A Liquidez do Relacionar na Pós-Modernidade

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Resumo: Este estudo objetiva discorrer, com olhar sociológico e psicanalítico, a respeito do comportamento sexual e afetivo virtual de nossa sociedade pós-moderna, e suas implicações na vida real. O aspecto sociológico será elaborado com base nos conceitos do sociólogo contemporâneo Zygmunt Bauman, que discursa sobre as relações humanas, estando essas marcadas pela fluidez sem comprometimento, tornando-se frágeis, frouxas, livres e inseguras, adjetivando-as como líquidas. A mudança do concreto e absoluto para o liquido e relativo. Este conceito é descrito em sua obra “Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos”, que ilumina as relações amorosas do século XXI, sendo a frouxidão a principal característica. Sob o ponto psicanalítico, serão abordados conceitos freudianos de narcisismo e prazer.

Palavras-chave: Relações Amorosas, Contemporaneidade, Sexo Virtual, psicanálise.

1. Introdução

A sociedade pós-moderna, fundamentada no consumismo e no capitalismo, marcada pela invenção, modernidade, rapidez e oferta, tem nos dado possibilidades enormes de qualidade de vida. Os avanços tecnológicos têm auxiliado nossa sociedade em curas, descobertas, laser e entretenimento como nunca se pode imaginar, temos mudanças nas Leis, mudanças e avanços nos direitos, na liberdade, no ser. Mas uma coisa também tem se modificado com mesma rapidez: o relacionar-se. Afinal, onde estão as famílias unidas, passeando, comendo e se divertindo? Onde estão os casais apaixonados, planejando um futuro "até que a morte os separe"? Onde estão os os jantares de família, a vida calma, unida ao redor da mesa? Onde estão os jovens, sonhadores de encontrar seu amor, construir uma família e serem felizes? Cabe ainda na rapidez do mundo a palavra "eternamente"? Afinal, onde estamos todos nós? No virtual. Esta é a resposta mais assustadora e clara que podemos ver a cada vez que nos propusermos a enxergar o que se passa a nossa volta.

Zigmunt Bauman, sociólogo moderno, discorre a respeito em seu livro "Amor líquido", mostrando a fluidez e a liquidez do relacionamento pós-moderno. Das dificuldades do relacionar-se e das frustrações da falta do mesmo. Os caminhos da modernidade tem mudado o panorama do século passado de maneira assustadora, e com consequências duras para o tratamento interpessoal.

Sigmund Freud, fundador da psicanálise, escreveu em seu livro "mal-estar da civilização" sobre os impulsos agressivos e narcísicos que impulsionam o homem moderno, e que o angustia. Seus conceitos de Prazer, a busca do homem por ele, e suas consequências na mente humana. Enfim, somos uma sociedade em profundas mudanças e avanços tecnológicos, mas que estamos desaprendendo algo básico: o relacionar, conviver, o amar e o expressar.

2. Uma Sociedade Pós-Moderna

Com a chegada do século XX vieram muitas transformações, e em todas as áreas, em especial de uma sociedade de produção para uma sociedade de consumo e a fragmentação da vida humana. No início de século passado, ao nascer, o sujeito encontrava uma sociedade pronta, baseada em seus costumes e tradições, se deparava com um caminho pronto a percorrer, e com uma identidade formada. Bem diferente deste século, onde é necessário formar sua própria identidade e redefini-la constantemente, pois ela é modificada também todo momento.

O que antes era possível falar em projeto de vida, visto que estávamos numa sociedade de poucas mudanças substanciosas, hoje é quase impensável. Projeto de vida consistia em caminhar passo a passo a um rumo pré-determinado, fincando pés seguros, em rastros deixados especialmente por nossos antepassados. Não somente sabia-se aonde ir como também que lá se chegaria, como num fluxo calmo e determinado.

Como falar nos dias de hoje em projeto de vida, se tudo muda tão rápido e inesperadamente? O jovem ri da própria palavra “para sempre” que parece estar destinada aos contos de fada, e exatamente por isso, tornam-se enfadonhos e irreais. Os mesmos contos já estão sendo rescritos de maneira a mostrar que a vida moderna não nos permite pensar num para sempre, e sim no momento atual, e vive-lo como se não fosse haver o amanha. Mas, será mesmo que não haverá o amanha? Ou somente vivemos como se não houvesse, dando liberdade aos desejos mais descabidos e presos de nosso ego? Como pode o superego reger se as próprias normas que antes acreditou como verdade, são agora momentâneas? Será que permanecem como uma regra interna a ser seguida, ou já se pode falar em ridicularizarão do ego sobre o superego?

A identidade que até o século passado era pré-estabelecida, como forma tranquila a ser investida, seguida, adquirida e possuída, hoje é algo que se constrói a cada momento e se desconstrói rapidamente. Em muitos casos vemos que a identidade já esta sendo construída para cada situação. Identidade que nem mesmo vem determinada nas fundações que a criança deveria achar, como por exemplo, a ideia de cidadania e patriotismo, um pouco destruída pela globalização, sendo todos, povos de uma mesma nação. Não desejamos aqui, levantar ideias da globalização e seu infinito bem, mas que a identidade, vivida numa globalização consumista, fez perder a identidade primária, que a criança já costuma encontrar como seu fundamento.

Identidade fundada em valores eram herdadas, e hoje precisam ser construídas e redefinidas ao longo da vida, desculpadas pela moderna ideia de que cada um tem o direito sobre si mesmo, e com desculpas de que devemos respeito a individualidade, não recebemos mais uma identidade, valorada e constituída. São frases como: “ele quem irá decidir quando crescer”, tão cheias de direitos e respeitos pessoais, que podem estar vazias, sem qualquer apoio para a criança fincar seus pés nos primeiros passos da vida. Não herdam nada, e aprendem que a vida vai se construindo, não importando o amanhã, e que cada passo deve ser dado se seu prazer estiver ali. Atinge aqui o cerne dos relacionamentos interpessoais, que vão seguir o mesmo comportamento, tornando-se efêmero, e reduzido a busca de seu prazer, e este momentâneo, como tudo ao seu redor.

Guiados pelo prazer, sem regras para conduzi-lo, a criança se vê mais perdida que segura, moldando sua personalidade em passos vazios. E podemos fazer tudo que desejamos, tudo que achamos ser bom pra cada um de nós? Todos os prazeres e atrativos da modernidade capitalista podem ser usufruídos? Se não podemos, como ficamos diante deste “não” que nosso ego não aprendeu que existe? Mas o que o mundo oferece muda rapidamente, e mudamos também nós nossos desejos? Mudando assim rapidamente, como saber o que eu gosto? Então gosto de tudo porque posso tudo? Enfim, quem sou eu?

Das mudanças do totalitarismo para a democracia foi apenas um vislumbre das mudanças que iriam ocorrer continuamente na sociedade. O que não podemos definir é se são estas mudanças que estamos vivendo apenas os meios transmissores para uma nova forma de vida, um período de transição, ou se já estamos vivendo esta nova ordem social.

Bauman irá dizer que duas coisas são irreversíveis, uma é que multiplicamos as conexões, as relações, as interdependências, as comunicações. Estamos numa posição em que todos dependemos de todos, tudo que acontece no mundo, tem sua importância na perspectiva da vida, caminhando para um único país. Outra questão é que há 300 anos assumimos a gestão da natureza humana, fazendo dela obediente as necessidades dos homens. Tentando assim o controle total do mundo. Agora, estamos chegando e entendendo que estamos no limite da suportabilidade do planeta. Os perigos deste futuro estão na separação do poder e da política. Se assim for, o Estado não terá suficiente poder de manter as promessas e ideias construídas pelos cidadãos no século passado. Pois estamos numa época de queda da democracia, onde cada vez menos pessoas acreditam nela. Por quê? Por que o Estado pode oferecer cada vez menos aos cidadãos. Estas ideias fazem com que comecemos a entender a necessidade de talvez um Estado global. E isso porque o fundo de tudo é que buscamos segurança e liberdade.

3. A Fragilidade dos Laços Modernos

Quantas vezes temos escutado "estou apaixonado" e da mesma pessoa, em pouco tempo: "acabou"? E facilmente escutamos, da mesma, que ela voltou a se apaixonar? Com certeza muitas vezes e de quase todos que conhecemos (inclusive de nós mesmos). Podemos perceber que esta condição é facilmente repetida, recorrente. E muitas vezes chamamos de amor, situações repetidas de envolvimento, mesmo que seja de apenas 1 dia.

A mudança da sociedade nos fez de fato desvalorizar por completo a sentença "até que a morte nos separe". Assim, baixamos os padrões deste sentimento, podendo chamar de amor qualquer experiência de envolvimento. Experiência intensa e impactante, porém de curta duração. Sendo o amor uma ideia de eterno, duração perpétua, a habilidade de experimentar muitos amores poderia ser vista como incapacidade de amar.

Bauman vai nos lembrar em seu livro "amor líquido" do diálogo da profetisa Diotima, no banquete de Platão. Ela diz: "o amor não se dirige ao belo, dirige-se à geração e ao nascimento no belo”. Amar é querer “gerar e procriar”, e assim o amante “busca e se ocupa em encontrar a coisa bela na qual possa gerar”. O amor é um impulso criativo, ao movimento de gerar, fazer, criar. E por se tratar de duas pessoas, está marcado pela eventualidade e assim, pelo mistério. Mistério do encontro, pelo destino, pelo sublime, que vem da conquista, do ganhar, do prazer da vitória.

Aqui conflitamos nossa sociedade capitalista com a eternidade do amor. Sociedade consumista, dos produtos prontos, descartáveis, satisfação instantânea, prazer rápido, garantias, seguros e devolução. Caímos aqui no comportamento aprendido do mundo pós-moderno, capitalista e consumista, e fazemos do amor, experiências passageiras, rápidas, instantâneas e descartáveis, a que estamos acostumados.

A descartabilidade das ações da modernidade recairá nas ações do relacionamento interpessoal. Se aprendemos a descartar, usar tudo para satisfação de nosso prazer, aprendemos a ter este comportamento quanto a tudo, e também quanto aos outros, em nossos relacionamentos.

E podemos aqui nos perguntar, se temos tanta consciência do uso que fazemos do outro na busca de nosso prazer, porque ainda buscamos relacionamentos? Porque a instituição do casamento ainda é procurada, desejada e sonhada? O sonho aqui é fonte de grande parte do desejo do homem, e falando em sonho, estamos falando na fantasia, alimentada pelo que recebemos como certo a fazer ou como resquícios de um projeto de vida, com o qual nosso superego foi construído.

É a ideia da construção familiar de que fomos fruto, que muitas vezes nos dá, sem mesmo querermos, o modelo de vida que teremos que ter. Crescer, estudar, trabalhar, casar, ter filhos. É o caminho que certamente grande parte da sociedade entende como o normal. Deste projeto de vida, de que fomos alvo e que recebemos como meta a ser realizada, é certamente a razão de grande parte da busca pelo modelo tradicional de família.

Pode-se ainda relembrar daquela eterna falta, inquietação e angústia de que somos alvo e que falávamos antes. Estar com alguém relaxa a cobrança do superego a ter alguém e também a angústia vinda do medo da solidão. Paramos aqui num medo que está presente na humanidade desde seu inicio, e que provavelmente irá continuar nos acompanhando por muito tempo. A dificuldade moderna não é em não ter esta necessidade, e sim não conseguir calar as vozes dos desejos pela busca do prazer, narcísica, e perturbadas pela fantasia, que nos leva a enganação que há sempre algo bem melhor ainda a ser experimentado.

O comprometimento e a responsabilidade com o que nos propomos, nos faz coerentes com as opções e decisões que tomamos. Isso nos faz entender que toda decisão requer uma série de renúncias, e isso é o que Freud quis dizer ao falar em maturidade, em casar e trabalhar. Estar pronto para isso, para Freud, é estar maduro para dizer não ao que a fantasia nos inquietar. Renúncia é essencial da maturidade, do entendimento que nos pertence apenas uma parte, e que não estar numa eterna busca de satisfação, em novidades, e que em parte não pertence senão ao mundo imaginário.

O imaginário está cheio de ideias de liberdade e que entra em contradição com a busca de um alguém ideal. Grande parte da sociedade vive neste conflito. Sabemos que a pessoa ideal, ou o Príncipe encantado não existe, mas sim uma pessoa certa que pode nos compreender, ser capaz de caminhar conosco, ser parte de nossa felicidade, de nossa alegria e nossa satisfação. O problema é que na lista de requisitos para a pessoa certa, os itens são absurdos, incapazes de serem preenchidos, permitindo assim ao Id sua busca perpétua de novidades e prazer e ao Superego a satisfação de que sim, buscamos a família perfeita, conforme quiseram nossos pais.

Poderíamos falar aqui em enganar nosso ego, dando livres asas ao id, mas sabemos a que preço temos pago. A angústia e insatisfação geradas desta busca são de grande prejuízo. O descontentamento e infelicidade desta geração estão claramente vistos. Se algo se quebrou, joga-se fora, e compra-se outro. Se um problema veio, findamos um relacionamento e partimos para a busca de outro. Falamos em terminar algo quando foi iniciado, mas que nos dias de hoje, segundo pesquisas, nem mesmo 30% dos encontros passam no primeiro dia ou do primeiro sexo.

É que no mercado capitalista todo dia temos novidades e estas nos envolvem, nos estimulam, nos prendem. No relacionamento, todo dia é dia que alguém novo, novas experiências, afinal, com quem estamos hoje não estamos 100% feliz… não foram satisfeitos 100% da lista de exigências da pessoa ideal. É a segurança do amor eterno com a liberdade do pássaro que voa rapidamente em diferentes pombais, que consiste a grande guerra travada neste século. A oferta e a facilidade de troca, alimenta a fantasia o eterno príncipe encantado de que fomos alvo na infância, pelos contos de fadas, e que de alguma maneira ainda buscamos.

4. O Eterno, o Para Sempre

Esbarramos aqui com a ideia do “eterno, para sempre”. Desde o início da humanidade havia um fundamento forte do eterno. Nele eram construídos casamentos, reinos, políticas, famílias, bens, comércios, carreiras profissionais e também estudos e pensamentos tinham a marca do eterno. Além de recebermos de nosso seio, de nossa comunidade a herança do projeto de vida, era esse projeto, algo para sempre. Uma estrada reta e direta a ser percorrida. Havia poucas mudanças durante esta vida, e provavelmente as que haviam, mudariam pouco esta trajetória.

De um caminho bem traçado, sabendo onde se vai chegar, gera segurança para o indivíduo. Empreender uma jornada, uma aventura, onde tudo é previsto, onde tudo está traçado e pré-determinado, afasta o perigo do desconhecido, afasta o medo e afasta toda insegurança.

Carreiras profissionais normalmente herdadas do pai, vinham como caminho natural a ser seguido. Desde a política monárquica, em que a benção da coroa pertencia a uma linhagem, e o trono deixado de pai para filho, assim, todo o reino estava pré-organizado que o filho do médico, iria o suceder um dia. Lugares pouco eram conquistados, eram sim herdados. E eram estes eternos. O medo da mudança não amedrontava esta sociedade, pois não havia mudança.

Bens eram eternos. Pois fundados numa sociedade de dividida entre nobreza e povo, uns não migravam para outro. Portanto, não havia mudança. O posto dado pelo berço, iria ser o mesmo que lhe daria o caixão. E isso indiferente do poder real financeiro, pois o nobre seria nobre para sempre. O povo lhe garantiria seu luxo, com seu trabalho. A coroa iria assegurar seu lugar na sociedade.

Ideias eram eternas. Diz-se que houveram mais invenções neste século que toda a história junta. Sim, estávamos, no passado, arraigados em ideias eternas de verdade. Não havia grandes mudanças, grandes invenções, portanto a “verdade”, ou que entendemos dela, era algo eterno. Frases ecoavam por séculos, e verdades eram transmitidas por séculos, garantindo uma estabilidade racional, em que o movimento era de assegurar esta verdade, e não de debatê-la.

De certo, ao longo da história tivemos nossos ilustres pensadores, que nortearam o mundo com suas invenções e com a luz de sua razão. Muitos deles levados a desacreditar sua própria verdade pelo poder religioso e político, e outros condenados à morte para o silencio da razão. Foram certamente passos de gigantes, mas contra todo o costume e tradição.

E falando em verdade, temos a Verdade considerada "eterna", dada pela Santa Igreja. Esta vinda do Onipotente e Imutável, em que todos os dias são apenas um, onde não cabe discussão ou rejeição. Deus deu Sua Verdade, e cabe aos homens a aceitação humilde de Sua Vontade Eterna. Tudo que vem dele, ou dela, sua Igreja, como representante Dele aqui na Terra, vem com a marca do Eterno. E dela nasce toda uma construção de fé, que costurou a história. Coube a Igreja, portadora da Verdade, como foi por séculos, determinar o que correspondia com a Verdade ou não. O que estava de acordo com aquele que disse: "Eu sou a Verdade". A Igreja e pós ela, todas as religiões, estão baseadas em verdades, parecidas ou não, mas sempre fundadas em conceitos fincados no eterno.

Será o eterno a grande aspiração da alma humana? O fundo do grande desconforto, da ânsia? Santo Agostinho resumirá sua angústia dizendo: "Minha alma anseia pelo eterno, e só encontrará descanso no eterno, ou seja, em Ti".

Partindo da angústia da alma no anseio pelo Eterno, fica fácil a construção de um deus moldado a este vazio. Para uma angústia eterna, só algo igualmente eterno: Deus. Assim, fica fácil para a Igreja, portadora da palavra de Deus, ser também portadora da Verdade.

Apesar de podermos discorrer longamente sobre o assunto, cabe aqui pontuar que a fé, representante da alma e seus anseios, esta marcada pelo eterno. Bons atos ou mal atos, estariam permanentemente diante de Deus, assim como a salvação ou a condenação, serão eternas. 

Por fim, os laços eram eternos. Não poderíamos conceber numa base fundamentada no “para sempre” laços quebrados ou temporários. Isso era visto como guerra, e esta seria eterna. Tantos os combates entre nações e reinos, quando havia alguma discordância política, entrava em guerra. Como conceber um laço baseado na temporariedade? Impossível. Não há meio termos entre parceiros, sua adesão deveria ser sempre total. Esta ideia política, era vivida em escala menor pelas famílias. Amigos eram eternos, e com ambições iguais. Uma vez discordado isso, a separação vinha, e com ela o cheiro de guerra e vingança. Mas aí também temos sinais do eterno. Famosas são os contos de guerras eternas de famílias. Uma vez perguntaram ao rei de França, Carlos, o porque iriam para guerra contra Inglaterra, ao que ele respondeu, vamos porque são nossos inimigos. O jovem pergunta novamente: “e porque são nossos inimigos?” o rei sem saber bem o que responder, disse: “eles sempre o foram”.

5. A Busca Pelo Próprio Prazer

A sociedade moderna, esta marcada rapidez dos serviços, e assim pela descartabilidade de tudo. Assim, acostumados os sentimentos vão se adaptando ao mesmo esquema de fluidez. Os laços na modernidade, mesmo que sérios e bem intentos, já não sabem ter o comprometimento necessário para dar firmeza ao laço feito. Mas o compromisso também tem seus altos e baixos, e como tudo, há momentos em que somente nos restam uma visão de futuro para garantir o presente.

Um amigo, numa primeira grande briga com seu parceiro, disse a ele: "Eu fiz um investimento, e as coisas não podem ser assim". Num primeiro olhar, meio apavorado, seu parceiro sentiu seu sentimento ser rebaixado a uma categoria de compra e venda, parte de um mercado. Amor ser comparado a um investimento ainda é uma coisa que nos apavora, pois ainda estamos enraizados nas metáforas e contos de amor, que na verdade nem mesmo acreditamos. Mas o que é este movimento de desejo do outro é senão um investir de si mesmo, para garantir um futuro prometido? Entramos com nosso tempo, dedicação, esforço, dinheiro, deixando de fazer coisas, renunciando a muitos outros momentos de prazer, de conhecer outras pessoas, e esperamos um retorno, esperamos um lucro do que depositamos. Voltamos ao ponto, buscamos segurança como lucro do investimento. Ao que se surpreende ainda com a comparação do investimento, cabe perguntar qual o sentimento quando uma relação acaba. Muitos temos a sensação de perda de tempo, perda de oportunidades, perda, perda, perda.

A diferença é que num investimento financeiro, podemos ir acompanhando as altas e baixas do mercado, se assegurando de ter feito a escolha certa, uma vez caindo as ações, vendemos e mudamos tudo. No "mercado" do amor, nunca teremos a certeza plena, e será o dia a dia a provar, ou não, que estamos num bom investimento.  

Não falamos aqui em má-intenções, e em mediocridade da personalidade humana, e sim que está nascendo uma geração fruto de uma sociedade imediatista. Simplesmente não se cria laços fortes e comprometidos, porque não sabemos mais o que é isso. As relações aqui se estabelecem e se findam com extraordinária fluidez.    

Por certo ainda estamos juntos uns dos outros, e buscamos isso, porém sem o comprometimento, o sentido do dar ao outro, satisfazendo tão somente nosso próprio prazer. Freud poderá dar uma ajuda ao esclarecer o eterno desejo da satisfação do eu, do ID com suas reclamações contínuas. Ao explicar o que seria um homem maduro, Freud irá resumir em tendo a capacidade de amar e de trabalhar, ou seja, a maturidade necessária do comprometimento. É nesta busca por seu prazer, sem o comprometimento com o outro, que a ideia freudiana de narcisismo se faz cada vez mais clara.

O prazer é algo que rapidamente se satisfaz, e que volta a reclamar a satisfação, fazendo assim uma contínua busca, incansável. Podemos relembrar aqui uma das primeiras buscas de prazer do ser humano, comum a todos: a do leite materno. A inquietação da criança ao sentir a fome e sua satisfação ao receber o leite do seio materno, figura uma das primeiras necessidades do bebe, uma das primeiras buscas de prazer. Uma vez satisfeitos, a reclamação virá a tona novamente, quando a inquietação retornar. Tomemos este exemplo para entendermos a busca cíclica do prazer. Uma busca ao outro, sem comprometimento, é uma busca pelo próprio prazer, que uma vez satisfeito, a fonte irá ser dispensada facilmente, visto que não houve outra intenção senão sua própria satisfação.

6. O Prazer em Freud

Em seu artigo "Formulações sobre os dois princípios de funcionamento mental" Freud irá explanar sobre o princípio de prazer. Iniciando seu escrito falando das neuroses, ele decifra que elas têm sua fonte na fuga da realidade. " Toda neurose tem como resultado e provavelmente como propósito arrancar o paciente da vida real, aliena-lo da realidade…afastam-se da realidade por acha-la insuportável, no todo em parte". 

Por ser um princípio provindo do ID ele é inconsciente, combatendo todo o desprazer, é a busca do prazer e a evitação da dor. O ID desconhece a realidade, ele deseja, e só reclama o prazer a que deseja. A realidade nos obriga a tolerar o que nos dá desprazer, a controlar as frustrações, e ter resiliência. Ele com suas reclamações pela busca cega de prazer, parece satisfazer-se somente quando a busca impulsivamente. Desejos não satisfeitos precisarão de um Ego maduro, que com suas defesas, o afastarão de uma possível neurose. Nossos sonhos a noite, e de dia, quando repelimos momentos de desprazer, mostram o poder deste princípio. É a ausência de satisfação esperada, que irá acompanhar-nos tanto no repouso noturno, quando as satisfazemos de maneira alucinatória, quanto durante o dia.

Será o princípio de realidade que vai moderar o princípio de prazer. Porém esta substituição, segundo Freud, não acontece de repente, e como isso está se desenvolvendo no Ego, os instintos sexuais deles se desligam, já que estes se comportam de maneira auto-erótica. Eles se satisfazendo em si mesmo, não deparam com a frustração, pois é a frustração que nos faz substituir o prazer pela realidade. O instinto sexual vai em busca do seu objeto de prazer somente na puberdade, mas antes disso, estará no longo período de latência. Por estas duas razoes: auto-erotismo e período de latência, é que o instinto sexual permanece tardio em seu desenvolvimento, permanecendo sob domínio do princípio de prazer por muito tempo, e em algumas pessoas, para sempre.

Por esta razão, que a fantasia está ligada ao instinto sexual, ou seja, os instintos do ego e as atividades da consciência. É o auto-erotismo, continuado pela busca do prazer, momentâneo e imaginário, já que a satisfação real requer esforço e espera. A repressão por sua vez coíbe as ideias na consciência ate onde pode, prendendo-as na fantasia. A disposição psíquica demora razoavelmente a ensinar aos instintos sexuais a realidade.

Freud diz que a realidade não destruirá o prazer e sim em sua proteção. O prazer momentâneo sendo substituído pelo prazer seguro e duradouro. Num amadurecimento normal, a substituição dos Princípios dará a mudança do auto-erotismo para a busca do objeto, para a procriação. Quando falamos em auto-erotismo estamos falando na pulsão sexual encontrar satisfação em si mesmo sem precisar do encontro de um objeto externo. 

Antes mesmo desta fase auto-erótica, o bebe tinha seu prazer apoiado num objeto externo. É o leite da mãe, que trás seu prazer, mas apoiado no objeto que é o seio. Seio que será depois substituído pelo dedo. Substituindo o objeto externo pelo prazer encontrado em si mesmo. Vemos claramente aqui que o desejo real (satisfação pela boca) permanece, mas em fantasia, já que não há mais o seio, e sim seu dedo. Freud declara como desejo este impulso de reproduzir alucinatoriamente algo que não é real, e poderíamos dizer a um objeto perdido, algo que não é mais. O que procuramos é repetir a mesma satisfação, e como esta não é mais possível, pois perdemos o "objeto-mãe" inicia a rama das representações, bem colocado por José Hiroshi, em sua publicação Narcisismo - Freud. Lacan irá nos dizer do objeto perdido para sempre. No auto-erotismo não há ainda um corpo unificado, e sim prazer parcial, recebido de partes deste eu. O eu, concebido como tal, será uma satisfação nominada narcisismo.

Muito ligado aos conceitos de auto-erotismo e auto-satisfação está o conceito freudiano de grande importância, que é o narcisismo. Freud parte do mito grego de Narciso, que era um jovem que despertou o amor da ninfa Eco, mas ao desprezar este amor ele foi condenado a se apaixonar pela sua própria imagem refletida na água, e assim a Mãe Terra o converte a uma flor que vive em lagos. Em poucas palavras poderíamos dizer que se trata da uma concentração de libido e do instinto sexual sobre si mesmo.

Lacan irá nos falar sobre o espelho, que é quando a criança consegue se perceber no espelho, e daí nasce uma ideia de unidade. O que antes eram partes, agora torna uno, um corpo separado de outros. Freud nos fala num narcisismo primário, que é este apaixonamento que ela tem por si mesma neste momento de descoberta. Para ela esta imagem dela mesma é perfeita, poderosa, e assim Freud chama de eu-ideal, super-eu, ou o superego, que é fortemente marcada pelo que seus pais desejaram para a criança. Ela aqui é o que recebeu como verdade. São exigências, dadas pelos pais, que ele terá que satisfazer.

Em nossas neuroses, não perdemos o satisfazer em objetos, mas o mantemos na fantasia, em objetos imaginários. A psicose não como objeto imaginário, corta-se com o objeto e se prende no eu. Este é bem próximo o auto-erotismo, ou do narcisismo primário.

Freud percebe quando tratava de esquizofrênicos, que seus pacientes desistiam da realidade, mas que não corta a relação erótica com as pessoas e os objetos, e sim os mantém em sua fantasia.

Voltemos aqui a 1911 quando Freud descreve o caso Schereber, e ele descreve sobre o principio de prazer e de realidade. Neste caso a introversão da libido, causou a catexia do ego, causando uma perda da realidade. Para esclarecer podemos ter o exemplo de alguém que está sofrendo de dor de cabeça, e que fortemente atormentado por esta dor, perde o interesse pelas coisas a sua volta, já que não faz parte de seu sofrimento. A libido perde seu objeto, volta-se para si, ou se refugia na fantasia de ter o objeto perdido.

Estudos da psicanálise tem mostrado que pessoas que tiveram alguma perturbação em seu desenvolvimento libidinal, na escolha dos objetos amorosos que não foram suas mães, e sim seus eus mesmos, fizeram de si mesmo o objeto de amor.

Aqui poderíamos discorrer sobre a diferença sexual do homem e da mulher, visto o objeto ser a mãe, há uma diferença no que chamamos de amor objetal. Caracterizando o homem como valorizador sexual, originado no narcisismo original da criança e transferido para o objeto sexual. A mulher tem a intensificação do narcisismo original somente depois da puberdade, o que ocorre uma desvalorização sexual. Com fundamentos no édipo feminino e no complexo de castracão, a mulher, que pela perda do falo acha na valorização de adornos e estética uma satisfação, e assim, desde sempre aprende a amar a si mesma. Quando sua libido se dirige a um objeto fora de si, ela busca no homem o mesmo amor que ela tem por si mesma. José Hiroshi comentará dizendo que a mulher nao deseja tanto amar e sim ser amada.

7. Freud: O Mal-Estar da Civilização, 1920

Aqui Freud nos lembra a mesma ideia de troca, de que falava Bauman, de que precisamos dar algo de valor para receber algo de valor. Para Freud, sua geração havia entregue muito de sua liberdade em prol de segurança. Hoje, seguindo a ideia de Freud, temos o contrário, uma geração que entrega muito de sua segurança em prol de sua liberdade. Temos aqui uma geração fixada em liberdade, mas que depois de prova-la em detrimento de sua segurança, começa a reclamá-la. Daí vem que em muitas nações o povo dá um verdadeiro crédito ao poder público, esperando dele a estabilidade de que ele necessita e sente falta.

8. Os Laços Humanos na Pos-Modernidade

Um jovem de 24 anos diz para seu avô que fez 500 amigos em uma semana no Facebook, o maior exemplo de rede social da atualidade. Ao que seu avô disse não ter nem mesmo em 86 anos feito este número de amigos. Mas será que a ideia de amigo é a mesma coisa para os dois? O conceito de amigo para o senhor de 86 anos, está vinculado a ideia de uma geração em que a amizade era restrita aos que estavam ao seu redor, quem participava livremente e com amor, de sua vida, de seu dia-a-dia, quem tinha interesse pelo que se passava com ele, enfim, para quem caminhava com ele.

Comunidade e redes são coisas diferentes, pois na comunidade está o lugar do seu nascimento, de onde vive e retira sua base e fundamento social. Na rede há duas atividades: conectar e desconectar. A facilidade do desconectar talvez seja a diferença. E também de reconectar, ou conectar com novos amigos. Num relacionamento pessoal, o desconectar é um processo traumático e difícil, quase sempre uma violência para ambos.

Desculpas, explicações, mentiras, discurso, e também ouvir reclamações, direitos, chamadas de atenção, lições. São atitudes e comportamentos próprios de uma relação pessoal, ao passo que o simples botão de cancelar, aqui se torna bem mais atrativo, simples e rápido, como tudo que foi prometido na vida moderna.

Quais laços foram feitos no botão de conectar e deletar? Na relação real, há um movimento de bênção e de maldição, segundo afirma Bauman. Bênção porque gera prazer, é satisfatório, ter um parceiro em quem confiar e fazer algo por ele e receber dele. Jovens conectados em amizades virtuais, podem até mesmo, nunca terem experimentado essa troca de prazer numa relação real e pessoal. Bauman explica que há também o lado da maldição, pois quando entra num laço, há uma esperança de estar nele para sempre. A maldição vem de tudo que faz nos separar desta amizade. É o que nos faz ir contra ao juramento que fazemos "de até que a morte nos separe", e isto também para as amizades, que ecoam o mesmo juramento. O juramento fundado no eterno partia do principio de que acontecesse o que acontecesse, estariam juntos.

Hoje o juramento perdeu, como tudo, o sentido, já que estamos perto de alguém até que apareçam novas oportunidades, até que a vida faca que escolhemos caminhos diferentes ou até mesmo até quando nos interesse. Isso permite uma busca incessante por algo que jamais se terá, pois muitas vezes pertence à fantasia, a idealização. Esta descomedida busca torna o homem solitário, no meio de muitos solitários.

Estas novas construções de amizades minam e destroem o sentido da palavra amigo, e em consequência, da relação interpessoal. Bauman aponta que toda relação precisa estar sob 2 pilares: segurança e liberdade. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um caos completo. Para ele a dificuldade está em encontrar a medida certa. Pois se você tem mais segurança, você entrega um pouco de sua liberdade, e cada vez que você tem mais liberdade, você entrega um pouco de sua segurança. É um ganhar e perder ao mesmo tempo. 

9. Um Mundo Virtual: Relacionamento Virtual

Temos pessoas que por sua história de vida e pela configuração de seu Ego, buscam uma relação mais estável. Porém, muitos casais ou mesmo em relações familiares ou de amigos, se permitem a novidades, não descartando a possibilidade de uma relação aberta. Ou mesmo há quem não permita nenhuma abertura, para preservar sua liberdade, não evitando os conflitos da rotina. Assim, vamos formando laços frágeis, fáceis de romper, pois cada um já está no seu próprio espaço, e não num espaço comum.

Esbarramos aqui num grande problema que está na construção de mundos separados, convivendo juntos. Pouco a pouco, com a ideia de preservação de seu próprio espaço, cada um cria espaços diferentes, e que podem findar numa vida separada. Muito diferente do propósito de uma vida a dois. Precisaríamos definir os limites da vida privada de cada um, para que o respeito a cada privacidade não esbarre numa vida de separação.

Respeitando o que perfaz a personalidade de cada membro, deve o casal se fortalecer no que os torna um, razão de estarem juntos. É nesta visão clara do que os une, que os laços serão criados, e fortalecidos sempre que vivenciados com o comprometimento da doação de si ao outro, satisfazendo seu prazer ao mesmo tempo que preocupado com o prazer do outro, em ser fonte de prazer para o outro.

Ainda nos foi lembrado por Bauman, citando os comentários de Catherine Jarvie, sobre as relações chamadas de bolso, que estão de difundindo enormemente. São estas relações de curta duração, e fortes, e as guardamos para serem usadas num momento de necessidade. São instantâneas e disponíveis. Nelas não falamos em paixões, e menos em amor. O comprometimento é a medida da necessidade, o que pode ser feito um bom uso para pessoas de cabeça fria, que não envolve-se facilmente, e não são tocadas por sentimentalismos.

Esta busca sem comprometimento, fragilizada pelo narcisismo, pela busca de seu prazer, fará este homem entrar na busca continua de algo alimentado pela sua fantasia. Ela utilizará dos meios que tem para se alimentar, e hoje, na modernidade, podemos falar no virtual.

 Toda a ideia de segurança e liberdade a que buscamos e que temos falado aqui, vai se adaptar com facilidade nas redes sociais. Os chamados chats são uma maneira cômoda de relacionar-se. Preservamos toda segurança e toda liberdade que desejemos nos botões de conectar e desconectar. E estes botões nos permitem caminhar entre a dor da solidão e o medo do compromisso, a dureza do silencio e exclusão e da rigidez do compromisso.

Recorrer ao mundo virtual, é confortar estes dois pilares. Herdeiros dos contos de fada, a ideia perpétua do Príncipe Encantado irá se adaptar prontamente na educação que temos recebido do mundo consumista e capitalista, como temos visto. Frutos desta geração de fluidez e liquidez, rápida e instantânea, é a que o mundo virtual irá permitir a busca do verdadeiro amor, o Encantando.

E literalmente Encantado, por assim dizer, pois ele disfarça a fuga que temos da realidade. Nossa incapacidade de fazer laços, unida com a cobrança de uma vida a dois, é satisfeita na desculpa da busca da pessoa correta. Pessoa esta que por ser encantada, não tem defeitos, e se os tens, são os que nós gostamos. Moldamos um ideal (irreal) de pessoa correta para nós, e o achamos em nossa fantasia.

A busca se depara então com o mundo virtual, uma busca moderna, mas que serve para satisfazer nossos desejos egoístas de prazer. Entrar neste mundo, é antes uma busca pelo irreal, dar asas à fantasia, do desejo de ser o que não se é, e de ter o que na verdade não temos.

Pesquisas mostram que cerca de 70% das pessoas que estão em busca de alguém no mundo virtual, nunca saíram para um encontro real. O mundo ideal de ALICE, por assim dizer, moldado a nossas vontades e desejos, a nossa medida, é vasto demais para ser interrompido pela escolha de uma pessoa. Deixar de ser o que não somos, encarar a falta de segurança e de liberdade, se torna dura demais, contrastada a facilidade do prazer virtual, comodidade do não compromisso.

Dos 30% que encaram os perigos do mundo real, onde a fantasia volta a ser a dura realidade das dificuldades do comprometer-se com o outro, grande parte, quase todos, retornam ao mundo virtual, a busca pelo seu príncipe e assim, a busca pelo seu prazer descompromissado.

O que não contamos é que nosso inconsciente irá guardar as milhares de pessoas conectadas, seus amigos, que lhe esperam ansiosos para mostrar um mundo de perfeição e de prazer, muito melhor do que esta pessoa que trás tantas dificuldades. É aqui, ao meu ver, que se encontra o pior dos perigos. Sair do mundo virtual, cortar os laços com a fantasia, será a guerra.

Em muitos relatos de atendimentos psicológicos temos visto a dificuldade de sair da "perseguição" do mundo virtual, ou até em alguns casos, a dificuldade em voltar ao mundo real, com relações reais e interpessoais. Muitos casos temos visto, e com grande preocupação, de casais que em momentos de dificuldades, acham no mundo virtual o escape perfeito. O retorno ao mundo virtual tem se tornado o grande problema vivenciado pelos casais, e entre os solteiros, a dificuldade de sair deles e encarar o relacionamento real.

Estamos falando aquela vozinha doce que nos lembra de que neste momento em que seu parceiro está muito difícil, ou que a vida está muito "normal", sem novidades, existem tantas e tantas mil pessoas conectadas, esperando somente seu toque de conectar. É um eterno leque de opções sempre disponíveis a nossa fantasia.

Hoje temos a nossa disponibilidade esta conexão 24 horas e aonde quer que estejamos. Telefones celulares já têm muitas funções, e a mais importante é a conexão com a internet. Estar conectado, disponível já faz parte das necessidades diárias.  Saindo de casa, colocamos a mão no bolso: carteira, chaves e celular… ok estamos seguros… Estando com o celular, e tudo esta feito para estar com ele, roupas e bolsas com partes para guardar ele, capas fixadas em cintos, e outros, não estamos longe e nem perto, estamos conectados. Não há mais lugar em que estamos só, puxamos o celular, mensagens, ligações, conexões.

O estar conectado, vai criando uma dependência desnecessária. Quem nunca se sentiu pelado ao perceber que esqueceu o celular em casa ao sair? Já não é incomum ver nos restaurantes as pessoas sentadas, reunidas, e todas usando o celular. Estar num relacionamento com o virtual, nos faz cada vez mais distantes do que nos é real, do que nos rodeia. Sentimentos frágeis de falsa segurança e liberdade serão cada vez alimentados pelo uso de ferramentas de amizades virtuais. Já é possível perceber que temos extrema dificuldade de relacionamento interpessoal, do contato.

Voltar para o mundo real depois de desligar um computador é uma dificuldade aparentemente simples, mas que nos consultórios temos percebidos que não. As milhares de pessoas conectadas se fazem fantasmas que acompanham a mente de sujeito, fazendo dele um eterno desejoso de conhecer alguém especial. Fazem dos defeitos de nossos parceiros obstáculos intransponíveis.

Cada vez mais influenciados pelo mundo pós-moderno, somos mais afeitos ao auto-erotismo, ao narcisismo, ao culto do eu, da fuga do objeto de prazer no outro, das vivências da fantasia. Abrir mão das asas da fantasia, das vivências alucinatórias, para o amadurecimento psíquico, do amar e trabalhar, certamente é desafios desta nova era.

Sobre o Autor:

Igor de Melo - Graduou em psicologia após ter estudado direito, no Brasil. Hoje o autor vive nos Atlanta USA onde dá continuidade aos seus estudos em psicologia, e em especial, sobre relacionamentos na pós modernidade. Convidado a transformar este artigo em um livro, ele hoje está finalizando a obra, que segue as mesmas diretrizes. Ele está a disposição pelo email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. "Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos" – Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

FREUD, Sigmund. "Formulations Regarding the Two Principle in Mental Functioning"1925 C. P., 4, 13-21. (Trad. de M. N. Searl).

FREUD, Sigmund. “Mal-estar na Civilização” in Obras Psicológicas Completas - Rio de Janeiro, Imago Editora, 1988.

HIROSHI, José Taniguti. "Narcisismo: Freud" Internet pagina: http://pt.scribd.com/doc/16372800/NARCISISMO-FREUD

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