Estamira: um Pensamento Patológico em Seu Contexto Social

1 1 1 1 1 Avaliações 0.00 (0 Avaliações)
(Tempo de leitura: 5 - 10 minutos)

Resumo: Este artigo é um trabalho baseado no documentário nacional “Estamira”, produzido em 2006, traz à tona uma reflexão sobre a construção de um pensamento patológico e seu contexto social natural com foco em uma estrutura capitalista. Dentro de um referencial teórico psicanalítico com base na escuta do desejo e das defesas, podemos perceber claramente todo o percurso de um discurso esquizofrênico que pode ser camuflado pelo contexto social em que se passa, pela exclusão e principalmente pela falta de conhecimento dos sintomas da psicopatologia.

Palavras-chave: Estamira, Psicopatologia, Psicanálise, Sintomas.

O Filme “Estamira”

“Estamira” é um documentário produzido pelo fotógrafo e diretor Marcos Prado, lançado em festivais no ano de 2004, que rodou os festivais de cinema do mundo e consagrou-se vencedor de um total de 33 prêmios nacionais e internacionais. O longa-metragem retrata a história de uma senhora de 62 anos, que vive e trabalha há mais de 20 anos no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, naquele momento, um lixão a céu aberto que recebia toneladas de dejetos e materiais descartados pela metrópole do Rio de Janeiro e seus subúrbios.

Estamira o filme, traz um grande diferencial para o estudo das psicopatologias, diferente de outras representações cinematográficas acerca da esquizofrenia, o documentário “Estamira” traz a verdades sem maquiagens e sem a possibilidade de interpretações equivocadas por parte da atriz. Ali a fenomenologia patológica se mostra sem artifícios e por este mesmo motivo a análise torna-se mais precisa e objetiva, reduzindo a margem de erros.

"Vocês não aprendem na escola. Vocês copiam. Vocês aprendem é com as ocorrências. Eu tenho neto de 2 anos que já sabe disso. Tenho de 2 anos, que ainda não foi à escola copiar hipocrisias e mentiras charlatais" (Estamira 2001)

A Esquizofrenia é considerada pela psicopatologia como um tipo de sofrimento psíquico grave, caracterizado principalmente pela alteração no contato com a realidade (psicose). Segundo o DSM-IV, é um transtorno psíquico severo caracterizado por dois ou mais dentre o seguinte conjunto de sintomas por pelo menos um mês: alucinações visuais, sinestésicas ou auditivas, delírios, fala desorganizada (incompreensível), catatonia ou/e sintomas depressivos Juntamente com a paranoia (transtorno delirante persistente, na CID-10, o transtorno esquizofreniforme e o transtorno esquizoafetivo, as esquizofrenias compõem o grupo das psicoses. É hoje encarada não como doença, no sentido clássico do termo, mas sim como um transtorno mental, podendo atingir pessoas de qualquer idade, gênero, raça, classe social e país. Segundo estudos da OMS, atinge cerca de 1% da população mundial.

Os sintomas da Esquizofrenia são divididos em sintomas positivos e negativos. Os sintomas positivos são experiências anormais e os negativos são perdas do comportamento normal de uma pessoa. Embora os sintomas positivos sejam mais chamativos e dramáticos e que no início causam maior preocupação, são os negativos que causam problemas mais sérios e que duram mais.

Sintomas positivos mais comuns são:

  • sentimento de estar sendo controlado por forças exteriores (os pensamentos e ações seriam determinados por motivações alheias ao indivíduo)
  • alterações da percepção. A pessoa ouve vozes, vê coisas, sente cheiros ou tem outras sensações sem que nada exista (alucinações)
  • crenças estranhas (de importância exagerada, de grandeza, de estar sendo perseguido - são os delírios)

O sintomas positivos ocorrem nos episódios agudos e podem ser muito assustadores.

Sintomas negativos - podem incluir a perda de concentração, falta de energia e de motivação, desinteresse pelas pessoas e pelo ambiente. As pessoas com Esquizofrenia frequentemente ficam incapacitadas para o trabalho, para as coisas comuns do cotidiano, podem chegar até ao abandono do cuidado com a própria higiene. Muitos chegam a uma condição muito precária como moradores de rua.

Sintomas negativos constituem uma dimensão frequente, duradoura e debilitante da sintomatologia da esquizofrenia, claramente distinta em relação a sintomas positivos e de desorganização, embora menos nitidamente distinta em relação a alguns sintomas depressivos e a sintomas cognitivos. Sintomas negativos primários e persistentes (sintomas deficitários) definem um subtipo de esquizofrenia, a Síndrome Deficitária, que tem sido associado a pior prognóstico, maior comprometimento neuropsicológico e padrão específico de alterações cerebrais estruturais.

Identificando os sintomas positivos negativos da esquizofrenia com os sintomas apresentados no documentário, é possível perceber apresentação reduzida dos sintomas negativos. No documentário a “Estamira” não apresenta nenhum tipo de retração social (ela lida bem com a família, os amigos, os colegas de trabalho no lixão), nem havia nenhum sinal de empobrecimento de linguagem e pensamento, ao contrário, Estamira mostrava-se inteligente, disposta e bastante falante, muito produtiva. Não apresentava também diminuição da fluência verbal, da volição e nem lentificação psicomotora.

Em relação ao distanciamento afetivo apenas pelo documentário é precipitado falar se houve ou não um distanciamento afetivo. Ela poderia ser daquele jeito com as pessoas a vida toda e em momento algum alguém relata que depois da esquizofrenia ela tenha ficado menos afetuosa.

" Eu nunca tive sorte. A única sorte que eu tive foi de conhecer o Sr. Jardim Gramacho, olixão, O Sr. Cisco-Monturo.... Eu amo, eu adoro!... Como eu quero o bem dos meus filhos... Como eu quero o bem dos amigos... Eu nunca tive. Aquela coisa que eu sou: sorte boa."

Há uma cena, com flash em preto e branco que Estamira diz : “Visivelmente, se eu me desencarnar eu tenho a impressão que serei muito feliz e talvez eu poderia ajudar alguém. Porque o meu prazer sempre foi esse: ajudar alguém.” Se por um lado esta fala pode revelar desejos inconscientes de morrer ,“desencarnar”, por outro revela que os outros não são indiferentes para Estamira, que ela possui o desejo de ajudar o próximo. Ela também fala com nostalgia e amor do seu pai “meu pai chamava eu de um tanto de nomezinho (...) ‘merdinha’, ‘neném’, ‘fiinha de papai’”. Faz proposta de casamento para um colega do lixão. Chora de amor pelo ex-marido e depois o xinga de sujo e porco. Cenas como estas e outras nos fazem desacreditar que Estamira tenha se distanciado afetivamente, muito menos chegado ao embotamento afetivo.

O único sintoma negativo descrito por Dalgalarrondo (2008) e perceptível no documentário é a negligência quanto a si mesmo. Neste sintoma percebe-se falta de higiene de interesse pela aparência, etc. Em uma cena, Estamira recolhe restos de um restaurante para preparar macarrão na sua casa. Em todas outras ela está suja e desarrumada. Isso, contudo pode não ser considerado sintoma negativo se observado o contexto sociocultural onde Estamira está inserida: todos que trabalham no lixão colhem restos de comida que acham proveitosos, e todos estão sujos e desarrumados e são dessa maneira não por serem esquizofrênicos, mas por estarem nesta condição sub-humana. Para ter certeza da presença desse sintoma seria preciso colher mais dados sobre o antes e o depois do estabelecimento da doença.

Quanto aos sintomas positivos destacam-se:

  • Ideias delirantes: A intensa produção de delírios é perceptível em quase todas as cenas. Muitos de seus delírios, contudo, são muito bem organizados e com certa coerência que seria capaz até de enganar alguns. Eis alguns exemplos “tem revelações e avisa para os inocentes. Inocentes não, esperto ao contrário.”, Ninguém pode viver sem mim. Ninguém pode viver sem Estamira” “todos precisam de Estamira”, “Só eu consigo distinguir as coisas, por sou a Estamira!”(delírio de grandeza), “Meus pais (mortos) estão perto de mim, minha mãe meus amigos... Ó, tô vendo” (delírio associado à alucinação), controle remoto universal e controle remoto dentro do corpo, etc.. Outros delírios são citados pela família, tais como estar sendo seguida por alguém no ônibus ou perseguida pelo FBI (delírios persecutórios).
  • Alucinações e pseudoalucinações: Na cena em que relata que a doutora perguntou se ouvia coisas, ela responde “eu escuto os astros, as coisas”.
  • Produções linguísticas novas como neologismos e parafrasias. Alguns exemplos de falas: “Sabe o que significa cometa? Comandante natural”, “esperto ao contrário”, “troca dilho”, “homem par” “ideias Charlatais”
  • Repetição de ideias (comportamento bizarro): fala do controle remoto natural e artificial em várias cenas; quando xinga o filho que lê a bíblia na sua casa repete o mesmo xingamento várias vezes, ecolalia: “vai tomar no cu, vai pro céu, vai pro inferno, vai pra porra”;“vai tomar no cu, vai pro céu, vai pro inferno, vai pra porra”; “vai tomar no cu, vai pro céu, vai pro inferno, vai pra porra”;
  • Discurso mítico, reflexo da religiosidade exacerbada antes do desencadeamento da doença.

No relato da família há controvérsias quanto ao tratamento que deve ser dado a mãe ou não, justamente por em muitos destes tratamentos manicomiais a pessoa não receber o respeito que merece.

A filha diz: “Ela (Estamira) não é louca, mas também não é completamente certa (...), mas ela morreria muito mais feliz no meio da rua do que numa clínica.”. Acha “judiação” internar a mãe no modelo tradicional de manicômio, com camisa de força e remédios dopantes. Já o filho não se opõe a quaisquer métodos que tenham que usar para “melhorar” a qualidade de vida da mãe.

No Documentário Estamira faz diversas críticas em relação ao trabalho, à educação e a medicalização. Essa diversas cenas acabam causando um grande choque ao telespectador, pois nos faz refletir e pensar sobre questões da ordem social e bem subjetiva.

O documentário acaba fazendo com que as pessoas acreditarem que a personagem é capaz de ter lucidez em seu discurso, isso demonstra que tais percepções não são da Estamira sustenta uma verdade. Ela revela o resto que negamos em nós mesmos. É chocante, pois nos obriga a lidar com nossas angústias e sofrimentos, diante da incompletude da vida. Ao mesmo tempo, traz à tona a maneira como encaramos o conceito de normalidade e insanidade, demonstrando que ignoramos o paradigma na qual a ciência assume diante de tais indivíduos que são vistos como “desajustados” e inaptos para a convivência social.

Sobre o Autor:

Sílvia A.S. Santana - Doutoranda em Psicologia Pela UCES - Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales, Mestrado em políticas da Educação - Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias,Licenciatura em Filosofia,Bacharelando em Psicologia, Especialista em Psicopedagogia, Psicanálise Clínica e Didata, Psicanalista Infantil e Hipnoterapeuta, Conferencista sobre temas ligados à Família e Comportamento da Sociedade.

Referências:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. 438 p.

The ICD-10 International Classification of Mental and Behavioural Disorders. Clinical descriptions and diagnostic guidelines. World Health Organization, Genève, 1992 ; p. 87

http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?189

Curso online de

Psicologia Organizacional: Recrutamento e Seleção

 Psicologia Organizacional: Recrutamento e Seleção

Aprofunde seus conhecimentos e melhore seu currículo

Carga horária:  120 Horas

Recém Revisados