Pais com Filho(a) Homossexual: e agora, como lidar com isso?

1 1 1 1 1 Avaliações 0.00 (0 Avaliações)
(Tempo de leitura: 25 - 50 minutos)

Resumo: Com objetivo de descrever a reação dos pais quando ficam sabendo da homossexualidade dos filhos (as), assim como investigar como é a relação entre ambos, descrever o sentimento entre pais e filhos (as) antes e depois de saber da homossexualidade; verificar se ocorreu a aceitação dos pais e identificar se existe alguma mudança no sistema familiar, depois que estes pais souberam que tem um filho (a) homossexual, foram realizadas quatro entrevistas semi-estruturadas com três mães e um casal de pais que têm filhos homossexuais, residentes na região sul do Paraná e no planalto norte de Santa Catarina. Posteriormente, as informações foram reunidas e organizadas segundo os dados obtidos para cada questão, sendo constituída por blocos temáticos de acordo com os objetivos e com embasamento teórico da abordagem sistêmica. Com a presente pesquisa, foi possível verificar que o grau de escolaridade dos pais, e as diferentes épocas em que souberam da homossexualidade dos filhos(as), não influenciou no tipo de reação. Percebeu- se que as famílias conseguem conviver bem, sendo necessário sim fazer algumas mudanças para se adequar a esse novo sistema, e que as transformações acontecem quando todo sistema familiar contribui para isso.

Palavras-chave: pais, filhos, família, homossexual e reação.

1. Introdução

A presente pesquisa visa descrever como é a reação dos pais nos dias atuais quando vem saber que seu filho (a) é homossexual, pois falar sobre sexualidade nos tempos de hoje ainda é tido como preconceito ou como tabu, principalmente por famílias tradicionais.

A família continua sendo o alicerce de qualquer pessoa que tenta viver uma vida digna, sendo assim o homossexual também deve contar com a família para ter dignidade num mundo ainda preconceituoso, e que pode muitas vezes não aceitar o homossexual se esquecendo do ser humano que existe dentro dele.

Acontece que esta mesma família pode ter dificuldades em proporcionar a esse filho (a) homossexual uma sensação de acolhimento que convencionalmente essa instituição deveria gerar. Pela tradição familiar? Pela cultura que vem impregnada em cada pessoa? O funcionamento e dinâmica dessa família é o que pode gerar uma maior proximidade ou um distanciamento principalmente no que se refere à descoberta de um filho homossexual.

Pode-se considerar que os homossexuais não escolheram por acaso algo que os deixa muitos vezes expostos à rejeição pela família. “Como vai ser a reação de meus pais?” Essa é a pergunta que faz com que o filho demore falar para os pais que é homossexual?

Analisando esses questionamentos sobre a família, esta pesquisa foi elaborada como base na Abordagem Sistêmica, que considera que o ser humano vive em uma rede de relações e no momento em que ocorre qualquer mudança, isso deverá acontecer com ele próprio e com o outro consequentemente, ou seja, das partes para o todo.

Este trabalho consiste em apresentar algumas contribuições para melhor compreender a reação dos pais diante de uma declaração do filho (a) dizendo que é homossexual, quais são os movimentos que esta família esta disposta a fazer ou fez para colocar algo novo dentro de uma concepção familiar atada pela heterossexualidade que lhe serviu de base por tantos séculos.

Por mais que exista uma ampla divulgação nos meios de comunicação, pouca é a atenção que se tem dado à família, que não sabe ou não consegue lidar com a situação de um filho (a) homossexual dentro de sua casa. O intuito dessa pesquisa está na divulgação das experiências dessas famílias, para que com a ampliação de informações sobre o tema, possa haver uma contribuição positiva para outros pais que estão buscando um melhor entendimento sobre como lidar com a homossexualidade dos filhos e também para psicólogos que queiram trabalhar com essas famílias.

A presente pesquisa apresenta a seguinte estrutura; referencial teórico que trata dos itens e subitens como segue: uma contextualização sobre Abordagem Sistêmica segue-se falando da Família onde aparecem os subitens Estrutura Familiar; Arranjos e Configuração Familiares; Família Moderna;

Relações Pais e Filhos, e para conhecer melhor esse filho há uma explanação sobre a Homossexualidade divido em Conceito e Característica do Homossexual, Identidade e Gênero; O Homossexual na História; O Homossexual na Sociedade Atual e para finalizar este tema que surgiu a partir das entrevistas: Como ocorre o Preconceito e Como é o Preconceito Contra o Homossexual. Na sequencia é apresentado o método seguido da análise dos resultados das entrevistas realizadas e a discussão com literatura revisada. Finalizando nas considerações finais e sugestões para estudos e atuações posteriores relacionados ao tema.

2. Abordagem Sistêmica

A principal característica do pensamento sistêmico pode ser resumida num critério e no mais geral, a mudança das partes para o todo. Na verdade os sistemas vivos não podem ser reduzidos em partes menores, visto que são totalidades integradas.

Quem desenvolveu os primeiros conceitos da Teoria Geral dos Sistemas foi Ludwig Von Bertalanffy, na década de 50, que buscava um enfoque que completasse as lacunas deixadas pela abordagem mecanicista da física clássica, considerada essencial nos fenômenos da vida. Assim:

Antes da década de 40, os termos “sistema” e “pensamento sistêmico” tinham sido utilizados por vários cientistas, mas foram as concepções de Bertalanffy de um sistema aberto e de uma teoria geral dos sistemas que estabeleceram o pensamento sistêmico como um movimento científico de primeira grandeza. Com o forte apoio subsequente vindo da cibernética, as concepções de pensamento sistêmico e de teoria sistêmica tornaram-se partes integrais da linguagem cientifica estabelecida e levaram a numerosas metodologias e aplicações novas [...] (CAPRA, 1998, P.53).

Para tanto, Capra (1998) confirma que outro critério a ser considerado é a sua capacidade de deslocar a própria atenção de um lado para o outro entre níveis sistêmicos. A percepção do mundo vivo como uma rede de relações tornou o pensar em termos de redes, influenciando não apenas a visão de natureza, mas também a maneira como se fala a respeito do conhecimento cientifico. O universo material é visto como uma teia dinâmica de eventos inter- relacionados, nenhuma propriedade isolada dessa teia é fundamental, todasprecisam umas das outras e se todos os fenômenos estão interconectados, para explicar qualquer um deles é preciso entender todos os outros.

Numa abordagem sistêmica a família é vista como um sistema aberto em interações constantes com o meio, trocando energia, informação e material mutuamente. Portanto, algumas propriedades dos sistemas abertos são essenciais para a compreensão da organização e do funcionamento das famílias, sendo uma delas a mudança que ocorre em uma das partes que provocará mudanças nas demais e, por conseguinte, no sistema total (BERTALANFFY, 1968).

Assim, a lógica das mudanças implica em que o comportamento de cada pessoa influencia e é influenciado pelo comportamento de cada uma das outras pessoas pela troca consecutiva de informações que vão e vêm. Sendo que esses movimentos ocorrem no sistema familiar.

3. Família

A família foi e sempre será o padrão de referencia para todas as vivências do ser humano, ninguém aparece do nada.

Para Osorio (2002) não tem como definir a família, é possível descrevê- la através de sua estrutura ou modalidade que assume através dos tempos, não deixa de ser uma instituição cujas linhagens se voltam aos antepassados da espécie humana:

A origem etimológica da palavra “família” nos remete ao vocábulo latino famulus, que significa “servo” ou “escravo”, sugerindo que, primitivamente, considerava-se a família como sendo o conjunto de escravos ou criados de uma mesma pessoa (OSORIO, 2002, p.25).

Alguns autores segundo Osorio (2011) caracterizam a família com suas próprias definições, Escardó (1995) evidencia que a palavra família não nomeia uma instituição-padrão, fixa e invariável, através dos tempos a família muda suavemente e se constitui sobre princípios morais e psicológicos diferentes, Levi Straus (1958) afirma a relação tripé: aliança (casal), filiação (pais e filhos) e consanguinidade (irmãos) e para Pichon-Riviére (1981) a família proporciona a definição e a conservação das diferenças humanas, são os papéis distintos e básicos de pai, mãe e filho.

Algumas teorias se baseiam nas funções biológicas outras nas funções psicossociais, sendo os papéis paterno e materno os estruturadores do grupo familiar.

A família que tem diversas funções acaba passando por mudanças que correspondem às mudanças da sociedade que tem assumido ou renunciado às funções de proteção e socialização de seus membros em respostas às necessidades da cultura. As funções da família atendem dois objetivos diferentes: o primeiro refere-se ao interno, ou seja, a proteção psicossocial de seus membros; o segundo refere-se ao externo, que é acomodação a uma cultura e a transmissão desta cultura. Ainda assim, mesmo tendo que mudar conforme a sociedade “pede”, a família continua fiel ao conjunto de valores que recebeu (MINUCHIN, 1982).

Minuchin & Fishman (1990) confirmam as mudanças que a família deve estar articulando. Para ambos a família não é uma entidade estática. Está em processo de mudança contínua. A família é sujeita às demandas para a mudança, vindas tanto de dentro do contexto familiar como de fora do contexto social. A família é um grupo natural que através dos tempos tem elaborado exemplos de interações. Estes exemplos são os padrões que constituem a estrutura familiar, que administra o funcionamento dos membros da família.

3.1 Estrutura familiar

Segundo Minuchin (1982, p.57) “estrutura familiar é o conjunto invisível de exigências funcionais que organiza as maneiras pelas quais os membros da família interagem”.

Então, Piszezman (2006 apud CERVENY, 2006) acrescenta dizendo que a família é um sistema que atua através de padrões transacionais. As operações repetidas estabelecem um padrão transacional. A estrutura de uma família é única, assim como a personalidade de cada individuo.

Minuchin (1982) afirma que os padrões transacionais que regulam o comportamento dos membros da família são mantidos por dois sistemas de repressão, sendo primeiro aquele universal que governa a organização da família, ou seja, deve existir uma hierarquia de poder, entre pais e filhos devem existir diferentes níveis de autoridade, já o segundo é o idiossincrásico [1], que envolve as expectativas mútuas de membros específicos da família.

Quando ocorre alguma mudança nos padrões da família ela deve ser capaz de se adaptar, a família na verdade deve responder às mudanças internas e externas, deve ser capaz de se transformar de maneira que atendam as novas circunstancias. Para que o funcionamento da família consiga se transformar o sistema familiar foi divido em subsistemas: subsistema conjugal (casal); subsistema parental (pais) e subsistema fraternal (irmãos) (IBID., 1982).

Esses subsistemas devem ter regras que definem quem participa e como, são as chamadas fronteiras e sua função é de proteger a diferenciação do sistema. Para o funcionamento apropriado da família, as fronteiras devem ser nítidas, a nitidez das fronteiras dentro de uma família é uma fonte favorável para a avaliação do funcionamento familiar. Quando ocorre aumento de preocupações na família, esta começa ficar anuviada, ou melhor, fica difusa e pode precisar de recursos para se adaptar e mudar. Outras famílias podem desenvolver fronteiras rígidas, onde a comunicação se torna difícil e as funções protetoras dessa família ficam prejudicadas (MINUCHIN, 1982).

Devido à pressão exercida tanto interna como externa proveniente de um movimento de alteração no sistema familiar, poderá ocorrer um estresse na relação de um com o outro.

3.2 Mudanças no Ciclo de Vida Familiar

A perspectiva do ciclo de vida familiar vê os sintomas e as disfunções em relação ao funcionamento desenvolvimental da família. O ciclo de vida individual acontece dentro do ciclo de vida familiar, que é contexto primário do desenvolvimento humano. As mudanças drásticas nos padrões de ciclo de vida fazem com que seja oferecida uma atenção maior para esta perspectiva.

Para Carter e McGoldrick (1995, p.8), “o estresse familiar é geralmente maior nos pontos de transição de um estágio para o outro no processo desenvolvimental familiar,[....].” Portanto é necessário ajudar os membros da família a se reorganizarem, de modo a poderem prosseguir seu desenvolvimento. São classificados em estágios os ciclos de vida familiar: jovens adultos solteiros, o novo casal, famílias com filhos pequenos, famílias com adolescentes, lançando os filhos e seguindo em frente e famílias no estágio tardio da vida.

As mudanças nos padrões de ciclo de vida familiar aumentaram muito, por causa de um índice menor de natalidade, expectativa de vida mais longa, mudança no papel feminino e ainda o crescente índice de divórcio e recasamento. Essas mudanças tornam mais difíceis a tarefa de definir o ciclo de vida familiar “normal”. Uma porcentagem sempre crescente da população está vivendo junto sem casar, e um número crescente está tendo filhos sem casar, mais de 6% da população é homossexual, a estimativa é que mulheres jovens jamais casarão, outras jamais terão filhos, mais de 50% dos casais terminarão com divórcio, além de muitas outras situações que saem desse padrão anteriormente solidificado, fazem com que seja deixado de lado o apego aos antigos ideais, existem sim uma mudança no ciclo de vida familiar. (IBID, 1995).

Todos os relacionamentos familiares no sistema estão diretamente ligados do seu estágio anterior para o posterior.

3.3 Arranjos e Configuração Familiares

Segundo Cerveny e Berthould (1997 apud WAGNER, 2002), o aparecimento de novos arranjos familiares, surgiu a cargo da disposição humana de superar situações difíceis, e buscar novamente o equilíbrio, os novos arranjos diferem de aquele modelo nuclear formado pelo pai, mãe e o filho de um único casamento.

Com a constituição de um novo arranjo familiar, Wagner (2002) explica que novas palavras surgiram para nomear esses membros que vão se inserindo para construção de uma nova família, como madrasta, enteado, companheiro, tudo para dar vínculo entre as pessoas, que não tem o mesmo grau de sanguinidade familiar.

Muitas foram as mudanças, surgindo novos arranjos, mas os valores aprendidos, o desejo em construir uma família isso não vai ser modificado. Tanto é que segundo Goldani e Verdugo Lazo (2004 apud LAVINAS e NICOLL, 2006), nos últimos 30 anos as famílias brasileiras quase triplicaram de número, porém o tamanho médio delas se reduziu (de 4,9 para 3,5 pessoas) e suas condições de vida melhoraram.

Segundo esses mesmos autores, houve uma diminuição importante no número de famílias biparentais com filhos e um crescimento das famílias monoparentais (chefe sem cônjuge) com filhos; observa-se também uma progressão importante das famílias unipessoais e na família chamada de canguru, ou seja, filhos adultos independentes e que preferem a mordomia da casa dos pais. Confirmando-se assim que a família pode ser bem diversificada e que a possibilidade de acabar é longínqua.

3.4 Família moderna

Como diz Osorio (2002) as separações conjugais vêm sendo responsáveis pela emergência de uma mutação familiar.

As reconstruções familiares acarretam, obviamente, mudanças significativas no campo relacional familiar, provocando a emergência de situações sem precedentes, para as quais não há experiências prévias na evolução da família que possam servir de referencia para balizar o processo de assentamento sociocultural dessas novas formas de convívio familiar (OSORIO, 2002 p.70).

Coincidência de direitos, deveres e opção entre os sexos é o embasamento das modificações pelo qual passa a família contemporânea.

Nos tempos atuais não é mais possível contar com apenas o modelo familiar nuclear, uma das alterações está representada pelo fato de interdição e limites não serem mais consideradas funções ligadas ao sexo paterno. Na verdade, a noção de sexo vem perdendo espaço para os domínios de gênero, criando as condições psicossociais para a aceitação e o reconhecimento oficial da família homoparental e das diversas outras configurações familiares (NICOLETTI, 2011).

Considerando a forma da construção das novas famílias sejam elas de heterossexual ou homossexual, esta continuará sendo a base para o desenvolvimento dos seus membros, é na família onde se vivem as emoções mais claras e definidas da experiência humana, principalmente no que tange a relação entre pais e filhos.

3.5 Relações Pais e Filhos

Quando se faz a pergunta de como é a relação de pais e filhos vem logo ao pensamento a palavra conflito entre gerações, como evidencia Osorio (2002) não há como evitar conflitos no convívio humano. O que pode ser feito é reduzir ao mínimo possível as tensões existentes entre pais e filhos porque ambos têm direitos e deveres:

Essas tensões poderão ser abrandadas na medida em que os pais deixem de usar os filhos como instrumentos de suas realizações pessoais e estes, por sua vez, possam compreender que são a consciência viva da finitude de seus pais, ou seja, que o simples fato de estarem se tornando adultos comprova a inevitabilidade da velhice e morte dos pais, o que gera neles intensas e nem sempre reconhecidas ansiedades existências [...] (OSORIO, 2002 p. 83).

Quando há uma boa relação entre pai e filho não vai existir nenhuma relação de domínio e sim de responsabilidades quando necessário. Os filhos são seres com identidade própria, ou seja, com vontade própria, eles têm uma cota de livre-arbítrio que foge do controle e manipulação dos pais, assim estes (pais) não podem se responsabilizar por todos seus atos, pensamentos ou modo de sentir. Outro fator presente na relação pai e filho é o de culpa, e os pais de hoje em pleno século XXI, estão tentando se livrar dessa culpa institucionalizada pela geração anterior que dizia que o elemento para formação do caráter filial lhes seria a culpabilidade pelas suas atitudes e ações (Iibd., 2002).

[...] ao se declararem culpados pelo que está acontecendo aos filhos, ou até pelo que lhes possa acontecer no futuro, em nada os pais estão ajudando os filhos nas suas agruras evolutivas, cuja responsabilidade é dos próprios filhos tanto quanto dos pais e da sociedade. Da própria vida, enfim, com todas as vicissitudes que lhe são inerentes. A culpa paralisa. Pais culpados geralmente deixam de funcionar como adequados recipientes para as ansiedades dos filhos; acabam por incrementar suas sensações de confusão e desamparo antes às dificuldades de seu momento evolutivo (OSORIO, 2002, p. 85).

Os filhos podem ter dificuldades evolutivas para alcançar a maturidade, quando os próprios pais não conseguem fazer a ponte entre mostrar ao mundo o filho que gerou (cresça) e a perda do controle de seus destinos (não cresça). Muitos pais sentem-se angustiados pelo crescimento dos filhos em uma sociedade cercada de famílias em conflitos, disfunção político-econômicas, guerras e outros fatores que geram insegurança, e isso faz com que os filhos não possam exercer as ditas funções adultas (IBID., 2002).

As diversas condições que os pais são expostos diante dos filhos, demonstram que estes nunca serão perfeitos e nem os filhos serão perfeitos, porque na verdade perfeição não existe e depois sempre vai aparecer alguém para apontar as falhas, os erros. Para tanto os pais devem estar preparados, porque as suas dificuldades serão mostradas pelos próprios filhos (ROSSET, 2003).

Ser pai ideal e mãe ideal é uma empreitada impossível, pois todos os pais deixam a desejar de alguma maneira. Mas ainda assim é possível existir uma troca, quando se ensina se aprende e enquanto se aprende se ensina. Portanto os pais devem estar preparados para alguma situação atípica no seio familiar e não pensar que essas situações poderão desestabilizar a família, mas poderá ocorrer um crescimento mútuo.

4. Homossexualidade

4.1 Conceito e Característica do Homossexual

Antes da palavra homossexualidade criou-se a palavra homossexualismo que no século XIX surgiu para designar a conduta “desviante” e “perversa” entre as pessoas do mesmo sexo (FURLANI, 2007).

Homossexualismo é uma palavra híbrida [2], formada pela fusão de três radicais de origem linguística distinta: 1, do grego, homo = “igual, semelhante, o mesmo que”; 2. Do latim, sexus = sexo; 3. Do latim, ismo = “próprio de”, “que tem natureza de”, “condição de”. O sufixo ismo serviu para reforçar o moralismo da época, além da patologia e até mesmo certa forma de crime que existisse nas relações entre as pessoas do mesmo sexo. Foi a partir do século XX que o termo homossexualidade passou a ter um significado mais adequado, que passou a significar “modo de ser”, pois começou a desaparecer as sintomatologias de outras épocas e percebeu-se uma possibilidade de homens e mulheres viverem seus amores e encantos (FURLANI, 2007).

Furlani (2007, p.158) mostra que muitas foram as pesquisas realizadas tentando explicar a origem biológica da homossexualidade, mas não se chegou há nenhuma conclusão científica definitiva. “Uma das tentativas atuais de explicação da orientação sexual é a ideia de que hormônios atuariam ao nível embrionário, no cérebro (na região do hipotálamo)”, tal possibilidade compõe apenas como suposição.

Embora possa estar crescendo dia a dia as possibilidades das pessoas viverem uma vida digna sem serem apontadas pelas suas diferenças, ainda percebe-se um desconforto na aceitação do que é diferente do que foi aprendido pelo moralismo.

4.2 Identidade e Gênero

Poderá ser considerado através da observação e do conhecimento das diferenças sexuais que a sociedade criou ideias sobre o que é um homem e o que é uma mulher, o que é masculino e o que é feminino, ou seja, as chamadas representações de gênero.

Quando se fala em sexo estamos nos referindo aos aspectos físicos, biológicos do macho e da fêmea, quando falamos em masculino e feminino estamos nos referindo a gênero. Quando se fala em gênero, a referência é à construção cultural das identidades feminina e masculina, do ser mulher e do ser homem. A identidade de gênero consiste, pois, “[...] no quanto a pessoa diz ou faz para indicar aos demais ou a si mesma o quanto é homem, mulher ou ambivalente” (FAGUNDES, 2001apud FAGUNDES 2010, p. 2).

Segundo Scott (1995, apud ANJOS, 2000) o conhecimento de gênero é entendido como afinidades estabelecidas a partir da percepção social das diferenças biológicas entre os sexos. Para Bourdieu (1999 apud ANJOS, 2000, p.275) “essa percepção, por sua vez, está constituída em planos classificatórios que opõem masculino/feminino, sendo esta oposição similar e relacionada a outras: forte/fraco; grande/pequeno; acima/abaixo; dominante/dominado”.

Para Grossi (1998, p.4), “não existe uma determinação natural dos comportamentos de homens e de mulheres, apesar das inúmeras regras sociais calcadas numa suposta determinação biológica diferencial dos sexos”. A ciência aprendida desde a escola reflete os valores construídos no Ocidente desde o final da Idade Média, que apontam apenas uma parte social: a dos homens, brancos e heterossexuais.

Gênero seria, então, um sinônimo da palavra sexo, não; quando se fala de sexo, refere-se apenas a dois sexos: homem e mulher ou macho e fêmea. Estas questões levam todos a refletir sobre a problemática da homossexualidade.

O fato é que as pressões sociais, dizem muito mais que os próprios desejos de realizações.

4.3 O Homossexual na História

A homossexualidade é um fato remoto na história e segundo Avallone (2008) a homossexualidade, assim como a família é um fenômeno que ocorre desde os primórdios da humanidade, desde os povos mais selvagens e da civilização mais primitiva já ocorria a prática homossexual. A homossexualidade é interpretada e explicada de diversas maneiras, e apesar de não se admitir abertamente a sua existência também jamais se ignorou o fato.

As relações homossexuais no mundo grego eram apresentadas como a introdução de jovens homens na vida pública, tratava-se da forma como eles deixavam sua condição infantil e assumiam a masculinidade e o mundo adulto.

Para Souza (2001), a pratica homossexual entre os homens na Grécia era tida como natural, ou seja, era considerada como a prática entre os casais heterossexuais, mas os senhores é que escolhiam seus escravos e estes seriam os “passivos” da relação, jamais o senhor se submetia como passivo, pois seria definitivamente degradante.

A configuração nas relações homossexuais mudou radicalmente na Idade Média, época do domínio da Igreja Católica sobre governos, cultura e pensamento. O cristianismo avaliou a homossexualidade uma aberração, um extraordinário pecado. Alguns estudos de teólogos modernos informam que as praticas sexuais entre os hebreus eram realizadas somente com a finalidade de continuar a espécie humana, não se considerava o prazer e não se poderia desperdiçar o sêmen. (GIORGIS, 2001)

No século XIX, com a cerimônia de uma fala cientificista, a ideia de homossexualismo como pecado passa para a concepção de doença. É nessa fase que se troca o sufixo “ismo” (doença) por “idade” (modo de ser) (RIOS, 2001, apud YANAGUI, 2005).

As transformações que decorrem a partir daí vem dando espaço aos homossexuais, estes não são mais os doentes, mas passam a ser vistos como seres humanos que tem o direito em escolher ser o que vai fazê-lo feliz, apesar de terem que ser amparados pela Lei da Anistia Internacional de 1991 que considera a proibição da homossexualidade como uma violação dos direitos humanos.

4.4 O Homossexual na Sociedade Atual

Falar sobre sexo no seio familiar ainda é visto como tabu como já foi mencionado, mas os jovens de hoje conseguem ter uma liberdade de expressão no seu meio, ou seja, com outros jovens e para eles não existe uma dificuldade maior em dizer que é homossexual, está acontecendo uma tolerância entre os adolescentes.

Segundo Rogar e Bortoloti (2010), uma pesquisa realizada pelas universidades estaduais do Rio de Janeiro (UERJ) e de Campinas (Unicamp) mostra os números: aos 18 anos, 95% dos jovens já se declararam gays. A maior parte, aos 16 anos. Na geração exatamente anterior a revelação pública da homossexualidade ocorria em torno dos 21 anos. A naturalidade com que os jovens conseguem expor sua sexualidade está mais aberta (no seu circulo de amizades), mas ainda ocorre a situação de não serem totalmente aceitos sem discriminação. Pois não se pode dizer que o preconceito desapareceu, ele continua em alguns meios, mas o importante é que se alguém demonstrar de alguma forma seu preconceito este vai ser condenado pela maioria. Os meninos e meninas falaram que a notícia aos pais sobre sua sexualidade continua a causar a dor da decepção, muitos tendem a falar primeiramente para mãe com medo de uma reação violenta do pai.

Para esses adolescentes a homossexualidade não é algo negativo como era visto em outros tempos, seria necessário apenas mudar a forma de pensar de algumas pessoas mais apegadas às tradições culturais aprendidas de que o homossexual é um ser diferente. É bom pensar que a juventude pode estar mudando e enredo dessa história.

Está acontecendo o reconhecimento que a homossexualidade não é mais algo negativo, ou você aceita e assume ou vai ter que viver escondido atrás de uma máscara porque o preconceito faz mal.

4.5 Como se dá o Preconceito, como é o Preconceito contra o Homossexual.

A aparição do preconceito é individual e parte da constituição deste individuo ser responsável por desenvolver ou não o preconceito.Segundo Crochik (2006), o preconceito surge em resposta aos conflitos da luta que envolve socialização, quanto ao desenvolvimento da cultura de cada individuo. O individuo preconceituoso pode selecionar diversos objetos ou pessoas como os judeus, os negros, o homossexual etc., como alvo de sua rejeição, isso demonstra uma forma de atuação desenvolvida por ele, independente das características dos objetos alvos de preconceito, mostra que o preconceito está relacionado às necessidades do preconceituoso do que às características de seus objetos.

As ideias sobre o objeto do preconceito não surgem do nada, mas da própria cultura, como a experiência e a reflexão são as alicerces da composição do individuo, sua ausência caracteriza o preconceito (IBID., 2006).

Segundo Freud (1975 apud CROCHIK. 2006 p.17), “o medo frente ao desconhecido, ao diferente, é menos produto daquilo que não conhecemos, do que daquilo que não queremos e não podemos reconhecer em nós mesmo por meio dos outros”.

Então a dificuldade de lidar com determinada situação acaba por gerar o preconceito, é mais fácil rejeitar o outro (pessoa ou objeto) do que enfrentar ou reagir, rejeitando a pessoa consegue deixar longe de si algo que a incomoda por falta de um conhecimento maior. Crochik, (2006 p.17) evidencia que “Quanto maior a debilidade de experimentar e de refletir, maior a necessidade de nos defendermos daqueles que nos causam estranheza”. Portanto a defesa não deixa de gerar o preconceito.

O preconceito hoje é visto de uma forma mais branda, a mídia está fazendo o papel de mostrar que a homossexualidade pode ser mais aceitável. Mas Cigagna mostra:

As pessoas, de forma geral, “aceitam” a homossexualidade, desde que não aconteça no seu meio familiar, no seu meio de trabalho, no seu meio social! E mais, têm sempre a esperança de vê-los “curados”!!! Encaram a atividade homossexual como uma doença que pode ser estirpada! Poucos são os heterossexuais que realmente aceitam o fato de existir outra preferência no campo sexual. Em função disso, inúmeros homossexuais chegam aos consultórios para tentar uma transformação, uma modificação no seu modo se ser, de sentir amor, de sentir desejos. Fazem isto para agradar a família [...] (CIGAGNA, 2002 p.20).

Na verdade é necessário a autoaceitação que vem antes de qualquer atitude que procure a aceitação exterior.

Isso faz com que se reflita que a felicidade não está relacionada com a orientação sexual, pois mesmo nos casamentos heterossexuais há possibilidades de inseguranças e infelicidades.

O respeito mútuo faz com que as pessoas vivam harmoniosamente, sem distinção de raça, cor, ou qualquer outra forma que venha separar essas pessoas.

5. Metodologia

A pesquisa baseou-se no método de estudo de campo que, segundo Gil (2002), se inicia pela caracterização da elaboração do projeto inicial, exploração preliminar, formulação do projeto de pesquisa, pré-testes dos instrumentos e procedimentos de pesquisa, coleta de dados, análise do material e redação do relatório.

Para responder a questão problema levantada nessa pesquisa: qual é a reação dos pais quando ficam sabendo que tem um filho (a) homossexual? Foram entrevistadas 03 (Três) mães e um casal de pais que tem um filho (a) homossexual. A intenção foi a realização da entrevista com pais de filhos (as) de distintas idades e diferentes épocas em que estes ficaram sabendo da homossexualidade dos filhos (as), para uma amplitude de respostas, pois poderiam ocorrer diferentes concepções acerca da natureza da homossexualidade do filho (a), contextualizando assim às diferentes épocas.

O processo de seleção de escolha de uma família da população para participar da amostra obedeceu aos seguintes critérios de representação: casais de pais ou um dos genitores da região norte de Santa Catarina e/ou Sul do Paraná que tenham um filho (a) homossexual.

O convite para a participação voluntária foi feito ao casal de pais ou um dos genitores pelo filho homossexual destes, utilizando-se a técnica de “bola de neve”, este método permite a definição de uma amostra através de referências feitas por pessoas que compartilham ou conhecem outras que possuem as características de interesse da pesquisa. (BIERNACKI E WALFORD, 1981 apud LOPES E COUTINHO, 1999).

Os dados coletados foram reproduzidos textualmente na íntegra, analisados e relacionados à fundamentação Teórica baseados na Psicologia Sistêmica.

Todas as informações fornecidas mediante o exercício da entrevista são confidenciais, a identidade dos entrevistados foi mantida em sigilo e os dados obtidos foram utilizados, única e exclusivamente, para fins acadêmicos.

6. Apresentação e Análise dos Dados

A análise das informações obtidas através de entrevista semi- estruturada, com pais que tem um filho (a) homossexual, teve como aporte teórico a Abordagem Sistêmica Familiar. As informações foram separadas por categorias com as questões fundamentais, visando responder o problema de pesquisa: Conhecendo a dinâmica familiar de famílias com homossexual; Nuances da relação pais e filhos; Pais e filhos: sentimentos e reações e Pais com filhos homossexuais: percepções e mudanças que acontecem.

6.1 Conhecendo a Dinâmica Familiar de Famílias com Homossexual

A família é o aporte para os membros se desenvolverem e interagirem entre si, norteia cada um de seus membros, é um grupo natural com diferenças, mas que parte para a evolução, passando por cada ciclo de vida, e a partir do seio familiar de convivência se torna mais complexa e desafiadora, sendo necessária entendê-la para evitar prejudicar o funcionamento familiar.

Segundo Minuchin & Fishman (1990) a família pode mudar e adaptar-se conforme o momento e a necessidade, sua estrutura é acomodada pelas afinidades dentro de um preceito único e aberto a novas formulações e ajustamentos, rebatendo as necessidades de mudanças de cada membro do sistema, igualmente ao grupo como um todo.

Nas famílias das quais os pais foram entrevistados, observou-se que há momentos de dificuldades e momentos prazerosos, e que é através dessas experiências que conseguem os ajustamentos para que a família tenha continuidade, os momentos bons trazem a repetição e os momentos difíceis trazem conhecimentos para os enfrentamentos que se fizerem necessários. As mães entrevistadas demonstraram que aconteceu uma mudança relevante na relação com os filhos (as) a partir do momento em que souberam da opção sexual deste, relataram que passaram a amar mais seus filhos (as).

Percebe-se no funcionamento de todas as famílias um sentimento de pertencimento muito evidente, um apego entre os familiares, principalmente das mães com o filho homossexual, isso nos remete ao chamado subsistema com padrão emaranhado.

Os membros de subsistemas, ou famílias emaranhadas, podem ser prejudicados no sentido que o sentimento incrementado de pertencimento requer uma máxima renúncia de autonomia. [...] a família emaranhada responde a qualquer variação do habitual, com excessiva rapidez e intensidade (MINUCHIN, 1982, p.60).

Mas é possível notar também que essas famílias foram se adequando às mudanças quando as circunstâncias pediram, sem perder a continuidade, que é a referência para seus membros.

Minuchin (1982) diz que as mudanças acontecem da unidade menor para a maior, as famílias mudam à medida a sociedade muda.

Percebe-se a necessidade de tomar consciência de que uma família com filho homossexual tem que fazer algumas mudanças naquilo que veio sendo cultivado de uma tradição heterossexual, pois sabe-se que um filho homossexual vai trazer para dentro de casa um namorado e não uma namorada, e que os planos de casamento fogem do tradicional.

Acredita-se que isso mantém fiel o homem a um conjunto de valores, mas que pode ser quebrado a qualquer momento para poder refazer a estrutura familiar adequada àquele momento. Verificou-se que as famílias entrevistadas de um modo geral foram se adequando às necessidades, elas por si só num primeiro momento sentiram uma dificuldade em elaborar algo que não pertencia a sua dinâmica, mas com a convivência tudo foi se acomodando e o que era diferente já não é mais, faz parte de suas vidas e segue naturalmente.

Osorio (2002) confirma que o padrão de relacionamento se estabelece através de laços que atam afetuosamente as criaturas humanas são os laços do bem-querer. O ato do bom relacionamento está presente nas famílias das quais estão sendo discorridas, percebe-se a visibilidade do que assegura uma relação harmoniosa é a troca desse bem-querer tanto dos pais para com os filhos e reciprocamente.

Ser pais requer uma doação equilibrada, e somente conhece esta doação quem se torna pai ou mãe, pois os cuidados do bom relacionamento que aparece nas falas dos sujeitos demonstra que isso acontece no decorrer da criação, haja vista, que não existe um manual de como ser pai e mãe, pois cada família é diferente da outra apesar dos vínculos entre pais e filhos serem bem fortes.

6.2 Nuances da Relação Pais e Filhos

Percebendo a vivência das famílias se faz necessário algumas considerações sobre a relação dos pais e filhos, os quais foram entrevistados.

Para Osorio (2002 p.83):

Não há como se evitar conflitos no convívio humano porque premissas diferentes geram, inevitavelmente, confrontos e, como diz o ditado “cada cabeça uma sentença”. O que é viável, contudo, é reduzir ao mínimo possível as tensões existentes entre pais e filhos pelo mútuo reconhecimento dos direitos e deveres de cada um. Por outro lado, essas tensões poderão ser abrandadas na medida em que os pais deixem de usar os filhos como instrumentos de suas realizações pessoais e estes, por sua vez, possam compreender que são a consciência viva da finitude de seus pais [...].

Analisando as entrevistas percebeu-se como a afinidade entre pais e filhos era tida como normal antes de saber da homossexualidade desse filho (a), mas que após houve uma quebra nessa relação em uma das famílias onde o pai não aceitou a filha pela sua opção sexual. Como já foi salientado, há uma dificuldade momentânea de elaborar uma situação não esperada pelos pais, pela própria falta de experiência por nunca ter vivenciado algo que sai do tradicional.

A relação entre pais e filhos está alienada no olhar a família sistemicamente, onde todos se influenciam reciprocamente independentemente da idade. Rosset (2003, p.14) explica:

Se acredito que não tem certo e errado pré definido, vou treinar isso no dia a dia com os filhos [...]. Se sei que não existem vítimas e bandidos, vou olhar as situações com novos olhos, e ao invés de crer que meu filho me sacaneia, ou que eu estou sacrificando-o vou poder enxergar como nós estamos construindo essa história em conjunto [...]. Se compreendo que tudo é uma questão escolhida e o que faz a diferença é o nível de consciência dessas escolhas vou direcionar nossa relação de forma a facilitar a tomada de consciência e de responsabilidades tanto minha como dos filhos que estou preparando para a vida.

É necessário ter uma visualização diferenciada dos valores familiares para poder ter essa tomada de consciência citada pela autora, pois nas entrevistas percebeu-se que as famílias eram bem tradicionais, mas quando consideraram que não poderiam mudar o que já existia é que conseguiram não deixar desestruturar uma família que poderia seguir rumos bem diferentes, é necessário que pais e filhos se mostrem cúmplices no seu modo de agir.

Segundo Minuchin (1982), existem fases na evolução natural da família que pedem uma negociação de novas regras familiares, novos subsistemas devem surgir e novas séries de caracterização devem ser esboçadas. E tais conflitos que aparecem servem para o crescimento de todos os membros da família.

A relação entre os irmãos, no inicio foi difícil, veio a cobrança caracterizada pela falta de confiança, mas quando se pergunta como está a relação entre os irmãos no momento as respostas foram unanimes em dizer que todos se dão muito bem, os irmãos conseguem fazer uma troca de aprendizados entre eles que pode levá-los a se amarem e/ou se odiarem, mas esta relação permanecerá. Aparece nessa situação entre os irmãos de forma bem clara o Holon fraterno, onde os irmãos formam o primeiro grupo de companheirismo. Dentro desse conjunto existe um apoio mútuo, eles se divertem; se atacam; se tomam de bode expiatório e comumente aprendem uns com os outros (MINUCHIN & FISHMAN, 1990).

Descrevendo aqui como é a formação dessas famílias e como se dá a relação entre eles, foi possível observar de um modo geral que as famílias são ligadas por crenças e valores vindos de outros tempos, mas quando alguma diferença aparece porque não seria possível indicar um sujeito com plena perfeição, todas as famílias de certa forma conseguiram se manter estáveis.

Minuchin (1982) mostra que a família apresenta três aspectos:

Primeiro, a família se transforma através do tempo, se adaptando e se reestruturando, de maneira a continuar funcionando [...]. Segundo, a família tem uma estrutura, que pode ser observada somente em movimento. São preferidos certos padrões, que são suficientes em resposta às exigências costumeiras [...]. E finalmente, uma família se adapta ao estresse de uma maneira que mantenha a continuidade familiar, embora tornando possível a reestruturação [...] (MINUCHIN, 1982, p.69).

Ficou visível que a formação familiar com um filho homossexual é igual às chamadas habituais, e a relação entre pais e filhos passa por um amadurecimento que a deixa mais coesa e com um sentimento de pertencimento mais forte, dando uma estabilidade para o sistema.

6.3 Pais e Filhos: Sentimentos e Reações

Falar da reação e dos sentimentos dos pais quando ficam sabendo da homossexualidade do filho (a) não deixa de trazer grandes emoções, Rosset (2003) já dizia que a partir do momento que os filhos nascem eles já estão sob a influência dos pensamentos, das emoções e dos sentimentos dos pais, quer seja consciente e também do que não se tem consciência. As famílias entrevistadas relatam como aconteceu a primeira reação quando ficaram sabendo da homossexualidade de seus filhos, observa-se que acontece primeiramente uma atitude de desconfiança, no sentido de que está acontecendo alguma coisa com meu filho (a) que não era planejado, e as reações podem ser de choro intenso, pode ser um choque, pode ser de culpa, mas pode acontecer de não demonstrar nenhuma reação, se pensar: “tudo bem se o filho é homossexual”, a vida continua.

Para Rosset (2003) há uma dificuldade dos pais de elaborar quando um filho não sai como o idealizado porque a maioria dos pais acredita que seus filhos devam sair àquilo que foi planejado como o filho perfeito.

Osorio (2011, p.23/24) aponta “que é a família o laboratório de experimentação e analise critica dessa nova moral sexual emergente”, vai ser necessário vivenciar as situações para saber como lidar com isso.

Segundo Satir (1980, p.154) “os seres humanos são limitados somente pela extensão de seus conhecimentos, dos modos de compreenderem a si mesmos e de sua habilidade de se ‘compararem’ a outros”.

E demonstrando também, que nem sempre as reações são temíveis a princípio, tivemos uma mãe dizendo que não teve nenhuma reação além da preocupação de seu filho se envolver com pessoas inadequadas, sendo de fato uma preocupação da maioria dos pais independente da opção sexual.

Rosset (2003, p.95) diz que “aceitar o filho tal qual ele é, é uma forma de aceitar e assumir as suas próprias competências e incompetências reais.” É exatamente isso que esta mãe proporcionou ao filho “eu te aceito”, “eu confio em você”, demonstrou com isso que acredita que cada um deve assumir as responsabilidades pelas suas escolhas, e ainda como forma de demonstrar que não ocorreu diferença de relacionamento entre mãe e filho, ela recebeu e acolheu o namorado do filho como se já fizesse parte da família.

Osorio (2002) afirma que as mudanças mais significativas no comportamento humano estão no seio da família e não fora dela, e isso é perceptível nos relatos desses pais quando não escondem seu espanto e surpresa sabendo da homossexualidade de um filho, cada uma delas do seu jeito conseguiu se adequar e amadurecer seus conhecimentos para manter a integridade da família.

Assim, de um modo geral pode-se confirmar que a reação e os sentimentos presentes nas falas da maioria dos entrevistados aconteceram de forma negativa num primeiro momento, e que é necessário um tempo para se elaborar essa diferença entre ser heterossexual e homossexual.

A homossexualidade é interpretada e explicada de diversas maneiras, e apesar de não se admitir abertamente a sua existência, também jamais se ignorou o fato. As pessoas entenderiam com mais naturalidade se tivessem um conhecimento mais amplo e mais aberto sobre a homossexualidade, e a aceitação de um filho (a) com essa opção sexual na sua família de origem tanto quanto na família estendida, não geraria nenhum tipo de sofrimento nem de constrangimento.

Para pais e filhos é preciso perceber que apesar de uma decepção inicial, existe amor entre eles, e que a tristeza pode ser uma preparação emocional; o início de um novo tipo de relacionamento, provavelmente, muito mais verdadeiro e amadurecido.

6.4 Pais Com Filhos Homossexuais: Percepções e Mudanças que Acontecem

A família pode ter dificuldades em proporcionar a um filho (a) homossexual uma sensação de acolhimento que convencionalmente essa instituição deveria gerar, pois são situações novas que precisam ser organizadas para um entendimento.

Foi possível observar que as famílias entrevistadas tiveram cautela e conseguiram se reorganizar, sabendo que alguns fatores diferentes iriam acontecer depois que souberam da homossexualidade do filho (a), quando do namoro ou casamento desse filho (a) não vai ser um casal chamado de convencional que irá participar dessa família e que a maioria dos colegas de seus filhos também será homossexual e que deverão acolhê-los pensando na felicidade desse filho (a). Percebeu-se que estes pais não chegaram ao extremo de rejeitar o filho (a), mas sim foi necessário um tempo para que tudo se colocasse em seu devido lugar.

Segundo Rogar e Bortoloti (2010), os meninos e meninas homossexuais falam que a notícia aos pais sobre sua opção sexual continua causar a dor da decepção, muitos tendem a falar primeiramente para mãe com medo de uma reação violenta do pai. Quanto ao falar primeiramente para a mãe percebeu-se nas entrevistas que isso é verdadeiro, visto que todos falaram primeiramente para a mãe, talvez até pelo fato das mães de modo geral conseguirem ter uma percepção mais aguçada em relação ao comportamento do filho e consequentemente já “desconfiar” de que algo está acontecendo. Com os pais, observou-se diversos acontecimentos como, por exemplo, o pai que não aceitou a homossexualidade da filha, o pai que faleceu antes de saber, o pai que ainda não sabe ou faz de conta que não e o pai que teve certa dificuldade de entendimento, mas que atualmente está tudo muito bem resolvido.

Algumas mães falaram de culpa por achar que poderiam ter falhado em algum momento da educação, mas não de decepção, talvez este sentimento tenha contribuído para que essas mães buscassem um melhor entendimento e esclarecimento sobre a opção sexual de seus filhos percebendo que não existem culpados.

Ainda, Rogar e Bortoloti (2012) falam de um estudo americano, conduzido pela Universidade Estadual de São Francisco, que a harmonia com os pais fazem com que estes jovens homossexuais sofram muito menos com depressão. Foi notório que esses pais fizeram com que seus filhos se sentissem acolhidos e em hipótese alguma rejeitados, não pode se negar que no primeiro momento houve uma dificuldade de elaboração do “ser homossexual”, mas após esse processo o acolhimento gerou um respeito entre pais e filhos, fazendo com que a vida dessas pessoas não se tornasse um sofrimento, mas uma convivência saudável e harmoniosa. Nas falas foi perceptível que nenhum desses filhos sofreu qualquer tipo de estresse, todos estão vivendo suas vidas, estudam, trabalham e se divertem como pessoas normais que são.

O processo de transformação nessas famílias é visível porque quando pais, mães e irmãos ficaram sabendo da homossexualidade de seu filho (a) e irmão (ã) é como se num primeiro momento não dariam conta em aceitar esse sujeito, percebe-se nas entrevistas que somente o tempo mostrou que é possível aceitar, e como foram as mudanças que a família teve que articular.

A trajetória em direção ao amadurecimento emocional pressupõe a paulatina aceitação das limitações humanas e a renúncia à fantasia de que somos o centro do universo. A maturidade da família alicerça-se em postulados similares, ou seja, a instituição familiar tende a evoluir para níveis mais satisfatórios de interação entre seus membros e para uma aproximação à sua destinação histórica [...] (OSORIO, 2011, p. 25).

E então como negar um filho (a)? Percebe-se nas falas que as mães fazem sua função materna, pegar no colo, dar aconchego, proteger, cuidar de seus filhos. Observa-se uma semelhança entre essas mães, é uma relação de amor e o filho (a) aqui já não é mais o “homossexual” ele é o “meu filho (a)” e sem dúvida as mães querem o melhor para eles.

Rosset (2003, p.90) diz: “a única receita que conheço para auxiliar a felicidade de um filho é ser um pai/mãe/pais felizes. Se os pais aprenderem a buscar sua felicidade, [...] os filhos inevitavelmente irão buscar a sua”. Então pode- se pensar que esses pais entrevistados sentem-se realizados, satisfeitos enquanto pessoas, pois falaram que o importante é os filhos estarem felizes.

O importante é que os pais que realmente amam seus filhos não os deixarão desamparados principalmente quando este vem lhe contar que é homossexual, apesar de ter que lidar com seus sentimentos e expectativas, alguns valores familiares precisam ser revistos, é uma teia de complexidade que precisa de tempo e entendimento para poder seguir em frente com aceitação e serenidade. É necessário ter calma, esse momento muitas vezes está tão confuso para os filhos (as) quanto para os pais, então seria melhor juntar forças para entender o que é passível de entendimento e deixar esse amor ultrapassar todas as dificuldades para viver harmoniosamente.

7. Conclusões

Considerando a complexidade das interações humanas que permeiam a relação pais e filhos, há de se pensar na dificuldade para um filho chegar para os pais e dizer que é homossexual. Uma mistura de medo e insegurança toma conta de si e uma expectativa se institui em querer saber qual a reação desses pais. É um momento de forte exposição e intensa fragilidade, um momento em que os filhos (as) mais precisam ter apoio, acolhimento, carinho e busca de explicações e esclarecimentos que embora tentem, talvez não conseguem se aprofundar.

O que se percebeu de modo geral é que a falta de “modelos” de famílias que tem um homossexual em seu meio deixa de certa forma uma ausência de credibilidade que a família será funcional. Se as famílias que conseguem conviver harmoniosamente com um homossexual pudessem expor para toda a sociedade como é esse funcionamento sem medo de serem repudiadas, muitas outras saberiam como lidar com isso, visto que, muitas pessoas vivem em função de modelos.

O que se observou no decorrer da pesquisa é que as famílias têm medo quando seus filhos (as) (homossexuais) saem de casa, pois sabem da existência do preconceito e da discriminação na sociedade, justamente nesta que deveria haver um mínimo de respeito e integridade, que deveria zelar pelos seus cidadãos, que deveria demonstrar que o homossexual é um ser humano assim como todos nós.

Outra percepção relevante desta pesquisa, fazendo-se uma contextualização das diferentes épocas em que as mães souberam da homossexualidade de seu filho (a), as reações foram similares. Pois aquela que soube há um ano, teve a mesma reação de choque de uma mãe que soube da homossexualidade de seu filho (a) há vinte anos. Percebe-se então que não aconteceu evolução temporal [3] (cronológica como psicológica) no que se refere à descoberta da homossexualidade do filho (a) pelos pais. Os meios de comunicação estão fazendo seu papel de divulgadores de informações, mas infelizmente ainda não descobriram uma forma mais clara, mais evidente de mostrar que serão necessárias algumas adaptações no meio familiar, mas dá para viver dignamente sem medo nem vergonha.

Percebeu-se ainda que o grau de escolaridade não influencia na reação dos pais, pois se pôde observar que: duas mães com mesmo grau de instrução (quarta série do ensino fundamental) tiveram reações totalmente distintas. Uma das mães com reação de muito choro, achando que sua falta de escolaridade não a deixava ter um entendimento melhor sobre a opção sexual do filho, enquanto que para outra não teve a menor diferença entre ser e não ser homossexual, o filho (a) continua o mesmo.

Concluiu-se com este trabalho, que é necessário buscar uma acomodação para pais e seus filhos (as) homossexuais. É possível viver em harmonia quando conseguem um entendimento daquilo que ainda é tido como tabu, é preciso que muito mais famílias percebam que a experiência de vida é a melhor fonte de informação, e que as transformações acontecem se o sujeito realmente deseja isso.

Sobre o Artigo:

Retirado do Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Psicologia. Trabalho apresentado para obtenção do título de Bacharel em Psicologia. (Texto na íntegra, entrar em contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..)

Sobre o Autor:

Solange Darui Cechinatto - Psicóloga pela Universidade Contestado, Pós Graduada em Saúde Mental pela Universidade Uniguaçu, Cursando Formação em Terapia Relacional Sistêmica pela RSR Curso de Terapia Relacional Sistêmica Ltda, e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Referências:

ANJOS, Gabriele dos. Identidade sexual e identidade de gênero: subversões e permanências. Disponível em <www.scielo.br/pdf/soc/n4/socn4a11.pdf>

AVALLONE, Rosangela. Uniões Homoafetivas - Algumas considerações acerca do tema. Disponível em <http://www.ebah.com.br/search?q=unioeste> Acesso em 18 jun.2012

BERTALANFFY, Ludwig Von. Teoria Geral dos Sistemas. Petrópolis: Vozes, 1973

BORGES, Maria Luisa Soares Ferreira. Função Materna e Função Paterna, suas Vivencias na Atualidade. Disponível em <www.anasuassuna.com.br/.../BebeDiagnosticoPreNataleParentalidade> acessado em 18 abr. 2012.

CAPRA, Fritjof. Teia da Vida. São Paulo: Cultrix, 1998. CARTER, Betty; McGOLDRICK, Monica & Col. As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar: uma estrutura para a terapia familiar. Porto Alegre: Artmed, 1995.

CERVENY, Ceneide Maria de Oliveira. A Familia como Modelo- Desconstruindo a patologia. São Paulo: Editorial PSY II, 1994.

CERVENY, Ceneide Maria de Oliveira org. Familia e ... São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.

CIGAGNA, Solange Hilsdorf de Lima. Homossexualidade. A Terapia de Vidas Passadas... explica?. 1ª edição - São Paulo: Editora Corps – 2003.

CROCHIK, José Leon. Preconceito, Individuo e Cultura. 3. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.

FAGUNDES, Tereza Cristina Pereira Carvalho. Sexualidade Gênero – Uma abordagem conceitual. Disponível em < http://estudosiat.sec.ba.gov.br/index.php/estudosiat/article/view/19/24> Acesso em 25 jun. 2012.

FURLANI, Jimane. Mitos e Tabus da Sexualidade Humana. 3. ed.-Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

GIL, Antonio Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002. GIORGIS, José Carlos Teixeira. A relação homoerótica e a partilha de bens.Curitiba: Juruá, 2001.

GROSSI, Miriam Pillar. Identidade de Gênero e Sexualidade. Disponivel em <MP Grossi - http://miriamgrossi.cfh.prof.ufsc.br> Acesso em 10 maio 2012.

YANAGUI, Viviane Brito. União Homossexual - Necessidade de Reconhecimento Legal das Relações Afetivas entre Pessoas do mesmo Sexo no Brasil. Disponível em www.senado.gov.br/sf/senado/.../UL_TF_DL_2005_Viviane_Brito.p... Acesso em 18 jun. 2012.

LAVINAS, Lena e NICOLL, Marcelo. Atividade e Vulnerabilidade: Quais os Arranjos Familiares em Risco? Disponível em <http://socialsciences.scielo.org> Acesso em 30 jan. 2012.

LOPES, Claudia S. e COUTINHO, Evandro S.F. Transtornos mentais como fatores de risco para o desenvolvimento de abuso/dependência de cocaína: estudo caso-controle. Disponível em<www.scielo.br/pdf/rsp/v33n5/0633.pdf.> Acesso em 10 dez. 2012.

MINUCHIN, Salvador & FISHMAN, H.Charles. Técnicas de Terapia Familiar. Porto Alegre: Artes Médicas 1990.

MINUCHN, Salvador. Famílias Funcionamento e Tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.

NICOLETTI, Maria Aparecida Quesada. Tempos Modernos. Psique Ciência & Vida, São Paulo: Ed.Escala, 2011.

OSORIO, Luiz Carlos. Casais e Famílias - uma visão contemporânea. Porto Alegre: Artmed, 2002.

OSORIO , Luiz Carlos; VALLE, Maria Elizabeth Pascual do e col. Manual de Terapia Famílias: volume II. Porto Alegre: Artmed, 2011.

ROGAR, Silvia e BORTOLOTI, Marcelo. A Geração Tolerância, Revista Veja Edição 2164, São Paulo: Editora Abril – 2010.

ROSSET, Solange Maria. Pais & Filhos: uma relação delicada. Curitiba, Pr:Ed.Sol, 2003.

SOUZA, Ivone M. C. Coelho de. Homossexualismo, uma instituição reconhecida em duas grandes civilizações. Curitiba: Juruá, 2001.

SATIR, Virginia. Terapia do Grupo Familiar. Rio de Janeiro, F.Alves 2ª Ed.1980.

WAGNER, Adriana (Coord.) Família em Cena: tramas, dramas e transformações. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

Curso online de

Sexualidade - Normal e Patológica

 Sexualidade - Normal e Patológica

Aprofunde seus conhecimentos e melhore seu currículo

Carga horária:  60 Horas