A Sexualidade em Idosos

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Resumo: Hoje vive-se um processo de envelhecimento, o qual trás alterações e impactos importantes para a vida social, cultural e política de qualquer país. No Brasil o crescimento demográfico da população idosa é uma realidade.  Estimativas apontam que no ano de 2025 o Brasil venha a se tornar a sexta maior população idosa. Na sociedade contemporânea ainda há uma concepção muito negativa do envelhecimento, onde a sexualidade é extinta desta faixa etária, sendo os idosos considerados seres assexuados, pessoas desprovidas de sexualidade. Assim, as falsas crenças e mistificações tornam difícil falar da sexualidade dos idosos e o estereótipo é que o prazer sexual esteja limitado somente ao período juvenil da vida. Para tanto, o presente estudo vem propor uma investigação bibliográfica acerca da temática da sexualidade na velhice, procurando entender como a mesma ocorre, produzindo conhecimento e lutando para desmistificar este tema. Buscou-se investigar os impactos das mudanças fisiológicas no idoso em sua sexualidade, e como esta se dá diante de tais mudanças e de tal fase da vida. Constatou-se que a sexualidade não deixa de ser exercida com o passar dos anos, que algumas alterações ocorrem devido às mudanças fisiológicas normais do processo de envelhecimento, mas que estas não influenciam nos relacionamentos. Nota-se que nesta fase novos acordos são realizados, onde o companheirismo, a afetividade, o amor e carinho, são mais valorizados. Portanto, conclui-se que a sexualidade nasce e morre conosco.

Palavras-chave: Sexualidade, Idosos, Envelhecimento, Mudanças Fisiológicas.

1. Introdução

Atualmente estamos sendo tomados por grandes mudanças, estas englobando o Brasil e o mundo todo, dentre as transformações que nos atingem diretamente está o grande e notável crescimento da população idosa. Hoje vive-se um processo de envelhecimento, o qual trás alterações e impactos importantes para a vida social, cultural e política de qualquer país, incluído o território brasileiro.

No Brasil o crescimento demográfico da população idosa é uma realidade.  Estimativas apontam que no ano de 2025, o Brasil venha a se tornar a sexta maior população idosa, e a faixa que apresentará maior crescimento será a dos “muito velhos”, indivíduos com mais de 80 anos. Estudos também indicam que em 2050, uma a cada cinco pessoas na população mundial terão mais de 60 anos, sendo essa proporção nos países industrializados, de uma para cada três pessoas nos países em desenvolvimento (SILVA, 2010).

Dentro deste contexto, muito vem sendo realizado em prol desta população, e muito ainda tende a ser feito e construído. Cabe começarmos a nos preocupar com a saúde e o bem estar destas pessoas, considerando que em um futuro não muito distante, também faremos parte desta faixa etária. É diante de tudo que se almeja, que também seja melhorada a visão de velhice, pois, pode-se assegurar que ainda persiste na sociedade contemporânea uma concepção muito negativa da mesma, do envelhecimento e da pessoa idosa. Sendo assim, é preciso rever esses conceitos, principalmente quando volta-se o olhar para a sexualidade nesta faixa etária.

Os idosos são considerados seres assexuados, pessoas desprovidas de sexualidade, onde já não precisam mais praticá-la. E esta fábula deve ser preservada a todo custo; se preciso for, sob o controle dos filhos que se tornam, por sua vez, guardiões. Os idosos são então compelidos a ocultar cuidadosamente todo e qualquer interesse sexual sobre pena de serem socialmente desconsiderados e afetivamente rejeitados pela própria família.

Esta realidade torna-se triste e cruel, pois na obrigação de rejeitar e esconder sua sexualidade muitos idosos sofrem pela opressão, ou quando a manifestam, pelo preconceito. Assim, nota-se que as pessoas perderam a noção de sexualidade, sendo ela entendida apenas como atração e aproximação genital, quando na verdade é uma expressão muito mais ampla de afeto, de carinho, de contato, conhecimento, integração de pessoas. Obrigando indivíduos idosos, a abdicarem seus interesses e expressões sexuais, sejam eles quaisquer meios que sejam encontrados.

Portanto, ainda hoje, as falsas crenças e mistificações tornam difícil falar da sexualidade dos idosos e o estereótipo é que o prazer sexual esteja limitado somente ao período juvenil da vida. Desta forma, estudos se fazem importantes nesta área, assim voltar o olhar para a sexualidade após os 60 anos sugere uma temática, que, de uma forma geral, é negada pela nossa cultura, uma cultura que se recusa a ver que a sexualidade pode ser expressa e é direito de todos, em qualquer fase da vida que se encontre.

Para tanto, o presente estudo vem propor uma investigação bibliográfica acerca da temática da sexualidade na velhice, tendo como objetivo geral entender como a mesma ocorre, produzindo conhecimento e lutando para desmistificar este tema.  Buscou-se também investigar os impactos das mudanças fisiológicas no idoso em sua sexualidade, e como esta se dá diante de tais mudanças e de tal fase da vida.

2. Método

Foi realizada uma revisão de literatura nas seguintes bases de dados científicos: LILACS, SCIELO, Banco de dados da FURG (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).  Sem limite de data. Utilizando os termos: “envelhecimento”, “sexualidade”, “sexualidade na velhice”, “idoso”, “terceira idade”. Também se realizou uma pesquisa nos materiais bibliográficos da Unoesc – Universidade do Oeste Catarinense.

3. Discussão

3.1 Envelhecimento Populacional

O envelhecimento populacional é um dos maiores trunfos da humanidade e também um dos nossos grandes desafios. Ao entrarmos no século XXI, o envelhecimento global causou um aumento das demandas sociais e econômicas em todo o mundo (SOUZA, 2008).

Para a Organização Mundial da Saúde, são consideradas idosas as pessoas com mais de 65 anos. Esse referencial, entretanto, é válido para os habitantes de países desenvolvidos. Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, a terceira idade começa nos 60 anos (ZIMERMAN, 2000).

Essa população, de acordo com dados preliminares do último censo demográfico realizado em 2010 e divulgados pelo IBGE recentemente, sofreu significativo aumento. Em 1991 esta representava 4,8% da população nacional, passando em 2000 a 5,9% e em 2010 a 7,4%. O IBGE divulgou ainda que, a população com 65 anos ou mais representa atualmente no Sul e Sudeste do Brasil 8,1% da população total dessa região (MASCHIO et al., 2011).

Neste mesmo contexto, nota-se que o envelhecimento da população é um fenômeno de amplitude mundial; a OMS (Organização Mundial de Saúde) prevê que em 2025 existirão 1,2 bilhões de pessoas com mais de 60 anos, sendo que os muito idosos (com 80 anos ou mais) constituem o grupo etário de maior crescimento. Pelos avanços da medicina houve uma melhora significativa na expectativa de vida entre idosos e, consequentemente, a elevação da incidência de doenças crônicasrelacionadas a esse período de vida (MACEDO, 2010).

Macedo (2010) salienta que a população brasileira em particular, encontra-se em acelerado processo de envelhecimento há cerca de 30 anos. A diminuição das taxas de mortalidade e fecundidade em um espaço curto de tempo acelerou a transição da população jovem para uma população envelhecida de forma muito mais rápida do que na Europa. Em 2025 haverá um verdadeiro aumento de idosos, quando o Brasil será a sexta maior população de idosos do planeta – mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais.

Essa longevidade se deve ao arsenal tecnológico que a ciência dispõe devido ao seu crescente progresso, contribuindo, dessa maneira, como um dos fatores para o aumento significativo da população idosa. Neste contexto, tem-se observado nas relações que a sociedade estabelece com o idoso, não apenas um aumento da esperança de vida, mas uma mudança de valores, passando o idoso a ser merecedor de cuidado e atenção especiais (LAROQUE et al. 2011).

Entre os fatores que influenciam no aumento crescente da população de idosos Zimerman (2000), destaca, além dos acima citados, dois:

- Redução da natalidade: com o surgimento e a difusão de métodos anticoncepcionais, houve uma diminuição no número de nascimentos.

- Redução da morbidez e da mortalidade: apesar de grande parcela da população ainda na ter acesso à alimentação e a condições de higiene adequadas, os avanços são grandes, e a tecnologia e ciência permitem que a sobrevivência tanto de crianças quanto de adultos seja cada vez maior. Com os investimentos em prevenção para a saúde, a descoberta de vacinas,novos medicamentos e curas de doenças, o ser humano ganhou uma nova qualidade de vida, além das possibilidades de resistir a enfermidades que antes provocavam a morte em idade precoce.

Nas últimas três décadas tem-se assistido a uma maior preocupação na realização de estudos sobre o idoso, o envelhecimento e a velhice. A importância se justifica pelo crescente aumento desta população no mundo, representando novas demandas por serviços, benefícios e atenções que se constituem em desafios para os governantes e as sociedades (SOUZA, 2008).

3.2 Sexualidade no Idoso

Antes de iniciarmos esta discussão é importante definir e deixar claro do que se trata a sexualidade, a mesma é definida por Monteiro (2006 apud, CAVALHEIRO, 2008) como um conjunto de valores e práticas corporais humanas, algo que transpassa a biologia, pois está estreitamente relacionada com o íntimo de cada um(a) e suas relações com os outros e com o mundo.

Complementando, Rodrigues (2008) caracteriza sexualidade como amaneira que uma pessoa expressa seu sexo, como a mulher vivencia o ser mulher e o homem o ser homem, se expressando por meio de gestos, da postura, da fala, do andar, da voz, das roupas, dos enfeites, do perfume, enfim, de  cada  detalhe  do  indivíduo.  E a relação sexual como um  componente  da sexualidade,  e  ao  contrário do  que  muitos  pensam não  é  apenas  a  relação  pênis- vagina, mas sim, a troca de sons, cheiros, olhares, toque, secreção e carícias.

Os velhos que tem vida sexual ativa muitas vezes envergonham-se de admiti-lo. A família e a sociedade costumam desencorajá-los a isso. Cabe uma observação: sexo não é só contato genital. Carinho, outras formas de contato físico, afetivo de modo feral podem e devem ser cultivados em qualquer idade (ZIMERMAN, 2000).

É de conhecimento geral que a mídia retrata o sexo como sendo para jovens e esbeltos, e o humor ‘velhicista’ taxa os mais velhos que querem uma vida sexual de “velhos sujos” ou feios e desesperados. Correspondentemente a pessoa mais velha não encontra em seu dia-a-dia a confirmação de que desejar uma vida sexual em qualquer etapa da vida adulta é normal e sadio. Portanto não surpreende que o interesse sexual professado diminua depois dos 50 anos, o que em parte é atribuído à visão negativa da sociedade (STUART-HAMILTON, 2002).

De acordo com os pesquisadores, o ciclo se divide em: (1) fase da excitação; (2) fase do Platô; (3) fase do orgasmo e (4) fase da resolução. Sendo este ciclo ativo também no idoso (RISMAN, 1995).

A primeira fase é a excitação e inicia-se a partir de um estímulo visual, orgânico ou psicológico. Dependendo de estímulo a intensidade da resposta sexual aumenta e se prolonga. Nesta fase o homem apresenta ereção, muitas vezes adquiridas através de beijos e carícias, e a mulher a lubrificação vaginal. Após a excitação entram na fase platô. Neste momento as tensões sexuais aumentam, e o casal chega ao orgasmo. A partir daí os dois partem para a fase da resolução (RISMAN, 1995).

De acordo com Risman (1995) existe uma diferença entre a resposta sexual do homem e da mulher. Enquanto o homem atinge o orgasmo e parte para a fase da resolução, a mulher poderá atingir múltiplos orgasmos numa só relação. É importante ressaltar que a descrição feita do ciclo de resposta sexual poderá ter modificações de indivíduo para indivíduo, em termos de tempo, disposição, educação e de um fator primordial, que é o desejo de estar como o (a) parceiro(a).

A sociedade acredita que tanto o homem quanto a mulher que atingem uma idade avançada perdem totalmente a capacidade, o interesse e o desejo de manter uma atividade sexual pelas modificações fisiológicas que ocorrem no processo de envelhecimento. Esta visão, porém, não é correta e este ciclo, mesmo possuindo alterações, se faz representar na vida de um indivíduo mais velho (RISMAN, 1995).

Assim, acima confirma-se a suposição de Rodrigues (2008), que diz que a sexualidade muda no decorrer do tempo  porque as  pessoas  mudam, tornam-se cada vez  mais  elas  mesmas.  E, na velhice, pode-se dizer que com relação à atividade sexual, se perde em quantidade, mas pode-se ganhar em qualidade, devido às experiências passadas. As alterações observadas na sexualidade, com os anos, proporcionam em ambos os sexos oportunidades para se compreender melhor o sexo oposto. Envelhece-se como se vive, e falar de sexualidade no idoso é falar de vida, talvez de sua mais importante fonte  de  motivação  para  pessoas  de  todas  as  idades.

A atividade sexual é, em determinado grau, uma  questão  de  costume,  diminuindo  e aumentando  conforme  o  treinamento.  Algumaspessoas  atingiram,  por  causas  diversas,  um estado  fisiológico  e  psicológico  de  distanciamento do  mundo  do  sexo  e  de  desinteresse  por tudo  o que  diz  respeito  a  ele.  Amaneira  como  vivemos  nossa  sexualidade  é  a  expressão  de  nossa maneira de ser.  Idade ésempre  tempo de viver, de  expressar a singular idade dentro  do mistério  coletivo  que,  para  cada  um,  tem  um  começo  e  um  fim  próprios (RODRIGUES, 2008).

Assim Coelho (2003) confirma salientando que a partir da perspectiva histórico-cultural, a sexualidade do idoso pode ser percebida como processo dinâmico, marcado por contradições, imerso em uma história e em uma cultura nas quais são gerados sentidos e significados próprios. O indivíduo se constitui e é constituinte da sociedade, da cultura em que está inserido, de acordo com sua história, demonstrando a sua singularidade em suas expressões e em suas atitudes perante os acontecimentos durante a vida.

Não se pode afirmar que o velho perca a capacidade de amar, ou de ter uma vida sexual. As fantasias eróticas, o jogo de sedução, não são prerrogativa dos jovens em função de seus atributos físicos, de sua vitalidade. Na velhice, a mudança física é acompanhada de um câmbio estético, há uma mudança na forma de expressão, de escolha do objeto amoroso, o que não implica em perda do interesse ou da capacidade de sedução (SANTOS, 2003).

As expressões de afeto, as fantasias, o desejo de ser seduzido e seduzir, estão presentes na vida dos velhos como em qualquer outra etapa da vida, embora nem sempre se apresente da mesma forma. Resgatar o direito a uma vida sexual do velho implica poder pensar o amor em suas formas de transformação libidinal, ou seja, outras formas de amor, que passam pela ternura, pelos contatos físicos que erogenizam o corpo, como o olhar, o toque, a voz, redescobrindo as primeiras formas de amor do ser humano. O velho não deixa de amor, mas reinventa formas amorosas (SANTOS, 2003).

Na opinião de Coelho (2006), a vida sexual não se extingue com a idade avançada. Ela apenas muda de características, se inicia com o nascimento e se extingue praticamente com a morte. A sexualidade não é unívoca, simples, mas é constituída por uma pluralidade de tendências e de atividades. O desejo por intimidade, afeição e amor não acaba em nenhuma idade.

Assim quando o indivíduo enfrenta o fato de envelhecer, de forma realista, não tem por que falar de diminuição de prazer nas relações sexuais. O idoso não espera do outro uma grande atuação e está mais preparado para que a realização e a ternura aflorem em todas as formas de contato íntimo do corpo. Além disto, recorde-se de que a sexualidade não se reduz aos atos genitais, como também inclui todas as demonstrações de afeto. O sexo na terceira idade, além da satisfação física, reafirma a identidade de cada parceiro, demonstrando que cada pessoa pode ser valiosa para a outra. Junto ao sexo, também estão valores muito importantes na terceira idade: a intimidade, a sensação de aconchego, o afeto, o carinho e o amor (COELHO, 2006).

No entanto, a subjetividade social interfere na constituição da sexualidade do indivíduo, Vieira (1996 apud COELHO, 2006) afirma que a sexualidade é também um fator social, à medida que é regulada pela sociedade através de leis, tabus e pressões familiares que tentam persuadir o indivíduo a obedecer determinadas normas de comportamento sexual.

A satisfação que é encontrada vai além do sexual genital. Na velhice a sexualidade é mais plana. Mesmo que haja problemas sexuais; mas o carinho, a camaradagem, o companheirismo, cumprem uma função de complementação tão satisfatória no prazer como o sexo no sentido físico (SANTOS, 2003).

Para muitas pessoas de mais idade, a sexualidade oferece a oportunidade não apenas de expressar paixão, mas afeto, estima e lealdade. Fornece provas afirmativas de que se pode contar com o corpo e seu funcionamento. Permite que as pessoas se afirmem positivamente. Traz consigo a possibilidade de emoção e romance. Expressa a alegria de estar vivo. Oferece um constante desafio ao crescimento e mudanças para novas direções (COELHO, 2006).

O autor acima ainda salienta que devemos acreditar que podemos exercer a nossa sexualidade e que ela está viva dentro de cada um, independentemente da idade. Mas também é preciso ter coragem para derrubar todos os conceitos e preconceitos existentes a fim de se manter o exercício da sexualidade sem culpa e medo, pois se o idoso estiver psicologicamente e organicamente saudável, o desejo de prazer poderá existir durante toda vida.

Assim, a complexidade do sistema subjetivo de cada ser humano permite que cada um vivencie sua sexualidade como experiência única e singular. Nada é mais singular que o modo de vivenciar e entender a própria sexualidade (COELHO, 2006).

3.3 Impactos das Mudanças Fisiológicas do Idoso em sua Sexualidade

A idade não dessexualiza o indivíduo, o que existe na verdade são apenas modificações quantitativas da resposta sexual, ou seja, a vida sexual transforma-se constantemente ao longo de toda a evolução individual, porém só desaparece com a morte. Até recentemente, ainda se acreditava que por volta dos 50 anos o declínio da função sexual era inevitável devido à menopausa feminina e à instalação progressiva das disfunções da ereção masculina. A concepção pioneira de Freud afirmando o prazer como objetivo da sexualidade humana liberou-a da obrigação de resultado pela reprodução e transformou essa ideia (SOUZA, 2008).

Para compreender a problemática da sexualidade nos idosos é preciso levar em conta fatores básicos que afetam o comportamento e a resposta sexual em qualquer idade, onde a saúde física contribui, afinal, a doença pode reduzir ou impedir o interesse pela sexualidade em qualquer idade. Segundo estudo, raramente o equipamento sexual se deteriora no envelhecimento normal, impedindo os adultos maduros de permanecerem sexualmente ativos enquanto tiverem saúde (SOUZA, 2008).

No envelhecimento há uma tendência geral em diminuir a capacidade funcional, tanto celular quanto organicamente. Assim, a composição corporal vai sofrendo modificações importantes com o envelhecimento. Essas alterações são um processo contínuo e normal que se inicia na vida adulta e se prolonga até a morte (SILVA, 2010).

Essas mudanças não deixam de afetar o sistema genital masculino e feminino, onde mudanças acabam ocorrendo. O sistema genital feminino também passa por transformações, ocorrendo desta maneira a falência dos ovários, a qual é a principal alteração, com quedas da produção de estrógenos, progesterona, consequentemente atrofia dos órgãos genitais e suspensão do ciclo menstrual (menopausa). Iniciam-se assim, sintomas do climatério: calores, sudorese, depressão, cafaleia e insônia. Esses sintomas são variáveis em intensidade de mulher para mulher (SILVA, 2010).

Ocorre redução da lubrificação, oque provoca atrofia vaginal, e com isso a mulher idosa pode apresentar desconforto, dor e sangramento nas relações sexuais. Devido à redução dos hormônios sexuais é característico o acúmulo de gordura nas coxas e nádegas, a pele fica mais fina e distrófica e o tecido glandular das mamas é substituído por gordura com consequente flacidez (SILVA, 2010).

Reforçando Risman (1995) afirma que na fase da excitação, onde a lubrificação era adquirida rapidamente na época jovem da mulher, na idade avançada existe uma demora. Por esta diminuição de lubrificação a mulher poderá sentir dor na hora da penetração (dispareunia). Porém este incômodo poderá ser resolvido por tratamento através de produtos à base de estrogênio receitado pelo médico ou uso de lubrificantes.

Risman (1995) ainda acrescenta que a mulher, ao entrar no período da menopausa, seus ovários reduzem a produção dos hormônios estrogênio e progesterona. Na fase pós-menopáusica, começa a perceber alterações nos genitais, na aparência corporal e modificações durante as relações sexuais. Estas alterações podem ser observadas pelos seguintes sintomas: a pele fica mais seca, diminuição da lubrificação vaginal, atrofia da mucosa vaginal, entre outros.

A questão da menopausa tem “pouco efeito direto na resposta sexual da mulher”. As modificações não diminuem a libido nem a capacidade orgásmica, principalmente se sua saúde geral for boa. Verificou-se que a diminuição da atividade sexual feminina estaria relacionada com o declínio do interesse do cônjuge masculino pelo sexo (RISMAN, 1995).

Conforme acima citado, o sistema genital masculino também sofre alterações, nos testículos há atrofia das células intersticiais como menor produção de testosterona e diminuição do volume dos mesmos. Mesmo com a diminuição da produção de espermatozoides o idoso continua sendo fértil. A libido não se altera significativamente com a idade. A ereção torna-se mais difícil por deposição de tecidos fibrosos na parede dos vasos do pênis e nos espaços do tecido erétil (SILVA, 2010).

As fases de excitação, platô, orgasmo e resolução manifestam mudanças. Quando o homem atinge uma idade avançada que equivale a 50 – 70 anos, na fase da excitação, a ereção não se estabelece tão rapidamente como na juventude, Muitas vezes ocorre na necessidade da manipulação física de seu órgão genital pela parceira. Se essa diferença na aquisição da ereção for observada de forma negativa e não como um processo natural de envelhecimento, este homem poderá se sentir incapaz de continuar a sua atividade sexual, gerando assim uma possível “impotência” (RISMAN, 1995).

O autor acima destaca que quando o homem idoso entra na fase do platô, poderá observar que neste período existe uma modificação a nível de tempo, ou seja, o homem nesta fase poderá desfrutar mais das tensões sexuais sem estar preocupado com a emissão ejaculatória. Neste momento o casal poderá brincar, trocar carícias e explorar o corpo com maior intensidade, ampliando dessa forma o exercício da sexualidade.  Este aumento de controle da ejaculação dos homens na faixa de 50 – 70 anos faz parte “das vantagens do processo de envelhecimento”.

O volume de líquidos seminal gradativamente é reduzido. Segundo Masters e Johnson (1985 apud RISMAN, 1995), o volume de líquido seminal de uma continência de 24 – 36 horas num jovem é de 3 – 5 ml enquanto que no homem de mais de 50 anos cai para 2 – 3 ml. No entanto, as contrações uretrais menos intensas, bem como o menor volume de sêmen ejaculado, que decorrem do declínio das taxas hormonais, não interferem, porém, com a obtenção do prazer sexual, agora muito mais centrado na relação como um todo, e menos na genitália.

Alterações também ocorrem na fase da resolução. O tempo refratário, isto é, o período que vai da ejaculação até uma nova ereção se torna maior. Por vezes uma nova ereção pode demorar horas ou até dias, diferente do que ocorre nos mais jovens que necessitam normalmente de alguns minutos para terem uma nova ereção de acordo com (RISMAN, 1995).

Portanto, Moreira (2000 apud RODRIGUES, 2008) destaca de uma forma resumida as mudanças sexuais no processo de envelhecimento, na mulher: a secreçãovaginal,  velocidade  e  qualidade  da  lubrificação produzida diminuem;  a vagina  perde a  capacidade de  expansão do comprimento e  da largura transcervical;  os lábios menores perdem tecido adiposo, a proporção que os níveis hormonais diminuem;  altera-se  também  a  capacidade  elástica  dos  tecidos,  o  revestimento  da  parede vaginal  se  torna  muito  fina  e  atrófica;  os  ovários  diminuem  de  tamanho;  o  endométrio  e  a mucosa  do  colo  uterino  se  atrofiam;  a  atividade  secretória  das  glândulas  de  Bartholin  é reduzida; a carência endócrina tem influência sobre a capacidade e o desempenho sexual.  No homem o intumescimento do pênisé  retardado; a  ereção  pode  tornar-se  flácida;  a  elevação testicular  e  a  ingurgitação  são  mínimas,  tornando-se  necessário  mais  tempo  para  alcançar  o orgasmo,  que  é  de  menor  duração;  ocorre  diminuição  do  número  de  ereções  noturnas  e involuntárias, retardamento da ejaculação, redução do liquido pré-ejaculatório.

É desta maneira que Fraiman (1988) salienta que o homem mais precisará aprender a aceitar estimulações mais prolongadas, por parte de sua companheira, que será requisitada para um papel sexual mais ativo. Tais estimulações, preferencialmente diretas, envolverão uma reaprendizagem do casal, para que ambos conheçam as vantagens da sexualidade mais madura, e possam usufruir dela sem culpas e inibições.

Portanto, reforçando o exposto acima Risman (1995) destaca que este desencontro faz com que os cônjuges mais velhos troquem seus papéis na hora da relação, ou seja, a mulher em vez de ser “ajudada” pelo marido para atingir o orgasmo, neste momento pelas transformações que ocorrem com o homem, é ela que ajuda para que a relação se concretize.

São os preconceitos que fazem pensar que a chamada andropausa no homem e a menopausa na mulher são responsáveis pelas dificuldades sexuais. A perda dos hormônios modifica o mecanismo e a frequência da ereção, assim como altera a lubrificação vaginal, dificultando a realização do coito. Isso parece decretar que a penetração é a única fonte produtora de prazer e que a ausência ou as dificuldades dessas possibilidades funcionais incapacitam o velho como ser assexuado (SANTOS, 2003, p. 29).

O que interfere na vida sexual do velho esta para além das limitações orgânicas, que são decorrentes do processo natural da evolução do ser humano. O que interfere na vida sexual do velho é de ordem psicológica e social. O preconceito que habita o jovem contra a sexualidade do velho, também esta no velho com relação a sua própria sexualidade. Muitas instituições, e mesmo a família, não toleram que os velhos se autorizem a manter relações amorosas, o que equivale a dizer que negam a fonte da vida (SANTOS, 2003).

Assim Coelho (2006) destaca queimportante é a idade biológica e não a cronológica. Pesquisas demonstram que oamor  entre idosos  (as)  é  tão bom ou  ainda  melhor que  nos  primeiros  anos  de  iniciação  sexual.   Não existe idade limite para a sexualidade humana. A idade pode reduzir a força, mas nunca bloquear o desejo e o prazer sexual.

O sexo e o amor na velhice mudam o caráter explosivo e exuberante da juventude, tomando a forma da ternura, do carinho, do toque sutil, da valorização da sensibilidade dos pequenos gestos, respeitando as diferenças de suas manifestações no homem e na mulher (SANTOS, 2003). Desta maneira Fraiman (1988) expressa que as principais barreiras da sexualidade na velhice são erguidas pela precariedade da nossa filosofia e ideologia ao longo da “adultice”. É pura tolice, resultante de uma sociedade opressiva, que se afastou das necessidades mais prementes de seres humanos, onde o sonho e o romance são qualificados de pueris e indesejáveis. Um meio social que subjuga eimpõe valores  morais  de  maneira  desmedida  e  muitas vezes irracional.

4. Considerações Finais

Através do breve estudo feito, por meio de um levantamento de fontes bibliográficas, percebe-se que concluir algo sobre a sexualidade do idoso é difícil, pois esta engloba a subjetividade de cada indivíduo. Portanto, podemos dizer que tem idosos que vencem as limitações da educação, da cultura e principalmente das imposições e preconceitos sociais, e conseguem estabelecer uma vida sexual ativa e satisfatória, porém, também existem idosos para os quais exercer sua sexualidade é uma ideia aversiva, e habituam-se a viver sem a mesma em suas vidas, ou ao menos, sem admiti-la e reconhecê-la como parte integrante de sua existência. E ainda encontramos aqueles, cuja sexualidade foi repensada, em que se propuseram a refazer suas vidas nessa esfera também.

Assim, não há como pensar na sexualidade ou impulso sexual sem esquecer que estes diferem muito entre as pessoas, e que é errada e equivocada a ideia de que existe um “nível” certo de atividade sexual na vida de alguma pessoa idosa, bem como que existam maneiras de exercer uma sexualidade predisposta. Não se estabelece uma forma, ou quantidade de manifestações sexuais para que a pessoa envelheça bem ou não. Dessa forma, é parte da complexidade e singularidade de cada um, a forma e maneira pela qual o sujeito decide vivenciar sua sexualidade.

Outro aspecto evidenciado com o estudo é que as mudanças físicas que ocorrem nocorpo são um processo natural do envelhecimento, e que embora a frequência das relações sexuais tenda a diminuir com a idade, e mesmo as expressões da sexualidade de cada individuo venha a manifestar-se de forma mais discreta, não significa que fim da expressão ou desejo sexual, vindo prevalecer expressões de carinho e a amizade nesta fase da vida.

Compreende-se então, que nesta etapa a afetividade, carinho, amor, desejo, intimidade, não acabam. Sendo estas manifestações que se propagam por toda a vida, sendo elas vitais para o desenvolvimento das pessoas, principalmente de mais idade, vindo desta maneira a proporcionar-lhes auto-estima e realização pessoal, assim como sentimento de vida.

Sendo neste contexto que lembramos ainda mais do que realmente quer dizer manifestar nossa sexualidade, e que uma relação sexual entre duas pessoas envolve não somente deveres biológicos, mas, em contrapartida, toda a corporalidade, um vínculo emocional, uma infinidade de sentimentos, além de valores sociais e culturais do par. A capacidade de sentir prazer e emoções não tem limite de idade.

Assim, viemos a frisar que a sexualidade faz parte de todo ser humano, e o acompanha ao longo de toda sua vida, desde a infância até sua morte. Sendo ela exercida e estabelecida de acordo com a subjetividade e singularidade de cada um, onde é influenciada não apenas por conceitos próprios, mas sim pela sociedade e cultura de cada indivíduo, manifestando-se por meio da história de vida de cada um. Para tanto, é uma construção, onde a sexualidade nasce e morre com a pessoa dependendo de cada um, em largas proporções, sendo única e vívida.

Como vemos, ainda é um tema que causa muitas controvérsias e polêmicas, assim sendo, muito se tem, ainda, a constatar e reformular sobre tal assunto, considerando conceitos que devem ser questionados e estudados, a velhice e a sexualidade caminham juntas. Convém então, que estudiosos e a sociedade como um todo, rompam com seus próprios tabus, ideias estereotipadas e preconceituosas, que foram construídas ao longo do tempo, para que a sexualidade do idoso na sociedade venha a ser compreendida, e acima de tudo aceita.

Sobre os Autores :

Micheli Carla Bortolotti - Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina/UNOESC– Campus de São Miguel do Oeste. São Miguel do Oeste/SC. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Itamara Scariot Brutscher - Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina/UNOESC– Campus de São Miguel do Oeste. São Miguel do Oeste/SC.

Valquíria Farias Kist - Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina/UNOESC– Campus de São Miguel do Oeste. São Miguel do Oeste/SC.

Patricia Fiori Bard - Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina/UNOESC– Campus de São Miguel do Oeste. São Miguel do Oeste/SC.

Ângela Maria Bavaresco - Psicóloga, Mestre em Ciências da Saúde Humana e professora do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina /UNOESC - Campus de São Miguel do Oeste. São Miguel do Oeste/SC. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências :

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