Os Perversos Porões de Uma Psiquiatria Psicótica

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Como alguns vários psiquiatras se tornaram cúmplices das mais sinistras ditaduras, utilizando recursos psicofarmacológicos para conter opositores reais e imaginários de regimes autoritários 

“De todas as drogas administradas para impor disciplina, a sulfadiazina era o auge da dor. As pessoas que recebiam injeções dessa substância gemiam, suspiravam com a dor, praguejando contra todos os psiquiatras, contra o poder soviético, praguejando contra tudo o que tinham em seus corações. Se eles lhe torturam e lhe quebram os braços, há uma certa dor e você, de alguma maneira, pode suportá-la. Mas a sulfadiazina é como uma furadeira perfurando o seu corpo, que fica cada vez mais fraco, até que você não agüenta mais. É pior do que tortura porque, em alguns casos, a tortura termina. Mas esse tipo de tortura pode continuar por anos.”

O erro de Alexei Nikitin, trabalhador de uma mina de carvão na Rússia Soviética, foi reclamar das condições insalubres sob as quais ele e seus companheiros tinham de trabalhar horas a fio. Condenado por subversão e enviado a uma instituição para doentes mentais na Ucrânia, em 1980, Nikitin foi “medicado” com sulfadiazina, droga indicada para tratar infecções causadas por microorganismos, contra-indicado para pacientes portadores de insuficiências hepática e renal, porfiria asma brônquica e com potencial capacidade para provocar estomatites, diarréia, agranulocitose, anemia aplástica, trombocitopenia e leucopenia, dor de garganta ou dificuldade para deglutir, dores nas juntas e músculos, palidez epidérmica, hepatite, fotossensibilidade, bolhas ou descamação da pele e síndrome de Stevens-Johnson. Nikitin resistiu a essa droga e a várias outras igualmente terríveis por mais de dois anos

O objetivo da “terapêutica psiquiátrica” era fazer com que Nikitin refletisse melhor acerca de suas reclamações sobre o sistema soviético e visse que, na verdade, tinha todos os motivos para se regozijar por viver em um país sem diferenças sociais e sem a degradação do vil Ocidente. Sua história foi contada por Kevin Klose, Presidente da NPR – National Public Radio, em “Russia and the Russians”, como ilustração sobre o quanto os psiquiatras soviéticos colocaram-se a serviço do Partido Comunista como elementos de repressão e contenção não só física como psiquicamente de opositores. Aviltando a psiquiatria, subordinando-a a um regime ditatorial e criminoso, os psiquiatras soviéticos granjearam a antipatia dos seus pares no Ocidente, sobretudo quando encarceraram e mantiveram na prisão, até mesmo colegas seus que se recusaram a usar dos seus conhecimentos para exarar diagnósticos convenientes ao Kremlin.  

Profunda e vergonhosamente engajada na política repressiva de Moscou, a psiquiatria soviética desenvolveu a tese de que qualquer pessoa que se opusesse à idéia marxista do socialismo científico era, por definição, perturbada mentalmente e precisava ser “tratada” em um hospital psiquiátrico. O tratamento padrão foi o relatado por Klose sobre Nikitin que foi solto somente depois de várias sessões de “tratamento”, quando se comprometeu a jamais questionar novamente ou duvidar da “correção” das idéias do Partido. Com isso, vários psiquiatras soviéticos se entregaram à tarefa degradante de promover o sofrimento psíquico no paciente, de modo a quebrar-lhe a vontade, submeter sua independência de pensamento e sujeitar a visão realista que tinha do sistema. A subjetividade, inerente à psiquiatria, ganhou uma objetividade macabra com a aplicação de sedativos, eletrochoques sem finalidade terapêutica efetiva, asilagem discricionária em autênticos manicômios, injeções de sulfadiazina, entre outros.

Nos Campos da Morte de Hitler

Muito embora a psiquiatria tenha se transformado em uma arma política na URSS (e exportada como modelo de “tratamento de dissidentes” para países do Leste Europeu, Cuba, China, Coréia do Norte e Vietnã), seu uso como ferramenta de repressão política encontra uma de suas piores expressões na Alemanha de Hitler, durante a II Guerra Mundial. O Dr. Rael D. Strous, do Departamento de Psiquiatria do Beer Yaakov Mental Health Center, Sackler Faculty of Medicine, Tel Aviv University, Israel, afirma em um artigo publicado no Annals of General Psychiatry (2007, 6:8), intitulado “Psychiatry during the Nazi era: ethical lessons for the modern professional”, queo status profissional dos psiquiatras alemães não constituiu nenhum obstáculo para a participação dos mesmos nos crimes nazistas e que muitos apresentaram um profundo envolvimento nas atrocidades praticadas.

Vários psiquiatras alemães foram instrumentos de uma política sistemática de identificação, notificação, transporte e assassinato de centenas de milhares de doentes mentais “raciais e cognitivamente comprometidos”. “Eles tiveram um papel central na política, planejamento e princípios nazistas de extermínio”, diz Strous, enfatizando que tanto os psiquiatras como médicos de outras especialidades atuaram com os nazistas em pelo menos duas frentes: a eutanásia e a esterilização de doentes mentalmente incapazes, judeus, opositores do regime e membros de outras etnias consideradas não-arianas. Como consequência desses tenebrosos trabalhos, muitos pacientes psiquiátricos provenientes de seis instituições – Brandenburg, Grafeneck, Hartheim, Sonnenstein, Bernburg e Hadamar – foram enviados, pelos psiquiatras, a campos de concentração e de extermínio espalhados por toda a Alemanha e Europa Oriental.

“Foram psiquiatras que assistiram à matança dos pacientes – com o uso inicial do monóxido de carbono e, mais tarde, fome e injeção, e foram psiquiatras que falsificaram as causas de morte nos certificados enviados para os parentes desses pacientes; estima-se que mais de 200 mil pessoas com transtornos mentais de todos os tipos tenham sido assassinadas dessa maneira”, sentencia Strous. O articulista afirma ainda que muitos desses psiquiatras tomaram parte no processo de aniquilação de judeus, ciganos e homossexuais por toda a Europa. A nota irônica entre tanta tragédia, é que Hitler nunca emitiu uma ordem para matar os pacientes com doença mental (notadamente oligofrenia, autismo, demências, Down). Ele só autorizaria oficialmente a ação em uma carta escrita em outubro de 1939, com data de setembro do mesmo ano. Portanto, psiquiatras “dedicados à causa”, mesmo sem uma ordem explícita, tomaram para si a responsabilidade de cometer tais crimes.

Novo Homem Soviético

Essa prática hedionda na Alemanha, que levou a psiquiatria aos baixios das masmorras mais negras da história da terra de Goethe, foi cinicamente amplificada na URSS de Joseph Stálin. E tanto quanto na Alemanha, muitos psiquiatras russos, ucranianos, letos, bielo-russos, lituanos envidaram todos os seus esforços para fazer da psiquiatria a ferramenta primordial de enquadramento do pensamento dissidente, colaborando decisivamente para que a prisão de Lubianka fosse recheada de “desgarrados do comunismo”. Lubianka é o nome da rua e praça de Moscou onde fica o quartel-general das políticas políticas soviéticas desde os tempos de Lênin. Foi, portanto, a sede da Thecka, OGPU, NKVD, NKGB, KGB e atualmente FSB. A diferença fundamental é que enquanto muitos psiquiatras alemães serviram a Hitler, sobretudo no período de guerra, a psiquiatria soviética se prestou a esse serviço por quase 40 anos.

Empenhados em criar um “novo homem”, os comunistas soviéticos devotaram todos os seus esforços na destruição do “homem velho”. E para isso reuniram um aparato de terror que só encontrou um rival na China de Mao Tsé-tung que, aliás, aprendeu os métodos com Stálin. A Revolução Socialista de 1917 fez do povo a maior coleção de cobaias da história, tornando a URSS o maior laboratório de experiências sociais do mundo. E eles, os revolucionários de Lênin, acreditavam piamente que estavam construindo um mundo novo. Richard M. Ebeling, Presidente da FEE – Foundation for Economic Education, em artigo publicado no site da instituição (www.fee.org) diz que Felix Dzerzhinsky, o primeiro chefe da polícia secreta soviética, adorava crianças e dizia que gostaria de criar um mundo melhor para elas. “Para libertar a sociedade soviética de seus inimigos e fazer do mundo um lugar melhor, ele criou um grande sistema de trabalho escravo, que ficou conhecido como Gulag.”

Gulag é a abreviatura de Glávnoie Upravliênie Láguerei (Administração Geral dos Campos). Segundo Alexandre Soljenítsin, autor de “Arquipélago Gulag”, falecido em 2008, a URSS era um “imenso mar pontilhado de ilhas de campos de concentração”. Em uma estimativa modesta, ele calculou que de 1918 a 1956, 66 milhões de pessoas foram condenadas a vegetar nesses gulags. E inúmeros psiquiatras soviéticos tiveram um papel de relevo na internação dessas pessoas não só nos gulags mas sobretudo em hospitais psiquiátricos, quando emitiram diagnósticos os mais levianos para acomodar a psiquiatria aos interesses de Moscou, gerando uma onda de protestos internacionais que só colaborou para estigmatizar ainda mais a especialidade que vinha lutando para materializar em tratamentos, todos os constructos que já havia erguido ao longo dos anos.

Esquizofrenia, a Psicopatologia Preferida

A URSS internava nos hospitais psiquiátricos intelectuais que criticavam o regime. Um dos mais notórios desses hospitais era o Instituto Serbsky de Psiquiatria Social e Forense, em Moscou. Com o importante auxílio de psiquiatras completamente comprometidos, desprovidos de todo e qualquer senso ético, os opositores eram julgados e condenados por Moscou, tidos como “irresponsáveis/incompetentes”, o que lhes tirava a condição de estar presente à própria sessão de simulacro de juri. “O castigo psiquiátrico era dado principalmente a transgressores do capcioso artigo 58 do código criminal, que lidava com atos ‘antissoviéticos’”, explica Félix Maier, escritor e ensaísta brasileiro. Entre os alvos preferenciais estavam os cristãos, trotskistas sobreviventes dos vários expurgos promovidos por Stálin, escritores que de alguma forma criticavam o governo, pintores e músicos, letões, lituanos, ucranianos e poloneses, esses últimos vítimas frequentes por conta do ódio especial que Stálin lhes devotava, e toda a sorte de pessoas comuns, tidas como “reacionárias, capitalistas”, rotuladas como “inimigos do povo”, denunciadas não raramente por membros da própria família.

Em 1959, o Pravda, órgão oficial do governo, publicou uma declaração de Nikita Kruschev, Secretário-Geral do Partido Comunista, a mais alta autoridade do regime: “Um crime é um desvio dos padrões de comportamento geralmente reconhecidos, com frequência causado por distúrbios mentais. (...) Aqueles que começam a exigir a oposição ao comunismo... é claro que o estado mental de tais pessoas não é normal”. Com essa declaração sobre suas mesas, psiquiatras soviéticos diagnosticaram como esquizofrênico – a psicopatologia preferida para rotular aqueles que se opunham ao regime – diversas personalidades. Outros rótulos incluíam paranóia, comportamento anti-social, insanidade irrefreada, disfunção social, transtornos delirantes. Interessante perceber como tais dissidentes recebiam denominações que muito se aplicavam ao próprio regime soviético: paranóico, esquizofrênico e dissociado.

Entretanto, essas disfunções não começaram com Stálin. Sidney Bloch e Peter Reddaway, em seu livro “Soviet Psychiatric Abuse: The Shadow over World Psychiatry” relatam que em 1836 aconteceu aquele que pode ter sido o primeiro caso de um opositor do regime russo rotulado como doente mental. A vítima foi o filósofo Pyotr Chaadayev, que depois de publicar uma carta criticando o czar Nicolau I, foi declarado portador de “desagregação e insanidade”. Houve um hiato importante entre 1917 e os anos 30 quando Stálin consolidou seu poder e massificou os expurgos sangrentos que marcaram seu regime. Senhor absoluto da sociedade soviética, que manejava como queria, Stálin baniu o estudo de Freud na URSS, impedindo que a psicanálise se fixasse no país, no âmbito da política de desconstrução do ser humano que conduzia, e que tornou “o novo homem soviético” apenas uma peça de sua engrenagem de moer gente.

Negação do Paraíso

O reinado de terror conduzido por Stálin e que vitimou mais de 64 milhões de pessoas, prescindia da sutileza de exigir um laudo configurando um opositor como doente mental. O NKVD, conduzido por figuras sinistras, sádicas, pervertidas e completamente desvinculadas, fascínoras em quinto grau como eram Yagoda, Yezhov, Beria, Abakúmov, pura e simplesmente seguiam as ordens de prender e matar emitidas por Stálin e nada mais. Tentando se afastar de Stálin e livrar a própria cara, já que estava com os dois braços tintos de sangue, Nikita Kruschev, o sucessor do tirano da Geórgia, no rastro da política de desestalinização, libertou presos de consciência reclusos em hospitais psiquiátricos, mas em compensação passou a utilizar a psiquiatria como elemento de coação e clausura contra dissidentes políticos e outras pessoas non gratas ao regime.

O Dr. Walmor J. Piccinini, Professor da FUMM – Fundação Universitária Mário Martins, de Porto Alegre, pesquisador da história da psiquiatra brasileira e talvez o maior historiador da especialidade no Brasil, publicou um artigo na edição número 8, de agosto de 2007, da revista eletrônica “Psychiatry On Line Brazil” (www.polbr.med.br), intitulado “Abusos da prática psiquiátrica na URSS e o VI Congresso Mundial de Psiquiatria em Honolulu”, onde revela que na era de Kruchev houve uma espécie de degelo com a repressão do NKVD/KGB perdendo seu caráter massivo e tornando-se mais sofisticada e seletiva. “Em 1964 iniciou-se a era Breznev e o stalinismo ressurgiu com força; o KGB tornou-se mais “científico” e aprimorou os processos de vigilância e repressão, dirigindo-a para erupções de dissidência, mantendo a sociedade prisioneira do medo”.

Citando o ensaísta português João Tunes, Piccinini diz: “Os métodos repressivos mais vulgarizados passaram a ser os exílios internos – deportação para vilas e aldeias do interior, onde o dissidente passava a viver fora do seu relacionamento social – e a sua entrega aos psiquiatras do partido, onde eram diagnosticadas patologias de dissonância social que levavam à internação compulsória em manicômios, enquanto perdurassem as “doenças mentais” de “comportamento em disfunção social” como negar que a URSS era o paraíso na terra ou trair a pátria ao relacionar-se com estrangeiros. Segundo o conceito da normal sanidade mental do "homem novo soviético", só um louco poderia discordar daquela abolição da exploração do homem pelo homem e valorizar as virtudes do Ocidente, incluindo as democráticas. E era assim que muitos presos políticos na URSS, até à "perestroika" em meados dos anos 80, eram condenados, em julgamentos sumários, a "reclusão em unidades de tratamento psiquiátrico até confirmação da sua recuperação social".

O Olhar do Ocidente

A prática de institucionalizar pessoas com capacidades de discernimento e indignadas o suficiente para desafiar o regime fez com que inúmeras delas padecessem de um grande sofrimento psíquico, um sofrimento que chegou ao conhecimento do Ocidente somente em 1965 com a publicação de “Ward Seven”, de Valery Tarsis. E foi esse sofrimento que experimentaram Konstantin Babitsky, matemático e linguista; Larisa Bogoraz, linguista; Vadim Delone, poeta; Vladimir Dremlyuga, operário da construção civil; Victor Fainberg, matemático e escritor; Natalia Gorbanevskaya, poeta e escritora (grávida à época da prisão); Pavel Litvinov, professor de física e matemática e Tatyana Bayeva, estudante, filha de um proeminente biólogo. Todos foram presos no dia 25 de agosto de 1968, na Praça Vermelha, em Moscou, quando faziam uma demonstração contra a invasão soviética e de outros membros do Pacto de Varsóvia (a aliança militar do bloco soviético) à Thecoslováquia, ocorrida quatro dias antes.

Embora Bayeva tenha sido liberada, todos os demais foram presos, processados e, tomados por doentes mentais, internados em hospitais psiquiátricos. A poetisa Gorbanevskaya foi parar no Hospital Psiquiátrico de Kaschenko, onde os pacientes eram “acalmados” com uma dose de stelazine, um potente anti-psicótico. Deste modo, o Kremlin conseguia reduzir o opositor a um agente passivo, um robô inócuo do sistema, sem a menor periculosidade, condenado a viver ora sedado ora robotizado enquanto permanecesse a certeza de que “o paciente” detinha algum grau de imaginação, idéias e opiniões próprias. “O conhecimento do envolvimento dos psiquiatras soviéticos chegou ao Ocidente e logo desencadeou uma crescente revolta nos seus colegas ocidentais que passaram a exigir, como forma de pressão para a liberação das vítimas dessa ação punitiva, o afastamento dos psiquiatras soviéticos do convívio com os demais na Associação Mundial de Psiquiatria”, afirma Piccinini.

Vários outros casos de abuso e mau uso da psiquiatria pelos profissionais da URSS vieram a lume nos anos seguintes. A universitária Olga Ioffe foi presa sob a acusação de criticar o regime com suas poesias, escritas por elas e por seu pai Y. Ioffe, e internada com seu pai em um manicômio em 1970, com o diagnóstico de “esquizofrênica crônica”. Valeria Novodvorskaya, detida por distribuir panfletos com uma poesia em que criticava o PC, foi diagnosticada pelo Instituto Serbsky de Psiquiatria Social e Forense como “esquizofrênica paranóica” e internada na clínica psiquiátrica da prisão de Kazan em 1970. No mesmo ano, Zhores A. Medvedev, médico geriatra e cientista político, foi confinado em uma clínica psiquiátrica de Kaluga. Segundo Maier, a publicação clandestina “Crônica” noticiava esses tipos de julgamentos criminosos que ocorriam em Moscou, Gorki, Kharkov, Riga, Kiev e em mais duas cidades da República Soviética do Uzbequistão.

“Nosso Mini-Auschwitz”

O General Pyotr Grigorenko, ucraniano de nascimento, crítico de Kruschev e que se manifestou contra a invasão da Thecoslováquia, Andrei Sakharov, Yuri Orlov e Alexander Esenin-Volpin, foram internados compulsoriamente pelos mesmos motivos, também no início da década de 70, assim como o ativista Vladimir Bukovsky. Este último conseguiu ser libertado e trocado por Luis Corvalan, líder comunista chileno em 18 de dezembro de 1976. “Essa troca comprovava que a União Soviética mantinha prisioneiros políticos”, ressalta Piccinini. “Após sua liberação, Bukovsky, que havia sido diagnosticado com esquizofrênico, teve um encontro com um grupo de psiquiatras ingleses que declararam que o mesmo não era esquizofrênico e portanto evidentemente sadio”. Um ano depois de sua libertação, Bukovsky concedeu uma longa entrevista ao Dr. E. Fuller Torrey, fundador do Treatment Advocacy Center e Diretor do Stanley Medical Research Institute.

Publicada na Psychology Today, em junho de 1977, a entrevista de Bukovsky revela os porões de um regime extremamente cruel, desprovido de qualquer moral, capaz de usar todas as artimanhas e mentiras para consolidar seu poder absoluto. Os profissionais que atuavam no Hospital Especializado de Leningrado, onde Bukovsky ficou, sabiam que todos os “pacientes” eram na verdade cativos. “Muitos deles eram bem cínicos; um deles me disse que o hospital era mais parecido com um campo de concentração; ‘é nosso mini Auschwitz’, disse ele”. Um detalhe que tipifica bem a condição de excepcionalidade dos internos desses hospitais é que enquanto os hospitais psiquiátricos “normais” eram administrados pelo Ministério da Saúde, os “hospitais especializados” eram controlados pelo Ministério dos Assuntos Internos, um órgão do executivo que tinha entre outras finalidades vigiar a população, detectar e prender eventuais opositores ou alguém que manifestasse certa liberdade criativa.

Em determinado momento da entrevista, Torrey perguntou se era verdade que os pacientes mentais tinham menos direitos que os prisioneiros civis na União Soviética. Bukovsky respondeu: “Sim, absolutamente. Como paciente mental você não tem direito. Qualquer protesto que você faça, eles dizem que é por causa de sua doença mental. Qualquer coisa que você diga vai fazer parte da sua história clínica e depois será utilizado para mantê-lo internado indefinidamente. Qualquer coisa que você escreva – cartas ou outras coisas – vai para sua pasta e pode ser utilizada contra você. Se você reconsidera, eles dizem que isso prova que você era louco. Se você se recusa a reconsiderar, protesta, eles dizem que isso prova que você é louco”. Não havia, portanto, nem um simulacro de diagnóstico. A intenção era tão somente manter isolado o perigoso virus da contestação que o opositor poderia espargir.

“Mentalidade Livre”

Mesmo assim, a pantomima continuava. Bukovsky, que fora diagnosticado ao longo da vida pelos psiquiatras soviéticos como portador de depressão e psicopatias delirantes, suicidas, desagregadoras e desafiantes, chegou à Leningrado como paranóico e esquizofrênico. Sua ficha médica indicava que desde a infância possuía uma mentalidade livre, desarticuladora em relação ao que via e vivia e que por isso havia desenvolvido um repertório de argumentos que confundia e irritava seus interlocutores. Não sem motivo, portanto, G. V. Morozov, chefe do Instituto Serbsky, chegou a postular que a argumentatividade seria um importante sinal de esquizofrenia. Na entrevista, Torrey diz que o responsável pela classificação da esquizofrenia na URSS era o Prof. Snezhnevsky do Instituto de Psiquiatria de Moscou. “Ele afirmou que alteração de conduta na adolescência ou mesmo mais cedo, é muitas vezes sintoma de uma esquizofrenia inicial, especialmente se existir história de doença mental na família”.

Bukovsky reafirma, na sequência, que havia lido alguns trabalhos de Snezhevisky. “Ele é um o maior psiquiatra que atua atrás dos panos, e acha que os dissidentes devam ser diagnosticados como doentes mentais e descartados”. Torrey perguntou se Bukovsky acreditava que Snezhevisky desenvolvera suas teorias da esquizofrenia para acomodar as necessidades do Estado, ou se fora selecionado porque suas teorias eram convenientes. O ativista respondeu que provavelmente a última hipótese estivesse mais próxima da realidade. “É um tipo de seletividade, sobrevivência da teoria mais conveniente; num estado socialista, supõe-se que seja perfeito e então, por definição não há condições sociais que possam criar verdadeiros dissidentes. Por essa razão, o dissidente deve estar louco; a lógica é bem clara”. A íntegra da entrevista pode ser encontrada em http://www.polbr.med.br/ano07/wal0807.php.

Quando esses fatos chegaram ao Ocidente, a WPA – World Psychiatric Association começou a se movimentar. Com pouco mais de 20 anos de existência, a WPA era uma organização ainda carente de recursos e seus dois maiores contribuintes eram a APA – American Psychiatric Association, dos EUA, com quase 19 mil membros, e a All-Union Society of Psychiatrists and Neuropathologists, da URSS, com 21 mil associados. A idéia de banir os psiquiatras soviéticos da organização incluía perder rendimentos que com certeza fariam falta. Mas WPA não se acovardou. Durante o VI Congresso Mundial de Psiquiatria, realizado em Honolulu, no Havaí, em 1977, a entidade não somente condenou oficialmente o mau uso da psiquiatria pelos colegas soviéticos como aprovou a Declaração do Havaí, que estabeleceu um conjunto de princípios básicos que devem guiar os psiquiatras na sua prática.

Para “Curar” Homossexuais

Seguiram-se as resoluções de reprovação contra o uso da psiquiatria com objetivos políticos, emitidas pelo Royal College of Psychiatrists com emenda do Royal Australian and New Zeeland College of Psychiatrists e da Canadian Psychiatric Association. “Em 1982, diante da iminente expulsão da WPA, os soviéticos se retiraram voluntariamente”, lembra Piccinini. No ano seguinte, a WPA estabeleceu condições estritas para um possível retorno dos soviéticos, mas foi somente em 1989 que os delegados soviéticos presentes ao VIII Congresso Mundial de Psiquiatria, realizado em Atenas, Grécia, finalmente concordaram que, de fato, o abuso da psiquiatria por motivos políticos tinha ocorrido em seu país. “A All-Union Society of Psychiatrists and Neuropathologists, comprometeu-se a descontinuar e impedir esses abusos, reabilitar suas vítimas e democratizar a profissão de psiquiatra; com isso teve seu retorno a WPA permitido”.

A URSS pode ter sido o palco da passagem mais negra da história da psiquiatria, mas de longe não foi o único no período pós-guerra. O regime segregacionista da África do Sul recorreu a procedimentos que visavam “curar” militares homossexuais através de tratamento com hormônios, eletrochoques e cirurgias. Uma reportagem publicada no jornal Mail and Guardian, de julho de 2000 (que foi repercutida por outros órgãos de imprensa do pais), revela que entre 1971 e 1989, perto de 50 homens e mulheres, servidores das forças armadas, foram submetidos a tais procedimentos visando a “correção” de “desvios sexuais”, tarefa levada a cabo por cirurgiões e psiquiatras do exército. Além disso, psiquiatras sul-africanos emprestaram seus registros profissionais para a assinatura de laudos fabricados e atestados de óbito, num flagrante desrespeito às mais elementares condutas de ética profissional.

O regime de segregação da África do Sul se pautava por uma clara conduta de limpeza étnica, uma política que fazia lembrar o nazismo e que mais tarde ganhou vivas cores nos Bálcãs. O líder dessa política balcânica foi o psiquiatra e líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic, recentemente preso. A CCHR – Citizens Commission of Human Rights afirmou que captura de Karadzic foi um prêmio à causa da justiça, uma vez que sua ação na Guerra da Bósnia lembrara o período mais negro da ditadura nazista na II Guerra Mundial. Ressalvando que a CCHR tem como co-fundador o Dr. Thomas Szasz, psiquiatra que pega a tese de que não existe “essa coisa chamada doença menntal”, a mesma organização já havia acusado pelo menos dois outros psiquiatras como “arquitetos da campanha de limpeza étnica na Bósnia-Herzegovina, Croácia e Sérvia”. Juntamente com Karadzic, esses psiquiatras atuaram no cerco de 43 meses à Sarajevo, que custou perto de 12 mil vidas, e no massacre de 8 mil muçulmanos em 1995.

Psiquiatra Sérvio Genocida

O Dr. Edward Klain, psiquiatra e consultor para assuntos militares relacionados à Sérvia, diz em seu documento preparado para o CCHR (“Psychiatry: An Industry of Death”), que os sérvios incentivaram, por meio de propaganda, a limpeza étnica através de massacres premeditados e estupros como forma de aterrorizar a população. Psiquiatras sérvios, a soldo de Karadzic, davam o verniz científico” aos atos genocidas, justificando-os como uma luta de vida e morte entre os sérvios supostamente superiores contra os muçulmanos inferiores. O psiquiatra Jovan Raskovic, treinado por Karadzic, afirmava que os croatas sofriam do complexo freudiano de castração e que isso deveria ser aproveitado pelos sérvios superiores a eles e aos muçulmanos. Com isso, Raskovic tornou-se extremamente popular na Sérvia, granjeando popularidade e sendo saudado como o melhor psiquiatra e cientista de sua época.

Raskovic morreu em 1992, não antes de deixar um epitáfio que soa como mea-culpa pela responsabilidade numa das maiores tragédias do pós-guerra. Em entrevista a um jornal europeu, ele dizia que se sentia responsável pelo que havia ocorrido, porque tinha feito preparativos para a guerra, embora não do ponto de vista militar. ”Eu não desejava criar uma estranheza emocional no povo sérvio; nada disso deveria ter acontecido”. O fato é que aconteceu e uso dos estados emocionais mais primitivos da população, disparados, estimulados, avultados e canalizados por profissionais da psiquiatria, liderados por um psiquiatra clínico, só resultou numa catástrofe que fez a Europa reviver um período que se imaginava perdido na história. Infelizmente não está e o uso da psiquiatria como chibata é sobejamente utilizado até hoje e o seu maior expoente talvez seja a China.

Filho dileto do stalinismo cru e acabado, Mao Tsé-tung não precisava de justificativas para encarcerar, torturar e matar 100 milhões de pessoas como fez no seu reinado de horror absoluto que durou de 1949 a 1976. Durante esse período, os bons usos da psiquiatria estavam restritos apenas aos donos do poder, qual seja, Mao e seu pequeno círculo de sicários. Com a morte de Mao e a subida de Deng Xia-ping ao poder, a China adotou práticas que se pareciam com as de Kruschev no que dizia respeito a dissidentes. E a psiquiatria chinesa passou a cumprir seu papel no repertório de dor e sofrimento que o regime comunista de Pequim continuou a impingir aos seus cidadãos. Não é porque até pouco tempo atrás crescia quase dois dígitos por ano, que a China contemporânea deixou de ser a China de Mao. O uso político da psiquiatria é bem conhecido e Pequim interna e medica em massa, a fim de impedir qualquer movimento contestatório. As maiores vítimas são dissidentes e religiosos.

Internações compulsórias na China

Mas cidadãos comuns também sofreram “punições psiquiátricas”. No dia 4 de junho de 1989, tanques chineses invadiram a Praça da Paz Celestial, onde se concentravam milhares de estudantes que reivindicavam reformas política e econômica. A violentíssima repressão do governo chinês resultou na morte, segundo o NSA – National Security Assocacion, dos EUA, em aproximadamente 500 mortos. O número de prisões efetuadas foi absurdo. Além de encarcerar Wang Dan, o líder estudantil, Chai Ling e Wu´er Kaixi, outros dois líderes, diversos outros participantes foram presos, inclusive soldados da guarnição pequinesa que num primeiro momento se recusaram a atacar os manifestantes. Psiquiatras chineses colaboraram para manter os cidadãos cativos, emitindo laudos de insanidade para vários deles e dopando seguidamente vários presos políticos que só foram libertados, a maioria deles, dez anos depois.

Robert Van Voren, do GIP – Geneva Initiative of Psychiatry, diz que há excelentes psiquiatras na China que desaprovam essas medidas, mas que necessitam de auxílio externo para combatê-las. “A utilização arbitrária de internações como meio de repressão política na China tornou-se mais clara para o mundo em 1999, quando foram detidos e internados como psicóticos centenas de membros do movimento religioso Falun Gong, que havia sido proibido pelo governo chinês”. Em 2001, cinco integrantes do grupo se auto-imolaram na praça Tiananmen, em Pequim, em protesto contra a proibição imposta, o que forneceu argumentos ao governo para a internação de seus membros. Dados não oficiais estimam em 600 o número de integrantes desse grupo que estão internados como psicóticos. Esses números são confirmados pela Human Rights Watch.

Segundo o relatório redigido pela entidade juntamente com a GIP, "os psiquiatras que trabalham para a justiça chinesa diagnosticam, em algumas categorias de indivíduos dissidentes, doenças mentais perigosas e os enviam durante longos períodos a manicômios". É o caso de Wang Wanxing, militante político detido pela primeira vez em meados dos anos 70, que passou a maior parte do tempo em instituições psiquiátricas e que passou por sessões de eletrochoque e acupuntura elétrica, de acordo com o HRW. A nota triste de todo esse quadro é que, diferentemente do que acontecia na URSS, quando o mundo fechado do Kremlin não deixava vazar nada e o que chegava de informes ao Ocidente era por via clandestina, na China, até jornais noticiam tais fatos. Mesmo assim, poucos governos pressionam Pequim para que pare de usar a psiquiatria como instrumento de repressão.

A Psiquiatria Política no Brasil

Há casos do mau uso da psiquiatria relatados por colegas mexicanos, cubanos, salvadorenhos, argentinos, chilenos, paraguaios, venezuelanos (inclusive atualmente devido à “bolivarização” forçada que Chavez impõe ao país), portugueses, espanhóis, israelenses, brasileiros. Por aqui, a moda de violar os princípios da psiquiatria, tão bem descritos por Piccinini (“A psiquiatria é filha da Revolução Francesa; nasceu para defender os doentes mentais e a tratá-los com recursos que foram desenvolvidos pela estreita convivência com quem sofre”) também foi corrente. No Brasil, a psiquiatria era tida como “de direita” e teve sua imagem aliada a presos políticos padecendo nas mãos da ditadura, sofrendo toda a sorte de abusos. Os psiquiatras foram associados a torturadores e agentes do sistema anti-direitos humanos do cidadão, consortes de uma política macabra de exceção.

A Dra. Iraci Schneider, psiquiatra clínica, em seu artigo “O uso político da psiquiatria: a luta antimanicomial”, publicado no Jornal Mineiro de Psiquiatria, de agosto de 2005, diz: “O eletrochoque, procedimento terapêutico altamente eficaz, recomendado internacionalmente em todos os grandes centros, pela OMS – Organização Mundial da Saúde, e por toda a psiquiatria moderna e - há uma censura branca deste dado - indolor, e que não lesa, destrói, nem “frita” os neurônios de ninguém, foi subliminarmente relacionado aos choques aplicados pelos torturadores nos “porões da ditadura”; aliás, o termo usado para se referir ao ambiente hospitalar psiquiátrico era – e ainda é – “os porões da loucura”. Mas no Brasil, a psiquiatria revelou-se mais política e menos prática do que em outros países. ”Temia-se, à época, falar abertamente contra o regime e a psiquiatria foi a metáfora perfeita, bandeira escolhida a dedo como plataforma eleitoral”.

Em seu artigo, Schneider diz que os psiquiatras eram visto como “do sistema”, portanto suspeitos, “carcereiros” que medicavam (“embotavam”) pessoas e as internavam (“excluíam”). “Dava-se a entender que a internação tinha caráter punitivo e o tratamento era, na realidade, uma repressão a serviço do sistema”. A esquerda brasileira partia de um pressuposto até lógico dentro de sua ótica marxista-leninista de ver os fatos: se a URSS internava os descontentes tomando-os como loucos, porque aqui seria diferente? “As denúncias da violência soviética contra os dissidentes eram arrasadoras e constantes nos congressos internacionais, mas estes fatos não eram divulgados, a não ser raramente, na mídia brasileira; o grupo anti-manicomial, cuja prática é bastante ruidosa, omitiu sistematicamente qualquer crítica a esta situação nos anos 70”.

Psiquiatria Engajada

A bandeira política que pregava a “despsiquiatrização” da psiquiatria afirmava que a doença mental era uma ficção capitalista e burguesa. “Na verdade, não existia a loucura que poderia ser vista como uma reação sadia a um sistema que não tolerava manifestações individuais de liberdade”, diz Scheneider. Ela revela em seu artigo que se acreditava que a  “loucura era criativa, transgressora, desafiadora do status quo. Foucault era o livro de cabeceira; a loucura, “subversiva”, criadora, “de esquerda”, desafiava o poder constituído, representado pelo hospital psiquiátrico e pela medicação anti-psicótica, estes “de direita”; Freud já estaria superado; entronizava-se Lacan”. Interessante como os valores se invertem, porque essa loucura celebrada no Brasil, na URSS era motivo mais do que suficiente para enquadrar o sujeito, enfiá-lo num “hospital especializado” deixá-lo mofando até que alguém se apiedasse dele. Só que, claro, a loucura na URSS era de direita, portanto, sem as virtudes que só a esquerda tinha.

E essa inversão se expressava na figura mais incensada na época: Franco Basaglia. Proponente da destruição do modelo psiquiátrico em voga, Basaglia, que era comunista, desmantelou o modelo manicomial italiano, que julgava excludente, bancando o libertador de almas. Os pacientes desinstitucionalizados conviviam muito bem com suas famílias, o que mostrou o acerto da política de Basaglia. O que o médico ladinamente não dizia, entretanto, é que ele prescrevia aos liberados uma nova classe de medicamentos recém-descobertos, os neurolépticos, a primeira geração de anti-piscóticos introduzidos na França, em 1952, por Delay e Deniker. “As drogas agiam nos delírios e alucinações bem como nas grandes agitações e transtornos de comportamento que, até então, levavam à segregação”, ressalta Schneider. Medicados e controlados, os pacientes podiam viver fora dos muros.

É realmente impressionante como a dialética comunista é flexível a ponto de abrigar umas dez dobradiças em sua curvatura. Mesmo levando em conta que Hitler usou psiquiatras para fazer os serviços mais podres, e tendo em mente o uso da psiquiatria por diversos outros governos – de direita e de esquerda – ao longo dos anos, foi na URSS, o berço da praxis comunista, que a psiquiatria encontrou seu pior momento, prestando-se um serviço para o qual não fora concebida, sequer imaginada. Os valores que valiam na URSS para internar e assassinar – e não foram poucos os que faleceram nos porões dos “hospitais especializados” soviéticos – eram os mesmos que, fora da URSS, eram enaltecidos como o aríete do pensamento de vanguarda. Por aqui, os psiquiatras tiveram de aguentar pechas de direitistas, mas raros se prestaram ao papel de servir ao Estado, pelo menos não com o mesmo vivo entusiasmo dos profissionais da “psiquiatria engajada” da URSS que, durante todo o período em que foi manejada como um tacão sobre os dissidentes, jogou no lixo sua vocação de estar ao lado do limítrofe, auxiliando nas diversas travessias entre loucura e lucidez. Ela a psiquiatria soviética ficou louca. E não louca na forma exuberantemente vivaz e criativa como concebiam os comunistas brasileiros, mas louca como só o insano regime soviético pôde ser, naquele que foi um dos períodos mais degradantes da história da civilização ocidental e que fez da psiquiatria, uma das mais nobres especialidades, sua cúmplice de ocasião.

Sobre o Autor:

José Antonio Mariano- é psicanalista e jornalista especializado em saúde mental Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Box - Cinco eram as vítimas do abuso psiquiátrico:

Segundo o Dr. Walmor Piccinini, cinco tipos de vítimas sofreram abuso por parte dos psiquiatras soviéticos:

Defensores dos direitos humanos e da democratização – Cerca da metade dos casos documentados caem nesse grupo. Eles incluem Plyusch e Medvedev e outras figuras notáveis como Gorbanevskaya e Shikhanovich. Eles agiram de diferentes maneiras, através de petições, apelos demonstrações pacíficas e similares, solicitavam ao governo soviético que respeitasse o direito legal dos cidadãos. Fazendo isso, eles procuravam agir dentro dos limites da lei soviética.

Nacionalistas – Dissidentes que procuravam maiores direitos para seus grupos étnicos, de acordo com a constituição soviética, que garantia, em teoria, uma grande autonomia para cada uma das 15 repúblicas constituintes da URSS. Mykola Plakhotnyuk, por exemplo, um jovem médico ucraniano, foi preso em 1972, por distribuir samizdat (sistema de contrabando de manuscritos de intelectuais soviéticos para o Ocidente, ou de distribuição secreta de escritos dentro da própria URSS); foi diagnosticado como esquizofrênico com “mania de perseguição”, e considerado incapaz. Foi mantido em prisão desde então.

Os que queriam emigrar – Pessoas que queriam emigrar da URSS. Entre eles judeus e alemães do Volga que requereram para retornar às suas terras ancestrais, bem como russos. Nikolai Kryuchkov solicitou visto para emigrar para os EUA em 1974. Durante a visita do Presidente Nixon a Moscou, ele foi confinado num hospital psiquiátrico; no seu prontuário estava escrito: “razão para hospitalização – desejo de emigrar da URSS”.

Crentes religiosos – Indivíduos que eram hospitalizados por suas crenças religiosas. Eles eram internados por distribuir literatura religiosa, formando grupos não autorizados etc. Gennady Shimanov, um jovem cristão ortodoxo, foi colocado a força num hospital psiquiátrico por sua participação num grupo informal e só foi liberado após uma greve de fome.

Cidadãos inconvenientes a tiranetes – Esse grupo compreende pessoas que eram inconvenientes a funcionários do governo ou do partido. Eram internadas quando insistiam em queixas contra abusos da força de burocratas.

Box - “Já me contentava não ser tratado como bicho”:

Trecho do livro “Uma estadia no inferno russo: Lágrimas na chuva: uma aventura na URSS” Porto Alegre, L&PM, 2002, páginas 113 e 114, de Sérgio Faraco

“Os medicamentos produziam seus efeitos. Já não sentia medo, mas também perdera a vontade de deixar a cama. No início contava os dias, para ver quantos faltavam para o vigésimo. Depois nem isso. Dias brancos como os limites caiados do quarto, com nesgas de um pálido colorido: as refeições, quando trocava duas palavras com a servente, e as visitas da enfermeirinha: a noturna, se a chamava, e a matinal, quando ela me barbeava e me convencia de que era preciso tomar banho. Da porta do banheiro comandava o minueto do sabonete: ali, apontando a cabeça e ali, apontando as axilas, e ali, apontando o umbigo, a virilha, os pés. E vestisse o pijama limpo e as novas meias que trouxera. Numa das manhãs em que Lara me assistia, mencionei que, antes de ser internado, estava escrevendo um livro. Ela conseguiu que meus cadernos fossem requisitados pela médica. Era muito dedicada e alguma vez, em meu desamparo, cheguei a pensar que era ela o messias que esperava. Mas não, não podia ser, eu esperava mais do que dedicação, do que afeição, do que carinho – já os tivera com Nina. Eu esperava alguém que, em seu comunismo solidário, se rebelasse contra a insensatez, como eu me rebelara, e tivesse a têmpera dos que não recuam. Eu tivera medo e recuara. E agora não esperava nada, nem messias nem coisa alguma. Já me contentava não ser tratado como bicho”

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SCHNEIDER, I. O uso político da psiquiatria: a luta antimanicomial. Jornal Mineiro de Psiquiatria, agosto, 2005. Disponível em http://www.hospitaldepsiquiatria.com.br/menu_03/artigos/art_010.htm Acesso em 5 de outubro de 2012

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