Homossexualidade Feminina: o amor por meio da in-visibilidade?

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Introdução

O presente estudo aborda a homossexualidade feminina enquanto fenômeno psicossocial. Este prisma de investigação implica na necessidade de lançar muitos e diferentes olhares sobre esta realidade a fim de obter a necessária – e sempre incompleta – aproximação acerca deste complexo e multideterminado objeto de estudo. O foco de luz que direcionará este olhar é múltiplo, como atesta a diversidade da literatura que os veicula, e partem essencialmente da Psicologia Social e de Gênero, da Psicanálise, da Sociologia, da Antropologia e da História.

Esta pesquisa reporta a in-visibilidade da mulher homossexual, sendo que a escolha deste tema partiu do interesse em compreender, como se dá a vivência e a construção desta in-visibilidade no contexto psicológico e sócio-histórico de nossa sociedade, tendo como propósito contribuir com os poucos estudos relacionados à referente problemática como também fazer algumas revisões na bibliografia sobre homossexualidade feminina. Portanto, levantamos algumas questões que esperamos encontrar as respostas com a efetivação deste trabalho.

A metodologia seguiu o referencial teórico de Minayo e Goldenberg, que nos deu suporte à pesquisa qualitativa na análise do sujeito que tendo uma amostra de 08 homossexuais femininos adultos. A referida pesquisa foi realizada na cidade de Aracaju-SE. Utilizamos a metodologia qualitativa, devido a seu caráter exploratório, que nos favoreceu compreender o fenômeno na sua complexidade e suas peculiaridades.

A mulher contemporânea possui inúmeras possibilidades de ser e estar no mundo e uma delas envolve o relacionamento amoroso entre outras mulheres. Ao longo da história da humanidade em decorrência das mudanças que a sociedade passou, a forma de aceitar a homossexualidade foi se modificando, embora o preconceito ainda predomine, mascarando a realidade que aprisionada não pode falar de si. Depois dos anos 60, com a eclosão de muitos movimentos sociais, inclusive de homossexuais na Europa e nos EUA, passaram a lutar por seus direitos, e reivindicaram que a homossexualidade fosse vista como uma opção sexual (hoje em dia emprega-se o termo orientação sexual) [1]. Esta, definida em função do gênero das pessoas homem, mulher ou os dois por quem sentimos atração ou afeto, tanto física como emocionalmente, não como uma doença (TREVISAN, 1986:178).

As mulheres homossexuais permanecem marginalizadas, assim como ocorre com as heterossexuais em vários seguimentos da sociedade. As homossexuais carregam o duplo fardo de serem mulheres e gays. O preconceito da sociedade à homossexualidade, acarreta resultados negativos, reforçando a condição de clandestinidade com inevitáveis problemas de culpa, vergonha, solidão e humilhação, assim como, propicia o favorecimento de chantagens e com isso, é cada vez mais freqüente, pacientes homossexuais procurando atendimento psicológico (MEIRELLES, 2004). A própria mulher foi apagada da história pelo papel secundário que a ela foi relegado durante muitos anos. É interessante ter em mente que há apenas 50 anos a mulher vem conseguindo certo poder de imagem, representação e discurso em algumas sociedades (por exemplo, as "recentes" conquistas promovidas pela revolução sexual, o anticoncepcional, o movimento feminista pelos direitos da mulher). "O discurso da homossexualidade feminina está sempre entremeado com pelo menos três outros: o discurso da feminilidade, o discurso da sexualidade e o discurso amoroso" (PORTINARI, 1989:28).

A ausência de material sobre o lesbianismo está intimamente ligada à estreita participação feminina no processo histórico e na produção cultural da humanidade. A linguagem se moldou nos termos de um universo que é percebido como dominado pelos signos da masculinidade. E por conseqüência o próprio discurso sobre o lesbianismo, acaba tratando a subjetividade lésbica dentro da construção heterossexual da sexualidade.

A heterossexualidade define e cria nossa sexualidade, seja ela qual for. "A sexualidade não é apenas definida, mas também reforçada como heterossexualidade, mesmo na forma homossexual" (Bad Object Choices, 1991:23). Por isso, muitas mulheres se mantêm na in-visibilidade, o que não é bom para o estado emocional e nem para sua autoconfiança. Porque para uma pessoa estar bem consigo mesma é preciso que todas as suas partes estejam integradas. Manter-se invisível é como negar uma parte de si ainda que seja para proteção. Invariavelmente, acaba tendo efeito menos satisfatório para a própria pessoa que fica privada de externar um sentimento significativo. Pretendemos complementar esse estudo da homossexualidade feminina, sendo este, pertinente dentro das Ciências Sociais e Psicológicas, percebendo-se que existem poucas pesquisas científicas sobre esse tema. Com isso, poderemos dar contribuição para a diminuição do preconceito em relação ao assunto, conscientizando a sociedade sobre a importância da livre orientação quanto à sexualidade de qualquer indivíduo, não mascarando qualquer realidade que possa vir a representar algum tabu.

Apresento o primeiro capítulo explicitando a sexualidade, trazendo desde a mitologia até a contemporaneidade. Falamos também dos papéis sociais, as relações de gênero, a história das relações entre homem/mulher, o papel feminino na história e a construção da sexualidade feminina. No segundo capítulo, enfatizamos a homossexualidade, tanto no contexto sócio-histórico, com tópicos sobre a homossexualidade feminina e o tema foco desta monografia que é a in-visibilidade. No terceiro capítulo, se dá a metodologia onde reportamos a técnica, autores utilizados e os procedimentos para execução desta pesquisa. No quarto capítulo é aonde se dá toda a análise das entrevistas, apresentando os resultados obtidos na elaboração do presente estudo o qual pudemos analisar os fatores econômicos, sociais, culturais e psicológicos. Por fim, as considerações finais.

CAPÍTULO I

Sexualidade

1.1 Um Olhar Subjetivo

A extraordinária diversidade da sexualidade humana tem sido, ao longo dos tempos, objeto de incontáveis escritos, interpretações, comentários e temática obrigatória da religião, da política, da moral, da literatura e da ciência. Raramente estas abordagens foram objetivas e livres de contaminações morais, religiosas e culturais, e nem mesmo a psicologia conseguiu escapar a esta secular confusão ideológica. Entre toda a diversidade sexual humana a questão de orientação sexual tem sido talvez a mais distorcida.

“O fenômeno da orientação sexual que Bancroft designa como «peculiarmente humano, já que não se aplica a mais nenhuma espécie animal, (por ex. a preferência homossexual exclusiva só se encontra na espécie humana), não poderia, por isso mesmo, ter origens unicamente bio-genéticas, mas terá de ser também produto da aprendizagem psicológica e socio-cultural” (DARDE,1999).

Teríamos muita dificuldade em encontrar nos gregos (como nos latinos) uma noção semelhante à de “sexualidade” e à de “carne”. Queremos dizer; uma noção que se refira a uma entidade única e que permita agrupar, como sendo da mesma natureza, derivando de uma mesma origem ou fazendo intervir o mesmo tipo de causalidade, fenômenos diversos e aparentemente afastados uns dos outros: comportamentos como também sensações, imagens, desejos, instintos e paixões. (...) Nossa idéia de “sexualidade” não apenas cobre um campo muito mais amplo, como visa também uma realidade de outro tipo; e possui, em nossa moral e em nosso saber, funções inteiramente diversas (FOUCAULT,1990:35).

A vida sexual não começa na puberdade, mas desde a primeira infância. A puberdade nada mais é do que uma etapa psicofisiológica, o período em que a tendência sexual, tornada altruísta orienta-se para um novo alvo. A sexualidade depende tanto da maturação orgânica como das condições socioculturais. (SILLAMY,1998:216).

No princípio foi a Lenda de Métis:

Métis, a Prudência era a reflexão personificada, a sabedoria. Foi a primeira esposa de Zeus. Ela deu a Cronos a beberagem que o obrigou a vomitar os jovens deuses que havia engolido. Estando grávida, predisse a Zeus que teria em primeiro lugar uma filha e em seguida um filho que se tornaria o Senhor dos Céus. O rei dos deuses, assustado com a profecia, logrou-a fazendo com que ficasse bem pequena e engoliu Métis. Junto com Métis foi engolida a sabedoria e os valores do matriarcado pelo patriarcado (BOLEEN,1994).

Este mito representa o destino das mulheres na sociedade patriarcal: sua sabedoria foi eliminada, seu papel social minimizado, logrado e, finalmente, anulado. No mito, o momento mais apropriado para enganar, apequenar e anular a mulher é durante a gravidez. Coincidência ou não, sabe-se que é freqüente o espancamento de mulheres durante a gravidez ou o puerpério. As mulheres estariam mais vulneráveis nestas ocasiões resguardando o feto ou recuperando-se do stress do parto. O ato de produzir a vida manifesta força e poder singulares é seguido de um momento de maior fragilidade (blues). É ai que ela se torna presa fácil da sociedade patriarcal até recusar o papel que lhe é atribuído e, a partir da mudança interior, provoque uma ruptura capaz de mudar as feições da própria sociedade. É o momento do “stand up for your rights”, e esta ruptura extrapola em muito o interesse exclusivo do gênero. Retirar da sociedade o caráter patriarcal significa reconfigurar o todo social [2].

A sexualidade faz parte de nossa conduta. Ela faz parte da liberdade em nosso usufruto deste mundo. A sexualidade é algo que nós mesmos criamos - ela é nossa própria criação, ou melhor, ela não é a descoberta de um aspecto secreto de nosso desejo. Nós devemos compreender que, com nossos desejos, através deles, se instauram novas formas de relações, novas formas de amor e novas formas de criação. O sexo não é uma fatalidade; ele é uma possibilidade de aceder a uma vida criativa (FOUCAULT,1984:26).

A sexualidade humana possui diversas dimensões tão complexas quanto o próprio ser e provavelmente, a mais notável distorção se dá, no que diz respeito à compreensão e vivência da sexualidade nos dias de hoje, seja o reducionismo, isto é, a diminuição da sexualidade a uma única, qual seja, a biológica. E em muitos casos, a redução: a concepção da sexualidade na mera visão biológica-genital ou gonádica (órgãos sexuais). Ora, se essa dimensão existe e é importante, mas não ocupa – se ocupa – todo o tempo da vida. É necessário tomar consciência das dimensões que a sexualidade abrange: Sexo biológico (formulação cromossômica (celular), formação de gônadas, vias genitais e dos órgãos externos e a produção de hormônios); sexo psicológico o qual segundo Oraison (1977:25), “o órgão principal da sexualidade humana é o cérebro. Então, podemos dizer que é um fenômeno psíquico”. Temos ainda a visão socio-cultural enquanto forma de expressão social da masculinidade e feminilidade – duas formas de ser e de agir.

Sexo é comunicação, é linguagem, é diálogo inter-subjetivo, é o reconhecimento do outro, é alteridade. A sexualidade revela o ser humano como desejo do outro e este ser mostra sobretudo a afetividade, mundo onde se realiza ou se frustra enquanto tal, situa-se na esfera do amor que é sempre uma esfera sexuada. A maioria de nós, nascemos em famílias heterossexuais, esta é uma comunidade afetiva com base na união entre um homem, uma mulher e seus filhos. E é na família que os valores são agregados, transmitidos, ensinados e se dá muito mais pela vivência. A família e a escola têm o papel de fixar a sexualidade e, fazer dela seu suporte de permanência, um exemplo de sexualidade, despertando a atenção para o sexo e, ao mesmo tempo, impedindo-o e atrelando-o ao perigo.

A partir dessa vigília constante e a tentativa de reprimir essas sexualidades periféricas, em que se relacionam o prazer e o poder, estes se reforçam. Prazer em exercer um poder que questiona, fiscaliza, espreita, espia, investiga, apalpa, revela; prazer de escapar a esse poder. Poder que se deixa invadir pelo prazer que persegue - poder que se afirma no prazer de mostrar-se, de escandalizar, de resistir.

A sexualidade, como manifestação biopsicossocial do ser humano, sofreu através da história, toda a sorte de controle por interesses diversos. Negada ou incentivada, a Igreja, o Estado e o poder econômico sempre se valeram deste meio profundo do relacionamento humano (onde a afetividade e o prazer formam a base motivacional), para dominar, corromper, atemorizar ou lucrar. Atualmente a exploração comercial da sexualidade feminina, oferece uma idéia superficial, desvinculada do afeto, sustentada em modelos descartáveis, consumistas, estereotipados e preconceituosos, com a imposição da estética e como prerrogativa exclusiva da juventude. Mesmo com uma imagem muito explorada, a sexualidade feminina sempre foi terreno inóspito, com conhecimento centrado geralmente nos aspectos da reprodução humana. Nas escolas bem intencionadas, ainda hoje, palestras esporádicas sobre sexualidade, resumem-se em estudar o corpo reprodutivo e estimular a prevenção à gravidez indesejada. Não falam sobre homossexualidade de uma forma que venha até a esclarecer aos jovens o que realmente é orientação sexual.

O prazer é assunto negado, ou quando muito, mascarado numa linguagem subliminar de que o corpo feminino é um espaço sem muitos direitos. Com o prazer vinculado a um corpo que engravida, que gera, que culpa e martiriza, as mulheres protegem-se num contrato social definido por leis, que longe de garantir-lhe este almejado prazer, obriga-lhes após tantas expectativas frustradas, à manutenção da relação dependente, neurótica, sadomasoquista. para fugir, da categoria pejorativa criada culturalmente para as mulheres que estariam desprotegidas destas leis. Seriam as "descasadas", "mães solteiras", "largadas do marido", "as que estão em falta" (BAMPI, 2001).

Todo um discurso de verdade sobre o sexo é buscado e apoiado nas instituições, o que não é institucionalizado é excluído, pois somente este é aceito como verdadeiro e tido como exemplo para atuações dos indivíduos. Mas efetivamente o que se fala sobre o sexo é esmiuçado e analisado pela sociedade para controle da população, mesmo que esse discurso não seja o “verdadeiro”, divulgado e esperado. De acordo com Foucault (1992:244), a partir do século XVIII, há uma proliferação de discursos sobre sexo, constituindo uma “técnica do poder vigente que incita a propagação de discursos, através de instituições como a Igreja, a escola, a família, o consultório médico, para que se possa controlar o indivíduo e a população”. Nessa perspectiva, se torna primordial o controle populacional, o controle de doenças, o controle da família, pois um possível descontrole ocasionaria muito dispêndio ao poder.

Com todo o desenvolvimento de uma rede de discursos sobre o sexo, houve o incremento de uma adequação do vocabulário sobre o mesmo, de forma que se distinguisse um vocabulário autorizado e outro tido como chulo/impróprio, e de um ajustamento aos lugares onde se pode falar sobre ele e a forma como se pode falar em cada lugar. Dessa maneira, o silêncio sobre o sexo deveria se concretizar nas relações familiares (principalmente as que envolviam crianças); na escola; com as pessoas que não seriam íntimas ou legitimadas para tal. O sexo colocado em discurso não foi restringido, mas incitado, a vontade de saber passa a se constituir uma ciência da sexualidade e de seus comportamentos. “Ao invés de reprimir o sexual, exaltam-se os discursos sobre ele, discursos com metáforas e com locais próprios e impróprios para se propagar” (FOUCAULT apud RABELO,2002).

O que não é regulado para a geração ou por ela transfigurado não possui eira, nem beira, nem lei. Nem verbo também. É ao mesmo tempo expulso, negado e reduzido ao silêncio. Não somente não existe, como não deve existir e à menor manifestação fá-lo-ão desaparecer – sejam atos ou palavras . As crianças, por exemplo, sabe-se muito bem que não têm sexo: boa razão para interdita-lo, razão para proibi-las de falarem dele, razão para fechar os olhos e tapar os ouvidos onde quer que venham a manifesta-lo, razão para impor o silêncio geral aplicado. Assim marcharia, com sua lógica capenga, a hipocrisia de nossas sociedades burguesas. Porém, forçada a algumas concessões. Se for mesmo preciso dar lugar às sexualidades ilegítimas, que vão incomodar noutro lugar: que incomodem lá onde possam ser reinscritas, senão nos circuitos de produção, pelo menos nos do lucro. O prazer a que não se alude para a ordem das coisas que se contam; as palavras e, os gestos, então autorizados em surdina, trocam-se nesses lugares a preço alto. “Somente aí o sexo selvagem teria direito a algumas das formas do real mas, bem insular e a tipos de discurso clandestinos, circunscritos, codificados. Fora desses lugares, o puritanismo modero teria imposto seu tríplice decreto de interdição, inexistência e mutismo”( FOUCAULT, 1990:10).

Se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição, o simples fato de falar dele e de sua atenção possui como que um ar de transgressão deliberada. “Há dezenas de anos que nós só falamos de sexo fazendo pose: consciência de desafiar a ordem estabelecida, tom de voz que demonstra saber que se é subversivo, ardor em conjurar o presente e aclamar um futuro para cujo apressamento se pensa em contribuir” (op.cit:12).

O ser humano sempre foi caracterizado pelo parâmetro do homem branco heterossexual e, a partir dessa acepção, todas as outras manifestações sócio-culturais são vistas. "A mulher existe na cultura patriarcal como o significante do outro masculino, presa por uma ordem simbólica na qual o homem pode exprimir suas fantasias e obsessões através do comando lingüístico, impondo-as sobre a imagem silenciosa da mulher, ainda presa a seu lugar como portadora de significado e não produtora de significado" (MULVEY, 1991:438). Estes preconceitos acompanham as mulheres pela história; Inventam as categorias e as mulheres vão aos poucos "incluindo-se" nelas, sem contestarem, com submissão e dependência. Nos tempos da Inquisição, criaram a categoria das bruxas e muitas mulheres comportavam-se como tal, porque havia esta categoria. Na época das Cruzadas, no século XIII, segundo Veiga (1997) “os cavaleiros iam para o Oriente Médio deixando suas mulheres sozinhas nos castelos, o que representava para eles um sério risco. Voltaram, então, com uma novidade em termos de aprendizado religioso: o culto à Virgem Maria, comum em Bizâncio e ausente até então na Europa”. A partir daí:

"(...) inventou-se o culto a puríssima dama, a quem deveria dedicar-se um amor, não um simples amor carnal, 'animalesco', mas o amor romântico pela deusa, adorada e casta, tanto mais adorada quanto mais casta. Os trovadores cantavam este amor e os homens que tinham ficado para trás, se convenciam dele. Isto acabou se constituindo num cinto de castidade mais eficaz dos que os de ferro e cadeado, mais folclóricos que realmente usados. Isto também reforçou imensamente nos homens a tendência de pensar as mulheres ou como santas ou como prostitutas..." (VEIGA,1997:34 apud BAMPI, 2001).

Sabe-se que, mesmo que algumas mulheres busquem hoje o que lhes é de direito, tanto biológico quanto emocional, muitas vezes lhes é negado pela sociedade, por desconhecimento sobre a sexualidade feminina, preconceito ou desinteresse pela questão. Onde e quando nascem estes "nós" na subjetividade feminina? Até quando as mulheres permanecerão neste estado de amarras a um gênero tão dependente e inseguro quanto elas próprias? Muitas mulheres ainda permanecem com a idéia impingida de que nunca poderão ficar sozinhas sem estar correndo algum risco. As diversas influências educativas levam-nas a crer que toda a garantia da sua vida, está no outro "para lhe amar e proteger". Assim, na dependência, a salvação. Os vínculos familiares paternalistas reforçam esta condição, criando no inconsciente feminino estruturas rígidas que as levam a desacreditar na sua capacidade de buscar, exigir, criar e conquistar o melhor para si mesmas.

Segundo Foucault (apud RABELO,2002), na Grécia Clássica, o amor compreendia não só as relações entre sexos opostos, mas uma relação que abarcava a temperança, não importando, que esta seja heterossexual. O amor pelos rapazes era admitido, até mesmo, como o verdadeiro amor, entre um homem mais velho e um jovem rapaz. Essa verdadeira paixão era atrelada a um caráter pedagógico de preparação do rapaz para o exercício da cidadania, reforçando a virilidade e o seu papel de homem. O amor pelos rapazes era transitório, pois quando o rapaz se tornava um homem (tanto fisicamente como preparado para exercer sua cidadania) os amantes tinham que se distanciar. O amor pelas mulheres era atrelado ao cuidado com a descendência, à definição de regras familiares e à fixação da temperança exigida. Já o amor pelos rapazes se desligava dessas preocupações, tomava assim a forma mais perfeita e bela (não esquecendo, nesse momento, que os gregos valorizavam o belo e que o homem era símbolo da perfeição, beleza e saber, tanto quanto a mulher bela e virtuosa), uma relação vinculada à real afeição, ao cuidado com o outro e a independência entre um e outro.

Dr. César Nunes afirma que:

"Sexualidade é uma marca humana, vivenciada a partir dos desejos e escolhas afetivas, psicossociais e históricas. O sexo na experiência natural e cultural dos homens, transformou-se em sexualidade, isto é, foi capaz de assumir qualidades e significações existentes, sociais, estéticas eróticas, éticas, morais e até espirituais." Salientou também que "a mulher só se libertará quando tiver autonomia intelectual, filosófica, econômica, e ética comportamental." Concluiu com chamados para a importância da mulher colocar a sua marca feminina na construção da sociedade, não de forma "revanchista ou vitimista," mas redimensionando-se e "reconstruindo sua história social e política" (NUNES, 2001).

1.2 – A mulher

Segundo Língua Portuguesa on-line, mulher é definida como: do latim, muliere. Pessoa do sexo feminino, depois da puberdade; pessoa adulta do sexo feminino; esposa; consorte; senhora; pessoa do sexo feminino pertencente à classe popular; o conjunto das pessoas do sexo feminino. Acreditava-se que na pré-história o poder era matriarcal – aparente subordinação dos homens que não reconheciam a sua participação na procriação. Esse contexto foi modificado quando os homens descobriram que tinham parte na procriação. A partir disso surge o patriarcado, uma “organização social baseada no poder do pai, e a descendência e parentesco segue a linha masculina. As mulheres são consideradas inferiores aos homens e, por conseguinte, subordinadas à sua dominação” (LINS, 1997:32), portanto a mulher passa a servir ao homem numa sociedade estruturada na hierarquia dos sexos, dando espaço a desigualdade e estabelecendo uma ordem moral do que o homem pode e o que a mulher não pode fazer.

Na Idade Média, os filhos são postos ao poder do pai, que determinará o casamento, identificados com o sobrenome do pai. A mulher submete-se à autoridade do pai e depois do marido. Após o casamento usa apenas o sobrenome do marido (LINS, 1997). A cultura está tão enraizada às pessoas que mesmo depois que a lei não obriga mais que a mulher carregue o nome do marido, como no Brasil, vêem como natural sem dar-se conta que são propriedade do homem. No século XII tinha um único fim específico, enriquecer e fixar as terras que eram oferecidas como dote ou como herança (LINS,1998; SEIXAS,2002).

O patriarcado é um sistema tão bem-sucedido que se sustenta porque as pessoas subordinadas ajudam a estimular a subordinação, visto que idéias novas são logo descartadas pelas próprias mulheres que sobrevivem pela manutenção de valores conservadores. Vários autores ressaltam a questão da subordinação feminina. Parker (1991), Connell (1995) e Bourdieu (2002) afirmam que a construção da relação de subordinação se dá no modo ativo – penetrar – e passivo – ser penetrado. Através da atividade e passividade se constrói uma relação de poder, dividindo em dois o universo sexual: masculino e feminino.

A mulher feminina tem o perfil: ‘elegante, delicada, frágil, sensível, cheirosa, ousada, que chora, se emociona facilmente, mãe, carinhosa, recatada, indecisa, cuidadora’ é um esteriótipo , por isso a mulher não pode ser autônoma e feminina ao mesmo tempo. Prisioneira de dois papéis opostos, impossibilitada de assumir suas escolhas, visto que as recatadas são fixadas no modelo patriarcal e as ousadas no modelo moderno.

As mulheres vêm travando duras lutas para satisfazer as necessidades do mercado de trabalho e galgar sucesso na vida pessoal. Num mundo dominado por homens, as pressões das empresas em relação ao trabalho feminino por diversas vezes são maiores, pois o homem traz o esteriótipo de ‘forte, competente’, enquanto a mulher é frágil, dócil, um perfil inadequado para ocupar cargos de chefia. Diferentemente do homem que tem que estar provando sua potência, a mulher tem que provar sua competência.

Ser uma mulher autônoma não recorre à cultura patriarcal onde renuncia parte do seu eu, numa tentativa de corresponder ao que esta sociedade espera dela. Ela busca os seus objetivos dentro de um paradigma escravizante. Entende-se por autonomia, “ser você mesma, em sua totalidade, sem negar ou repudiar aspectos de sua personalidade para se submeter às exigências sociais”(LINS, 1997:119). Antes da emancipação feminina, a mulher que não casasse continuava submetida às exigências do homem. Aquelas que aos 25 anos estivessem solteiras, eram motivos de chacota. Caso optassem por uma vida diferente da normal eram ditas promíscuas. Segundo Aires e Duby (apud LINS, 1997:145), “a família, portanto, deixa de ser uma instituição para se tornar um simples ponto de encontro de vidas privadas”.

O que é, afinal, uma mulher autônoma? Em primeiro lugar, ela olha com novos olhos para o mundo, o amor, o homem, a mulher, sem estar presa aos condicionamentos que tanto limitam as pessoas. Tem coragem de ser ela mesma na sua totalidade, e não renuncia a partes do seu eu tentando corresponder ao que dela se espera. Se sente livre para expressar todos os aspectos de sua personalidade, mesmo os considerados masculinos pela nossa cultura, como força, decisão, ousadia. Na relação amorosa, não se preocupa em se submeter às exigências sociais do que é aceito ou não para uma mulher e vive o máximo possível em sintonia com seus próprios desejos. Entretanto, a autonomia não é fácil de ser alcançada. São anos e anos de condicionamento, em que vamos assimilando os valores do lugar em que vivemos, como se fosse nosso idioma natal. Mas neste começo de século, cada vez mais mulheres questionam a suposição da nossa cultura de que a verdadeira felicidade se equipara a estar envolvida com um homem. Isso já é um bom sinal. Ter ou não um homem ao lado está aos poucos deixando de ser a questão básica da vida feminina. Porém, ainda são poucas as mulheres que realmente buscam autonomia.

É muito comum se dizer que o homem teme a relação com a mulher independente. Alega-se que, além de não estar preparado para abrir mão da superioridade que o papel de provedor lhe confere, poderia se sentir desvalorizado caso a parceira ganhasse mais do que ele. Mas na realidade não é isso o que acontece. O homem não teme a mulher que tem uma profissão e ganha muito dinheiro. Ele teme, sim, a mulher autônoma. Ser uma mulher independente ou uma mulher autônoma não é a mesma coisa. É evidente que sem independência financeira não existe autonomia. Mas não basta. Existem mulheres totalmente independentes sem autonomia alguma. Quantas conhecemos que alcançam sucesso profissional, se tornam brilhantes executivas, chegam a ocupar cargos como ministras e que, no entanto, vivem sonhando em encontrar o príncipe encantado?

Muita gente acredita só ser possível encontrar a realização afetiva através da relação amorosa fixa e estável com uma única pessoa. A propaganda a favor é tão poderosa que a busca da "outra metade" se torna incessante e muitas vezes desesperada. E quando surge um parceiro disposto a alimentar esse sonho, pronto: além de se inventar uma pessoa, atribuindo a ela características que geralmente não possui, se abdica facilmente de coisas importantes, imaginando que, agora, nada mais vai faltar. E o mais grave: com o tempo passa a ser fundamental continuar tendo alguém ao lado, pagando-se qualquer preço, mesmo quando predominam as frustrações. Não ter um par significaria não estar inteiro, ser incompleto, ou seja, totalmente desamparado. Mas de onde vem essa idéia?

1.2.1 – Construção da sexualidade feminina

LINS (sd) diz que “na fusão com a mãe no útero, experimentamos a sensação de plenitude, bruscamente interrompida com o nascimento. A partir daí, o anseio amoroso parece ser o de recuperar a harmonia perdida.” A criança, então, dirige intensamente para a mãe sua busca de aconchego. No Ocidente aprendemos que, na vida adulta, somente através do convívio amoroso com outra pessoa nos sentiremos completos. Quem, além do ser amado, pode suprir nossas carências e nos tornar inteiros? Aí é que entra o amor romântico, que promete o encontro de almas e a fusão dos amantes, acenando com a possibilidade de transformar dois num só, da mesma forma que na fusão original com a mãe.

Poderíamos portanto dizer que toda mãe contém a filha em si mesma e toda filha, a mãe; e que toda mulher projeta-se para trás estendendo-se na mãe e para a frente, na filha. Essa participação e "entremeação" produz uma estranha incerteza no que concerne ao tempo; a mulher vive antes como mãe e mais tarde como filha. A experiência consciente desses laços produz o sentimento de que sua vida está espalhada sobre gerações - o primeiro passo na direção da experiência imediata e convicção de estar fora do tempo, que traz consigo um sentimento de imortalidade (JUNG apud SEABRA,sd).

Entender o feminino - objeto de pesquisas da antropologia, da sociologia e da psicologia contemporâneas nos remete a buscar no ser mulher uma sexualidade plural onde existem redes subjetivas de ver essa mulher não apenas fêmea, reprodutora, nem tão pouco feita somente para servir ao homem, e sim, ver um ser capaz de amar, sentir prazer e busca-lo também da forma que lhe satisfaça. Há algum tempo as mulheres estão se libertando do estigma de Mariastornando-se elas próprias. A análise de Freud da sexualidade feminina, se não foi o marco inicial, é contribuição valiosa para o esforço coletivo de aprofundar esse conhecimento. Este tópico se insere nesse esforço ao abordar um aspecto do psiquismo feminino: a relação mãe e filha. Em seu relato sobre a sexualidade das crianças, Freud apresenta bastante explicitamente o feminino como derivado. "Nós somos agora obrigados a reconhecer", escreve "que aquela menininha é um homenzinho." Os meninos aprendem "como extrair sensações agradáveis de seus pequenos pênis... As menininhas fazem o mesmo com seus ainda menores clitóris. Parece que com elas todos os seus atos masturbatórios são feitos sobre esse equivalente do pênis e que a verdadeira vagina feminina permanece desconhecida por ambos os sexos" (FREUD,1996:118). A investigação do lugar da mulher em vários discursos revelará a lógica em funcionamento nessas sutis e não-sutis opressões, mas em nenhum lugar são os resultados mais interessantes e sugestivos do que no discurso da psicanálise, que tem especial importância, uma vez que se tornou nossa principal teoria da sexualidade e autoridade na diferença sexual.

A feminilidade começa como uma versão atenuada da sexualidade masculina; a distinção sexual surge quando a mulher identifica a si própria como uma versão inferior do homem. Freud fala de:

"uma enorme descoberta que as menininhas estão destinadas a fazer. Elas notam o pênis de um irmão ou amigo, impressionantemente visível e de grandes proporções, logo o reconhecem como a contraparte superior de seu próprio órgão pequeno e imperceptível, e daí em diante caem vítimas da inveja do pênis" (FREUD,1996: 252).

A menina é dita tomar o homem como norma desde o começo. Sem dúvida, ela imediatamente se define como uma aberração: "Ela faz seu julgamento e toma sua decisão em um lampejo", Freud continua: "Ela já ouviu e sabe que ela não o tem e quer tê-lo". Desse reconhecimento, seguem-se terríveis conseqüências. "Ela admite o fato de sua castração e, com ele, a superioridade do homem e sua própria inferioridade" (op.cit,: 229). Mais tarde, a descoberta da vagina certamente tem outras conseqüências, mas a vagina é algo de um extra; ela suplementa seu órgão inadequado e, no relato de Freud, não lhe dá uma sexualidade autônoma ou independente. Ao contrário, a estrutura de dependência e derivação ainda é operante. A sexualidade feminina madura, focada na vagina, é constituída pela repressão da sexualidade clitoriana, que é essencialmente masculina. A mulher é um homem inadequado cuja sexualidade é definida como a repressão de sua masculinidade inicial, e a psique feminina continua a ser caracterizada, acima de tudo, pela inveja do pênis.

Muito pode ser, e tem sido, escrito sobre o preconceito masculino de Freud. Sua linguagem sugere onde ele se situa: ele fala da mulher "reconhecendo o fato de sua castração", de sua descoberta de que ela é “castrada” e de sua imediata “admissão” do “muito superior equipamento do menino” (FREUD, 1996:126). Mas invés de rejeitar Freud, pode-se, como Sarah Kofman (1996) faz, levar seus escritos a sério e ver como sua teoria que tão claramente privilegia a sexualidade masculina e define a mulher como um homem incompleto, se desconstrói. Fazer isso, não é confiar em Freud enquanto homem, mas dar-se a máxima oportunidade de aprender com a escrita de Freud, suponho que, caso seu poderoso e heterogêneo discurso esteja em determinado ponto operando com hipóteses injustificadas, essas hipóteses serão expostas e solapadas por forças internas ao texto que uma leitura pode evidenciar.

O mundo das mulheres é impregnado de uma intimidade. Ninguém se espanta, por exemplo, ver com que facilidade as mulheres se tocam - uma pede a outra que a ajude a abotoar-se, uma pede a outra que examine alguma coisa em seu corpo. Amigas podem andar de mãos dadas, podem se abraçar, fazer carinhos, andar sempre juntas, viajar e é aí aonde há in-visibilidade permeia sem levantar sussurros homofóbicos. A mãe pode levar horas penteando os cabelos da filha que, tranqüila, se deixa pentear, Em viagens, podemos perceber como essa prática é universal: às vezes, a mãe retira os elásticos e começa a escovar os cabelos da filha que nem estavam despenteados. As duas sentem ser uma boa ocupação do tempo de espera - uma escovando e a outra se deixando escovar. Estão no seu mundo.

CAPÍTULO II

Homossexualidade

2.1 - Homossexualidade na História

A homossexualidade, ainda que com muitas e diferentes designações, é referida como existente em todas as sociedades humanas e em todas as épocas, apesar de haver algumas cuja linguagem não possui uma palavra para a nomear. A interação sexual entre indivíduos do mesmo sexo é ainda observável, num grande número de outras espécies animais. A acesa discussão para saber se tem ou não uma causalidade biológica e a velha e falsa oposição filosófica entre biológico (natureza) e aprendizagem (construção cultura) tem vindo a inquinar o debate nesta área.

No século XIX, a homossexualidade passou a ser considerada, pela primeira vez, como uma categoria social, mas discutia-se se era doença ou pecado. Esta discussão transborda para o século XX e nem mesmo os trabalhos de Freud e dos primeiros sexologistas, como Hirschfeld [3], vêm a ser decisivos, mantendo-se a disputa até aos nossos dias. A dúvida mais persistente tem exatamente a ver com a causalidade da orientação sexual, pois se esta for essencialmente bio-genética, terá que ser tirada da categoria de pecado (logo mutável) e passar para a categoria de doença (logo imutável).

Etimologicamente, a palavra homossexual é formada pela junção dos vocábulos “homo” e “sexu”. Homo, do grego “hómos”, que significa semelhante e sexual do latim, “sexu”, que é relativo ou pertencente ao sexo. Portanto, a junção das duas palavras indica a prática sexual entre pessoas do mesmo sexo [4].

Não podemos falar de homossexualidade, se não tivermos noção de sua construção histórica, e isto se deve ao fato de que: a homossexualidade sofreu e ainda sofre, grandes preconceitos e estigmas. O Lócus social em que o indivíduo homoerótico foi obrigado a construir sua rede de identificações, suas subjetividades, ou o que lhe foi permitido desejar, e mesmo construir como relação possível com o outro, influíram e tiveram preponderância, nas hoje chamadas “relações homoeróticas”. Segundo Graña (1998:09,10), a homossexualidade é tão antiga como a heterossexualidade, ou como a sexualidade mesma. No Gilgamesh, primeiro épico de que se tem notícia, escrito em caracteres cuneiformes pelos sumérios há aproximadamente cinco mil anos, encontramos o relato da história de ódio, amor e morte de Gilgamesh (rei de Uruk) e Enkidu. O amor entre eles foi tão forte que provocou um insuperável enlutamento de Gilgamesh, que determinou logo também a sua morte. O mesmo autor diz que, na epopéia grega A ilíada, escrita há cerca de três mil anos, é a narrativa que exalta o homoerotismo através da descrição do estreito laço amoroso que unia Aquiles a Pátroclo. “A morte de Pátroclo provoca em Aquiles tamanha dor que ele, após esfregar o barro em seu rosto como expressão de pesar e cólera, lançando sobre os troianos a tal ira (a “ira de Aquiles”).

A homossexualidade permeou a história da humanidade alternando papéis, “era vista como uma relação aberta, em que configurava-se também o amor. Sem uma instituição que a estabelecesse, a regulação da conduta estava na própria relação” ( FOUCAULT,1984: 179). A homossexualidade grega estava ligada a côrte, reflexão moral e ascetismo filosófico. Ou seja, na Grécia o sexo não foi realizado só por prazer. Cedia-se em prol de uma elaboração cultural. Às vezes, a prática era estimulada e outras não. Na Grécia antiga, Platão escreveu muito sobre o assunto em "O Banquete", Aristófanes diz que Eros, o primeiro dos deuses, tinha ambos os sexos. Diferente de hoje, havia na época três gêneros: o macho, a fêmea e o andrógino. O comportamento rebelde de Eros contra o Olímpio é o que origina a separação dos seres. Após longa reflexão, na dúvida sobre que destino os daria, Zeus opta por enfraquecê-los, reduzindo cada ser à metade, já que eram formados pela junção de dois (homem-homem/mulher-mulher/homem-mulher, o ser andrógino). Atitude um tanto sábia, pois ao mesmo tempo que estariam mais fracos, teriam mais a oferecer, já que estariam em maior número. Cada um andaria ereto sobre suas duas pernas. Separados de sua metade, os seres decidem buscá-la. Os que eram homens buscam uma metade de homem, os que eram mulheres buscam uma metade mulher e os andróginos procuram cada um a sua metade oposta.

“As legislações que nos séculos XII e XIII surgiram visando à penalização dos homossexuais, condenavam, ao mesmo tempo e com a mesma severidade, os judeus. O anti-semitismo e o anti-sodomitismo foram, portanto, as ideologias sustentadoras da legislação ditada pelo primeiro código civil ocidental que prescreveu a pena de morte para os homossexuais. A Idade Média reservar-lhes-ia ainda um terror maior a partir da instalação da Santa Inquisição, por Gregório IX, em 1231” (GRAÑA,1998:13).

Morici (apud Graña 1998:165) diz que, “a Idade Média incorpora a concepção clerical da homossexualidade, que já vimos, e a converte numa enfermidade. O diagnóstico médico se apoiava em duas evidências: uma física, a dos estigmas do “vício”; outra moral, a de uma tendência quase congênita para o vício e que entranhava um período de contaminação para os demais. Pertenciam ao mundo marginal dos perversos.”

As organizações homossexuais “tribalistas” ou “subculturais” constituíram-se em verdadeiras redes ou guetos protegidos, nos séculos XVII e XIII, através dos quais os “sodomitas” (o termo homossexual não existia ainda) intercambiavam experiências, idéias e afetos, protegendo-se das severas penas que lhes eram impostas pela legislação remanescente da ordem medieval. No século XIX (DANIEL & BAUDRY, 1973), a homossexualidade era vista como uma aberração, uma patologia passível de cura, nesta época, os homossexuais eram casos isolados e mantidos em sigilo, a perseguição tornou-se fanática e carolíngia, na França prescreveu a pena de morte também para as mulheres que cometessem atos sexuais com outras mulheres.

Conforme Posterli [5] (1996) é oportuno, agora, ressaltar que homossexualismo deixou de ser doença. “Á décima revisão da Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), da Organização Mundial de Saúde, exclui, depois de quase vinte anos, o homossexualismo como doença.”... o então presidente do Conselho Federal de Medicina, psiquiatra Ivan Moura Fé, afirmou que muitas vezes, os próprios pais levam os filhos homossexuais ao médico, porque acreditam que eles são doentes; a situação deixa os profissionais confusos, já que não é encontrado nenhum sinal que indica a existência de uma anomalia.

Nos países “de primeiro mundo”, sobre tudo da Europa Ocidental, a homossexualidade já é encarada como orientação sexual de cada indivíduo, sendo, inclusive em alguns países, permitida, reconhecida e até mesmo protegida a união entre pessoas do mesmo sexo. Quando examinamos as diferentes maneiras pelas quais as pessoas têm vivenciado sua liberdade sexual - a maneira que elas têm criado suas obras de arte – constatamos que a sexualidade tal qual a conhecemos hoje torna-se uma das fontes mais produtivas de nossa sociedade e de nosso ser. Deveríamos compreender a sexualidade em um outro sentido: o mundo considera que a sexualidade constitui o segredo da vida cultural criadora; ela é mais um processo que se inscreve, para nós hoje, na necessidade de criar uma nova vida cultural, sob a condução de nossas escolhas sexuais. Na prática, uma das conseqüências dessa tentativa de colocar em jogo o segredo é que o movimento homossexual não foi mais longe do que a reivindicação de direitos civis ou humanos relativos à sexualidade. Isso quer dizer que a liberação sexual tem se limitado ao nível de uma exigência de tolerância sexual. (FOUCAULT,1984:26).

A Constituição Federal no seu artigo 226, § 3º afirma que “para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar...” Os intérpretes costumam entender que através de tal dispositivo constitucional, a lei protege apenas “a união estável entre o homem e a mulher”, não protegendo outras espécies de união homem com homem e/ou mulher com mulher. Se a lei, não exclui, expressamente, a proteção das uniões homoafetivas, então caímos no que Bobbio (1997:184) chamou de “Norma Geral Exclusiva”, que é uma das premissas básicas do pensamento Kelseniano, que afirma que “tudo o que não está explicitamente proibido, está, implicitamente, permitido”, idéia protegida pela Constituição Federal que afirma que “ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (artigo 5º, inciso II).

2.2 – Homossexualidade feminina

“Embaralhar as cartas. Masculino? Feminino? Mas isso depende dos casos. Neutro é o único gênero que sempre me convém. Se ele existisse na nossa língua, não se observaria essa flutuação do meu pensamento. Eu seria, seguramente, um bom exemplo dele. (Bonnnet, 1930 : 176)”.

Segundo Rosito (apud GRAÑA, 1998), o homossexualismo feminino tem suas origens na Antigüidade. “Safo, a célebre poetisa da antiga Grécia, é tida como a fundadora do culto do amor lésbico, que por sua vez, tomou seu nome de Lesbos, ilhas de forma triangular situada no mar Egeu, da qual a poetisa era natural”. De acordo com os velhos historiadores gregos, Safo era conhecida pelo amor que nutria pelas mulheres. Seu nome tem sido associado, através dos tempos, com a tradicional prática denominada safismo (cunilíngua).

O nome safo significa voz cristalina, ou brilhante. Na verdade tratava-se de uma mulher brilhante, pois seus poemas se tornaram célebres em todo o mundo. Suas jovens pupilas, às quais dedicou várias de suas poesias amorosas, eram denominadas saphos. Essas jovens converteram-se em discípulas do novo culto. O lesbianismo, ao que tudo indica, era muito disseminado em Roma. O santuário das homossexuais era estabelecido especialmente nos suntuosos estabelecimentos de banhos. Ali, as lésbicas se entregavam às mais diversas práticas sexuais com escravas especialmente treinadas, denominadas fellators (id,130). Bassa, a célebre lésbica romana, era assim descrita por um vate contemporâneo: “Ousais unir duas vulvas e, através do simulacro de amor, substituir o homem ausente. Lograis um milagre tão espantoso quanto o mistério tebano: cometer adultério sem a participação do homem” (apud Caprio:26).

Schüler (1985:47), situa a poesia de Safo na expressão do tipo lírico, dos anos 600 e 500, nascida da convulsão social e cultural profunda. Safo é descrita pelo mesmo autor como alguém que, por ser mulher, livre dos problemas políticos e sociais, descobre o caminho de si mesma através das amigas que reúne em torno de si. Longe das armas, dos banquetes e de acalorados debates,“ela inventa a poesia da interioridade da qual não existe modelo”(ibid:49).

Em 1927, Jones (apud GRAÑA,1998:133), baseado na análise de cinco casos de mulheres homossexuais, interessa-se em definir o que corresponde exatamente nas mulheres ao medo de castração dos homens, distinguindo o desenvolvimento de uma mulher homossexual do desenvolvimento de uma mulher heterossexual. O reportado estudioso destaca que a não gratificação dos desejos edipianos com a ameaça da afanisia daí resultante impulsiona o processo homossexual, distinguindo duas formas segundo o nível de regressão: na primeira, as mulheres que conservam interesse pelos homens, mas gostariam de ser consideradas como um entre eles, e na segunda, as que não se interessam pelos homens, mas pelas mulheres, as quais representam para elas sua própria feminilidade, que não podem desfrutar diretamente .

Já Klein (1960), antecipa os pontos de regressão e fixação da homossexualidade feminina numa etapa anterior a postulada por Freud, enfatizando o temor fundamental da menina em relação ao interior do seu corpo e a curiosidade e ataques sádicos dirigidos ao interior do corpo da mãe, tentando arrebatar-lhe o pênis cobiçado. Já Aisemberg (1986:133) diz que: “Todo vínculo vem de uma identificação ou toda identificação contém a história de um vínculo, história que reconstruímos quando na análise nos desidentificamos”. O mesmo autor ainda descreve três tipos de identificações sexuais, na mulher, que se encontram seriamente perturbadas na homossexualidade clínica:

“1) A identificação com a mãe materna, fruto do desenlace da fase edípica, portanto, ligada à estruturação narcísica e ao desejo de ter e criar filhos; 2) A identificação com a mãe erótica, a mãe rival do Complexo de Édipo positivo. Resultado do desenlace edípico onde a mãe é identificada como aquela que se oferece ao pai como objeto de desejo. Identificação para a vida amorosa e erótica; 3) A identificação com o pênis do pai, e identificação com os aspectos ativos e penetrantes do pai interditor, que tira a filha do narcisismo com a mãe e a introduz no mundo externo, com o que já não será psicótica e nem perversa” (Aisemberg apud Graña,1998).

É necessário uma outra identificação com o pai, que confirma a menina como desejável na encruzilhada edípica. Se a expressão da experiência erótica feminina chega a ser tão problemática, a representação da sexualidade lesbiana o é ainda mais, pois rompe com as relações dominantes de gênero, ao excluir a figura do homem e colocar a mulher em uma posição de sujeito atuante, em vez do papel tradicional de objeto do desejo masculino. Assim, o desejo lesbiano na obra de escritoras brasileiras não só representa uma dimensão importante da sexualidade feminina, como também serve para expor e questionar o controle social sobre a sexualidade e o corpo feminino.

O lesbianismo abre um espaço para a realização pessoal e sexual da mulher, no qual a identificação com outro ser seu igual torna possível a auto integração do sujeito feminino. Como tem sido analisado pela teoria crítica contemporânea, as origens dessa identificação física e psíquica entre mulheres remonta ao semiótico (quando a criança encontra-se num estágio de perfeita simbiose com a mãe. Esse primeiro estágio de união influencia as relações posteriores do sujeito e determina na mulher um tendência à bissexualidade e a uma sexualidade mais fluida.

Muitas mulheres se mantêm na in-visibilidade, o que não é bom para o estado emocional e nem para sua autoconfiança. É dessa maneira que uma parte da homossexualidade feminina se põe no mundo. Como uma região incógnita, uma espécie de caixa de surpresas que suspeita do discurso que veicula, o amor entre mulheres é capaz de disseminar perplexidade, seja quando parece optar pelo seu ruidoso silêncio, seja quando autoriza alguma tradução. Em ambos os casos, esse amor que não ousa dizer o nome aparece como alguma coisa que ininteligível, não encontra correspondência na gramática sexual abrangente. Filha bastarda de uma sexualidade pouco afinada à sua voz, a homossexualidade feminina figura como subterrânea e por vezes inexistente aos olhos do mundo e de si mesma. Tudo se passa como se o amor entre mulheres fosse projetado para fora da linguagem. É como se a homossexualidade feminina recebesse a missão de ornar presente o non-sense, já que sua pretensa exclusão do universo falado a caracteriza como impensável, do mesmo modo que a tentativa de traduza-la faz aparecer aquilo que nela resiste à classificação.

A própria mulher foi apagada da história pelo papel secundário que a ela foi relegado durante muitos anos. É interessante ter em mente que há apenas 50 anos a mulher vem conseguindo certo poder de imagem, representação e discurso em algumas sociedades (por exemplo, as "recentes" conquistas promovidas pela revolução sexual, o anticoncepcional, o movimento feminista pelos direitos da mulher). "O discurso da homossexualidade feminina está sempre entremeado com pelo menos três outros: o discurso da feminilidade, o discurso da sexualidade e o discurso amoroso" (PORTINARI, 1989:28).

Outro aspecto muito importante ao se tratar desse assunto é que o padrão heterossexual de análise leva em consideração a presença do falo na relação sexual. No senso comum só há sexo se houver penetração, e a penetração "necessita" do órgão masculino, e ao mesmo tempo da mulher como não portadora do órgão, portanto, castrada. Como estou falando sobre sexualidade (a prática), além do erotismo (o desejo), percebo a necessidade de tecer alguns comentários sobre o ato sexual. O principal erro nesse pensamento é considerar a penetração como a única forma possível de se fazer sexo; partindo-se deste princípio deixa-se de lado o desejo, o envolvimento que gera tesão, e o apetite sexual. Essa visão encara a transa como algo mecânico e ignora a participação do nosso cérebro como também responsável pelo desejo. "Tudo existe e a sexualidade é vivida na singularidade individual, com maior ou menor sujeição às representações sociais comuns." (NAVARRO-SWAIN, 2000:86).

Hoje existem estudos sobre a questão feminista (da mulher na sociedade) e a questão lésbica (da orientação sexual da mulher), mas ainda estamos longe de visibilidade e sobretudo, respeito generalizado. No plano dos direitos da pessoa, a maioria dos países não adotou uma lei que proíba a discriminação por orientação sexual. Em todos os países, as lésbicas são objeto de numerosas discriminações sistemáticas diante das leis e regulamentações e também em políticas públicas e serviços públicos. A maioria dos países não reconhece os casais de mulheres, nem social nem juridicamente. Muitas lésbicas perdem seus empregos, outras perdem a guarda de seus filhos e a outras até se nega o acesso a uma moradia.

Há lésbicas em todos os países do mundo. Estejam casadas, sejam mães de família ou solteiras, a maioria vive seu amor na clandestinidade, por temor à violência. A opressão engendra sua in-visibilidade no espaço público; em certos idiomas nem sequer existe uma palavra para nomeá-las. A afirmação das lésbicas depende então do grau de mentalidade aberta que se tenha sobre elas. A comparação Em Feminilidade Freud, ainda tenta, dizer-nos algo, reafirma algumas idéias, corrige outras, mas o que mais fica evidente é o quanto não conseguiu saber desta:

"Os senhores, agora, já estão preparados para saber que também a psicologia é incapaz de solucionar o enigma da feminilidade." (...)"De acordo com a sua natureza peculiar, a psicanálise não tenta descrever o que é a mulher - seria esta uma tarefa difícil de cumprir -, mas se empenha em indagar como é que a mulher se forma, como a mulher de desenvolve desde criança dotada de disposição bissexual."(...)"Não é minha intenção seguir o comportamento ulterior da feminilidade através da puberdade até o período de maturidade. Nossos conhecimentos seriam, de resto, insuficientes para tal propósito." (...)"Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou consultem os poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e mais coerentes." (FREUD,1996:144, 160 e 165).

Embora Freud tenha sido muito arrojado para o seu tempo, entendemos que explicou a feminilidade não explicando-a, mas, não há nada mais feminino do que não concluir e continuar em busca constante.

2.3 – In-visibilidade na homossexualidade feminina

Como uma região incógnita, uma espécie de caixa de surpresas que suspeita do discurso que veicula, o amor entre mulheres é capaz de disseminar perplexidade, seja quando parece optar pelo seu ruidoso silêncio, seja quando tenta uma tímida visibilidade. A promessa de transpor para uma realidade discursiva tudo aquilo que incide sobre os mais obscuros lugares da experiência humana faz do não dito algo, senão indesejável, ao menos incomodo à nossa disposição de tornar as coisas, mais que classificadas, bem ditas.

Enquanto as mulheres heterossexuais começam a caminhar na direção de uma maior liberdade, no sentido de manifestar e discutir as questões relativas à sexualidade, as lésbicas exercem e discutem a sua sexualidade à margem da sociedade, tolhidas pela discriminação.

Em relação ao homoerotismo feminino pode ser percebido através de uma economia do silêncio e da in-visibilidade provinda de longa data. No antigo Testamento, mais precisamente no capítulo XVIII do terceiro livro de Moisés, chamado Levítico, aparecem significativas considerações acerca dos "casamentos ilícitos" e das "uniões abomináveis". Entretanto, nesta ampla lista de advertências não consta qualquer referência ao homoerotismo feminino.Mas, o silêncio que parece emudecer a homossexualidade feminina não se restringiu às escrituras bíblicas. Até o Tribunal do Santo Ofício Português fez "vista grossa" ao lesbianismo. Tamanha complacência adquiriu o status de lei a partir de 22 de março de 1646, quando o Conselho Geral da Inquisição de Lisboa, num ato surpreendente, decidiu ignorar a prática sexual entre mulheres (MUNIZ,1990).

Conforme esclarece Mott (1987), antes mesmo do Santo Ofício formalizar esta postura de tolerância, ou melhor, de desconfiança acerca da possibilidade deste tipo de pecado existir, já se podia detectar uma expressiva descrença em relação ao homoerotismo feminino. Segundo o historiador, "raríssimos são os processos de mulheres-sodomitas existentes na Torre do Tombo, não havendo registro de nenhuma lésbica lusitana que tenha sido queimada pelos tribunais religiosos". O período vitoriano, famoso por seu policiamento aos bons costumes, também não debruçou sua ira sobre a homossexualidade feminina (...)“A rainha Vitória, através de uma lei sancionada em 1885, condenou somente às práticas sodomitas entre os homens, negando incluir punição contra o sexo entre mulheres por não acreditar na viabilidade desse invisível amor.”"(...) o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo o exercem" (BOURDIEU, 1989:08).

Bourdieu cita os neo-kantianos (Hegel, Strauss, Bauer, Stirner e Feuerbach entre outros) e o tratamento dado por eles aos diferentes universos simbólicos: mito, língua, arte, ciência. Para eles, cada um desses instrumentos constitui-se num instrumento cognoscente e de construção do mundo objetivo. Ele faz referência a Durkheim e à sua tentativa de elaborar ciência, sem empirismo e apriorismo, como o primeiro passo na inauguração de uma "sociologia das formas simbólicas" (...) o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo o exercem" (op.cit: 08).

A mesma ambiência de segredo e in-visibilidade também é constatável no fluxo da vida diária. Ainda que o amor entre mulheres suscite comentários e reflexões provindos das "bocas pequenas" e dos "buchichos" que animam o nosso dia a dia, não se pode negar que suas visitas à linguagem se revestem de recato e discrição. Ora, freqüentemente, a homossexualidade feminina é interpretada como alguma coisa sigilosa ou mesmo invisível. Principalmente quando contrastada com a reconhecida visibilidade do universo homossexual masculino. A própria caricatura do "sapatão", apesar de bastante popular, possui menor publicidade que as clássicas figuras do "viado", da "bicha" e do "travesti". Nas anedotas, ditadas e provérbios, assim como nos trabalhos científicos, se observa mais uma vez um tímido registro do lesbianismo.

Também no circuito gay a presença de mulheres é menos significativa, e são poucos os locais cuja freqüência é marcadamente feminina. A propósito desta suposta in-visibilidade vale ressaltar que, quando realizamos uma pesquisa no "mercado homossexual carioca", constatamos não só a ausência de espaços abertos dedicados à "pegação" [6] entre mulheres, bem como a inexistência de "casas de chá" [7] e similares especializados no atendimento à clientela feminina (LINS,sd).

Outros fatores contribuíram para haver um olhar diferente em relação a homossexualidade feminina. Nunca se deu importância à sexualidade da mulher, convencidos de que o grande prazer dela era ter filhos e criá-los ou, quando não casavam, ajudar a criar os sobrinhos. Por outro lado, sempre houve maior liberdade para as mulheres se tocarem, se beijarem, manifestando carinho umas pelas outras. “É muito mais fácil, portanto, a mulher dissimular sua verdadeira orientação sexual, na medida em que a relação amorosa entre elas é menos evidente” (op.Cit).

Desde pequenas as meninas são educadas para o casamento com o sexo oposto e para o papel materno. Na adolescência surgem conflitos quando percebem que seu desejo amoroso e sexual é dirigido para pessoas do seu próprio sexo. Assim como acontece com os gays, as lésbicas precisam lutar para ser autônomas, não se submetendo aos valores impostos nem absorvendo os preconceitos que a sociedade tem contra os homossexuais, assim como contra todas as minorias.

O relacionamento entre duas mulheres lésbicas é diferente do de dois homens gays. Cada casal, de forma inconsciente, leva para a relação características que a sociedade determina para o homem e para a mulher. Talvez isso explique por que Kinsey (apud LINS,sd) comprovou “em suas pesquisas que 63% das lésbicas constituem relacionamentos estáveis e duradouros e entre os gays8 essa percentagem não passa de 40%”. Numa proporção menor do que entre as mulheres heterossexuais, as lésbicas têm casos fora dos seus relacionamentos principais. E quando se separam, em geral ficam amigas de suas ex-companheiras. A maioria dos casais de lésbicas não sente necessidade de reproduzir o padrão de relacionamento heterossexual, onde um tem o poder sobre o outro. Entre elas, existe mais facilidade do que entre os gays de viver uma relação onde duas pessoas são iguais, fora dos estereótipos patriarcais de gênero.

A lésbica não se sente homem, nem quer ser homem. Entretanto, do mesmo modo que ocorre com alguns gays9, encontramos entre elas, de forma também defensiva, as que se esforçam para corresponder aos estereótipos, neste caso masculino, da nossa cultura. São mulheres que adotam atitudes típicas do machão. Entretanto, duas mulheres lésbicas, bonitas e atraentes podem confundir as pessoas quanto à sua orientação sexual. Claro que muitos machões desinformados acreditam que uma mulher só é lésbica porque foi mal-amada por um homem.

Não é à toa que a maior queixa das mulheres nas relações sexuais com os homens seja exatamente a de que, por não saberem disso, eles iniciam o ato sexual tocando diretamente o clitóris e partem diretamente para a penetração, sem preliminares. Kinsey também já tinha observado que as relações sexuais entre lésbicas tendem a ser mais demoradas, envolvendo maior sensibilidade do corpo todo, já que o orgasmo não marca automaticamente o final da sensação sexual, como acontece muito nas relações heterossexuais. (apud, LINS,sd).

Contudo, o fato que mais intriga as pessoas na homossexualidade feminina é o corpo da mulher não ser provido de órgão de penetração. É difícil para elas entenderem como pode haver uma relação sexual sem a presença do pênis. A questão é que as mulheres se excitam no corpo todo e não só na área genital. Lábios, língua, pescoço, orelha, barriga, costas, seios, nádegas, quadris, joelhos são algumas das zonas erógenas mais importantes do corpo feminino.

"As ideologias, por oposição ao mito, produto coletivo e coletivamente apropriado, servem interesses particulares que tendem a apresentar como interesses universais, comuns ao conjunto do grupo (...) Este efeito ideológico, produzi-lo a cultura dominante dissimulando a função de divisão na função de comunicação: a cultura que une (intermediário da comunicação) é também a cultura que separa (instrumento de distinção) e que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à cultura dominante" (BOURDIEU, 1989: 11).

A in-visibilidade é o estar dentro de uma visibilidade; não em sua totalidade, pois pensando assim seria uma utopia. Algumas pessoas notam a visibilidade do indivíduo homossexual mas, não tendo certeza concreta, não se pode afirmar que aquela pessoa seja ou não. Mesmo assim, murmúrios se espalham onde criam-se a imagem daquele indivíduo, rotulando num esteriótipo o qual não se têm certeza do que falam e pra quem falam, podendo assim, voltarem as palavras aos próprios emissores delas.

Para melhor entendimento, podemos contextualizar numa ordem desordenada do que significa ser a in-visibilidade: sujeito, indivíduo, pessoa, ser, identidade, subjetividade, insight, gestalt, res-significação, encontro, sombra, sociedade, esquizoanálise, comunidade, psicanálise, saúde, comportamento, psicopatologia, neurose, histeria, campo, seio bom, seio mal, esquizóide, fenômeno, condicionamento, des-sensibilização, cognição, espelho, construção, protagonismo, des-contrução.

2.4 – Representações sociais

A Teoria da Representação Social, criada pelo psicólogo social Serge Moscovici, elucida os motivos pelos quais os movimentos representativos de grupos excluídos são criados. Apesar de não ser definida pelo autor, o mesmo faz as seguintes considerações:

"Por representações sociais entendemos um conjunto de conhecimentos, proposições e explicações originadas na vida cotidiana, no curso de comunicações interpessoais. Elas são equivalentes, em nossa sociedade, aos mitos e sistemas de crença das sociedades tradicionais e podem também ser vistas como a versão contemporânea do senso comum" (Oliveira, apud Jacques, 1988).

Modificar uma realidade comum é tarefa árdua de inúmeras associações, entidades e ONG´s que representam grupos sociais historicamente discriminados. Prostitutas, Travestis, Transexuais e homossexuais carregam o estigma da marginalidade: imoralidade, violência, perversão, promiscuidade. São conceitos do senso-comum, que possuem vida própria, resistindo a várias gerações. Segundo Goffman (1988) acreditamos que o estigmatizado não seja completamente humano e por isso, muitas vezes sem pensar, os discriminamos, reduzindo suas chances de vida.

Podemos compreender este processo através da analise da origem da representação social, segundo Oliveira e Werba (1998: 114):

"Constata-se que criamos as RS para tornar familiar o não familiar. Este movimento que se processa internamente, vem a serviço de nosso "bem-estar", pois tendemos a rejeitar o estranho, o diferente, enfim, tendemos a negar as novas informações, sensações e percepções que nos trazem desconforto. Para assimilar o não familiar, dois processos básicos podem ser identificados como geradores de representação social, o processo de ancoragem e objetivação."

Neste caso, fica claro que a representação social que caracteriza tais grupos foram criados pelo processo de ancoragem, definido da seguinte forma pelas autoras citadas no parágrafo anterior: "É o processo pelo qual procuramos classificar, encontrar um lugar, para encaixar o não familiar”. Pela nossa dificuldade de aceitar o estranho e o diferente, este é muitas vezes percebido como ameaçador. “(...) A ancoragem nos ajuda em tais circunstâncias.” É um movimento que implica, na maioria das vezes, em juízo de valor, pois, ao ancorarmos, classificamos uma pessoa, idéia ou objeto e com isso já situamos dentro de alguma categoria que historicamente comporta esta dimensão valorativa. “Quando algo não se encaixa exatamente a um modelo conhecido, nós os forçamos a assumir determinada forma, ou entrar em determinada categoria, sob pena de não poder ser decodificado” (OLIVEIRA; WERBA1998: 114).

É desta forma que se processa a classificação, pela sociedade, dos que assumem um comportamento adverso. O conceito previamente estabelecido , criado como forma de proteção, acompanha um comportamento de exclusão, dificultando e limitando a vida de tais pessoas. Como forma de sobrevivência, são formados subgrupos, que constituem verdadeiras sociedades alternativas, cada qual com suas normas, linguagens e territórios. Objetivando a aceitação social, os movimentos utilizam o mesmo processo na qual foram criadas as representações que caracterizam seus grupos, valendo-se, então, da comunicação para tal.

Segundo Jovchelovitch (2000):

"Construir representações sociais envolve ao mesmo tempo a proposição de uma identidade e de uma interpretação da realidade. Isso significa que, quando sujeitos sociais constroem e organizam campos representacionais, eles o fazem de forma a dar sentido à realidade, a apropriá-la e interpretá-la. Ao assim fazê-lo, eles também dizem quem são como entendem a si mesmos e a outros, como se situam no campo social e, quais são os recursos cognitivos e afetivos que lhes são acessíveis, em um dado momento histórico."

Redefinir seus conceitos em um processo de construção identitária é a intenção de cada entidade, com o apoio de organismos governamentais, tanto locais quanto mundiais. Nuances - grupo pela livre expressão sexual (ONG), divulga, educa e informa sobre questões relacionadas à sexualidade, direitos humanos, preconceito e violência, na defesa dos direitos civis, políticos e sociais de lésbicas, gays, bissexuais e aqueles que sofrem qualquer tipo de discriminação por sua expressão sexual.

Através de ações junto à sociedade em geral e ao próprio grupo, estas entidades desempenham uma intensa atividade no sentido de modificar suas representações sociais, buscando a integralização de seus direitos e a valorização como seres humanos.

CAPÍTULO III

Metodologia

Ao elaborarmos um projeto científico, estamos trabalhando com pelo menos três dimensões que são interligadas: a técnica, a ideológica e a científica. Neste capítulo é dada a ênfase á dimensão científica, pois viabiliza o acesso ao conhecimento, não desmerecendo as outras citadas. Os elementos constitutivos de uma pesquisa, iniciam pelo tema que indica uma área de interesse a ser investigada e a formulação de perguntas ao tema proposto constituindo-se na problematização. O segundo elemento diz respeito à definição da base teórica e conceitual, sendo imprescindível à definição clara dos pressupostos teóricos para que se possa fazer a análise e conceitos a serem utilizados. O terceiro elemento é a formulação de hipóteses, como tentativa de criar indagações a serem verificadas na investigação. A justificativa descreve os motivos da realização da pesquisa, contribuições, intervenção ou solução para o problema.

Quando se trata dos objetivos, buscamos responder ao que se pretende na pesquisa, que metas almeja-se alcançar ao término da investigação, e a metodologia, como a definição de instrumentos e procedimentos para a análise dos dados. O cronograma é utilizado para traçar o tempo necessário para a realização de cada uma das etapas propostas. Em seguida, encontramos as referências bibliográficas e para finalizar os anexos. Destacamos a entrevista semi-estruturada e a observação participante como componentes importantes da pesquisa qualitativa.

A opção pela abordagem qualitativa desta realidade deu-se em função dos objetivos desta pesquisa, na qual busco atingir a compreensão – ainda que parcial – de como as homossexuais vivem na in-visibilidade, como percebem, pensam e sentem essas vivências. Utilizamos a metodologia qualitativa, devido a seu caráter exploratório, que nos favoreceu compreender o fenômeno na sua complexidade e suas peculiaridades. São discutidos neste momento alguns aspectos acerca de determinadas questões imbricadas no processo de investigação desenvolvido quando da consecução do presente estudo.

Minayo (1992) nos coloca o embate sobre a cientificidade das ciências sociais em relação às ciências da natureza. A interrogação em torno da cientificidade das ciências sociais se desdobra em várias questões: o tratamento de uma realidade da qual somos agentes, a busca pela objetivação descaracteriza a subjetividade e por último, que método geral trataria de uma realidade marcada pela especificidade e pela diferenciação. Outro aspecto das Ciências Sociais é o fato de que ela é intrínseca e extrinsecamente ideológica, pois a ciência veicula interesses e visões de mundo historicamente construído, e seu objeto é essencialmente qualitativo, na medida em que a realidade social é mais rica que qualquer teoria, pensamento e discurso que possamos elaborar sobre ela. Desta forma, a autora destaca a metodologia como o caminho do pensamento e a prática exercida sobre a realidade, porém, nada substitui a criatividade do pesquisador.

O processo de descoberta da realidade via indagações é também proposto por MINAYO (1992:23,35), quando a autora enfatiza o caráter “intrinsecamente inacabado e permanente” deste processo, entendendo-o como uma atividade inesgotável de aproximação da realidade. A autora prossegue nesta linha de pensamento ao propor que, no campo das ciências sociais, “a objetividade não é realizável”, existindo assim espaço apenas para a objetivação, esta obtida mediante a utilização de adequados referenciais teóricos e instrumentais técnicos.

O trabalho de campo, foi efetivado na cidade de Aracaju-SE, com um ideal de amostra composta por 20 (vinte) mulheres, as quais representam a população homossexual feminino, sendo estes cônjuges ou não. Inicialmente foram feitos contatos com as homossexuais, a fim de constatar a disponibilidade dos sujeitos em participar deste estudo. A partir do grupo formado, fizemos entrevistas semi-estruturadas, usamos como instrumentos: gravador, lápis, borracha e papel. Após a coleta de dados, elencamos quais as representações da in-visibilidade feminina no contexto homossexual e buscaremos as fundamentações teóricas confluentes às nossas interpretações a respeito do estudo.

Embora que tivemos contatos com as 20 (vinte) mulheres sujeitos da amostra desta pesquisa, somente 08 (oito) se propuseram a dar-nos as entrevistas de fato, contanto que também fossem colocados pseudônimos (por ordem alfabética) para que pudessem ter uma forma de se protegerem . O que dificultou foi que as demais sentiram-se inibidas pelo fato que seria gravado, não queriam dispor de tempo como também do local disponível para que se pudesse fazer a coleta deste estudo. Notando essa dificuldade, foi proposto desligar o gravador, mas, percebido que não se modificou a postura de resistência dos sujeitos. Como alternativa, foi pensado no questionário, acreditando ser assim, que fosse mais fácil para o sujeito, tendo o mínimo de disposição, responder. Mais uma vez, o nosso objetivo não fora alcançado, pois não recebemos devolução de nenhum. Percebemos que muito mais do que somente a palavra ou o se dizer viver na in-visibilidade, há o poder simbólico imbricado na construção deste indivíduo e em sua representação social.

Goldenberg (2000:13) diz que: nenhuma pesquisa é totalmente controlável, com início, meio e fim previsíveis. A pesquisa é um processo em que é impossível prever todas as etapas. O pesquisador está sempre em estado de tensão porque sabe que seu conhecimento é parcial e limitado – o “possível” para ele.

É evidenciado neste momento o percurso metodológico implicado quando da coleta de dados, cuja explicitação se faz necessária uma vez que a metodologia é parte inerente da visão social de mundo implicada no aporte teórico que sustenta a prática científica (MINAYO, 1992). À guisa de conceituação, a autora entende por metodologia “o caminho e o instrumental próprios de abordagem da realidade” (op.Cit.:22).

Cabe ter sempre em mente a indagação proposta por MINAYO (op.Cit:27) acerca do produto de nossa ação: “Como vai ser empregado e interpretado?”. Entendo ser este questionamento ainda mais válido quando tratamos de um objeto de estudo socialmente discriminado, como é o caso da lésbica. Cientes disso, mantivemos esforços constantes e consistentes no sentido de sustentar esta pesquisa dentro dos pressupostos éticos a ela concernentes.

CAPÍTULO IV

Análise da Pesquisa e Resultados

A análise começa a ser construída através das representações sociais que a partir do conjunto de ações compartilhadas por determinado grupo e expressam seus valores e sentimentos em relação aos objetos do mundo social. Possibilitando compreender a interação entre o universo individual e as condições sociais nas quais os indivíduos interagem. Permite, ainda, compreender os processos que intervêm na adaptação sócio-cognitiva dos indivíduos às realidades cotidianas e ao seu ambiente social e ideológico. Moscovici afirma que:

A representação social é um corpus organizado de conhecimentos e uma das atividades psíquicas graças às quais os homens tornam inteligível a realidade física e social, inserem-se num grupo ou numa ligação cotidiana de trocas e liberam os poderes de sua imaginação (1969. p. 28).

Uma outra função das representações sociais é a de justificar os comportamentos adotados por um determinado grupo. Neste processo, o ser social, enquanto subjetividade objetivada apropria-se e modifica-se a partir de um conjunto de objetivações vinculadas ao contexto histórico-social em que está inserido.

Este “apropriar-se” está contido na relação do indivíduo com a sociedade. Esta relação se dá através de incorporação dos costumes, valores, crenças, condutas e práticas institucionalizadas no cotidiano, tecidas pelas relações objetivas da sociedade. O habitus forja no individuo um modo de viver vincado na sua existência social, em que se misturam o fictício, o real, o abstrato e o concreto, o fragmentário e o hierárquico.

O habitus vem a ser portanto, um princípio operador que leva a cabo a interação entre dois sistemas de relações, as estruturas objetivas e as práticas. O habitus completa o movimento de interiorização de estruturas anteriores, ao passo que as práticas dos agentes exteriorizam os sistemas de disposições incorporadas e modificados. (Bourdieu, 1994, p.50/51).

Partindo do pressuposto de que as diferenças de gênero são produzidas e reproduzidas a partir das matrizes dos habitus feminino e masculino, supomos, também, que as relações sociais de gênero existem num sistema de oposição no interior quais os atores sociais se colocam em relações recíprocas e contraditórias. As relações de poder penetram, pois as relações de gênero, que são construídas hierarquicamente e contribuem para a sua naturalização.

Dentro desta perspectiva, Joan Scott (1990), quando faz a análise da identidade feminina ressalta a necessidade de se entender a dinâmica das relações sociais como sexuada, introduz a categoria gênero, redirecionando a discussão para o humano, assimétrico e diversificado (em termos de relações entre os sexos) e o reconhecimento do ser homem e do ser mulher. Apresenta também uma proposta de compreensão do conceito de gênero e de como as relações entre os sexos se estruturam ao longo da história. De um lado, o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais, baseado nas diferenças percebidas entre os sexos e, de outro lado, o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder em que as representações dominantes são apresentadas como naturais e inquestionáveis.

"A compreensão deve preceder, acompanhar e fechar a explicação, envolvendo-a completamente, possibilitando a apropriação do sentido posto a descoberto pela etapa metodológica e abrindo-a em direção à existência, ao ontológico. Neste sentido, ela introduz uma intersubjetividade irredutível no processo de interpretação, um componente específico" (Costa, 1995:66).

A dialética explicação-compreensão permite que o processo interpretativo aplicado ao texto escrito direcione-se para a elucidação e tratamento científico da ação humana. Esta assume uma dimensão inter-humana e histórica. O texto escrito marca o tempo social e registra-se na história, podendo ser atualizado em diferentes situações. O agir é uma obra aberta cujos efeitos escapam ao controle de seus agentes e cuja significação é dada pelas sucessivas interpretações (op.Cit,).

Foram utilizados os seguintes indicadores sociais, a fim de ajudar a traçar o perfil social da população homossexual feminino que vive na in-visibilidade na cidade de Aracaju: faixa etária, orientação sexual, formação, escolaridade, com quem mora, se possui plano de saúde, discriminação, sobre o conhecimento da sua sexualidade perante a família e a sociedade, sobre o casamento civil, questão da visibilidade e sobre ser passivo ou ativo.

Fica claro perceber, no contexto psicológico na análise desta pesquisa que, como conseqüência o indivíduo homossexual feminino pode desenvolver processos depressivos, oriundos do preconceito e discriminação que sofre no seu dia-a-dia. O suicídio pode ser aceito como recurso de fuga psicossocial para o homossexual. Este pode lançar mão do uso de drogas como forma de diminuir a pressão psicológica da família e até de si mesmo. A não aceitação da sua orientação sexual pode trazer conflitos psicológicos que afetam de sobremaneira a estrutura mental destas pessoas. Com isso, há uma promoção de encontros recônditos ou mesmo dupla relação. O fato de não poder assumir sua homossexualidade devido a fatores como o medo do preconceito, e violência, faz com que estes indivíduos procurem viver na in-visibilidade, podendo ocorrer problemas e somatizações no corpo físico e psíquico.

Já no que diz respeito ao contexto sócio-histórico, a família é aonde tudo começa perpassando por um silencioso olhar homofóbico e nas sutis piadinhas as quais podemos dizer o “não-dito”. Se o preconceito existe e pode ser percebido facilmente, isso nos leva a crer que ele relega a homossexualidade à clandestinidade, tornando-se ela uma abstração no imaginário coletivo. Isso foi verificado pelo instrumento de investigação desta pesquisa, levando em conta que a primeira manifestação homofóbica ocorre na própria família, estes mesmos ignoram o fato ou fingem não ver no âmbito familiar que há indivíduo(s) com orientação homossexual, embora seja negada. Foram detectadas também nas entrevistas, que tais infâncias não fugiram a normalidade, eliminando a idéia de que a homossexualidade feminina provenha de algum trauma.

Além da clandestinidade, que torna a homossexualidade menos visível, outro fator importante é a desinformação, onde há pouca sobre este assunto circulando sobre a nossa sociedade, e como se não bastasse na maioria das vezes é equivocado ou pejorativo. Questões morais vêm sempre juntas às discussões sobre homossexualidade. A realidade visualizada pela sociedade, e assimilada de forma bastante limitada. Este é um assunto desconhecido para a quase totalidade das pessoas, e se for levada em conta que a própria sexualidade humana ainda está repleta de equívocos, e que os próprios homossexuais desconhecem sua sexualidade, pode-se compreender como a desinformação pode gerar, em última análise, o preconceito e a discriminação, impedindo que os mesmos possam viver com liberdade sua orientação sexual.

Dessa forma, ocorre um processo decorrente da não exposição, doravante denominada "in-visibilidade" homossexual. Ele tem sua gênese na idéia da não liberdade sexual, que constitui-se mais de uma sensação do que de uma realidade, posto que, se fosse de outra forma, os indivíduos poderiam ao menos viver sua orientação sexual livremente. O que ocorre, na verdade, é que nem todos podem ou querem viver a sua sexualidade abertamente, deixando subentendido à sociedade que a homossexualidade é algo de menor vulto. Ao sentir-se pressionado a ocultar uma parte de sua vida, o homossexual feminino não pode ser considerado um cidadão de maneira integral. Alguns direitos lhe são negados e para não sofrer o revés do estigma, continua sem se pronunciar.

Entendemos que o homossexual hoje sofre com o preconceito e a discriminação, pois não lhe é permitido viver plenamente sua identidade. A visão do comportamento lésbico na cidade de Aracaju vem ancorada com questões morais, sobre a promiscuidade neste meio pressupondo que a mulher nasceu para ser mãe e respectivamente cuidar da família. Mesmo alcançando um grande espaço no mercado de trabalho a mulher ainda luta pela sua orientação sexual. Como pôde ser observado em um discurso de uma entrevistada somente, a religião continua sendo uma das instituições da sociedade que mais cria obstáculo para o pleno respeito aos homossexuais. No caso específico da cidade de Aracaju deve-se sempre lembrar que durante todo o período que o Arcebispo Dom Luciano Cabral Duarte esteve à frente da Arquidiocese de Aracaju, os sermões e as perseguições aos homossexuais foram uma de suas práticas mais corriqueiras. Entretanto, o atual arcebispo Dom José Palmeira Lessa, mantém firme a posição que está esboçada no catecismo da Igreja Católica, sem proferir os sermões cheios de ódio e rancor que o seu antecessor era mestre. Mas, apesar disso, os carismáticos mantêm até hoje uma visão radical, corroborando que a igreja católica em Aracaju é uma importante formadora de opiniões muito parecida com as dos evangélicos mais radicais.

Toda essa discussão sobre a moralidade ou não das diferentes formas de sexualidade atinge diretamente os jovens, que estão iniciando sua vida sexual com mais este complicador, pois ficou evidenciado que a maioria das lésbicas entrevistadas percebeu sua orientação homossexual durante a adolescência. Muitas das adolescentes sofrem ao descobrir que sentem-se atraídos por pessoas do mesmo sexo, por isso precisam primeiro vencer todos os obstáculos impostos pela sociedade para os indivíduos homossexuais, para então poderem viver livremente o seu desejo imaginário acontece no real.

As homossexuais aracajuanas pesquisadas levam às observações e considerações muitas das vezes distorcidas, até mesmo distantes da realidade vivenciada por estes indivíduos. Uma delas diz respeito ao fato de se ter notado o crescimento do número de pessoas com esta orientação sexual in-visivelmente vivendo nesta cidade, em decorrência do ‘bom padrão’ de vida que passaram a ostentar. No entanto, esta realidade não foi encontrada como regra geral para a maioria das entrevistas. Neste universo pesquisado, somente uma vive na visibilidade, que por coincidência ou não, pelo sujeito que tem a escolaridade e padrão de vida mais baixo.

Na questão do casamento, onde encontramos uma entrevistada na situação de ‘dupla relação’, isso se dá pela necessidade de manutenção das ‘aparências’, fazendo com que muitas mantenham o ‘duplo casamento’ – bissexualidade. Nesta entrevista o sujeito não somente tem o medo de ser apontado no meio social e de ser rejeitado pela família por gostar de pessoas do mesmo sexo, mas do que poderá vir a ocorrer em relação aos seus filhos.

Considerações Finais

Partindo da idéia que o ser homossexual é perfeitamente compatível com uma boa saúde física e mental, não há dúvida possa vir a ter mais probabilidades de sofrerem de problemas psicológicos do que os heterossexuais, começando na adolescência. Nossa pesquisa vem mostrar uma prevalência significativamente mais elevada de tentativas de suicídio, depressão, abuso de substâncias e perturbações ansiosas nas homossexuais quando comparadas com as heterossexuais. Estes dados podem ter várias interpretações, tais como serem o produto da opressão social, das características atípicas do gênero, das diferenças no estilo de vida, mas nenhuma destas interpretações, só por si, explica todas as diferenças.

Investigamos que há in-visibilidade na homossexualidade feminina na cidade de Aracaju. As lésbicas quais foram entrevistadas, têm como seu maior medo expor sua orientação sexual à família, no trabalho por receio de perder o emprego ou mesmo ser alvo da homofobia que desde o começo da análise ficou claro que a mesma, começa do próprio sujeito.

Apesar das mudanças positivas dos últimos anos, parece-nos irrealista pensar que as atitudes negativas em relação à homossexualidade, venham a desaparecer num futuro previsível. Enquanto a homossexualidade não for mais bem aceita pela generalidade das pessoas, provavelmente nenhuma descoberta científica fará diminuir grandemente a homofobia, mas talvez que a descoberta de novos fatos científicos sobre a orientação sexual humana possa facilitar a sua aceitação. A repressão sexual continua existindo na sociedade, mesmo nas mais avançadas, embora sua forma tenham mudado: passou-se da prisão a métodos mais sutis.

Concluímos que a in-visibilidade na homossexualidade feminina é um tema inacabado, até porque novos conhecimentos, relações e práticas discursivas fazem parte de um movimento em constante mudança e reinvenção. O importante foi perceber que as construções de novos significados sobre esta pesquisa permitirão ampliar o espaço da análise das relações de gênero e sexualidade, bem como múltiplas possibilidades ações dos sujeitos. Existem várias abordagens da psicologia e demais ciências que têm seus estudos sobre a homossexualidade feminina, mas nenhuma ainda com sua verdade absoluta.

Sobre o trabalho:

Monografia apresentada em junho de 2005 na Faculdade Pio X em Aracaju-SE.

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Entrevista 01:

1) SUAS INICIAS? IDADE?
A – 29 anos.

2) QUAL SUA ESCOLARIDADE?
A – 3º grau completo.

3) VIVE COM QUEM?
A – Com meu irmão.

4) TRABALHA? SE SIM, EM QUÊ? POSSUI PLANO DE SAÚDE?
A – Trabalho. (decidimos retirar o local aonde este sujeito trabalha para que não haja identificação do mesmo).

5) É DEPENDENTE FINACEIRAMENTE DE ALGUÉM?
A – Não.

6) QUAL O GRAU DE INSTRUÇÃO DOS SEUS PAIS?
A – Meu pai tem 3º completo. Minha mãe o 2º grau completo.

7) O QUE É SER HOMOSSEXUAL?
A – Homossexual para mim?!!!
Ah....bem...deixa eu pensar...humm...Para mim, seria uma pessoa normal que gosta do igual. Eu, gosto de mulher, só sei disso.

8) COMO FOI SUA INFÂNCIA EM RELAÇÃO AOS SEUS PAIS?
A – Posso falar mesmo? É que falo muito... vou eu falar....
Quando eu era criança, eu adorava brincar com meus irmãos de carrinhos, de armas, futebol, adorava e quando minha mãe me vestia de menino eu adorava. Meus pais sempre foram doces, amorosos, só que minha mãe é a que tem a voz em casa, meu pai só contribui com dinheiro. Tive uma infância muito boa. Nunca vi brigas...eles evitavam discutir na nossa frente. Eu adorava ficar com meu pai assistindo filmes de cowboy, futebol e corrida de F1.

9) COMO FOI SUA ADOLESCÊNCIA EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
A – Na minha adolescência adorava ficar com os meninos na escola, nunca gostei de estar no meio das meninas só falavam bobagens e ficavam falando porque eu não tinha namorado, daí namorei um colega de classe. Me apaixonei com 11 anos por uma colega de classe, era louca por ela...fazia tudo por ela. Depois, saí da escola porque não agüentava ficar vendo ela namorando com meu melhor amigo. Com 16 anos beijei uma amiga de baladas, estávamos todos bêbados brincando de salada mista, era para ela me dar um selinho mas, ela pulou em cima de mim com beijo de língua e tudo, fiquei excitada. Depois desse episódio fiquei “noiada”, fui namorar com um colega mas, adorava sair para as festas gls e beijava as meninas, em festas have também. Aos 18 anos comecei a namorar certinho com meninas, falei para meu namorado que não queria mas nada com ele. E pronto, aqui estou, até hoje assim, mulheres, mulheres...que seria da minha vida sem elas.

10) DESDE QUANDO VOCÊ SE PERCEBEU HOMOSSEXUAL?
A – Aos 18 anos tive certeza, mas desde meus 11 anos eu já sentia atração por meninas.

11) O QUE VOCÊ SENTIU QUANDO PERCEBEU SER HOMOSSEXUAL?
A –Fiquei com medo que os meus pais soubessem. Fiquei com medo que minha mãe me colocasse pra fora de casa. Teve uma hora que fiquei em depressão. Fui me aceitando aos poucos.

12) SUA FAMÍLIA TEM CONHECIMENTO DA SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL? SE SIM, COMO ELES FICARAM SABENDO? SE NÃO, COMO FAZ PARA QUE NÃO SAIBAM?
A – Minha família não sabe, podem desconfiar...mas, agora moro com meu irmão “E” 32 anos que também é homossexual e como trabalhamos muito, não dá tempo de ficar nos relacionando com todos da família a não ser nossos pais que se orgulham demais de nós dois.

13) VOCÊ ESCONDE SUA HOMOSSEXUALIDADE PARA A SOCIEDADE? PORQUÊ?
A –Escondo sim. Porque primeiro ninguém precisa saber com quem vou para cama e não é só isso. Já vi muitos casos de preconceito, tenho medo de perder meu emprego, ser excluída das rodas de barzinhos com amigos, tenho medo de sair por aí e ser apontada “lá vai a sapatona”...me entende? Como tenho cargo de liderança e é muito visado e algumas pessoas podem alegar isso para me tirar do cargo...existe o preconceito e ainda eu sendo mulher.

14) JÁ TEVE EXPERIÊNCIA SEXUAL COM HOMEM?
A – Não porque nunca me interessei sexualmente em homem.

15) AGORA VOCÊ ESTÁ SE RELACIONANDO COM ALGUÉM?
A – Me considero solteira, mas tenho um caso com uma mulher casada, só que ela não se decide o que quer, como o marido dela é rico, da alta sociedade, ela tem medo de perder tudo, conforto, etc. É difícil, esse meio é muito complicado. Muitos entendem a homossexualidade como promiscuidade porque não entendem realmente o que é sexualidade.

16) COMO É AMAR O IGUAL? (PESSOA DO MESMO SEXO)
A –Não sei nem como te explicar isso...é um sentimento profundo, intenso, sem explicações por fim.

17) VOCÊ CONCORDA COM O CASAMENTO CIVIL ENTRE HOMOSSEXUAIS?
A –Sim, eu concordo com essas questões legais, porque a família e amigos punem sempre a nossa vontade de amar talvez diferente não sei, mas, quando morremos são os primeiros a quererem meter a mão.

18) VOCÊ JÁ FOI VÍTIMA DE ALGUM TIPO DE PRECONCEITO EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
A – Sim, uma vez estava numa festa bebi muito e a garota com uem estava que também era incubada beijou um garoto e eu fiz um escândalo, foi horrível.

19) ONDE COMEÇA A DISCRIMINAÇÃO CONTRA HOMOSSEXUAL?
AComeça na família, todo mundo tem uma piadinha para viadinhos como chamam os gays, ou da bolachas como dizia meu pai (falta de macho)...(risos) “acho que sou mais macho que ele” (sic). No entanto a discriminação perpassa por todos os ambientes, sejam eles: escolas, barzinhos, boates...sempre tem alguém apontando e chacoteando um homossexual.

20) SER HOMOSSEXUAL ATRAPALHA VOCÊ EM SEU SETOR PROFISSIONAL? COMO SE COMPORTA EM RELAÇÃO?
A – Não me atrapalha mas me deixa tensa, porque tenho que fingir ser hetero o que pra mim é um saco. Às vezes chega alguma mulher muito bonita e não posso nem arriscar dar uma geral...senão já viu né? Sou solteira e sempre tiram comentários e sempre estão de olho no nosso comportamento mesmo que a gente não perceba.

21) QUAL A SUA VISÃO SOBRE O COMPORTAMENTO LÉSBICO NA CIDADE DE ARACAJU?
A – Se eu for falar das adolescentes é um comportamento explícito mas, para essas garotas tudo é festa, já fui adolescente e não ligava muito, mas, deixa só elas amadurecerem mais, arranjarem trabalho e ver como se coloca um homossexual no campo de trabalho. O movimento gay tem mais visibilidade porque é mais aceitável até pela maioria da população. A mulher foi feita pra ser mãe e olha que já conquistamos nossos direitos de trabalhar fora de casa, mesmo assim ainda não ganhamos igualmente. Aqui em Aracaju tem muita mulher incubada (risos) e como tem. Nas boates mesmo, vejo só as caminhoneiras indo mais, as assumidas também mas, são poucas, eu até freqüentei umas vezes mas, quando eu vi alguns casais heteros entrando na boate gay, percebi que era hora de não mais ir lá, freqüento hoje a boate de heteros para não me apontarem como homossexual.

22) VOCÊ VIVE NA VISIBILIDADE OU NÃO? E PORQUÊ?
A –Deus me livre de uma hora dessa, não estou preparada para estar visível. Algumas pessoas sabem de mim mas, se alguém que eu não conheça vir me perguntar eu nego até morrer. Aqui é uma cidade provinciana e as pessoas ainda não têm a mente aberta para entender o que é amor entre pessoas do mesmo sexo, sempre dizem que é safadeza, falta de homem, falta de surra e lá vai.
23) QUAL É A VISIBILIDADE DAS QUESTÕES LÉSBICAS DENTRO DO MOVIMENTO GAY?
A – Muito pouco se fala sobre o movimento lésbico, é um pouco mais esquecido, até em livros mesmo, eu não acho livros sobre homossexualidade feminina assim de uma forma histórica no movimento gay no Brasil. Ainda é pequena essa movimentação. Não vale a pena um dia no ano todos irem à São Paulo, ficar levantando bandeira e pronto. Temos que exigir respeito impondo nosso comportamento, mostrando que somos pessoas como qualquer outra, o que difere é que levamos pra cama e quem amamos.

24) PARA VOCÊ EXISTE EM RELAÇÃO AO SEXO, A QUESTÃO DE ATIVO E PASSIVO?
A –Para mim não tem isso, ativo e passivo é uma cultura absorvida para a dominação masculina, representação. Vê só, eu sou mulher...mas, não tem isso de querer está sempre por baixo, passiva, quieta....só recebendo carinhos, e além de tudo o sexo entre mulheres é muito mais diferente, há toques, sabe aquelas preliminares que os homens esquecem de fazer? O ato sexual entre mulheres é algo muito romanceado, é toque, beijos no corpos, carícias, jogos e etc...depois o sexo é só o complemento. Ativo e passivo (risos)...pra mim é besteira.

Entrevista 02:

1) SUAS INICIAS? IDADE?
B – 25 anos

2) QUAL SUA ESCOLARIDADE?
B – 3º grau incompleto.

3) VIVE COM QUEM?
B – Com minha família.

4) TRABALHA? SE SIM, EM QUÊ? POSSUI PLANO DE SAÚDE?
B – Não trabalho. Sim, possuo.

5) É DEPENDENTE FINACEIRAMENTE DE ALGUÉM?
B – Sim.

6) QUAL O GRAU DE INSTRUÇÃO DOS SEUS PAIS?
B – 3.º grau completo.

7) O QUE É SER HOMOSSEXUAL?
B – Homossexual pra mim é algo imposto pela sociedade para que se tenha uma definição em relação à categoria sexual pertencente.

8) COMO FOI SUA INFÂNCIA EM RELAÇÃO AOS SEUS PAIS?
B – Minha infância foi boa, apesar de alguns problemas como a separação dos meus pais. Vivo com minha mãe, ficamos nós duas durante 8 anos sozinhas até que ela arranjou um namorado e teve 2 filhos com ele (uma menina que hoje tem 17 anos e um menino que tem 10 anos). Depois que minha mãe teve o último filho se separou novamente e hoje vivemos eu, ela e os meus irmãos. Mas, brinquei muito na infância, aprontei bastante. Mas, nunca gostei de brincadeiras de meninos...sempre brinquei com minhas amigas ou sozinha com bonecas e casinhas ou até mesmos jogos.

9) COMO FOI SUA ADOLESCÊNCIA EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
B – Tive meus namoradinhos de adolescente. Namorava na porta de casa (quando a gente morava numa vila) ou na escola. Nunca fui muito curiosa em sexo com namorado e também nunca fiz com nenhum garoto ou homem.

10) DESDE QUANDO VOCÊ SE PERCEBEU HOMOSSEXUAL?
B – Aos 14 anos comecei a sentir atração por meninas, mas, sempre deixei isso escondido em mim.

11) O QUE VOCÊ SENTIU QUANDO PERCEBEU SER HOMOSSEXUAL?
B –Minha primeira reação foi pensar em minha mãe e pensei na minha família como seria se viesse a descobrir e a sociedade em geral, tenho medo. Comecei a entrar em depressão, fiquei confusa e por um tempo bebia muito pra fugir dos meus pensamentos quanto a essa questão... (silêncio)...
... uma vez, cheguei até a cheirar cocaína porque achava que eu era doente por gostar de mulher mas, nunca tive coragem e vontade de estar mais com homem algum.

12) SUA FAMÍLIA TEM CONHECIMENTO DA SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL? SE SIM, COMO ELES FICARAM SABENDO? SE NÃO, COMO FAZ PARA QUE NÃO SAIBAM?
B – Bom, uma vez minha mãe me chamou e perguntou se eu gostava diferente de uma amiga minha...e eu falei que ela tava doida. Minha família não sabe mesmo, até agora. Quem sabe mesmo dá família são pessoas que vivem na mesma situação que eu. Vivemos numa in-visibilidade como você mesma propõe no seu trabalho e isso nos dá a chance de nos resguardar.
Hoje saio com meus amigos e um deles finge ser meu namorado e até beijamos na boca e tudo, às vezes minha mãe desce aqui no playground do nosso apartamento pra ver com quem estou falando e simulamos que estamos nos agarrando para ela não ter o que dizer de mim.

13) VOCÊ ESCONDE SUA HOMOSSEXUALIDADE PARA A SOCIEDADE? PORQUÊ?
B –Sim. Porque infelizmente as pessoas confundem as coisas e misturam as coisas....misturam o pessoal com o profissional...sei lá....se acham no direito de julgar e punir...parece até que somos alienígenas (risos).

14) JÁ TEVE EXPERIÊNCIA SEXUAL COM HOMEM?
B – Nenhuma. Curiosidade até me deu, mas, hoje “éca” quero não.

15) AGORA VOCÊ ESTÁ SE RELACIONANDO COM ALGUÉM?
B – Namorando.
Estou há 8 meses
COMO É AMAR O IGUAL? (PESSOA DO MESMO SEXO)
B –É uma relação como outra qualquer, só troca o sujeito...agora sujeita pra mim claro. O amor é um sentimento não uma pessoa em si...entendeu?
É mais complexa porque há um prazer intenso, não posso comparar com o hetero porque nunca tive relação com homem.

17) VOCÊ CONCORDA COM O CASAMENTO CIVIL ENTRE HOMOSSEXUAIS?
B –Concordo perfeitamente. Porque a família é a primeira a falar mal dos homossexuais como a gente fosse uma coisa a parte e muitas vezes chega até ao ponto de terminarmos um relacionamento. Depois que o casal homo constrói tudo e um deles chega a falecer vem os urubus pegar a grana e os bens...hummm!

18) VOCÊ JÁ FOI VÍTIMA DE ALGUM TIPO DE PRECONCEITO EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
B – Não porque não deixo que isso aconteça, não ousadia.

19) ONDE COMEÇA A DISCRIMINAÇÃO CONTRA HOMOSSEXUAL?
B –Primeiro na família, depois nessa sociedade hipócrita.

20) SER HOMOSSEXUAL ATRAPALHA VOCÊ EM SEU SETOR PROFISSIONAL? COMO SE COMPORTA EM RELAÇÃO?
B – Pra mim não porque não trabalho ainda e espero que não chegue a me atrapalhar.

21) QUAL A SUA VISÃO SOBRE O COMPORTAMENTO LÉSBICO NA CIDADE DE ARACAJU?
B – Promíscuo. Não estou sendo radical sabe? Mas, falo da maioria.

22) VOCÊ VIVE NA VISIBILIDADE OU NÃO? E PORQUÊ?
B – Vivo no escondido menina...(risos). Não posso dizer que me sinto bem com isso, mas agora se torna confortável porque dependo economicamente dos meus pais. Se um dia eu chegar a ser totalmente independente e ter uma vida boa de grana, não vou ligar em assumir mas, mesmo assim não quero levantar esta hipótese.

23) QUAL É A VISIBILIDADE DAS QUESTÕES LÉSBICAS DENTRO DO MOVIMENTO GAY?
B – Para mim acho pequena ainda a participação e prefiro não opinar sobre este assunto.

Jecely – Porquê?
B – Porque é um movimento, um meio que não me sinto bem. Não participo e não gosto do meio que ele é conduzido.

24) PARA VOCÊ EXISTE EM RELAÇÃO AO SEXO, A QUESTÃO DE ATIVO E PASSIVO?
B –Ainda usam esse termo em pleno século XXI!!! Horrível não? Se for pra definir sou os dois.

Entrevista 03:

1) SUAS INICIAS? IDADE?
C – 29 anos

2) QUAL SUA ESCOLARIDADE?
C – 3º grau incompleto.

VIVE COM QUEM?
C – Com meus pais.

4) TRABALHA? SE SIM, EM QUÊ? POSSUI PLANO DE SAÚDE?
C – Trabalho. Sim tenho plano.

5) É DEPENDENTE FINACEIRAMENTE DE ALGUÉM?
C – Não.

6) QUAL O GRAU DE INSTRUÇÃO DOS SEUS PAIS?
C – Ensino fundamental completo.

7) O QUE É SER HOMOSSEXUAL?
C – É ter opção pelo mesmo sexo.

8) COMO FOI SUA INFÂNCIA EM RELAÇÃO AOS SEUS PAIS?
C – Acredito que foi satisfatória, pois lembro de poucos fatos ocorridos ruins.

9) COMO FOI SUA ADOLESCÊNCIA EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
C – Sempre observei pessoas tanto do sexo masculino quanto do feminino.

10) DESDE QUANDO VOCÊ SE PERCEBEU HOMOSSEXUAL?
C –Ao primeiro beijo em uma pessoa do mesmo sexo.

11) O QUE VOCÊ SENTIU QUANDO PERCEBEU SER HOMOSSEXUAL?
C – Que estava traindo meus pais e todas as pessoas mais próximas de mim.

12) SUA FAMÍLIA TEM CONHECIMENTO DA SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL? SE SIM, COMO ELES FICARAM SABENDO? SE NÃO, COMO FAZ PARA QUE NÃO SAIBAM?
C – Não. Faço de tudo para ser bem discreta.

13) VOCÊ ESCONDE SUA HOMOSSEXUALIDADE PARA A SOCIEDADE? PORQUÊ?
C –Sim. Porque vivemos em uma sociedade que discriminam o tempo todo.

14) JÁ TEVE EXPERIÊNCIA SEXUAL COM HOMEM?
C – Não.

15) AGORA VOCÊ ESTÁ SE RELACIONANDO COM ALGUÉM?
C – Sim.
Sim.
COMO É AMAR O IGUAL? (PESSOA DO MESMO SEXO)
C –É satisfatório pela forma de ser tratada, a questão do respeito que é mútuo e os objetivos que são parecidos com isso, ajuda até na relação com os pais.

17) VOCÊ CONCORDA COM O CASAMENTO CIVIL ENTRE HOMOSSEXUAIS?
C –Sim.

18) VOCÊ JÁ FOI VÍTIMA DE ALGUM TIPO DE PRECONCEITO EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
C – Não.

19) ONDE COMEÇA A DISCRIMINAÇÃO CONTRA HOMOSSEXUAL?
C –Começa a partir do momento em que a sociedade não aceita.

20) SER HOMOSSEXUAL ATRAPALHA VOCÊ EM SEU SETOR PROFISSIONAL? COMO SE COMPORTA EM RELAÇÃO?
C – Não. Evito o máximo expor minha vida particular, principalmente a afetiva.

21) QUAL A SUA VISÃO SOBRE O COMPORTAMENTO LÉSBICO NA CIDADE DE ARACAJU?
C – Algumas pessoas ainda deixam a desejar por acharem que ser homossexual precisa se comportar como homem.

22) VOCÊ VIVE NA VISIBILIDADE OU NÃO? E PORQUÊ?
C – Não. Porque não há necessidade.

23) QUAL É A VISIBILIDADE DAS QUESTÕES LÉSBICAS DENTRO DO MOVIMENTO GAY?
C – De defender os nossos direitos da mesma forma que os homossexuais masculinos defendem.

24) PARA VOCÊ EXISTE EM RELAÇÃO AO SEXO, A QUESTÃO DE ATIVO E PASSIVO?
C – Não.

Entrevista 04:

1) SUAS INICIAS? IDADE?
D – 39 anos

2) QUAL SUA ESCOLARIDADE?
D – 3º grau incompleto.

VIVE COM QUEM?
D – Com meu marido e filhos.

4) TRABALHA? SE SIM, EM QUÊ? POSSUI PLANO DE SAÚDE?
D – Trabalho. Sim tenho plano.

5) É DEPENDENTE FINACEIRAMENTE DE ALGUÉM?
D – Em parte. Tenho minha loja, mas tenho o meu marido o qual banca quase tudo meu.

6) QUAL O GRAU DE INSTRUÇÃO DOS SEUS PAIS?
Meu pai tem ensino fundamental completo, minha mãe só até a 4ª série.

7) O QUE É SER HOMOSSEXUAL?
D – Nem eu mesma sei te dizer. É um nome tão pesado para se carregar...enfim, é ..eu acho que seja um ser que ama outro ou sente desejo por outra pessoa do mesmo sexo.

8) COMO FOI SUA INFÂNCIA EM RELAÇÃO AOS SEUS PAIS?
D – Normal. Sou de origem humilde acostumada a brincar a calçada de casa, família de interior sabe?

9) COMO FOI SUA ADOLESCÊNCIA EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
D – Normal. Tive muitos namorados.

10) DESDE QUANDO VOCÊ SE PERCEBEU HOMOSSEXUAL?
D – Há quatro anos. Tive uma relação com uma amiga minha e fui mais por curiosidade e também carência porque meu marido fica fora de casa 17 dias, ele é embarcado e eu só porque meus filhos são grandes e só vivem na rua.

11) O QUE VOCÊ SENTIU QUANDO PERCEBEU SER HOMOSSEXUAL?
D – Fiquei um pouco espantada, depois com medo de falar para meu marido e que meus filhos e minhas irmãs saibam. O que vão dizer de mim? Lógico que vão dizer que sou doente.

12) SUA FAMÍLIA TEM CONHECIMENTO DA SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL? SE SIM, COMO ELES FICARAM SABENDO? SE NÃO, COMO FAZ PARA QUE NÃO SAIBAM?
D – Ainda não, mas não quero ficar me sentindo culpada de algo que não sou. Sou mulher e muito feminina, não tem ninguém que fale que sou sapatão.

13) VOCÊ ESCONDE SUA HOMOSSEXUALIDADE PARA A SOCIEDADE? PORQUÊ?
D –Não é esconder. Não devo satisfações a ninguém da sociedade porque nenhum deles coloca comida na minha mesa ou me sustentam. Todo mundo gosta é de ter o que falar dos outros. Prefiro que não saibam, senão perco até meus clientes na loja.

14) JÁ TEVE EXPERIÊNCIA SEXUAL COM HOMEM?
D –Sim, sou casada, apesar de não manter relações mais com meu marido. Ele tem uma amante e a gente não se separa primeiro porque somos conhecidos e iríamos ficar falados e tal e ainda mais por nossos filhos. Então cada um segue sua vida. Eu faço de conta que não sei que ele tem amante porque para mim até é lucro porque perdi o desejo por homens.

15) AGORA VOCÊ ESTÁ SE RELACIONANDO COM ALGUÉM?
Sim. Com a D – Com a mesma mulher que falei antes Estamos juntas. Ela é médica e mais velha que eu...uma mulher adorável. Eu a amo do meu jeito e principalmente por ela entender a minha situação. Adoro estar com ela e nos dias que meu marido embarca ela vai lá pra casa e meus filhos falam que eu não gosto de ficar só daí, alugo minha amiga... (risos), eles são uns amores.

16) COMO É AMAR O IGUAL? (PESSOA DO MESMO SEXO)
D –Normal. O que muda é como fazemos o sexo com mulher e também o ser feminino é mais delicado, cheiroso e se cuida mais.

17) VOCÊ CONCORDA COM O CASAMENTO CIVIL ENTRE HOMOSSEXUAIS?
D –Sim.

18) VOCÊ JÁ FOI VÍTIMA DE ALGUM TIPO DE PRECONCEITO EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
D – Não.

19) ONDE COMEÇA A DISCRIMINAÇÃO CONTRA HOMOSSEXUAL?
D –Começa a partir do momento em que a sociedade não aceita.

20) SER HOMOSSEXUAL ATRAPALHA VOCÊ EM SEU SETOR PROFISSIONAL? COMO SE COMPORTA EM RELAÇÃO?
D – Não. Me comporto normal como todos os dias. Não demonstro ser. E me controlo quando alguma cliente muito bonita e feminina chega na loja.

21) QUAL A SUA VISÃO SOBRE O COMPORTAMENTO LÉSBICO NA CIDADE DE ARACAJU?
D – Não sei se é daqui de Aracaju mas, há uma confusão de idéias sobre homossexualidade. Muitos acham que a sapatão tem que ser homem ou agir como tal sabe? Muitas mulheres se comportam como machos mais do que os próprios homens. Agora que eu mesma vejo algumas mulheres femininas que são do babado que você jamais diria. Minha namorada é quem sabe porque ela é mais do meio que eu.

22) VOCÊ VIVE NA VISIBILIDADE OU NÃO? E PORQUÊ?
D –Eu não. Não costumo ir a lugares do meio (até passeio na frente e tudo), não gosto que saibam de mim para preservarem meus filhos. Eles e nem eu mesma estou preparada para isso. Tenho medo da violência não só comigo, mas também com eles.

23) QUAL É A VISIBILIDADE DAS QUESTÕES LÉSBICAS DENTRO DO MOVIMENTO GAY?
D – Nem sei, esse assunto não tenho interesse nem idéia de como se dá esse tal movimento porque não vejo muita participação do feminino aí. Vejo as bichas balançando as bandeiras e saindo em passeata, se isso surte efeito já não tenho informação.

24) PARA VOCÊ EXISTE EM RELAÇÃO AO SEXO, A QUESTÃO DE ATIVO E PASSIVO?
D – Sou passiva, adoro que a minha namorada faça tudo comigo. Sou mulher e quero me sentir como tal. Deixa que a outra faça o papel ativo.

Entrevista 05:

1) SUAS INICIAS? IDADE?
E – mais de 30 anos

2) QUAL SUA ESCOLARIDADE?
E – 3º grau incompleto ou concluinte do curso de Psicologia.

3) VIVE COM QUEM?
E – Meus pais e parentes.

4) TRABALHA? SE SIM, EM QUÊ? POSSUI PLANO DE SAÚDE?
E – Sim. Não.

5) É DEPENDENTE FINACEIRAMENTE DE ALGUÉM?
E – Não.

6) QUAL O GRAU DE INSTRUÇÃO DOS SEUS PAIS?
E – Letrados.

7) O QUE É SER HOMOSSEXUAL?
E – É gostar de se relacionar de forma íntima com pessoas do mesmo sexo.

8) COMO FOI SUA INFÂNCIA EM RELAÇÃO AOS SEUS PAIS?
E – Via minha mãe como a castradora, vilã, repressora, aquela que batia. Já meu pai não, ele era meu herói, pois era mais de conversar e menos de bater.

9) COMO FOI SUA ADOLESCÊNCIA EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
E – Por ser gordinha era complexada, tinha baixa auto-estima e achava que os rapazes não se interessavam por mim. Sentia-me só. Era introvertida.

10) DESDE QUANDO VOCÊ SE PERCEBEU HOMOSSEXUAL?
E – Embora tenha começado na adolescência um relacionamento com uma amiga da mesma idade praticamente não era isso que eu queria. Eu buscava uma amizade sincera já que não tinha. Não me considero como tal. Sou a favor da felicidade. Não descarto possibilidade de casar-me, embora isso não seja o mais importante.

11) O QUE VOCÊ SENTIU QUANDO PERCEBEU SER HOMOSSEXUAL?
E – A princípio mal, por questões religiosas, mas depois me acostumei com a idéia por se tratar de uma pessoa maravilhosa.

12) SUA FAMÍLIA TEM CONHECIMENTO DA SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL? SE SIM, COMO ELES FICARAM SABENDO? SE NÃO, COMO FAZ PARA QUE NÃO SAIBAM?
E – Não. Nos tratamos como amigas. Minha família desconfia mas, não afirmam. Não nos incomoda ter que assumir para a família.

13) VOCÊ ESCONDE SUA HOMOSSEXUALIDADE PARA A SOCIEDADE? PORQUÊ?
E –Sim. Porque não acho que devam saber pois, só diz respeito à nós duas. Essa nossa sociedade hipócrita, logo iria nos aprisionar. Detesto prisão.

14) JÁ TEVE EXPERIÊNCIA SEXUAL COM HOMEM?
E – Com certeza. Adoro um homem carinhoso. Sinto-me bastante atraída por um belo moreno.

15) AGORA VOCÊ ESTÁ SE RELACIONANDO COM ALGUÉM?
E –Porque estamos distantes porque está em São Paulo.
Não.

16) COMO É AMAR O IGUAL? (PESSOA DO MESMO SEXO)
E –É muito bom devido a pessoa que ela.

17) VOCÊ CONCORDA COM O CASAMENTO CIVIL ENTRE HOMOSSEXUAIS?
E –Acredito que não seria necessário, uma vez que as pessoas resolveram romper com as convenções sociais pela escolha feita. Porque agora se prender a elas através do casamento, se já existe uma lei de partilha de bens. Mas, se eles se sentirão mais felizes, que seja. Vai depender de cada um.

18) VOCÊ JÁ FOI VÍTIMA DE ALGUM TIPO DE PRECONCEITO EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
E – Não. Porque ninguém sabe.

19) ONDE COMEÇA A DISCRIMINAÇÃO CONTRA HOMOSSEXUAL?
E –Na própria família e pelos amigos.

20) SER HOMOSSEXUAL ATRAPALHA VOCÊ EM SEU SETOR PROFISSIONAL? COMO SE COMPORTA EM RELAÇÃO?
E – No meu caso sim, pois seria extremamente difícil para os pais confiarem seus filhos a uma pessoa com tal escolha. Sendo a mesma professora. Acredito que como psicóloga também. Fica extremamente complicado.

21) QUAL A SUA VISÃO SOBRE O COMPORTAMENTO LÉSBICO NA CIDADE DE ARACAJU?
E –Se as pessoas são bem sucedidas, há uma maior aceitação e se não, sofre mais o preconceito. No geral o preconceito contra os homossexuais é imenso.

22) VOCÊ VIVE NA VISIBILIDADE OU NÃO? E PORQUÊ?
E –Não. Por tudo que já falei.

23) QUAL É A VISIBILIDADE DAS QUESTÕES LÉSBICAS DENTRO DO MOVIMENTO GAY?
E – Ainda pequena.

24) PARA VOCÊ EXISTE EM RELAÇÃO AO SEXO, A QUESTÃO DE ATIVO E PASSIVO?
E – Acho que isso foi inventado pelas pessoas. Esse comportamento está imbricado de convenções sociais. Depende do casal homossexual o qual possa a vir imitar o hetero. Se formos pensar num casal Bissexual, aonde fica isso tudo? Acredito que em qualquer relacionamento o importante é ser feliz e fazer o outro também feliz.

Entrevista 06:

1) SUAS INICIAS? IDADE?
F – 28 anos.

2) QUAL SUA ESCOLARIDADE?
F – 3º grau incompleto (cursando)

3) VIVE COM QUEM?
F – Com Deus, “sozinha”.

4) TRABALHA? SE SIM, EM QUÊ? POSSUI PLANO DE SAÚDE?
F – Sim.

5) É DEPENDENTE FINACEIRAMENTE DE ALGUÉM?
F – Não.

6) QUAL O GRAU DE INSTRUÇÃO DOS SEUS PAIS?
F – 2º grau completo.

7) O QUE É SER HOMOSSEXUAL?
F – É difícil, mas para mim é realização.

8) COMO FOI SUA INFÂNCIA EM RELAÇÃO AOS SEUS PAIS?
F – Gostava muito do meu pai, mas ele só tinha olhos para minha irmã, aí minha mãe sempre esteve ao meu lado.

9) COMO FOI SUA ADOLESCÊNCIA EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
F – Sempre fui curiosa. Aos 12 anos já tocava meu corpo e sentia algo diferente ao olhar para uma garota.

10) DESDE QUANDO VOCÊ SE PERCEBEU HOMOSSEXUAL?
F – Aos 17 anos, tive a primeira experiência, mas já sabia disso aos 14 anos, só não tinha me dado conta.

11) O QUE VOCÊ SENTIU QUANDO PERCEBEU SER HOMOSSEXUAL?
F – Medo. Hoje estou feliz com minha opção. No começo senti depressão, depois eu fui me aceitando.

12) SUA FAMÍLIA TEM CONHECIMENTO DA SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL? SE SIM, COMO ELES FICARAM SABENDO? SE NÃO, COMO FAZ PARA QUE NÃO SAIBAM?
F – Não. Moro sozinha desde meus 20 anos, com isso tenho privacidade e minha família não tem conhecimento, podem até desconfiar, mas minha mãe nunca teve coragem de falar inerente ao assunto.

13) VOCÊ ESCONDE SUA HOMOSSEXUALIDADE PARA A SOCIEDADE? PORQUÊ?
F –Sim. Pelo preconceito. A sociedade é muito cruel, crucifica a gente homossexual como fosse um pecado cabeludo, parece até que todos os héteros são puros e sem pecado algum.

JECELY – Você fala do pecado como a homossexualidade fosse um.
F – Se você pensar pelo lado religioso...é.

14) JÁ TEVE EXPERIÊNCIA SEXUAL COM HOMEM?
F – Sim, mas não me senti realizada.

15) AGORA VOCÊ ESTÁ SE RELACIONANDO COM ALGUÉM?
F – Sim.
Sim.
COMO É AMAR O IGUAL? (PESSOA DO MESMO SEXO)
F –É maravilhoso, cumplicidade, afeto, carinho, confiança e ternura em dobro, algumas coisas que não temos com homens.
17) VOCÊ CONCORDA COM O CASAMENTO CIVIL ENTRE HOMOSSEXUAIS?
F –Sim.

18) VOCÊ JÁ FOI VÍTIMA DE ALGUM TIPO DE PRECONCEITO EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
F – Infelizmente sim, mas prefiro não falar sobre isso.

19) ONDE COMEÇA A DISCRIMINAÇÃO CONTRA HOMOSSEXUAL?
F –Em nós mesmos! É igual ao preconceito racial, o negro mesmo se exclui e auto se pune pela sua cor e fala que os outros o discrimina.

20) SER HOMOSSEXUAL ATRAPALHA VOCÊ EM SEU SETOR PROFISSIONAL? COMO SE COMPORTA EM RELAÇÃO?
F – Sim. Acredito que seria difícil ter a confiança da minha equipe, pois pelas brincadeiras que eles tiram no dia-a-dia percebo a homofobia entre eles.

21) QUAL A SUA VISÃO SOBRE O COMPORTAMENTO LÉSBICO NA CIDADE DE ARACAJU?
F –Promíscuo. As boates daqui as mulheres vão só pra pegação e gostam de mostrar se beijando e tudo só que nós que vivemos nos escondendo para nos proteger, evitamos estar nestes lugares. Ainda não perceberam que homossexualidade não é chegar e ficar pegando e beijando e somente fazer sexo, e sim amar como se ama qualquer ser humano.

22) VOCÊ VIVE NA VISIBILIDADE OU NÃO? E PORQUÊ?
F –Sim para meus amigos gays e não para o restante do mundo. Porque sim.

23) QUAL É A VISIBILIDADE DAS QUESTÕES LÉSBICAS DENTRO DO MOVIMENTO GAY?
F – Apesar de ter me descoberto aos 14 anos, tenho pouco tempo freqüentando o mundo GLS e não sei definir a visão do mundo gay. A mulher homossexual não reivindica seus direitos como os gays pelo próprio espaço que a mídia e as pessoas dão. O gay hoje é muito mais aceitável do que a lésbica porque a mulher é muito cobrada por ser mulher.

24) PARA VOCÊ EXISTE EM RELAÇÃO AO SEXO, A QUESTÃO DE ATIVO E PASSIVO?
F – Para mim não existe essa questão. Danço conforme meu coração mandar.

Entrevista 07:

1) SUAS INICIAS? IDADE?
G – 42 anos

2) QUAL SUA ESCOLARIDADE?
G – 2.º Grau completo

3) VIVE COM QUEM?
G – Mãe

5) É DEPENDENTE FINACEIRAMENTE DE ALGUÉM?
G – Não

6) QUAL O GRAU DE INSTRUÇÃO DOS SEUS PAIS?
G – 1ª grau

7) O QUE É SER HOMOSSEXUAL?
G – É gostar e ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo.

8) COMO FOI SUA INFÂNCIA EM RELAÇÃO AOS SEUS PAIS?
G – Tranquila, sempre me deixaram brincar à vontade.

9) COMO FOI SUA ADOLESCÊNCIA EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
G – Normal, até porque nem sabia que existia homossexualismo.

10) DESDE QUANDO VOCÊ SE PERCEBEU HOMOSSEXUAL?
G – Desde que uma garota me beijou na boca, apesar de ter me confundido a cabeça, gostei.

11) O QUE VOCÊ SENTIU QUANDO PERCEBEU SER HOMOSSEXUAL?
G – Demorou para cair a ficha, achava que era tudo passageiro e brincadeira, não levava nada a sério.

12) SUA FAMÍLIA TEM CONHECIMENTO DA SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL? SE SIM, COMO ELES FICARAM SABENDO? SE NÃO, COMO FAZ PARA QUE NÃO SAIBAM?
G – Não sabem. Infelizmente a mentira está quase sempre entre nós, e tomo cuidados com as amigas e namoradas que tenho para não perceberem.

13) VOCÊ ESCONDE SUA HOMOSSEXUALIDADE PARA A SOCIEDADE? PORQUÊ?
G – Sim. Porque enquanto minha família não souber, não abrirei para mais ninguém que não seja homos, além do quê tenho medo de ser humilhada e incompreendida pela minha condição.

14) JÁ TEVE EXPERIÊNCIA SEXUAL COM HOMEM?
G – Sim, antes de me descobrir, depois não mais.

15) AGORA VOCÊ ESTÁ SE RELACIONANDO COM ALGUÉM?
G – Não.

16) COMO É AMAR O IGUAL? (PESSOA DO MESMO SEXO)
G – É muito bom, pois a pessoa sabe como tratar a outra, o que gosta em todos os sentidos, principalmente as lésbicas, já que são mais sensíveis e gostam de detalhes.

17) VOCÊ CONCORDA COM O CASAMENTO CIVIL ENTRE HOMOSSEXUAIS?
G – Sim, acho que seria uma grande conquista.

18) VOCÊ JÁ FOI VÍTIMA DE ALGUM TIPO DE PRECONCEITO EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
G – Não diretamente, já que não sabem da minha, mas já ouvi muito falarem das pessoas que são.

19) ONDE COMEÇA A DISCRIMINAÇÃO CONTRA HOMOSSEXUAL?
G – Quando fazem piadinhas, generalizam achando que todos são promíscuos, sem caráter, tem doenças...Não valorizam como pessoas, só pela sexualidade.

20) SER HOMOSSEXUAL ATRAPALHA VOCÊ EM SEU SETOR PROFISSIONAL? COMO SE COMPORTA EM RELAÇÃO?
G – Não, se não sabem dela.

21) QUAL A SUA VISÃO SOBRE O COMPORTAMENTO LÉSBICO NA CIDADE DE ARACAJU?
G – Prefiro não dizer.

22) VOCÊ VIVE NA VISIBILIDADE OU NÃO? E PORQUÊ?
G – Não posso viver se não sou assumida.

23) QUAL É A VISIBILIDADE DAS QUESTÕES LÉSBICAS DENTRO DO MOVIMENTO GAY?
G – Pouca, ainda estamos engatinhando.

24) PARA VOCÊ EXISTE EM RELAÇÃO AO SEXO, A QUESTÃO DE ATIVO E PASSIVO?
G – Para mim não, comigo não tem essa, as duas pessoas é pra ser ativo e passivo, senão não é uma relação.

Entrevista 08:

1) SUAS INICIAS? IDADE?
H – 25 anos

2) QUAL SUA ESCOLARIDADE?
H – 4.ª série.

3) VIVE COM QUEM?
H – Com minha companheira

4) TRABALHA? SE SIM, EM QUÊ? POSSUI PLANO DE SAÚDE?
H – Trabalho.

5) É DEPENDENTE FINACEIRAMENTE DE ALGUÉM?
H – Não.

6) QUAL O GRAU DE INSTRUÇÃO DOS SEUS PAIS?
H – Ensino Fundamental.

7) O QUE É SER HOMOSSEXUAL?
H – Homossexual é uma pessoa que gosta de outra do mesmo sexo.

8) COMO FOI SUA INFÂNCIA EM RELAÇÃO AOS SEUS PAIS?
H – Foi boa. Não tenho nada a falar sobre, mesmo porque sou de família pobre mas, todos tratados com muito amor.

9) COMO FOI SUA ADOLESCÊNCIA EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
H – Eu era danada. Já de adolescente gostava de mulher. Tive um rolo com a amiga da minha mãe quando eu tinha 15 anos. Depois ficava com as meninas do bairro. Eu nem ligava. Eu gostava mais do sexo do que da pessoa em si.

10) DESDE QUANDO VOCÊ SE PERCEBEU HOMOSSEXUAL?
H – Desde nova, acho que tive certeza com meus 15 anos quando fui pra cama com a amiga da minha mãe.

11) O QUE VOCÊ SENTIU QUANDO PERCEBEU SER HOMOSSEXUAL?
H –Na hora com medo.

12) SUA FAMÍLIA TEM CONHECIMENTO DA SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL? SE SIM, COMO ELES FICARAM SABENDO? SE NÃO, COMO FAZ PARA QUE NÃO SAIBAM?
H – Sim, todo mundo da minha família sabe. Escancarei mesmo porque não gosto de ficar me sentindo presa. Também ninguém pode falar nada, pois tenho meu dinheiro e não moro com eles e sabe? Estou muito feliz assim.

13) VOCÊ ESCONDE SUA HOMOSSEXUALIDADE PARA A SOCIEDADE? PORQUÊ?
H – Por mim não esconderia, mas minha companheira morre de medo de ser apontada como sapatona e eu respeito apesar de não concordar.

14) JÁ TEVE EXPERIÊNCIA SEXUAL COM HOMEM?
H – Eu não.

15) AGORA VOCÊ ESTÁ SE RELACIONANDO COM ALGUÉM?
H – Estamos juntas tem seis anos.
Sim, estamos
16) COMO É AMAR O IGUAL (PESSOA DO MESMO SEXO)?
H – Normal.

17) VOCÊ CONCORDA COM O CASAMENTO CIVIL ENTRE HOMOSSEXUAIS?
H –Sim, seria necessário.

18) VOCÊ JÁ FOI VÍTIMA DE ALGUM TIPO DE PRECONCEITO EM RELAÇÃO A SUA SEXUALIDADE?
H – Várias vezes por minha família, mas isso não me abala.

19) ONDE COMEÇA A DISCRIMINAÇÃO CONTRA HOMOSSEXUAL?
H –Em casa, pode ter certeza disso.

20) SER HOMOSSEXUAL ATRAPALHA VOCÊ EM SEU SETOR PROFISSIONAL? COMO SE COMPORTA EM RELAÇÃO?
H – Não. Normal, sou mulher, não fico imitando os homens, sou feminina, ninguém nota se você se veste bem e não tem jeito de sapatão.

21) QUAL A SUA VISÃO SOBRE O COMPORTAMENTO LÉSBICO NA CIDADE DE ARACAJU?
H – Eu nem sei direito porque são um bando de mulher incubada, que vive de aparências. Só sei quem se mostra mais, são as que tem bala no bolso ou as que acham que são homens mesmo.

22) VOCÊ VIVE NA VISIBILIDADE OU NÃO? E PORQUÊ?
H – Meio de cada. Minha família sabe. E não sei quem sabe mais porque na família cada um quer esconder o filho viado ou a filha sapatão.

23) QUAL É A VISIBILIDADE DAS QUESTÕES LÉSBICAS DENTRO DO MOVIMENTO GAY?
H – Apesar de você ter me explicado. Não sei sobre esse assunto porque não me manifesto por ninguém além de mim.

24) PARA VOCÊ EXISTE EM RELAÇÃO AO SEXO, A QUESTÃO DE ATIVO E PASSIVO?
H –Caraca! Sabe que ontem estava falando com minha companheira sobre isso? Nunca foi penetrada porque não sinto vontade e ela até como já fez com homens às vezes sente vontade, mas ela me respeita nesse sentido. Não sei se acredito que exista isso e se existir então eu sou a que “bota fogo no circo”. (sic)

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