“Dinheiro Compra Tudo. Até o Amor Verdadeiro”: as Perspectivas Contemporâneas do Relacionamento Sugar

“Dinheiro Compra Tudo. Até o Amor Verdadeiro”: as Perspectivas Contemporâneas do Relacionamento Sugar
(Tempo de leitura: 13 - 25 minutos)

Resumo: A vivência amorosa na contemporaneidade passa continuamente por transformações. Diferentes arranjos, buscas e concepções remodelam padrões e perspectivas hegemônicas atribuídas ao amor Ocidental. A idealização do amor romântico entra em declínio apresentando novas configurações afetivo-sexuais. O relacionamento sugar emerge diante expectativas interligadas ao dinheiro e ao afeto. Assim, a presente pesquisa visa compreender os fatores que motivam na contemporaneidade a busca pela vivência sugar, levando em consideração os múltiplos encontros e desencontros oriundos neste contexto. Nesse sentido, a metodologia proposta para sua execução é do tipo indutiva, trata-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo exploratória e se classifica como pesquisa documental, quanto aos seus fins. Em relação aos instrumentos para a coleta de dados, foram utilizados um corpus de conteúdos midiáticos vinculados ao estilo de vida sugar. Para a análise de dados, foi empregada a análise arqueológica do discurso de Foucault. A partir dos resultados, percebeu-se que as buscas ambicionadas no contexto sugar variam conforme gênero, princípios e o histórico de cada adepto. Dinheiro e amor dialogam e demarcam relações mais pontuais e transparentes, onde são almejados o êxito e o desenvolvimento emocional, financeiro e pessoal.

Palavras-Chave: Sexualidade, Dinheiro e Amor, Relacionamento Sugar.

1. Introdução

Os relacionamentos contemporâneos são marcados pela transformação da intimidade. Configurações, valores e perspectivas se inovam, diante a fluididade e a pluralidade dos atuais vínculos afetivo-sexuais. Para Bauman (2004) o termo “relacionamento” é um assunto atual e promovedor de diversificados questionamentos, pois apresenta um campo vasto e complexo, que de maneira incerta oscila entre sonho e pesadelo. Configura o cerne das atenções dos modernos e líquidos indivíduos, que anseiam por soluções diante sua incapacidade de escolha e pela angústia existencial vivenciada entre a possibilidade “de comer ou conservar o bolo”, ou seja, de desfrutar as doces delícias de um relacionamento e simultaneamente evitar suas intempéries.

Quando falamos de sexualidade, as perspectivas humanas se apresentam de maneira bem dinâmica. Milênios de história propiciam um amontoado e fragmentado discurso que perpassa conceitos dogmáticos, jurídicos e médicos. Segundo Marina (2008, p. 7) “a sexualidade é uma criação brilhante e ambígua da inteligência. É um fenômeno emergente, inventivo, e, como costuma acontecer com as grandes novidades vitais, instável”. O sexo encontra-se imbuído em todos lados, com labirintos visíveis e invisíveis, composto de experiências privadas e públicas. Para Lins (2017) a atual forma de amar é construída socialmente, se apresentando de maneira variada, conforme a época e a localidade. Em meio a múltiplos moldes relacionais surge o relacionamento sugar, ora trazido como perspectiva relacional, ora reconhecido, como estilo de vida.

Sugars (Daddies, Mommies e Babies) procuram parceiros sexuais e amorosos com a finalidade de partilhar interesses mútuos, pautados em investimentos financeiros, transparência e objetividade. Desta forma, o presente trabalho busca compreender quais fatores motivam na contemporaneidade a busca pela vivência do relacionamento sugar. De maneira a identificar como se caracteriza o estilo de vida sugar; descrever quais são as expectativas circundam os relacionamentos mercantilizados, bem como, analisar o impacto do contexto sugar nos relacionamentos contemporâneos.

Os estudos referentes à sexualidade são de suma importância, pois este campo considerável da vida humana, impacta no contexto social de maneira contínua e transformadora. Giddens (1993) elucida que o sexo se apresenta atualmente como uma força constante e revolucionária frente ao domínio público. Marina (2008) salienta que a sexualidade nunca viveu em paz. Segundo o autor, o homo sapiens é herdeiro de uma herança sem inventário, que initerruptamente, nos convida a refazer tudo: a ideia sobre o eu, sobre o desejo, sobre o corpo e os seus temores.

Para Giddens (1993) a vida pessoal se transformou em um projeto aberto, onde são originadas novas demandas e ansiedades. A sexualidade é constantemente descoberta, revelada e estimulada, gerando assim, novos e variados estilos de vida. Tais formatações detêm extensos poderes causais que influem em diversificadas ações no meio social. Diante tal, se faz imprescindível estudos que nos possibilitem a reflexão de aspectos externos e internos, que impactam na compreensão e vivência da sexualidade.

Nesse sentido, foi realizada uma pesquisa qualitativa exploratória, constituída por uma investigação documental a um corpus composto por sites, blogs, entrevistas, aplicativos, comunidades, grupos e artigos pertencentes ao universo sugar. Os conteúdos foram selecionados em fontes primárias e secundárias, levando em consideração sua veracidade e disponibilidade nos veículos de comunicação. O estudo assume um formato documental e conta para a análise de dados, com a análise arqueológica do discurso proposta por Michel Foucault.

2. Desenvolvimento

2.1.  “O pote de açúcar”: a sexualidade e o universo sugar

Estabilidade financeira, emocional e apoio intelectual. O relacionamento sugar é um crescente estilo de vida, que atualmente, tem atraído milhões de curiosos, obtido variadas plataformas midiáticas e encaminhado uma série de adeptos a vivência amorosas, dentro deste formato relacional. Segundo Campos (2018) o relacionamento sugar é qualquer relação saudável, estabelecida sem cobrança, pautada em acordos financeiros e com benefícios mútuos, onde os objetivos entre o (a) sugar daddy/mommy (patrocinadores/provedores) e a (o) sugar baby (patrocinado (a) - termo utilizado para qualquer gênero) são bem delineados. Logo, os patrocinadores (daddies e/ou mommies) seriam pessoas intelectualmente maduras, bem-sucedidas e dispostas a arcar com as despesas e mimos de seus patrocinados.

Seriam os daddies homens dotados de boa educação, generosidade, uma considerável posição socioeconômica, caracterizados como verdadeiros lords, donos de uma postura diferenciada. Sugars daddies apresentam satisfação em mimar, presentear e desfrutar das possibilidades que sua situação financeira oferta. Expressam aptidões para gestão de negócios e habilidades para orientar. No Brasil, comunidades sobre o estilo de vida sugar classificam daddies em dois grupos: os instintivos, sendo aqueles que apontam características inatas/espontâneas ligadas à afetividade e os racionais, aqueles que enfatizam relações pontuais e mercantilizadas.

Apesar de dividir opiniões em comunidades, homens casados, fetichistas e/ou usuários de sexo pago (prostituição) são denominados por muitos adeptos dentro do estilo de vida, como salts (falsos sugars daddies), pois ainda que venham dispor de uma considerável condição financeira, não apresentam posturas coerentes com os princípios que embasam o relacionamento sugar. No entanto, plataformas como o Meu Patrocínio, denominam como salt daddy, aquele que se passa por sugar daddy, mas é isento de recursos financeiros e intelectuais, se tornando incompatível para a realidade sugar.

Os salts ganham destaque pelo oportunismo, machismo, abordagem banal e centralizada apenas em redes sociais, como o facebook. São levados pela beleza física e busca contínua por sexo casual. Frequentemente são denunciados por abordagens abusivas e invasivas. De acordo com o Meu Patrocínio, os perfis de daddies podem ser classificados em sete categorias, sendo elas: os que não mostram os rostos, os casados, os anônimos, os nerds, os estrategistas, os homens mais velhos e os empresários de sucesso. Logo, a plataforma inclui ao cenário sugar também o público comprometido, gerando uma dicotomia no contexto, encontrada em diferenciadas redes de interação sobre a temática. Como destacam os comentários extraídos da página Sugar baby, sugar daddy estilo de vida (2019):

Acho um pouco delicado ficar levantando essa bandeira de que homem casado não é daddy. Até porque, não existe uma regra que diga isso. O homem não é daddy pelo estado civil dele e sim pelas condições que ele tem a oferecer, tanto financeira, quanto de suporte em todas as partes da vida. Eu estou nesse estilo de vida tem um pouco mais de 8 anos e meus relacionamentos mais longos foram com homens casados, que me trataram da forma que mereço ser tratada. Eu sei me impor e sei dos meus desejos e anseios. E não aceito que me deixem de lado. E nos meus relacionamentos com daddies casados isso nunca aconteceu. Já com um cara que era solteiro, livre e desimpedido foi o contrário. Então, acho que ficar levantando essa bandeira aí de que é amante e não é relacionamento sugar, é blá, blá, blá. É preciso tomar um certo cuidado. Você não querer se envolver é uma coisa, mas ditar regra no sugar é outra totalmente diferente. Até porque o relacionamento sugar não é um relacionamento padrãozinho, de namoradinhos comuns. Tem suas diferenças e cada um se adapta da forma que achar melhor. Esse julgamento e o apontar dedos não é legal. (Baby usuária da página). 

Até onde eu sei, um dos pilares do relacionamento sugar é a honestidade; honestidade em sua forma mais ampla (...) Só posso concluir que os homens casados que estão nessa busca por uma baby sugar - sem suas companheiras terem conhecimento - são pessoas de mau caráter. (Daddy usuário da página).

Cavalheirismo é essencial para ser daddy, quem trai uma companheira não é cavalheiro, não respeita nem quem está sempre ao lado, quem dirá alguém de fora. Se você acha que é certo tentar ser um daddy casado, é responsabilidade sua. Não existe um manual de instruções, mas não tem como ser considerado um cavalheiro, se você trai sua companheira. (Daddy usuário da página). 

As Mommies, segundo a plataforma Meu Patrocínio (MP), são mulheres confiantes, experientes e bem-sucedidas que visam uma companhia agradável, atraente e decidida ao seu lado. Já os sugars babies, são comumente definidos como mulheres ou homens ambiciosos e determinados, com beleza física acentuada e elevado interesse em desenvolvimento nos âmbitos pessoal e profissional. De acordo com Campos (2018), babies não desejam somente experiências ou o seu custeio, almejam o lugar ocupado pelo daddy/mommy, com a finalidade de consumir os seus bens, assim como, de pertencer aos nichos que demarcam a classe do seu patrocinador (a).

No contexto brasileiro, sugars babies também são diferenciadas conforme sua conduta. Sendo as instintivas aquelas que buscam se abster de futilidades, possuintes de determinação, ambição, inteligência e personalidade própria. E as racionais, são aquelas que priorizam o campo material, com ambições objetivas e estritamente financeiras. Os conceitos são aplicáveis também aos sugars babies boys. Vale salientar, que o universo sugar não é um contexto apenas heteronormativo, a relação homoafetiva e formatos poligâmicos também são aceitos (apesar de se apresentarem de maneira latente no meio), inclusive com plataformas exclusivas a estes públicos.

Um dilema frequente no sugar é o comparativo de babies a garotas de programa e/ou a acompanhantes de luxo. Porém, para o princípio sugar essa é uma comparação errônea. Segundo Campos (2018) existem diferenças consideráveis entre esses três mundos, sendo algumas delas: a visualização do contexto como estilo de vida, o fato do estilo sugar ser uma opção de vida e não uma profissão; assim como, a concepção de sexo, o fato da não obrigatoriedade sexual, o sexo ocorrerá dentro do relacionamento naturalmente, caso haja afinidade entre o casal.

Não existe um marco preciso sobre a origem do relacionamento sugar. Grande parte das plataformas sobre a temática (Besugar, Estilo Sugar, Meu Patrocínio, Universo Sugar, Somos Sugar, etc) vinculam o princípio deste estilo de vida ao ano de 1908, nos Estados Unidos, após o casamento do culto empresário herdeiro de uma fábrica de açúcar, Adolph Spreckels, com a jovem Alma de Bretteville, 24 anos mais nova que ele. O casal ostentava uma união pautada em viagens, exorbitantes presentes e uma convivência assídua a alta sociedade.

Conforme Domith e Belozi (2018) devido Adolph assumir a presidência da companhia Spreckels Sugar Company na época e possuir uma grandiosa diferença de idade da esposa; carinhosamente a mesma o apelidou de “Sugar daddy” (papai de açúcar). Após este episódio, americanos começaram a adotar o relacionamento não convencional entre patrocinador (a) e patrocinada (o), como uma nova possibilidade amorosa. Porém, existem discordâncias quanto a predominância deste marco. Alguns adeptos do contexto sugar, acreditam que sua origem provém das tribos anglo-saxões e de outros povos que utilizavam sua cultura em volta a sexualidade, como uma maneira de perpetuar dinastias. Por muito tempo, o relacionamento arranjado/negociado foi utilizado na Europa medieval como uma forma de manter alianças políticas, econômicas e militares.

De acordo com Del Priore (2005) o casamento foi e ainda é uma intuição para a transferência de patrimônios. Durante anos, foram frutos de acordos familiares e da ausência de escolhas daqueles que iriam se unir. Da antiguidade à idade média, os pais tratavam o casamento dos filhos como um negócio, com contratos vigentes, sem destaques para o amor, nem para o prazer. O aspecto principal era atender o interesse material entre as famílias. Giddens (1993, p. 49) realça que “na Europa pré-moderna, a maior parte dos casamentos eram contraídos, não sobre o alicerce da atração sexual mútua, mas da situação econômica”. Atualmente, países como a Índia, ainda realizam casamentos arranjados pautados em negociações de dotes e em interesses familiares.

Segundo Rodrigues e Patriota (2018), o relacionamento sugar foi introduzido com repercussão no Brasil, em 2015, através da plataforma Meu Patrocínio, fundada pela CEO americana com descendência brasileira, Jennifer Lobo. A rede foi responsável pela primeira categorização de consumidores sugar e se tornou uma lucrativa referência no Sugar dating (relacionamento sugar, termo original em inglês). Nela homens e mulheres precisam preencher um perfil comportamental e físico rigoroso, com a finalidade de manter os parâmetros visuais e monetários que movimentam esta rede de relacionamento.

2.2.  Procura-se um relacionamento sugar: a busca por dinheiro, amor e poder

Os relacionamentos passaram por diversificadas transformações ao longo da história, diferentes perspectivas contribuíram para variadas indagações e desconstruções em torno do contexto afetivo-sexual humano. Ainda na contemporaneidade, passamos por contínuos questionamentos que rodeiam valores e expectativas ligados a intimidade. A idealização do amor romântico modula a sexualidade em um padrão monoheteronormativo (monogâmico, heterossexual e convencional) pautado em princípios de completude, posse e eternidade. Para Foucault (1969/2008) a história perpassa ideias dicotômicas que determinam as relações, não há uma análise pura dos fatos, os conflitos entre o antigo e o novo apontam resistências, repressões, omissões, condenações, mas também, repercussões, descobertas, substituições e discussões.

De acordo com Lins (2017), o amor romântico é caracterizado pela projeção das necessidades individuais do eu, no ser amado. O imaginário romântico estabelece fronteiras significativas entre o amor e o dinheiro. Giddens (1993, p. 55) destaca que “a literatura romântica era (e ainda é) uma literatura de esperança”, ou seja, fundamentada na dependência e idealização do outro.

Para Lins (2017) as expectativas e ideais do amor romântico são perpetuadas como a única forma de amar ocidental, estimulando a procura por parceiros e vivências afetivas ilusórias, conduzidas a frustrações e a decepções. Esse sofrimento é concebido pela perda do sentimento que se instaura, a partir do momento que o outro não satisfaz essa projeção e/ou não supre as necessidades almejadas, quebrando assim a magia e o encantamento, as quais o ser humano foi desenvolvido e destinado a encontrar.

Logo, diante a desilusão, a sexualidade reescreve novos percursos, trazendo para a atualidade buscas pautadas na individualidade. De acordo com Lins (2017, p. 31) “cada um quer saber quais são suas possibilidades na vida e desenvolver seu potencial”, por consequência, o amor romântico inicia seu declínio.

Segundo Campos (2018), os relacionamentos amorosos da contemporaneidade, como os relacionamentos sugars, apresentam perspectivas que englobam diferentes aspectos, tornando a vivência líquida uma experiência envolvente e sedutora, que fascina pelo desejo e estímulo à efemeridade e ao consumo. Plataformas midiáticas, como a Universo Sugar e o Meu Patrocínio, correlacionam a busca pelo relacionamento sugar à possibilidade de estabilidade emocional, intelectual e financeira. Para o autor, o desejo que envolve esse tipo de relação surge da ocultação de vazios existenciais latentes nas identidades de seus adeptos. É o caso dos comentários dos sugars ligados a rede social, Sugar Baby Brasil/ Mundo Sugar:

Eu tenho depressão e borderline, e por estar em um momento muito triste da vida, além de sozinha, pensei no mundo sugar pelo fato de ter uma boa companhia, momentos de lazer, ajuda, risadas. Ao meu ver um relacionamento sugar me traria benefícios e ajudaria com minha depressão. (Baby sugar usuária da página).

Já me iludi muito por causa de homem, já fiz muita coisa errada, sabe? De graça. Não é só questão de dinheiro entendeu? Mas eu acho que a gente pode escolher coisa melhor, ficar com alguém que vai querer proporcionar coisas para a gente, seja viagem, presente ou seja lá o que você esteja procurando. As pessoas têm uma imagem muito ruim sobre isso. Muitos relacionamentos funcionam na base do interesse, não porque as pessoas se gostam. Então, quando se tem um relacionamento sugar a gente coloca o que quer dentro do relacionamento, como um acordo, ao menos tem sinceridade e não iludimos ninguém. (Baby sugar usuária da página). 

Conforme Girardello (2016), a busca por parceiros afetivos encontra-se cada dia mais limitada e vinculada a ponderações de custo e benefício, apresentando investimentos que ora se manifestam em mecanismos de cálculo, outrora, se expressam em contratos, transações e/ou performances de rendimento. Estabelecer relações afetivo-sexuais se tornou uma forma de consumo; de empreendimento do próprio eu. Assim, pessoas ambicionam gerar valor a si mesmas, para se transformarem em mercadorias vendáveis e estabelecer conexões sociais, ou seja, pertencimento grupal.

Adelman (2011) ressalta a existência de uma recusa social, ligada a proposta de aproximação do dinheiro à intimidade. Para a autora, existe um ideal de pureza que impede a percepção da realidade e dos diversos elementos constituintes do mundo contemporâneo - como se a atividade econômica viesse contaminar as relações. Porém, as conexões humanas são tomadas por atividades econômicas, sendo estas, responsáveis pela criação, definição e sustentação dos laços sociais. Muitos elos inclusive chegam a cessar e/ou entrar em crise diante dificuldades financeiras.

2.3.  E viveram felizes para sempre?:  as repercussões afetivo-sexuais do sugar nos relacionamentos contemporâneos

Os relacionamentos contemporâneos oferecem diversas possibilidades. O indivíduo do século XXI, busca frequentemente alargar seus gostos, sensações, vivências e experiências. O desejo no relacionamento sugar é estimulado, por amplos mecanismos, principalmente os visuais. Segundo Lins (2017), a hiperexposição na web trouxe uma radical transformação das relações. As redes sociais e aplicativos expõem intimidades, interesses, necessidades e combinações. Uma vitrine virtual de compra e venda do eu.

Através de padrões estéticos, o homem moderno se reformula, reinventa novos ideais afetivos-amorosos. Para Campos (2018), as plataformas de busca sugars apresentam aos seus consumidores um contexto imagético que aguçam os anseios humanos em torno ao luxo e ao consumo: viagens, carros, casas, passeios, ostentações de bebidas e estereótipos. Segundo Foucault (1969/2008) a corporeidade é simbólica, transfere história, performances, deslocamentos, poder e saber. Diz do homem e do seu tempo.

O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos, lugar de dissolução do Eu, volume em perpétua pulverização. A genealogia como análise da proveniência está, portanto no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo (FOUCAULT, 1969, p.22), 

Logo, seria o corpo no contexto midiático sugar, um mecanismo contemporâneo de consumismo e publicidade, reforçador de estereótipos de beleza, juventude, êxito, excelência e predominantemente monoheteronormatividade. Sujeitos modernos frente a uma economia afetiva, com conexões e representações digitalizadas. Corpos espetacularizados com o objetivo de consumirem e serem consumidos, empreendendo o seu próprio eu. Para Girardello (2016), os sujeitos encenam a própria vida, com o intuito de se capitalizar e se manter ativos na sociedade, legitimada pelo outrem.

As relações são invadidas por novos personagens, as princesas anteriormente salvas com um beijo por seus príncipes encantados, munidos de um cavalo branco, ofertantes de amor e felicidade eternos, dão lugar a novas buscas e papéis. Mulheres ambiciosas e empoderadas, que aspiram um afetivo e realizado empresário dotado de carros de luxo e um imensurável saldo bancário; fornecedores de zelo, atenção e mimos.

De acordo com Campos (2018) o filme Fifty Shades of Grey - “50 tons de Cinza” no Brasil, apresenta um novo padrão de relacionamento, idealizado na atualidade. Christian Grey e Anastasia, protagonizam um enlace na trama pautado em luxuosidades e prazer. Segundo o site Mundo Sugar, é comum expectar dos relacionamentos sugars que seus adeptos sejam acima da média. Pessoas extraordinárias e solícitas.

Facilmente é possível detectar essa idealização nas falas de babies: “Eu vejo a filosofia de vida sugar como um conto de fadas (sei que tem as dificuldades também), pois é o estilo que sempre gostei de ter nos meus namoros comuns, as orientações, os cuidados, o zelo” (usuária do site mundo sugar). A vivência do sugar soa aos olhos de quem já obteve decepções no contexto convencional, como uma oportunidade; um campo ideal para entregar-se aos seus sonhos e anseios. Porém, assim como o relacionamento tradicional, o relacionamento sugar fornece uma série de conflitos e agravos.

Por detrás do mundo de Alice ou da beleza do Christian Grey existem variadas problemáticas. É possível verificar inúmeras queixas nas redes sociais relacionadas ao sugar, assim como, em grupos de interação. Intervenções grotescas de salts que geralmente vinculam babies a garotas de programa, solicitando as mesmas nudes, práticas fetichistas, sexo casual e dinheiro em troca de vídeos e fotos sensuais; lamúrias ligadas a promessas de emprego ou a efetivação da relação. Entre os contratempos, também se encontra disponível em menor número relatos de abusos e violências; perfis de aliciação de mulheres, perfis fakes de menores de 18 (dezoito) anos e abandono pós a concretização da relação sexual. 

Estava conversando com um suposto sugar daddy e ele me fez várias promessas, me apeguei a ele emocionalmente muito rápido, ele pegou meus dados para comprar minha passagem para eu poder ir conhecê-lo (fui muito burra eu sei). Então, ontem à noite ele me bloqueou de tudo! Não consigo ligar e até desativou o facebook (já foi banido do grupo também). Isso é só um alerta pra todxs tomarem cuidado! Tanto daddies quanto babies (não se pode confiar em ninguém hoje em dia). Estou muito devastada, pois até promessa de emprego eu tive! (Usuária do grupo sugar baby & sugar daddy estilo de vida). 

Segundo Foucault (1969/2013) mudanças desencadeiam alterações no pensamento, nos objetos, nos conceitos, métodos e práticas. Cada época oferta problematizações, limites e possibilidades. O saber encontra-se em desenvolvimento. O mundo como um livro aberto, precisa ser decodificado e interpretado. Apesar de representar um novo conceito de relacionamento, o sugar, diz de uma relação humana, que como qualquer outra é composta de vantagens e desvantagens, nos solicitando novos conhecimentos, interações e análises.

3. Considerações Finais

Os relacionamentos contemporâneos são continuamente reinventados. O amor romântico entra em declínio e os ideais por ele perpetuados, como a posse e a completude, perdem cenário para a individualidade e o desenvolvimento pessoal. O amor rompe as barreiras do romantismo e se encontra com ideais monetários, assim como, com princípios de empoderamento e prazer, anteriormente negados pela história da sexualidade a ambos os sexos. A cativante tríade de estabilidade financeira, emocional e pessoal, ativa corpos e estimula o consumo nos meios midiáticos. O corpo ganha fala, representação, simbologia. Em tempos tecnológicos invade o campo amoroso e reformula ideais.

Dinheiro e afeto, entram em diálogo e fundamentam relacionamentos mais transparentes e objetivos. Para além de estabilidade financeira, os sujeitos hodiernos, visam afinidades, afabilidade, atração física e intelectual. Os fatores que motivam a busca por relações mais pontuais, como o relacionamento sugar, variam. Seja pela frustração ou desencantamento deixados pelo sistema relacional Ocidental, seja pela atrativa relação entre o desejo e o poder.

Assim como no cenário dos relacionamentos tradicionais, o sugar, também apresenta dicotomias interligadas ao desejo. A maneira como a vontade se expressa, atravessa valores e concepções, diz da personalidade e subjetividade de cada adepto. Neste contexto, vale ressaltar que parte dos patrocinadores almejam parceiras (os) afetivos ou meramente sexuais, enquanto os patrocinados buscam solidez financeira e emocional, assim como, o desenvolvimento pessoal.

Tornou-se evidente com a pesquisa que existe uma busca contínua por êxito existencial, ainda que, diante novas perspectivas afetivas, novas configurações amorosas e perante a fomentos tecnológicos. Ainda assim, o ser humano atual, almeja um encontro afetivo-sexual sublime, impecável e íntegro, mesmo que ora ou outra se veja perpassado por questões individuais e econômicas. A procura por um relacionamento cortês e próspero, motivam anúncios nas variadas redes sociais relacionadas ao estilo sugar.

Entre encontros e desencontros do contexto sugar, podemos destacar: os esforços oriundos dos adeptos para uma dissociação do sugar à prostituição, ao acompanhamento de luxo, as práticas fetichistas e as vivências adúlteras. A presença de pessoas casadas no contexto sugar, dividem opiniões entre os intitulados adeptos deste estilo de vida. Para alguns é impossível vivenciar o adultério no sugar, pois fere o princípio de transparência que fundamenta este formato relacional, bem como, o que o torna um relacionamento diferente do convencional. Para outros, não somente é possível, mas comum e funcional.

Quanto às questões de gênero, se faz notório o número de adeptos nomeados como daddies e babies. Mommies e babies boys aparecem de maneira omissa no meio, bem como, os relacionamentos homoafetivos e poligâmicos. Apesar de divergir do modelo afetivo convencional o sugar possui valores mais tradicionalistas, voltados para relações monoheteronormativas. Seu maior conflito encontra-se na conexão: dinheiro e afeto.

O número de pessoas que procuram informações sobre o estilo de vida sugar é considerável e mesmo havendo todo um cuidado para a não adesão de menores de idade no contexto, ainda sim, é possível encontrar adolescentes com perfis falsos. Por fim, notou-se uma competitividade considerativa entre as babies, estimulada pelos aplicativos sugars que evidenciam corpos e beleza.

Para um entendimento mais amplificado sobre a temática proposta, sugere-se a realização de futuros trabalhos no contexto, a fim de abranger o conhecimento sobre o fenômeno estudado, como também alargar assuntos em torno a durabilidade e a conjugalidade dos relacionamentos sugar; a qualidade de vida sexual e aderência de pessoas consideradas idosas em contextos sexuais não normativos, a incidência de uso tecnológico com finalidade afetiva por pessoas acima de 40 anos, os relacionamentos LGBTI+ no contexto sugar e o combate a pedofilia nos contextos sexuais dissidentes.

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RODRIGUES, Marta Cristine. “Dinheiro Compra Tudo. Até o Amor Verdadeiro”: as Perspectivas Contemporâneas do Relacionamento Sugar. Psicologado, [S.l.]. (2020). Disponível em https://psicologado.com.br/psicologia-geral/sexualidade/dinheiro-compra-tudo-ate-o-amor-verdadeiro-as-perspectivas-contemporaneas-do-relacionamento-sugar . Acesso em .

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RODRIGUES, Marta Cristine. “Dinheiro Compra Tudo. Até o Amor Verdadeiro”: as Perspectivas Contemporâneas do Relacionamento Sugar [online]. Psicologado, (2020) [viewed date: 27 May 2020]. Available from https://psicologado.com.br/psicologia-geral/sexualidade/dinheiro-compra-tudo-ate-o-amor-verdadeiro-as-perspectivas-contemporaneas-do-relacionamento-sugar