusa do homem em aceitar que a natureza possui unidade que permeia o próprio pensamento. O que o homem observa pela percepção sensível, perpassa o pensamento? É algo contido em si mesmo com relação ao próprio pensamento? Essa prioridade de ser contido ao pensamento significa que a natureza pode ser concebida como sistema fechado, cujas relações mútuas precedem a expressão do dado com relação ao que se pensa? A natureza independe do pensamento? O homem pensa a natureza sem pensar a origem do pensamento? O homem, ao filtrar a ideia animista da natureza, como um todo atuante e inteligível dos seus elementos, nega o inteligível do corpo? A oposição ao antropomorfismo, ontologicamente, impede que apareçam as causas finais, objeto do problema epistemológico?
Palavras chaves: percepção, pensamento, causalidade, conhecimento.

1. Introdução

No texto Percepção, Causalidade e Teleologia , Hans Jonas (2004, p. 35) faz uma interpretação ontológica dos fenômenos psicofísicos que, ao longo da história filosófica, é ofuscada pela visão e modo de percepção humana que priva a compreensão do mundo orgânico e deixa de ver a harmonia, equilíbrio e devir da diferença entre os seres vivos orgânicos e sua aplicação como princípio de aquisição das múltiplas formas de conhecimento. A ciência, ao investigar os fatos físicos exteriores, ignora a dimensão interior da vida, suprimindo a distinção entre animado-inanimado, explica a força da natureza como um movimento ativo em choque com a própria matéria do mundo, ignorando que esta força extensiva possui interioridade intensiva. As duas forças são aspectos intrínsecos da vida.

A estrutura do pensamento já pressupõe as coisas enquanto realidade orgânica desdobrando-se a partir de uma pluralidade que existe unificada pela relação do todo. A vida não pode ser explicada a partir da compreensão psicofísica divida entre mental e material. É do movimento ativo em choque com o objetivo-subjetivo que as duas forças, extensivo-intensiva, avançando para fora, dá lugar ao conhecimento. O conhecimento não é uma lei do entendimento, mas a vivência do sujeito no mundo, da própria corporalidade. No mistério do organismo, as duas dimensões, mental e material, estão unidas. Pretendemos focalizar a questão da percepção em relação à natureza e dentro desta perspectiva investigar o problema epistemológico da história do pensamento filosófico permeado pela noção primária de uma força criadora fundamentada na liberdade-necessidade que aparece justaposta à ideia de forças animistas e antropomórficas. O conhecimento é uma lei do entendimento ou é o resultado do sujeito no mundo enquanto vivência da própria corporalidade? Para isso, explicaremos a noção primária de percepção da natureza e o modo como o pensamento é afetado pela relação entre o homem e a natureza, enquanto submetido à mudança e ao devir em suas causas e dimensões de inteligibilidade para discutir o sentido do pensamento, sua estrutura interior e sua expressão a partir das relações práticas e emotivas com o mundo exterior no domínio radical das forças da natureza à compreensão do psicofísico.  

2. Percepção e Conhecimento

O sujeito poderia ser compreendido como medida de todas as coisas, não em virtude do seu entendimento, mas pelo paradigma de sua totalidade psicofísica para saber se a vida representa uma ordenação da matéria e se sua liberdade ou teleologia é simples crescimento determinado. A matéria não pode ser entendida como um modo deficitário da vida sensitiva para não cair no determinismo. Para Hans, interpretar o mundo a partir da unidade da realidade abre espaço para a extrapolação da auto-experiência em considerar o corpo entre os objetos externos dos fenômenos extensos e compreendê-lo como objeto da experiência, como um dado e não uma realidade ativa e passiva do próprio sujeito. Da questão da vida, surge o problema do conhecimento preso à percepção e receptividade de nossa atividade corporal, cujos dados são interpretados no sentido de ação.

 A busca pela compreensão da vida torna o mundo incompreensível. Ao reduzir a causalidade-teleologia à causalidade mecânica, o problema da vida torna-se enigmático.  Depois que a interpretação da natureza deixa de ser vista como um todo interligado e atuante, o mundo passa a ser incompreensível, pois a causação não está contida na percepção. A percepção ajusta os dados gerados pelos sentidos. Através da percepção o extensivo é dado e o sujeito toma conhecimento de sua atividade corporal. A causalidade é um acréscimo mental ao material. “Hume a enxergou no hábito da associação (ela é passiva por parte do sujeito), e Kant na estruturação do entendimento (que, embora ‘ativa’, está em estrita imanência mental)” (2004, p. 35). Para Hans, o modelo psicológico do hábito da associação das idéias confunde a intensidade com o extensivo. Em Kant, a ideia formal de uma regra de ligação necessária “nada tem a ver [...] com a questão de nossa autêntica experiência de causa e efeito em si” (2004, p. 37). Em ambos os pensamentos há implícita a necessidade de uma regra psicológica ou racional e substituem a atividade interior pelo exterior.

2.1 Força psicofísica do corpo

A ligação necessária em relação ao organismo perde o caráter dinâmico do esforço. Para o organismo, a interação de forças é superior ao resultado da percepção sensitiva. A extrapolação é uma inversão do resultado da percepção, é “a raiz do problema teórico da causalidade” (2004, p. 40): o todo organizado se apresenta ocultando-se na prova que nos dá de si mesmo, com sua causalidade atropela a percepção. O parecer ser inativo do objeto visto é proporcional ao parecer ser de quem o contempla. Os dois fenômenos, tanto o parecer inativo do objeto que se oculta desvelando-se, quanto o parecer inativo do sujeito que o apreende, são o resultado da atividade de conexão interna da percepção sensível no conhecimento do objeto como tal. Ao reprimir da causalidade objeto-sujeito na percepção, reprime também, a causalidade objeto-objeto. A rejeição da evidência original à experiência da força psicofísica do corpo em ação, o intensivo-extensivo, ao serem desconectados da realidade entre objetivação-sujeito, o que é reprimido não é o dado, mas o ato, e, deste modo, a força não pode ser objetivada, apenas experimentada subjetivamente:

O mundo da nossa experiência se nos apresenta, de fato, como uma trama de ações e reações. Todos os fenômenos do mundo que nos circunda e do nosso próprio corpo estão em íntima e necessária conexão entre si, e por isso um dado fenômeno produz necessariamente outro; o nascer do sol, a iluminação de todo o horizonte; o chegar à mão ao fogo, a sensação de calor [...] São essas experiências, que ocupam toda a trama de nossa vida, que nos oferecem o conceito de causa, conceito que depois transferimos para o campo transcendente da metafísica (Selvaggio, 1988, p. 304).

Na neutralização, o objeto apresenta-se ao sujeito do outro lado do vazio suprimido pela força da realidade como fenômeno. No efeito, o processo é contrário. A imagem conservada na memória, conduzida à consciência é modificada pela imaginação. A separação entre fenômeno-realidade é a prática original da percepção que faz separação entre o ser e o existir. A liberdade da visão, abstração da imagem e o conceito de ideia se originam naextrapolação da percepção ontológica da objetividade: a inatividade do objeto, subtraído à força, retorna amplificado à ideia. A raiz do conhecimento encontra-se na percepção, formando um vazio que separa sujeito e objeto, e a transcendência do eu na ação psicofísica com o mundo fecha-se no espaço mental, restando o solipsismo. Negar a causalidade é cair no solipsismo. A causação não se encontra nos dados da percepção nem na conexão necessária, mas a força e os efeitos são conteúdos da experiência do corpo no esforço da ação. O extrapolar do esforço psicofísico é possível sem cair no defeito do antropomorfismo:

Aquilo que é percebido [...] o é enquanto uma entidade que constitui o termo da apreensão sensível que é um ingrediente dessa percepção [...] A natureza, tal como revelada na percepção sensível, é contida em si mesma em relação à apreensão sensível, além de contida em si mesma em relação ao pensamento [...] a natureza está fechada para a mente [...] Significa que, na percepção sensível, a natureza é revelada como um complexo de entidades cujas relações mútuas são passíveis de expressão no pensamento sem referência à mente, ou seja, sem referência quer à apreensão sensível quer ao pensamento (Whitehead, 1993, p. 9).

A teleologia entendida como um modo causal imanente da própria natureza, seu sistema natural foi criado para ser o que é: processo final inserido à origem da matéria para atuar de modo mecânico, segundo a intenção do seu criador. Um processo inacessível ao conhecimento não pode ser objeto de pesquisa cientifica, assim, ficou limitado à forma “antropocêntrica de um universo feito para proveito do ser humano” (2004, p. 44). Daí surge à idéia de um arquiteto do mundo a partir da visão mecanicista, pois, a negação das causas finais foi à rejeição contra o aristotelismo e o nascimento da ciência moderna, uma rejeição contra o método investigativo das formas substanciais.

2.2 O Conhecimento objetivado

 Com a ciência moderna, a busca por tais causas foi incompatível com a própria ciência, porque as causas finais estão ligadas à “natureza do ser humano e não a natureza do universo” (2004, p. 45). A realidade exterior foi desvinculada do mundo interior do pensamento, passando depois a ser objeto de pesquisa a própria ideia de objeto. O conhecimento objetivado passa a ser a elaboração dos dados dos sentidos. Com a predominância da percepção objetivista acentua-se a separação dualista entre sujeito e objeto:

Foi descartada em primeiro lugar a personificação mítica, e posteriormente a teleologia impessoal, a fim de limpar o terreno para uma verdadeira explicação da natureza: de acordo com o conceito da causa eficiente, esta explicação ainda era dependente de um resquício do desprezado animismo, isto é, da universal interpolação das idéias de força e de causa na imagem do mundo – uma interpolação através da qual estes elementos da experiência pessoal do esforço e do movimento tornaram-se disponíveis como um tecido unindo os fenômenos naturais observados. Com a exclusão total do animismo a ciência retirou de sob seus próprios pés aquele mesmo chão que antes, por uma repressão parcial do animismo, ela havia conquistado para a explicação racional. O longo caminho do animismo primordial, que passando pelo dualismo chegou até o materialismo pós-dualista, termina na renuncia agnóstica à idéia do saber como uma compreensão de seus objetos. Isto, ironicamente, ocorreu no momento em que, com a renúncia ao dualismo, deixava de existir a compulsão metafísica para um modelo estritamente desvitalizado da natureza (Hans, 2004, p. 47).

A luta contra a teleologia é uma resistência contra o antropomorfismo. Após Hume, a ideia de força e conexão necessária passa a ser alheia a explicação das coisas. Hans concorda que força-causa surge da experiência que perpassa impressões das sensações e envolvem reflexão, pois a subjetividade é parte da experiência do objeto. A teoria física distanciou-se do conceito da força por considerá-lo antropomórfico, deste modo, a explicação final-causal foi descartada. A personificação mítica teleológica ao ser filtrada deixou a ciência sem base, e o longo caminho do animismo primordial passa pelo dualismo e chega ao materialismo com o conceito metafísico desvitalizado da natureza. No antropomorfismo as causas finais são excluídas a priori dos efeitos exteriores, encontrava-se na metafísica dualista que excluía-preservando a origem da verdade. No finalismo a causa final se origina na divisão dualista da natureza do ser humano, a intensidade é dissociada da exterioridade. O dualismo mostrou-se insustentável à experiência orgânica. Com o fracasso da concordância da nova ontologia da ciência consigo mesma, o materialismo científico amplia seu campo sem a proteção dualista e se depara com a res cogitans fundamentada no orgânico e parte da natureza unificada:

O antropomorfismo foi tão radicalmente banido do conceito da natureza que mesmo o ser humano não pode mais ser entendido antropomorficamente, uma vez que ele é apenas uma causalidade dessa natureza. Como produto do indiferente, também o seu ser tem que ser indiferente. Nesse caso o encontro com sua moralidade justificaria esta reação: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”. Não tem sentido se estar preocupado com o que não tem atrás de si nenhuma sanção em uma intenção criadora. Mas se for correta a visão mais profunda de Heidegger, de que em face de nossa finitude nós achamos que o que importa é não apenas que nós existimos, mas também como existimos. Então o mero fato de em algum lugar do mundo existir tal interesse tem que qualificar também a totalidade que contém este fato; e isto tanto mais se foi esta totalidade que o produziu (Hans, 2004, p. 252).

Quando Bacon atribui às causas finais à natureza do sujeito, a configuração dualista perde efeito e a teoria da evolução parte do monismo moderno, dilui os vestígios da oposição entre sujeito-natureza, deixando espaço aberto para escolha entre duas alternativas monistas: entender a presença da interioridade orientada para um fim imanente ao sujeito, ou entender e acatar a matéria mecânica até o cerne dos fenômenos heterogêneos, desterrando a teleologia e a natureza do homem: “Alienando o ser humano de si mesmo e negando autenticidade à autoexperiência da vida” (2004, p.48). A história do pensamento filosófico-científico é permeada pela ideia da natureza, onde a noção primária de uma força que gera, aparece justaposta à ideia de forças animistas e antropomórficas.

3. Conclusão

Compreendemos que a natureza não é pensamento. A percepção sensível traz consigo elemento diverso do pensamento. O pensamento sobre a natureza é diferente da percepção sensível da natureza. A questão psicofísica que envolve o pensamento é uma apreensão que difere do próprio pensamento, pois a percepção traz consigo elemento diverso do pensamento, neste sentido, percepção não é pensamento. Apreensão-percepção sensível é idêntica, entretanto, o que é percebido é entidade da apreensão sensível que, para o pensamento é um dado além da apreensão. Os objetos não contêm apreensão em si mesmo, é diferente da apreensão sensível que é ingrediente dessa percepção. A natureza como se mostra na percepção é contida em si mesma em relação à apreensão, está fechada à mente. Porém, a extrapolação (pensamento metafísico) separa natureza e mente. Assim, o sujeito apreende a natureza como um complexo de coisas e nega a relação objeto-objeto e sujeito-objeto. A coisa apreendida no mundo que conhecemos é um fluxo contínuo de ocorrências e a natureza nada mais é do que a revelação da apreensão sensível.

Portanto, a vida abrange organismo, espírito e natureza e o homem não existe isolado. A pretensa ideia da essência das coisas, como eco da experiência humana de privar a natureza de uma liberdade antropomórfica nos faz refletir sobre o ser e a relação entre o homem e a natureza, para compreendermos que a origem do conhecimento repousa na relação entre o homem-natureza e sua maneira de apreender a própria natureza: uma ideia criada pelo homem, uma invenção, não uma descoberta, um artifício, não uma verdade. A ontologia como fundamento da ética, ao separar da ontologia a ética, faz separação entre existência subjetiva e objetiva e sua unidade só é possível se o homem deixar de lado sua autonomia e repensar-revisar a idéia de natureza no vir-a-ser da existência. A reflexão deverá ser um chegar-a-si-mesmo da substância original, onde o principio da vida, a descoberta da natureza das coisas, deve manter a investigação ontológico-ética.

Sobre o Autor:

Inês Helena Madruga Nunes - é formada em Filosofia. e-mail da autora: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

JONAS, Hans. O princípio vida: fundamentos para uma biologia filosófica. Petrópolis: Vozes, 2004.

CASINI, Paolo. As filosofias da natureza. Lisboa: Editoria Presença, 1987.

SELVAGGI, Filippo. Filosofia do mundo: cosmologia filosófica. São Paulo: Loyola, 1988.

WHITEHEAD, Alfred North. O conceito de natureza. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

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