Dependência Química e Comunidade Terapêutica: Possível caminho para Reabilitação Psicossocial na Sociedade

Dependência Química e Comunidade Terapêutica: Possível caminho para Reabilitação Psicossocial na Sociedade
(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Resumo: O presente estudo aborda o dependente químico e sua reabilitação na sociedade. É possível reabilitar-se? É um tema atual que nos leva à reflexão. Objetiva questionar a serviços de saúde, na qual é oferecido um tratamento adequado contínuo, por nove meses aproximadamente, de método como recuperação na espiritualidade e na filosofia dos doze passos com modelos psicológicos de orientação cognitivo-comportamental com a prevenção, a recaída e a psicodinâmica. A droga é um problema de saúde pública e social, mediante as experiências vivenciadas na história do homem em diferentes contextos culturais e sociais. Relevante apontar que não basta derrubar os muros dos hospitais psiquiátricos, mas sim, os preconceitos, conceitos e conscientizar-se que os dependentes químicos têm o direito de viver como cidadãos, de novas concepções e relações. O cuidado a esses usuários, sabendo que em médio ou longo prazo é preciso, todavia, considerar a família como mediadora entre o indivíduo e a droga. É um trabalho interdisciplinar em (re)encontrar um novo sentido de vida na inserção e nos laços sociais.

Palavras-chave: Dependência química. Comunidade terapêutica. Reabilitação Psicossocial. Cuidado interdisciplinar e familiar.

1. Introdução

O presente artigo objetiva entender a temática da dependência química e comunidade terapêutica, possível caminho para reabilitação psicossocial na sociedade. Visa-se compreender que o objeto de estudo é o dependente químico, isto é, o ser humano “sabido como diferentes”, marginalizados, rotulados e não aceitos na sociedade.

Este assunto é atual, motivado por experiência do pesquisador, em uma Comunidade Terapêutica no Município de Magé, da Cidade do Rio de Janeiro, nos anos de 2013 e 2014, trazendo para o contexto de forma empírica sobre um dos maiores problemas enfrentados no mundo.

Segundo Brasil (2009) em sua pesquisa, os maiores índices de consumo de álcool e outras drogas estão entre os homens do que nas mulheres. Podendo-se, então, causarem cada um de nós, receios e preconceitos, tanto quanto para os profissionais da saúde e familiares dos adictos. Seja necessário um novo caminhar, restituir dignidade desses adictos, atrelado por um processo de acolhimento nas comunidades terapêuticas, um trabalho psicossocial como instrumentos de reabilitação em suas famílias e na sociedade.

A importância deste artigo científico é a necessidade das políticas públicas, Estaduais e Municipais, mobilizarem-se a esses seres humanos com total investimento socioassistencial e financeiro no qual, realmente, traz custos absolutamente enormes a saúde; como medicamentos, tratamentos clínicos, internações, consultas psiquiátricas e psicológicas.

Vale ressaltar que, estudar sobre as comunidades terapêuticas é uma forma de desinstitucionalizar os hospitais psiquiátricos como forma abrangente, sem estigmas, estereótipos e preconceitos.

Com o olhar voltado sobre as necessidades dos dependentes químicos, a este modelo socioassistencial, como as comunidades terapêuticas, a reforma psiquiátrica continuaria a existir. Sendo assim, os adictos seriam encaminhados para os hospitais psiquiátricos, que seriam, dificilmente, reabilitados na sociedade.

Em experiência como psicólogo clínico, nos atendimentos individuais e psicossociais aos adictos, aos moradores de rua, aos transtornos mentais. Despertou-se a escolha do tema e em procurar entender e ao mesmo tempo questionar se havia eficácia das Comunidades Terapêuticas na reabilitação psicossocial dos dependentes químicos? Portanto, estudo minucioso de base bibliográfica, por meios de instrumentos como: sites científicos, revistas, artigos e livros científicos.

2. História da Dependência Química

Tratando-se deste fenômeno universal e de um movimento histórico, não se pode dizer que seja um evento, uma novidade na vida de cada ser humano.  O consumo de álcool e outras drogas sempre existiram, até mesmo porque, eram utilizadas de maneiras curativas e milagrosas, isto é, pela cultura ou pela religião. “Isso porque, o homem sempre buscou, através dos tempos, maneiras de aumentar o seu prazer e diminuir o seu sofrimento.” (PRATA e SANTOS 2009 apud MARTINS e CORRÊA, 2004).

Importante ressaltar que, o uso das substâncias psicoativas no tempo histórico, como os autores acima descreveram, como alívio e prazer, eram utilizados em festas, rituais em movimentos coletivos restritos por diversas pessoas como forma específicas. “A questão da evolução histórica da própria prática médica como instituição que detém a legitimidade hegemônica do domínio desse cuidado e dos saberes relativos à doença e à saúde” (PRATA e SANTOS 2009, p.203).

Sendo Sevalho (1993), descreve-o que as primeiras representações de saúde e doença estavam ligadas em uma questão mágica, isto é, concepções dos antigos povos da Mesopotâmia, como doenças influenciadas por entidades sobrenaturais, que a doença passou a ser explicadas por fenômenos religiosos, determinações dos deuses. 

Essa visão, de que as doenças passaram a ter explicações religiosas, começou a mudar a partir das experiências adquiridas pela cultura Egípcia, os quais evidenciaram uma naturalização das doenças, aliada às crenças sobrenaturais, religiosas e mágicas que os egípcios possuíam.

Para os Gregos, que empregavam vários tipos de drogas, a ação dessas era vista de maneira relativa, pois uma determinada substância poderia ser utilizada, simul­taneamente, como remédio ou veneno, dependendo de sua dosagem. Isso porque era essa dosagem que determinava o efeito curativo de uma determinada substância utilizada e o envenenamento provocado pela mesma (MACRAE, 2001; TOSCANO JR., 2001).

Assim, os gregos na antiguidade eram povos considerados ricos de conhecimentos mitológicos e filosóficos, entretanto, eram capazes de distinguirem as naturezas das tais doenças da época, como fonte principal às explicações que o povo grego aderiu fundamentos religiosos.

Neste mesmo raciocínio, Os romanos, que sofreram grandes influências dos gregos, também compartilhavam dessa opinião, enfrentando as drogas como sendo neutras, isto é, seus efeitos, sejam estes positivos ou negativos, dependiam da dosagem e da maneira de uso das mesmas (MACRAE, 2001; TOSCANO JR., 2001).

A Organização Mundial de Saúde (OMS): “Abrange qualquer substância não produzida pelo organismo capaz de produzir alterações no funcionamento dos sistemas do nosso corpo”.

As drogas utilizadas para alterar o funcionamento cerebral, causando modificações no estado mental são chamadas drogas psicotrópicas. O termo psicotrópico é formado por duas palavras: psico e trópico. Psico está relacionado ao psiquismo, que envolve as funções do sistema nervoso central; e trópico significa em direção a. Drogas psicotrópicas, portanto, são aquelas que atuam sobre o cérebro, alterando de alguma forma o psiquismo. Por essa razão, são também conhecidas como substâncias psicoativas (SENAD, 2014).

Esta ideia da OMS sobre a dependência química foi incluída recentemente, dentro de um contexto maior, não é apenas a quantidade e frequência do uso que pode determiná-la, mas o seu consumo. A dependência química é atualmente um dos problemas mais graves do nosso mundo. O uso de substâncias psicoativas tem atingido diversas pessoas, independentes de raça, cor, etnia ou poder socioeconômico. A droga é um problema de saúde pública e social, mediante as experiências vivenciadas na história do homem em diferentes contextos culturais e sociais.

É sabido, em todo momento, notícias na TV, nos jornais, nas novelas, nas escolas, nas igrejas, sobre, consideravelmente, o aumento do consumo de álcool e outras drogas, e principalmente nas famílias, as quais estão sendo as mais atingidas e as consequências tão sofridas pelo o uso e o abuso de drogas consumidas pelos seus filhos.

A busca pelo alívio da angústia, da dor e do sofrimento leva às pessoas a “fugirem da própria realidade”, e esse momento de fuga que se acredita na solução de algum problema que através do uso de substâncias fora do corpo da qual chamamos drogas, que podem legalmente (lícitas) prescritas pela medicina ou drogas ilegais (ilícitas) não regulamentada, legalizada e fiscalizada.

Falar sobre a história da dependência química é, de fato, trazer em debates; quanto a sua dependência; classificações; formas de uso; tipo de ações; prevenções e tratamento. Existem várias classificações de drogas, mas devemos dar especial atenção aos efeitos que elas causam no Sistema Nervoso Central (SNC). Este é um ponto fundamental de referência pelas quais produzem mudanças, nas sensações, nos estados emocionais, que de outro modo das sensações agradáveis e de recompensas, vem às lesões e os danos que muitos são irreparáveis no cérebro. Em suma, percebe-se que os efeitos das drogas são variados de acordo como indivíduo, a droga e o meio, a forma de uso irão ocasionar o uso e abuso.

Vale ressaltar quanto à natureza que, inicialmente, todas as substâncias psicoativas eram consumidas diretamente ou produzidas a partir da extração de substâncias Naturais: tabaco, álcool Etílico, Maconha, Ópio, folha de coca, Sintéticas: ecstasy, GHB, Ketamina, Anfetamina, Compostos mistos: cigarros, xaropes, crack, morfina, heroína. Sendo, no entanto, sua forma de uso: aspiração, ingestão, inalação, fumo, injeção e dérmica.

Quanto ao tipo de ação: Uma das justificativas dos usuários é a busca do prazer ou felicidade, isto devido à ação de neurotransmissores que liberam Dopamina, Serotonina, e Adrenalina. O fato que ocorre com as drogas são basicamente os tipos de ação das substâncias psicoativas são de três tipos: Depressoras, estimuladoras e perturbadoras.

DEPRESSORAS

ESTIMULADORAS

PERTURBADOREAS

Álcool

Anfetaminas

Ácido Lisérgico (LSD)

Analgésicos

Anorexígenos

Ayahuasca

Ansiolíticos

Cafeína

Cogumelo

Barbitúricos

Cocaína

Datura

Benzodiazepínicos

Crack

Ecstasy

Calmantes

Nicotina

GHB

Heroína

 

Ketamina

Morfina

 

Maconha

Opáceos

 

Mescalina

Solventes e Inalantes

 

 

Drogas Depressoras: São drogas que diminuem a atividade mental. Afetam o Cérebro fazendo com que funcione de forma mais lenta. Essas drogas diminuem a atenção, concentração, tensão emocional e a capacidade intelectual.

Drogas Estimulantes: São drogas que aumentam a atividade mental. Afetam o cérebro fazendo com que funcione de forma mais acelerada.

Drogas Perturbadoras: São drogas que alteram a percepção, chamadas de alucinógenas. Provocam distúrbios no funcionamento do cérebro. Fazendo com que ele passe a trabalhar de forma desordenada, numa espécie de delírio - Falso juízo da realidade, e alucinação, isto é, uma percepção sem o objeto, ele não existe.

A dependência química é uma doença crônica e multifatorial quase sempre associada a outras doenças. Cada droga tem seu grau de dependência dificultando o diagnóstico. O tratamento consiste em parar de consumir a droga e manter-se em abstinência. O processo terapêutico depende da vontade do paciente.

3. Reforma Psiquiátrica no Brasil e a Desinstitucionalização dos Hospitais Psiquiátricos

Quando inclinamos para a história da reforma psiquiátrica no Brasil, deparamos sobre nós mesmos, com a loucura, crenças e preconceitos. O conceito de loucura é uma construção histórica. A população sofre de algum transtorno mental, isto é, a Dependência Química, e é reconhecida como uma das mais excluídas socialmente.

Uma das razões que motivaram o movimento antimanicomial foi a visão do sujeito portador de sofrimento mental internado numa instituição psiquiátrica como sendo um ser sem direitos, ajoelhado diante do poder médico representante da sociedade que o excluiu (BASAGLIA,1985).

A proposta da reforma psiquiátrica é reduzir, ou seja, desinstitucionalizar, os grandes hospitais psiquiátricos, que apenas servem de depósitos de pacientes com transtornos mentais, dando ênfase aos dependentes químicos, como referência o filme: “Bicho de Sete Cabeças”, que ressalta bem que, os internatos não eram somente aos transtornos mentais, e podendo-se afirmar segundo o CID 10 -F19 - Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de substância psicoativa.

A princípio o movimento antipsiquiatria, deu-se com um acontecimento histórico, juntamente com a Reforma Psiquiátrica em 1970, que quer dizer, outros parâmetros de atuação para os indivíduos com transtornos mentais. Queriam fundamentar-se em um modelo de “saúde”, em que se centrasse na pessoa, não mais como escassez de doença.

Logo, mesmo com esse chamado “movimento sanitário” a Reforma Psiquiátrica tomou o seu lugar, configurou-se a ideia da Saúde/doença mental no Brasil. Desenvolveu-se mesmo com impasses, conflitos com o poder político, tornando-se um amplo “conjunto de práticas, valores sociais e culturais” (BRASIL, 2010).

No entanto, o forte impacto em que a sociedade brasileira estava sofrendo, “Diante de um processo de redemocratização, não havia espaço para a configuração da problematização do processo saúde/doença mental presente no país. Tornando-se imediata necessidade de sua modificação.” (FEREIRA, 2006).

 Pode-se explicar que as consequências para a política de saúde mental foram de certa maneira favoráveis que possibilitaram propostas efetivas de redefinição das políticas sociais voltadas à saúde. Podendo assim dizer até inexistentes a Saúde Mental no Brasil.

Assim puderam-se haver encontros que respaldasse a ideia da Reforma Psiquiátrica como base na “Primeira Conferência Nacional de Saúde Mental realizada em 1987 na qual se apresentavam denúncias sobre violências e maus tratos que estavam expostos os internos dos hospitais psiquiátricos” (FERREIRA, 2006).       

Com isso pode-se dizer que a Reforma Psiquiátrica desestruturou-se possibilitou a desospitalização dos doentes mentais. Sendo assim, foram necessárias outras medidas, a fim de que reestruturasse um lugar para os mesmos permanecerem. Assim, a desinstitucionalização coloca em questão não o manicômio, mas a loucura. Desmontá-la para montá-la novamente, mas agora com uma nova perspectiva, a do cuidado, das relações, da representação social, da ressocialização. O manicômio aqui é um representante dos significantes e significados da doença mental, isto é a dependência química e de práticas ineficientes e desumanas no tratamento do ser adoecido.

Sendo assim, Criando Residências Terapêuticas (RTs) Programas de Volta pra Casa e os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) as Comunidades Terapêuticas (CTs) que integra as normas do SUS evitando assim a internação e podendo ser “um atendimento diurno, clínico e reabilitação psicossocial dos transtornos mentais” (BRASIL, 2004).

Segundo (Rosa 2003) configura-se que acabar com a desospitalização não garante que criações de serviços abertos e comunitários como os CAPS, por exemplo, pode-se esconder a ideia dos hospitais psiquiátricos. Relevante apontar que não basta derrubar os muros dos hospitais psiquiátricos, mas sim, os preconceitos, conceitos e conscientizar que os dependentes químicos têm o direito de viverem como cidadãos, que de acordo com o autor ressalto a importância de novas concepções e relações.

De acordo com a Portaria SNAS/MS Nº 224/92, determina que todos os hospitais gerais com mais de 100 leitos deveriam disponibilizar leitos para atendimento psiquiátrico, além disso, precisamos aumentar o número de CAPS III funcionando 24h, com internamento, além de hospitais dia e hospitais de urgência em psiquiatria.

De fato, por mais difícil que seja não podemos admitir a ideia da volta dos manicômios, devemos enfrentar as dificuldades e encontrar soluções para implantação da rede substituta, quer dizer, as comunidades terapêuticas, fazendo com que todos os níveis federados assumam essa responsabilidade, cumprindo a lei a nível federal, estadual e municipal, e essa é nossa grande luta nesse momento.

Segundo Lemos (2013) a dependência química é o último estágio no processo que envolve o abuso de drogas lícitas ou ilícitas. É considerada uma doença psiquiátrica de ordem biológica, psicológica e social, provocada e mantida pela alta administração compulsiva de drogas independendo dos resultados benéficos ou maléficos e, posteriormente o desejo de se manter abstinente.

Devemos estar atentos sobre a Lei 10.216/01 que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais e/ou dependentes químicos, e redirecioná-lo ao modelo assistencial em saúde mental.

Esta ideia de ser normal ou não ser, deve-se estabelecer critérios de normalidade ou de patologia, normalidade como ausência de doença. Como dizia o velho aforismo médico: “A saúde é o silêncio dos órgãos”. Segundo, Carlos Drummond de Andrade (1974) o que é loucura: ser cavaleiro andante ou segui-lo com escudeiro? De nós dois quem será o mais louco verdadeiro?

Em outras palavras, o normal seria aquele que não é ou que não possui alguma doença mental definida. Mas há controvérsias, pois ser normal segundo Organização Mundial de Saúde (OMS): se refere “a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não simplesmente a ausência de doença e enfermidade”.

A característica essencial da dependência de substância consiste na presença de um agrupamento de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos indicando que o indivíduo continua utilizando drogas, apesar de problemas significativos relacionados a ela (DSM-IV, 2002, p. 208).

4. A Eficácia da Comunidade Terapêutica e a Possível Reabilitação Psicossocial do Dependente Químico

Neste capitulo, verificou-se o que são as Comunidades Terapêuticas (CTs) sua eficácia ao tratamento e método a desenvolver para uma possível reabilitação do dependente químico na família ou e sociedade. As CTs são serviços de saúde, na qual são oferecidos um tratamento adequado contínuo, por nove meses aproximadamente, de caráter residencial a fim de dar aos adultos com necessidades clínicas estáveis decorrentes ao uso de substâncias psicoativas.

Provê cuidado residencial transitório a pessoas que requeiram, temporariamente, afastamento de seus contextos. Atua, de forma articulada junto aos demais pontos de atenção, na operacionalização dos Projetos Terapêuticos Singulares construídos junto aos CAPS E UBS, de modo a favorecer a construção de novas perspectivas para pessoas com problemas de uso e abuso de drogas (BRASIL, Portaria nº121 de Janeiro de 2012).

O Centro de Atenção Psicossocial que é responsável pela indicação do acolhimento, pelo acompanhamento especializado durante este período, pelo planejamento da saída e pelo seguimento do cuidado, bem como, participar de forma ativa da articulação intersetorial para promover a reinserção do usuário na comunidade.

Neste raciocínio, se dá a eficácia das Comunidades Terapêuticas (CTs) não só internamente, os procedimentos clínicos, psiquiátricos e psicológicos, mas também as articulações com a toda a rede assistencial do território ou município.

De acordo com Fracasso (2002) trata-se de uma Comunidade Terapêutica, com limites precisos e funções bem delimitadas, regras claras e afetos controlados, através de normas, horários e responsabilidades. Sua estrutura é para que o paciente se situe totalmente no tratamento, sendo assim, o trabalho intenso, tanto pela equipe profissional, quanto pelos pacientes.

Segundo Pozas (1996) as CTs não são só os resultados do tratamento, mas também as consequências de uma reabilitação social envolvendo intervenção também em outros locais fora do espaço da CT). As CTs foram criadas com o intuito de dar uma resposta aos problemas da dependência de drogas, possuindo, assim, um ambiente que necessariamente é livre das mesmas e uma forma de tratamento em que o paciente é tratado como o principal protagonista de sua cura.

Atualmente para conseguir lidar com a demanda de pacientes que vão à busca de CT, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) editaram uma resolução que foi capaz de regulamentar o funcionamento de todas as CT existentes no país (Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2001). Interessante afirmar, que a busca pelas CTs, geralmente, é a família, um amigo, é difícil ver uma internação espontânea.

O aumento significativo de CT é uma resposta à evolução do consumo de drogas ilícitas por parte dos jovens" e, quando os princípios de recuperação, resgate da cidadania, reabilitação física e psicológica e de reinserção social são corretamente aplicados, os tratamentos apresentam resultados positivos importantes, sendo o objetivo agir nos fatores psicossociais do indivíduo, ficando o tratamento medicamentoso por conta de outros órgãos, como hospitais e clínicas especializadas (SERRAT, 2002, p.2).

“Quanto à eficiência das CT, de acordo com os dados da FEBRACT, pode-se dizer que em termos estatísticos em nível mundial, 30% a 35% das pessoas que frequentaram CT deixaram definitivamente de consumir drogas” (SERRAT, 2002). Frente às novas diretrizes estabelecidas para a regulamentação das CT e visando conhecer o perfil de pacientes usuários desse serviço socioassistencial.

Segunda a Portaria RS/SES Nº 591 DE 19/12/2013, Resolve: As Comunidades Terapêuticas visam à reabilitação psicossocial, a reintegração à família e o retorno ao convívio social das pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas, em situação ou não de vulnerabilidade social, de ambos os sexos.

A responsabilidade técnica das Comunidades Terapêuticas ficará a cargo de um profissional de nível superior, legalmente habilitado e um substituto com a mesma qualificação, devendo um deles ser da área da saúde.

Considera-se legalmente habilitado o profissional registrado no seu respectivo Conselho Regional e com Termo de Responsabilidade Técnica assinado e datado. A equipe técnica mínima para atendimento de até 30 residentes, deverá ser composta por:

  1. 02 (dois) profissionais de nível superior com formações distintas;
  2. 01 (um) profissional para as questões operacionais, podendo ser o próprio responsável técnico;
  3. 03 monitores para até 30 residentes, 02 monitores para 20 residentes e 01 monitor para até 10 residentes;
  4. 01 (um) oficineiro/artesão.  
  5. A equipe noturna deverá ser composta por um profissional que responda pelas questões operacionais e 01 (um) monitor.
  6. É recomendada a contratação de educador físico para a prática de esportes.

Vale ressaltar que muitas vezes o fracasso das reabilitações psicossociais, ou das comunidades terapêuticas, ou o próprio dependente químico, é o fato que a rede não funciona devidamente, não há um serviço fora das comunidades.

Sendo assim, pode-se de fato interrogar que:

A presidente do conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul, crítica o investimento de dinheiro público nas comunidades terapêuticas. Essas comunidades não são eficazes no combate ao uso da droga, já que não possuem plano terapêutico técnico e, muitas vezes, apresentam tendências religiosas que não são compatíveis com a devoção dos pacientes. Estamos acompanhando o trabalho que vem sendo desenvolvido nas comunidades terapêuticas e em geral elas não atendem as necessidades dos usuários no sentido de efetivamente ter um plano terapêutico que possa dar conta das pessoas que usam drogas (PALZINI).

Em contrapartida é meio equivocada esta afirmação da presidente do Conselho, mesmo porque, deve-se investir financeiramente nestes serviços de saúde, em absoluto. Se técnicas, métodos, teorias não funcionam, obviamente, outro serviço talvez o seja.

Mas ao contrário, a articulação das redes de saúde, não estão preparadas, não possuem estratégicas para fornecerem aos usuários em recuperação, que é lógico e mais fácil, dizer que as Comunidades Terapêuticas, não são eficazes, o quanto queiram que sejam.

Serviços de Atenção em Regime Residencial, dentre os quais Comunidades Terapêuticas - serviço de saúde destinado a oferecer cuidados contínuos de saúde, de caráter residencial transitório por até nove (09) meses para adultos com necessidades clínicas estáveis decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas.

Esta Instituição funciona de forma articulada com atenção básica que apoia e reforça o cuidado clínico geral dos seus usuários e como Centro de Atenção Psicossocial que é responsável pela indicação do acolhimento, pelo acompanhamento especializado durante este período, pelo planejamento da saída e pelo seguimento do cuidado, bem como, participar de forma ativa da articulação intersetorial para promover a reinserção do usuário na comunidade.

5. O Cuidado Interdisciplinar com o Dependente Químico e a Família na Sociedade Contemporânea

O dependente muitas vezes não tem noção da gravidade do seu estado pode sentir vontade de se “testar”, expondo-se a situações de risco. A família deve ajudá-lo estabelecendo regras para evitar a recaída. É importante evitar os locais de risco por isso todos devem ajudar: o patrão, os vizinhos, os amigos, mas o suporte maior deve vir da família.

A família é sem dúvida fundamental para o sucesso do tratamento de dependência química. Acreditar que tudo se resolverá a partir de algumas consultas ambulatoriais ou de uma internação é no mínimo uma postura cética. 

Não se trata de fiscalizar, mas de chamá-lo à reflexão. Nesta perspectiva, há uma desmistificação da culpabilidade do usuário de drogas para o campo da responsabilidade. É preciso entender que o uso abusivo de drogas é uma doença. Em primeiro lugar é preciso a motivação do dependente para iniciar o tratamento e em seguida o apoio da família para mantê-lo motivado.

A família por estar desprovida de informações sobre a questão das drogas, principalmente as ilícitas, pode ter sua participação no tratamento comprometido por distorções presentes na sociedade. Afinal as drogas são apresentadas como algo demoníaco. 

O tratamento da dependência deve passar pela avaliação da família, a presença de consumo problemático de drogas entre os mais velhos, violência, ausência de rotina familiar e a dificuldade dos pais em colocar limites nos filhos aumenta o risco do surgimento de dependência entre os seus membros. 

No espaço familiar são construídos valores, regras, papéis que solidificam a história de cada família que está inserida numa realidade social e quando ocorre algo que provoca distorções nos comportamentos surgem conflitos. Em casa somos classificados pela idade, sexo e papel que desempenhamos e nossa conduta é regida por valores como honra, vergonha e respeito (GARCIA E MENANDRO, 2000, p. 344).     

É importante destacar aspectos do contexto familiar em que estão inseridos os dependentes químicos: desemprego, violência, insegurança. Um conjunto de ações que configuram expressões da questão social, por isso é fundamental trabalhar o papel da família que dada à realidade da sociedade ocupa posição difícil e conflitante.

A família está sujeita às influências que a realidade econômica, social, cultural e histórica determina e por isso constantemente vem atravessando crises. A ideia que temos de família como um grupo relativamente bem estruturado, envolvendo o pai, a mãe e os filhos, muitas vezes não corresponde à diversidade dos modelos de família existentes e das realidades em que vivem. Criamos em nossa cultura a ideia de uma família-modelo, porém vale ressaltar que nenhum relacionamento está livre de conflitos. Por isso nem sempre podemos ter a resposta ideal de nossas famílias.

No âmbito familiar deve-se buscar espaço para o diálogo, na busca da superação de problemas, conflitos e na construção no dia-a-dia do respeito mútuo, consolidando comportamentos preventivos em relação ao uso de drogas. Em toda família coexistem tendências para saúde e para doença, o diferencial se fará a depender de como a família enfrente situações de crise, de como está à afetividade e a comunicação entre seus componentes.  

 A família se organiza com padrões que dão sentido a sua dinâmica. E a estrutura familiar se constitui de um conjunto de regras que determinam os relacionamentos de seus membros, localizando o lugar de cada um, estabelecendo seu papel e função. Para ele, cada indivíduo aprende a relacionar-se dentro do sistema através de regras verbalizadas ou não. Estes padrões se formam pela troca do cotidiano, podendo não ser visíveis aos membros da família. Com isso, se ocorrer uma mudança num membro da família, consequentemente os outros serão afetados.

Quando um indivíduo da família apresenta algum problema, isto pode significar que toda a família está com dificuldade. Ou seja, cada tipo de tensão vivida pela família, exigirá um processo de adaptação, transformações de interações familiares, a fim de manter-se o equilíbrio da família, conduzindo ao crescimento de seus membros (MINUCHIN, 1990).

A equipe técnica deve saber que o dependente químico desenvolve um comportamento autodestrutivo de desestruturação de sua pessoa e do meio onde se encontra, desenvolvendo reações disfuncionais em relação ao outro e que o primeiro alvo a ser atingido é a família (MINUCHIN, 1990).

Logo a atuação do Assistente Social e do Psicólogo ao lidar com o dependente e sua família, é de fundamental importância para a facilitação da reinserção social de ambas as partes, a fim de promover a recuperação dos envolvidos.  É preciso orientar o dependente e a família quanto aos prejuízos físicos e sociais causado pela droga, ou seja, envolver a família no tratamento. A abordagem familiar deve ser considerada como parte integrante do tratamento.

A maioria dos usuários que chega às unidades de tratamento é trazida por parentes. O discurso utilizado pelas famílias responsabiliza o usuário assim, como a sociedade que criminaliza e estigmatiza o dependente sem considerar fatores externos que determinam sua condição.  É comum o dependente ou a família se autodenominarem vítimas e se contrapor uns aos outros, sem perceber que ambos estão no processo de saúde-doença.

6. Conclusão

Este artigo pôde resultar que, a Dependência Química é um dos maiores problemas enfrentados do mundo. Trouxe a nós, uma reflexão de que a eficácia das Comunidades Terapêuticas será possível com um planejamento de prevenção, juntamente à família e a equipe multidisciplinar a serviço do adicto, para que o mesmo reabilite na sociedade.

Cabe salientar que, Comunidades Terapêuticas do usuário que obteve êxito no tratamento.

No entanto, o tratamento para o Dependente Químico se dá com sua decisão espontânea e de querer mudar sua realidade de vida. No qual, observou-se que os mesmos podem deixar o uso das drogas. Em suma, a realidade do adicto no âmbito familiar e na sociedade é diferente na Comunidade Terapêutica que este, o usuário, está em parte, protegido, por sair do seu meio social e da droga. Pois, manter o indivíduo, meio e droga, no acompanhamento intersetorial em articulação com a rede socioassistencial que na verdade este é o nosso grande desafio pós-tratamento.

Salienta-se que, nas Comunidades Terapêuticas o elemento terapêutico foi visto que é a relação do residente com a comunidade dos residentes, que faz com que o trabalho dos profissionais de CTs diferencia das demais relações dos profissionais com pacientes de um posto de saúde.  No papel do Assistente Social e do Psicólogo, coube proporcionar aos residentes experiências que o ajudaram no seu crescimento e na aquisição de valores do bem viver, e, assim, tornando-se novamente membro de sua família de origem e da sociedade que o excluiu.

Sobre os Autores:

Rodrigo Osório dos Santos - Graduado em Psicologia pela Universidade Católica de Petrópolis-UCP-RJ. Pós-graduando em Saúde Mental pela UCDB/ Mato Grosso especialização (lato sensu).

Bethania Dos Santos Porto - Graduada em Psicologia (UCDB/MS), Especialista em Saúde Coletiva e Saúde da Família (UNIDERP/MS). Orientadora do trabalho de conclusão do curso de Especialização em Saúde Mental apresentado ao Portal Educação. Curso Modalidade à distância credenciado pela Universidade Católica Dom Bosco

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BODANZKY, Laís. Bicho de sete Cabeças. São Paulo, SP, 2000. Buriti filmes; Gullane Filmes; dezenove som e imagem e Fábrica Cinema – Itália.

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