“Prazeres da Carne”: A Prática Sexual do Swing e a Conjugalidade Contemporânea

“Prazeres da Carne”: A Prática Sexual do Swing e a Conjugalidade Contemporânea
(Tempo de leitura: 18 - 36 minutos)

Resumo: O intuito da presente pesquisa é compreender as significações dadas a prática do swing por seus adeptos e como esta incide na conjugalidade contemporânea, levando em consideração os papéis sexuais desempenhados conforme gênero e orientação sexual de swingers residentes em Belo Horizonte e região metropolitana. Tal trabalho visa, também, refletir sobre as temáticas que se relacionam às experiências e à construção de subjetividades, bem como, o quanto estas dinâmicas são influenciadas, ou até que medida rompe, com o discurso moral e patologizante associado às práticas sexuais tidas como dissidentes. A metodologia proposta para sua execução é do tipo indutiva, trata-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo exploratória e se classifica como pesquisa etnográfica, quanto aos seus fins. Em relação aos instrumentos para coleta de dados foram utilizados a observação participante assistemática em duas casas temáticas na capital mineira e a entrevista em profundidade, aplicada individualmente com quatro casais (quatro homens e quatro mulheres) que praticam o swing em Belo Horizonte e/ou região metropolitana. Para a análise de dados, foi empregada a análise arqueológica do discurso de Michel Foucault. A partir da análise dos resultados, percebeu-se que é atribuído ao swing valor de liberdade e que dentro da contratação amorosa dos casais participantes, a prática sexual contribui para o fomento da conjugalidade dos mesmos.​

Palavras-chave: Sexualidade. Práticas sexuais. Conjugalidade. Swing​.

1. Introdução

As relações afetivo-sexuais são constantemente recriadas. A elas são concebidas normas próprias. O sexo ganha outras perspectivas dentro da família tradicionalista e no contexto conjugal, anteriormente embasado na justificativa de procriação. A sexualidade outrora restrita, começava a flexibilizar-se e a confrontar valores trazidos socialmente provenientes da honradez, da retidão e salvação religiosa: a virgindade, o corpo, a monogamia e o sexo começam a desligfr-se do discurso conservador e a ganhar outras possibilidades e significações. Dentre as práticas sexuais propagadas socialmente na atualidade, emerge o objeto de estudo desta pesquisa, o swing, termo provindo da língua inglesa que remete a atos como balançar ou mover-se livremente (SILVEIRA, 2014). 

Diante de uma moral sociorreligiosa, da efemeridade, do desejo e do prazer- Quais seriam as significações afetivo-sexuais dadas pelos adeptos do swing à sua prática? Encontrariam esses praticantes, no swing a realização de fetiches e vivências sexuais? A satisfação de prazeres e da excitação, bem como a ampliação e variação de experiências? Existiria nesse contexto uma lógica de pertença grupal que, de alguma forma, ampliaria o ciclo e as redes de identificação e desidentificação dos participantes? Seria a curiosidade um dos elementos de busca por essa prática, acabando ela por melhorar a qualidade da vida conjugal e sexual do casal, elevando a autoestima dos participantes e trazendo elementos indicativos de maior liberdade sexual, rompendo com discursos morais próprios da monogamia compulsória? 

Desta forma, o presente trabalho busca compreender o sentido afetivo-sexual atribuído às relações contemporâneas provenientes do swing. De maneira a identificar, como se configura o perfil dos adeptos à prática; descrever como se dá o processo de subjetivação em torno da prática sexual e como tal incide na conjugalidade contemporânea, bem como, analisar como as questões de gênero são apresentadas no contexto swinger. A fim de refletir como a sexualidade mineira têm se apresentado diante de aspectos tradicionalistas, patológicos, conservadoristas e/ou religiosos. Tendo em vista os diferentes e divergentes discursos de controle social, negação, exclusão da diversidade sexual, a proibição do desejo, do pensamento envolto a sexualidade, o abuso de poder e do conceito de anormalidade, desenvolvidos e perpetuados socialmente, se assenta a necessidade deste estudo, pois segundo Silvério (2014a, p.2) “o swing possibilita a reflexão de valores, comportamentos e modelos conjugais, sexuais e de gênero, predominantes há séculos, mas, atualmente em crise profunda”. Já para Vasconcelos (2015) no fim, dentro do swing tudo leva ao sexo, no entanto, não somente a relação sexual em si. O autor, afirma que essa relação se configura articulada a variados roteiros sexuais que envolvem entre si aspectos externos (culturais), internos e intrapsíquicos, ou seja, fantasias individuais e coletivas.

A propagação de estudos referentes à sexualidade é de suma importância por estar intimamente relacionada às normas de interação social que dizem dos valores, ideais, costumes, regras, pertencimento e estilo de vida dos sujeitos, como bem expressa Louro (1999) quando diz que a compreensão da sexualidade não é apenas uma questão pessoal, mas social e política; a sexualidade não é apenas “aprendida”, mas construída ao longo da existência humana, de diversificados modos, por todos os sujeitos. 

Segundo Foucault (1988) a sexualidade é um “dispositivo histórico”. Louro (1999) elucida este dispositivo histórico, como uma invenção social fundamentada historicamente por diferenciados discursos que regulam, normatizam, constroem saberes e produzem verdades. Vasconcelos (2015) confirma que existem poucos trabalhos e estudos a respeito do swing no Brasil, levando em consideração o numeroso quantitativo de adeptos no país. 

Conhecer a forma como determinada população se relaciona é um ponto considerável dentro da práxis da psicologia, como também das ciências, contribuindo assim para o questionamento de discursos morais e patologizantes. Silvério (2014a) enfatiza que falar sobre swing, não é falar de promiscuidade, segundo a antropóloga, o swing possibilita uma série de reflexões sobre valores, gênero, amor e casamento que estão presentes na sociedade contemporânea. 

A presente pesquisa se classifica em qualitativa exploratória e utiliza para a coleta de dados entrevistas em profundidade, aplicadas de maneira individual com 04 (quatro) casais adeptos dessa prática. A pesquisa de campo, ocorreu em 2 (duas) casas de swing, da região metropolitana de Belo Horizonte/MG observações foram registradas por meio do diário de campo. O estudo assume um formato etnográfico e conta para a análise de dados, com a análise arqueológica do discurso proposta por Michel Foucault.

2. Desenvolvimento

2.1 Do Sagrado ao Profano: a Sexualidade e o Universo Swing 

Desde o início das civilizações, a sexualidade foi considerada um tabu, sendo tratada por meio de inúmeros preceitos morais sustentados socialmente. Isso não se difere dos dias atuais, em que diferentes discursos perpassam pelos mais diversos âmbitos e acabam por sustentar a forma conservadora com que se é tratada a sexualidade. Sejam estes fatores: econômicos, jurídicos, religiosos, patológicos ou culturais. O “prazer da carne” encontra-se imerso em construções sócio-históricas, embasadas em dizeres de aversão ao sexo como finalidade de desejo e prazer. Segundo Fontoura Júnior (2015, p.147) “o desejo sexual deveria ser exilado, catalogado e confinado para um adequado funcionamento da sociedade”. 

A história Ocidental durante muitos anos atribui ao desejo sexual o poder de encaminhar as pessoas ao inferno, transformá-las em seres obcecados, conduzir homens ao sacrilégio, influenciar de maneira patológica à saúde e desviar culturas. Assumiu diferentes denominações: luxúria, pecado, tentação, heresia - o desejo erótico foi concebido, principalmente pelo Cristianismo como um demônio interno, que deveria ser exorcizado, doutrinado e regrado, a fim de não destruir a existência do indivíduo pecante (FONTOURA JÚNIOR, 2015). 

Neste sentido, as noções acerca da sexualidade e das práticas sexuais estão acrescidas ora de valores tradicionais e/ repressores, ora de manifestações reais libertárias. A sexualidade compreende um conjunto de experiências, vivências e reflexões envoltas de significações e intencionalidades sexuais, já que se apresenta sob inúmeras formas, não se restringindo a genitálias ou na cópula em si (CHAUÍ, 1984). O swing, apesar de apresentar vivências diversas, é, como outras práticas, concebido como fruto de sexualidade denominada dissidente, contornada de estigmas sociais, que transferem à prática sexual caráter de anormalidade (CARVALHO; VASCONCELOS, 2013). 

Dentro dos espaços e casas temáticas, o swing é denominado como uma prática sexual voltada a casais heterossexuais, visto que a homossexualidade masculina configura um grandioso tabu no meio swinger, a feminina nem sempre é reconhecida como orientação pelas mulheres participantes. Para os praticantes, se faz extremamente importante a separação entre sexo e amor (SILVÉRIO, 2014b). Assim, o swing seria uma oposição à moral monogâmica imposta a maioria dos relacionamentos ocidentais, de modo a desafiar convicções em voltas a sexualidade, o amor e a fidelidade. Um abrandamento da moral burguesa, não ultrapassando a efemeridade e sigilo das casas temáticas (OLIVEIRA; POCAHY, 2015). Para além da troca de casais e o sexo a três, existem diversas práticas inseridas no universo swinger como: voyeurismo, sadomasoquismo, exibicionismo e o sexo grupal.

Os adeptos do swing são pessoas que anseiam pela preservação de suas identidades e pelo anonimato fora do meio, através do uso de nicks, de apelidos e do completo sigilo a respeito de suas práticas dissidentes (WEID, 2012). A comunidade swinger é portadora de um alto nível de instrução e base salarial elevada, ocupa posições profissionais estáveis e/ou cargos de gerência e confiança, parte dos praticantes é casada, brancos e possuem filhos. A faixa etária é variante, mas em média as mulheres adeptas e constantes à prática apresentam idade acima dos 30 e homens acima dos 35 anos (SILVÉRIO, 2014b). Não existe um marco preciso da origem do swing. A versão mais difundida associa a prática aos keyclubs (clubes da chave), encontros realizados na década de 1950, por casais militares da Califórnia, empilhavam-se chaves de carros para que as esposas aleatoriamente escolhessem uma, a chave escolhida daria respectivamente um parceiro sexual a mulher- o dono da chave. Tais festas ficaram popularmente reconhecidas como wife swapping – (troca de esposas) (SILVÉRIO, 2014a). Diante diferenciadas versões do surgimento do swing, existe a alternativa que na década de 1970, nos Estados Unidos, um pastor havia declarado a seus congregados que muita gente se balançava na cama como macacos em galhos (swinging) designando assim, um nome a prática (SILVEIRA, 2014). 

Outra versão seria o surgimento do swing, durante a 2a Guerra Mundial, onde após elevadas taxas de mortalidade masculina e grande aproximação de vínculos femininos. Ficaria o militar sobrevivente responsável emocional e sexualmente, pela esposa do oficial morto. No Brasil, destaca-se a presença da prática desde o período colonial, com consideráveis índices no final dos anos 1960 e início dos anos 1980 (SILVÉRIO, 2014a). Outras versões circundam o movimento hippie e feminista devido à liberdade sexual feminina; culturas como a do Alasca, ao verem a troca de casal como uma estratégia de sobrevivência e perpetuação da espécie; como também as celebrações ritualísticas e orgias da antiga Roma e Grécia. Atualmente, o meio swinger conta com um crescente número de adeptos, contínuos investimentos em bares e casas temáticas, como também comunidades, redes sociais e aplicativos específicos para a manutenção e introdução de curiosos à prática (SILVEIRA, 2014).

Apesar das metodologias de divulgação e acesso, a vivência dessa prática ainda se encontra altamente estigmatizada. Os swingers são percebidos não somente como “desviantes específicos”, mas como “desviantes gerais”, ou seja, para além do swing são considerados “desviantes” da vida, de regras, de morais e de condutas (JENKS, 1985). 

2.2 Vivências e Subjetividades na Prática Sexual e Conjugal do Swing 

O swing é demarcado por um meio peculiar, característico de seus praticantes, voltado para os atos e práticas sexuais; sem consequências desagradáveis, cercado apenas pelo desejo erótico e pelo companheirismo e cumplicidade do cônjuge; em que não haveria obstáculos, fracassos, impedimentos. Um mundo prodigioso a estes cônjuges, em que a sexualidade, exercida de forma livre, consolidaria o vínculo conjugal (FONTOURA JÚNIOR, 2015). Sendo assim, uma negociação e um diálogo constante, são necessários para o estabelecimento de confiança, cumplicidade e respeito mútuos. (SILVÉRIO, 2014a). 

Não somente casais em sintonia procuram o meio swinger para satisfazer suas fantasias e apimentar a relação. Talvez, pelo fato da prática do swing ser um campo alternativo na contemporaneidade em relação às práticas sexuais, muitos casais em crise e no anseio de salvar seus casamentos, acionam tal como subterfúgio, a fim de desconstruir algo desarmonioso em suas relações, apresentando outras perspectivas a vida conjugal. No entanto, conforme expressa Silvério (2014a) o swing não é aconselhável a casais em crise ou com problemas conjugais, pois nestes casos uma piora pode acometer a relação e tornar o parceiro insuportável. Em muitas sociedades o swing é visto como um estilo e/ou filosofia de vida, configurando um modo de ser e estar no mundo. Muitos casais frequentam casas apenas com o intuito de conhecer pessoas novas, para partilha de experiências desafiantes da moral sociorreligiosa expressa. Outros, como uma possibilidade de pertencimento de grupo, a fim de compartilhar prazeres, desejos, excitações, bem como amizades, bebidas e/ou lugares voluptuosos. De modo a agregar a vida afetiva, sexual e pessoal.

Segundo Farias (2012), a oportunidade de uma vida desviante que foge às normas sociais, o aumento da autoestima, de sentir-se atraente e desejado, consiste em algumas das razões pelas quais casais praticam o swing. A prática sexual do swing difere-se das relações abertas e do poliamor. No poliamor, os envolvidos são livres para amar e se envolver afetivo-sexualmente com quem quiser, configurando diferentes formatos de relacionamentos (trisal, formato em V, T, N, quarteto). Em um relacionamento swinger, o envolvimento afetivo se dá apenas entre os cônjuges, ou seja, se ama apenas uma pessoa, já o sexo, pode ser realizado com um/a terceiro/a ou um casal com a participação e consentimento de ambos os cônjuges. O poliamor, segundo Freire (2013) é um movimento não-monogâmico, onde as pessoas consideram possível relacionar-se de maneira afetiva, sexual e consentida, com mais de um parceiro ao mesmo tempo, no entanto, o termo pode possuir diferenciadas definições de adepto para adepto. No poliamor, ocorrem variações de formatos afetivo-sexuais; três ou mais pessoas se relacionando entre si, de maneira direta e/ou indireta, individual ou coletivo; há manutenção de vínculo afetivo e consentimento dos envolvidos. Infidelidade é quando uma relação acontece escondido sem o consentimento do/a parceiro/a (SILVEIRA, 2014). Apesar de evocar a ideia de liberdade sexual, o swing possui regras. Tudo é permitido se assim a pessoa e o parceiro consentir. Concretiza-se a busca e o encontro por sexo, como também se faz marcante a dissociação afetiva no meio, não há envolvimento sentimental e qualquer atitude que assim possa ser considerada como envolvimento afetivo é dado como problema ao âmbito swinger (FARIAS, 2012).

Segundo Vasconcelos (2015) o foco da interação swing é o sexo, um sexo performático, próximo ao sexo visualizado em filmes pornográficos nem sempre presente na relação sexual em si. Ainda de acordo com o autor, existe no swing grande ênfase no corpóreo, a maneira a qual o corpo é visto serve como fonte de sedução, ele ou suas partes realizam um serviço de cartão de visitas, consequentemente, de boas-vindas. Tais corpos são tradutores de sedução e segredo comumente estabelecido por parâmetros físicos e de beleza, divulgados principalmente por meio de vídeos e fotos em redes sociais específicas swinger. Os swingers, segundo Teixeira (2015) não são pessoas pervertidas, mas também não são retrógradas; não são possessivos, mas nem por isso, são infiéis; criticam a monogamia mas vivenciam um relacionamento monogâmico; são livres e ao mesmo tempo leais e fiéis aos códigos estabelecidos, ou, ao menos, socialmente adaptados. A autora expressa também que para além de exceções, existe no swing uma concordância e reforço de aspectos criticados pela prática, como o que diz respeito ao casamento heterossexual e monogâmico e as relações de gênero. 

2.3 Um Recorte de Gênero Sobre a Conjugalidade Swinger 

“Só existe swing se tiver mulher. Sem a figura feminina não há swing, porque não há troca” (VIEIRA, 2013, p.17) O swing demarca uma série de experimentações sexuais que possibilita a mulher vivenciar práticas não propiciadas no contexto social tradicional. Neste âmbito, a reputação maternal e moralista em torno das mulheres é descartada, passam elas a desfrutar da permissividade dada constantemente ao sexo masculino. No conservadorismo, o homem e/ou marido é o principal interessado em uma “mulher pura e respeitável”, no swing ele é o principal promovedor e cúmplice de sua companheira na satisfação de seus desejos. Incentivar a mulher pela busca das suas fantasias sexuais torna o homem, em grande parte dos casos, filiados a elas (SILVÉRIO, 2014b). 

Apesar do lema “onde tudo é permitido e nada é obrigatório”, o swing pode ser visto como um universo cercado de incoerências e contradições para aqueles homens e mulheres dispostos a adotar uma filosofia de vida mais hedônica. Neste âmbito, homens ainda precisam reafirmar um suposto papel social masculino interligado a uma figura “macho alfa”, para a manutenção da heterossexualidade masculina. Já a mulher é envolvida em uma trama de possibilidades homossexuais desconsideradas com frequência diante da identidade sexual (SILVÉRIO, 2014a). Existe um ideal advindo do ser mulher, uma performance chamativa, de grande disponibilidade sexual e exibição do corpo. Já ao homem não existe tanta preocupação com o corpóreo, a eles é esperado comportamentos em um primeiro momento, discrição e contenção (SILVEIRA, 2014). 

A divulgação e propaganda das casas propagam o corpo feminino. Os altos valores de ingressos criam um obstáculo para a entrada e participação do público masculino em casas e bares temáticos swingers. As mulheres solteiras pagam um valor simbólico, os casais um valor mediano- em comparação aos solteiros. O homem solteiro compõe um grupo em geral não tão procurado e/ou almejado nas casas de swing. O solteiro é restrito desde instrumentos publicitários, perpassando a esfera econômica, social e de gênero. O mesmo não acontece com o público feminino, elas são um público bastante cobiçado pelos frequentadores (VASCONCELOS, 2015). Tanto as trocas quanto outras experiências descritas mudam de acordo com a utilização dos espaços do clube. Estas podem ser realizadas em quartos separados, nos lugares de comum acesso ou mesmo diante do público. 

3. Procedimentos Metodológicos 

A pesquisa em questão consiste em uma pesquisa exploratória, etnográfica e de caráter qualitativo. A Etnografia, “consiste na aceitação incondicional da realidade tal como ela aparece”, é uma imersão completa, um aprofundamento real, onde se deve compreender uma sociedade, através de suas significações expressas por meio de comportamentos (LAPLANTINE, 2004, p.87). Para discorrer sobre a relevância do tema foram realizados levantamentos bibliográficos em fontes secundárias por meio de pesquisas bibliográficas de artigos científicos datados entre os anos 2012 e 2017, selecionados em bases de dados eletrônicos como SCIELO, PePSIC, LILACS e outros, a serem delimitados pelas palavras- chave: sexualidade, práticas sexuais, conjugalidade e swing. Mídias virtuais, redes sociais e aplicativos vinculados ao swing, como o CR (Casal Real), D4Swing, Sexlog e PitangaClub também foram utilizadas como fonte de coleta de dados a fim de compreender a sua relevância em relação a procura e propagação da prática. 

Neste sentido, o trabalho procurou compreender as significações afetivo-sexuais dadas pelos adeptos do swing à sua prática e de como as relações conjugais e contemporâneas são impactadas por esta vivência dissidente e pelas questões de gênero apresentadas neste contexto. Dessa forma, a pesquisa foi realizada mediante uma pesquisa de campo em duas casas de swing na região de Belo Horizonte/MG, devido a acessibilidade, como também por configurarem os âmbitos mais frequentados pelos adeptos à prática na região mineira.

O trabalho de campo se deu ao longo de 4 visitas, entre os meses de outubro e novembro do corrente ano, incluiu a observação assistemática incluiu a observação das práticas e espaços coletivos das casas, para a elaboração do diário de campo. As entrevistas em profundidade foram aplicadas individualmente com quatro casais swingers (quatro homens e quatro mulheres) pré-selecionados conforme o critério “bola de neve” – Snowball sampling, que como colocam Badin e Munhoz (2011), a técnica Bola de Neve é uma forma de amostra não probabilística, aplicada em populações, grupos ou subculturas de difícil acesso, bastante utilizada em pesquisas sociais onde os participantes, apontam outros participantes sucessivamente, até que a finalidade da pesquisa seja alcançada. As entrevistas realizadas foram em profundidade a fim de obter realidades sociais e contribuir com o aprimoramento de informações nesta área. Seguiram um roteiro semiestruturado construído pela pesquisadora composto por perguntas abertas, voltadas para o perfil, vivências e ideais dos praticantes acerca da relação swinger, no intuito de responder à questão norteadora desta pesquisa, com aplicação prevista de uma hora e meia. 

O público selecionado para as entrevistas foi composto por casais heterossexuais, monogâmicos e poligâmicos, adeptos ao swing, a mais de um ano de prática e casados. Foram identificados por nomes fictícios, escolhidos aleatoriamente a fim de preservar a identidade dos entrevistados e o sigilo do perfil utilizado pelos adeptos na prática. Apresentam idade variante de 23 a 59 anos, conforme se pode observar no Quadro 1. Todos os praticantes são residentes em Belo Horizonte e região metropolitana e foram esclarecidos sobre os propósitos desta pesquisa e o caráter sigiloso de suas informações pessoais, como também, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e ao Termo de autorização para gravação. Após gravadas as entrevistas foram transcritas na íntegra para a análise dos dados.  

QUADRO 1. Descrição socioeconômica dos participantes

CASAIS

NOME

DESCRIÇÃO SOCIOECONÔMICA

 

Paulo e Paula

Paulo

Homem, heterossexual, 47 anos, não possui religião, ensino médio completo, representante comercial, renda mensal R$3.600,00 reais.

 

Monogâmicos, casados há 24 anos, adeptos ao swing há 5 anos, possuem 2 filhos.

 

Paula

Mulher, heterossexual, não possui religião, superior completo, professora, sem renda fixa.

 

Rafael e Rafaela

Rafael

Homem, heterossexual, 59 anos, católico, ensino médio completo, comerciante, renda mensal R$5.000,00 reais.

 

Monogâmicos, casados há 7 anos, adeptos ao swing há 4 anos, não possuem filhos.

 

Rafaela

Mulher, bissexual, 31 anos, católica, ensino médio completo, comerciante, renda mensal R$5.000, 00 reais.

 

Renato e Renata

Renato

Homem, heterossexual, 23 anos, ateu, ensino médio completo, assistente administrativo, renda mensal R$ 1.500,00.

 

Poligâmicos, casados há 3 anos, adeptos ao swing há 2 anos, não possuem filhos.

 

Renata

Mulher, bissexual, 23 anos, agnóstica, superior incompleto, professora de inglês, renda mensal R$3.000, 00 reais.

 

Márcio e Márcia

Márcio

Homem, heterossexual, 30 anos, católico, superior completo, policial militar, renda mensal de R$5.000, 00 reais.

 

Monogâmicos, casados há 7 anos, adeptos ao swing 2 anos e meio, possuem 1 filho.

 

Márcia

Mulher, bissexual, 29 anos, católica, superior incompleto, guarda municipal, renda mensal de R$ 2.300,00 reais.

 

FONTE: Elaborado pela pesquisadora.

Para a análise de dados utilizou-se da análise arqueológica do discurso, que segundo Fernandes (2008) se caracteriza pela análise da fala em contexto, ajudando compreender como as pessoas pensam e agem no mundo concreto. Assim o enunciador é um ser discursivo, cujo contexto pessoal, histórico e social é ideologicamente frisado. Nesse processo, foram construídos três enunciados para a discussão dos dados identificados na leitura das interlocuções: 1) Não se nasce swinger, torna-se um- a trajetória feminina e masculina no swing; o estilo de vida e a pertença grupal; 2) O sigilo versus a liberdade sexual e 3) Confiabilidade, fidelidade e cumplicidade na conjugalidade swinger. 

4. Discussão dos Resultados 

A análise do discurso desse artigo contou com três enunciados. O primeiro dedica-se a descrever o estilo de vida swinger, considerando como se configura o processo de introdução e das vivências na prática sexual, ressaltando as questões de gênero e contextualizações emersas no swing constituinte da pertença grupal. O segundo enunciado discorre sobre os enfrentamentos inerentes da prática liberal provenientes das normas sociais estigmatizantes da sexualidade dissidente e o terceiro enunciado exprime sobre os aspectos do swing que agregam valor a conjugalidade dos seus adeptos. 

4.1 Não se Nasce Swinger, Torna-se Um - A Trajetória Feminina e masculina no Swing; O Estilo de Vida e a Pertença Grupal 

Como o próprio enunciado menciona ninguém nasce swinger. Isso se torna mais evidente, quando enfatizado o contexto social do público alvo dessa pesquisa- o povo mineiro; arraigado em princípios de religiosidade, tradicionalismo e conservadorismo. Todos os participantes dessa pesquisa tornaram-se um swinger, ora munidos por uma curiosidade ora dotados de um desejo contrário a moral social vigente da monogamia compulsória. Ao longo das entrevistas, foi constatado que a maioria dos participantes vieram tomar conhecimento sobre o swing por intermédio de alguma mídia de conotação restrita ou pornográfica, por auxílio de propagandas via internet de comunidades e/ou casas temáticas, bem como, por programas TV ou aplicativos de telefonia móvel; desencadeando buscas complementares posteriores sobre a prática sexual. 

Grande parte dos adeptos apontou que o motivo desencadeante pela busca e permanência no swing se dá pela curiosidade, liberdade e possibilidades ofertadas pelo meio; pelas descobertas de relacionamentos que cessam os ideais afetivos-sexuais impostos e criam oportunidades de um maior conhecimento, sobre si, seu parceiro (a) e experiências contrárias ao até então associado como sagrado, normal, correto e moral. Segundo Foucault (2008) as regras, apresentam-se como um jogo desencadeante de objetos; objetos que segundo ele são recortados da discriminação e da repressão, que se diferenciam da prática cotidiana, das legislações, da moral religiosa e do discurso médico/ patologizante. Dos entrevistados apenas dois participantes obtinham alguma experiência na prática sexual precedente ao seu atual relacionamento, sendo estas advindas de relacionamentos anteriores ou por meio da mediação de amigos e/ ou contratação de garotas de programa.

Quanto aos interesses pelo universo swinger com o atual parceiro (a), ambos os sexos dentre os entrevistados, apresentaram-se atuantes na mediação de remeter ao companheiro o desejo de procura à prática sexual. As reações advindas deste interesse apresentaram diversificadas manifestações, notórias nos discursos: 

A reação dela foi super positiva, na verdade, eu estava descobrindo o tesão no swing e descobrindo, paralelamente e simultaneamente que ela também tinha o mesmo fetiche (Paulo, 2017). 
No começo foi muito difícil [...] minha reação foi muito assustada; muito conturbada, eu achei que ele não me amava, que eu não satisfazia ele, achei que ele queria outras mulheres (Rafaela, 2017). ]

A introdução à vivência swinger da maioria dos casais entrevistados, ocorreu nas casas de swing de Belo Horizonte. Os participantes relataram que não apresentaram dificuldades para serem introduzidos à prática, no entanto, o primeiro momento no âmbito liberal, desencadeou nos iniciantes, um misto de sensações ora de susto, ora de apreensão, ora de receio e ora de vergonha, ora de liberdade, diversão, excitação e prazer. Entre as práticas sexuais experimentadas pelos cônjuges foram ressaltados o ménage à tróis, a troca de casais e o sexo no mesmo ambiente com troca de carícias e sexo oral, sem penetração. Por ser uma prática abrangente de outras práticas sexuais, notou-se durante as entrevistas que os swingers quando indagados sobre serem adeptos a outras práticas sexuais apresentaram uma associação do swing a práticas como: o voyeur, o exibicionismo, o sexo grupal e o ménage, expressando um distanciamento apenas do bi masculino e do sadomasoquismo. Essa repulsa ao bi masculino justifica-se ao longo do trabalho, devido a forte figura do “homem-alpha”, ou seja, um homem viril, másculo e ligado altamente à performance e desempenho sexual. Existe na prática, conforme trazido ao longo da pesquisa e observado durante visitações às casas temáticas, uma forte questão de gênero, bem como, uma apreciação do corpo físico, perceptível neste relato: 

Ser homem e mulher dentro do universo swinger é uma coisa muito clara [...] a relação swinger é assim, cada pessoa tem um papel, a mulher; ela sempre tem o papel de chegar na outra mulher e tentar convencer o casal [...] tem muito dessa questão da esposa troféu, então minha esposa é gostosa e vai conseguir arrumar para eu ficar com aquela mulher [...] assim a esposa tem esse papel de fazer a mediação [...] o papel dos homens é meio que fazer um de durão, responsável, bonzinho e tal e muitas vezes de ser uma cara melhor que ele é, o cara num é nada na vida, mas ele precisa pagar de rico, gostoso, intelectual e tudo só pra fingir e ficar de durão [...] Existe uma pressão muito grande na mulher para ela ter que fazer alguma coisa; fazer e acontecer [...] tem muito essa pressão, ela precisa ser bissexual, ela precisa estar sempre depilada e ela precisa chegar na outra mulher e no casal e tal (Renata, 2017). 

 A mulher é convidada a vivenciar uma série de experiências sexuais, deslocando sua orientação dentro da prática à bissexualidade. Há um incentivo por diferentes facetas conforme constatado; pelas casas de swing, nas divulgações de propagandas e noites específicas voltadas ao bi feminino e sociais, por um considerável ideal de fetichização masculina. O mesmo não acontece com o homem, que apesar de ter acesso às vivências bissexuais, precisa velá-la. Dos entrevistados dois homens se mostraram abertos à introdução de um solteiro à relação, sendo que apenas um permitiria que o mesmo interagisse com ele de maneira ativa. 

Quanto à participação em redes sociais, aplicativos e comunidades destinados à prática do swing, todos os casais disseram integrar ou já ter integrado perfis on line vinculados à prática como Sexlog, Tinder, Facebook, WhatSapp, Feeld e o Capital Real Swingers (CRS). Durante a pesquisa do meio swinger, foram acompanhados aplicativos não trazidos pelos casais entrevistados, como o Casal Real (CR), o D4Swing e o PitangaClub, a fim de compreender quais eram os perfis e objetivos traçados pelos adeptos nas redes sociais.  Esta análise nos permite ressaltar que um número significativo de iniciantes busca as redes sociais, para estabelecer contatos, aprender e se envolver com a realidade do swing. Motivo o qual, casais não-iniciantes já não as sustentam este uso, justificando a ausência destes aplicativos devido já terem uma lista de contatos mais abrangentes, grupos de amigos formalizados/ selecionados e uma participação mais ativa no meio, como em festas, casas e resenhas particulares. No decorrer dos relatos foi constatado um grau de pertença dos swingers ao estilo de vida liberal, para além da diversão, da novidade e da fantasia. Existe na prática sexual a formação de identificação, reconhecimento e o pertencimento grupal; há o compartilhamento de um segredo, de codificações, regras e modos; o estabelecimento de vínculos de amizade e ideias afins, como é possível perceber nos relatos: 

[...] Esse estilo de vida possibilita pra gente poder conhecer novos mundos, novas pessoas, curtir [...] Hoje o swing é 100% das minhas amizades; são swingers, amigas de verdade, então assim, representa também nosso meio social hoje (Renata, 2017). 
A gente frequentava casa de swing em Belo Horizonte toda semana praticamente e ia a resenhas não com muita frequência. As nossas resenhas eram mais com amigos, que a gente fez nas casas de swing [...] essas resenhas não tinham muito envolvimento sexual, era mais bate papo, tomar uma cerveja, conversar, a gente fez muitos bons amigos (Rafael, 2017).

Foi percebido nas visitações às casas de swing, bem como, no discurso dos entrevistados quando questionados sobre a regra mais significativa no meio swinger, uma notória presença do sentimento de respeito. Algo que vem reforçar a expressão swinger “tudo é permitido, nada é obrigatório”. O ambiente convencionalmente visto como bacanal, promíscuo e séptico, é inexiste diante a ausência deste valor, de um código rígido e tácito da prática liberal, muitas vezes quimérico em ambientes tidos como morais e tradicionais, como é possível perceber no relato: 

A regra principal no meio swinger, em resenhas e até mesmo casas de swing mesmo é o respeito, é a regra principal. O que é o respeito - você saber até onde vai dependendo da pessoa, da receptividade da pessoa - você precisa diferenciar as pessoas - eu tenho que respeitar os pontos peculiares das pessoas, para agir e reagir com elas, essa é a regra principal (Paulo, 2017). 

Esse enunciado assegura o convite de Foucault (2008) de através das análises dos discursos repensar de uma forma diferenciada, tudo o que nos é posto como evidente. Confrontar a nós, a nossa vida e a nossa história do que supostamente somos, o que normativamente nos constitui, ou seja, mostrar, trazer à tona, em sua essência os acontecimentos, tornando-o livre para vir a ser, nele e fora dele, nos jogos das relações. Para Foucault (2008, pág. 85) “Atrás do sistema acabado, o que a análise das formações descobre não é a própria vida em efervescência, a vida ainda não capturada, mas sim uma espessura imensa de sistematicidades, um conjunto cerrado de relações múltiplas”. 

4.2 O Sigilo Versus a Liberdade Sexual 

Ao serem questionados como é conviver sendo um swinger no contexto social, todos os entrevistados apresentaram, ora ou outra um discurso temeroso, diante as diferentes vivências ofertadas na prática sexual do swing. Apresenta-se um misto de prazer e de liberdade, existe a manifestação latente do desejo e do medo. Apreensão esta, de vir à tona a descoberta da faceta swingueira por sua rede de vínculos pessoais, familiares e sociais. Como foi destacado em na narrativa: 

Eu tenho muito medo, muito medo mesmo, na verdade eu fico até mais assim. Mais é ele que realmente aparece [...] eu tenho um trauma, porque esse negócio, todo mundo pratica, mas quando você é descoberto fazendo, é outra história, totalmente diferente (Paula, 2017). ​

Conforme já trazido, ao longo do trabalho, apesar de na atualidade o swing ser uma prática sexual, mais divulgada pelos meios de comunicação, mais acessível de informações e de interação por diferentes públicos, ainda assim, ela enfrenta resistências, diante uma sexualidade normatizada, embasada em discursos religiosos, jurídicos e médicos mantida em nosso contexto social. Para Foucault (2008, pág.50) “Não se pode falar de qualquer coisa em qualquer época, não é fácil dizer alguma coisa nova, não basta abrir os olhos, prestar atenção, ou tomar consciência, para que objetos logo se iluminem.”.

Ser um swinger e viver uma prática liberal está muitas vezes ligado à ideia de desvio sexual, o que desperta um forte sentimento de inadequação destes participantes ante as suas relações sociais, especificamente sobre a família. Existe um medo de vivenciar a sexualidade erótica diante o sistema cultural judaico-cristão, ou seja, perante os padrões sociorreligiosos aceitos, o que justifica parte do receio e da busca incessante por anonimato e por sigilo dos adeptos. 

Eu tenho uma família extremamente cristã [...] isso aí é muito doloroso porque parece que você está escondendo quem de fato você é o tempo todo e realmente é assim, querendo ou não é isso, se meus pais descobrissem isso, eu sinto que eles nem iam falar comigo mais, complicado [...] Quando eu cheguei na casa não tive nenhuma resistência [...] voltando para casa, acho que isso se deve pelo fato da minha família ser muito cristã e tal, eu me senti muito culpada, eu tomei um banho de tipo assim, umas 3 (três) horas, me sentindo suja, me sentindo muito mal (Renata, 2017). 

Essa concepção é perceptível não somente ao longo das entrevistas, mas também dentro das casas, onde na maioria das vezes são criados nomes fictícios, divulgados apelidos ou denominações aleatórias propagadas via redes sociais, na apresentação de um adepto ao outro. Algo observado foi que nem sempre é exigido pelas casas de swing documentação de identificação, de modo a não inibir os clientes. Esse enunciado nos denota a citação Foucaultiana (Foucault, 2008) anterior, no sentido de que não se pode dizer qualquer coisa em qualquer momento. Acrescentar-se- ia que não se pode fazer qualquer coisa a qualquer momento também pelo risco de esse algo se tornar público ou vir em evidência. 

4.3 Confiabilidade, Fidelidade e Cumplicidade na Conjugalidade Swinger 

De acordo com os participantes, a transição relacionamento tradicional para relacionamento swinger, sofre significativas modificações. Que perpassam por instâncias de confiabilidade, fidelidade e cumplicidade, estas se dão por uma palavra-chave que vem significar o sentido que o swing exerce na vida desses sujeitos; a liberdade. Faz-se possível notar o impacto da prática na conjugalidade contemporânea nas narrativas: 

Acho que a prática sexual do swing modificou o nosso relacionamento sim, porque ao contrário do que todo mundo pensa, trouxe mais confiança, a gente é mais parceiro, sai mais junto [...] melhora muito a relação, você não fica preso a estereótipos, a sei lá, a muita coisa que o pessoal fica (Rafael, 2017). 
Acho que mudou muita coisa, agora nós somos mais cúmplices, uniu a gente mais; porque acaba que a gente agora tem um mundo que é só nosso né, só de nós dois, a gente é cúmplice nisso [...] tendo esse segredo nosso a gente se diverte [...] quase já não tem mais essa coisa de ciúme, problema. A gente confia mais um no outro [...] tem mais diálogo, mudou muito, melhorou demais. Acaba que a gente fica mais vaidoso, mais estimulado a cuidar do corpo, essas coisas assim (Márcia, 2017).

 Durante a realização de todas as entrevistas e durante a elaboração do diário de campo, notou-se que o ciúmes se encontra mais representativo no início da prática, decrescendo à medida que a cumplicidade, a comunicação e a parceria dos adeptos aumenta. Segundo os participantes não existe swing, onde habita a insegurança. 

Não pode haver insegurança no meio swinger, você precisa ir para uma aventura, seja de qual nível for muito seguro do que quer e do que seu parceiro quer também, se houver insegurança vai melar tudo (Paulo, 2017). 

Sendo assim, a conjugalidade swinger encontra-se pautada em princípios diferenciados da relação convencional. As bases relacionais são constituídas dos mesmos objetos, no entanto, estes são visualizados por outra perspectiva. Para Foucault (2008) o discurso é algo altamente diferenciado daquilo que é sobreposto, depositado, está para além da superfície de um conjunto definido e fechado. Neste sentido, percebeu-se que a ideia em que, no geral, a sociedade faz da conjugalidade vai muito além do que é perceptível em nível macro. As relações que representam a conjugalidade na contemporaneidade são constituídas, sobretudo, em níveis de micro relacionamentos. 

5. Considerações Finais

Diante dos caminhos da pureza e da tentação, entre o proibido e o aceitável, molda-se um regime sexual caracterizado por normas morais, elaboradas com o intuito de regulamentar e padronizar como normativo, os corpos e suas relações. Aos que não obedecem tais prescrições são dados rótulos, de teor problemático, anormal, desviante e patológico. O pecado original e até mesmo a criação divina de Adão e Eva sustentam o discurso cristão de condenação e da normatividade. Seriam os seres humanos, assim, binários, monogâmicos e heterossexuais, seguidores dos princípios morais sacramentados de: matrimônio, procriação e formulação de uma família promovedora de honradez. 

Perante uma sexualidade que precisa ser velada, o swing surge como um meio relacional liberal, pautado em princípios de confiabilidade, de fidelidade e de cumplicidade, onde há forte pertença grupal, preconceitos e comercialização. Enfim, esta pesquisa pretendeu amplificar o conhecimento sobre a prática sexual do swing, apresentando a sexualidade dissidente sobre um distinto viés, aproximando os sentidos e os significados constituintes do sujeito; do ser swinger e de suas incidências na conjugalidade contemporânea, de modo a abranger as questões de gênero e o caráter patológico atribuído a prática sexual. 

Tornou-se evidente nessa pesquisa que o público constituinte do swing é composto de sujeitos com um perfil muito bem delineado, com uma condição socioeconômica estabilizada e de escolaridade instruída. Utilizam com frequência meios de comunicação, no entanto, apesar da espontaneidade de muitos adeptos em se falar sobre a temática liberal, os mesmos apresentam bastante temor, quanto a sua identificação. Algo que ficou muito explícito diante das assinaturas dos termos vigentes da pesquisa. Por fim, notou-se o quanto o swing contribui favoravelmente para a conjugalidade dos casais participantes da pesquisa e o quanto os mesmos significam a prática de maneira libertária. 

As questões de gênero mostraram-se evidenciadas no meio, de modo a dar continuidade a codificação de respeito à prática, algo que encontrar-se-ia ameaçado diante a introdução desenfreada de solteiros homens ao swing, que devido a cultura de gênero adentrariam a prática sexual, de maneira repreensora não apenas a mulher, como também o homem, enquanto casal. Sendo assim, mostrou-se notório que todas as hipóteses iniciais foram constatadas afirmativas, ou seja, há incidência de pertença grupal, ampliação de vivências sexuais, bem como, maior liberdade sexual que resulta em melhoramentos na relação conjugal, sexual e de auto realização dos participantes. 

Para um entendimento mais amplificado sobre a temática proposta, sugere-se a realização de futuros trabalhos no contexto, a fim de abranger o conhecimento sobre o fenômeno estudado, como também alargar assuntos entorno os adeptos swingers solteiros (as), as configurações poligâmicas, a comercialização erótica, bem como, a incidência de práticas sexuais na terceira idade. 

Sobre as Autoras:

Marta Cristine Rodrigues - Psicóloga CRP-04/51234​. Formada em Psicologia pela Faculdade Ciências da Vida (FCV).  

Aline Moreira Gonçalves -  Orientadora do trabalho, docente da Faculdade Ciências da Vida (FCV) e Mestre em Psicologia Social pela UFMG.  

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