A Ninfeta: um Estudo de Caso Sobre a Sexualidade na Adolescência

(Tempo de leitura: 16 - 32 minutos)

Resumo: O trabalho aborda um caso de Sexualidade na Adolescência, atendido no Centro de Referência Especializada de Assistência Social- CREAS. Trata-se de uma adolescente que sofreu abusos sexuais, onde se apresentam fatos de que o abuso não está separado de sua história, e de como ela vem respondendo aos traumas deixados pelo Outro.  O conteúdo deste estudo abrange conceitos psicanalíticos ligados à sexualidade na adolescência. São apresentados fragmentos de um caso clínico visando facilitar as articulações entre teoria e prática psicanalítica.

Palavras-chave: Abuso, Adolescência, Sexualidade, Trauma.

A Sexualidade na Adolescência consiste numa trama de processos pelos quais decidi desvendar. Descobrindo a complexidade dos enredos apresentados pela paciente, utilizo da ótica psicanalítica para compreender e construir um entendimento dinâmico do mesmo. As manifestações afetivas e os fatos da vida psíquica instigam questões e trazem inquietações, algumas das quais abordarei neste trabalho.

Este trabalho é fruto de três meses de estágio e traz consigo a minha escolha pela psicanálise e pela posição que a mesma nos coloca ao tentar compreender o desejo, determinante do sujeito. Sair da posição da suposta normalidade para aventurar-se na beleza das experiências universais, e ao mesmo tempo tão singulares para cada sujeito.

O enfoque teórico é direcionado à Sexualidade e Adolescência e em seguida relatarei fragmentos de um caso, recebido no CREAS – (Centro de Referência Especializado de Assistência Social).  Entende-se o CREAS pela unidade pública estatal de abrangência municipal ou regional que tem como papel constituir-se em lócus de referência, nos territórios, da oferta de trabalho social especializado no SUAS as famílias e indivíduos em situação de risco pessoal ou social por violação de direitos. Os pressupostos políticos nacionais do CREAS oferecem serviços especializados e continuados a famílias e indivíduos em situação de ameaça ou violação de direitos como violência física, psicológica, sexual, tráfico de pessoas, cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto etc. Para o exercício de suas atividades, os serviços ofertados nos CREAS devem ser desenvolvidos de modo articulado com a rede de serviços da assistência social, órgãos de defesa de direitos e das demais políticas públicas. A articulação no território é fundamental para fortalecer as possibilidades de inclusão da família em uma organização de proteção que possa contribuir para a reconstrução da situação vivida (MDS, 2010).

Assim sendo, o presente estudo tem o objetivo de fazer um aprofundamento teórico baseado no estudo de um caso clínico, em acompanhamento no campo de estágio. Inicialmente, serão feitas algumas considerações acerca da Sexualidade infantil e da adolescência baseada na teoria Psicanalítica.  Por fim, será feito um estudo dinâmico deste caso, a fim de clarificar os caminhos que serão percorridos no curso do tratamento.

Este estudo aponta a existência da sexualidade desde a primeira infância. A partir daí, Freud afirma que a sexualidade não é exclusividade do púbere e que é um erro acreditar-se nisso, pois se abandonarmos nossa hipocrisia teremos variadas provas de sua existência na infância. Assim nos afirma: "Um estudo completo das manifestações sexuais da infância provavelmente revelaria os caracteres essenciais da pulsão sexual e nos mostraria o curso de seu desenvolvimento e a maneira pela qual ela se consolida a partir de várias fontes". (FREUD [1905], 1972, v.7, p.177).

Freud faz um estudo aprofundado das aberrações sexuais e sua relação com a vida sexual normal infantil e aponta a predisposição para as perversões como parte integrante da constituição normal da sexualidade. Observa-se que nesse trabalho, Freud já anuncia sua grande descoberta sobre a sexualidade e estabelece o primeiro patamar sobre a teoria das pulsões.

No segundo ensaio, aborda claramente a sexualidade infantil com a enunciação das zonas erógenas e sua precoce estimulação que acarreta uma satisfação que tende a repetir-se. Enuncia a sexualidade infantil como "perversa e polimorfa" e conclui que na puberdade as pulsões parciais ficam "sob o primado da zona genital" com o objetivo da reprodução e a escolha de um alvo sexual num objeto fora de seu corpo.

Com o terceiro ensaio, As transformações da puberdade, Freud nos anuncia que:

"Com a chegada da puberdade, operam-se mudanças destinadas a dar à vida sexual infantil sua forma final normal". (FREUD [1905], 1972, v.7, p.213). Isto significa que na adolescência, além de reviver a sexualidade infantil, o jovem passa por novas experiências e composições psíquicas que muitas vezes evidenciam questões edipianas e rivalidades como base. Nesse sentido cada sujeito vai construindo a sua realidade psíquica, onde simboliza toda a sua história.

Quando Freud elaborou, em 1905, seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, utilizou o termo puberdade referindo-se a esse tempo de transformação pelo qual é entendida a adolescência, isto é, como um segundo tempo da organização sexual, onde as pulsões parciais subordinam-se ao primado da genitalidade, assim como ocorrem o retorno e as conseqüentes ressignificações dos traumas sexuais infantis.

Psiquicamente falando, a sexualidade torna-se exuberante em dois estágios do desenvolvimento humano, não devendo ser entendida apenas pelo lado do encontro erótico ou genital, mas em todas as suas formas de manifestação. O primeiro estágio ocorre na infância, na fase fálica, e o segundo instante de interesse sexual acentuado dá-se na puberdade, empurrando o jovem para a busca de objetos amorosos fora do seu meio familiar. Entre esses dois momentos a criança passa pelo período de latência onde há certo adormecimento da sexualidade. Quando retorna dessa "desaceleração” a pulsão sexual mais catexizada pela puberdade empurra o sujeito para a busca de outras relações objetais (FREUD [1905], 1972, v.7, p.213).

Freud nos esclarece que, além da revivescência das fantasias infantis, o jovem deve intensificar a produção das fantasias, as quais serão transformadas em "ficções mnêmicas", como resultado do romance familiar e são a base para a produção de sintomas no sujeito que “adolesce”. Romance familiar é um termo utilizado por Freud para identificar as fantasias infantis que a criança estabelece, imaginariamente, nas relações com os pais e que são reatualizadas na adolescência. Tem sua base no complexo de Édipo e pode expressar um desejo de grandeza, ou ao contrário, de abandono (FREUD [1905], 1972, v.7, p.213).

Na adolescência, além do aplacamento das fantasias edipianas, espera-se que o complexo de Édipo tenha exercido seu papel e que o recalque tenha atuado, de maneira que o jovem possa dirigir para um objeto do meio exterior seu amor e afeição. Repudiar e subjugar as fantasias incestuosas implica reaver-se com a castração e a interdição. Na infância, o sujeito deve resolver seu complexo de Édipo através do recalcamento e do período de latência, mantendo a crença de que ao crescer a ameaça de castração não incidirá mais sobre ele, assim como não incide sobre o pai, imaginariamente detentor do falo. Falo é entendido aqui como o significante que vem suprir a falta materna, aquilo que sustenta o desejo materno, ao qual a criança busca se assujeitar a fim de tamponar o seu desamparo. Na adolescência, o sujeito ao reviver suas fantasias edípicas deve deparar-se com o fato de que a castração incide para todos, inclusive para o pai e a partir daí opera-se uma modificação subjetiva (FREUD [1905], 1972, v.7, p.225/226).

Pela teoria freudiana, na adolescência o jovem deve submeter-se ao trabalho psíquico próprio da puberdade que é o de “reorganizar” o caminho sexual infantil e lidar com duas novas exigências: atender à demanda libidinal tentando dar-lhe uma forma ou um posicionamento sexual, aplacando o retorno das fantasias incestuosas edipianas; e atender à demanda social que lhe impõe sua separação das figuras parentais e o estabelecimento de novos laços sociais (FREUD [1905], 1972, v.7, p.225/226).

Com o período da puberdade ele inaugura um período de mudanças que começa com as transformações físicas e se estende até a eleição do objeto sexual. O uso do termo puberdade ao invés de adolescência, é a marca da inserção do pensamento freudiano na cultura de sua época, pois mostra a maturação fisiológica como limite a infância. Isto significa que na adolescência, além de reviver a sexualidade infantil, o jovem passa por novas experiências e composições psíquicas que muitas vezes evidenciam questões edipianas e rivalidades como base. Nesse sentido cada sujeito vai construindo a sua realidade psíquica, onde simboliza toda a sua história. Com base nisso, podemos compreender que para a psicanálise a adolescência significa, além das transformações sexuais, uma experiência de ordem psíquica que envolve um trabalho de luto e de elaboração de perdas difícil de ser realizado por qualquer sujeito (FREUD [1905], 1972, v.7, p.213). A puberdade, então, em sua articulação com o Édipo pode ser considerada uma via de definição de tudo aquilo que foi conferido e estabelecido no jovem, desde a sua infância.

Aos 14 anos, Lolita, assim optei em chamá-la, compareceu até o CREAS – (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), para atendimento psicológico após um ano morando no Abrigo, onde já recebia atendimento da Psicóloga  local, sendo encaminhada posteriormente até mim. Durante esse período, a principal queixa relatada pela coordenadora do Abrigo e da equipe do CREAS era que havia um desenvolvimento precoce da paciente diante da sexualidade e receio que as mesmas têm de confiar nas palavras e atitudes de Lolita.

Lolita é uma jovem adolescente e irmã mais velha de cinco filhos. Na primeira sessão ela relata que sou a terceira psicóloga com quem está fazendo atendimento, mostrando-se descontente por ter que expor sua história novamente, onde ressalta a falta de confiança que tem nas pessoas, por fazerem muitos julgamentos a respeito de sua vida.

Logo no início, trouxe com bastante ênfase, a sua relação com a mãe. Conta que teve uma infância difícil. Relata que sua mãe as abandonou várias vezes por conta da bebida. Em sua infância, teve que cuidar de suas irmãs quando sua mãe saía de casa e não tinha dia e hora para voltar. Dessa forma, obrigava-se a cuidar de si própria e das irmãs quando ela mesma precisava ser cuidada.  

Freud anuncia que a base para a escolha de objetos de amor que se observa nas crianças em crescimento derivava de suas primeiras experiências de satisfação, indicando, portanto que “os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção: isto é, no primeiro caso, sua mãe ou quem quer que a substitua.” (FREUD [1914], 1972, v.14, p.104).

Fala da mãe sempre com sentimento de vitimizacão, nunca tiveram muito diálogo e se considera uma pessoa difícil de lidar, bruta e vingativa, sua raiva e magoa só aumentaram ao longo da vida, pois sentia que sua mãe só dava amor para o pai de suas irmãs. Contou que não conhece seu pai biológico e que foi criada pelo padrasto e por ele tinha um carinho enorme, “eu amava ele”. Hoje esse padrasto é falecido e diz sentir muita falta dele. Relata que sua mãe nesse período em que estava sozinha bebia e brigava direto e foi o que mais marcou ela e suas irmãs até hoje: “ela chegou em casa bêbada e começou a brigar e me deu um chute no nariz,e  de tão forte quase quebrou”.

Relata que aos onze anos sua mãe conheceu outro homem, e posteriormente foram morar juntos. Lolita diz que não demorou muito tempo, começou a presenciar várias brigas dele espancando sua mãe. Pelo fato da mãe beber diariamente as brigas aconteciam constantemente, até o dia em que não agüentou mais ver a situação e partiu para cima dele, golpeando da forma que conseguia, “ele me fez sofrer, por que ele bebia e batia na minha mãe e eu sempre agüentei calada, ate um dia ele bateu de novo na minha mãe daí eu fui pra cima dele, dois dias depois ele bateu de novo na minha mãe, e avançou e me pegou a força em cima da minha cama.” Segundo Araújo (2002), o abuso sexual é uma forma de violência que pode envolver poder, coação e sedução. Quando realizado desta forma, pode ser praticado sem o uso de força física, não deixando, assim, marcas visíveis. Com isso, torna-se mais difícil a sua comprovação, especialmente com crianças pequenas. Uma pesquisa realizada por Habigzang, Koller, Azevedo e Machado (2005) demonstra que, em sua maior parte, os abusos sexuais contra crianças e adolescentes ocorrem dentro de suas próprias casas, sendo que os principais abusadores são o pai biológico ou o padrasto. Quando a violência envolve as relações familiares (pai, padrasto, tio, primo, irmão, mãe, avós, entre outros), o sofrimento e desamparo são intensificados, uma vez que aquela pessoa de quem a criança esperava cuidado e proteção transforma-se numa ameaça sempre presente.

A situação de abuso sexual é entendida como trauma do ponto de vista da psicanálise. Para Ferenczi (1992), nas situações de abuso sexual, ocorre uma distorção da linguagem entre adultos e crianças. O trauma é entendido como uma situação excessiva vivida pelo sujeito, que no momento é incapaz de dar vazão a tal carga energética (LAPLANCHE, 1979; MARIN, 2002).

Para Laplanche (1979), o trauma psíquico provoca efeitos patológicos duradouros na organização psíquica. Freud, em “Além do princípio do prazer” (1920/1989), destaca que o excesso de excitação anula o princípio do prazer, obrigando o aparelho psíquico a um trabalho de organização das excitações. Nesse momento, como afirma Freud, a excitação excessiva ultrapassa as defesas do aparelho psíquico e aparece à incapacidade de dar conta da situação e de compreendê-la, o que é, segundo o autor, uma vivência de terror. No caso do trauma vivido por crianças e adolescentes abusados sexualmente, essa situação excede a capacidade da criança de dar sentido, constituindo-se, dessa forma, como traumática, instalando-se pela distorção que se estabelece na linguagem da relação adulto/criança. (FERENCZI, 1992; GABEL, 1997).

Hoje sua mãe mora sozinha, continua bebendo e diz vê-la poucas vezes, que os momentos que estão juntas passam discutindo, pois, tem medo que os novos namorados de sua mãe façam com suas irmãs  o que o último padrasto fez consigo “eu tenho ódio dele, tenho vontade de matar”. Percebi que apesar de toda mágoa, raiva e ódio que diz sentir de sua mãe, sente sua falta, mas não gostaria de voltar a morar com ela. A partir desse dia o seu sentimento de abandono pela separação da mãe começou a ser elaborado. Relata não ter um bom relacionamento com suas irmãs, pois brigam direto com ela, e a culpam de estarem morando no abrigo, e por estarem longe de sua mãe.  Relatou tudo para o Delegado, falando que sua mãe aprontava direto e sempre foi muito ausente não sabendo educá-las, “ela me dizia direto que eu era carta fora do baralho”. Por não ser filha do segundo marido, relata que a mãe constantemente deixava explicito que havia amado somente ele na vida. A ambivalência entre os sentimentos hostis e amorosos se manifesta em toda a sua teia de relações com a mãe. 

No segundo atendimento relatou seu incômodo em falar de sua mãe, diz ter brigado com uma das monitoras do Abrigo. Pergunto se ela se ofende quando falado de sua mãe, ela responde: “eu não gosto que falem, parece que me trás de volta pro passado, me trás mágoa, lembranças ruins, por isso tento sufocar o sentimento, e eu sei que ela não vai mudar”. Relata que seu padrasto acabou com sua vida, pois ele era culpado dela brigar com sua mãe e sair na sexta-feira e voltar apenas na segunda pela manhã para ir à escola “eu saia de casa, ela chegava bêbada, ai eu ia pra casa dos meus amigos, eu me perdi também”.

Diz não gostar de mexer no passado, pois trás sofrimento em lembrar o que o padrasto fez consigo quando tinha onze anos de idade “ele me pegou a força em cima da cama, então ali eu percebi que ele fez com que eu criasse ódio dele, eu não podia fazer nada, não tinha reação”. Para o abusador essa “ninfeta” seria uma menina púbere que desperta um desejo sexual. Há, portanto, um deslocamento que, sem eliminar a figura da mulher adolescente, situa no olhar do homem a imaginação que projeta as qualidades capazes de ativar a sexualidade em um objeto que se torna, então, desejada. Por já estar em idade escolar, onde já estabelece a distinção entre fantasia e realidade, o relato de abuso sendo fruto de fantasia perde a consistência, ou seja, a perspectiva psicanalítica ao dar um papel de destaque aos desejos sexuais precoces, bem como o fato de postular as exigências de fantasias incestuosas da criança alimenta potencialmente o discurso de que são as crianças que seduzem o abusador.

A teoria da criança sedutora como vítima, faz jus a toda essa ótica. Essa teoria presume que a criança abusada cooperou com o ofensor ou procurou o envolvimento que se desenvolveu entre si e aquele, sobretudo quando existe uma ausência de força, e quando o abusador não é visto pela criança como ameaçador (Almeida, 2003). Devido a este alegado, no comportamento sedutor existe uma tendência em culpar a criança de instigar a interação sexual. Segundo Rosenfeld (1997 cit. in Almeida, 2003) descreve que a criança desenvolve estes comportamentos sedutores como esforço para obter atenção e afeto.

Nesses momentos a mãe não se encontra ausente nas situações de abuso, mas se faz presente nos bastidores dessa violência, algumas vezes, inclusive, promovendo-a, caracterizando o conluio perverso com o padrasto em troca de bebida. Nesse caso deve-se pensar no incesto numa situação triangular, estando à mãe presente ou ausente. A mãe favorece consciente ou inconscientemente a filha a se enquadrar no papel de esposa e amante, libertando-se dessas funções.

Lolita demonstra ódio do padrasto abusador e relata pedir há Deus todos os dias para que ele não apareça de novo, pois teme que aconteça o mesmo com suas irmãs, e alimenta uma vingança que pensa em concretizar quando sair do Abrigo “não vou ficar pra sempre ali, quando eu estiver com 18 anos, não me responsabilizo.” A pulsão de morte foi, a princípio, nomeada pulsão destrutiva. Quando se volta para o exterior é considerada pulsão agressiva. Tende ao desejo de dominação, ao exercício do poder. Freud nos diz que a pulsão de morte subdivide-se em duas partes, uma delas é desviada para fora, ou mais especificamente para a função sexual, onde deverá atender à função sádica, implícita na sexualidade humana. A outra parte dela permanece no interior e seria a responsável pelo masoquismo originário, erógeno, também integrante da sexualidade humana. “Por pulsão deve-se entender provisoriamente o representante psíquico de uma fonte endossomática e contínua de excitação em contraste com um “estímulo”, que é estabelecido por excitações simples vindas de fora.” (FREUD [1905], 1972, v.7, p.171). A pulsão se satisfaz, mas não completamente, por isso, a busca incessante pela realização do desejo, o qual nunca se realiza, pois quando um é alcançado, outro já está à espreita para ativar a mobilidade psíquica. Os adolescentes são os maiores demandantes, estão sempre à procura de novas experiências e novos objetos, de ultrapassarem limites e de testarem até onde podem ir.

Pode-se compreender o quanto é complexa a situação vivida pela adolescente vítima, a qual se encontra marcada pela vivência da situação violenta (traumática). Em psicanálise, a compreensão de trauma implica na necessidade de elaboração, possibilitando através do atendimento a reorganização da distorção na relação adulto/criança que se estabeleceu como traumática pelo equívoco na relação de amor. O discurso dessa adolescente nos faz pensar que, efetivamente, seu drama ancora-se em uma problemática sobre sua situação familiar, onde a transmissão dos ideais pela família esbarra inevitavelmente na fragilidade dos ideais culturais a serem transmitidos. Nesse contexto, a insegurança, ou até mesmo a ausência de um pai e a omissão da mãe pode ser perfeitamente entendida e justificada socialmente. Nesse caso, isto está presente claramente na sua história e sua família, na qual a fragilidade da presença e da função paterna deixa muitas marcas. Marcas estas que também se fazem presentes na posição ocupada pela mãe diante da filha.

Aos 12 anos, ainda morando com a mãe e as irmãs,  envolveu-se com um garoto, onde mantinha relações sexuais. Com o abuso sexual do padrasto, houve uma explosão do desejo sexual em relação ao sexo masculino, onde se desenvolveu uma maturidade em relação à conquista do parceiro, até chegar finalmente ao ato sexual. A puberdade, na opinião de Freud, redesperta o desejo sexual em uma época em que os adolescentes são plenamente capazes tanto de realizar os atos proibidos quanto de entender o tabu do incesto que lhes nega o genitor como um parceiro sexual. Freud defendia que a combinação de desejo despertaria a pressão social que leva o adolescente a procurar pessoas fora da família para amar.

Com várias denúncias de alcoolismo e agressividade, Lolita e suas irmãs definitivamente foram morar no Abrigo. Hoje aos quatorze anos, descreve que não pode fazer o que deseja e sente-se presa por não poder sair com os garotos que conheceu na escola. Relata que as monitoras do Abrigo sentem medo dela sair e engravidar, mas diz sentir necessidade de “ficar” com os garotos “eu gosto de ter minhas paqueras”. Assim, Lolita vai falando de uma série de questões em torno do que é ser mulher, das primeiras experiências amorosas com o sexo masculino, da posição que tem ocupado em sua relação com a mãe, e assim vai elaborando sua passagem de objeto fálico da mãe à construção de um modo singular de desejar.  

Relata que no Abrigo as monitoras a tratam mal, ficam julgando e controlando seus movimentos, diz que a chamam de piriguete, mas, cumpre todas suas obrigações para não dar motivos, mas, mesmo assim diz não adiantar: “eu odeio elas, pra que ficar me julgando por causa do meu passado?”, diz não compreender por que é tratada assim,  hoje considera-se uma menina legal. Quando se refere à monitora nova do Abrigo, ela diz considerar ser uma pessoa especial, diz que ela a elogia, demonstra carinho, também a trata bem, faz todas suas vontades e é confidente de suas paqueras, também trata suas irmãs como  suas filhas, “eu adoro ela, me trata como filha”. A identificação com a monitora, aquela que lhe amparava, traduzia-se na sua identificação com a mãe, por quem ela possuía apesar de muita mágoa, um carinho muito semelhante. Durante a sessão, a fala de Lolita aos poucos se desloca da relação imperiosa com a mãe para outras figuras do social, tais como a monitora do abrigo, assistente do fórum, representantes da pluralidade dos ideais culturais contemporâneos.

No terceiro atendimento, Lolita diz que procura alguém para suprir a carência que sente, pois a única amiga mulher que confia está deixando o abrigo, por isso acredita que o rapaz que está paquerando irá suprir a atenção e o carinho que foi negado por sua mãe, mas, ressalta que sua prioridade é estudar: “não quero cometer o mesmo erro que minha mãe”. Neste caso, têm-se a impressão de que a menina já é uma candidata à bêbada e irresponsável, pois, não leva em consideração seu potencial, o fato de estar em tratamento. E nesse caso as monitoras parecem não considerar a sua identidade, Costa (2003), aludindo Freud, descreve a identidade como uma confusão de afetos e representações que o sujeito experimenta e formula como se fosse a natureza de seu Eu e do outro e do mundo de coisas e objetos. Essas representações e esses afetos são transitivos e múltiplos, mudam conforme a posição que o sujeito ocupa nas relações com os outros. Dessa forma, a força da identificação culturalmente normativa, imposta pelo princípio da realidade e pelos processos secundários, impede o sujeito de derivar para o terreno do imaginário, onde o sentido da identidade é absolutamente subalterno ao princípio do prazer e aos processos primários. Ou seja, a compulsão à repetição. Nesse sentido, é importante que Lolita adquira noções de limite, do permitido e do proibido, como todos os pré-adolescentes de sua idade, mas não como está sendo feito, sem a possibilidade de ter o mínimo de lazer com seus colegas e com a expectativa de que ela repita a história de sua mãe, é muita rigidez sendo-lhe imposta.

Ao longo do atendimento Lolita tem se deparado, de forma bastante dolorosa, com a desidealização da mãe. Relata que quando está só, muitas vezes depara-se com episódios de muita angústia, para os quais não vê outra saída a não ser ouvir música no volume máximo, diz: "quando estou sozinha me tranco no quarto e ouço música no volume máximo, fico imaginando como seria a vida lá fora." Através do exercício de uma liberdade extrema, que também beira a angústia, Lolita se expõe a situações bastante conturbadas perdendo os limites no que diz respeito a sua disciplina em relação aos afazeres da casa, à escola e aos horários. Felizmente, o horário das sessões tem sido preservados, e este tem sido o espaço onde ela tem podido se deparar com seu incômodo frente a esta experiência de perda de limites e de perda de si que acompanha seu caminho em direção ao "tornar-se mulher".

Na mesmasessão Lolita, começa a demonstrar confiança em mim, pois relata que se sente bem ao vir aos atendimentos, “ah eu gosto de vir aqui, você não me julga e me entende”. Essa fala demonstra a falta de atenção que ela necessita, pois, várias vezes disse estar cansada de ser julgada e de não conseguir confiar em ninguém. Percebi que estava ganhando confiança, pois, antes do início de uma sessão ela já se encontrava no local a minha espera, onde me recebeu com sorriso no rosto e um abraço apertado. Ao dizer sobre si, a paciente está demonstrando que confia no seu psicólogo, que este para além de manter em sigilo o que é trabalhado em sessão tem uma atenção e um cuidado todo especial para com as coisas que o paciente traz e compartilha com ele.

Num encontro que tivemos no Abrigo, logo ao chegar, sentei-me ao seu lado, e de inicio pegou em minha mão, e de imediato uma das monitoras do abrigo falou: “cuida bem dela, ela disse que adora você”, nesse momento ela abriu um sorriso como se estivesse confirmando essa fala. É perceptível a carência e a necessidade que ela tem, o que faz com que se apegue criando um vínculo de confiança, o vínculo que gostaria de ter com sua mãe. Sua carga afetiva é depositada apenas em quem confia. É através desta relação que o paciente vai vendo na figura do psicólogo alguém em quem pode confiar. Segundo Lamour (1997), somente depois de aceitarmos como realidade e representarmos uma relação sexual entre uma criança e um adulto podemos então oferecer à criança a possibilidade de falar conosco. “Somos colocados em uma posição de grande vulnerabilidade, daí a importância de não ficarmos isolados” (LAMOUR, 1997, p. 60).

Gonçalves (2005), menciona que todo profissional que se dispõe a trabalhar com a violência na infância deve estar preparado para enfrentar um problema que muitas vezes é escamoteado, negado tanto pela criança como pela família, devendo, portanto, estar atento a tais implicações. Na mesma sessão ela diz não querer mais conversar com ninguém sobre sua vida, pois, temia que nossos encontros pudessem acabar “eu não quero mais falar com ninguém, eu quero continuar nossos encontros, não quero que ninguém mais saiba da minha vida”. Neste momento, estabelece-se a transferência no tratamento analítico, o maior instrumento da análise. Dentre as características da transferência (ZIMERMAN, 2004), diz que a transferência foi prematura, pois se iniciou na terceira sessão; é pertinaz, pois a cada sessão Lolita tenta se aproximar de mim e depositando em minha pessoa uma grande quantidade de afeto no amor transferencial.

A transferência surge do contato emocional dos pacientes com a situação analítica e por se tratar de uma relação dinâmica, é algo vivo. Por outro lado, sabemos que a transferência leva o psicólogo a apresentar uma resposta emocional frente ao seu paciente. É preciso destacar que esse encontro envolve duas pessoas, duas vivências. Desse relacionamento surgirão afetos, sentimentos, vivências inconscientes que vão engendrar mutualidade, tratamento relacional que está inserido no âmbito da intersubjetividade. Assim sendo, paciente e psicólogo, estão irremediavelmente vivos. Dessa forma, consideramos o efeito da presença  na vida psíquica de cada participante do encontro. Estamos, portanto, não só no domínio do intrapsíquico (PALHARES, 2008)

Durante o processo terapêutico e também ao escrever este trabalho surgiram muitos impasses: como conseguir falar sobre o abuso sexual? Como conseguir desvencilhar-se de um discurso elaborado de mágoas? Neste trabalho fiz algumas proposições, articulei alguns conceitos sem a pretensão de buscar totalidade, até porque não sei até que ponto isso seria possível e não há regras universais.

Deste modo, complemento que o ser humano nasce numa situação de total desamparo e precisa desde o início do cuidado de outra pessoa para seu desenvolvimento físico e mental. Possivelmente, as pessoas responsáveis pelo cuidado apresentarão falhas no decorrer do desenvolvimento da criança. Isso nos faz pensar na incapacidade de elaboração, de simbolização do trauma. Por isso é essencial a possibilidade que a psicanálise oferece enquanto teoria e prática, a qual proporciona a criação de um espaço relacional e de criação de sentidos e significados. Como vimos à relação com o outro é importante para o ser humano desde o início. Dessa forma, no setting analítico, a pessoa que apresenta falhas na sua capacidade simbólica, poderá desenvolver na relação com o psicólogo.

Também há inúmeros sentimentos que ficam nessas pessoas que passam por traumas tais como o desamparo psíquico, sentimento de culpa, angústia, entre outros. A auto-estima fica prejudicada, a falta de representação pode levar a compulsão à repetição ou não. Isso depende da possibilidade de aparecer alguém que faça diferente como o espaço analítico, espaço ambiente-familiar, monitoras do abrigo, psicólogo. Pessoas que possam conter toda a dor do desamparo, da ferida aberta, da angústia e da solidão, ou como, no caso da paciente Lolita, um Abrigo pode-lhe proporcionar um ambiente menos violento e mais organizador.

Outro aspecto é a questão da elaboração, do trabalho técnico do psicólogo. Por exemplo, a pré-adolescente tocou no assunto do abuso uma única vez. Às vezes, tem-se a impressão de que nada está sendo feito em relação à sua elaboração, no entanto seria outro abuso direcionar o tratamento para esse aspecto da vida da paciente. Com certeza, virão oportunidades, mas é preciso tempo e a demanda da paciente para elaborar seus traumas. Enquanto isso não acontece, está se trabalhando a questão de sua identificação, suas questões escolares, sua auto-estima.

Portanto, esse estudo tem objetivo possibilitar e reconstruir uma subjetividade que estaria perdida, reconstruir uma infância perdida, possibilitar a “redescrição de sua história” da história da criança abusada. A terapia, nesses casos, possibilitaria à vítima recuperar um lugar de sujeito. O profissional poderá dar a criança/adolescente a chance de um tratamento e, conseqüentemente, resgatar o seu lugar de sujeito.

Sobre o Artigo:

Trabalho apresentado ao Curso de Psicologia, Área de Ciências Humanas e Sociais, da Universidade do Oeste de Santa Catarina, como requisito do estágio supervisionado.

Sobre os Autores:

Juliane Picinini -  Estagiária e Acadêmica do 9º Período do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina Campus de São Miguel doOeste; Fone: (49) 88194568; E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Juliano Corrêa da Silva - Supervisor do Estágio Acadêmico; Mestre em Psicologia, Psicanalista, Professor do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina de São Miguel do Oeste; Fone: (49) 9914 7685.

Referências:

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ARAÚJO, M. F. (2002). Atendimento a mulheres e famílias vítimas de violênciadoméstica. Perfil, 9, 7-17.

COSTA, J.F. Violência e Psicanálise. 3.ed. Rio de Janeiro: Graal, 2003

FERENCZI, S. (1992). Confusão de língua entre os Adultos e a Criança (A Linguagem da Ternura e da Paixão). Obras completas Psicanálise IV (pp. 97-106). São Paulo: Martins Fontes.

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