A Esquizofrenia e a Emoção de Lidar

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Resumo: A teoria da Nise da Silveira que traz uma abordagem diferenciada sobre o paciente esquizofrênico e que propõe um olhar amplo, que é observado nos ateliês e oficinas da Casa das Palmeiras, auxilia na exteriorização dos conflitos e desenvolve potencialidades, minimiza o sofrimento, buscando o bem-estar do paciente. Esse tipo de transtorno psíquico ainda está sendo pesquisado sobre a sua origem e na busca da melhor forma de tratamento. Este trabalho tem como objetivo apresentar, ao clínico contemporâneo, observações sensíveis para uma melhor compreensão de como a doença afeta a psique humana. Esse método parte da livre expressão, trabalhando a criatividade, sem repressões, num ambiente livre, de portas e janelas abertas, sendo auxiliado por afetos catalisadores. São observadas as imagens do inconsciente, as pontes e os símbolos que surgem em determinada atividade, para que possa expandir o seu próprio campo de ação, potencializando o entendimento no equilíbrio interior e em sua interação com o ambiente que o cerca, dentro de cada particularidade, respeitando o limite de cada paciente. Essa forma de terapia, através da arte e do afeto, ajuda na estruturação e na recomposição das cisões internas.

Palavras-chave: Esquizofrenia, Nise da Silveira, Casa das Palmeiras.

1. Introdução

O motivo que me levou a escolher o assunto sobre “A esquizofrenia e a emoção de lidar”, a partir da teoria da Nise da Silveira, uma visão da terapia ocupacional, foi por conta, do meu estágio na Casa das Palmeiras. Na experiência com a Casa das Palmeiras, na área de Saúde Mental, pude transitar por vários universos, em territórios diferentes que a Casa proporciona, compreendendo melhor, a particularidade de cada sujeito. Acompanhei os pacientes da Casa, em atividades individuais e em grupo, trabalhando com uma equipe multidisciplinar, em busca da recuperação do paciente e no acolhimento, procurando diminuir a ansiedade para as eventualidades da vida.

Como monitora do ateliê de modelagem, obtive resultados significativos com os pacientes da casa. Buscando sempre acolhê-lhos para que possam sustentar a atividade, trabalhando com eles essa exteriorização dos seus conflitos e desenvolvendo potencialidades. A teoria aqui relatada é aplicada, todos os dias, com forte embasamento, na teoria de Carl Gustav Jung. A casa das Palmeiras, é uma experiência única, que não é fácil expressá-la com palavras,  mas tentarei manifestar aqui, de uma forma simples, procurando expressar com clareza, o tratamento de esquizofrênicos e outros transtornos psicótios, numa clínica psiquiátrica voltada para reabilitação, no tratamento de seus pacientes externos.

Nos prontuários dos pacientes que estudamos na supervisão, vemos indícios claros, do resultado dessa terapêutica. O índicie dos que saíram das instituições, alguns com um processo patológico muito regredido, e que frequenta a Casa, vemos um desenvolvimento positivo, cada um com sua particularidade. A Casa, cumpre o seu papel, no que diz respeito, da sustentação do indivíduo com sua ruptura.  Há pacientes, na sua maioria, cada caso é um caso, não voltaram para as instituições.

A Casa das Palmeiras é uma entidade filantrópica e boa parte da sustentação financeira é por parte de doações. A palavra “filantropia”, vem do grego (filós+ântropos), significa “amigo do ser humano”,“amor a humanidade”, o que tem tudo a ver com a Casa das Palmeiras, proposta por Nise da Silveira, o afeto na terapêutica. A Casa, está erguida há 54 anos, hoje situada no bairro de Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro. Mantém suas portas e janelas abertas para livre expressão, num clima delicioso de liberdade. Onde são vividas experiências através de atividades, que proporcionam uma enriquecedora observação desse mundo ainda tão enigmático, que nos permite penetrar através da arte nessa imagem do inconsciente tão maravilhosa. Vivenciando a rotina, junto a esses pacientes, livres, boa parte do seu dia, em suas atividades. Observando o tempo que tenho com eles, alguns conseguem, de uma forma muito particular, ter uma reabilitação de uma maneira mais sutil a sociedade em geral. Quando os pacientes não estão em crises eles cuidam de si mesmo.

A esquizofrenia é um tipo de sofrimento psíquico classificado entre as psicoses, é também chamada de transtorno psíquico (DSM-IV). Dificuldade em estabelecer a distinção entre a experiência interna e externa. Alguns dos sintomas são: delírios, alucinações, distúrbio desorganizado, comportamento amplamente desorganizado ou catatônico, embotamento afetivo. Existe uma cisma entre o pensamento, comportamento, a emoção. Os sintomas paranóides são muito comuns, como idéias delirantes e alucinações auditivas que são as vozes que comentam e/ou comandam a ação do sujeito. As síndromes psicóticas caracterizam-se por sintomas típicos como alucinações e delírios, pensamento desorganizado e comportamento claramente bizarro, como fala e risos imotivados. O paciente psicótico passa a viver fora da realidade, deixa de ser regido pelo princípio de realidade. A principal forma de psicose é a esquizofrenia. O paciente vivencia a perda do controle sobre ele mesmo, a invasão do mundo externo sobre o seu ser íntimo.

A esquizofrenia, segundo o Compêndio de Psiquiatria, afeta pessoas de todas as classes sociais, atingindo cerca de 1% da população, de modo geral inicia antes dos 25 anos de idade. Temos que pensar também, não somente no cuidado com o paciente, as famílias muitas vezes, não recebem o cuidado devido. Com isso, são submetidos ao ostracismo social, devido a grande ignorância a respeito do transtorno. Mesmo que seja discutida como uma doença única, reúne um grupo de transtornos com etiologias heterogêneas e insere pacientes com apresentação clínica, que respondem ao tratamento, o curso da doença de formas variadas. Os fatores psicossociais são de maior interesse na influência do transtorno, e a abordagem de tratamento inclui a psicoterapia. Prevalece uma igualdade em homens e mulheres. Ambos os sexos diferem, no entanto, quanto ao início e ao curso da doença. Para os homens o início acontece precocemente. As idades de pico do início são entre 10 e 25 anos para os homens e entre 25 e 35 anos para as mulheres. Mais da metade dos pacientes esquizofrênicos do sexo masculino, e apenas um terço dos pacientes do sexo feminino tem uma primeira baixa em hospital psiquiátrico antes dos 25 anos de idade.

Outro fator importante levantado no compendio de psiquiatria, é em relação ao tabagismo. Dentro dos estudos, a maioria dos pacientes esquizofrênicos fumam, mais de 75% desses estudos, comparados a menos da metade daqueles com problemas psiquiátricos como um todo. Além dos riscos associados ao tabagismo, o fumo afeta outros aspectos do atendimento a pacientes esquizofrênicos. Recentes estudos demonstraram que a nicotina pode diminuir sintomas positivos como alucinações, devido a seus efeitos nos receptores nicotínicos do cérebro, reduzindo a percepção de estímulo externo, e em particular os ruídos. Nesse sentido o fumo do tabaco é uma forma de automedicação.

Segundo o DSM-IV-TR, são classificados os subtipos da esquizofrenia como o tipo paranóide que apresentam delírios e alucinações de forma sistematizada; do tipo catatônico que é reconhecido por sintomas corporais (flexibilidade cera, estupor, rigidez, maneirismo, mutismo, etc.); tipo desorganizado ou hebefrênico caracteriza por pensamento desorganizado, comportamento bizarro e afeto pueril, tanto na aparência quanto a mente jovem, muito infantil; do tipo diferenciado ou simples, que observa-se um lento e progressivo empobrecimento psíquico e comportamental, com negligência quanto aos cuidados de si (higiene, roupas, saúde), embotamento afetivo e distanciamento social e do tipo residual, caracteriza-se por evidências contínuas de transtorno esquizofrênico na ausência de um conjunto completo de sintomas ativos ou de sintomas insuficientes para satisfazer o diagnostico de outro tipo de esquizofrenia.

Apesar do debate sobre a sua origem, o transtorno afeta pacientes individualmente. Ainda que, muitas teorias pensem apenas uma forma única de tratamento a respeito da patogênese da esquizofrenia, ainda desatualizadas, as observações clínicas sensíveis podem ajudar os clínicos contemporâneos, a abranger, perceber e entender, como a doença afeta a psique do paciente.

2. Trabalhando A Emoção De Lidar

A casa das Palmeiras foi erguida, com o propósito de acolher esses indivíduos que deixam de fazer parte de uma instituição psiquiátrica. Pensando em terapêutica ocupacional de uma forma ampliada, que conduza uma verdadeira maneira de proceder. Destinando ao tratamento e à reabilitação desse indivíduo na sociedade. Intermediando entre a rotina do sistema hospitalar e as relações da vida social e na família e suas variadas e inevitáveis complicações. Esse retorno não se faz sem dificuldades.Com isso visamos um olhar mais íntimo dos pensamentos, sentimentos de tudo o que envolve o cliente, o seu corpo e a sua psique. Buscando, o todo específico, através de atvidades, que inclui um exercício de atribuições, que deveria vir a ser, a personalidade específica de cada ser sadio.

Rótulos diagnósticos são, para nós, de significação menor, e não costumamos fazer esforços para estabelecê-los de acordo com classificações clásicas. Não pensamos em forma de doença, mas em função de indivíduos que tropeçam no caminho de volta a realidade (SILVEIRA, 1986, p. 11).

A manifestação criativa é o incentivo que causa o estímulo, diminuindo a tensão dos opostos. Colocando o indivíduo em comunicação com o mundo exterior. Colocando-se como mediador das sensações, emoções, pensamentos, que são conduzidos a se reconhecerem entre si. Falando terapeuticamente, o que mais interessa é que esses símbolos transformadores encontrem meio para exprimir, do tumultuoso mundo interno, tome forma, e que cada vez mais, se aproximando do nível consciente. A casa das palmeiras é um território livre, deixando sem exigências o cliente à vontade para se expressar, já que a pressão é uma das causas da angústia.

Ficar atento a esses desdobramentos que somem rapidamente do processo psíquico, que provém do mundo interno, é o trabalho principal da equipe da Casa das Palmeiras. Durante as horas de convivência com os clientes/pacientes, através dos incontáveis modelo de expressão, verbais ou não verbais, percebendo a ponte do mundo interno para o externo, potencializando no momento oportuno, seja nas atividades individuais ou em grupo. Essa relação que é construída, chega a um aprofundamento, que nasce através de uma aproximação natural, diferenciada da relação usual de consultório entre o médico e paciente. Essa volta à realidade vai estar sujeita, a uma relação de confiança com alguém. Essa ligação afetiva se prolongará no contato com pessoas e com o ambiente.

Não há diferenças entre médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, monitores, paciente/clientes, sendo todos envolvidos por uma atitude serena, para uma melhor compreensão face a problemática do paciente. Não se usa jalecos, não há enfermeiras, nem ultiliza crachás ou uniformes. A Casa está sempre de portas e janelas abertas. A hora do lanche é uma atividade em grupo, todos participam desse momento sem lugares marcados. A orientação nas atividades ocupacionais só ocorre quando necessário. A relação interpessoal forma-se de modo espontâneo, estabelecendo de maneira natural, de um desejo da equipe de respeitar cada ser como único e ajudá-los nessa caminhada.

As normais existem desde a fundação da Casa das Palmeiras, em 1956. E o resultado foi de encontro a um ambiente que beneficia a terapêutica para as pessoas que sofreram discriminações e humilhações em instituições psiquiátricas, ou até mesmo no meio familiar, sem contar com os obstáculos que se deparam quando voltam ao meio social.

A Casa das Palmeiras, comporata a frequencia de 30-35 clientes. Funcionando em regime de externato nos dias uteis das 13h as 17:30h. Assim o cliente não desliga de sua familia e do meio social com seus inevitaveis problemas que aprende aos poucos a superar, graças aos enriquecimentos adquiridos através das atividades praticadas na casa e dos laçoes de convivencia amiga que aí se formam (SILVEIRA,1986).

Na Casa das Palmeiras, trabalha-se com agentes terepêuticos, música, teatro, pintura, modelagem, trabalhos artesanais no que chamamos de terapia ocupacional, passa a ser chamado de Emoção de Lidar. Um dos clientes da casa, Luiz Carlos, no seu trabalho no ateliê de artes aplicadas, ao manusear com as mãos o material para dar forma ao objeto que desejava, um gato, e sobre o qual empregava afeto, ele referia a esse trabalho, sugerindo a emoção prvocada pelo manejar os materias de trabalho, uma das condições essenciais do tratamento. Luiz Carlos escreveu:

Gato, simplesmente angorá do mato. Azul olhos nariz cinza. Gato marron. Orelha castanho macho. Agora rapidez. Emoção de lidar (SILVEIRA, 1986. Luiz Carlos, p. 19.)

Segundo Nise da Silveira, as teorias e seus nomes, para ela, importa pouco. Todas podem ser úteis quando convém a cada caso em apreço. Entretanto, se o ego está muito atingido, a utilização do trabalho com fins terapêuticos torna-se inaplicável. As atividades que envolvem as características do trabalho, só são convenientes a indivíduos capazes de manter corajosas e persistentes relações com o mundo externo.

3. Trabalho nos Ateliês e nas Oficinas

Os ateliês são espaços destinados para oficinas com o propósito de trabalhar a imagem do inconsciente. Sendo o mais importante o modo que cada um realizar a sua tarefa. São trabalhos que expressam as vivências e sentimentos de cada indivíduo. Os feitos nos ateliês podem ser, por vezes, rústicos, grosseiros, mal feitos, mas traz algo de muito especial, esses trabalhos carregam a impressão ou a sensação de alguma experiência, tendo como  marca original de seus autores. Cada paciente possui o seu ritmo sendo levado em consideração e com respeito o seu tempo. Alguns dos pacientes se comunicam bem e gostam de conversar, e tem aqueles frequentadores que trabalham silenciosamente, em alguns momentos é difícil contornar determinadas situações nos ateliês, devido o jeito particular de cada um.

Outros circulam livremente pela casa, esses pacientes ocupam um espaço bem maior, do que alguns que são tímidos e inseguros. Geralmente procuramos sempre convidá-los para tarefa, conforme o afeto de cada um da equipe com o paciente, e até mesmos os mais tímidos, escolhem um canto da mesa e lá ficam silenciosos, aguardando o momento em que vamos até eles com muito cuidado e suavidade, são observados também o interesse de cada um. Qual o tipo de atividade que preferem, cores utilizadas, tipos de material que gostam de manipular, se o trabalho que esta sendo feito causa ansiedade ou bem-estar, como é o relacionamento com os demais, com os pacientes e a equipe,  tudo é observado. Quando o trabalho é feito de forma automática ou sem interesse, perde a validez, deixa de ser verdadeiramente proveitosa a terapêutica.

Alguns dos espaços podem ser limitados fisicamente, mas são ilimitados no que diz respeito ao espaço psicológico. Nas improvisações, seja qual for o setor, pode ser dado forma às suas emoções, expressando o não verbal, em formas simbólicas. Após um grande esforço com a matéria, os fantasmas ganham formas objetivas, reunindo num corpo de elementos dispersos, solidificando nesta “emoção de lidar”, que está em qualquer atividade de uma verdadeira terapia ocupacional. A repetição amiudada, com que certos temas se manifestam nos trabalhos, o seu desenvolver, a relação com a equipe do setor e com os frequentadores da casa, serve para ampliar as informações sobre o indivíduo. Tudo é observado, por exemplo, a forma com que o paciente entra no ateliê, senta, a preferência do material, as cores escolhidas, etc. Todos têm um jeito particular. É a partir das escolhas desses materiais, que o cliente passa a dar forma às suas emoções.

Há aqueles que voltam e entram novamente; certas pessoas dizem que, naquele dia vão trabalhar ali e logo saem; há aqueles que entram de cabeça baixa; outros se assustam se são cumprimentados enfaticamente; há aqueles que parecem vir atarefados de algum lugar; uns entram e ficam olhando fixamente a mesa de trabalho e logo saem, ou então, entram para dizer que o seu setor é outro. Ás vezes cumprimenta o monitor ou não; a saudação pode ser de forma automática ou muito afetuosa. Enfim, todos reagem à entrada, de acordo com o seu estado psicológico (SILVEIRA, 1986. HELENA, p. 23).

A questão do silêncio nos ateliês, segundo a Nise da Silveira, é uma condição que favorece a emergência das imagens do inconsciente. O silêncio vai proporcionar um clima, que serve de auxílio, para que o paciente possa apresentar melhores condições de se derramar em sua pintura, de transparecer, de revelar-se. A equipe nos ateliês se mantém atenciosa, nesse momento de produção, não orienta e nem interpreta as imagens. Temos chances de observar a expressão que brota diretamente do inconsciente, sem normas, sem modelos impostos por teorias estéticas. Nesses momentos de produção das atividades, as energias são jorradas de diversas formas, alguns quebram até o silêncio, sentem necessidade de expressar verbalmente para os outros ou direcionam, se comunicam com a imagens pintadas, por exemplo, ficam muito agitados ou dando até mesmo risadas olhando para as imagens.A importância desses trabalhos é a tentativa, a experiência, de expressar o que há de mais profundo no ser. É ao mesmo tempo uma experiência perigosa e fascinante, as consequências são inesperadas, e por vezes, maravilhosas.

O efeito terapêutico dessa atividade parece ser a criação no indivíduo de um estado propício à experiência do inconsciente onde nada se mantém fixo, petrificado para sempre; estado de fluidez de atitude a se abrir às metamorfoses e ao devir (SILVEIRA, 1986. HELENA, p. 24.)

Esse clima dos ateliês, em geral é de descontração. Há clientes que gostam de rever seus trabalhos, outros começam e em outro momento procuram para terminar, ou dá apenas um retoque. Todos os trabalhos, são guardados em pastas ou caixas, com o nome de cada um gravado. Os pacientes têm o livre acesso a seus trabalhos. São desempenhados com liberdade. Na casa das palmeiras há um clima, de um constante trabalho que realizado através do interior. Os efeitos são os mais incríveis e criativos em todo o ambiente, não se importando com estéticas.

A pintura funciona como um meio adequado para exprimir facetas da vida emocional que geralmente escapam do domínio verbal. É também a atividade mais livre. À medida que se avança na linguagem plástica vai se monstrando o acesso a processos interiores inacessíveis, a este modo de realização no relacionamento interpessoal (...) A linguagem plástica é capaz de conservar sua coesão, independente de ser o autor doente ou não.A intervenção necessária para aproximar as pessoas dessa linguagem fundamental no homem é o simples deixar fazer. Deixar livre, procurar ser bem natural, o que não é fácil. Mas surte efeito: o ambiente silencioso e bem tecido que logo deixa as pessoas à vontade para desenhar e desenhar. ” (SILVEIRA, 1986. ANÔNIMO, p.25.)

O ser humano tem necessidade de criar e comunicar o que criou, independente do estágio que se encontra. Através desse processo, o que está por trás, as nossas sombras, vem à tona. E com esse trabalho, tem oportunidade, de sair da caverna, e mostra-se disponível a uma transformação para algo belo ou não. Com esse movimento, o criador, o que consegue colocar esse trabalho em movimento, se sente satisfeito, pela liberdade de expressão. Mas não é a coisa artistica criada, que nos chama a atenção, que nos interessa, e sim, um atendimento a uma necessidade fortificante, essencial comum a todos os indivíduos.

O intuito dessa atividade é tornar oportuno a todos, bem ou mal dotados, artistas ou não, sadios ou doentes, uma possibilidade de poder criar, servindo-se de seus próprios materiais guardados em si, interiorizados. Com os jogos dramáticos, por exemplo, o paciente deixa de ser ele mesmo, entramos num plano do “faz de conta”, então ele passa a ser uma personagem, que define um ato ou efeito de situar com um objetivo determinado. Esse exercício é mostrado para o paciente, de forma clara, que é um momento para usar a imaginação e que estão representando outras pessoas. Com isso, trazendo possibilidades para que eles possam diferenciar o que há de real, de uma alucinação patológica.

O que acontece no momento da cena, não é verdade. O que de certa forma, liberta-os de uma repressão interna, relativo a uma matéria particular, que não havia sido permitida a revelação desse conteúdo interno. Não se pode dispensar, a presença do médico nesta atividade. As festas é um momento de interação com a família e o meio social. São comemoradas as datas festivas abertas: Primavera, Natal, Festa Junina. As demais são em particular, dos pacientes junto a equipe.

Estes jogos dramáticos devem ser desenvolvidos, no sentido de serem cada vez menos individuais, fomentando a integração de cada cliente com os seus colegas e incentivando sua comunicabilidade. Damos muito importância aos jogos cujo tema, escolhido com cuidado, tem a solução apenas indicada. Assim, queremos utilizar a capacidade de decisão, que muitos, em virtude da doença tem bastante diminuída (SILVEIRA, 1986. HILTON, p.56-57.)

Dramaturgia concebida a partir do processo de criação colaborativa entre os participantes, pacientes e equipe, da oficina terapêutica teatral da Casa das Palmeiras.

A fábula da Flor-das-Sete-Cores

(Texto dramatúrgico criado em processo colaborativo entre os clientes, estagiários e colaboradores participantes da Oficina Terapêutica Teatral da Casa das Palmeiras, durante um jogo de imaginação pessoal e coletiva.)

Ficha técnica [1]

CENA I

(Música “Vida”, do Quinteto Violado. Um grupo de pessoas vai cruzar a cena em fila a fazer zigue-zague, de modo a realizar a passagem de tempo entre as estações do ano. Verão, numa passagem; outono, em outra, e inverno na última passagem. Saem de cena. Permanece apenas a fada.)

Fada Maria (dirigindo-se ao público) – Estamos já no finalzinho do inverno. Vocês bem sabem, que de primavera a primavera nós passamos por todos os climas e temperaturas. Dentro e fora de nós. E por isso, é que na primavera os sentimentos são tão coloridos. São sentimentos de renovação. Contando com o dia de hoje, faltam sete dias para a chegada triunfante da tão querida estação das flores. E vocês vão acompanhar agora, a saga de uma delicada flor, que mora num canto de um bosque, chamada Flor-das-Sete-Cores,. Ao final de mais um ciclo de estações, ela se encontra, bem, como posso dizer... Em uma crise existencial. É isso, a Flor-das Sete-Cores está em plena crise existencial, faltando apenas sete dias para um novo ciclo de estações, e tudo o que ela precisa e quer, é resolver sua questão. Mas... Que questão? (Flor-das-Sete-Cores vai entrando cabisbaixa) Ih! Lá vem ela! Acompanha daí! (Sai correndo e de fininho para a coxia)

Flor-das-Sete-Cores (entra em direção à Flor-Maravilha, com quem vai ter uma conversa) – Flor Maravilha, minha querida amiga. Como é bom conversar com você, porque você sabe nos escutar como ninguém! Maravilha, querida amiga, como pode uma flor que se chama Flor-das-Sete-Cores ser apenas de uma cor só? Sabe, Maravilha, vou te dizer qual é o meu sonho:  Eu quero descobrir minhas sete cores, que são todas as cores do arco-íris, e deixar de ser uma flor-das-sete-cores que tem apenas uma cor só. Contando com o dia de hoje, tenho apenas sete dias para isso, porque quero estar pronta para o renascimento da primavera. Bem, agora o que posso fazer é dormir, e quem sabe nos sonhos encontrar algum caminho... Boa noite, amiga Maravilha!

(A flor adormece ao lado de Maravilha, e começa a sonhar. Música para o sonho. Cena do sonho com a Aquarela e o Pincel)

Pincel (falando com a Aquarela) – Meu bem, não é esta flor adormecida, que você disse que estava querendo as suas sete cores nas pétalas?

Aquarela – Quem, meu bem?

Pincel – Essa flor aí, ó! Não é uma Flor-das-Sete-Cores?

Aquarela – Mas é claro! Então acorda ela aí! Quem sabe não pdemos ajudá-la...

Pincel – Psiu! Ei!... (Espera um pouco, e nada da Flor reagir.) Psiu! Ei, flor! Acorda!

Flor-das-Sete-Cores – Ahn?

Pincel – Acorda, olha pra cá!

Flor-das-Sete-Cores (quase rabugenta) – Quem são vocês? Eu estou dormindo. Passem amanhã, que a gente conversa! Agora eu preciso dormir porque estou num período muito intenso. Boa noite!

Aquarela – Mas agora você pode acordar, porque nós dois estamos no seu sonho!

Flor-das-Sete-Cores – Ah! Eu já estou sonhando? Isso é um sonho? Então eu levanto, porque não atrapalha o meu sono!

Aquarela – Isso, vem aqui, quem sabe nós podemos te ajudar.

Flor-das-Sete-Cores – Me ajudar em quê?

Pincel – Ora, não é você que está num momento intenso? Nós vimos a sua conversa com a flor Maravilha, e estávamos só aguardando você dormir e começar a sonhar, para podermos vir aqui falar contigo!

Flor-das-Sete-Cores – Claro! Você não é uma flor, mas tem sete cores!

Aquarela – Sim! Meu nome é Tarsila Aquarela do Amaral, muito prazer. E este é o meu esposo...

Pincel – Pincel Van de Gogh da Silva, satisfação conhecê-la.

Flor-das-Sete-Cores – Sim! Já entendi tudo. Dona Tarsila e seu Van de Gogh vão me ajudar a ter enfim as minhas sete cores!

Aquarela e Pincel (juntos) – SIM!!!

(Música “Bebê”, de Hermeto Pascoal. A aquarela e o pincel pintam Sete-Cores. Mas em seguida aparece uma chuva que tira todas as suas cores.)

Pincel – Agora volta a deitar, porque o dia está raiando e você já está pra acordar! Tchau, querida flor! Não desanime, essas cores já existem e sempre existiram em você! (A flor deita e o casal sai).

CENA II

(Entram o duende e dois gnomos)

Duende – Agora só preciso acordar a Sete-Cores e pronto, minhas tarefas de bom duende estarão cumpridas, e poderei desaparecer pra debaixo dessa terra boa e fresquinha! Que a luz do dia não me revele! Tem uma festa animada com muito rock’n roll me esperando lá embaixo!

Gno Gnomo – É, meu amigo duende, como nós, gnomos, temos afazeres diferentes, ficaremos por aqui mais um tempo. Afinal, sou um guardião das florestas e dos bosoques! Um guardião da Harmonia do Universo! Deixe conosco, pois quando você se for, teremos uma conversa com a Sete-Cores. Ouvi dizer que ela está passando por um momento complicado, sabe?

Duende – Ih... Também ouvi dizer. Então, me deixe acordá-la de uma vez, antes que o sol me revele!

(O duende pega uma pluma e acaricia levemente a Flor-das-Sete-Cores. Quando ela começa a se mexer, ele faz um sinal de despedida para os gnomos, e desaparece. A flor vai despertando devagar, até que percebe a presença do gnomo.)

Flor-das-Sete-Cores – Meus amigos gnomos, bom dia pra vocês!

Gnomo Nomo – Bom dia, Sete-Cores! Dormiu bem? Teve sonhos?

Flor-das-Sete-Cores – Dormi bem e tive um sonho. Não me lembro de tudo, mas lembro que alguém me disse: “Não desanime, essas cores já existem e sempre existiram em você!” O que isso significa, seu Gnomo Nomo?

Gnomo Nomo – Não sei... Mas, por acaso, você anda com desânimos?

Flor-das-Sete-Cores – É... Pelo visto, acho que estou.

Gno Gnomo – E por que, Sete-Cores?

Flor-das-Sete-Cores – O inverno está acabando, e eu preciso encontrar as sete cores do arco-íris para as minhas pétalas se renovarem na primavera. Tenho seis dias, está muito difícil. É por isso que alguém me disse pra não desanimar no sonho.

Gno Gnomo – Então é isso, não desanime, oras! Sabe quem poderá te ajudar nisso? Fada Maria!

Flor-das-Sete-Cores – Claro! A Fada Maria! Como não pensei nela antes?

Gnomo Nomo – Mas a essa hora, ela com certeza está trabalhando muito participando de algum conto. Agora você só a encontrará amanhã bem cedinho, assim que o sol nascer, antes dela sair para o serviço!

Flor-das-Sete-Cores – Só amanhã? Tá bom... Vou passar o dia procurando algum raio de sol nesse final de inverno, para tomar banho. Assim o tempo passa, a noite chega, e amanhã, eu falo com a Fada Maria! Vou procurá-la, amigo. Agradeço a sua ajuda! (Entra ao fundo música “Onde Ir”, de Mônica Salmaso)

Gno Gnomo – Resolvido! Precisamos ir, Sete-Cores. Vamos trabalhar para lhe dar boa sorte! Tchau e boa sorte!

Flor-das-Sete-Cores – Tchau! Agora vou esperar algum raio de sol com a Flor-Maravilha. Por ali vou ficar até amanhã...

(A música aumenta. A flor banha-se ao som junto à Flor Maravilha. Cai a noite, Sete-Cores adormece, e permanece dormindo por toda a música. Passagem de tempo com a luz – fade out/ fade in -, vem o dia.)

CENA III

(Fada Maria entra ainda com a música, rodopia ao redor da flor adormecida, assopra bolas grandes de sabão, e assopra pétalas em Sete-Cores para acordá-la.)

Fada Maria – Sete-Cores! Sete-Cores, bom dia, flor!

Flor-das-Sete-Cores – Eita! Fada Maria? Bom dia! O que você está fazendo aqui? Parece até que adivinhou que eu iria falar contigo hoje!

Fada Maria (achando graça) – É mais ou menos isso, Sete-Cores. Eu estou aqui porque o Duende e os Gnomos me disseram que você me procuraria hoje de manhã, antes d’eu sair para o trabalho. Então, como hoje o meu dia será bem movimentado, resolvi te procurar logo. Imagina só, vou participar de doze contos de fadas hoje! Já estou exausta só de imaginar!

Flor-das-Sete-Cores – Puxa, Fada Maria! Muito obrigada por você ter vindo me procurar. Preciso do seu conselho, da sua ajuda mágica. Faltam cinco dias pra chegada da primavera, e eu sou uma Flor-das-Sete-Cores mas de uma cor só.

Fada Maria – Sim, Sete-Cores. Todas as Flores-das-Sete-Cores são como você: Brancas!

Flor-das-Sete-Cores – Brancas? Mas que sem graça... Então eu preciso mudar de nome. E as outras flores que são como eu também, nós não temos as sete cores. Puxa, como isso é triste... E agora, Fada Maria? Estou confusa.

Fada Maria - Calma, Sete-Cores! Você é que ainda não sabe que toda flor-das-sete-cores é uma flor muito especial. E todas vocês são brancas sim. A magia das sete cores do arco-íris só acontece quando vocês completam o primeiro aniversário de primavera!

Flor-das-Sete-Cores – Sim! Esse vai ser o meu primeiro aniversário de primavera, Fada Maria!

Fada Maria – Então, não se preocupe. Amanhã, estaremos a quatro dias da primavera, e você deverá se encontrar com o Sol. Eu sei que você vai dizer, como já ouvi de outras flores, que é muito difícil encontrar o Sol no inverno, então eu vou lhe dar uma ajudinha. Feche os olhos. Esse dia inteiro e a próxima noite vão passar por você por um passe de mágica. Fique assim até sentir o calor do Sol em suas pétalas. E já terei partido... Boa sorte, Sete-Cores! Mantenha seus olhos fechados, senão a magia se quebra!

Cena Final

(A fada sai. O Sol aparece com todo o seu esplendor em frente à Flor-das-Sete-Cores.)

Sol – Desperta, Sete-Cores!

Flor-das-Sete-Cores – Despertei! Preciso da vossa sabedoria, Vossa Majestade! O que é que eu devo fazer para encontrar as minhas sete cores?

Sol – Se você chegou até aqui, é porque muito já buscou. Agora, você precisa relaxar. Meditar e fazer exercícios de respiração enquanto tomar banhos intensos dos meus raios pelos próximos três dias. A magia das sete cores do arco-íris em uma Flor-das-Sete-Cores acontece só depois que ela receber muita luz solar às vésperas da primavera. Procure um lugar confortável para fincar suas raízes, abra suas pétalas, e receba a minha luz, o meu calor.

(Música “Ask the Mountains”, de Vangelis. Sete-Cores escolhe um lugar ao sol senta-se para meditar e abre suas pétalas. O Sol gira e dança à sua volta emitindo seus raios de luz e calor. A flor, de olhos fechados, recebe esse banho.)

Sol (à beira da cena, falando para a plateia) – Sete-Cores, você nasceu para colorir a Vida. Todas as cores já existem em você. Sempre existiram. A única coisa que você precisa é sentir... Olhe para o mundo, para todos seres que existem ao seu redor. Neles estão também as suas sete cores! A cada contato profundo suas pétalas mudarão de cor como num passe de mágica. Mas mudarão a cor somente porque você se transformou por dentro! Se as suas pétalas não fossem brancas, isso não seria possível. É simples. É tudo mais simples...

Flor-das-Sete-Cores – Sim! Agora eu entendo porque posso sentir! (Levanta-se abre os braços) EU SOU A FLOR-DAS-SETE-CORES! EU SOU A FLOR-DAS-SETE-CORES E A PRIMAVERA CHEGOU!

Cai o pano.

(Reserva quanto à utilização da peça-curta sob autorização de autoria.)

A música na casa das palmeiras tem como tema a livre interpretação. Não existe um gênero musical. É um dos setores cultivados da casa. No dia de música, a Casa das Palmeiras vibra em uma sintonia diferenciada. Há pacientes que entram na roda e os que ficam do lado de fora, os que vão e voltam, há quem cante, quem toca alguns instrumentos do seu jeito particular, os que recitam a música em forma de poema. Nessa atividade é proposta também, a criação em cima de certos gêneros musicais. A improvisação sempre presente.

A partir desse exercício, desdobra-se, por exemplo, peças musicais dessas criações. Podendo ser livre ou através de um tema dado. Como, por exemplo, músicas destinadas para as festividades da Casa (carnaval, natal, festa junina, etc.). Como todas as atividades que são propostas, temos como direcionamento, estimular a criatividade. Trabalhando constantemente a problemática da comunicação oral, a sensibilidade tátil, a penetração do som para uma audição hipersensibilizada, particular de cada cliente. Cada um utiliza o material que mais lhe agrada. Os ritimos são os variados possíveis. A intenção é libertar para a criatividade e diminuir ao máximo as ações obrigatórias. Improvisando um coral que se torna harmonioso por natureza.

Pessoas que na pintura não conseguiam figurar nada além do caos, nos improvisos com a percussão criavam nuances rítmicas e discursos musicais de alta qualidade. Duplas improvisando no piano (grave e agudos) criando sons, frases, harmonias de inegável valor musical; diálogos com tambores nos quais uma comunicação musical era estabelecida e acompanhada pelo grupo resultaram em cenas de profundo sentimento; improvisos coletivos onde o grupo começava, desenvolvia e encerrava uma ideia, numa verdadeira realização musical. Tudo isso acontecendo num clima de deleite e apreciação. Claro está que nosso objetivo não era absolutamente “qualidade musical” na atividade, mas a música está dentro de todos nós, é só soltá-la (SILVEIRA, 1986. EURÍPEDES, p.67-68.).

A adaptação musical foi elaborada a partir da versão original do Samba-Enredo do Salgueiro,“Peguei um Ita no Norte”, de 1993. A partir de um processo de criação colaborativa entre os participantes individuais e em grupo, da oficina terapêutica de música. Proposta de criação para o nosso bloco de carnaval, um samba, que saiu de dentro da Casa das Palmeiras para as ruas. Deixo aqui registrado o sentimento de gratidão, de todos da Casa das Palmeiras, equipe e pacientes, pela colaboração voluntária da “Bateria Abusada” do Bloco Carnavalesco Urubuzada e dos estudantes de Direito da UERJ, por disponibilizarem de  boa vontade, o seu material e tempo, por ajudar a colocar o bloco na rua.

Processo de criação colaborativa da oficina terapêutica de música.

Ficha técnica [2]

Espanta a internação

Com pintura e modelagem (é arte)

É Casa das Palmeiras

Vem pro Delira, quem gostar de brincadeira (2x)

Lá vou eu...

Me levo pela casa da emoção (emoção)

Não se curem além da conta

Temos um pouco de loucura

Adeus a internação (já foi)

Um dia a Nise falou

Vivam a imaginação

É o delira, o nosso bloco vai partir

Oi no balanço das Palmeiras...Eu vou

Na emoção de lidar... amor

Retardadiço é quem não sonha! Isso é verdade!

E no delira meu bem é felicidade (2x)

Eu fui andando e cantando

E vi as palmeiras, que alegria!

Ateliê ê de arte,

Teatro e música, minha terapia

Não sei, não sei, não sei

O mundo não sabe o que é ser maluco

Sou maluco esperança

Embalando pelas Palmeiras

Já é carnaval!

O trabalho com a modelagem, já passa para a terceira dimensão, sendo assim, nem todos são ou estão acessíveis. Pois o trabalho com o barro requer o manuseio com o material que alguns, demonstram uma espécie de aversão ao material. O propósito da equipe é justamente conduzir o paciente a vencer estas barreiras, guiando para que ele possa exteriorizar do seu interior os monstros que os assombra.

“Se pudéssemos entrar no intenso, mergulhar nas impressões da imensidão, onde se unem estalactites, pedras, fósseis, e os bichos ansiosos pelo erotismo e o maléfico, e nos arrastássemos pelo o universo a dentro, sem rodeios, no domínio virtual das emoções e dos complexos , aprofundando nosso ser cada vez mais nessa região de fantásticas imagens e sem nos perder de nós mesmos, sem dúvida seria  profundamente libertador .” (GOUVÊA, 1989.p. 24).

Lançando pontes a essa margem invisível, de sua natureza inconsciente, promovendo um diálogo com o qual o paciente se relaciona, antecipando à consciência num processo criativo e gratificante.

4. O Afeto Catalisador

A frieza nessa teoria, não tem vez. A afetividade envolve o ambiente da Casa das Palmeiras, proporcionado por vários frequentadores. Nessa qualidade de tratamento o afeto é um dos requisitos mais importantes, pregado por Nise da Silveira. E foi criado por ela o termo “afeto catalisador”. O afeto catalisador é o papel que é designado ao monitor, estagiário, que acompanha algum ateliê ou oficina, nas atividades em grupo ou individual, que tem uma função positiva, em relação a um determinado paciente. Podendo a mesma pessoa desenvolver em um paciente o catalisador, que vai ajudá-lo a expandir, e em outro, pode causar o inibidor. No ambiente da Casa, nos deparamos com a diversidade, sem repressões. Segundo Nise, essa relação deve, se possível, se estender para amizade: “Dificilmente qualquer tratamento será eficaz se o doente não tiver ao seu lado alguém que represente um ponto de apoio sobre o qual ele faça investimento afetivo.” (SILVEIRA, 1981, p.69).

Na Casa o terapeuta, irá funcionar em dois exercícios de atribuições um deles será a observação atenta, em relação as ponte que brota do paciente, que o lança para fora da Casa, o trabalho é de incentivo, para que ele poça expandir o seu próprio campo de ação. A outra função é observar atentamente o material simbólico que é trazido nas atividades, acrescido de todo o seu histórico particular. O afeto na Casa é um fator indispensável. Essa afetividade se faz presente todos os dias. É uma força importante no trabalho com os pacientes, e atua na psique, de forma curativa. Nise relata também, sobre várias relações, não só dos monitores, mas em relação aos animais, co-terapeutas, funcionando como uma espécie de catalisador.

Porém, Nise vai dizer que apesar de tudo, qualquer um poderá observar que as tentativas de ordenação interna, bem como as simultâneas tentativas de volta ao mundo externo, tornam-se mais firmes e duradouros se no ambiente onde vive o doente ele encontra o suporte do afeto. ( …) A terapêutica ocupacional, era um território vazio onde eu teria relativa liberdade para agir. Lidando com atividades manuais e expressivas, processando-se sobre tudo em nível não verbal, compreende-se que esse tipo de tratamento não goze de prestígio na nossa cultura tão deslumbrada pelas elucubrações do pensamento racional e tão fascinada pelo verbo (SILVEIRA, 1981, p. 66.)

Serve para a fácil compreensão das expressões, ações e pensamentos. O afeto entre as relações é o principal agente para a autocura da psique.

5. Conclusão

Essa forma de terapêutica, através da criatividade, vai ajudar a recompor essas cisões internas. Essa ruptura vai causar uma dissociação no consciente, o ego encontra-se fragmentado.  Com a arte cria-se um espaço livre sem repressões. Com o expressar, expurgamos as nossas sombras mais aterradas do nosso inconsciente. Cada abordagem existe um olhar diferenciado sobre o individuo. Nessa teoria colocada por Nise da Silveira, o Afeto e a Arte, tem importante papel no tratamento. Com esse trabalho da criação envolvido por um afeto catalisador, vai auxiliar o paciente a expor, a expandir essa angústia emocional ou conflito inconsciente deslocando-as para as tarefas propostas pelas atividades.

Com isso, vai caminhando o mais próximo, de uma associação do interno com externo, com suas particularidades. Com esse meio de trabalho, essas imagens do inconsciente surgem plastificadas, como um retrato tirado de uma polaróide, imediato, que vai ser utilizado junto ao histórico, podendo observar sua forma de falar verbal ou não, sua forma de agir, de uma forma única de cada paciente, para um melhor acolhimento. Nessas imagens, estão conteúdos que vão além dos fatores pessoais reprimidos, das pulsões freudianas. Chegando a camadas mais profundas da psique humana, mais complexas. Numa visão mais aprofundada, estaria o inconsciente coletivo, que são encontradas essas forças poderosas que, manifestam-se não apenas no material clínico, mas também, mitológico, no religioso, no artístico e em todas as suas outras atividades culturais por meio das quais o homem se expressa.Essa força é denominada de Arquétipos.

Os Arquétipos são padrões de comportamento emocional e intelectual, que fazem parte de uma herança comum. São fantasias, símbolos, pensamentos ou ações, que aparecem praticamente em todos os campos da atividade humana. É um depósito de impressões superpostas deixadas por certas vivências fundamentais, comum a todos os seres humanos, repetidas incontavelmente através de milênios. Exemplo dessas vivências típicas seriam tais emoções e fantasias provocadas, por fenômeno da natureza, pelas experiências com os pais, etc. Dentro dessas imagens trazidas do inconsciente, vamos estudá-las amplamente. Essas imagens aparecem também, em nossos sonhos de forma simbólica. Com a arte e o afeto, transformam- se vidas. Passamos a lidar com os conflitos de maneira mais suáveis. E para os pacientes, onde o emocional está amarrotado, o caminho dessa terapêutica demonstra resultados salutares.

Sobre o Autor:

Bianca Novaretti Maia - Psicóloga formada pela Universidade Estácio de Sá (RJ), cursando Pós Graduação em Psicologia Hospitalar na Universidade Veiga de Almeida (RJ).

Referências:

SILVEIRA, Nise da. Emoção de Lidar. Rio de Janeiro: Alhambra, 1986.

SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.

MELO, Walter. Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

GOUVÊA, Álvaro de Pinheiro. Sol da Terra: o uso do barro em psicoterapia. São Paulo: Summus editorial, 1989.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2ª Ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 327-333.

SADOCK, Benjamin James. Compêndio de Psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica / Benjamin James Sadock, Virginia Alcott Sadock; tradução Claudia Dornelles…[et al.]. – 9ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 507-541.

Ficha técnica: A peça curta, foi apresentada na festa da primavera, 2012 Ficha técnica:  Patrícia Casqueiro Gois (Dramartugia – Processo – Diereção) Tâmara Bayama e Rita Britez (Apoio de Cena) Leandro da Silva, Cketherin Carla da Costa (Apoio técnico). Elenco e personagens: Equipe: Bianca Novaretti  (Fada Maria), Daniel Ribeiro (Pincel), Julia  Alvarenga (Aquarela) Pacientes: D. (Flor-das-Setes-Cores), P. (Gino Gnomo), T.(Duende), O. (Duende), M. ( Sol), R. (chuva – participação especial) - Os nomes dos pacientes/clientes da Casa, são preservados, estão indicados através de iniciais como referência.

Letra composta a partir de uma criação colaborativa da ofcina terapêutica de música: equipe e pacientes. Adaptação da letra: Bianca Novaretti Maia e Rafael R.de S. Maia. Carnaval 2013.

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