Algumas Faces da Loucura

Algumas Faces da Loucura
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Resumo: Neste artigo que tem como tema central algumas faces da loucura, assunto este que tanto intriga e fascina por sua complexidade e diversidade, objetiva-se entender e discutir como o que atualmente conhecemos por doença mental pode se apresentar nos contextos físicos, sociais e morais, levando em conta suas consequências. Expondo os resultados pode-se ver que esse é um fenômeno complexo e multifacetado, mas onde já se logrou enorme progresso na contextualização do ser como louco, pois, desde a antiguidade grega o conceito de loucura acompanhava o homem, porém vista sob outra óptica. Ainda existem muitos paradigmas acerca da loucura, principalmente em sua fase física, notada nessa pesquisa, sendo discutida com frequência na atualidade.

Palavras-chave: loucura, faces, consequências, psiquiatria.

1. Introdução

A loucura, quando observada atentamente está em toda parte. Por isso, como acadêmicos do curso de Psicologia percebemos a necessidade de discutir esse assunto de grande relevância e que tanto intriga e fascina não apenas os estudiosos da área. A falta ou desvio da razão é apenas umas das mais variadas formas com que a loucura pode ser representada, contudo deve-se ressaltar que esta concepção de loucura como falta ou desvio de razão é relativamente nova e, por muitos vista como uma percepção errônea.

Alguns estudiosos e pensadores contemporâneos preferem ver a loucura não como algo estritamente oposto a racionalidade, mas sim como uma natureza intrínseca do ser humano. Como vemos a questão de determinar o que seria ou não um ser louco é bastante ampla e sem um consenso. Parece que entendemos a loucura apenas no âmbito da doença mental, deixando de lado as inúmeras faces que a mesma pode ser apresentada, sendo essas morais, sociais, físicas e psíquicas.

Entretanto para podermos descrever essas faces devemos primeiramente entender um pouco sobre a história do que pode ser chamado atualmente de loucura. A doença mental historicamente já foi vista das mais variadas formas possíveis, deste como uma forma de expressão da cólera e da bondade de Deus, até a um prenuncio do “fim dos tempos”, até o atual conceito imposto pela psiquiatria no séc. XVIII.

A face da loucura vista pela sociedade é apenas a do doente mental, que é por muitos tratado com desprezo e num sentido animalesco trancafiando em manicômios, os lunáticos. Contudo muitas outras faces estão sendo esquecidas ou simplesmente “mascaradas” sem a devida importância de suas consequências que possam advir ao nosso meio. Por isso tentaremos identificar e descrever algumas dessas possíveis faces e seus impactos para com a nossa sociedade. Também veremos que a loucura não está tão longe de nossas realidades diárias e que, de certa forma, atingem a todos, mesmo de maneira que nem percebemos.

Os sujeitos produzem a todo momento comportamentos que os levam à insanidade mental, por isso não devemos esquecer que há também uma grande aproximação entre sanidade e loucura, mas para filtrar o significado de ambos devemos ir á bases conceituais, partindo do entendimento de loucura, que é o objeto de estudo deste artigo. A loucura é detectada de diversas formas, partida à principio de um olhar critico da sociedade, por essa versão em meio a tantas desordens cognitivas vistas no mundo haveriam poucos sujeitos que não poderiam, de alguma forma, ser considerados loucos. A loucura tem diversas faces, onde a doença metal propriamente dita, por exemplo, se associa à loucura como uma patologia.

2. Resultados e Discussão

2.1 Breve historia da Loucura

Deste a antiguidade grega a loucura acompanha o homem. Através de explicações mitológicas ela era vista como manifestações sobrenaturais de deuses e demônios que agiam nos seres humanos. Ao passar dos anos esta concepção foi se modificando e aos poucos foi sendo adotada outra visão, como nos aponta Frayze-Pereira (1985, p.49):

Ao final da Idade Média, o homem europeu estabelece relação com algum objeto não papável que confusamente designa Loucura, Demência, Desrazão. Mas essa relação é experienciada em estado livre, isto é, a loucura circula, faz parte da vida cotidiana e é uma experiência possível para cada um, antes exaltada do que dominada

Este trecho tenta mostrar que a loucura era de certa forma livre e comum nas comunidades da antiga baixa Idade Média, contudo, vale ressaltar que ainda a mesma não possuía o termo de doença, patologia ou mesmo castigo divino, mas assumia o sentido de falta de razão ou, como prefere o autor,  a “desrazão”, ou seja, um simples desvio naquilo que era certo na comunidade. Todavia com a chegada da alta Idade Média e o começo das Cruzadas houve uma imensa infestação de leprosos, fruto do resultado do contato com o Oriente. Nesse contexto a lepra passa a ser vista como uma ferramenta da ira e da bondade de Deus. Com o fim das Cruzadas e das infestações de lepra na Europa outros personagens tinham que ocupar esse papel de alvo da cólera e da bondade de Deus e coube aos loucos a assumir essa função.

Se após o fim das Cruzadas a lepra acabou desaparecendo (em virtude dessa segregação e da ruptura do contato do Ocidente com os focos de infecção no Oriente), os valores e imagens ligados ao leproso permanecem. Outros personagens vão ocupar o espaço sagrado por ele deixado vazio: os pobres, os vagabundos e as “cabeças alienadas”. Mas o princípio subjacente a essa nova situação ainda é o de uma divisão, isto é, ao mesmo tempo, exclusão social e reintegração espiritual. (FRAYZER-PEREIRA,1985,p.50)

Ou seja, a loucura, mais uma vez, passa a ser uma forma de castigo e exposição dos pecados ou de certa forma a remissão dos mesmos, vale ressaltar que não só a loucura, mas tudo o que fosse diferente e oposto aos valores da época. Entretanto, durante o período conhecido como Renascimento, o que chama mais a atenção é a criação da “nau dos loucos”. Porém, quem eram seus passageiros? Ora, eram os delatores, bêbados, desordeiros entregues à devassidão, os dementes e os que interpretavam mal as escrituras. 

Encerrado no navio de onde não escapa, o louco é entregue à correnteza infinita do rio, à fluidez instável e misteriosa do mar. é o prisioneiro da mais livre das rotas, “é o passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe quando desembarca, de que terra vem. (FRAYZER-PEREIRA,1985,p.51)

Essa embarcação possuía um valor simbólico e ritualístico de purificação, pois embarcando os loucos eles seriam presos de sua própria partida. Como o trecho diz seriam presos na mais livre das rotas, pois navegariam livremente sem destino certo e suas prisões seriam suas próprias demências. Após isso a loucura passa a penetrar profundamente no imaginário dos homens europeus. “A cabeça, que virará crânio, já está vazia. A loucura é o já-estar-aí da morte.” Isto é, "o louco pressagia o macabro.”(FRAYZER-PERREIRA,1985,p.52) eles achavam que os loucos, de alguma formam, invocam o fim do tempos. E cabia o papel de defensora do mundo a sabedoria e aos seus mensageiros, os filósofos. Entremente, foi nesse período em que houve uma proliferação desse tema em todos os contextos culturais. A visão de doença mental, que é tão forte na atualizada, foi formulada apenas no sec. XVIII pela psiquiatria, com o advento do hospital geral, que passa a perceber a loucura como qualquer das outras doenças orgânicas. E, a princípio, para o cura dessa doença são usados métodos que podem ser considerados bizarros, animalescos e desumanos, como choques elétricos, cirurgias no crânio, retirada ou ingestões de sangue entre outras formas de “tratamentos”, porém, vale lembrar que isso era feito na melhor das intenções buscando a cura do paciente. Trouxemos um pouco da historia da loucura apenas como base para nossa discussão e para percebermos que desde o princípio ela já se manifestava de inúmeras formas diferentes sempre mostrando suas diversas facetas.

2.2 A Face Física da Loucura

Esta face é a mais conhecida, pois, representa a forma da doença em si e por este motivo acaba por generalizar as outras formas que a loucura pode apresentar. Esta face seria a da doença mental propriamente dita, que a psiquiatria se preocupa em estudar, nessa face a loucura ganha um nome diferente, “politicamente correto” de “insanidade mental”,  mas o que acarreta essa insanidade? Muita das vezes as patologias podem vir de várias formas, como transtornos, abusos de drogas e álcool, reações psicológicas como estresse e causas genéticas.

"O olhar médico não encontra o doente, mas a sua doença, e em seu corpo não lê uma biografia, mas uma patologia na qual a subjetividade do paciente desaparece atrás da objetividade dos sinais sintomáticos que não remetem a um ambiente ou a um modo de viver ou a uma série de hábitos adquiridos, mas remetem a um quadro clínico onde as diferenças individuais que afetam a evolução da doença desaparecem naquela gramática de sintomas, com a qual o médico classifica a entidade mórbida como o botânico classifica as plantas. Mas quando os sintomas, de expressões de uma dificuldade e de um desequilíbrio nas condições de vida, se tornam simples sinais de uma doença que, ao invés de se inscrever no mundo social, se inscreve no mundo patológico, a doença vem subtraída ao controle do grupo com o qual não pode mais intercambiar, para ser confiada à observação de um olhar, o olhar médico que, autônomo, se move em um círculo onde só pode ser controlado por ele próprio e onde soberanamente distribui sobre o corpo do doente o saber que adquiriu" (Galimberti 1984).

Concordando com Galimberti (1984) que o olhar dos médicos para com os loucos é um olhar apenas para a doença, sem muita das vezes se preocupar com o indivíduo em si, deixa que essa face se apresente, por vezes, de maneira preconceituosa com relação à loucura. Certo que quando a insanidade chega em um grau elevado precisa-se de uma intervenção rigorosa no seu tratamento, mas o que queremos dizer é que deve sempre se levar em conta que a doença mental não é uma simples doença comum, pois ela envolve uma gama de fatores, como os sentimentos e as angustias do paciente de uma forma mais profunda do quê qualquer outro tipo de doença, ou seja, deve-se além do tratamento da doença com medicamentos, dar uma ênfase no individuo como pessoa. 

“Duas são as principais tendências conceptuais reconhecíveis nessas acepções. Por um lado, temos a loucura concebida e particularizada como uma experiência corajosa de desvelamento do real, de desmontagem e recusa do mundo instituído: Com efeito, os termos segundo os quais se procura dar uma definição da loucura são, explícita ou implicitamente, sempre relacionais. Isto é, designa-se louco o indivíduo cuja maneira de ser é relativa a uma outra maneira de ser. (Frayze-Pereira 1985,P. 10)

2.3 A Face Social e Moral da Loucura

A sociedade é movida desde seu início por regras de convivência e cobranças e cabe aos indivíduos pertencentes a determinadas sociedades ou culturas segui-las o mais fielmente. Contudo aqueles que se aventuram em descumprir ou “nadar contra a correnteza” recebem o titulo de loucos. Neste caso a loucura passa a ser uma categoria social, ou seja, nesse contexto o louco não é um doente psicótico, mas sim um indivíduo estranho o bastante para ser caracterizado como tal. Sendo a sociedade um lugar árido em que a diferença não é aceita, tampouco acolhida.

Entra nesse contexto também a loucura moral, que seria a forma de conduta anormal de um indivíduo. Porém, este conceito abarca não apenas aqueles que se comportam de forma diferente, mas também tudo o que representa certo perigo à sociedade. 

“É a partir do século XV que a loucura se insere num universo moral. É nesse universo de ideias e imagens culturais que a loucura se revela de varias formas, as fraquezas humanas se fazem presentes e seus excessos penalizam os homens, que eram confrontados com a sua verdade moral, com as regras próprias a sua natureza e as suas verdades.” (MILANE; VALENTE. 2008)

No que diz respeito ao mundo moderno ZINK (2009) afirma que vivemos mais as nossas máscaras, que nos adaptamos mais ao mundo exterior e estamos mais alienados ao mundo interior. Cada vez mais doutrinas, mais doutrinados, e que estaríamos traindo cada vez mais a nós mesmos. No mundo globalizado, a mídia nos faz viver a nossa idiossincrasia.

Ela revela as fraquezas que a sociedade busca esconder ou mascarar, através das famosas regras de convivência. Nesse caso a moral individual perde espaço para a moral coletiva. Tudo o que for tido como desvio de conduta é levado a esse termo de loucura, o mais curioso é que isso é tratado até mesmo pela literatura como nós mostra Lima Barreto.

De mim para mim, tenho certeza que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material, há seis anos, me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura, deliro. (Lima Barreto, Diário do Hospício, 1919-1920)

Como nos mostra a simples implicância com o vicio da personagem e suas condições financeiras a sociedade de uma maneira muito sutil acaba por lhe fazer acreditar que está ficando louco. Certo que muitas dessas regras e dessas normas servem para nos proteger de “nós mesmos”, mas até quando podemos dizer que somos “nós mesmos”? Não queremos dizer que todos devem fazer o que quiserem, pois isso seria um caos, só queremos que a maioria de nossos atos não sejam interpretados como algo anormal. Segundo o diz ZINK (2009), em seu artigo, o termo sanidade passou a ser traduzido como conformidade, submissão e sucesso profissional. E ZINK (2009) ainda se faz uma pergunta, será que a sanidade mental é o silencio da alma? Sinceramente os autores deste artigo acreditamos que não, pelo contrario, a sanidade mental seria quando a alma consegue falar mais alto.

3. Metodologia

Foi utilizada de pesquisas bibliográficas, como recortes de artigos, revistas e jornais. Estudando como a loucura foi interpretada ao longo de sua historia e como atualmente ela é vista e entendida pela maioria da população e também as formas como ela pode se apresentar. Os teóricos que sustentam nossos estudos são João Frayze-Pereira(1985) que trata sobre O que é loucura; Liane Zink que trata sobre a Sanidade e Loucura(2009); Lima Barreto em Diário de um Hospício, entre outros autores.

4. Conclusão

De acordo com as teorias e posições dos teóricos aqui expostos, percebemos que ainda falta muito para poder caracterizar o que realmente é a loucura em suas diversas faces. Surpreendeu-nos as diversas formas que um mesmo objeto possa se apresentar. Acreditamos que ainda falta muito a ser explorado nessa área na atualidade. Para irmos em direção a desvendar novos causadores, que podem ser inúmeros, temos desde o primeiro grupo social (o familiar) e os outros que vem adiante, que possivelmente podem ser causadores de adoecimento, pois, temos um sistema capitalista enraizado, no entanto devemos considerar todos esses estágios de nossa vida e ainda aqueles que desconhecemos.

O que se sabe por dados históricos é que antigamente a sociedade vivia um caos por conta da loucura, que era vista como ameaçadora, e que os loucos eram até mesmo retirados do convívio em sociedade para que ela pudesse ficar "limpa" desse mal, isso aconteceu, por no tempo da inquisição, onde loucura era vista como algo partido do sobrenatural, crença advinda de uma grande influência das crenças religiosas.  Pois a religião fornecia um sistema de justiça para suas miseráveis vidas.

Hoje em dia os loucos são aceitos, mas a loucura não. Para alguns teóricos a loucura não é doença mental, e já para outros sim. De certo não há respostas e conceitos que definam e respondam com clareza a tantos porquês sobre. Uma das soluções possíveis seria aceitar que saúde mental é pluralidade, é diversidade, e as diferenças fazem parte da nossa vida. 

Queremos com o nosso trabalho contribuir, principalmente com auxilio bibliográfico, para futuras pesquisas nessa área, pois, o estudo da loucura nas suas diversas formas ainda está começando e se apresenta de difícil acesso, pelo motivo de que o que mais se aborda é o termo da desinstitucionalizão dos portadores de sofrimento psíquico. Esse movimento também não é bem atual, mas se está querendo tratar o doente em privação de liberdade, por ser um contexto social, a indiferença e posteriormente a descriminação fazem parte da resistência de aproximar o louco de sua liberdade.

Sobre os Autores:

Francisco Ailson Magalhães Oliveira – Graduando do curso de Psicologia da FLF.

Raquel Ximenes de Maria  – Graduanda do curso de Psicologia da FLF.

Referências:

FRAYZER-PERREIRA, João. O QUE É LOUCURA, 3º Ed. São Paulo: Editora Brasiliense S.A, 1984.

GALIMBERTI, UIl corpo; Antropologia, psicoanalisi, fenomenologia. Milano, Feltrinelli, 1984. (Tradução de Maria Fernanda de Silvio Nicácio. Revisão da tradução: Cláudia ChavesMartins. Casa de Saúde Anchieta, Santos).

LIMA BARRETO,A. H. Diário do Hospício; o Cemitério dos Vivos. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura Dep. Geral de Documentos e Informações Cultural, 1988..

MILANE, Helena de Fatima B.; VALENTE, Maria Luisa L. de Castro; O caminho da Loucura e a Transformação da Assistência aos Portadores de Doença Mental.  Ribeirão Preto: SMAD. Revista Eletrônica de Saúde Mental Álcool e Drogas.2008. Disponível em: http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/smad/v4n2/v4n2a09.pdf. Acesso em: 06/11/2012

ZINK, Liane. Sanidade e Loucura – “um dialogo”. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, XIV, IX, 2009. Anais. Curitiba: Centro Reichiniano, 2009.Disponível em: http://www.centroreichiniano.com.br/artigos. Acesso em: 06/11/2012.

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