O Papel do Feminino em um Corpo Masculino: Proposta de Análise de Identidade Através de Relatos de Travestis

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Resumo: O presente trabalho buscou salientar a formação da identidade social de travestis de uma cidade do interior paulista através de relatos obtidos por meio de grupos reflexivos que abordaram os temas: família, trabalho, preconceito, sociedade e sistema público de saúde. O objetivo foi conhecer aspectos da formação da identidade social das travestis. Utilizou-se como principal referencial a teoria da identidade de Ciampa (1994) buscando compreender a presença e significado do papel feminino em um corpo masculino. A metodologia consistiu na realização de encontros reflexivos com dois grupos de 4 e 3 travestis que vivenciam contextos diferenciados dentro da mesma cidade. A partir dos relatos percebeu-se a existência de vivências comuns com relação ao preconceito sofrido, consciência de si e social. Entretanto no que tange às profissões e mercado de trabalho, encontramos entre elas posturas estereotipadas entre trabalho socialmente valorizado e prostituição.
Palavras-chave: Travestis, Identidade, Preconceito.

Introdução

O tema pesquisado foi indivíduos denominados travestis, que podem ser descritos como pessoas que nascem com o sexo genital masculino, que procuram inserir, em seus corpos, símbolos femininos. Salientes socialmente, pelas manipulações de símbolos sociais, culturais, sexuais e corporais, evidenciam significados que, sem uma análise minuciosa, são de difícil apreensão. Em uma sociedade que ainda impera o preconceito faz-se necessário estudos que busquem compreensões mais humanas sobre o diferente.

Justificamos nossa pesquisa a partir do ponto em que se busca elaborar um trabalho reflexivo que possa beneficiar esses indivíduos, na formação de grupos de discussão e crítica, onde as travestis poderão expor seus sentimentos e angústias, elucidando temas que poderão auxiliá-las em seu dia a dia, para que possam também, dentro de suas realidades, ter melhor qualidade de vida. Ainda pensamos na possibilidade que o psicólogo como agente de transformação social e acesso a indivíduos em situação de exclusão possam, com este trabalho, compreender melhor a identidade dessa parcela da população possibilitando uma ação empática e significativa com as travestis, e contribuindo na elaboração de políticas públicas mais humanizadas.

Considerando a existência de poucas publicações na área, possivelmente dado o preconceito sofrido por esta parcela da população ou ainda desconhecimento ou desinteresse dos profissionais em saúde por esta problemática, este trabalho objetiva a identificação, a descrição e a análise de conflitos psicológicos como, por exemplo, sentimentos e angústias, construindo uma análise social destes indivíduos à luz da psicologia social.

Revisão de Literatura

Desde o início do planeta, a espécie humana vem apresentando uma característica própria, em termos do exercício de sua sexualidade. Segundo Vitielo (1998), se no sentido fisiológico cada indivíduo pode ter sua identidade sexual definida a partir da presença dos órgãos sexuais masculinos ou femininos, o mesmo não ocorre com a mesma precisão com o sexo psicológico. Em relação aos gêneros um dos fatores influenciadores e determinadores são as características dos sexos masculinos e femininos em cada sociedade com suas culturas diferenciadas, que é composto por uma série de normas e regras de comportamento, obrigações e proibições que foram sendo modeladas ao longo dos tempos através da tradição cultural, religiosa, moral e histórica das sociedades. E é na sociedade que serão estabelecidos os papéis sexuais de acordo com o sexo biológico de cada indivíduo, mostrando como deverão se portar perante a sociedade o homem e a mulher.

Vitielo (1998) refere ainda que a partir da diferenciação, dos gêneros, masculino e feminino, o indivíduo receberá um tratamento que varia de acordo com os valores sociais de cada cultura que apontam o que é ser homem ou mulher, encorajando-os de abrir mão das orientações, comportamentos ou atitudes que não são consideradas condizentes com seu sexo biológico, pois a sexualidade de cada ser humano é construída através da interação entre o indivíduo e o ambiente social em que vive.

Segundo Miskolci (2007), desde sua invenção médico-legal no século XIX, a homossexualidade representou uma possível ameaça à ordem. Essa prática sexual estigmatizada passou a ser encarada como desvio da normalidade e a homossexualidade tornou-se alvo de preocupação por encarnar temores de uma sociedade com rígidos padrões de comportamento. Por trás desses temores residia o medo de transformações em instituições como a família. A "inversão sexual" era um ameaça múltipla à sociedade, pois, ao mesmo tempo em que ameaçava à reprodução biológica, à divisão tradicional de poder entre o homem e a mulher na família e na sociedade, ameaçava também à manutenção dos valores e da moralidade responsáveis por toda uma ordem e visão de mundo.

A homossexualidade acontece quando um indivíduo sente atração afetiva e sexual por uma pessoa do mesmo sexo (Brasil, 2004). Ainda em relação à homossexualidade, é importante considerar que até bem pouco tempo era considerada uma patologia, no entanto, foi retirada da relação de doenças pelo Conselho Federal de Medicina desde 1985; e o Conselho Federal de Psicologia estabelece, desde 1999, que nenhum profissional pode exercer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas (CFP, 2006).

Abordando outra forma de sexualidade, os travestis podem ser descritos como pessoas que nascem com o sexo genital masculino e que procuram inserir, em seus corpos, símbolos socialmente femininos como cabelos cumpridos, unhas pintadas, pelos descoloridos, maquiagem no rosto, peitos com silicone, etc. Note-se que o recurso a substâncias químicas na forma de hormônios sintéticos permite às travestis se apropriar do conhecimento médico para a consecução do projeto de ajuste corporal à identidade de mulher.

Sant’Anna (2005), apud Próchno, Nascimento e Romera (2009) refere que hoje em dia, há esforços intensos de modelar o corpo, com ênfase significativa na aparência feminina. A visibilidade corporal é tanta que não existe mais a “alma”, o corpo toma o significado de alma. Esses aspectos reforçam a hipótese sobre o excesso de atenção que se dá ao corpo feminino, a uma feminilidade cultuada e cultivada por mulheres e homens com transtornos de gênero. A cultura atual do corpo parece querer eternizar flashes de sedução e feminilidade por meio de maquilagens, unhas e cílios postiços, batom, silicone, cirurgia plástica e adereços, ou seja, uma feminilidade de consumo que não tem mais a procriação como centro.

Freud (1969) questionava sobre o aspecto da feminilidade em corpos femininos. Hoje, com a busca pela construção e modificação do corpoe estudos sobre sexualidade, pode-se questionar o feminino em corpos tanto de homens quanto de mulheres. Um novo sujeito surge a partir da destruição da idéia da imagem corporal real e da reconstrução do corpo desejado, pois o ser humano é constituído a partir do olhar e aceitação do outro.

Quanto à imagem do feminino usada pelas travestis, Almeida (1999), apud Próchno, Nascimento e Romera (2009) refere que a despeito do imaginário de gênero, o qual diz que ele é construído desde antes do nascimento do bebê, e diferencia transexuais de travestis. O transexual acredita habitar um corpo errado, pois possuem corpo masculino com orientação sexual feminina. Preferem parceiros heterossexuais, rejeitam a homossexualidade e, durante os atos sexuais, comportam-se como mulheres unicamente. Não olham e pouco tocam seus genitais e são os maiores candidatos a cirurgias de transgênero. Não freqüentam qualquer lugar e não sentem atração por mulheres.

Segundo o mesmo autor, por outro lado, os travestis podem ter comportamentos bissexuais e homossexuais, e podem usar adereços femininos para trabalhar ou para se prostituir. Sentem atração por mulheres, às vezes, e durante o ato sexual podem assumir papéis masculinos ou femininos, dependendo de sua própria preferência ou de seu parceiro durante o ato sexual. São aceitos mais facilmente em ambientes GLS, ou próximo às pessoas com quem podem ser elas mesmas. A identidade de gênero é constituída ao mesmo tempo em que inúmeras descrições de sujeitos diferentes do que se é esperado pela sociedade, aparecem assim como intersubjetividades que surgem nas relações com os outros e consigo mesmo durante o desenvolvimento pessoal. O corpo, o gênero e o sexo são categorias frágeis frente à cultura e o psiquismo, promovendo conflitos de identidade.

Essa pesquisa partiu do princípio que as travestis são salientes em qualquer sociedade, diferentes dos homossexuais (gays e lésbicas) que possivelmente passam despercebidos. Os travestis são manipulações de símbolos sociais, culturais, sexuais e corporais e sobrepõem camadas de significados que, sem uma análise minuciosa, são de difícil apreensão.

No material bibliográfico pesquisado sobre o tema notou-se na percepção do corpo e sua fabricação constituindo sua identidade social, em um processo de fabricação da pessoa, por tanto elas só irão se realizar, em aspectos psicológicos e sociais, quando estiverem realmente travestidas. (OLIVEIRA, 1994; KULICK, 1998; BENEDETTI, 2000, 2005; FERREIRA, 2003, apud BORBA e OSTERMANN (2008)

Porém, a constituição dessa identidade social não é uma tarefa de fácil realização, pois um corpo masculino só conseguirá obter semelhanças de um corpo feminino desde que esse se submeta a um treino minucioso desde tratamentos hormonais até outras diferentes técnicas. Para serem travestis esses indivíduos necessitam reconstruir seus corpos, suas identidades e suas posições sociais. (BENEDETTI, 2000, apud FERREIRA, 2009)

Segundo o mesmo autor é por meio das interações sociais com outras travestis, namorados ou clientes, que alguns iniciantes conseguem ter acesso às informações que irão auxiliá-los no investimento necessário ao aperfeiçoamento corporal. Ele também observou que a transformação do corpo é um processo inerente à construção da identidade desse segmento social. Segundo Ferreira, independente dos investimentos utilizados nos corpos, esses não se dão sem conseqüências. Participando de uma sociedade patriarcal em que os valores e os papéis sociossexuais estão historicamente bem definidos para homens e para mulheres, o corpo andrógino das travestis passa a constituir fonte de preconceito, com efeito direto sobre a cidadania desse segmento. (BENEDETTI, 2000, apud FERREIRA, 2009)

Desse modo, a inserção no mercado de trabalho se dá de maneira precária, uma vez que lhes são relegadas colocações estereotipadas, sendo as mais freqüentes nos ramos da estética, da gastronomia e do entretenimento. Para aquelas provenientes de famílias mais pobres, a prostituição se coloca como uma das poucas alternativas de geração de renda, se não a mais recorrente.

Ainda diferenciando e caracterizando alguns gêneros sociossexuais, Chidiac e Oltramari (2004) identificam drag queens com o gênero feminino e masculino. Em sua pesquisa afirmam que os drags se diferenciam de suas identidades pessoais em diversos aspectos. A drag possui características físicas e psicológicas, além de posturas e atitudes, que são próprias das personagens, e que a distingue do sujeito que a compõe. Os sujeitos que interpretam as drag queens manifestam esse jogo de identidades, de ambos os gêneros, configurando o que pode se identificar com uma identidade queen. Ambos estudaram que as queens se apresentam como uma manifestação singular. Apesar de muitas vezes serem confundidas com travestis e transexuais, inscrevem-se em um mundo social marcado por diferenças destes grupos. Ser drag associa-se ao trabalho artístico, pois há a elaboração de uma personagem. A elaboração caricata e luxuosa de um corpo feminino é expressa através de artes performáticas como a dança, a dublagem e a encenação de pequenas peças. Os drag queens podem ser muito confundidos com travestis:

Mesmo que sejam categorizados como cross-dresser, transformistas, ou ainda, homens que se vestem de mulher, ambos estão inseridos em meios sociais distintos, uma vez que as drag queens atuam sob um conceito mais flexível de travestismo. Embora sejam atores transformistas, as drags distinguem-se dos travestis por andarem, em seu cotidiano, vestidos de homens, exercendo também profissões diversas, não afeitas ao transformismo durante o dia. Travestis utilizam próteses de silicone e hormônios na constituição de seus corpos femininos, permanecendo travestidas em seu cotidiano, e não o fazem de maneira exagerada e caricata. (SILVA, 1993; SILVA & FLORENTINO, 1996, apud CHIDIAC e OLTAMARI, 2004)

Enquanto os drag queens são inseridos mais facilmente em espaços sociais e culturais para suas performances artísticas, os travestis sofrem com a exclusão social, sendo sua imagem infelizmente ainda hoje associada à marginalização e prostituição.

Em meio a tanta diversidade sociossexual faz parte da história pessoas homofóbicas que não compreendem e não respeitam o diferente, por isso o preconceito e a intolerância ainda se impõem como barreiras ao respeito às diferenças, inclusive na abertura de outras oportunidades para esse segmento na vida em sociedade. Por tanto estando cada indivíduo inserido nas estruturas sociais, estes também se incluem nos direitos sexuais que são direitos humanos universais baseados na liberdade inerente, dignidade e igualdade para todos os seres humanos.

E foi para assegurar esses direitos e facilitar que a sociedade desenvolva uma sexualidade mais saudável, que desenvolveram a Cartilha de Direitos Sexuais do Ministério da Saúde (BRASIL, 2009), a qual reconhece os direitos sexuais e visa promover, respeitar e definir todas as leis estabelecidas na mesma, que são leis de liberdade sexual com a autonomia, a integridade, a segurança do corpo, a privacidade e a igualdade sexual, além do direito ao prazer sexual, à expressão, à livre associação, às escolhas reprodutivas livres e responsáveis, à informação baseada no conhecimento científico, à educação e à saúde.

Conforme citado na Cartilha de Direitos Sexuais (Brasil 2009), esta garante ao cidadão o direito de viver e expressar livremente a sexualidade sem violência, discriminações e imposições e com respeito pleno pelo corpo do (a) parceiro (a), o direito de escolher o (a) parceiro (a) sexual, bem como o direito de viver plenamente a sexualidade sem medo, vergonha, culpa e falsas crenças.

Considerando a hipótese de que as travestis podem não buscar atendimento no Sistema de Saúde devido ao preconceito existente entre os profissionais da área da saúde e na psicologia, faz-se necessário um trabalho de identificação, descrição e analise sobre os três princípios básicos da psicologia sócio-histórica sobre um olhar de atividade, consciência e identidade.

Por partir da ótica da psicologia social, o trabalho evidenciou alguns princípios básicos como percepção social, comunicação, atitudes, mudanças de atitudes e processo de socialização. Com relação à identidade, a qual permite conhecer quem é você e quem sou eu, algo mutável e em permanente transformação. Então como é possível alguém mudar e continuar sendo igual a si mesmo? Para Ciampa (1994) identidade é uma concepção psicossocial de caráter metamorfose.

Utilizou-se esse referencial teórico e outros autores que contribuem para a temática da identidade social e também da importância do papel feminino para as travestis. Acreditamos ser relevante abordar a questão da identidade ao assumir a forma de um nome próprio, ou seja, um substantivo. Para ele um nome nos identifica, e nós com ele nos identificamos. Assim para ele, o ser humano está em constantes transformações relacionadas a fases do desenvolvimento e dependentes das oportunidades sociais que o mesmo se encontra.

Ciampa (1994) ainda diferencia o substantivo do predicado. SUBSTANTIVO é quem a pessoa é realmente enquanto que apenas o substantivo não é suficiente para definir a identidade, então só podemos saber quem realmente ele é, na sua ação, ou seja, na sua ATIVIDADE. A atividade coisifica-se sob a forma de personagem. Assim os atributos visíveis não são suficientes e por todas as pessoas estarem em contínuo processo de mudança é que precisa ser entendida a identidade como constituída na relação interpessoal, ou seja, pelos papéis sociais que cada um desempenha.

Como todo predicado refere-se ao estado ou qualidade do sujeito, os papéis desempenhados por eles refletirão justamente nisso, constituirão uma forma de manifestação da identidade a personagem. Interiorizar aquilo que os outros nos atribuem de tal forma que se torna algo nosso. A tendência é predicar coisas que os outros lhe atribui. Além dessa discussão sobre a questão da identidade como papéis e gênero, pensou-se na questão de preconceito da sociedade em geral que elaboraria idéias fantasiosas sobre sua vida e personalidade buscando estereótipos sobre o que seria esperado dos travestis.

Discutiu-se também a questão da identidade delas quanto aos diferentes papéis sociais e que elas desempenham dentro da sociedade. A correlação dos diferentes gêneros, utilizado pela mesma pessoa, hora masculino, hora feminino, e como lidam com essa identidade metamorfoseada em seu cotidiano. Claro que essa identidade metamorfoseada se faz presente a partir da construção de personagem que representa com obediência sua atividade social. Assim sendo essa personagem é definida por adjetivos, esses dos quais possibilitaram a descrição da mesma como um produto de atividade, sendo este definidor de um lugar social para aquele indivíduo.

Considerando algumas informações que já possuímos das colaboradoras e pensando nas dificuldades que as mesmas superam para essas mudanças de papéis, e o quanto a sociedade as obrigam gastar muito tempo do seu dia a dia com a preparação do corpo, de modo a deixá-los cada vez mais femininos, e para isso também fazem uso abusivo de substâncias químicas que auxiliam na formação desse corpo afeminado. Fica a pergunta: quais são seus sentimentos reais quanto essas transformações? Ainda hoje as travestis não são reconhecidas, nem respeitadas, trabalham em péssimas condições, com poucos recursos e são vistas como objetos de uso sexual. Encontram-se ainda acuadas pelo vandalismo e os mais diversos tipos de agressões, traduzindo em condições humilhantes de trabalho.Pensando na relevância do conceito de atividade, desenvolvido por Ciampa (1986) apud Andriani (2006), refletimos que para se definir uma pessoa, necessita-se especificar características particulares como: profissão, o que fez e faz estando em atividade no mundo social e sua relação com os outros. Pensar nos quadros de relações do sujeito. E é por isso que consideramos relevante estudar o contexto social que as travestis estão inseridas, em trabalhos nas cidades da região durante o dia e durante a noite, nos finais de semanas em Danceterias para Gays, Lésbicas e Simpatizantes (as populares “GLS”) e Heterossexuais.

É importante lembrar que a incorporação dos papéis sexuais e a configuração da identidade de gênero passam pelo processo de socialização. Segundo Lago (1999) e Butler (2003) apud Chidiac e Oltamari (2004), as identidades de gênero que são socialmente atribuídas, masculinas e femininas, são marcadas por valores desiguais, padronizadas e estereotipadas na sociedade.

Para Butler (2003) apud Chidiac e Oltamari (2004), a identidade de gênero é significada pelas relações sociais e pela cultura, sendo dicotomizada do sexo biológico do indivíduo. Assim, podemos compreender que a escolha do objeto amoroso por alguém do mesmo sexo, desaprova o sujeito de representar a si próprio como homem ou mulher, com a identidade de gênero que lhe foi atribuída socialmente.

Há homossexuais que, mesmo desejando alguém do mesmo sexo, entretanto não se sentem incomodados com seu corpo; apropriam-se de aspectos masculinos ou femininos, identificam-se com eles, e não rejeitam o próprio corpo. Ainda o mesmo autor relata que as transexuais não se identificam com seus corpos, seus órgãos sexuais não têm significação psíquica, sentem-se como sendo de natureza oposta de seu sexo biológico. Sendo o corpo para as travestis um aspecto chave do processo de identificação de gênero, e como esse corpo modificado desafia a condição biológica que as associa ao universo masculino, tem-se uma fonte capaz de transmitir uma diversidade de informações para a sociedade maior.

Diversas são as fontes transmissoras da informação social, sendo a mais acentuada o próprio sujeito, que por meio de expressões corporais, atitudes, modo de vestir e pela aparência física está a falar de si mesmo que de maneira sutil. Evidentemente que todo o processo de interação social é comunicativo, permeado pelas inferências que os atores sociais podem fazer através do que lhes é informado, pois: é importante compreender que na existência quotidiana não dirigimos nossas vidas, tomamos nossas decisões ou alcançamos metas, nem de maneira estatística nem de maneira científica. Vivemos de inferências sociais. (GOFFMAN, 2005 e 2008)

E como o homem é construído pelo próprio homem, nunca se mostrará em uma forma acabada, estando em construção constante, sendo determinante e determinado ao mesmo tempo em sua relação com o ambiente social e com seus semelhantes.

Metodologia

Em contato com uma travesti do interior paulista, surgiu à idéia de alguns encontros com a mesma e outras três travestis, indicadas por ela. O contato com a travesti foi possível devido ao fato dela pertencer à rede de relacionamentos de um dos pesquisadores que a conhecia mesmo antes de ela se descobrir travesti, já que trabalhava como técnico de enfermagem na mesma equipe que o pesquisador em questão. A partir deste fato, foi criado vínculo que se manteve mesmo depois de sua inversão de papel. Através desta travesti foram obtidas informações sobre a faixa etária das demais participantes que é de vinte a trinta anos. O objetivo foi realizar grupos de reflexão de modo a compreender aspectos da formação da identidade social das travestis que contribuíram com suas histórias de vida através de relatos e pontos de vista sobre profissão, preconceito, prostituição, drogas etc.

O método utilizado para a pesquisa foi o de entrevista em grupo com a proposta de refletir sobre a condição individual e social das mesmas. No decorrer do trabalho, tivemos contato com mais duas travestis, que ao conversar com um dos pesquisadores mostraram interesse em participar dos grupos, porém não aceitaram participar do mesmo grupo das primeiras colaboradoras, por questão de afinidade, uma vez que disseram se sentir melhor para expressar seus sentimentos e vivências no grupo social em que vivem e tem mais afinidade. Dessa forma dividimos os grupos em dois, mas mantendo fielmente as mesmas questões norteadoras para ambos. Pensamos nas vantagens em poder conhecer relatos diferenciados dentro de um mesmo grupo social.

Inicialmente propusemos a realização de quatro encontros, porém não foi possível devido às rotinas das participantes, uma vez que foi agendado o primeiro encontro e nenhuma participante compareceu, alegando posteriormente problemas relacionados ao trabalho. Nos demais grupos, das quatro participantes que haviam sido contatadas, três participaram do primeiro encontro, duas do segundo encontro e no terceiro encontro que seria o encontro final, nenhuma compareceu.

No segundo grupo acima citado, inicialmente participaram duas travestis no primeiro encontro e nos outros dois encontros apenas uma compareceu, o que sugeriu uma mudança na metodologia aplicada, pois com apenas uma participante houve a necessidade de ser fazer entrevista, porém mantivemos as mesmas questões norteadoras para coleta de dados. Nos dois grupos, buscamos criar espaços de reflexão e crítica onde às travestis puderam explicitar aspectos emocionais, dos quais buscamos manter o respeito e ética para com as suas histórias de vida e disponibilidade de colaborar com os relatos.

A realização dos encontros teve freqüência semanal, em lugar apropriado, de modo que foi mantido o sigilo quanto à identificação das colaboradoras em relação aos conteúdos emergidos durante as discussões e contou com a participação de três travestis, que foram previamente informadas do tema do trabalho de conclusão de curso e se disponibilizaram a fazer parte, voluntariamente, mediante assinatura de Termos de Consentimento Livre e Esclarecido.

Os encontros, devidamente acompanhados pela orientadora da pesquisa, abordaram temas como família, trabalho, preconceito, sociedade e sistema público de saúde. Os pesquisadores acima citados chegaram com quinze minutos de antecedência, onde utilizaram desse tempo para organizar a sala onde ocorreram as discussões no sentido de colocar cinco cadeiras, três para as participantes e duas para os pesquisadores de modo a se formar um círculo, pensando que o formato de círculo para o grupo facilita a integração entre os membros e os pesquisadores. As participantes foram recepcionadas desde o portão de entrada do local do grupo, onde realizamos um breve rapport para deixá-las mais familiarizadas com o ambiente, e as encaminhamos para o círculo onde foi realizada a discussão.

Foram disparadas 3 questões norteadoras nos encontros realizados, sendo elas: 1 - Gostaríamos que vocês falassem um pouco sobre a história de vida de cada uma, a trajetória que tiveram até chegar aqui, suas dificuldades, benefícios com essa escolha de vida e se houve preconceito ou não; 2 - Como vocês vêem o trabalho, a prostituição e as drogas? (Tema este sugerido pelas próprias colaboradoras); 3 - Gostaríamos que você falasse um pouco sobre como é precisar de um médico da rede pública e se você já precisou de algum outro serviço da rede pública e se sofreu algum tipo de preconceito por ser travesti.

O disparo das questões norteadoras teve como finalidade fazer com que as participantes refletissem a respeito do tema e a partir daí dar início a discussão. Os pesquisadores não realizaram intervenções, funcionaram como facilitadores da discussão e fizeram somente perguntas esclarecedoras caso alguma demanda trazida pelas participantes causasse dúvida em relação ao repertório.

Com o consentimento das participantes, as entrevistas foram registradas em um diário de campo nos dois grupos. A utilização das entrevistas é o modo mais adequado metodologicamente para os propósitos do estudo de história de vida, e foram respeitados os princípios éticos quanto ao sigilo da identidade das mesmas, o que as asseguram a privacidade, e todo material obtido foi utilizado especificamente para os propósitos da pesquisa.

Não existiu nenhuma possibilidade de risco para as participantes envolvidas nesse estudo e o benefício obtido foi o relato por escrito sobre suas histórias de vida. Ressaltamos ainda que a pesquisa não trouxe nenhum custo para as colaboradoras ou ainda para a universidade em questão.

As travestis convidadas a participar desse estudo tiveram a total liberdade de se recusarem, assim como de retirarem seu consentimento em qualquer fase do trabalho e que não houve formas de ressarcimento ou de indenização. Por fim, tiveram a oportunidade para perguntar sobre qualquer questão que desejassem e que todas foram respondidas em seus contento, e os pesquisadores, assim como a orientadora da pesquisa se colocaram a disposição das participantes para atendê-las individualmente caso tenha, durante os encontros, emergido algum sentimento que preferissem trabalhar individualmente.

   A análise dos relatos das entrevistas foi realizada segundo uma busca do invariante, das convergências dos discursos, daquilo que permanece e que, portanto, aponta para a essência. Martins e Bicudo (1995) propõem que a análise qualitativa do fenômeno situado seja realizada em quatro momentos: 1) Leitura geral do relato ou entrevista, sem interpretações, buscando familiarização; 2) Identificação de unidades de significado, focalizando o fenômeno pesquisado; 3) Releitura dos textos, procura de apreensão mais abrangente do fenômeno estudado; 4) Reagrupamento dos elementos relevantes, transformando unidades de significado em uma descrição consistente da estrutura do fenômeno.

Quatro categorias temáticas foram elaboradas para explicitar a compreensão alcançada sobre as vivências das colaboradoras, o que coincidiu com o tema abordado em cada encontro com os dois grupos, ou seja: família, trabalho, preconceito e sistema público de saúde. A busca por significado teve ainda, como ponto de partida, a teoria da identidade de Ciampa (1994) e a análise dos estigmas de Goffman (1998).

Como as colaboradoras faltaram em alguns encontros questionou-se a mobilização de conteúdos que podem ter se tornado aversivo às participantes, assim reiteramos nossa disposição para atendê-las individualmente, notificando-as com uma carta de agradecimento.

Resultados

O presente trabalho teve como proposta abordar facetas da construção da identidade social sobre a ótica da psicologia social de algumas travestis do interior paulista. Foi fundamental a contribuição da história de vida das participantes através de seus relatos e pontos de vista sobre profissão, preconceito, prostituição, drogas etc.

A partir dos achados concluímos que por vivermos em uma sociedade que tem como modelo a instituição de família nos moldes da família burguesa, a falta da figura paterna pode ter contribuído para a formação da identidade social desses meninos bem como a falta desse modelo pôde produzir neles o desejo de ser como a mãe, por ter tido somente esse modelo de identificação, o que fez com que as contingências criadas fossem relacionadas ao papel feminino, embora biologicamente fossem do sexo masculino.

As travestis apresentaram dificuldades em assumir sua sexualidade no núcleo familiar, mas, mesmo assim buscaram nela o apoio, aceitação e a empatia que esperam encontrar na sociedade.

Em relação ao trabalho percebeu-se que existe divergência entre os grupos de travestis nos campos profissionais e algumas vezes até certa rivalidade social no que se refere estar bem sucedido ou estar mal sucedido no mercado de trabalho.

Quanto ao preconceito sofrido notou-se que o mesmo não é o fator crucial, mas sim a busca da singularidade, pois com a generalização que ocorre na sociedade em relação às travestis, as mesmas parecem não ter identidade, sendo sempre avaliadas como o grupo em que pertencem e não como indivíduos únicos que carregam sua própria história, acarretadas de vivências únicas e vistas por cada uma delas com um olhar diferente, portanto tendo cada uma suas próprias opiniões a respeito de cada assunto abordado no meio social.

Retratando as políticas públicas sociais, ainda que não obtivemos depoimento de todas as travestis participantes sobre esse assunto, o que analisou-se e que para F, o preconceito não é vivenciado apenas pelo universo homossexual, mas sim por toda a população que necessita do uso do sistema único de saúde (SUS). Para ela não é uma questão de gênero, pois o descaso acontece com todos os usuários do sistema de saúde pública, sem exceção.

No dia 6 de Junho de 2010, dia em que ocorreu o evento da Parada do Orgulho Gay na cidade de São Paulo, da qual os pesquisadores puderam participar numa forma de aproximação ao objeto de estudo. Pôde-se observar que, entre os quatro milhões de participantes do evento, apenas uma pequena parte da população parecia estar envolvida com a ideologia inicial do evento. Observou-se que o evento foi usado apenas como forma de lazer, e também como forma de realização pessoal, pois se pensa que cada pessoa que participou do evento foi em busca de algo de seu interesse pessoal, seja ele qual for.

Segundo DUQUE (2008) devido às inúmeras vivências de preconceito e marginalização a que estão expostos o publico LGBT, o fato de haver a possibilidade de se mostrar à sociedade em uma data que seria deles, pode gerar comportamentos pautados pelo excesso, quer seja na caracterização de seus personagens, quer seja pelas relações e atitudes exibidas na Parada, que fica mais próxima do que presenciamos nos Carnavais e Micaretas brasileiras.

Considerou-se que a construção da identidade social de ser travesti se aproxima da autenticidade citada por Rogers (1980), pois independentemente de atingir ou não os papéis sociais para elas impostas, elas vivenciam seus papéis de forma congruente.

Discussão

Nesse trabalho através dos relatos de vida das travestis notaram-se algumas semelhanças entre as participantes. A falta da figura paterna ficou ressaltada em todos os relatos de infância e adolescência das travestis, o modelo de homem da família muitas vezes ficou marcado pela mãe que assumiu sozinha esse papel de cuidador e responsável pela criação desse filho.

A ausência do pai pode trazer conseqüências psicológicas à criança. Quando a ausência é definitiva, no caso de morte ou porque o pai não assumiu a paternidade. Em qualquer condição, os filhos necessitam de apoio, proteção, carinho, companhia, cuidados e principalmente limite e é papel do pai dar noções de limite. (MIRANDA JR, 2010)

Existem algumas causas que colaboram para a exclusão do pai, são elas: o pai manter-se física e geograficamente muito afastado de casa; ele ser exageradamente frágil e dominado pela mulher; ou excessivamente tirânico; no entanto, a principal causa é quando a imagem do pai, mesmo que esse tente se mostrar diferente do que é dito, é denegrida pelo discurso da mãe em relação aos valores do filho, ou seja, a imagem que a criança introjetará da figura do pai é a mesma que sua mãe tem em relação a seu marido. (ZIMERMAN, 2003)

Muitas vezes a criança que é criada sem a figura do pai pode se tornar aversiva às ordens dadas pelas figuras de autoridades ou por representantes femininos. Principalmente em nossa sociedade que ainda tem como modelo ideológico instituído o da família nuclear burguesa, o modelo masculino se faz diferencial na formação da personalidade da criança. É necessária essa figura de referência e de valores para que a criança possa criar um vínculo de afeto e estabelecer parâmetros de comportamento. Não necessariamente este modelo precisa ser o do pai biológico, mas outra figura masculina que possa dar o mesmo suporte, como por exemplo, um avô, um tio ou o padrasto.

Existem vários casos de mães que criam seus filhos longe do pai biológico e que, no entanto, são crianças saudáveis por terem encontrado um outro modelo de referência. As frustrações familiares impulsionam a criança a procurar, no grupo de iguais, mecanismos compensatórios para que consigam suprir esta ausência, e talvez aí se identifiquem por se sentirem acolhidas por certo grupo de homossexuais e futuramente podem constituir no travestismo seus processos identitários.      Notou-se, nas entrevistas, um traço em comum: a grande dificuldade de assumir a sexualidade no núcleo familiar devido à falta de apoio da mesma. Percebeu-se que, como antigamente, ainda ocorre com freqüência de travestis adolescentes serem “expulsas” (concreta ou simbolicamente) de casa por seus pais, assim como descrito por Pelúcio (2007), em que as travestis, quando se “assumiam”, tinham o espaço doméstico da família, via de regra, insustentável.

Também se percebeu que a maior parte das participantes relatou na infância diversas lembranças do universo feminino com encantamento e o interesse por tudo que era relacionado ao universo da menina, como, por exemplo, bonecas, batom, sapatos de salto alto etc.

Justamente na adolescência que é a fase da descoberta de si mesmo, fase na qual o adolescente defronta com a sociedade que cria expectativas em torno dele e ao mesmo tempo impõe barreiras, criando modelos e obrigando os jovens a definir-se, fase essa de descoberta do eu, o adolescente encontra alternativas que podem desnorteá-lo. E para que isso não ocorra, ele deve ter claramente dentro dele a imagem que acredita ser sua, para depois confrontá-la com seus companheiros. Dessa forma, o outro tem grande importância na formação da auto-imagem de um adolescente. Entretanto é nessa fase que a maior parte das participantes relatou poder expressar com mais autoconfiança seus verdadeiros papéis sociais.

Talvez por tamanha identificação com o universo feminino, o vestir-se de mulher na adolescência acabou sendo um forte reforçador para a transformação física dessas travestis. Segundo os relatos, mesmo existindo a questão do preconceito, a satisfação pessoal de vestir-se de mulher sempre foi mais prazerosa do que qualquer outro aspecto do universo masculino.

Além do mais todas relataram que o assédio da população masculina quando estavam vestidos de mulher sempre foi maior do que quando estavam vestidos de forma a ser socialmente aceitos, ou seja, de forma masculina. Com muita singularidade relataram a realização pessoal ao estar “montada”, ainda que isso envolvesse um alto custo com investimento corporal como uso de hormônios, compras de perucas, depilar os pelos do corpo, adornos etc. Essa realização pessoal está vinculada a auto-imagem, a imagem corporal, o autoconceito e, acima de tudo, a auto-estima dessas travestis.

Sobre o referencial teórico de papel social para Ciampa (1994), pensou-se o quanto foi mobilizador transformar o papel social de homem, para o papel feminino de mulher, entretanto ainda que a necessidade subjetiva desses sujeitos fosse transformar-se fisicamente em mulher, a questão do preconceito seria sempre uma conseqüência dessa escolha.

Percebeu-se que o preconceito está permeando sempre a autenticidade das travestis. Para Rogers (1980) a autenticidade está vinculada a congruência da qual é definida como um grau de exatidão entre a experiência da comunicação e a tomada de consciência. Isso pode acontecer em virtude do receio da não aceitação da orientação sexual das travestis. Este autor coloca que as pessoas devem viver de acordo com suas próprias orientações, com a sensibilidade orgânica mais profunda de que são capazes, entretanto não serão afeiçoadas pelos desejos, pelas regras e pelos papéis que os outros insistem em lhes impor.

Piva (2010), em conceituado jornal local, refere-se às travestis, dizendo que um novo personagem social está compondo o cotidiano do interior paulista que é a figura do travesti. Contribui ainda com uma pesquisa abrangendo a forma como a população itapirense está reagindo a esse novo personagem social do cotidiano e nos mostrou como as pessoas mais conservadoras são evidentemente as mais intransigentes quanto a essa situação de diferenciação sexual. Por outro lado, há os que aceitam as travestis com tranqüilidade, o que revela também mudança de valores.

Tendo em vista que algumas pessoas aceitam e outras não as diversidades sexuais, pensou-se no relato de umas das participantes que opinou em relação ao respeito, onde colocou que o que faz a diferença é saber se portar nos ambientes, saber se dar ao respeito para ser respeitada, pois a mesma deixa claro que nunca teve problemas com relação a isso. Disse que às vezes as pessoas até olham estranho quando ela chega, mas depois, devido a seu comportamento adequado no local, elas passam a ver a situação como normal.

Nessa sociedade capitalista e individualista, aceitar e acolher o outro não é tarefa fácil, muito menos aceitar e acolher o diferente. E foi justamente na exclusão social generalizada que todos os participantes deixaram clara a insatisfação e a falta de acolhimento social ao falarem explicitamente da generalização que a sociedade faz dos travestis, ou seja, para os participantes a sociedade os vê como todos iguais por pertencerem a um mesmo grupo social, não levando em consideração o sujeito individual. Relatam que vinculam o papel social dos travestis sempre como profissionais do sexo, usuários de drogas, ou qualquer outro papel marginal. E foi justamente nesse ponto que todas as discussões dos encontros se entrelaçavam em diversos assuntos, bem como a generalização social que sempre apareceu como plano de fundo de todos os encontros.

Ainda sobre preconceito, as travestis trouxeram que o preconceito é minimizado quando estão em locais que possam ser mais compreendidas, assim como no campo profissionais muitas trouxeram a questão de profissões que estão mais vinculadas ao universo homossexual, bem como enfermagem, cabeleireiros e estilistas. Porém deixam claro que isso acontece não por falta de competência para assumir outros cargos em diferentes áreas, mas relataram sentir-se mais acolhidos pela sociedade quando estão nessas áreas, e também relatam que possuem maior habilidade nessas áreas profissionais. Para “T” a sociedade aprova homossexuais na área de enfermagem pelo seguinte aspecto por ela citado: “Somos fortes como um homem e delicados como uma mulher”.

Do ponto de vista de “F” profissões como estilistas e cabeleireiros possuem maior aceitação no mercado de trabalho, assim como a procura por esses profissionais são relativamente maior, por possuírem um jeito mais detalhista de realizar esse tipo de trabalho. Para “C”, no mercado de trabalho os homossexuais podem “errar menos” do que os heterossexuais. “C” ressaltou que as seleções para vagas de emprego deveriam ser por competência, a qual em seu pronto de vista hoje em dia é avaliada pelo currículo e principalmente pela aparência física da pessoa e não por sua competência.

Quanto à discriminação na seleção “F” afirmou que as grandes empresas ficam receosas em contratar travestis, pois temem um comportamento exagerado dentro ou fora da empresa, principalmente fora, pois a imagem da empresa está também vinculada aos seus funcionários.

Refletimos sobre o quanto é significativo e valorizador trabalhar em locais/atividades que permitam serem aceitos independentes de suas orientações sexuais. As colaboradoras ressaltaram a necessidade de vincular a profissão ao prazer, por isso todas garantiram o profissionalismo, uma vez que fazem o que gostam independentemente do campo de atuação de trabalho, levando em conta o comprometimento ético que possuem como cidadãs. Ainda dentro da atuação profissional, foi abordada a questão da prostituição, que para as travestis essa questão acabou sendo negada e vista como uma forma fácil de ganhar a vida por pessoas desestruturadas.

Notou-se ainda uma vontade latente de ser igual, ou seja, serem aceitas como realmente são, salientando-se que todas as transformações pelas quais passaram apesar de trazerem alguns níveis de exclusão social, o benefício mental com a aceitação de ser elas mesmas foi realmente gratificante. Entre os relatos percebeu-se preconceito por parte delas mesmas, em certos aspectos, como no que diz respeito à prostituição, dificultando ainda mais a aceitação social de sua orientação sexual.

Considerações Finais

Consideramos de suma importância que se perceba o diferente como uma possibilidade de existência, mesmo que em contradição com os papéis esperados, de modo a contribuir para uma sociedade mais humanizada e justa, principalmente por parte dos profissionais de saúde e responsáveis pelas políticas públicas de atendimento à saúde educação, lazer e cultura.

Durante a produção do trabalho, inicialmente, as travestis se mostraram de fácil acesso e com boa receptividade, porém no decorrer dos encontros notou-se que as mesmas encontravam muitos empecilhos para a formação do grupo, talvez pelo fator de que se expor possa ter refletido conteúdos reprimidos, insuportáveis naquele momento.

Também verificamos que maioria dos estudos levantados aborda o tema associado ao preconceito e a prostituição. Ressaltando que este estudo não pretende esgotar o assunto, percebemos a necessidade de analisar com mais cuidado as possibilidades de entrevistas em grupo como forma de percepção da realidade vivenciada pelos sujeitos, bem como as dificuldades desse processo metodológico. Também se faz necessário novas propostas de trabalhos científicos que busquem compreender as experiências de inserção das travestis em trabalhos formais, o que traria inúmeras contribuições para a percepção das vivências de inclusão.

Nossa experiência possibilitou uma melhor compreensão das individualidades e das diferenças, além de proporcionar um momento de identificação entres as travestis no grupo, de forma que as mesmas puderam ter empatia e benefícios através dessa experiência ao perceberem que outras pessoas também possuem vivências parecidas a ponto de compreendê-las.

Sobre os Autores:

Rebeca Aparecida Riberti - Graduada em Psicologia da Faculdade de Jaguariúna/SP. Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Rogério Adriano Bosso - Graduado em Psicologia pela Faculdade de Jaguariúna/SP e pós graduando em saúde mental. Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Orientadora: Profa. Ms. Luciana Gomes Almeida de Souza - Psicóloga graduada em Psicologia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto/USP (2000) e Mestre em Enfermagem em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP (2003). Atualmente é psicóloga da Prefeitura Municipal de Moji Mirim e docente graduação e pós graduação de vários cursos. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia do Ensino e da Aprendizagem, e Psicologia Social atuando principalmente nos seguintes temas: educação, famílias em situação de vulnerabilidade social, identidade, estereótipos, preconceitos e políticas públicas. Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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