Análise do Filme: Nise - O Coração da Loucura

Análise do Filme: Nise - O Coração da Loucura
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(Tempo de leitura: 6 - 11 minutos)

1. Introdução 

Este trabalho tem por alicerce primordial apresentar de forma crítica uma análise do filme: Nise - O Coração da Loucura, correlacionado com as diferentes concepções da loucura ao longo da história humana, bem como, os tratamentos aos quais os indivíduos acometidos por alguma psicopatologia eram submetidos. Para situar o leitor acerca do objeto da pesquisa deste estudo, será apresentado inicialmente uma breve sinopse do filme acompanhada por uma exposição dos aspectos históricos, culturais e sociais abordados na obra.

Durante a fase de levantamento de dados foram utilizados recursos audiovisuais, sites científicos, livros, periódicos, materiais fornecidos durante as aulas introdutórias à disciplina de Psicopatologia (Faculdade Regional da Bahia-Campus Alagoinhas) e palestras on-line ministradas por Nise da Silveira, cujo objetivo é apresentar uma maior riqueza de informações na construção do conhecimento acerca do tema proposto.

A arqueologia da loucura não se mostra como um processo simplista, se debruçar sobre tal temática requer um olhar sensível acerca da condição humana, porém, é de suma importância não perder de vista a posição de pesquisador e assim apresentar sob um novo prisma as possibilidades de ver o humano em sua forma singular de expressão e posicionamento sobre a vida.

2. Descrição do Filme

O filme: Nise - O Coração da Loucura, é uma obra nacional produzia no ano de 2015 e protagonizada por Gloria Pires. A produção retrata como eram vistos e tratados os ditos loucos no período de 1950 no Centro Psiquiátrico Nacional localizado do bairro do Engenho de Dentro no Rio de Janeiro.

O elenco da obra é composto de pelos seguintes personagens: Adelina Gomes (Simone Mazzer), Mário Pedrosa (Charles Fricks), Raphael (Bernardo Marinho), Lucio ( Roney Villela), Carlos Pertius (Julio Adrião), Almir (Felipe Rocha), Mário Magalhães (Fernando Eiras), Marta (Georgiana Góes), Otávio Ignácio (Flávio Bauraqui), Ivone (Roberta Rodrigues), Dr. Nelson (Zé Carlos Machado), Fernando Diniz (Fabrício Boliveira), Emygdio de Barros (Cláudio Jaborandy), Nise da Silveira (Glória Pires), Eugênia (Luciana Fregolente) e Lima (Augusto Madeira).

Após um período afastada do Hospital Psiquiátrico Nacional, a Dr. Nise, ao sair da prisão, retorna as atividades. Em seu primeiro dia de trabalho ela presencia a aplicação de métodos e técnicas que violavam a condição humana dos pacientes (tratamento com choques elétricos). Após se recusar a adotar aquelas mesmas técnicas, o diretor do hospital lhe oferece um cargo no setor de terapia ocupacional (STO).

Ao assumir o cargo no STO, Nise promove uma verdadeira revolução na forma de ver e de se tratar os doentes mentais que chegavam ao setor que estava sob sua coordenação. Firmada no solo da Psicologia Analítica de Jung, a arte terapia é introduzida como processo terapêutico que permitia que os clientes (termo usado por Nise em substituição do termo- paciente) manifestassem suas emoções e experiências inconscientes.

Com seu trabalho, Nise coloca em pauta algumas discussões sobre os tratamentos que até então vinham sendo empregados nos indivíduos ali encarcerados. Após algumas exposições com os quadros e esculturas produzidas por seus clientes, o seu trabalho ganha maior notoriedade e coloca a doença mental sob uma nova ótica.

3. Fundamentação Teórica

A década de 50 foi um período de intensa transformação no cenário nacional brasileiro, dentre os quais, podemos inferir que Nise da Silveira foi uma figura de crucial importância por seus pensamentos progressistas acerca dos tratamentos dispendidos aos doentes mentais, tornando-se uma pioneira da reforma psiquiátrica.

Ao longo da história a loucura assumiu diferentes roupagem nas mais diferentes sociedades. Durante muito tempo a loucura foi compreendida como uma experiência trágica ao qual o sujeito acometido perdia o contato com os pensamentos racionais. Durante a Idade Média, em decorrência da forte influência do Clero, a loucura era entendida um fenômeno de possessão demoníaca ou influência dos maus espíritos (LIMA; HOLANDA, 2004).

Segundo os expostos de Lima e Holanda (2004), entre os séculos XV e XVI temos a difusão do Renascimento. Este movimento trouxe consigo uma ampliação social, cultural e intelectual sobre determinados aspectos e fenômenos da época. Dentro desse novo escopo a loucura passa a ser mais tolerada no seio social. No curso de tais mudanças, com a chegada da idade clássica a loucura assume uma nova posição no cenário social. Nesse período os doentes mentais passam a serem vistos como uma ameaça, um mal a ser evitado. Alicerçados nessas ideias cria-se na Europa locais para conter esses sujeitos. O louco que no Renascimento culminava de uma relativa liberdade, passa agora a ser encarcerado em depósitos humanos, juntamente com todos os demais indivíduos interpretados como improdutivos e perigosos para a sociedade, dos quais são citados os criminosos e os homossexuais (FOUCAULT ,1978).

Nas exposições de Foucault (1978), a medicina da Idade Clássica assume o papel de ferramenta social, na qual é responsável por estabelecer uma categorização dos loucos e dos sujeitos tomados como perigosos, desencadeando internações em massa dos grupos populacionais supracitados. Este período ficou conhecido na história como Período das Grandes Internações.

Segundo Foucault (1978), com a chegada da Modernidade a medicina assume papéis diferentes mediante as exigências sociais vigentes em determinados Estados. Na Alemanha, por exemplo, a medicina assume o status de Medicina do Estado, logo, era responsável por produzir um conhecimento centrado no Estado e que contribuísse de forma direta para a seguridade do funcionamento do aparelho público. Mediante a preocupação que a Alemanha tinha em promover uma melhoria na condição de saúde da população, cria-se a polícia médica, encarregada de registrar os processos de adoecimento que acometiam a população, bem como normatizar e categorizar os indivíduos.

Na França, por sua vez, temos o despontar da Medicina como um mecanismo de organização dos espaços urbanos. No final do século XV, a França, por não contar com uma estrutura organizacional e territorial coesa, enfrenta um aglomerado populacional concomitante com o pânico urbano e o desenrolar das epidemias. Mediante essas complicações cria-se o regulamento de urgência para casos de epidemia e o processo de quarentena para promover uma vigilância social, tendo em vista a promoção da qualidade de vida da população (FOUCAULT, 1978).

Por sua vez, na Inglaterra, é verificado na literatura científica, que com Revolução Industrial há uma aproximação cada vez maior dos pobres na cidade. Embora inicialmente essas camadas menos favorecidas tivessem um papel de executor de tarefas para nobreza, que de modo lhes garantiam certa comodidade. Com a difusão do medo e a regulamentação de alguns serviços, os pobres assumem a roupagem de ameaça social que deveria ser banida das ruas. Nesse contexto, a medicina mais uma vez assume o papel normatizador, porém, com um enfoque na força de trabalho dos indivíduos (FOUCAULT, 1978).

Os primeiros hospitais que surgiam tinha por objetivo promover uma segregação dos sujeitos portadores de doença que eram interpretadas como contagiosas ou pessoas tidas como desviantes e perigosas (pobres, homossexuais, estrangeiros). Embasados na premissa de proteção da sociedade, se configurava como um instrumento de separação e exclusão social. Nesse contexto, uma vez que não se tinha como meta a promoção de saúde, os funcionários desses recintos de apartação humana eram compostos por religiosos ou leigos, que estavam ali para prestar as assistências mínimas durante o período de espera da morte por parte dos internos (SALTO, 2007).

De forma gradual é elaborada uma reorganização acerca dos hospitais, nos quais são realizadas a introdução de mecanismos disciplinares (distribuição espacial dos corpos, exercício de controle sobre o desenvolvimento de uma ação, vigilância constante e registro contínuo das atividades) frente ao espaço confuso que era os hospitais (FOUCAULT, 1978).

 Em consonância com esse processo, é evidenciada a formação de uma medicina hospitalar preocupada em anular os efeitos negativos que a desordem hospitalar causava. É com base nessas novas perspectivas que a loucura ganha status de doença mental mediante os significativos avanços que organização hospitalar possibilitou após sua institucionalização (FOUCAULT, 1978).

Segundo Salto (2007), a partir da organização dos espaços hospitalares o saber e a prática médica passam por profundas transformações. Nesse período começa-se difundir a ideia deste local como um lugar de promoção e reabilitação de saúde. Por meio dessas novas concepções a medicina sai do escopo de ciência do individual e assume na modernidade o status científico de cunho social.

Com o reconhecimento da loucura como um processo de adoecimento mental pela medicina, torna-se um campo de sua especialidade; eis um dos elementos fundante da Psiquiatria enquanto ciência médica, assim a Psiquiatria ficava encarregada de pesquisar e categorizar as doenças mentais (FOUCAULT, 1978).

 A rigor desses expostos, o Professor Dalgalarrondo (2008), Titular de Psicopatologia do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, define que foi por meio das raízes na tradição médica associada à observação prolongada e cuidadosa de um considerável contingente de doentes mentais, que se propiciou nos últimos dois séculos um avanço tão expressivo na área da psicopatologia.

Seguindo essa lógica constitutiva acerca de uma nova conceituação dos transtornos mentais, o saber construído pela Psicologia ao longo dos anos demonstra seu papel contributivo no que concerne a visão e tratamento acerca dos doentes mentais, ampliando a visão para aspectos até então negligenciados na prática clínica.

Partindo de uma análise Foucaultiana, o surgimento dos hospitais ligado a ideia de mecanismo terapêutico se mostra como uma construção relativamente nova, uma vez que, os primeiros hospitais que sugiram não tinham a pretensão de estabelecer um tratamento centrado na reabilitação da saúde e bem-estar dos indivíduos (FOUCAULT, 1997).

4. Análise do Filme

Mediante os expostos apresentados na fundamentação teórica adentraremos em uma discussão mais prática ao contextualizar as cenas apresentadas no filme: Nilse - O Coração da Loucura, com temas até aqui abordados. Nas cenas iniciais visualiza-se um muro de metal, o que simbolicamente pode ser interpretado como uma expressão da exclusão dos sujeitos que ali estão, um mecanismo de apartação dos ditos loucos e perigosos para a convivência em sociedade. O tratamento que era despendido sobre aqueles indivíduos feria e negligenciava suas histórias de vida, dilaceravam sua condição humana.

Dentro de uma perspectiva histórica e filosófica alicerçada nas ideias Foucaultiana, é notória como o imaginário acerca da loucura se manifesta nas cenas do filme, sujeitos encarcerados em verdadeiros depósitos humanos, cujo critério de captação e contenção estavam centralizados em uma espécie de saneamento social compelidos aos portadores de doenças mentais ou sujeitos vistos como desviantes. Dentre as práticas adotadas no Hospital Psiquiátrico podem ser citadas a eletroconvulsoterapia e a lobotomia, procedimentos altamente invasivos que depositam o enfoque não no sujeito, mas sim na doença e na sintomatologia delas decorrentes.

Nise da Silveira ao retornar ao Hospital Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro fica abismada com os tratamentos aos quais os pacientes estavam sendo submetidos, recusando-se a retroalimentar aquele sistema inumano, assume a coordenação do setor de terapia ocupacional. Naquele espaço, Nise volta sua prática clínica com o objetivo de salvaguardar os direitos daqueles sujeitos e lhes conferir uma nova forma de tratamento.

Ao inserir a arte como forma terapêutica, observa algumas peculiaridades nos desenhos de seus clientes. Ao entrar em contato com Jung, pai da Psicologia Analítica, ver-se naquele método uma porta de entrada ao inconsciente daqueles sujeitos, os ofertando a possibilidade de expressar seus sentimentos que de algum modo foram embotados.

Ao se apropriar de uma nova forma de enxergar os transtornos mentais, Nise torna-se seguidora de Jung e militante da Reforma Psiquiátrica, conferindo aos seus clientes um tratamento mais humanizado centrado em suas histórias de vida, pois para ela a vida tinha muitas formas de ser vivida e o pertencimento do sujeito a sua época seguia essa mesma lógica. Assim, tratamentos normatizadores e excludentes serviam como elementos de anulação das singularidades humanas.

Alicerçada em uma nova forma de fazer a clínica, Nise da Silveira deu voz a seus clientes, tidos até então como degenerados, violentos, loucos, alienados e desviantes. Muito se progrediu ao longo dos anos, mas tal luta e militância por um tratamento mais humano ainda se faz necessário por se referir a um sofrimento legítimo de sujeitos reais. 

Há dez mil modos de ocupar-se da vida e pertencer a sua época
(Nise da Silveira).

Sobre o Autor:

Ueliton Andre dos Santos Silva - Graduando do 10º período do Curso de Bacharelado em Psicologia pelo Centro Universitário UNIRB- Campus Alagoinhas. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4165952263886089

Referências:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 2° edição, Editora ARTMED: Porto Alegre, 2008.

FOUCAULT, M. História da Loucura na Idade Clássica. Editora Perspectiva s: São Paulo, 1978.

_________________ Microfísica do Poder. 11ª ed., Rio de Janeiro: Graal, 1997.

LIMA, A. de A; HOLANDA, A. F. História da psiquiatria no Brasil: uma revisão da produção historiográfica. Universidade Federal da Paraíba: Paraíba, 2004.Disponívelem:<http://www.revispsi.uerj.br/v10n2/artigos/html/v10n2a17.html>. Acesso em 27 de março de 2017.  .            

SALTO, M. C. O psicólogo no contexto hospitalar: uma visão psicodramática. Revista - Febrap - Federação Brasileira de Psicodrama. São Paulo, 2007. Disponível em:< http://febrap.org.br/pdf/Psicologo_no_Contexto_Hospitalar.pdf> acesso em 25 de março de 2017.

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