Depressão: o Preconceito Acerca do Depressivo na  Sociedade Contemporânea

Depressão: o Preconceito Acerca do Depressivo na  Sociedade Contemporânea
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Resumo: A necessidade de convívio social e triunfo no modelo de vida perfeita, da sociedade capitalista do século XXI, força a busca intensa pela perfeição inexistente, tanto no seu acumulo material, quanto nas suas relações do seu meio sociocultural, que por algum motivo ou por sobrecarga de tanta cobrança, por obter sempre o êxito, a falência de suas relações com seu meio, pode lhe colocar na situação de isolamento interno e/ou externo, de estar com o transtorno depressivo. Diante de tal dilema, o doente e seu meio por vezes, tomam conceitos ou decisões equivocadas sobre o transtorno. Buscou-se entender um pouco, as relações com que a sociedade com esse tipo de conceito equivocado percebe e /ou aceita o depressivo, e quais influências a sociedade exerce sobre esse indivíduo com o transtorno depressivo.

Palavras-chave: Depressão, Preconceito, Sociedade.

1. Introdução

A expressão “mal do século” atribuída à depressão e suas diversas vertentes, vem sendo legitimada através do evidente aumento na atualidade. Indícios de depressão em indivíduos no decorrer da história humana, vão desde relatos no antigo testamento bíblico até quando Hipócrates usou os termos “mania” e “melancolia” para perturbações mentais a cerca de 400 a.c, sendo usado também por Alexandre de Talles, no século VI. O médico judeu, Moses Maimonides no século XII considerou a melancolia como uma entidade patológica distinta (KAPLAN, SADOCK, GREBB, 1997).

Na atualidade a depressão é classificada pelo CID-10, (classificação internacional de doenças), com indivíduos com depressão, caracterizados por sofrer de perda de interesse e prazer, energia reduzida, maior desgaste físico em atividades “leves” diárias, ansiedade, angústia, mudança de humor corriqueiras, por vezes demostradas por irritabilidade, consumo excessivo de álcool, em alguns casos que não é padrão do transtorno, comportamento histriônico, exacerbação de sintomas fóbicos ou obsessivos preexistentes, ou por preocupações hipocondríacas e etc (CID-10, 1993).

A busca do ser humano pelo o ideal de sempre ser um “vitorioso” em todos os aspectos da vida, é incessantemente imposto pela sociedade progressista do século XXI, sendo de critério para inserção social em diversos grupos, culturais, religiosos, econômicos e etc. Não está enquadrado em algum tipo de símbolo de êxito em seu meio social, é taxado como fracassado, em uma sociedade altamente classista, logo colocara em cheque o convívio de um indivíduo sem “referência de líder vitorioso”.  E como reflexo de seus questionamentos de não êxito na vida social, por muitas vezes, a depressão se torna seu cotidiano. Transtorno esse que a sociedade e o portador abominam, gerando conceitos equivocados sobre tal doença, causando assim o agravamento da depressão.

2. Desenvolvimento

O indivíduo depressivo por vezes procura algum tipo de auxílio especializado para tentar sair do transtorno. Em um clínico geral tenta ser diagnosticado e encaminhado para um psiquiatra ou psicólogo, na tentativa de uma “cura imediata”, tenta a solução por vias farmacológicas com psiquiatras, que não hesita em prescrever suas “drogas” antidepressivas, para um resultado com tempo marcado para o fim.

O depressivo que ainda não se assume com tal transtorno, por tantos motivos, um em especial, traz a atenção do novo modo de abordá-lo, o preconceito, do depressivo e das pessoas em sua volta. Aceitar que está com uma doença psíquica em uma sociedade altamente seletiva, é o mesmo que se declarar que está “desistindo” dos degraus do sucesso. O modelo hospitalocêntrico de tratar as doenças depois de instaladas, força que a procura para um especialista seja tardia, causando um nível maior do transtorno depressivo, forçando assim que o doente adote conceitos equivocados sobre sua patologia. O preconceito sobre o transtorno, divido aqui em duas vertentes: o auto preconceito e preconceito social.

2.1 Auto-preconceito

Assumir e aceitar que estar com um mal psíquico na atualidade nunca foi tão difícil, aceitar que está com algo tão subjetivo e abstrato que a depressão, torna-se um desafio, para uma sociedade com pressa de soluções imediatas. Com o medo de ser excluído de seu meio de convívio social, o depressivo guarda internamente suas angústias, medos e principalmente seu transtorno, que lhe deixa em uma espécie de luto eterno, com o único desejo de se tornar invisível. Há uma tentativa de esconder ao máximo seu transtorno com medo de ser “julgado” com um distúrbio mental, e de estar totalmente fora de seu controle, o deixa em uma situação delicada em meio a tantas decisões. A fraqueza física, falta de ânimo, ideais de culpa e inutilidade, sem autoestima e autoconfiança, intensificam a decisão de guardar para si, o transtorno depressivo, podendo ocasionar a mais grave situação, o suicídio!

Não se submeter a arriscar seu convívio social ao expor seu sofrimento psíquico, proporciona ao indivíduo com depressão, o isolamento tanto físico quanto mental. Seu medo de não “adequação” ou represarias a sua condição, o deixa encurralado entre ele e seu sofrimento. O ideal de perfeição imposto pela sociedade principalmente capitalista e globalizada, torna o indivíduo que foge de alguma maneira desse modelo social, um exemplo a não seguir, ou alguém que se deve manter distância, causando o isolamento, que para o depressivo com dúvidas de expor sua doença, é um fator primordial para o agravamento da depressão. Mostrando assim a crueldade do sistema vigente na sociedade, como afirma Kehl (2002, p. 81-82), “o sujeito moderno sofre de sua culpa neurótica, acrescida da culpa por estar sofrendo”.

2.2 Preconceito social

“Tente sorrir! Se esforce um pouco mais! Deixe essa besteira de depressão! Você vai conseguir!” E o pior, “Tenta ficar bem." Frases como essas que não ajudam em nada ao depressivo, pelo contrário o deixa com sentimento de incapacidade, que sua doença é mais nada do que falta de esforço para sair dessa situação, de “tristeza momentânea”, não encarando como doença.

Muitas vezes tomando julgamento mais radical, algumas pessoas que participam do seu meio social, logo darão seu julgamento, com a sentença de falta de fé em alguma crença religiosa, de um ser derrotado, Preguiçoso, Acomodado, Egoísta, ou a mistura disso tudo, tentar minimizar a situação comparando-o com outras doenças ou situações, para mostrar que sua depressão não tem muita importância, perante tantas doenças colocadas como “dignas” de total atenção, proporcionando assim um maior sofrimento para o depressivo, e causando o sentimento de culpa por estar com a saúde física em perfeitas condições, e não “valoriza-la”, estando triste e depressivo, lhe colocando no dilema se realmente merece viver.

O mundo com ideais de sempre obter sucesso e progresso, não ver com bons olhos as pessoas que decidem “desistir do jogo da vida”, tratar o depressivo como alguém que está dando desculpas para ter alguma facilidade em algo, é tão recorrente que está ficando banal. O sentimento de ser indesejável quando o meio social está ciente de seu transtorno, é refletido nos olhos a repulsa e prejulgamento, afinal, as pessoas não gostam de quem é triste e melancólico.

A tentativa de uma “solução” para o transtorno, diante a saúde pública e atenção familiar com o indivíduo depressivo, na maioria das vezes por vias farmacológicas, coloca em pauta a máxima de encontrar uma droga “certa” para cada doença, alimentando assim a indústria de medicamentos com seu intuito de produção em larga escala e ganho de lucro. Que por muitas das vezes são a primeira saída para obter sua “cura”, sem levar em conta os fatores sociais envolvidos no transtorno.

A demanda do ser humano de ser um sujeito com a felicidade ilimitada, causa aqueles que não conseguem seguir esse estilo imposto por modelos contemporâneos de “vida perfeita”, o conflito pessoal de não adequasse a esse ideal, conflito esse que pode levar ao fracasso ou falência de suas relações sociais, que hoje são tão mercantilizadas. Dirigir a própria vida nunca foi tão difícil, com a dependência do convívio em grupo para esse fim, quando esse objetivo não é alcançado, e seu modelo de vida “perfeita” não é prontificado, o transtorno depressivo entre outros, emerge como se estivesse na espreita, esperando uma nova chance para atacar.

A repulsa a pessoas com transtorno depressivo, nada mais é que o distanciamento do inverso da busca de seu ideal de sucesso, que por muitas vezes, esse repúdio causa o agravamento na doença do indivíduo com transtorno. “O mundo contemporâneo demonizou a depressão, o que só faz agravar o sofrimento dos depressivos com sentimentos de dívida ou de culpa em relação aos ideais em circulação” (KEHL, 2009, p. 16).

3. Considerações Finais

Os conceitos equivocados sobre o indivíduo depressivo, perpassa além da falta de conhecimento, do próprio ou das pessoas em sua volta. Os ideais em circulação contribuem para o distanciamento das pessoas com o transtorno, e assim, não encarando-o como doença, promove os primeiros pensamentos para um julgamento mais radical, que é a loucura. Manter distância, com medo de ser infectado com a tristeza alheia, é o reflexo da sociedade que não encara o transtorno depressivo com a importância que ela tem, a tornando-a invisível. Após seu meio tentar mostrar que o doente está bem, pelo menos em sua saúde física, proporciona assim, que o indivíduo depressivo se torne incapaz de procurar ajuda, movendo-o ao sentimento de culpa e inutilidade.

A orientação e disseminação de informações sobre o transtorno depressivo, entre sociedade e doente, sem sombra de dúvidas pode acarretar na diminuição de modos equivocados de encarar o transtorno. Que ao invés de simplesmente apontar o dedo e aconselhar bom ânimo, orientar a procura de um profissional adequado (Psicólogo e Psiquiatra), para que um dia a sociedade encare o transtorno depressivo como doença, e sem preconceitos.

Sobre os Autores:

Lino José da Silva - Graduando em psicologia pela Universidade Federal de Alagoas

Co-Autora: Liliane Santos Pereira Silva - Graduando em psicologia pela Universidade Federal de Alagoas

Referências:

KAPLAN, SADOCK, GREBB; Compêndio de Psiquiatria – Ciência do comporttamento e Psiquiatria Clínica; 7ª ed.; Ed. Artes Médicas; Porto Alegre; 1997

KEHL, M. R. (2002). Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras.

KEHL, M. R. (2009). O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo.

OMS - Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10

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