A Construção da Subjetividade nas Diversas Dependências

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Resumo: Este artigo objetiva discutir, a partir de algumas reflexões presentes na obra “O Pequeno príncipe”, alguns aspectos da condição humana. Autores como Rollo May (1973) e José Antonio Zago (2011) contribuem com o argumento de autoridade o que legitima nossa reflexão. A linha de raciocínio para a redação do presente artigo foi definida seguindo duas questões centrais: o vazio existencial e as raízes dos conflitos psicológicos.

Palavras-chave: Condição humana, vazio existencial e conflitos psicológicos.

1. Introdução

“-Os homens do teu planeta – disse o pequeno príncipe – cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim... e não encontram o que procuram...” (O Pequeno Príncipe, 2006, p. 81)

No início do século vinte, Sigmund Freud apud May (1973), descreveu como a causa mais comum do vazio existencial a dificuldade do ser humano em aceitar seu lado instintivo e sexual e o resultante conflito entre o que é socialmente aceito e os impulsos sexuais. Posteriormente, Otto Rank apud May (1973), na década de vinte, escreveu sobre as raízes dos problemas psicológicos daquela época que seriam: sentimentos de culpa, inferioridade e incapacidade.  Já na década de trinta, o conflito psicológico tinha como foco um denominador comum, o qual segundo indicado por Horney apud May (1973), era a hostilidade entre grupos e indivíduos. E quais seriam nossos problemas atuais para tanto vazio interior? Seria possível o alcance da integração interior em uma sociedade que se encontra tão desintegrada? E qual seria a origem psicológica da experiência de vazio?

Segundo May (1973) a sensação de vazio observada a nível individual e social não deve ser entendida no sentido de que os indivíduos são vazios ou desprovidos de potencialidade emocional, pois nenhum ser humano é oco. A idéia de incapacidade, infelicidade, falta de perspectiva de carreira ou objetivo a respeito da própria vida e do mundo em que vivemos resulta, em geral, na sensação de vazio. O vazio a longo prazo resulta na convicção pessoal de incapacidade de dirigir a própria vida ou modificar o pensamento das pessoas em relação a si mesmo ou ser reconhecido no mundo. Dessa forma surge o desespero e a futilidade do nosso cotidiano.

A reflexão sobre o tema acima apresentado, mais precisamente sobre o vazio existencial e as raízes dos conflitos psicológicos, será subdividida em nove itens: O lugar dos sentimentos e das emoções em nosso discurso; O lugar da solidão e do isolamento social; Em busca da própria história: a reflexão; Ter ou ser, o que fazer; O lugar destinado à consciência: o sentido; A busca da autonomia; O avanço tecnológico e a interação social; O ter como lugar da aparência e o Encontro com a felicidade. Por último, seguindo os ensinamentos de Jung que recomentava aos seus pacientes ainda indecisos sobre fazer ou não terapia, uma pequena reflexão sobre o lugar da espiritualidade para a vida humana.

2. O Lugar dos Sentimentos e das Emoções em Nosso Discurso

O presente artigo é iniciado com uma abordagem sobre a diferença entre: sujeito, indivíduo e pessoa. No decorrer do que é pensado para tais questões será utilizada a palavra indivíduo por acreditar que seja a qual melhor se enquadra nessa concepção ou dentro do que se entende por condição humana. As definições segundo Ferreira (1993) são: “sujeito adj 3. Que se sujeita à vontade alheia”, ou seja, é sujeitado por quem o define. “Indivíduo adj 3. A pessoa humana, considerada em suas características particulares”, únicas no mundo todo. Não existem dois indivíduos com o mesmo corpo, mesma voz ou que passaram pela mesma história sem ter suas singularidades na forma de ver o mundo. “Pessoa (ô) sf 1. O ser humano em seus aspectos biológicos, espiritual e social”. Aquela que é convocada nas situações cotidianas, ou seja, você, com suas opiniões e idéias.

May (1973) em um de seus pensamentos expressou que a maioria dos indivíduos é capaz de classificar as diferentes partes do motor de um carro, por exemplo, porém quando se trata de um relacionamento interpessoal, sua linguagem torna-se ineficaz. Como complemento desse pensamento, temos a idéia de Rahm (2012) que fez a reflexão de que, em pleno século XXI onde o espaço e as profundezas do mar são investigados, o homem ainda não busca o conhecimento de si.

É notável o aumento de crianças, adolescentes e jovens nos consultórios em busca de alívio para aquilo que nem mesmo conseguem nomear. Pouco se fala sobre o que se sente. Sentimentos e emoções estão sendo deixados de lado. Não nos é mais permitido sentir ou refletir sobre o que é nosso, e de certa forma, estamos nos permitindo adentrar nessa alienação, e um exemplo concreto dessa permissão é não nos contentarmos apenas com orientações a respeito de mudanças de hábito que por si só beneficiariam nossa saúde.  Queremos sair dos consultórios com as “pílulas mágicas” que tudo resolve sozinha, mantendo-nos, assim, distantes de nós mesmos, sem o compromisso de perceber que somos responsáveis pelas nossas escolhas e também pelas conseqüências dessas. Certamente tomar consciência de sua própria história e modo de agir pode ser doloroso e nos fazer se deparar com “coisas” que talvez fosse melhor que ficasse no fundo do nosso baú. Porém, somente com o enfrentamento e reconhecimento de nossas partes fragilizadas é que conseguiremos adquirir maturidade e meios para lidar com as situações conflituosas do dia a dia e evoluir como pessoa.

Segundo Zago (2011) com a dificuldade cada vez maior de olharmos para nosso interior, a tendência é buscarmos explicações e soluções para nossas dificuldades no externo, atribuindo as conseqüências de nossa vida a outras pessoas, fazendo desse mecanismo um ciclo, ciclo que nos mantém longe de nós mesmos, pois apenas potencializa nossa dificuldade de olharmos para nosso íntimo.

Zago (2011) ainda lembra que se conhecer, ter ciência do sentido de sua existência, não significa que o indivíduo tenha que estar bem o tempo todo, pois isso é humanamente impossível, uma vez que transitamos em nossos diversos sentimentos durante nossa jornada. É de suma importância que possamos sentir a solidão, a raiva, a angústia, pois somente vivenciando esses sentimentos é que vamos adquirir ferramentas para aprender a conviver de forma saudável em busca de um crescimento interior.

3. O Lugar da Solidão e do Isolamento no Social

Estar inserido em um contexto ou participar de um evento deixou de ser um desejo individual de satisfação, diversão, busca por companheirismo ou compartilhamento de experiência do calor humano. Participar de um evento, hoje em dia, pode significar apenas não mais estar sozinho. Há um engano de que o “êxito social” nos constitui enquanto pessoa, pelo fato de nunca estarmos sós. Ser socialmente aceito é acreditar que raramente estará só. Não ser socialmente aceito é um fracasso. A ânsia pela companhia de outras pessoas não se dá pelo simples desejo de preencher o vazio interior, mas sim pelo motivo mais fundamental de que o ser humano se constitui sob o olhar do outro e quando está desligado de outras pessoas ou sozinho, teme perder-se enquanto pessoa (MAY, 1973).

Mas por nunca ter se permitido estar sozinho consigo mesmo, nunca poderá saber o que “derrubou” pelo caminho da vida e se perdeu. Um pouco de solidão, além de necessário é útil para nos conhecermos. Solidão é como percebemos o isolamento social, mesmo quando estamos ou não na presença de outras pessoas. O maior problema da solidão é estar sozinho consigo mesmo e deparar-se com seus desencontros, pois após ser cortado o cordão umbilical, o ser humano torna-se sozinho e assim caminha até a morte.

Viver no vácuo por muito tempo para o ser humano é humanamente impossível. É necessária uma evolução para não estagnarem-se, e assim, na ânsia de se sentirem poderosos, os indivíduos estão deixando de viver sob a autoridade morais ou de igrejas, porém submetem-se a “autoridades anônimas” como a opinião pública (MAY, 1973).

4. Em Busca da Própria História: a reflexão

Estamos “cheios” de nosso vazio, e tão constante e evidente está essa situação que até mesmo os filmes mais recentes têm abordado esse tema como, por exemplo, o filme infantil “Rango”, queconta a estória de um camaleão solitário que se perde no deserto, o qual interpreto como seu próprio “deserto” interior. E começa, a partir daí, uma jornada à procura de sua própria história. A questão principal de Rango é a pergunta que os demais personagens do filme que o encontram, em um vilarejo no meio do deserto, o fazem e que ele mesmo se faz por várias vezes: “Quem sou eu?” Tentando fugir de si mesmo e de um movimento de reflexão sobre si, Rango cria vários personagens que ele pode ser. Porém sem sucesso em suas tentativas, encontra, no decorrer de sua jornada, um sábio tatu que através de frases como: “O caminho do conhecimento está repleto de obstáculos”, “Se quer encontrar água, tem que primeiro encontrar poeira”, “Cada um tem sua jornada” e “Ninguém pode fugir de sua própria história” o ajuda a refletir sobre sua vida e o faz perceber que somente através da reflexão e olhar para dentro de si mesmo é que será possível se encontrar e encontrar o sentido que cada um dá a sua própria vida.

Já no filme “Comer, Rezar, Amar”, a personagem Liz que, apesar de ter sua vida profissional e pessoal estável, sente-se vazia, e percebendo que sempre teve problemas nos seus relacionamentos amorosos, se dá conta de que precisa se organizar interiormente e reencontrar seus verdadeiros prazeres perdidos para conseguir mudanças no estilo de vida. Dessa forma, larga tudo e dedica-se a vivenciar novas experiências em lugares e com pessoas diferentes em busca do equilíbrio emocional. Em seu caminho encontra um guru, o qual a ajuda a se reorganizar interiormente, fazendo-a entender que o único caminho para o reencontro consigo mesma é através da reflexão.

5. Ter ou Ser, o que Fazer?

Sem o movimento de reflexão o indivíduo se esvazia do ser enquanto se preenche de ter, enão é de difícil compreensão que muitos indivíduos necessitem de algo exterior concreto em que possam se apegar a ponto de escravizar-se e tornar-se dependente. Ao eleger um objeto exterior e utilizá-lo como uma “bengala” ou um apoio em sua vida, o indivíduo pode não mais conseguir dar continuidade a sua trajetória sem esse apoio. É como se o objeto eleito cegasse os olhos, impossibilitando o olhar para o mundo, ou o encontro de formas diferentes de viver. O indivíduo pode criar uma relação afetiva com o objeto de escolha, realizando toda troca de sua vivencia social, amigos, famílias e de si mesmo para manter-se em companhia desse objeto. Quando esse objeto de escolha é uma substância psicoativa, que é a forma extrema de vazio interior, ela se torna uma via de mão única para o prazer, pois independentemente do estado biopsicossocial em que o indivíduo que a busca se encontre, a substância gera o prazer, o que é impossível o tempo todo em relações reais com outras pessoas. Em alguns casos, na adolescência, existe a ilusão de que, sob o uso da substância psicoativa, as formações de vínculos ou pertencimento a grupos sociais sejam facilitados.

O consumo de bebidas alcoólicas por adolescente é um problema que desperta preocupação no mundo todo. A discussão é de grande importância para a saúde pública, sendo necessária a atenção das autoridades, profissionais da saúde, pais e educadores.” (GUERRA, 2011).

Guerra (2011) contribui com a informação de que indivíduos que iniciam o consumo de álcool antes dos 16 anos de idade possuem risco 1,3 a 1,6 vezes maior de desenvolver dependência alcoólica e, para compreendermos o que se entende por dependência, buscamos Bordin que define, em 2007, “dependência como o consumo sem controle” (p. 5).

É importante ressaltar que devemos nos preocupar com a informação fornecida por Guerra, uma vez que o álcool pode se tornar a porta de entrada para as demais substâncias psicoativas, e essa informação fica ainda mais preocupante quando Fioravanti (2005) informa que os transtornos mentais iniciam cedo, desde a infância, e independentemente dos estilos de vida ou das condições econômicas, geralmente apresentam os mesmos estágios de desenvolvimento, com possibilidade de serem persistentes os desajustes emocionais que podem emergir a partir dos 15 anos de idade por meio de uma ansiedade sem razão, de medos intensos ou de uma depressão leve, às quais geralmente se dá pouca importância.

E, ainda refletindo sob essas informações, quando um objeto externo passa a ter sentido na vida do ser humano a ponto de instalar-se a dependência?

Existe uma definição para a fase em que o indivíduo se encontra dependente de uma substância psicoativa que é denominada pelo autor Zago (2011) como síndrome do encantamento, momento em que o indivíduo vive de forma primitiva, preenchendo somente o que diz respeito a suas necessidades corporais e imediatas. É como alienar-se de sua existência. Porém viver apenas de prazer faz com que o indivíduo perca o controle e tenha prejuízos em todas as áreas de sua vida, pois é no desprazer que o indivíduo se remete a ele mesmo e tem a possibilidade de lidar com suas frustrações e obter crescimento pessoal.

Zago (2011) ainda pontua que tomar consciência de suas angústias e crises não resolvidas e que se encontram acumuladas sem o uso da substância psicoativa é doloroso. É preciso elaborar constantemente suas questões para que o crescimento obtido enquanto pessoa não retroceda, pois, são em momentos como esse que existe uma maior possibilidade de retorno ao objeto de escolha que proporciona alívio. Vale ressaltar, contudo, que buscar um encontro consigo mesmo é trabalhoso, e esse trabalho se intensifica ainda mais quando os resultados “positivos” que obteve até o momento sempre estiveram em um objeto externo.

“- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são belas!...” (O Pequeno Príncipe, 2006, p. 36)

6. O Lugar Destinado à Consciência: o sentido

Aos poucos vamos escrevendo nossa própria história, e no decorrer dessa caminhada temos que nos tornar conscientes de como o mundo em que fomos inseridos funciona, e não de forma diferente, temos que tomar consciência de como nós nos constituímos, como pensamos, agimos e sentimos, além da difícil tarefa de aprender a nomear nossos sentimentos e a melhor forma de administrá-los posteriormente. Se, de alguma forma, ou por algum motivo peculiar, às vezes nem mesmo consciente, deixarmos de exercer essa difícil tarefa de olharmos para nosso interior na busca de uma compreensão, corremos o risco de permanecer numa existência desprovida de sentido e sofrer sem nem mesmo ter consciência de nosso sofrimento. Para darmos sentido a nossa existência podemos começar nossa caminhada interior com o seguinte questionamento: quem sou eu? ou ainda: quem não sou eu?

Por que temos que ser iguais aos outros? Por que não ser ou agir diferente? É necessário culpabilizar-se por não ser ou agir igual ou ter o direito de buscar uma nova história? Afinal, a história que já é conhecida, pode-se imaginar como se dará seu desfecho, então, seguindo essa linha de pensamento, por que não se permitir ter novas vivências, experienciando novas sensações, sabores e surpresas?

É humano não saber o que fazer, pois o ser humano aprende fazendo. É humano, também, sentir-se vazio no sentido de que nesse vazio temos a possibilidade de buscar crescimento. O desumano seria acreditar que tudo já se sabe, que nada mais se possa saber.  Não existe uma idéia pronta de acontecimento, a vida vai acontecendo e da mesma forma vai se aprendendo como viver. Acontecimento é um momento único e finito que nos traz experiência e experiência por sua vez não se dá por aquilo que acontece, mas por aquilo que nos acontece diante daquilo que acontece, e são bastante peculiar e individualmente significada.

7. A Busca da Autonomia

Há indivíduos que acreditam ter caído do varal da vida no mundo em que habitamos totalmente prontas, onipotentes e oniscientes. Esses indivíduos não dão abertura para o convívio com seu semelhante num sentido de troca. Alucinados, acreditam em nada precisar do outro. Mas seria possível o ser humano nascer pronto? Para que nos serve a troca de experiência com nosso semelhante? Em que essas experiências contribuem em nossa vida? Por outro lado também existem as pessoas que apenas se condenam como forma de permanecerem protegidas, porém estão buscando sua própria destruição, sendo que ao tomar essa posição, deixam de viver com autonomia, deixando sua vida a mercê do desejo alheio ou de algum objeto que escolhe para “deusificar”.

Zago (2011) descreve que viemos do outro e que é somente no convívio com nosso semelhante que poderemos evoluir enquanto pessoa.

É possível perceber claramente a fuga de si mesmo quando fazemos o convite aos indivíduos para que pensem sobre si. Em nosso cotidiano pode-se observar como sintomas dessa fuga várias formas de possíveis dependências como: a compulsão por religião, comer, comprar, sexo, limpar, obter um corpo escultural e a compulsão pela internet e eletrônicos utilizados para a comunicação. As comunicações virtuais tornam-se mais interessantes, uma vez que não precisamos suportar o lado indesejado ou depressivo do outro e nem mesmo dar uma explicação de nossa ausência. Meios de comunicação virtual podem ser utilizados como uma grande ferramenta para aqueles que apenas utilizam o outro como objeto de seu único e exclusivo prazer, porém o indivíduo que se sente onipotente não abre espaço para se relacionar com as pessoas reais, e quando esses relacionamentos acontecem, não tem um sentido de “pertence”, acaba sendo superficial e, dessa forma, se as pessoas não cabem em uma relação, à tendência é sentir-se muito sozinho, e conseqüentemente, esse sentir-se sozinho pode fazer com que ocorra à busca por um preenchimento que acabe com a dor momentânea através de meios imediatos, sendo essa, talvez, uma das possíveis formas de instalação da dependência.

8. O Avanço Tecnológico e a Interação Social:

“[...] a internet tornou-se, em pouco mais de 20 anos, importante elemento do cotidiano das pessoas no mundo industrializado.” (BRITO, 2010).

As relações, segundo Bauman (2010), ao longo dos anos vêm se constituindo com significativas mudanças. As mudanças nas relações tiveram como contribuição a avançada tecnologia. Hoje dificilmente conseguimos ficar sem mandar mensagens de celular, e-mails ou conectar-se a sites de relacionamento, que para alguns proporcionam relacionamentos efetivos, entretanto para outros proporciona o distanciamento do real e favorece a falta de compromisso. A tecnologia esta moldando de certa forma o comportamento humano.

No “mundo mágico” da internet, nada mais é impossível ou distante do nosso alcance. Aparentemente temos tudo o que precisamos. Nem mesmo a solidão tem lugar no “mundo mágico”, pois mesmo que a pessoa desejada não se encontre nele, existem milhares de outras pessoas esperando para ser seu amigo e fazer com que a solidão passe despercebida.

Bauman (2010) se preocupa com a possibilidade da internet se tornar um paliativo para as dificuldades de interação social ou ainda ser apenas uma facilitadora do isolamento social e de laços fragilizados. Visto por quem utiliza dessa ferramenta de comunicação para os fins citados anteriormente como “vantagem” é que os contatos indesejáveis podem ser interrompidos sem ao menos ter que desculpar-se, somente com um simples movimento dos dedos, sem nem mesmo temer aos julgamentos do outro.

Com o desenfreado avanço tecnológico que vem acontecendo nos dias atuais, e a cada dia com mais atualidades, modernidade e velocidade, as pessoas estão se adaptando a esse novo estilo de vida, o qual proporciona rapidez quando falamos de acesso às informações, pois essas são disponibilizadas em tempo real. Essa mesma tecnologia nos faz, dentro dos desencontros da vida, encontrar indivíduos que há muito tempo não se via e algumas pessoas que até mesmo não nos lembrávamos de sua existência, mas que passaram por nossas vidas em determinado momento e fizeram sentido. Nesse reencontro sentimentos são despertados e tem-se a possibilidade de apropriar-se novamente da história do outro. Com o avanço tecnológico pode-se também ficar mais “próximos” dos ídolos e ser “amigo” de mais de mil pessoas em sites de relacionamento. Todo esse “mundo mágico” ao qual podemos ser inseridos a qualquer hora e a qualquer momento, desde que se tenha um computador conectado a uma rede de internet, vem seduzindo cada vez mais, mais rápido e mais cedo, principalmente, crianças e adolescentes, que são capazes, em alguns casos, de permanecer por horas em frente ao computador. Jogam, conversam e até amam. Tudo é “aprendido” virtualmente.

Que fantástico seria se essa doce ilusão preenchesse-nos como pessoa, fosse capaz de nos confortar nos momentos mais difíceis de nossa vida e resolver nossos conflitos internos solucionando todo e qualquer problema que emergem no decorrer de nossa vida. Mas nem tudo na vida é apenas doce, nem mesmo o “mundo mágico” ficou isento de indivíduos mal intencionados e crueldades capazes de prejudicar os seres humanos, como, por exemplo, os pedófilos que usam dessa ferramenta para um maior e fácil acesso às vítimas.

O “mundo mágico” da internet pode até ser, para alguns indivíduos, fantástico, mas infelizmente nossa mente não possui o poder de deletar facilmente arquivos como um computador, e para esquecermos de algo, primeiramente temos que nos lembrar muito do ocorrido para que seja elaborado e torne-se passado. Não existe noção de tempo, espaço, distância ou contradições em nosso campo psíquico, sendo assim possível realizar todas nossas fantasias na internet sem limitações impostas (RIBEIRO, 2010).

A mídia entra com suas imposições quando o indivíduo não existe. Na inexistência algo oferecido pela mídia cola no indivíduo determinando como ele deve ser, porém quando o indivíduo existe em nada ou quase nada a mídia pode interferir.

Contudo, cabe nesse artigo questionar como e onde ficam as relações pessoais com tanta tecnologia e modernidade que facilitam nossas vidas? Onde fica o toque? O cheiro? O olhar nos olhos? O abraço que conforta? O calor humano? Enfim, coisas simples, porém extremamente essencial e que só nos é possível através do contato direto com o outro? O vínculo de amizade concerne a uma política de igualdade, e de encontros reais. A amizade se dá em uma relação horizontal, baseada em confiança e estima onde experimentações podem acontecer sem julgamentos de valores.

Quando a gente lhes fala de um novo amigo, as pessoas grandes jamais se interessam em saber como ele realmente é. Não perguntam nunca: “Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?” Mas perguntam: “Qual é sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?”... (O Pequeno Príncipe, 2006, p. 19;20).

A dependência do uso de drogas, que é um caso extremo de tentativa de alivio da dor, denuncia todo o sistema que encontra alívio para suas questões existenciais consumindo coisas. Daí surge à tendência de isolamento e marginalização do dependente de substâncias psicoativas, pois esses indivíduos acabam sendo um espelho que reflete o consumismo desenfreado que vivenciamos nos dias de hoje, pois não seria o uso de substâncias psicoativas uma tentativa de reencontro consigo mesmo? (ZAGO, 2011)

A intenção do presente artigo não é ser extremista a ponto de pensar que o ser humano não necessite de nenhum fator externo para se completar enquanto pessoa, pois é extremamente necessário que minimamente o indivíduo possa contar com condições dignas para seu desenvolvimento como saúde, educação, cultura, etc., o que, infelizmente, não é um privilégio de todos os cidadãos brasileiros.

9. O Ter como Lugar da Aparência:

Zago (2011) nos conta que cruelmente, hoje em dia, na sociedade em que nos encontramos o ter tomou a vez do ser. Nada precisa mais ser, apenas ter.

A aparência é o que importa e te dá valor, atribuições, créditos e méritos. Indivíduos são valorizados por aquilo que possuem como bens materiais e não por carregarem valores éticos e morais ou que possuem o dom de ouvir, de respeitar as diferentes culturas e diferentes formas de manifestação do ser humano. No mundo do consumismo tudo é inovado a cada minuto, gerando assim desespero nos indivíduos que necessitam ter as novas criações para suprirem seu vazio existencial e não perderem seu lugar na sociedade. Sociedade essa que as aceitarão de braços abertos com sua nova aquisição.

Esses indivíduos acreditam que seu crescimento pessoal está em suas aquisições, nas coisas concretas que pode ter, porém a insatisfação com as coisas que acumulam aparece quando percebem que não se realizaram enquanto pessoa, pois mesmo possuindo muitos bens tornam-se escravas do consumo de objetos e cada vez mais distantes de si mesmo, uma vez que conquistas materiais não trazem um sentido para a vida. Estar inserido em uma classe social favorável que lhe garante bens materiais não isenta o indivíduo de suas crises e angústias (ZAGO, 2011).

Seria ideal que parássemos para buscar a compreensão dessa necessidade absurda de consumo e não apenas aceitar esse novo estilo de vida introduzindo-o em nosso cotidiano. Será que esse novo estilo de vida é o que realmente buscamos ou apenas reproduzimos o que algumas pessoas, que nem mesmo conhecemos julgam ser interessante? É superficial viver apenas de aparências ou seria possível um preenchimento do ser nessa forma de viver?

“-Os homens não tem mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo pronto em lojas. Mas como não tem loja de amigos, os homens não têm mais amigos...” (O Pequeno Príncipe, 2006, p. 69)

10. O Encontro com a Felicidade:

Seria ideal que encontrássemos nossa própria forma de viver, ou que nos permitíssemos ser feliz dentro daquilo que acreditamos nos fazer feliz. Porém, o controle daquele que é sujeitado pelo que advém da sociedade o faz viver como lhe é esperado que viva, ou seja, de forma igual, reproduzindo a mesma história do outro, de forma controladora, o que torna o indivíduo amargurado e faz com que ele não permita que seu semelhante viva as escolhas de forma diferente, e, se assim fizer é denominado anormal: o indivíduo perigoso, o indivíduo a ser controlado. Dessa forma os indivíduos que constituem a sociedade agem como um satélite, girando em um ciclo vicioso, em torno do que se é socialmente aceito, mesmo que isso lhe custe viver a infelicidade. Controlamos o outro por medo de nosso descontrole? Medo de pensar diferente e descobrir que o que se pensou até agora não é verdade, aprendendo assim que verdade não existe e causando a imensa angústia da dúvida do que fazer com a não verdade, experienciando a sensação de engano.

Em certos momentos em que o vazio interior, resultado do pouco ou nenhum reconhecimento de si mesmo, se torna humanamente insuportável, os nomeados ataques de pânico podem acontecer com manifestações como: ansiedade, falta de ar, disparo do coração e a sensação de que a vida está por um fio, sentimentos esses que são incontroláveis. Essas manifestações parecem não ter nenhum motivo aparente e da mesma forma em que aparece meia hora após a crise esse estado de ansiedade desaparece (ZORZETTO, 2003).

Essas manifestações podem ser sinais de que o controle sobre si mesmo pode estar sendo perdido, e que a vida está precisando encontrar um sentido, pois o vazio interior faz com que os indivíduos se sintam desconectadas do mundo, sem rumo e sem sentido, necessitado dessa forma serem conectadas em sua própria existência.

“-Os homens – disse o pequeno príncipe – embarcam nos trens, mas já não sabem mais o que procuram. Então eles se agitam, sem saber para onde ir.” (O Pequeno Príncipe, 2006, p. 80)

Nada na vida chega automaticamente, e com a felicidade não acontece diferente: tem que ser conquistada dia a dia. A responsabilidade, assim como as conseqüências de cumprir o próprio destino e a própria existência é de cada indivíduo e seria importante refletir sobre a liberdade de escolha, pois, segundo Cardoso (2010) morrem por ano em decorrência do suicídio por volta de 1 milhão de pessoas.

E poderia ser o suicídio uma forma do indivíduo manifestar que nega submeter-se às normas e regras que regem a sociedade ou deixar evidente sua total falta de pertencimento ao mundo no qual habita?

O ser humano possui o bem mais precioso em suas mãos, que é o dom da vida. Porém é livre para realizar escolhas e dessa forma pode optar por não existir, ou seja, suicidar-se, o que significa recusar a si mesmo e sua própria existência. Espiritual e psicologicamente, o significado da idéia de suicídio é muito mais amplo. No suicídio psicológico, a pessoa não vê sentido em sua própria existência, e morre porque escolheu, talvez sem plena consciência, não viver (MAY, 1973).

Mas até que ponto seria ético permitir ou não que um ser humano decida quando interromper sua vida?

11. Metodologia

Através do trabalho realizado com adolescentes e jovens em liberdade assistida e adultos com transtornos decorrentes do uso e abuso de drogas lícitas e ilícitas, surgiu à idéia de realizar o presente artigo de forma que tentasse compreender como se dão: o vazio existencial e as formas de dependência na existência humana.

A pesquisa foi realizada de forma qualitativa, partindo de pesquisas bibliográficas que foram cuidadosamente selecionadas e deram o embasamento teórico para essa temática e relato de experiência do autor.

12. Considerações Finais

Em suma, encerro meu pensamento com uma passagem bíblica que nos mostra que desde 55-57 dC já se pensava na importância de valorizar o ser. Essa passagem resumidamente fortalece a necessidade de valorizarmos nosso interior, ou seja, o que é apenas sentido, na busca de encontrarmos o significado de nossa existência e, concomitantemente, nossa felicidade, pois o que é nosso de forma real e que nos torna pessoa é silencioso e, o que vai causar transformação na vida do indivíduo é o pensamento que se tem sobre si mesmo.

[...] porque as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. (2COR 4, 18)

Sobre o Autor:

Rogério Adriano Bosso - Graduado em Psicologia. Atualmente é pós graduando em Dependência Química – Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP; Especialista em Saúde Mental – Faculdades Integradas Espírita – UNIBEM, Docente da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas - FEBRACT e Pesquisador do primeiro estudo já realizado com usuários de crack sob a Coordenação Geral do psiquiatra Marcelo Ribeiro e Ronaldo Laranjeira: "Perfil sociodemográfico e história natural do consumo de crack entre usuários de sete estados brasileiros e do distrito federal" da UNIAD / UNIFESP, em parceria com a Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas - FEBRACT. email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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