A Relação entre Tripla Jornada e Depressão Feminina

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Resumo: O presente estudo aborda a temática da Depressão, especificamente da relação da Tripla Jornada feminina e dos fatores que contribuem para o seu desenvolvimento. Assim, o trabalho foi direcionado no sentido de contribuir na busca de evidencias que ajudem no estudo sobre este fenômeno que acomete uma grande porcentagem de pessoas, principalmente do gênero feminino que vive na atualidade uma multiplicidade de papéis. A realização desse trabalho foi possível mediante uma pesquisa bibliográfica, de cunho descritivo, realizando uma exploração da literatura existente sobre o tema, o qual se destaca que a evidência da depressão no gênero feminino é superior ao gênero masculino e que a tripla jornada é um desafio para a mulher contemporânea.

Palavras-Chave: Mulher, Saúde, Depressão

Introdução

O estudo da depressão é de grande importância por se tratar de uma doença que atinge parte da população brasileira. Essa doença deixou de ocorrer exclusivamente em adultos para aparecer com grande incidência na população jovem e de meia idade. Depressão é uma doença que se caracteriza por afetar o estado de humor da pessoa, deixando-a com um predomínio anormal de tristeza. Todas as pessoas, homens e mulheres, de qualquer faixa etária, podem ser atingidas, porém mulheres são duas vezes mais afetadas que os homens. Assim, fornecer recursos ao gênero feminino, é o objetivo deste trabalho, que tem como desafio caminhar no indecifrável território da alma humana. Em muitos casos, a depressão não tem uma causa identificável, entretanto, existem fatores internos e externos que podem vir a desencadear maior incidência da doença em mulheres.

Dessa forma, se torna necessária a busca de evidências empíricas sobre a relação saúde e trabalho para melhor entendimento dessa doença. O grande desafio da mulher é conciliar seus diversos papéis sociais. O fato é que nos últimos tempos, muitas mulheres têm pago um alto preço em qualidade de vida, saúde física e mental, tentando conciliar, de forma quase heróica e solitária, todas as demandas de seus múltiplos papéis. Hoje, muitos dos tabus da patologia ocupacional feminina foram abolidos. No entanto, é preciso que pensemos a saúde das trabalhadoras à luz da realidade vivida por elas. É necessário pensar as especificidades ligadas às jornadas extensas profissionais, a tripla jornada, os encargos da família e da casa, o ciclo biológico e a satisfação pessoal. 

Investir na promoção do bem estar psicológico da mulher trabalhadora implica uma visão futurista, pois exige superar o atual padrão da sociedade que impõe implicitamente uma gama diversificada de papéis a essa classe, cujas ações vêm padronizadas, sem considerar o individual, o contexto em que está inserida e a sua cultura.  Remete-se ainda à necessidade de gerar um espaço no qual a mulher também possa expor suas dúvidas, obter informações e buscar soluções para praticar ações individuais com repercussões sociais.

Este artigo tem como proposta, por meio da pesquisa bibliográfica na área da saúde mental, analisar um dos transtornos que mais de destaca e que tem causado sofrimento psíquico, desordens no comportamento, na afetividade, no humor e na relação com o meio ambiente: a depressão. Procurar auxiliar nos estudos sobre a ocorrência da depressão em mulheres, principalmente as que vivenciam uma tripla jornada. Pode também abordar a condição ou dilema feminino, que é portando, algo muito útil para todas as partes envolvidas e tocadas pela questão da Mulher, pois é muito importante a compreensão da relação entre o desempenho de múltiplos papéis e o bem-estar psicológico de mulheres, compreendendo as recompensas e os conflitos na sua realização pessoal, no papel de esposa, de mãe e também no sucesso profissional.

Multiplicidade de Papéis Femininos: Tripla Jornada

O Dia Internacional da Mulher completou 100 anos. E, de 1910 para cá, quando foi instituída a data oficialmente, o público feminino foi conquistando o seu espaço. Hoje, as mulheres desempenham uma multiplicidade de papéis: esposa, mãe, dona de casa, profissional e carrega a cobrança de ser perfeita em tudo. Uma das grandes questões que a mulher enfrenta no dia-a-dia é a dos papéis múltiplos que é obrigada a assumir. A palavra parece forte, mas é essa mesmo: obrigada. E por quê? Há uma pressão da sociedade para que ela seja, ainda, esposa e mãe. (SINA, 2005 p.127).  Elias, (2003) ressalta que apesar das grandes mudanças e conquistas femininas neste último século, as tarefas domésticas continuam sendo executadas pelas mulheres na maioria dos casos.

Feres (1998) relatam uma tensão entre os registros identificatórios da "nova” mulher referindo-se à consolidação de uma identidade profissional, acoplada a papéis masculinos, em contraposição a uma nostalgia narcísica da grande mãe sábia, generosa, transmissora do afeto e do poder, tal como uma imagem mítica, representante da segurança e do equilíbrio, uma fonte inesgotavelmente procurada. As mulheres de hoje, vivem uma vida enormemente diferente daquela das mulheres de quarenta ou cinquenta anos atrás. Graças ao movimento feminista as mulheres, antes limitadas a esfera doméstica, agora seguem as mesmas carreiras dos homens. Neste contexto, a nova mulher assume a tendência de ser múltipla, exercendo várias funções cotidianas, embora cada vez mais trabalhem fora, elas continuam a ser as responsáveis primárias por cuidar dos filhos e das tarefas domésticas.

A família e o trabalho são instituições centrais na vida de cada individuo, de cada grupo, de cada sociedade ou cultura. De acordo com Prehn apud Roso (1999) a mulher é biologicamente pré-determinada a gestar e foi criada desde os tempos primitivos, para cuidar da prole. Historicamente, o papel da maternidade sempre foi construído como ideal máximo da mulher, caminho da plenitude e realização da feminilidade, associado a um sentido de renúncia e sacrifícios prazerosos. A maternidade é uma imposição cultural, entretanto sob uma perspectiva psicanalítica de Chodorow (1978) a mulher tem habilidade e capacidade materna fortemente internalizadas constituídas na sua estrutura psíquica. Segundo Giddens (1993) a “invenção da maternidade” faz parte de um conjunto de influências que afetaram as mulheres a partir do final do séc. XVIII: o surgimento da idéia de amor romântico; a criação do lar, a modificação das relações entre pais e filhos. O autor assinala que no final do séc. XIX houve um declínio do poder patriarcal com o maior controle das mulheres sobre a criação dos filhos referindo-se a um deslocamento da autoridade patriarcal para a afeição maternal”.

Para Beauvior (1980) não é a natureza que define a mulher. Pois é esta quem define retomando a natureza em sua afetividade. De acordo com a autora, é pela maternidade que a mulher se realiza integralmente seu destino é fisiológico; é a maternidade sua vocação natural e seu organismo se acha voltado para a perpetuação da espécie. Entretanto, a sociedade humana não é mais moldada pela natureza. Neste sentido, a função reprodutora não é mais obrigação feminina, não é um acaso biológico mas sim uma decisão pela vontade. O advento da modernidade e de suas conquistas tecnológicas, sobretudo no campo da contracepção, e mais recentemente da concepção, trouxe às mulheres uma maior possibilidade na escolha da maternidade e abriu espaço para criação do dilema de ser ou não ser mãe. Da mesma forma, o casamento que antes fora uma obrigatoriedade à mulher, hoje é uma escolha. Realmente, desde a narrativa bíblica da criação de que a mulher provém da matéria-prima do homem, fez com que se sedimentasse a idéia de inferioridade da feminina perante o homem. Tal situação de inferioridade da mulher perdurou por milênios, com a família estruturada em papéis específicos de representação para o homem e a mulher, cabendo àquele a chefia o núcleo familiar e todas as decisões que atendessem aos seus próprios interesses, nisso incluído o futuro dos filhos.

É possível afirmar que nos diversos contextos houve mudanças significativas em relação ao papel da mãe na família. Antes, esta tinha o papel somente de provedora da vida e organizadora dos afazeres domésticos. Para Strey (1997) as mulheres tinham o dever social de dedicar-se de forma primordial à família e isso marca profundamente diferenças na percepções do mundo do trabalho feminino em relação aos homens. O autor ainda destaca que na medida em que as mulheres estão envolvidas no cuidado das crianças, na sua criação e educação, o outro trabalho deve ser possível de ser feito ao mesmo tempo que o trabalho doméstico, visto que, o trabalho doméstico se situa dentro da cadeia produtiva do sistema capitalista com a mesma contribuição que os componentes óbvios como a sanidade,ensino, publicidade, etc. Por outro lado, quando forma uma família, a mulher assume papéis diferenciados e amplia seu círculo de funções, assim já não é possível negar que as mulheres estão no mundo do trabalho, dispostas a conquistar seu lugar nesse que é um dos espaços sociais mais valorizados na sociedade. Evidencia-se que quaisquer que seja suas formas, o trabalho fora de casa, a participação social da mulher na sociedade engrandece a emancipação feminina. Séculos de subordinação levaram as mulheres a pensar sobre seu trabalho. Essa desigualdade foi fonte inspiradora para a realização de grandes reivindicações feministas. A partir do momento em que as mulheres foram inseridas no mercado de trabalho, perceberam que as desigualdades eram ainda maiores do que as enfrentadas no lar. Essa condição de desigualdade se inicia a partir do momento em que a mulher nasce, e passa a ser educada e moldada nos padrões de uma sociedade que considera próprio para meninos e meninas. Simone de Beauvoir, em seu livro O Segundo Sexo diz:

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e a o castrado que qualificam de fêmea. (BEAUVIOIR, 1980, p. 9)

A participação da mulher na sociedade e no mercado de trabalho tem evoluído de forma significativa. Dentro do contexto de um significativo crescimento do trabalho feminino no Brasil, as mulheres vêm aumentando sua atuação em posições de liderança nas empresas e conquistando mais terreno no espaço público. (SAFFIOTI apud BRUSCHINI, 1994). A sociedade vem sendo marcada por uma ascensão da mulher no mercado de trabalho. Uma das consequências fundamentais desse fato é a possibilidade da mulher poder desenhar a direção de sua vida, ou seja, fazer escolhas com certa liberdade que até então não lhe era permitida. Se antes a mulher tinha pouca escolha, a saída para o mercado de trabalho, o advento da pílula anticoncepcional, entre outros, deram-lhe um poder de decisão e um universo de escolhas. Ao conquistar a saída de casa e poder escapar do determinismo social, a mulher se descobriu cidadã e sujeito de seu próprio desejo.

Entretanto, a inserção da mulher na esfera pública está longe de ser um fato consumado livre de contradições. Uma das tendências do mundo do trabalho contemporâneo é o crescimento, da exploração da força de trabalho feminino. Neste cenário de expansão, Antunes (1999) ressalta que, ainda que possamos considerar, por um lado, o ingresso das mulheres no mercado de trabalho um avanço em relação à emancipação feminina – essa emancipação é parcial. Para ele, o capital se apropria do trabalho feminino de forma específica, levando a uma maior exploração em relação ao homem. Para este autor, na sociedade contemporânea o capital tem utilizado e explorado intensamente a polivalência do trabalho da mulher. A Constituição Federal proíbe que se faça distinção de sexo, idade, cor ou estado civil no pagamento do salário, nas funções ou mesmo na admissão de trabalhadores(as). Assim, para um mesmo trabalho não pode haver diferença entre homens e mulheres. (SILVA, 2008)

Contradições, ambiguidades, frustrações, culpas, mas também possibilidades, emancipação, autonomia, campos onde podem se reconhecer e ser reconhecidas pelo seu trabalho são algumas reflexões acerca do universo do trabalho feminino (FABBRO, 2006, p. 6)

Revisando toda história e a inserção da mulher no campo do trabalho, suas buscas por melhores condições de vida, reivindicações, conquistas, mudanças, decepções, barreiras que, ao longo dos séculos, formam superadas é o que faz da mulher uma heroína perante tantas dificuldades ultrapassadas e vencidas. O trabalho, além de um meio de sobrevivência é um fato social construtor da identidade. No caso da mulher, associam-se os valores da família, da maternidade e a cristalização de papéis históricos determinando ações. Na busca em atingir padrões estabelecidos também pela cultura, de sucesso, realização pessoal e profissional surge a culpa e a frustração pela impossibilidade da suposta perfeição. Massi (1992) aponta que em sua maioria, as mulheres buscam o perfeccionismo em todas as esferas da vida e se sentem frustradas consigo mesmas por não conseguir atingir esse ideal. Abrem-se as portas para o adoecimento.  Assim, o trabalho pode ser compreendido com território ambivalente, uma vez que tanto pode dar origem a processos de alienação e mesmo de descompensarão psíquica, como pode ser fonte de saúde e instrumento de emancipação, conforme revela Dejours (1992)

Até o presente momento, a mulher continua lutando bravamente por seus direitos, seja dentro de casa, na comunidade em que vive e nos ambientes de trabalho. Após conquistar espaço definitivo no mercado de trabalho e quebrar tabus na sociedade, a mulher enfrenta agora um novo desafio: cuidar da saúde enquanto acumula cada vez mais tarefas.

Saúde da Mulher: a Depressão

A mulher atual vive um momento de acentuada multiplicidade de papéis e sente-se, consequentemente, muito pressionada. Acha que necessita corresponder a todas as expectativas, internas e externas: ser boa mãe, boa esposa, boa dona de casa, boa funcionária, manter-se esteticamente dentro dos padrões de beleza estabelecidos pela mídia, estar atualizada, ser competitiva e enfim, ser uma super-mulher. No processo de ascensão profissional e social, as tarefas domésticas, os cuidados com os filhos, nem sempre estão divididos adequadamente. A mulher por sua vez, tem dificuldade de abrir mão de algumas coisas para poder conquistar outras. “A grande angústia da condição feminina ainda é conciliar o privado, que ocupa um grande espaço em sua vida com a experiência de profissionalizar-se. Trabalhar acarreta mudanças internas, psicológicas e externas, na organização da família.” (FELICETTI, 2005 p. 21)

O grande questionamento é atribuído ao fato de que pessoas que estejam envolvidas em uma multiplicidade de papéis sociais, frequentemente são confrontadas com vários estressores, esta é a razão porque alguns estudiosos como Goode apud Elias (1960) pensam ser a multiplicidade de papéis a causa de prejuízos no bem-estar psicológico. Porém, estes estressores (eventos indesejáveis e persistentes) só causarão conflitos quando atuarem fazendo mudanças negativas nos papéis das pessoas, provocando a diminuição de autoconceitos como domínio e autoestima, e quando mediadores como suporte e enfrentamento não estiverem presentes ou não se apresentarem adequados.

O acúmulo de tarefas produz maior estresse físico e mental. Fabbro (2006) relata que no plano da cultura, especialmente no imaginário social, a mulher se apresenta como fraca, menos capaz e com menos direitos. A quebra deste estereótipo parece conduzir à criação de outro o “estereótipo da mulher bem-sucedida”. Este último carrega consigo tanto a idéia de emancipação e igualdade, quanto a difícil tarefa de se mostrar forte e capaz de lidar com os desafios. “Esse estereótipo a obriga a agir conforme estas predicações, escravizando-a num modelo que se sustenta numa lógica instrumental perversa, inibidora de condições que provocam o desenvolvimento da identidade humana no nível pós-convencional.

Freud Apud Felicetti (2005) em suas obras completas, ao descrever o desenvolvimento psíquico, relata que uma criança recém nascida ainda não diferencia seu ego do mundo externo como origem das inúmeras sensações que são vivenciadas por ela; apenas, com o passar do tempo, vai aprendendo a fazer tal diferenciação de modo a reagir adequadamente aos estímulos correspondentes. Por outro lado, o ego, movido pelo principio do prazer, tenta afastar as sensações desprazerosas que denotam uma tendência a isolar tudo o que pode ser fonte de desprazer. Num estágio de maior integração, o ego consegue diferenciar entre o que é interno e o que se origina do mundo externo e estabelece dessa forma as condições para a introdução do principio da realidade. Por meio deste último, o ego pode localizar o sofrimento que surgiu de três direções: de nosso próprio corpo, do mundo externo e da nossa relação com as outras pessoas. Esses desdobramentos na prevenção do sofrimento psíquico podem também ocorrer em relação aos múltiplos papéis femininos, tanto do ponto de vista físico, quanto mental. A tripla jornada da mulher pode propiciar sofrimento para o ego, restringindo-o a mecanismos defensivos repetitivos, podendo gerar estados de tensão, ansiedades, medos, sintomas somáticos, e sinais marcantes de sofrimento mental como a Depressão.

A depressão é um distúrbio mental decorrente de um conflito interno e de uma alteração bioquímica. O conflito interno pode ser desencadeado ou despertado por vários fatores: psíquico, orgânico e social; a intencionalidade do conflito interno e sua durabilidade determinarão a gravidade de depressão, assim como o rompimento que o individuo terá a sua realidade interna e externa (GUARIANTE, 2000 P. 13).

O estudo da depressão é de grande importância por se tratar de uma doença que atinge grande parte da população brasileira. Ocasiona sintomas que interferem na capacidade de trabalho, principalmente nas pessoas que se encontram no período mais produtivo de suas vidas, causando grande sofrimento psíquico. Vale salientar que a depressão pode ser desenvolvida a partir de um estresse ocupacional.

Segundo Ururahy (2005), o estresse na empresa se manifesta através de sintomas que são vividos diferentemente por cada individuo ou em cada grupo, os indicadores mais confiáveis são consequentemente o comportamento diferenciado dos colaboradores, sendo que os sintomas são simultâneos e se constituem em bons indicadores do modo pelo qual a doença se manifesta no campo profissional, considerada a resposta do organismo ao agente estresse. Assim, o estresse faz parte do ser humano, em maior ou menos grau, considerando um fator de desgaste, inimigo da boa qualidade de vida. Muitas situações são características da modernidade e favorecidos pela celebridade da tecnologia, produzem na mulher maior pressão e consequentemente o aumento do estresse, que podem ser desencadeados por meio de fatores relacionados ao trabalho.

As doenças mentais estão cada vez mais visíveis e as mulheres cada vez mais propensas a fazer parte deste quadro. Assim, se o estresse é produzido por situações de tensão, provocando dor e sofrimento, podemos considerar que as empresas são hoje verdadeiras fabricas de estresse, onde seus colaboradores são submetidos a uma pressão intolerável em todos os níveis hierárquicos, podendo provocar uma explosão de doenças incapacitantes no campo físico e emocional dos indivíduos. O estresse ocupacional prolongado constante é vivenciado atualmente na grande parte maioria dos trabalhadores, indiferente do gênero, provocando reações psíquicas e fisiológicas nas pessoas acometidas por este mal, por meio de sintomas que levam o individuo à depressão.

 Depressão é uma doença considerada um dos males da modernidade que acomete grande parte da população mundial que não escolhe região, país, religião, classe, gênero ou idade. Guimarães (1993) relata que todo ser humano apresenta flutuações em resposta a eventos de sua vida cotidiana. Em algumas pessoas, no entanto, estas respostas assumem um caráter inadequado em termos de severidade, persistência ou circunstancias desencadeadoras, caracterizando assim, a ocorrência de um distúrbio afetivo.

 Guariente (2000), em sua obra Depressão: dos sintomas ao tratamento, relata que a intensidade do conflito e a sua durabilidade é que determinam a gravidade da depressão, assim como o rompimento que o individuo terá com a realidade interna e externa, o que pode variar na sua forma e intensidade.

Sendo assim, é importante verificar o impacto do processo da tripla jornada sobre o corpo da mulher, também sobre o seu psiquismo. Ainda, Oliveira (1997), fala sobre a relação do trabalho e corpo da mulher. Segundo ele, o corpo da mulher é transformado e deformado no processo da multiplicidade de papéis, ora os calos que brotam das mãos, ora o envelhecimento precoce decorrente das longas jornadas de trabalho, e o sentimento de que seu corpo está perdendo o vigor, porém não deixa de ser um corpo feminino. O autor aponta para o fato que de as adversidades das condições de trabalho e a descaracterização do corpo, consequência de tais condições, são fatores que determinam uma representação social do corpo, muito específica, que pode vir a trazer problemas com relação à saúde mental.

Considerações Finais

A mulher que, muitas vezes faz jornadas de trabalho duplas ou triplas, pouco conhece sobre seu próprio corpo e sobre as doenças que podem acometê-lo sem perceber o que elas podem fazer com ele. Além da missão de trazer ao mundo e educar os filhos, ela ainda se confronta com provas mais duras, com os afazeres domésticos e com alguma atividade fora de casa.

Assim, em síntese, é possível concluir que as causas de depressão em mulheres podem estar relacionadas ao estresse ocupacional e aos fatores bio-psico-fisicos, bem como às excessivas jornadas de trabalho, além dos demais fatores desencadeantes da depressão, como os fatores psíquicos como perdas significativas, decepção, superego rígido, culpa excessiva, entre outros. Também existem os fatores circunstanciais que podem ser os conflitos familiares, mudanças adaptativas, economia, entre outros. Porém, ainda não é possível afirmar todas as causas relacionadas ao fenômeno da depressão e isso acontece devido a sua complexidade, a qual tem provocado, questionamentos no ambiente clínico e organizacional.

Remete-se à necessidade de gerar um espaço na sociedade, seja nas comunidades, nas escolas ou nos próprios locais de trabalho, no qual a mulher também possa expor suas dúvidas, obter informações e buscar soluções para praticar ações individuais com repercussões sociais. É possível que a Psicologia Social, venha a contribuir nesse sentido, na organização de movimentos e grupos que evidenciem a mulher, bem como este tema pode instigar novas pesquisas.

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