A formação de uma identidade sexual

(Tempo de leitura: 7 - 13 minutos)

A vasta quantidade de pesquisa sobre a formação de identidade sexual assume que a identidade finalmente adquirida será uma identidade heterossexual, ou seja, uma identidade centralizada em uma preferência sexual por membros do outro sexo. Entretanto, um número considerável de pessoas exibe preferências não-heterossexuais -ou seja, uma preferência por membros do seu próprio sexo como parceiros sexuais. Por isso, para lidar com a questão da identidade sexual, precisamos primeiro considerar a questão da orientação sexual.

A orientação sexual refere-se ao sexo em relação ao qual se tem sentimentos eróticos. A orientação sexual é claramente importante para a identidade com o papel do sexo, mas não se pode considerar que ela determine a identidade sexual. A identidade sexual também é influenciada pelas categorias de sexualidade presentes na cultura da pessoa e pelas atitudes da pessoa para com aquelas que se ajusta a essas categorias. Tantas categorias culturais da sexualidade quanto às atitudes culturais em relação a elas variam muito entre as sociedades e dentro das sociedades no decorrer do tempo.

Formação da identidade heterossexual

Durante os anos da segunda infância , quando a maior parte dos jovens prefere passar o tempo com membros do seu próprio sexo, o sentido do eu das crianças em geral depende muito de como as outras crianças do mesmo sexo reagem a elas. Em sua maioria, as crianças durante esse período são indiferentes ou hostis aos membros do outro sexo. Mais tarde, como resultado das mudanças provocadas pela puberdade, seu movimento baseado na indiferença ou no antagonismo para um movimento baseado na atração. O trabalho de Sigmund Freud tem tido uma influencia duradoura sobre a maneira de pensar dos psicólogos sobre esse processo. Os psicólogos freudianos encaram a adolescência como um período em que as crianças experimentam novamente os conflitos dos estágios anteriores, só que em novos aspectos. Em sua opinião, a menos que esses problemas sejam elaborados e resolvidos, a personalidade do adulto será distorcida. Segundo Freud, entre os problemas desenvolvimentais iniciais que devem ser reelaborados, é fundamental o desejo primitivo da criança de possuir o pai (caso se trate de uma menina) ou a mãe (caso se trate de um menino). A maneira usada pelas crianças pequenas para resolverem esse conflito, que Freud chamou de complexo de Édipo, é reprimir o desejo licito identificando-se com o genitor do mesmo sexo. Freud declarava que essa resolução infantil é essencial para a identificação adequada do papel do mesmo sexo.

Esses primeiros sentimentos edipianos são encontrados novamente na adolescência, mas a repressão e a identificação com membros do mesmo sexo não são mais as respostas adaptativas que eram no fim da fase de bebe. A puberdade, na opinião de Freud, redesperta o desejo sexual em uma época em que os adolescentes são plenamente capazes tanto de realizar os atos proibidos quanto de entender o tabu do incesto que lhes nega o genitor como um parceiro sexual.

Freud defendia que a combinação de desejo desperto e pressão social levam o adolescente a procurar pessoas fora da família para amar. A base para essa busca formou-se durante a experiência do grupo de pares da segunda infância, mas a reorientação do adolescente é, apesar disso, repleta de dificuldades. Para começar, a pessoa jovem tem tido pouca experiência de interação com os pares do outro sexo e virtualmente nenhuma experiência de amizade com pares como parceiros sexuais, portanto, novos modos de comportamento social terão de ser aprendidos. Em segundo lugar, uma mudança no objeto do afeto de um genitor para um par requer desligamento emocional da família, que tem sido a base da segurança emocional desde o nascimento. Reconhecendo a dificuldade dessa tarefa, Freud referiu-se a reorientação do afeto do adolescente como sendo “uma das aquisições psíquicas mais dolorosas do período da puberdade”.

Quando um adolescente concentra seus sentimentos sexuais e sua excitação em um sexo ou no outro, esses sentimentos tornam-se a base da construção de uma identidade sexual.

Formação da identidade não-heterossexual

Quando se esta se tratando da questão da orientação sexual do mesmo sexo, a primeira pergunta que surge é: o que faz com que uma pessoa seja sexualmente orientada para outras pessoas do mesmo sexo? Duas explicações biológicas para orientações sexuais do mesmo sexo atraíram a maior parte da atenção entre os psicólogos do desenvolvimento. A primeira é que uma orientação não-heterossexual tem base genética. Achados que parecem apoiar essa suposição vem de estudos realizados com gêmeos: as chances de ambos os membros de um par de gêmeos ser homossexual é duas a cinco vezes maiores entre gêmeos monozigóticos do que entre gêmeos dizigoticos. Outro achado dá suporte a hipótese genética é que tanto as mulheres lésbicas quanto os homens gays tem proporções mais altas de irmãos e irmãs que também expressam preferências do mesmo sexo do que homens e mulheres heterossexuais.

Esses dois resultados parecem indicar que os fatores genéticos desempenham um papel na determinação da orientação sexual de um individuo. Entretanto, se os genes fossem toda a historia, seria possível esperar que todos os gêmeos monozigoticos fossem semelhantes nesse traço, e isso não acontece. Alem disso, os dados não explicam como os genes operam para influenciar a orientação sexual de uma pessoa.

A segunda explicação biológica para uma orientação não-heterossexual que recebeu ampla atenção concentra-se no papel dos hormônios no desenvolvimento pré-natal.

Durante os últimos seis meses do desenvolvimento pré-natal, a presença da testosterona serve para suprimir a atividade rítmica natural do cérebro. Se a testosterona estiver ausente, a glândula hipófise estabelece o padrão cíclico da secreção hormonal característica da mulher. Na maior parte dos casos, os efeitos dos andrógenos no cérebro fetal são complementares ao sexo genital do feto. Entretanto, se por alguma razão, o feto masculino é insensível aos andrógenos, ou se o feto feminino é exposto a andrógenos durante o período crítico, quando alguns caminhos neurais estão-se formando, pode ser que se torne mais provável uma preferência pelo mesmo sexo nos parceiros sexuais.

Boa parte da pesquisa conduzida para demonstrar os efeitos dos hormônios sexuais sobre o cérebro e sobre o comportamento sexual subseqüente foi conduzida com animais. As fêmeas que forma expostas a andrógenos no útero é mais ativas que as outras fêmeas, e tentam montar nos outros animais. Os machos que são desprovidos de andrógenos mostram comportamentos de acasalamento feminino e se apresentam para ser montados.

Um estudo recente realizado com mulheres adultas que forma expostas à droga DES(diestilestilbestrol) no útero presta apoio adicional a essa hipótese. O DES, que agora foi proibido devido a seus efeitos cancerígenos é um hormônio sintético que foi dado a mulheres grávidas que corriam o risco de abortamento. A suspeita de que a droga afetava o desenvolvimento sexual, aumentando a produção de andrógenos masculinizantes durante o período de organização cerebral do feto levou os pesquisadores a compararem as mulheres que foram expostas à droga no útero com um grupo de mulheres de idade e historia medica similares que não foram expostas à droga. Como foi esperado, as mulheres que foram expostas ao DES no útero tiveram uma pontuação mais elevada nas avaliações de orientação homossexual e bissexual do que seus pares que  não foram expostos a droga.

Também foram oferecidas explicações ambientais para uma orientação não-heterossexual concentrando-se nas maneiras como a orientação sexual são aprendidas. Uma hipótese antiga é que os adolescentes podem assumir uma orientação não-heterossexual porque foram seduzidos quando pequenos por um individuo mais velho-gay, lésbica ou bissexual. Embora algumas lésbicas gays ou bissexuais possam ter sido seduzidas por uma pessoa do mesmo sexo quando eram pequenos, entrevistas realizadas com lésbicas e gays constataram que a maior parte deles não participa de atividades do mesmo sexo senão depois que se tornam conscientes da sua atração. Uma hipótese relacionada é que uma orientação não-heterossexual é o resultado de uma espécie de impressão sexual. Segundo essa teoria, se os primeiros encontros sexuais de uma pessoa forem com alguém do mesmo sexo, a excitações sexuais se tornara associada a membros do seu próprio sexo.

Como, na verdade, as primeiras explorações sexuais de muitas pessoas ocorrem com membros do seu próprio sexo, essa hipótese não consegue explicar por que muitas pessoas desenvolvem uma orientação heterossexual.

Embora se acredite que a atividade não-heterossexual seja disseminada, somente uns números pequenos das pessoas que nela se envolvem se identifiquem como gays lésbicas ou bissexuais. Devido a essas disparidades, vários pesquisadores contemporâneos fazem a distinção entre (1) ter uma orientação não-heterossexual, (2) envolver-se em um comportamento sexual com alguém do mesmo sexo e (3) assumir uma identidade não-heterossexual. Em sua opinião uma identidade não-heterossexual envolve uma interação de influencias biológicas e ambientais.

Uma teoria interacionista que tem recebido atenção concentra-se na auto-rotulação. Segundo esta opinião, “as crianças cuja aparência e maneirismos se assemelham ao do sexo oposto tornam-se confusas sobre sua identidade sexual e essa confusão aumenta suas chances de se sentirem atraídas por membros do seu próprio sexo”.

Ou seja, os meninos cujo comportamento é percebido pelos outros como feminino e as meninas que são vistas como moleques e cujo comportamento não é considerado feminino tem maior probabilidade de passar a pensar em sis mesmos como diferentes dos outros membros do seu sexo.

Devido a essa diferença, elas passam a se rotular como gays, ou lésbicas ou bissexuais. Em apoio a essa hipótese, a pesquisa tem mostrado que meninos muito femininos tornam-se gays ou bissexuais. Embora haja menos pesquisas sobre meninas masculinizadas, a pesquisa existente sugere que embora muitas se tornem heterossexual, há uma chance maior que a media de se tornarem lésbicas.

Vários intelectuais defendem que devido a enorme diversidade entre os indivíduos não heterossexuais, é razoável supor que a origem e o desenvolvimento da orientação e da identidade sexuais variam muito de uma pessoa para outra. Para alguns indivíduos não-heterrosexuais, a biologia pode desempenhar um papel preponderante, para outros, a aprendizagem ou o meio social em que se encontra em um determinado período das suas vidas pode ser o fator-chave.

Estágios da formação da identidade não-heterossexual

As regularidades desenvolvimentais na seqüência através da qual uma pessoa forma uma identidade não-heterossexual tem inspirado em muitas sociedades tentativas de descrever estágios. Richard Troiden ofereceu um modelo de estágios da formação da identidade que se ajusta a experiência de muitos gays norte-americanos nas ultimas décadas.

Estagio 1: Sensibilização; sentir-se diferente. Em relatos retrospectivos, os homens com uma orientação homossexual frequentemente dizem que durante a segunda infância tiveram experiências sociais que fizeram-nos sentir diferentes das outras crianças e que serviram, mais tarde , para tornar a homossexualidade pessoalmente importante para eles, embora supusessem na época ser heterossexuais. Comentários típicos são: “eu não conseguia suportar esportes, então, naturalmente isso me tornou diferente. Uma bola atirada em mim era como se fosse uma bomba”, “ eu simplesmente não me sentia como os outros meninos . eu adorava coisas bonitas como fitas, flores, musicas.”

Estagio 2: auto-reconhecimento, confusão de identidade. Quando esses meninos entram na puberdade, percebem que se sentem atraídos por membros do mesmo sexo e começam a rotular esses sentimentos como homossexuais. Esse reconhecimento é a fonte de uma enorme desordem interna e confusão de identidade. Não conseguem mais considerar suas identidades heterossexuais como estabelecidas e sabem que os indivíduos homossexuais são estigmatizadas.

No meio ou no fim da adolescência, eles começam a acreditar que são provavelmente homossexuais porque não tem interesse nas atividades heterossexuais de seus pares. Muitos adultos homossexuais lembram-se da adolescência como uma época em que eram solitários e rejeitados socialmente. Essa situação psicológica e pessoal perturbadora provoca negação e tentativas de racionalizar sua orientação sexual diferente de maneiras socialmente aprovadas.

Estagio 3: assumindo a identidade. Algumas pessoas jovens que tiveram experiências homossexuais e reconhecem que preferem as relações sexuais com pessoas do seu próprio sexo não explicitam sua preferência. Muitos outros , no entanto, saem do reconhecimento privado da sua preferência homossexual para admiti-la abertamente ,pelo menos para outros homossexuais. Embora a identidade homossexual seja assumida durante os primeiros estágios desse processo, ela frequentemente não é totalmente aceita.

Os jovens que adquiriram esse nível de identidade homossexual lidam com isso de varias maneiras. Alguns tentam evitar contatos homossexuais e tentam passar por heterossexuais porque tem medo de serem estigmatizados. Outros adotam os estereótipos dos homossexuais da sociedade mais ampla e se comportam de maneiras extremas que se ajustam a esses estereótipos. Outros ainda, começam a se posicionar dentro da comunidade homossexual de uma maneira reservada.

Estagio 4: compromisso, integração da identidade. Esse nível final é atingido por aqueles que adotam a homossexualidade como um modo de vida. A integração da identidade é indicada por uma fusão da própria sexualidade e dos compromissos emocionais, através de expressões de satisfação com a própria orientação e pela revelação publica da sua identidade homossexual.

Troiden observa que o compromisso com uma identidade homossexual pode variar de fraca para forte, dependendo de fatores como o sucesso do individuo em formar relacionamento pessoais satisfatórios, ser aceito por sua família e ter uma boa atuação no trabalho ou na carreira.

Precisa ser enfatizado que uma seqüência de mudanças na identidade sexual como aquela descrita por Troiden não deve ser considerada universal. Em algumas sociedades e em outras épocas na história, o comportamento sexual de adolescentes do mesmo sexo não era considerado como expressão de uma identidade sexual para a vida toda. Ao contrario tem sido interpretado de varias maneiras tais como uma resposta necessária a uma pratica cultural de segregação sexual, como uma maneira de aprender sobre o sexo, como parte do ritual de se tornar adulto, ou como uma explicitação divertida de atração sexual por pessoas que tem um excesso de energia sexual.

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