A Educação Sexual na Escola: Vivências e Possibilidades

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Resumo: O presente artigo tem como objetivo problematizar a questão do trabalho com a temática da sexualidade dentro das escolas, efetuando reflexões acerca da importância da mesma nos currículos escolares, fundamentando-se em autores como Figueiró (2006), Louro (2000), Novena (2011),Meyer (2004), dentre outros, já que tal assunto é importante para a vida do aluno e este precisa ser bem orientado para sua vivência sexual saudável. Para isso, realiza-se uma retrospectiva histórica dos primórdios da sexualidade até os dias atuais, sua inserção nos Parâmetros Curriculares Nacionais como tema transversal, observando o trabalho sobre o tema por parte da escola, que vendo-se questionada quanto a negligência do tema dentro de seus muros,começa a orientar seus alunos acerca de uma proteção higienista e preventiva,ensinando-os alguns métodos contraceptivos e não discutindo de forma mais profunda as multiformes manifestações da sexualidade humana,como a homossexual. Diante disso, os educadores encontram-se despreparados para falar sobre o tema com seus alunos, que anseiam conversar sobre o assunto sanando suas dúvidas e quando não recebem tal orientação acabam buscando com pessoas despreparadas no assunto. Tendo como alvo da pesquisa de campo, a Escola Municipal Antônio Daniel Martins situada no município de Hidrolândia, tirando-se como objeto de estudo os alunos do Fundamental II, com os quais foi aplicado um questionário constando de 12 questões abertas acerca do tema pesquisado, em que através da fala dos mesmos buscava-se entender a concepção que tinham acerca da sexualidade e identificar como a mesma vem sendo trabalhada pela escola, percebendo-se dessa maneira a propagação de uma visão deturpada sobre sexualidade, em que se entende que a mesma só esteja relacionada ao ato sexual e que só pode manifestar-se no meio social de forma heterossexual, ficando assim a escola atrelada a uma falsa “orientação” sexual de seus alunos, pois não discute de maneira profunda a problemática da sexualidade humana.

Palavras-chave: Sexualidade, Parâmetros Curriculares Nacionais, Escola, Psicologia Escolar.

1. Introdução

A sexualidade é um tema muitas vezes rodeado de preconceitos, construídos ao longo da história pela própria sociedade, sendo visto como um tabu acaba não sendo discutido dentro da sala de aula pelos educadores, pois em virtude de seus pudores, vêem o sexo associado à idéia de pecado, proibido, promíscuo e feio ou temem que ao discutirem essa temática, estejam incentivando os alunos a praticarem o sexo mais cedo. No entanto, cabe ressaltar que sexo é diferente de sexualidade, pois segundo Figueiró (2006), sexualidade inclui sexo, afetividade, carinho, prazer (...) além de normas e valores sobre o comportamento sexual, construídos culturalmente. Já o sexo se refere à prática, à satisfação dos desejos biológicos entre dois indivíduos, sejam eles hétero ou homossexuais.

Com o passar dos anos, a sociedade vem sendo modificada quanto aos seus valores e mais do que nunca a sexualidade surge como um tema vigente, sendo extremamente necessária sua discussão dentro das instituições sociais, como igrejas e principalmente nas escolas, já que sobre esta recai a obrigação de preparar o indivíduo para seu convívio em sociedade. Além disso, a sexualidade é responsável por efeitos drásticos que recaem sobre a vida social, como o aumento da fecundidade e a qualidade de vida da população. Os governos são os principais interessados na discussão do tema com a sociedade, já que quando se tem indivíduos conscientes quanto as suas responsabilidades sociais e pessoais tem-se um efeito positivo na vida dos cidadãos.

E tal importância fica evidenciada pela inserção da temática da sexualidade como tema transversal intitulado de orientação sexual nos Parâmetros Curriculares Nacionais, lançados no ano de 1996, em que tais documentos apresentam como objetivos a orientação dos educadores quanto o trabalho com a temática em sala de aula, onde o mesmo apresenta metodologias interessantes para o trato com o tema nos diferentes níveis da Educação Básica.

 O presente trabalho veio problematizar a importância da sexualidade dentro dos currículos escolares, tendo como objetivos identificar a visão dos alunos e professores acerca da sexualidade, percebendo a maneira como é trabalhada essa temática dentro da sala de aula e quais as metodologias utilizadas para o trabalho da temática nos diferentes níveis da educação básica.

2. A Sexualidade na História da Humanidade

Os comportamentos sexuais nem sempre foram iguais em todas as épocas. Cada cultura vivenciou a sexualidade de maneira diferente, de acordo com seus valores e normas. As práticas sexuais ocidentais foram em muito influenciadas pelos valores do século XIX e muito distantes das encontradas na Antiguidade, Idade Média e Moderna e ao longo desses milhares de anos, a relação da sexualidade com a humanidade foi muito complexa, pois envolveu (e envolve) questões sociais, culturais, religiosas e psicológicas, construídas historicamente, determinadas diferentemente em cada povo e época (PARANÁ, 2000, p.17).

O termo sexualidade só foi criado no século XIX e se distingue de sexo, que está voltado para fazê-lo, ou seja, as práticas sexuais, estando diretamente ligado a satisfação da necessidade biológica e reprodutiva, estando presente no indivíduo desde o seu nascimento. Enquanto que sexualidade é um termo amplo que é inerente ao ser humano e segundo Figueiró (2006, p.143-144) inclui o sexo, a afetividade, o carinho, o prazer, o amor ou o sentimento mútuo de bem querer, os gestos, a comunicação, o toque e a intimidade. Sendo que as significações de sexualidade e sexo são construídas sócio-culturalmente.

Cada época teve suas manifestações sexuais vigentes e aceitas pelo meio social como normais e vivenciadas pelos seus indivíduos. Tais relações poderiam ser hetero ou homoafetivas e não provocavam nenhuma situação constrangedora para os indivíduos praticantes. Como as que ocorriam em grandes impérios, como o romano em que relações sexuais vividas com outros homens e até mesmo com crianças eram vistas pela sociedade como comportamento extremamente comum e aceitável, visto publicamente como sinal de virilidade dos homens eminentes na sociedade.

A seguir serão destrinchados os comportamentos sexuais e as regras morais aceitas e vividas em cada período histórico da humanidade, segundo os estudos apresentados por Paraná (2009) acerca da temática da sexualidade na história da humanidade.

2.1 Comportamentos Sexuais na Antiguidade

Citam-se nesse período os antigos impérios mesopotâmicos com os assírios, caldeus e babilônicos, os egípcios, gregos e romanos, explicitando um pouco sobre suas práticas sexuais, que acabaram de alguma forma influenciando as práticas ocidentais. Abaixo trarei algumas considerações formuladas por Paraná (2009).

Na Babilônia, a mulher tinha uma posição inferior ao homem, ocupava cargos de pequena influência social, caso fosse infiel no casamento era condenada à morte, mas o homem podia ter várias concubinas. Na Assíria, ocorria a existência de templos em que as mulheres que ocupavam o cargo de sacerdotisas, se entregavam sexualmente para os sacerdotes e devotos. E na Caldeia havia o costume de se oferecer as mulheres da casa aos hóspedes por parte dos patriarcas da família.

Já no Egito, a mulher gozava de uma independência maior que em outras civilizações, podendo ter relações sexuais antes do casamento, o que não seria motivo para sua desonra. Ainda na cultura egípcia, a fidelidade era à base do casamento e o adultério era considerado falta grave. Em caso de divórcio, a mulher podia receber pensão ou bens materiais para sua subsistência. Também podendo ocupar funções importantes, como médicas, empresárias, proprietárias de terras, dentre outras funções.

Já na Grécia, as posições das mulheres eram diferentes das egípcias. Em Atenas, as mulheres eram submissas aos maridos, não podiam sair sozinhas e já tinham uma posição social definida, serem donas de casa e mães. Deveriam permanecer virgens até o casamento, que era voltado para a procriação, se casava jovens e podiam se divorciar em caso de adultério, esterilidade ou se fossem vítimas de violência por parte do marido, no entanto, como divorciadas elas não seriam bem vistas pela sociedade.

Em Esparta, as mulheres podiam estudar e praticar exercícios físicos junto com os homens usava saias curtas, deixando as pernas à mostra, tinham conhecimentos cultos relacionados à dança e à música e só tinham restrições sexuais, caso fossem mulher de um cidadão.

Em Roma, a sociedade era escravocrata, hierarquizada e de predomínio masculino. No entanto, a mulher ocupava posições sociais importantes, embora casasse jovem. Cabia ao cidadão ter livre iniciativa, liderança, voz de comando, sendo sempre dominador e ativo. E as mulheres, crianças e escravos serem submissos e passivos.

Diante dessas citações, fica bem clara a manifestação da sexualidade ao longo das sociedades humanas, em que homens e mulheres sempre buscaram saciar seus desejos de maneira conveniente aos comportamentos aceitos pela sociedade. Essas relações podiam ser heterossexuais ou até mesmo homossexuais, no entanto eram permitidas, pois não eram vistas com maus olhos, podendo ser vivenciadas desde os cidadãos comuns até famosos imperadores que mantinham relações sexuais com homens, mulheres, crianças e participavam de verdadeiras orgias, onde se banqueteavam com o sexo indiscriminado sem chocar a vida social.

As Relações sexuais podem ser com a esposa, com uma amante, com um escravo, homem ou mulher. Todavia, ser penetrado por seu escravo não é bom; é uma investida e isso indica desprezo por parte do escravo (VEYNE, apud PARANÁ, 2009, p.24)

O que importava era saciar seus desejos carnais, vivenciando o sexo das mais diferentes maneiras com os mais diferentes parceiros, não importando se essas relações deveriam seguir algum padrão social. O homem era livre para ser feliz e o ser feliz sempre esteve ligado à satisfação sexual por parte da humanidade, sem necessariamente seguir normas ou regras, que foram sendo impostas por setores da sociedade que descobriram que o controle da sexualidade poderia gerar poder para determinados setores sociais que queriam continuar no poder e exercer forte influência sobre os indivíduos sociais.

2.2 A Sexualidade na Idade Média e Moderna

Essa época é marcada pela destruição do Império Romano, que desde então passa a sofrer várias invasões inimigas, dando origens a diversos reinos que surgem na Europa, ocorrendo à mistura dos costumes romanos aos bárbaros e aos cristãos.

A Igreja Católica começa a se consolidar fazendo aliança com os nobres que se convertiam ao Cristianismo, no entanto, estes continuavam misturando os costumes pagãos aos cristãos, pois eram muito apegados à terra e praticavam cultos de fertilidade, em que o sexo era prática corrente e com isso, as liberdades sexuais continuavam existindo em contraponto à moral pregada pela igreja.

De fato, o sexo é natural. As pessoas andavam nuas, homens e mulheres tomavam banho juntos e, nos quadros, até os santos eram representados nus. Era comum que amas masturbassem as crianças para que ficassem calmas. Até a obrigatoriedade de celibato para os religiosos não existia. No século XI, padres tinham vida sexual ativa (USSEL, 1980 apud PARANÁ, p.26).

A doutrina da igreja é fundamentada nos santo Paulo, Agostinho e Tomás de Aquino e prega que o sexo só deve ser vivenciado dentro do casamento e com o objetivo somente de procriação, jamais o de prazer. Como afirma Paraná (2009), os cônjuges não podiam demonstrar paixão e nem prazer durante o sexo e eram considerados pecados contra o corpo: a prostituição, o adultério, a homossexualidade e o auto-erotismo. Os dias eram determinados para as práticas sexuais dos casais. E com isso, foi sendo instalado o sentimento de culpa no imaginário popular e o medo de ir para o inferno, caso fosse praticada alguma orgia sexual.

Ao determinar essas regras a Igreja Católica, não buscava simplesmente a instalação do Reino de Deus na terra, estava interessada em exercer um papel de poder e influência na vida das pessoas, que estando submetidas aos seus desmandos estariam mais fáceis de serem direcionadas aos interesses da instituição, pois não poderiam viver mais sua sexualidade como queriam e mandavam seus instintos biológicos, tendo sua sexualidade direcionada pelos princípios irrevogáveis da igreja, estes eram vistos como dogmas e por tanto, jamais poderiam ser questionados pelos simples cidadãos, que deveriam simplesmente segui-los e praticá-los docilmente.

Reforma esta, que começou com a castração do desejo sexual dos seus próprios sacerdotes, que antes tinham livre arbítrio para a vivência de sua sexualidade, agora deveriam servir de exemplo para os demais como purificação sexual. O homem deveria ser santo e para isso deveria eliminar a presença pecaminosa do sexo em suas vidas, não podendo vivê-lo ao seu bel prazer e muito menos sem fazer a distinção de seu parceiro em relação ao gênero. O sexo passou a ser controlado e vigiado, trabalhado como algo que deveria ser escondido do meio social e se caso fosse vivenciado deveria ser praticado dentro do casamento, algo instituído por Deus que não deveria proporcionar o prazer e sim a procriação humana. Sendo vetada às mulheres a satisfação de seus desejos sexuais, pois caso manifestasse o mesmo estaria fadada ao desprezo e a vergonha social, pois seria vista como uma mulher sem pudores, uma prostituta, que não deveria adentrar o espaço da igreja ou mesmo comandar a missão de direcionar um lar, porque a mulher honesta e santa não buscava a satisfação de seus interesses pessoais e sim os familiares. E com isso, a presença masculina de autoridade era reforçada, enquanto que a submissão feminina era implantada como necessária para o bom caminhamento da sociedade. O que aos poucos também foi sendo cobrada dos homens com o surgimento do Puritanismo.

A partir do século XVI, surge o puritanismo, doutrina que visa mudar o caráter do homem europeu, transformando-o em um indivíduo contido, regrado e controlado. Essa doutrina tentava integrar a sexualidade com a espiritualidade, desvalorizando o corpo e o desejo sexual com vista à alcançar uma plenitude moral.

O puritanismo espalhou-se pela Europa e chegou à América, inclusive nas colônias inglesas, que deram origem aos Estados Unidos. Trazendo uma visão normativa e rígida quanto à sexualidade e com isso, os puritanos deveriam ser seguidores de normas e conterem suas emoções. Fato reforçado nos séculos XVI e XVIII pela Reforma Protestante e Contra Reforma, em que tanto os fiéis católicos quanto os protestantes são chamados a terem uma vida sexual regrada e submissa aos valores cristãos.

Essa época também é marcada pelo advento do Capitalismo, que transforma a sociedade desde então, introduzindo um modo de vida baseado na produção, exploração do homem, venda da força de trabalho e acúmulo de bens.

Surge a classe burguesa, expulsando os camponeses de suas terras e obrigando-os a venderem sua força de trabalho, exercendo atividades escravistas nas fábricas, tornando-se indivíduos alienados, quanto à sua realidade, sem tempo para pensar e dedicados exclusivamente ao trabalho.

Nesse período tem-se o fortalecimento da Igreja Protestante, que passa a agaranhar fiéis em grande quantidade e com isso começa a surgir uma disputa com a Igreja Católica, até então predominante na vida social e possuidora de grandes quantidades de terras e riquezas materiais. As duas instituições passam a exercer forte influência social e começam a ditar regras para seus indivíduos participantes, inclusive delimitando a vivência do sexo por seus fiéis.

As duas instituições seguem mesmo que indiretamente os princípios defendidos pelo Capitalismo e descobrem que ao reprimir a sexualidade de seus indivíduos, estão canalizando a energia dos mesmos para o desenvolvimento do trabalho fabril e das atividades desenvolvidas nas igrejas que visam tornar um homem um ser espiritual, que não se importa com os bens materiais e que busca para si e os seus uma pátria espiritual, desenvolvendo as características do amor à Deus e ao próximo. Com isso, surge o palco ideal para a repressão sexual presente no mundo ocidental, em que surge durante o século XIX, o vitorianismo, que se tratava de uma ideologia sexual repressora, negativista e restritiva. Como analisa (LOYOLA apud PARANÁ, 1999)

O erotismo deveria ser regulado pela exigência de reprodução da espécie e dos ideais de amor a Deus e à família. É na medicina que a sexualidade termina por ser unificada como instinto biológico voltado para a reprodução da espécie e que todos os demais atributos ligados ao erotismo, desde sempre tidos como sexuais, passaram a ser submetidos a essa exigência primordial. A sexualidade é assim identificada com genitalidade e heterossexualidade.

Em meio a essa predominância protestante e católica é instituído um modelo único de manifestação da sexualidade, a heterossexual e reprodutiva, defendida por tais instituições como algo criado por Deus e que deverá ser buscado pelo homem como atributo primordial para a conquista de sua santidade. E qualquer outra manifestação de sexualidade contrária a essa visão pregada pela igreja deverá ser diabolizada e rejeitada pelos cidadãos de bem e que zelam por sua honra perante os homens e a Deus.

 Diante disso, a homossexualidade é vista como uma doença, um distúrbio, possessão do Diabo que deverá ser tratada, orientada para que o indivíduo possuidor seja liberto dessas” amarras” do Diabo, que o impedem de ser um ser humano normal. Tal concepção é tão forte em meio ao social, que tais indivíduos passam a serem estereotipados e discriminados pela sociedade perdendo oportunidades de emprego, educação e sendo vistos como repugnantes pelos seus semelhantes, simplesmente por manifestarem um desejo sexual por indivíduos do mesmo gênero, o que pode ser visto por tais instituições como uma ameaça aos dogmas e autoridade que perante a sociedade se submete ao seu poder.

Porém, os grupos minoritários começam a manifestar a luta por seus interesses e não aceitam mais calados os desmandos das instituições que estão no poder, passam a ir às ruas, questionando nos meios sociais as concepções pregadas pela igreja e conquistam direitos em representações do governo, como o direito do casamento civil entre os gays e a conquista de pensão dos bens materiais caso ocorra à morte do companheiro. Diante disso, as instituições que estão no poder se veem pressionadas a refletirem sobre o assunto e com isso nasce uma nova estratégia de controle da sexualidade dos indivíduos e o ocidente passa a ser influenciado por uma ciência sexual que instiga o falar sobre o sexo, gerando conhecimento sobre ele para controlá-lo. E são esses resquícios repressores que influenciaram as atitudes em relação à sexualidade no século XXI, o que dificulta enormemente a inserção e abordagem dessa temática em locais como a escola, pois é necessária a quebra de tabus e preconceitos enraizados no seio da sociedade.

3. Caminhos Legais na Inserção da Educação Sexual na Educação Básica

A sexualidade aparece nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) inseridas no tema transversais Orientação Sexual, publicado no ano de 1998, com o objetivo de transmitir informações e problematizar questões relacionadas à sexualidade, incluindo posturas, crenças, tabus e valores a ela associados.

Nos PCNs, a sexualidade é definida como “polimorfa, polivalente, ultrapassa a necessidade fisiológica e tem a ver com a simbolização do desejo. Não se reduz aos órgãos genitais (ainda que estes possam ser privilegiados na sexualidade adulta) porque qualquer região do corpo é suscetível de prazer sexual, desde que tenha sido investida de erotismo na vida de alguém, e porque a satisfação sexual pode ser alcançada sem a união genital” (CHAUÍ, 1998, p.15; COSTA, 1994, p.01 apud NOVENA, 2011, p.109).

Os objetivos e conteúdos propostos pelo tema transversais Orientação Sexual devem contemplar as diversas áreas de conhecimento, impregnando toda a prática educativa, em que cada área trará sua própria proposta de trabalho com a temática da sexualidade. Esse trabalho de orientação sexual deverá acontecer dentro da programação e extra- programação na escola, visando diálogo, reflexão e reconstrução de informações que leve o aluno a respeitar a si mesmo e ao outro, conseguindo transformar ou reafirmar suas próprias concepções de sexualidade.

Ao desenvolver esse trabalho, a escola terá como função complementar a educação dada pela família à criança ou ao adolescente, acerca da temática da sexualidade, não podendo julgar como certa ou errada a educação oferecida por cada família.

Nos PCNs, a sexualidade é tratada em sua multiplicidade e pluralidade de expressões, situada num âmbito sócio-cultural, buscando a superação de preconceitos e estigmatizações.

Tome-se como exemplo a discussão do tema da homossexualidade. Muitas vezes se atribui conotação homossexual a um comportamento ou atitude que é expressão menos convencional de uma forma de ser homem ou mulher. Ela escapa aos estereótipos de gênero, tal como um menino mais delicado ou sensível ser chamado de “bicha” ou uma menina mais agressiva ser vista como lésbica, atitudes essas, discriminatórias. Em cada período histórico e em cada cultura, algumas expressões do masculino e do feminino são dominantes e servem como referência ou modelo, mas há tantas maneiras de ser homem ou mulher quantas são as pessoas. Cada um tem o seu jeito próprio de viver e expressar sua sexualidade. Isso precisa ser entendido e respeitado pelos jovens (BRASIL, 1998, p.325).

O tema transversal Orientação Sexual é estruturado a partir de três eixos, sendo eles: Corpo: matriz da sexualidade, relações de gênero e prevenção das doenças sexualmente transmissíveis/AIDS.

No primeiro eixo, o corpo é tratado em sua estrutura biológica e procriativa. Já o eixo das relações de gênero busca ampliar a explicação da diferenciação entre os sexos, refletindo acerca das noções de masculino e feminino, acrescentando que são construídas no contexto sócio-cultural. E o terceiro eixo que trata sobre a prevenção das DSTs/Aids, propõe uma ação educativa continuada que permita esclarecer os preconceitos relacionados aos portadores do HIV e os doentes de Aids, como também a reflexão sobre os preconceitos que rondam os métodos contraceptivos e à prática do sexo protegido.

Os PCNs surgiram como proposta orientadora para a escola, buscando oferecer subsídios teóricos para o trabalho com um tema tão delicado como a sexualidade, que apesar de está presente na vida do ser humano, é por muitas vezes negada ou silenciada no ambiente escolar, que não discute as indagações dos jovens acerca das transformações físicas e psicológicas que afetam o seu corpo e com isso, acaba atingindo de maneira negativa a construção da subjetividade e sexualidade dos mesmos.

No entanto, o que se percebe é que o caráter não-obrigatório dos PCNs faz com que o trabalho com o mesmo seja negligenciado na escola e com isso, as ações desenvolvidas pela escola nesse campo acabam sendo esporádicas ou mesmo inexistentes, pois são desprezadas pelo grupo gestor e até mesmo por parte dos educadores, que não veem os PCNs como conteúdo bem-vindo em suas salas de aula.

 E apesar de a Constituição Federal de 1988 não explicitar claramente a respeito da discriminação em relação à orientação sexual, em seus artigos 3° e 5°, cita a igualdade de direitos que deve haver entre todos os seres humanos. Na Constituição Brasileira fica claro que deve ser promovido o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. E que nenhum indivíduo poderá ser submetido a um tratamento desumano ou degradante por causa de sua opção ou qualquer outra decisão de cunho pessoal, como o grupo LGTTB, que há muito vem lutando para ter seus direitos reconhecidos e respeitados no país. O que acabou acontecendo recentemente no Brasil com a aprovação de documentos legais, como: o Decreto no 5.397, de 22 de março de 2005, que dispõe sobre a composição, a competência e o funcionamento do Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD, a Portaria n° 4.032, de 24 de novembro de 2005, que institui o Grupo de Trabalho (GT) para a implementação do “Programa Brasil sem Homofobia” no Ministério da Educação. E a Portaria n° 928, de 26 de abril de 2006, que designa membros representantes de diversas instituições governamentais e não-governamentais, além de Instituições de Ensino Superior (IES) para compor o Grupo de Trabalho que acompanha a implantação do “Programa Brasil sem Homofobia” no Ministério da Educação (PARANÁ, 2009; P.23)

Mas ainda é possível perceber uma dicotomia enorme existente entre o que está escrito na lei e o que é colocado em prática no cotidiano da escola, principalmente ao que se refere ao grupo LGTTB, que ainda são muito discriminados no ambiente escolar, pois estes não são vistos como portadores de direitos iguais aos dos demais alunos, suas opções sexuais nunca são problematizadas ou discutidas pelos educadores e quando vir-se-se citado é como se fosse algo distante e estranho ao ambiente da escola. Diante dessa negativa da escola em aceitar e trabalhar a homossexualidade como uma das manifestações da sexualidade, os indivíduos que optam por essa escolha acabam sentindo-se humilhados ou menosprezados por esse ambiente, que muitas não o acolhem bem e o expõe a ridicularizações como apelidos pejorativos colocados pelos próprios amigos ou colegas de sala, destacando-se os mais conhecidos que são: o “bichinha”, o “veado”, a “sapatão” e outros mais tão ecoados no ambiente da escola.

A postura dos educadores quanto à multiplicidade e a pluralidade da sexualidade também é algo a ser discutido e refletido, pois o que se percebe é que os mesmos preferem não “tirar” partido diante dessas questões em que ver um aluno sendo achincalhado pelos demais colegas e não toma nenhuma posição de discussão do assunto perante isso,ficando assim,velado seu preconceito existente para com tais assuntos em que ver a sexualidade e principalmente a homossexualidade como algo errado e pecaminoso,que deve ser silenciado no ambiente sagrado da educação escolar e com isso acaba-se não percebendo as duras consequências geradas na vida dos indivíduos que simplesmente por ter tido uma opção sexual diferente dos demais é visto por todos como um ser “anormal”.

4. Metodologia

4.1 Tipos de Pesquisa

A pesquisa que dará embasamento teórico à escrita deste artigo é de caráter qualitativo, pois segundo Neves (1996), a pesquisa qualitativa apresenta direcionamento ao longo de seu desenvolvimento com um foco de interesse amplo, obtendo dados descritivos mediante contato direto e interativo do pesquisador com o seu objeto de estudo. Diferenciando-se das pesquisas quantitativas, quanto ao uso rigoroso de um plano previamente estabelecido e a preocupação com a quantificação de seus dados. E ainda, segundo Neves na visão dos autores Pope e Mays (1995), a pesquisa que faz uso dos métodos qualitativos no seu processo de desenvolvimento é riquíssima, já que tais métodos trazem como contribuição ao trabalho de pesquisa, uma mistura de procedimentos de cunho racional e intuitivo capazes de contribuir para a melhor compreensão dos fenômenos.

No entanto, a referida pesquisa é vista como arriscada e dificultosa, por autores como Duarte (2002, p.140), que diz que pesquisas desse cunho impõem ao pesquisador entrevistas quase sempre longas e semi-estruturadas e a descrição e delimitação da população base, ou seja, dos sujeitos entrevistados. Assim como saber o grau de representatividade de tais indivíduos no grupo social em estudo, além da necessidade de compreensão por parte do pesquisador do referencial simbólico, dos códigos e práticas do universo cultural dos sujeitos pesquisados, que nem sempre apresentam contornos bem definidos, dificultando o trabalho do pesquisador que é por muitas vezes desafiado durante a aplicação de sua pesquisa, tendo de rever métodos e até mesmo teorias. Além da realização de uma pesquisa de campo em escola pública do município de Hidrolândia-Ceará.

4.2 Instrumentos de coletas de dados

Como instrumentos utilizados para a coleta de dados da pesquisa, serão aplicados questionários sobre a problemática da sexualidade com diretores, professores e alunos, após um período de observação de espaços específicos da escola, como: sala de aula, pátio, banheiros etc.

A escolha de tais espaços para observação na escola se deu devido ao que é argumentado por Novena (2011), que considera tais lugares como espaços estratégicos construídos pelos alunos para romperem parcial ou completamente com as regras impostas pela escola e assim expressarem seus desejos e fantasias, criando dispositivos de resistência às normas instituídas no âmbito da escola.

4.3 População e amostra

Os sujeitos pesquisados nesse trabalho serão diretores, professores e alunos do 6° ao 9° ano do Fundamental II da Escola Municipal Antônio Daniel Martins, localizada na localidade de Riacho Verde, zona rural do município de Hidrolândia-Ceará.

Em que serão tirados como amostra alunos do sexo masculino e feminino na fase da adolescência, sendo que através destes se buscará perceber as multiformes manifestações da sexualidade humana presentes no cotidiano da organização escolar.

A turma do 6º ano conta com um total de 16 alunos, sendo destes 11 meninas e 05 meninos, o 7°ano com 17 alunos, 09 meninas e 08 meninos, o 8° ano com 09 alunos, em que 05 são do sexo feminino e 04 do sexo masculino e por fim, o 9° ano com o mesmo número de alunos e igual divisão dos sexos por alunos. O qual se encontra em total manifestação da sexualidade em seus corpos, o que fica claro na forma erotizada como se vestem e na forma como se comportam no que se refere a sexualidade, sendo percebido durante as observações realizadas na escola, a troca de carícias entre os mesmos e a paquera que rola “solta” durante o intervalo ou mesmo nas atividades curriculares em sala de aula.

5. Resultados e Discussões Acerca da Pesquisa de Campo

A pesquisa foi aplicada após um período de observações feitas em vários ambientes da escola, como salas de aula, banheiros, diretoria e pátio. Como também a partir da observação dos indivíduos que fazem parte do ambiente escolar, professores, diretores e alunos, focalizando os estudantes do ensino Fundamental II.

A seguir são relatados alguns fatos observados na escola, inscritos no diário de campo realizado durante algumas semanas do mês de outubro.

No primeiro dia de observação da escola, deu-se a visitação dos ambientes gerais como o pátio, salas de aula por fora, cantina, banheiros e diretoria e a maneira como os educandos se portavam durante o período de recreação e os demais profissionais da escola no desempenho de suas funções e durante esse período percebeu-se uma série de regras impostas pela coordenação da escola aos alunos, como não ficarem muito juntos durante o recreio, meninas deveriam brincar com meninas e meninos com meninos, vigilância “pesada” nas portas dos banheiros, em razão de alguns jovens gostarem de namorar lá dentro. Ao entrar nos banheiros fica clara a presença de desenhos obscenos e de palavrões que remetem ao ato sexual, além do nome de algumas meninas que são desejadas por parte dos meninos (banheiro masculino), o que não difere do encontrado no banheiro feminino, em que são inscritos nomes de colegas rivais acompanhados de palavras que denigrem suas imagens.

De acordo com os PCNs(2007), essas ações praticadas pelos alunos só revelam as dúvidas que eles apresentam sobre as questões relacionadas à sexualidade que os afligem e cabe a escola desenvolver ações críticas, reflexivas e educativas, dando espaços para que essas “crianças possam esclarecer suas dúvidas e continuar formulando novas questões contribuindo para o alívio das ansiedades que muitas vezes interferem no aprendizado dos conteúdos escolares (Diário de Campo, 02/10/2013).

No segundo dia, foi realizada uma conversa informal com os educadores e a diretora da escola sobre o trabalho com a temática da sexualidade no currículo escolar e fui convidada a participar de uma aula de Ciências em que o professor ia trabalhar as questões relacionadas às mudanças físicas que ocorrem no corpo do adolescente. Durante o transcorrer da aula pude perceber que o mesmo só focava as questões relacionadas à higienização corpórea e os órgãos genital masculino e feminino, além do sistema reprodutor e dos métodos anticoncepcionais. Quase nenhum aluno manifestava suas dúvidas durante a aula e ela correu de forma monótona, utilizando-se como material de apoio apenas o livro didático. Tais ações não surtem muitos efeitos favoráveis à conscientização do aluno e só acabam podando ainda mais a curiosidade dos mesmos, deixando-os sem respostas plausíveis diante dos questionamentos que tanto povoam suas mentes e acabam não sendo respondidos pela família, permitindo à escola um trabalho diferenciado “[...] diferencia-se também da educação realizada pela família, pois possibilita a discussão de diferentes pontos de vista associados à sexualidade, sem a imposição de determinados valores sobre outros”. Cabe, porém a conscientização dos indivíduos participantes dessa instituição para que possa cumprir-se essa ação efetiva na vida do aluno (Diário de Campo, 09/10/2013).

Já no terceiro dia, o foco foram os alunos em conversas informais sobre o tema da sexualidade e como eles manifestavam a mesma e em que locais eles a vivenciavam, a maioria dos estudantes se interessou em conversar sobre o assunto e de maneira clara contaram que até mesmo na escola eles namoravam, ficavam e os professores e demais profissionais da escola nem percebiam. O que pode ser comprovado durante a quarta e quinta visita de observação à escola em que um casal de alunos se beijavam ardentemente dentro de uma das salas de aula no horário do recreio e ninguém incomodou os mesmos que depois voltaram as suas ações normais como se nada tivesse acontecido. Quando a escola silencia uma resposta às indagações pertinentes dos alunos fica claro que estes vão vivenciá-la de outras formas, seguindo seus instintos e desejos exacerbados pelas mudanças ocorrentes na fase da adolescência e essas vivências poderão ocorrer até mesmo dentro do ambiente em que eles são vigiados e cobrados para a não vivência da sexualidade, como é o caso da escola (Diário de Campo, 16,26 e 30/10/2013).

Com os alunos foi aplicado um questionário referente à temática da sexualidade, constando de 12 questões abertas, em que os mesmos opinariam acerca da definição pessoal do conceito de sexualidade, e que conhecimentos possuíam acerca do sexo, com quem conversavam sobre o assunto e em que local essas conversas se davam, se na escola os professores abordavam constantemente esse assunto com eles, se já tinham vivido situações em que precisaram utilizar conhecimentos acerca da sexualidade ou do próprio sexo e não sabiam, e se tinham dúvidas pertinentes quanto à sexualidade e por quais experiências relacionadas à sexualidade já haviam passado.

Quando questionados a respeito de que conhecimentos possuíam sobre sexo, foi percebida a concepção de quase a totalidade dos alunos que ligam o termo somente ao ato sexual entre homem e mulher, desconhecendo o amplo conceito de sexualidade defendido por autores como (CHAUÍ, 1998; COSTA, 1994 apud NOVENA, 2011, P.109), que definem a sexualidade além do simples ato sexual realizado entre dois indivíduos, mas com uma amplitude de sensações e conhecimento sobre o próprio corpo. Em que sentimentos, afetos e prazeres estão presentes na vida de qualquer ser humano, não importando sua raça, credo ou orientação sexual. “Conforme é apresentado na fala de alguns estudantes, aqui destacadas, “É o homem e a mulher transarem”. “É transar” ou simplesmente “sexo”.

Cabe ressaltar que outros estudantes entendem a sexualidade de modo diferente, mais ligada ao relacionamento emotivo desenvolvido entre duas pessoas. “É duas pessoas que se gostam muito e se amam de verdade.” Também estando ligada às vivências de sensações positivas e prazerosas ao ser humano. “Sexualidade é um acontecimento na vida de cada jovem, a gente se sente alegre e muitas vezes muito feliz, a gente se sente aberta para o mundo, aberta para a vida, feliz em tudo o que a gente faz.”. Sendo obtidas algumas respostas de alunos que dizem ver a sexualidade como insignificante em suas vidas, “Pra mim não significa nada”.

Ao ser questionado a respeito de que conhecimentos possuíam sobre sexo, a maioria dos alunos apresenta um conhecimento superficial sobre o mesmo, sabendo explicar alguns métodos contraceptivos como a camisinha e a pílula, conforme o constatado na fala do aluno ”usar camisinha é importante sim, porque previne contra a gravidez e contra as doenças sexualmente transmissíveis.” identificando a função dos mesmos durante a relação sexual, entendendo que o uso de tais métodos é importante para a prevenção de gravidez precoce ou das doenças sexualmente transmissíveis. Sendo também o ato sexual relacionado à promotora de prazer e euforia vivenciados pelo indivíduo enquanto o pratica, conforme o obtido na fala do aluno “Porque é gostoso fazer sexo.” E “Fazer sexo é maravilhoso”.

Quanto às dúvidas apresentadas pelos alunos sobre sexualidade, ficou constatado a evidência de muitas, devido à curiosidade grande que os mesmos apresentam em relação ao assunto e essas dúvidas vão desde como se pratica o ato sexual entre duas pessoas “Eu gostaria de saber como se faz sexo?” ao uso correto da camisinha feminina e masculina “Como se usa a camisinha feminina?”, perpassando pela indagação acerca do que seria orgasmo, excitação, se caso uma garota que ainda não menstruou venha a ter relações sexuais, poderia engravidar,” gostaria de saber se uma garota que não menstruou ainda tem risco de engravidar? isso no caso de quem ainda não teve sua primeira experiência sexual. Já os que tiveram as dúvidas mais frequentes são de como encontrar outros métodos contraceptivos para manter-se seguro em sua vida sexual ativa com o (a) namorado (a), além da camisinha e da pílula e porque a primeira relação sexual é tão dolorida, apesar de provocar nos indivíduos uma sensação de felicidade e prazer.

Diante de tais indagações por parte dos adolescentes em relação ao sexo cada vez mais precoce, alguns membros da sociedade que lidam com eles como pais, professores e diretores ficam perplexos quanto ao interesse que apresentam por tal assunto e acabam não sabendo lidar com essas indagações constantes e pontuais, coibindo suas dúvidas e deixando de transmitir conhecimentos importantes para sua vivência sexual saudável.

Perante isso, Dagmar Mayer (2004) ver repercutir “nesses sistemas de representação, efeitos das profundas e abrangentes transformações sociais, econômicas e culturais desencadeadas pelo neoliberalismo e pela globalização”. Fatores estes que influenciam diretamente a vida dos jovens que cada vez mais estão expostos à cultura de apologia ao sexo, que deve ser vivenciado cada vez mais cedo e sem a ideia de compromisso, gerando apenas a “curtição” entre pessoas que se conhecem numa noite em determinado local e que são seguidores de seus próprios instintos, sem preocupar-se com a forma em que serão vistos pela sociedade.

Quando questionados sobre com quem conversam sobre sexo e por que se sentem confortáveis falando sobre o assunto. A maioria dos estudantes destacou que conversa sobre sexo com os amigos e em locais fora de casa, pois assim se sentem mais confortáveis para falar e tirar dúvidas sobre o assunto, causador de constrangimento quando falado com pessoas de não confiança do aluno. “Com minha amiga, porque confio nela.” Sendo estes amigos vistos muitas vezes por tais jovens como portadores de uma verdade aceitável e de inteira credibilidade, “Meus amigos para saber o que pode e o que não pode.”, “Meus amigos e conversamos mais sobre sexo, o que é certo ou errado.” Pois conforme Louro (2000), a resposta para tais questionamentos dependem de muitos fatores: geração, raça, religião, nacionalidade, dentre outros que influenciam direta ou indiretamente a visão do indivíduo quanto às problemáticas do mundo.

Percebe-se, no entanto, na fala de alguns alunos a participação dos pais na orientação de seus filhos quanto à vivência saudável e consciente da sexualidade, conforme o destacado na fala da aluna “Com a minha mãe. Porque ela fala comigo pra mim me cuidar e tomar cuidado para não pegar DSTs ou engravidar.” ensinando-os a prevenir-se corretamente e estando abertos ao diálogo com os filhos para sanar possíveis dúvidas que estejam lhes perturbando. Com a contribuição dos pais na educação sexual dos filhos fica claro a postura autônoma dos adolescentes perante a vivência da sexualidade em seus próprios corpos e na convivência com os demais colegas, que por não contar com esse apoio dentro de casa acham-se confusos e inseguros quanto à sexualidade. O que fica constatado na fala do seguinte aluno “Ninguém. Porque ninguém gosta de falar de sexo.”

Houve também o relato de alguns jovens que buscam orientação com os agentes de saúde da comunidade, “Alguns agentes de saúde. A importância é que a gente se sente mais segura e com mais certeza.” por entenderem que são profissionais capacitados para trabalhar a problemática e ainda os que conversam com seus próprios parceiros sexuais, “Com o meu namorado. Porque ele é carinhoso.” “Com o meu namorado. Porque ele me ensina muita coisa.”, pois se sentem mais confortáveis para conversar sobre o assunto não tendo vergonha de tirarem suas dúvidas. Ocorrendo ainda o relato de alunos que dizem não sentir-se confortável com ninguém para falar do assunto.

Os alunos também foram indagados se gostariam de ter uma disciplina voltada somente para o trabalho com a educação sexual na escola. Sendo comprovado através da fala de vários alunos à esporádica problematização do assunto por parte dos professores dentro da sala de aula, “Na escola, às vezes os professores de Ciências.”, a maioria dos professores não trabalha o assunto e os que falam alguma coisa, são professores de áreas como biologia e ciências, seguindo o cronograma de conteúdos do livro, ficando aberta às inovações somente quando o profissional da saúde vem realizar oficinas na escola, o que acontece de maneira rara.

As muitas formas de fazer-se mulher ou homem, as várias possibilidades de viver prazeres e desejos corporais são sempre sugeridas, anunciadas, promovidas socialmente (e hoje possivelmente de formas mais explícitas do que antes). Elas são também, renovadamente, reguladas, condenadas ou negadas (HALL, 1997; apud LOURO, 2000; p04)

Conforme Hall (1997 apud. LOURO, 2000) mesmo destaca as representações sexuais são promovidas socialmente e a escola como desempenha um importante papel social é grande responsável por isso, pois a ela é permitido o trabalho com problemáticas da atualidade como a sexualidade, que é por muitas vezes silenciada por outras instituições como a família e a igreja, deixando na cabeça do jovem grandes lacunas acerca de assuntos que estão inteiramente ligados a sua própria vida e à descoberta de seu corpo. No entanto, o que se percebe é que mesmo a escola, sendo conhecedora de sua função social e educacional para com seus estudantes, resolve condenar ou até mesmo negar as dúvidas sexuais de seus alunos, não os esclarecendo ou criando normas de proibição sobre o assunto, simplesmente por manter o silêncio, que deixa claro a posição defendida por tal instituição, a de negação da sexualidade e de suas multiformes manifestações na vida dos alunos.

Quanto às situações acerca da sexualidade vivenciada pelos mesmos, ficou claro que a maioria já tinha tido pelo menos beijado na boca, o famoso “ficar” e os maiores já haviam tido relações sexuais com o primeiro ou primeira namorada, apresentando grandes dúvidas acerca da vivência segura e saudável de uma vida sexual ativa com seus respectivos parceiros. Sabem que é preciso prevenir-se para não engravidar ou correrem o risco de pegarem doenças sexualmente transmissíveis. Porém anseiam por mais conversas sobre o assunto, com pessoas que os compreendam e que não vão repreendê-los por estarem vivenciando as descobertas de seus corpos.

Em seguida, seguem os relatos de alunas que demonstram o despreparo vivenciado por elas diante de vivências relacionadas à sexualidade em que não constavam de grandes conhecimentos sobre o assunto. “Tive relação com o meu namorado e não tinha orientação”. “Porque eu fiquei muito nervoso e sem saber o que fazer.” Já na hora “h eu fiquei muito nervosa.” “Já na hora eu fiquei passando mal, mas passou”.

Alguns relatam que a primeira vez nunca esqueceu, porque aconteceu de forma improvisada e escondida, em locais não muito agradáveis e que essa experiência foi dolorosa e não contava com muitas informações de como se proteger durante o ato sexual. A maioria dos jovens pesquisados apresentava um sentimento de culpa ou de vergonha por já iniciarem suas vidas sexuais fora dos padrões socialmente aceitos e defendidos por suas famílias, como a prática do sexo só depois do casamento.  “A sexualidade, afirma Foucault, é um “dispositivo histórico”. Em outras palavras, ela é uma invenção social, uma vez que se constitui, historicamente, a partir de múltiplos discursos sobre o sexo: discursos que regulam que normatizam que instauram saberes, que produzem “verdades”” (FOUCAULT, 1988; apud. LOURO, 2000).

Durante muitos anos, a igreja dominou espiritual e intelectualmente à sociedade ditando normas e regras a serem seguidas pelos cidadãos que almejassem ser santos e irem morar no céu. Sendo uma das principais a proibição do ato sexual fora, ou antes, do casamento. Em que as pessoas que burlassem essas regras eram difamadas pela sociedade e carregavam para o resto de suas vidas uma má fama, principalmente as mulheres, que eram logo tachadas de prostitutas ou outras definições chulas, não arranjando casamento e sendo a vergonha sobre o nome da família.

No entanto, os anos passam e os arranjos sociais são radicalmente modificados e aquilo que era tido pela sociedade como correto e aceitável, hoje é visto como retrógrado e rejeitado completamente pelos jovens, que a cada dia estão iniciando suas experiências sexuais mais cedo e não estão preocupados com as opiniões e conselhos emitidos por seus pais, que acabam ficando desconfortáveis com as atitudes radicais dos filhos e filhas. Estes não querem saber de casar-se mais como no tradicional, entrando na igreja acompanhada pelos pais no caso das mulheres, vestidas de branco e de véu e grinalda, virgens e prontas para receberem dóceis seus maridos, tornando-se donas de casa amáveis e cuidadosas, sem nenhuma perspectiva estudantil ou profissional, cumprindo apenas seu papel passivo de progenitora da família.

Nos dias atuais, não só o homem está inserido no mercado de trabalho, mas também a mulher que estuda e se qualifica mais tempo, trabalha fora de casa e é independente financeiramente e em outros aspectos de sua vida, inclusive na escolha de seus parceiros sexuais. A mulher atual não é mais movida e condicionada pela opinião popular e sim por seus próprios desejos. Escolhe casar-se mais tarde e numa cerimônia totalmente diferenciada da tradicional, quando não se sente feliz no relacionamento é aberta para aceitar a separação, tendo filhos de relacionamentos e parceiros diferentes.

A homossexualidade é outra questão em voga no momento, passando por diversos juízos e opiniões que vão desde sua aceitação à sua reprovação. Como destaca Madureira e Branco (2007) “De “pecado”, “crime”, as relações afetivo-sexuais entre pessoas do mesmo sexo passam a ser considerada “doença” e necessitam de tratamento e cura”. Diante disso, tal público é vítima de preconceito por parte dos seus próprios familiares, que não compreendem as escolhas de tais indivíduos e acabam por excluí-los na convivência social, acarretando a tais indivíduos problemas no mercado de trabalho e em ambientes como suas próprias casas e escolas às quais frequentam. O que pode ser percebido durante as observações feitas na escola em que surgiu como fator preponderante na questão do homossexualismo a visão estigmatizada pela qual passam os indivíduos que escolhem tal opção sexual, pois a partir dessa escolha passam a ser vistos pela sociedade como indivíduos indecentes e portadores de uma grave falta de caráter, devendo ser vítimas de chacotas e diversos preconceitos impostos pela sociedade. Sendo fortalecida a forma heterossexual de manifestação dos desejos libidinosos na instituição escolar pesquisada em que os próprios professores afirmam não sentirem-se preparados para lidar com o “diferente”.

Diante desse cenário, Dinis (2008), destaca que “em um momento histórico em que mais se fala sobre educar para a diferença, vivemos um cenário político mundial de intolerância, que se repete também no espaço da vida privada, em determinada dificuldade generalizada em nos libertarmos de formas padronizadas de concebermos nossa relação com o outro”.

Em meio a esse “bombardeio” de diferenças e diversidades sexuais a escola encontra-se perdida no seu papel de orientadora social, não conseguindo discutir a respeito dessas especificidades dentro de seus próprios muros, cometendo falhas graves no seu processo de educar e conscientizar os indivíduos que passam anos sendo moldados por tal instituição. Cabe ressaltar, no entanto, que diante disso as instituições escolares começam a investir na orientação pontual de seus alunos, quanto ao que diz respeito aos métodos contraceptivos, buscando controlar a vivência da sexualidade por parte de seus alunos, pois segundo Foulcault (1999), a repressão deve atuar profundamente, sobre o coração, o intelecto, à vontade, as disposições. E é nesse campo de controle e orientação que a escola vem atuando e fortalecendo quase que de forma imperceptível o seu poder e domínio sobre a mente de seus alunos, preparando dessa forma cidadãos conscientes quanto aos cuidados que deverão ter ao vivenciarem sua sexualidade sem provocarem riscos ou despesas ao meio social e as instâncias governamentais.

6. Conclusões

O presente artigo veio problematizar a questão da sexualidade dentro dos currículos escolares, apontando para isso possibilidades de discussão da temática dentro da sala de aula, levando abaixo uma série de ideias preconcebidas a respeito do tema, que impedem o seu trabalho na escola, por estar incutido na mente dos educadores a ideia de pecado, o que muitas vezes leva o educador a entender que ao falar sobre sexualidade dentro da sala de aula está incentivando os seus alunos a praticarem o sexo precocemente.

A partir do estudo de vários autores como Figueiró (2006), Mayer (2003), Louro (2000) dentre outros foi possível desmistificar essa temática comprovando sua extrema necessidade de discussão dentro da sala de aula, já que é um tema presente cotidianamente na vida dos alunos, pois envolve as questões de gênero e das multiformes manifestações da sexualidade humana, como por exemplo, a homossexual, que vem ganhando espaço cada vez mais na sociedade e mídias sociais e diante disso, a instituição escolar não pode ficar silenciada e sim cumprir com o seu papel de discussão e orientação social.

O trabalho tem como objetivos perceber a visão dos professores sobre sexualidade através da concepção dos alunos, constatando a percepção dos alunos acerca da temática e identificando as metodologias utilizadas pelos educadores para falar sobre o tema em sala de aula.

Quanto à visão dos educadores da escola Antônio Daniel Martins na cidade de Hidrolândia em relação à sexualidade, percebeu-se a ligação que os mesmos fazem do tema somente com o ato sexual, desconsiderando as múltiplas manifestações da sexualidade humana. Tal concepção é compartilhada também pelos educandos pesquisados que só veem a sexualidade ligada ao ato sexual e se manifestando de maneira heterossexual, repugnando qualquer outra forma de representação da sexualidade como a homossexual.

As metodologias utilizadas em sala de aula para falar sobre sexo são extremamente desinteressantes e monótonas, pois para isso são utilizados apenas os livros didáticos. As aulas sobre tal tema são raras e deixam muito a desejar, sendo discutidas somente de acordo com o conteúdo do livro e os professores encontram-se despreparados para problematizar a respeito do tema, sabendo frisar somente os métodos preservativos para evitar uma doença ou gravidez indesejada.

Igualmente, cabe ressaltar que a escola ainda vai levar um tempo para inserir dentro de seu currículo acadêmico a temática da sexualidade como faz com os conteúdos considerados “normais” e obrigatórios para a aquisição dos requisitos necessários para os anos de estudos posteriores. E essa luta deve fazer parte de todos os setores sociais que vislumbram para as futuras gerações do país uma educação de qualidade, em que são preparados cidadãos críticos e autônomos diante das problemáticas diversificadas da vida.

Sobre o Autor:

Mara Régia Paiva Farias - Formada em Pedagogia na Universidade Estadual Vale do Acara. Cursando especialização em Psicopedagogia Clínico e Institucional.

Orientador: Francisco Ulisses Paixão e Vasconcelos - Pedagogo. Psicopedagogo. Mestre em Educação. Professor da UVA.

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