Depressão Relacionada à Tentativa de Suicídio em Mulher Adulta Jovem

Depressão Relacionada à Tentativa de Suicídio em Mulher Adulta Jovem
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Resumo: Depressão é uma doença que se caracteriza por afetar o estado de humor de uma pessoa, deixando-a com um predomínio anormal de tristeza. Todas as pessoas homens e mulheres, de qualquer faixa etária, podem ser atingidas, porém, mulheres são duas vezes mais afetadas que os homens. As causas da depressão são múltiplas, de maneira que somadas podem desencadear a doença. Devem-se às questões constitucionais das pessoas, com fatores genéticos e neuroquímicos (neurotransmissores cerebrais) somados a fatores ambientais, sociais e psicológicos, como: estresse, estilo de vida, acontecimentos vitais, tais como crises e acontecimentos conjugais, morte na família, climatério, crise de meia-idade, entre outros. Na busca de compreender e analisar as consequências psicológicas da tentativa de suicídio em mulher adulta jovem que apresentam depressão, este estudo qualitativo foi realizado com seis mulheres que apresentavam depressão e/ou tentaram o suicídio e encontrava-se em atendimento na Clínica Escola de Psicologia de uma faculdade particular na cidade de Teresina – PI. Os dados foram coletados por meio de entrevista semi-estruturada e analisados através da análise de categorias. Para auxiliar esse método abordou-se teoricamente a depressão, o tratamento, epidemiologia e etiologia, a depressão e a mulher, e as abordagens terapêuticas, o suicídio, tipo de suicídio, auto-imagem, angústia e o adulto jovem. Verificou-se que estas mulheres estão passando por conflitos de angústia e culpa por tentarem o suicídio, e tendo esse ato como uma solução para acabar com o seu sofrimento. Não aumentaram os sintomas depressivos após a tentativa de suicídio, mas tenderam a não querer mais cometer o ato, pois esse gerava muita culpa, remorsos e arrependimentos.

Palavras-chave: Depressão, Suicídio, Mulher adulta jovem.

1. Introdução

A depressão é denominada como uma doença que se caracteriza por afetar o estado de humor da pessoa, deixando-a com um predomínio anormal de tristeza. É tão universal quanto o mais comum dos resfriados. Pode apresentar muito fraca, a ponto de nem merecer este nome, por exemplo, uma simples indisposição passageira que amanhã terá desaparecido, podendo apresentar sob a forma de um sentimento vago, ou de uma melancolia permanente, que extingue o brilho da existência à medida que se vive à rotina do dia-a-dia, podendo no outro extremo de sua manifestação, chegar a paralisar completamente a capacidade de ação, impossibilitando as pessoas depressivas de desempenhar as tarefas mais simples, levando-as a perder o interesse pela própria vida (JONES, 2005).

Suicídio refere-se ao ato humano de causar a cessação da própria vida. O termo suicídio só pode ser usado no caso de morte ou de circunstâncias cuja sequência causal leva à morte e na qual tenha havido intencionalidade do sujeito (MENEGHEL, 2004).

As mulheres tentam o suicídio aproximadamente três vezes mais do que os homens, sendo que os homens têm mais êxito em se matar do que as mulheres, por usar métodos mais eficazes. Para compreender, o que se passa com a mulher adulta jovem diante da situação de vulnerabilidade é importante estudar e analisar essa fase do desenvolvimento humano. O início da idade adulta é um período de “poder fazer”, em que nessa idade a maioria das pessoas ficam sozinha, colocando-se a prova, testando e ampliando suas habilidades físicas e cognitivas. Tomam decisões que as ajudam a determinar sua saúde, sua carreira e o tipo de pessoa que desejam ser (ATKINSON, 2002).

Podendo o alto nível de conflito estar ligado ao mesmo tempo à depressão, ansiedade, problemas de saúde, altas taxas de absentismo e problemas familiares. Quando os indivíduos se envolvem com um trabalho impróprio e permanecem na mesma carreira apesar de se sentirem presas e aborrecidas, muitas delas mostram sinais de agitação como: queixas quanto à saúde, estresse, ansiedade e depressão (DAVIDOFF, 2001).

A elaboração dessa pesquisa contribuiu para a compreensão de como uma pessoa depressiva sente-se, pensa e age em relação ao suicídio. Também pôde-se perceber a consequência da tentativa de suicídio para o quadro depressivo, além de conhecer as consequências psicológicas, após a ideação e/ou tentativa de suicídio em mulheres adultas jovens.

Tem como objetivo analisar as consequências psicológicas da tentativa de suicídio em mulheres adultas jovens que apresentam depressão, assim como identificar os efeitos psicológicos após a ideação e/ou tentativa de suicídio, e ainda, analisar a incidência de ideação e/ou de tentativas de suicídios em mulheres jovens que apresentaram depressão e, consequentemente, relacionar os sintomas depressivos com o pensamento suicida.

Estas questões conduziram a presente pesquisa, que iniciou a partir das experiências em estágios curriculares no Sanatório Meduna (Hospital Psiquiátrico de Teresina - PI).

Nesta pesquisa, pôde-se perceber vários questionamentos sobre os fatores geradores e as consequências em mulheres adultas jovens sobre a ideação suicida ou a tentativa. Dentre esses, observou-se que os fatores afetivos e familiares contribuem para a estruturação de um quadro depressivo em mulheres adultas jovens, mas esses fatores também estimulam a busca de ajuda e desejo de não mais cometer tal ato. As entrevistadas confirmaram consequências psicológicas após a tentativa de suicídio, como arrependimento, culpa, remorso, não havendo agravamento dos sintomas depressivos, mas um processo de reflexão e a atitude de não tentar mais, mesmo que em alguns momentos os pensamentos sobre a temática venham à tona.

Uma pesquisa feita no ano de 2006 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) apontou Teresina como à cidade com maior índice de suicídios feminino do Brasil, a capital do Piauí aparece no topo da lista com 4,2 mulheres por 100 mil habitantes.

A pesquisa contribuiu para compreensão do tema ideação ou suicídio na mulher, haja visto o número crescente de tentativas de suicídio ocorrido em mulheres, tanto na cidade de Teresina-PI, como em outras cidades brasileiras, o qual é considerado um dos maiores problemas de saúde pública e afeta o indivíduo, a família e a sociedade. A referida pesquisa procura contribuir para o entendimento de transtornos mentais correlacionados aos quadros depressivos e analisar as consequências da tentativa de suicídio em mulheres adulta jovem. 

O referencial teórico está descrito em cinco capítulos que abordam: a mulher adulta jovem, a depressão, o suicídio, a auto-imagem e a angústia. O primeiro trata-se das mudanças existentes no período de entrada na vida adulta, em que a mulher adulta jovem procura tomar suas próprias decisões e redefinir seus relacionamentos.

A temática sobre depressão está dividida em subtítulos como: epidemiologia e etiologia, tratamento, abordagens terapêuticas, depressão e a mulher. Em relação ao suicídio os subtítulos referem-se à conceituação, e os tipos de suicídio. Quanto à auto-imagem está dividida em conceituação, formação e a auto-imagem da mulher adulta jovem, abordando sobre como a pessoa vê a si mesma e o mundo como causador para a constituição da personalidade.

Foi comprovado que a depressão é uma doença que afeta mulher adulta jovem, conforme resultado das entrevistas realizadas com um grupo de mulheres (as mesmas tentaram tirar suas vidas). Tendo como consequência psicológica a culpa e o remorso. Também foi perceptível que essas mulheres se arrependeram do ato após a tentativa de suicídio ou após o episódio de ideação suicida, referindo à família e à religião como elo com a vida.

Este tema já foi objeto de estudo de pesquisa da autora desta monografia, para uma conclusão de curso superior, e foi verificada a necessidade de maior aprofundamento e de novas reformulações, uma vez que, este assunto é presente nos atendimentos realizados no Serviço Escola de Psicologia (SEP) da Faculdade Integral Diferencial (FACID), bem como na realidade do cotidiano da sociedade, sendo tema de discussão e reflexão em roda de amigos, na imprensa e na vida acadêmica.

2. Referencial Teórico

2.1 Mulher Adulta Jovem

Ao contrário do que antes era amplamente aceito, o desenvolvimento não pára repentinamente após adolescência. As mudanças durante a idade adulta podem ser mais graduais e menos dramáticas do que a infância, além de não serem positivas, porém não menos reais. Avanços e, porém alguns declínios ocorrem durante a idade do adulto jovem (idade entre 20 e 40 anos). Nesse período, a maioria das pessoas deixa a casa dos pais, assume seu emprego, casa-se ou estabelece outros relacionamentos importantes, tem e cria filhos. Tomam decisões que irão afetar o resto de suas vidas: sua saúde, sua felicidade e seu sucesso (PAPALIA, 2000).

Para este mesmo autor, o início da idade adulta é um período de “poder fazer”, em que nessa idade a maioria das pessoas fica sozinha, pela primeira vez, colocando-se à prova, testando e ampliando suas habilidades físicas e cognitivas. Tomam decisões que as ajudam determinar sua saúde, sua carreira e o tipo de pessoa que desejam ser.

O início da idade adulta é caracteristicamente uma época de intensas mudanças nos relacionamentos pessoais os quais as pessoas constituem, renegociam laços baseados na amizade, na sexualidade e no amor. Ao assumirem as responsabilidades por si mesmos e tomar as suas próprias decisões, os jovens adultos precisam redefinir seus relacionamentos com os pais. A amizade durante a idade adulta inicial tende a se centrar nas atividades de trabalho e de criação dos filhos e no compartilhamento de segredos e conselhos (HARTUP; STEVENS, 1999, apud PAPALIA, 2006).

Segundo Hartup e Stevens (1999, apud PAPALIA, 2000) os jovens adultos geralmente estão no auge de sua força, energia e resistência, em que meados dos 20 anos de idade, suas funções corporais estão plenamente desenvolvidas e seus sentidos estão mais apurados, sendo que a acuidade visual é mais acentuada dos 20 aos 40 anos e que o paladar, o olfato e a sensibilidade à dor e à temperatura geralmente permanecem inalteradas até aos 45 anos. A maioria das funções corporais está plenamente desenvolvida, sua importância visual é máxima, uma gradual lesão auditiva, que geralmente começa na adolescência, torna-se evidente após os 25 anos, especialmente para os sons mais agudos.

De acordo com os mesmos autores, os adultos jovens, acham normais suas capacidades físicas e gozam de boa saúde. É nessa idade que se assenta a base para o funcionamento físico de todo o restante da vida em que os fatores como: o que comem, o quanto são fisicamente ativos, se fumam, bebem ou usam drogas, todos esses fatores contribuem para a saúde e para o bem-estar no presente e no futuro.

Desta forma, os adultos jovens, independente do sexo, homens ou mulheres, consideram saúde o bem-estar das capacidades físicas. No entanto, a Organização Mundial de Saúde define saúde como “um estado de total bem-estar físico, mental e social e não é simplesmente a ausência de doença ou debilidade”.

Para Papalia (2000), a ligação entre comportamento e saúde aponta os inter-relacionamentos entre aspectos físicos, cognitivos e emocionais do desenvolvimento, pois, o que as pessoas sabem sobre a saúde afeta o que elas fazem, e o que fazem, afeta o como se sentem. Embora só conhecer os hábitos de saúde não seja o suficiente. A personalidade, as emoções e o ambiente social muitas vezes pesam mais do que as pessoas sabem que devem fazer e, se esses fatores não têm uma influência positiva, podem levá-las a um comportamento pouco saudável. Os primeiros anos da idade adulta é muitas vezes uma época de descoberta de si mesmo.

Segundo Davidoff (2001), o desenvolvimento humano é mais contínuo durante a vida adulta que durante a infância ou adolescência, pois na vida adulta as preocupações e os conflitos são recorrentes, e as tentativas de resolvê-los costumam ser sistêmicas, verificando-se mudanças gradativas e persistentes.

De acordo com o referido autor, os desafios confrontados pelos adultos, embora sendo de mesma cultura, não são constantes, especialmente hoje, quando as pessoas sentem-se mais livres para fazer as coisas do jeito que almejam. As pessoas casam-se mais tarde e mais de uma vez, buscam ampliar seu nível de instrução ao longo de todo o ciclo de vida. As diferenças individuais aumentam com o acúmulo de experiências, tornando as generalizações amplas cada vez mais acuradas.

As mudanças decorrentes do desenvolvimento variam imensamente e dependem das circunstâncias de vida como: cultura, geração, história pessoal, herança genética. As tarefas do adulto são similares em todo lugar, espera-se que pessoas amadurecidas vivam de forma independente e assumam a responsabilidade por seus atos. Para alguns indivíduos, começam tendo alguns privilégios como: dirigir carro, beber em público, votar, para outros mudar da casa dos pais é o marco principal, e outros preferem o casamento, a chegada do primeiro filho (DAVIDOFF, 2001)

O autor também enfatiza que, embora os aspectos psicológicos do trabalho (criatividade, variedade, liberdade, flexibilidade) possam ser fascinante, em termo abstrato o que contribui para a verdadeira satisfação no trabalho depende do tipo de trabalho que as pessoas fazem e da época da vida. O alto nível de tensão no trabalho provém de uma variedade de fontes: sentimentos de inadequação ao trabalho, condições insalubres, carga excessiva de trabalho, rodízio de turnos, supervisão imprópria, pouco status e poder, remuneração inadequada e oportunidades de progresso impróprias ou injustas.

Desta forma, o alto nível de tensão pode está ligado também à depressão, ansiedade, problemas de saúde, altas taxas de absentismo e problemas familiares. Quando as pessoas se comprometem com um trabalho inadequado e continuam na mesma carreira apesar de se sentirem presas e entediadas, muitas delas mostram sinais de conflito como: queixas quanto à saúde, estresse, ansiedade e depressão. Geralmente o comprometimento tende a ser limitado porque as necessidades e os interesses das pessoas aumentam e diminuem no decorrer da vida adulta. A satisfação no trabalho depende da flexibilidade de mudar a carreira ou trocar o emprego, algo muitas vezes difícil de ser concretizado, pois envolve investimentos financeiros e pessoais.

Segundo o autor, as pessoas mudam com o resultado do tipo de trabalho que exercem, parecem crescer em funções desafiadoras. Pessoas que realizam trabalhos mais complexos tendem a se tornar pensadores mais flexíveis.  Nessa idade, a distância entre pensadores flexíveis e inflexíveis aumenta.

Pensadores flexíveis envolvem-se em trabalho cada vez mais complexo, os que proporcionam menos flexibilidade realizam trabalho menos complexo, e sua capacidade cognitiva desenvolve-se mais lentamente ou não se desenvolvem. Relata que um trabalho que exerce papel central nas vidas das pessoas, o domínio de tarefas complexas pode dar aos trabalhadores confiança em sua capacidade de lidar com os problemas, como também pode abrir suas mentes para novas experiências e estimulá-los a se tornarem mais autônomos.

Os jovens adultos tendem a se sentirem menos satisfeitos com o trabalho do que as pessoas mais velhas, sendo menos envolvidos com o seu trabalho, menos empenhados com seus empregadores e pode mudar de emprego ou de direção de carreira com mais facilidade do que indivíduos mais velhos (DAVIDOFF, 2001).

Erik Erikson (2002, apud PAPALIA, 2006), rompeu com Freud em parte por sua convicção de que a personalidade não se paralisa na puberdade, ela se muda em toda a vida adulta, em que todas as pessoas seguem a mesma sequência básica de mudanças sociais e emocionais relacionadas com a idade. As mudanças são normativas no sentindo de que parecem ser comuns à maioria dos membros de uma população, emergem em períodos sucessivos, muitas vezes marcados por crises emocionais que preparam o caminho para um maior desenvolvimento.

A família torna-se o ponto de referência que este sujeito terá em relação à sociedade, a si próprio e com a família que formará no futuro. As famílias devem orientar os seus filhos na construção de sua identidade e autonomia, visto que uma pessoa com auto-estima reduzida pode sentir-se desvalorizada e nutrir com relação a si mesma, fortes sentimentos de incerteza e ansiedade, e em relação ao outro, significativa dependência (PALHETA e LEAL, 2002).

Contudo, à medida que vão resolvendo as demandas conflitantes de intimidade, de competitividade, da distância, desenvolve um senso de ética, segundo Erikson, é a marca do adulto (PAPALIA, 2006).

2.2 Depressão

A palavra depressão, na linguagem corrente, tem sido aplicada para assinalar tanto um estado afetivo normal (a tristeza), quanto um sintoma, um vestígio ou outras doenças. Hoje, significa uma patologia de humor, que de forma direta precisa ser identificada e abordada, e que não está relacionada ao caráter do indivíduo nem com a própria vontade do mesmo. Os sentimentos de tristeza e alegria realçam o fundo afetivo da vida psíquica normal. A tristeza constitui-se na resposta humana universal às situações de perda, desbarata, desilusão e outras adversidades (PORTO,1999).

O termo depressão é usado para designar um transtorno de humor, uma síndrome em que a principal queixa de alterações apresentadas pelo paciente é o humor depressivo e às vezes irritável durante a maior parte do dia. Há uma lentificação das funções psíquicas e da motricidade do indivíduo, como também uma perda na capacidade de atenção e concentração. Esse transtorno pode ser mais profundo do que uma simples tristeza. Estão presentes pensamentos constantes de cunho negativo, sentimento de culpa e sensação de inutilidade, diminuição do prazer e do ânimo para atividades cotidianas e de lazer e perda da capacidade de planejamento para o futuro (CORRÊA et al., 1998, apud CANALE; FURLAN, 2006).

Segundo Ballone (2007) o termo depressão pode denotar um sintoma que faz parte de vários distúrbios emocionais sem ser específico de nenhum deles, pode significar uma síndrome demonstrada por muitos e variáveis sintomas somáticos ou pode significar uma doença, caracterizada por alterações afetivas. Relata que do ponto de vista clínico, seria fácil e apropriado se a depressão fosse distinguida unicamente por um rebaixamento do humor com aparecimento de tristeza, choro, abatimento moral, desinteresse, e tudo aquilo que se sabe ter uma pessoa deprimida.

Desse modo, a depressão pode ser determinada como um processo que se caracteriza por lentificação dos processos psíquicos, humor depressivo e/ou irritável (associado à ansiedade e à angústia), diminuição de energia (desânimo, cansaço fácil), inabilidade parcial ou total de sentir alegria e/ou prazer, desinteresse, lentificação, apatia ou agitação psicomotora, dificuldade de concentração e pensamentos de cunho negativo, com perda da capacidade de planejar o futuro e alteração do juízo de realidade (CANALE; FURLAN, 2006).

 Segundo Stahl (1998), a depressão é um sentimento global vivenciado por potencialmente todas as pessoas em algum período de suas vidas. O qual distinguir a emoção “normal” da depressão, da doença que demanda tratamento médico é, repetidamente, problemático para aqueles que não têm formação nas ciências da saúde mental. Estigmas e desinformações criados em nossa cultura designam entendimento populares e equivocados de que uma doença mental como a depressão, não é doença, mas sim ausência de caráter que pode ser superada por meio do esforço.

Conforme Ross (2000) os sentimentos de aflição, vergonha, culpa, não distam à raiva e fúria em que o indivíduo sente de si. É bom advertir que não nos cabe julgar se tais sentimentos são maus ou vergonhosos, mas captar seu verdadeiro sentido e origem, como algo muito humano. Entretanto, com essa mudança, pode-se averiguar uma maior conscientização dos sentimentos das pessoas em relação a uma doença, como a depressão.

Muitos pacientes deprimidos com lamentações somáticas são analisados como não tendo doença real ou tratável, por isso não recebendo um tratamento para transtorno psiquiátrico após as doenças clínicas serem avaliadas e descartadas. Na realidade, a maioria dos pacientes com sintomas somáticos difusos e inexplicados que se deparam ao nível de atenção primária à saúde tem doença psiquiátrica tratável. No entanto o que esses pacientes precisam é de um atendimento individualizado (STAHL, 1998).

Segundo Kaplan, Grebb e Sadock (1997) o humor pode ser normal, elevado ou deprimido. Os indivíduos normais sentem uma extensa faixa de humores, tendo um repertório igualmente modificado de expressões afetivas, sentem-se no controle, mais ou menos, de seus humores e afetos. Os transtornos do humor compõem um grupo de condições clínicas caracterizadas pela perda deste senso de controle e uma experiência subjetiva de grande sofrimento.

Kaplan, Grebb e Sadock (1997, p. 493) descrevem esses indivíduos como:

Os pacientes com humor elevado, isto é, em mania mostram expansividade, fuga de ideias, sono diminuído, auto-estima elevada, e ideias grandiosas. Os pacientes com humor deprimido isto é depressão tem perda de energia e interesse, sentimentos de culpa, dificuldades de concentrar-se, perda do apetite, e pensamentos sobre morte e suicídio. Outros sinais e sintomas de transtornos do humor incluem alterações nos níveis de atividade, capacidade cognitivas, linguagens e funções vegetativas (como sono, apetite, atividade sexual e outros ritmos biológicos). Essas mudanças quase sempre comprometem o funcionamento interpessoal social e ocupacional.

Depressão é uma doença que se caracteriza por afetar o estado de humor da pessoa, deixando-a com um predomínio anormal de tristeza. Todas as pessoas homens e mulheres, de qualquer faixa etária, podem ser atingidas, porém, as mulheres são duas vezes mais afetadas que os homens. A depressão enquanto doença (Transtorno Depressivo), nem sempre é possível clareza sobre quais acontecimentos da vida levou a pessoa a ficar deprimida, diferentemente das reações depressivas normais e das reações de ajustamento depressivo, nas quais é possível localizar o evento desencadeador (GALVÃO, 2001).

Segundo Atkison (2002), a depressão é considerada um transtorno quando os sintomas se tornam tão severos que prejudicam o funcionamento e quando eles se estendem por várias semanas seguidas. No entanto, hoje ela expressa uma patologia de humor, que de forma direta carece ser identificada e tratada, e que não está relacionada ao caráter do indivíduo nem com a própria vontade.

Kaplan, Grebb e Sadock (1997), falam que muitos diagnósticos são dados errados, no caso da depressão, pelo fracasso de obter uma má história clínica e uma falta de consideração da situação atual do paciente. Contudo, é importante que todos os pacientes tenham uma anamnese detalhada, um exame físico e neurológico completo e exames rotineiros de sangue e urina para que se possa dar um diagnóstico correto, sobre a depressão, pois os transtornos depressivos podem ser de causas orgânicas. Os pensamentos que frequentemente ocorrem nas pessoas deprimidas, segundo o mesmo autor, são de que as pessoas sentem-se sem importância, culpando-se em excesso, sentindo-se fracassadas até por acontecimentos do passado.

 Muitas vezes, as questões comuns do dia-a-dia desencadeiam os pensamentos de menos valia e de angústia. Algumas pessoas podem ter ainda dificuldade de atenção, sentindo-se com falhas para concentrar-se ou para tomar decisões simples, sentindo-se incapazes de tomá-las ou exagerando os efeitos “catastróficos” de suas possíveis decisões erradas (GALVÃO, 2001).

Os principais sistemas de Classificação de Transtornos Mentais em Psiquiatria são a CID-10 da Organização Mundial de Saúde (OMS) e o DSM-IV, da Associação Americana de Psiquiatria (APA). Ambos entendem os transtornos psiquiátricos como doenças com componentes psicológicos e biológicos, porém não se prendem a suas etiologias.

Tanto a CID-10 quanto a DSM-IV dividem os transtornos de humor em dois grandes grupos: os transtornos depressivos e os transtornos bipolares.

De acordo com Almeida, Dratcu e Laranjeira (1996, p.113), Transtorno do Humor significa:

É aplicado a um grupo de condições clínicas nas quais uma polarização do humor tanto para depressão quanto para elação é proeminente e considerada fundamental. Embora existam controvérsias quanto à distinção entre flutuações normais do humor e transtorno do humor propriamente dito (principalmente depressivo), pode-se dizer que o transtorno do humor é patológico quando existe uma constelação de sinais e sintomas (síndrome) com duração e gravidade tais que levam a uma perda substancial da capacidade funcional do indivíduo.

Segundo a DSM-IV (1994, apud BAHLS, 2005), considerada um sistema diagnóstico mais vastamente utilizado, os principais transtornos depressivos (“Depressão Unipolar”) são: a depressão maior e a distimia. Sendo que a depressão unipolar refere-se à depressão recorrente tendendo a ser recorrentes em 75-80% dos pacientes, se não tratada os episódios duram de 9 a 14 meses.

O transtorno depressivo maior caracteriza-se por um ou mais episódios depressivos maiores, isto é, pelo menos duas semanas de humor deprimido ou perda de interesse, acompanhados por pelo menos quatro sintomas adicionais de depressão que são: perda ou ganho significativo de peso; insônia ou hipersônia; agitação ou retardo psicomotor; fadiga ou perda de energia; sentimento de inutilidade, ou culpa excessiva, ou inadequada; capacidade diminuída de pensar ou concentrar-se, ou indecisão e pensamentos de morte recorrente (DSM-IV, 1994 apud BAHLS, 2005).

A distimia, ou transtorno distímico caracteriza-se por pelo menos dois anos de humor deprimido na maior parte do tempo (em crianças e adolescentes a duração mínima é de apenas um ano), seguidos por sintomas depressivos adicionais que não satisfatório aos critérios para um episódio depressivo maior (DSM-IV, 1994 apud BAHLS, 2005).

Leonhard (1957, apud BAHLS, 2005) propõe a separação entre quadros unipolares, quando ocorre recorrência apenas de fases depressivas, e quadros bipolares, onde fases de depressão e mania estão presentes. Estudos posteriores, clínicos e genéticos demonstraram a utilidade desta distinção que foi formalmente estabelecida nos sistemas de códigos de diagnóstico a partir do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Terceira Edição (DSM-III, 1980) e da Classificação Internacional de Doenças – Décima Versão (CID-10, 1992).

Segundo Kaplan, Grebb e Sadock (1997) os transtornos depressivos constituem um grupo de patologias com alta e crescente prevalência na população geral. Conforme a OMS, haverá nas próximas duas décadas uma mudança dramática nas necessidades de saúde da população mundial devido, parcialmente, ao fato de que doenças como depressão e cardiopatias estão com rapidez substituindo os tradicionais problemas das doenças infecciosas e de má nutrição.

2.2.1 Epidemiologia e Etiologia

Para Bahls (2005), a relação entre etiologia, sintomas, processos bioquímicos, resposta ao tratamento e evolução dos transtornos de humor ou afetivos ainda não é suficientemente bem compreendida para permitir sua classificação de forma a receber aprovação universal. Porém, nenhum marcador biológico definitivo para os distúrbios afetivos foi encontrado, sendo a questão de sua classificação ainda aberta e campo de exasperadas discussões.

Pôde-se observar que a ocorrência de depressão na população em geral, ao longo da vida, está em torno de 3-4% para o sexo masculino e 5-9% para o sexo feminino. Há uma prevalência de distúrbio de depressão bipolar em ambos os sexos de variação de 0,6 a 0,9% da população. Colocando os transtornos de humor, particularmente a depressão unipolar, entre os problemas médicos mais frequentes dos adultos (ALMEIDA; DRATCU; LARANJEIRA, 1996).

Segundo Kaplan, Grebb e Sadock (1997), o transtorno depressivo maior é um transtorno, comum com uma prevalência durante a vida de cerca de 15 % talvez até 25 % em mulheres. Uma das diferenças entre transtornos bipolar I e o transtorno depressivo maior é que, enquanto a maioria das pessoas com transtorno bipolar I acaba recebendo atendimento médico e tratamento, apenas cerca de metade das pessoas com transtorno depressivo maior chega a receber tratamento específico. Mesmo tendo sido iniciado a conscientização da depressão entre a população em geral e entre médicos, os sintomas de depressão com frequência são impropriamente analisados como reações compreensíveis como o estresse, evidências de fraqueza de caráter ou, meramente, como uma tentativa consciente de obter algum ganho secundário.

A depressão afeta uma considerável parcela da população, conforme demonstram os estudos epidemiológicos: o risco de depressão maior durante a vida, em amostras comunitárias, tem variado de 10 a 25% para as mulheres e de 5 a 12% para os homens. A prevalência de depressão maior em adultos tem variado de 5 a 9% para as mulheres, e de 2 a 3% para os homens. O risco de distimia durante a vida é de aproximadamente 6% (BAHLS, 2005).

De acordo com Carlson (2002, apud CANALE; FURLAN, 2006) as mulheres experimentam a depressão cerca de duas vezes mais que os homens, especialmente a depressão bipolar. Muitos fatores hormonais podem colaborar para a taxa acrescentada de depressão em mulheres, particularmente fatores como mudanças do ciclo menstrual, gravidez, aborto, período pós-parto, pré-menopausa e menopausa.

As causas da depressão são múltiplas, de maneira que somadas podem desencadear a doença. Devem-se as questões constitucionais das pessoas, com fatores genéticos e neuroquimicos (neurotransmissores cerebrais) somados a fatores ambientais, sociais e psicológicos, como: estresse, estilo de vida, acontecimentos vitais, tais como crises e acontecimentos conjugais, morte na família, climatério, crise de meia-idade, entre outros (GALVÃO, 2001).

A base causal para os transtornos de humor é desconhecida, muitas foram as tentativas de identificar uma causa biológica ou psicossocial para o transtorno do humor, tem sido interrompida pela heterogeneidade da população de pacientes determinada por qualquer dos sistemas diagnósticos disponíveis e fundamentadas na clínica. Sendo que os fatores biológicos e psicossociais também podem afetar a demonstração dos gens, e os fatores biológicos e genéticos podem afetar a resposta de uma pessoa e os fatores psicossociais (KAPLAN; GREBB; SADOCK, 1997).

O prejuízo causado pelas doenças mentais como depressão, dependência do álcool e esquizofrenia tem sido seriamente subestimado, pois se considera somente a quantidade de mortes e não a incapacitação causada pelas doenças; enquanto as condições psiquiátricas são responsáveis por um pouco mais de 1% das mortes, representam quase 11% da carga de problemas causados por doenças em todo o mundo. A depressão é socialmente tão debilitante quanto as doenças coronarianas e mais debilitantes ainda do que os diabetes melitus ou a artrite. Também está associada à alta mortalidade, sendo que 15% dos pacientes gravemente deprimidos se suicidam (ATKISON, 2002).

2.2.2 Tratamento

Conforme Almeida, Dratcu e Laranjeira (1996) o tratamento dos transtornos do humor pode ser dividido em três etapas: 1 - tratamento da fase aguda, 2 - continuação e 3 - profilaxia. O tratamento da fase aguda dura do inicio do episódio até a remissão dos sintomas. Continuação se refere ao período a partir da remissão dos sintomas da fase aguda até o momento no qual se esperaria remissão espontânea destes sintomas em pacientes não tratados (ex. nove meses para a depressão). Tratamento profilático é utilizado com o desígnio de prevenir ou, ao menos, abrandar futuros episódios. Como também é necessário que uma forte aliança terapêutica entre o médico e paciente seja essencial para o sucesso do tratamento. O médico deve ser empático e escutar tudo o que o paciente tem a dizer. Além disso, esclarecer sempre o paciente e sua família a respeito de seu estado, tratamento proposto e curso esperado.

A abordagem terapêutica das depressões depende necessariamente da sintomatologia destes quadros. E através destes aspectos tem-se tratamento farmacológico, o qual se utiliza dos antidepressivos tricíclicos, inibidores da Monoamino Oxidase e inibidores de recaptação de serotonina.  Os antidepressivos tricíclicos é a base para o tratamento, sobretudo em casos graves e com apresentação de sintomas neurovegetativos. Nos quadros psicóticos e nas depressões com risco iminente de suicídio, o ECT (eletroconvulsoterapia) pode ser o tratamento de primeira escolha (ALMEIDA; DRATCU; LARANJEIRA, 1996).

Segundo Kaplan, Grebb e Sadock (1997) dizem que o tratamento dos transtornos do humor deve ser orientado para vários objetivos, deve garantir a segurança do paciente; deve-se ter uma boa avaliação diagnóstica; como deve ter um plano de tratamento que aborde não apenas os sintomas imediatos, mas, além disso, o bem estar futuro do paciente.  

Os Inibidores da Monoamino Oxidase (IMAO) são particularmente eficazes nos quadros depressivos atípicos, considerados tratamento inicial nesses pacientes. Existem novos antidepressivos sendo utilizados, como os inibidores de recaptação de serotonina (fluxotina, sertralina, paroxetina e fluvoxamina), provocam menos efeitos colaterais que os antidepressivos clássicos. Estudos atuais comprovaram que a eficácia destas drogas é equivalente à dos tricíclicos, embora o poder terapêutico da fluoxetina, ainda não tenha sido avaliado de forma sistemática em quadros depressivos mais graves. Existem outras terapias farmacológicas habitualmente usadas na depressão como: bupropion, trazadone, inibidores reversíveis da IMAO, psicoestimulantes, mianserina, hormônios tireoidianos e antecessores de aminoácidos. (ALMEIDA; DRATCU; LARANJEIRA, 1996).

A eletroconvulsoterapia (ECT) pode ser também o tratamento de opção para pacientes nos quais há precisão de resposta terapêutica rápida, tais como pacientes suicida ou que recusa alimentação, estando em condição nutricional comprometida. De acordo com a APA a magnitude de pacientes com depressão maior que responde à ECT é alta, estando em torno de 80 a 90%. Pode-se destacar que estudos controlados têm também evidenciado que cerca da metade dos pacientes com depressão maior que não responderam aos tratamentos farmacológicos, respondem bem à ECT (BALLONE, 2007).

 Há alguns grupos de pacientes que devem ser considerados para o tratamento são eles: pacientes com sintomas psicóticos (depressão grave com sintomas psicóticos); pacientes com estupor e sintomas catatônicos (mutismo, negativismo, apatia no leito, sem resposta ao ambiente); pacientes com risco grave de suicídio; pacientes com recusa alimentar e estado nutricional prejudicados; pacientes grávidas que precisam de resposta terapêutica rápida; pacientes que já responderam à ECT de forma marcante; pacientes que façam opção pessoal pela ECT como primeira escolha (BALLONE, 2007).

2.2.3 Abordagens Terapêuticas e a Depressão

A psicoterapia pode ser um aspecto importante do tratamento da fase aguda, principalmente se a mesma possuir objetivos terapêuticos claros.

De acordo com Cordioli (1998), existem vários tipos de psicoterapias entre elas estão: psicoterapia psicanalítica, psicoterapia de orientação analítica, psicoterapia breve e dinâmica, psicoterapia interpessoal, psicoterapia de apoio, terapia comportamental, terapia cognitiva, terapia familiar e de casal, terapia de grupo. Cada qual com sua peculiaridade, técnicas, objetivos e indicações e contra indicações. E todas as psicoterapias reconhecem a necessidade de uma relação terapêutica de boa qualidade, como um contexto imprescindível para que possam ser realizadas as intervenções terapêuticas eficientemente.

Ladame (1981, apud CHABROL, 1990) fala de uma terapia de apoio e de reforço das partes sãs do eu, ou engajar-se em uma psicoterapia intensa e prolongada que possibilite uma ação terapêutica autêntica.

Jammet (1987, apud CHABROL, 1990) sugere adaptar a forma e o ritmo da terapia a cada caso, levando em conta não só a psicopatologia, contudo a formação do terapeuta. As atitudes do terapeuta exigem flexibilidade e rigor ao mesmo tempo, que deve ser amigável, todavia não sedutor, atento e ativo, entretanto não ser invasivo, tranqüilizador, mas não paternalista, sincero e espontâneo, porém também prudente e profissional, deve mostrar solicitude, não condescendência, empatia, mas não compaixão, tolerância, contudo não se tornar cúmplice.

No tocante, o terapeuta deve evitar ser muito frustrante ou muito gratificante. De alguma maneira, é preciso contemplar como inevitáveis às projeções, as distorções cognitivas que desfiguram a imagem do terapeuta e saber aproveitar a ocasião de iniciar uma metacomunicação sobre a relação (CHABROL, 1990).

O terapeuta deve se esforçar para ajudar, tentando compreender os sentimentos, as emoções, aliando-se às expectativas positivas da pessoa deprimida, conforme o caso.

Segundo Chabrol (1990), é indispensável impor limites firmes particularmente quando os comportamentos põem em perigo a vida, fala em relação ao adolescente, quando os comportamentos desses colocam a sua vida em risco, mas isso é relevante para todos os casos de depressão independentemente da idade. Diz que o estabelecimento da aliança terapêutica depende da possibilidade de abordar o sofrimento do indivíduo, de facilitar a sua expressão ou pelo menos tornar tolerável o seu reconhecimento.

O terapeuta através de uma abordagem ativa, mas prudente, deve ir além da discussão dos sintomas para abordar os conflitos atuais da vida da pessoa e as emoções negativas a eles associados. O terapeuta vai ao encontro do sofrimento do seu paciente, é importante perguntar diariamente as ideias e projetos do suicida. Fala que para os pacientes muito vulneráveis pode-se recomendar, em primeiro momento, a elaboração sistemática da transferência do aqui agora sem interpretação das origens genéticas. É útil interpretar os mecanismos de defesa primitivos, como a projeção, quando eles operam na transferência (CHABROL, 1990).

Com as influências da fenomenologia e do existencialismo desenvolveram-se diversos modelos terapêuticos que podem ser de forma genérica assinalados por psicoterapia existencial e determinados como métodos de relação interpessoal e de análise psicológica cujo objetivo é o de promover na pessoa do cliente um auto-conhecimento e uma autonomia psicológica satisfatória para que ele possa adquirir livremente a sua existência (VILLEGAS, 1988 apud TEXEIRA, 2006).

O conceito de psicoterapia não é o de uma técnica destinada a “curar” perturbações mentais, mas sim o de uma intervenção psicológica que colabora para o crescimento e para a mudança do cliente como pessoa. Mas designadamente, que solicita o encontro da pessoa com a autenticidade da sua existência, para que venha a assumi-la e possa projetá-la mais livremente no mundo. Em qualquer caso, o centro é o indivíduo e não a perturbação mental, que, quando presente, é vista como resultado de dificuldades do indivíduo em fazer escolhas mais autênticas e significativas, pelo que as intervenções terapêuticas privilegiam a auto-consciência, a autocompreensão e a auto--determinação (TEXEIRA, 2006).

Os clínicos humanista-existenciais seguem as teorias fenomenológicas da personalidade centradas no self. O que ocorre com as pessoas depende mais das ideias que tem de si mesmas e de sua vida, viver bem requer consciência do self e auto-realização, a angústia psicológica surge quando alguma coisa interfere nesses requisitos. Há necessidade de relacionamento afetuoso, aberto, humano, para mudanças construtivas. Os psicoterapeutas humanistas existenciais são humanos e otimistas, despertaram a consciência sobre a importância de atender às perspectivas e objetivos do cliente (DAVIDOFF, 2001).

As psicoterapias fenomenológico-existenciais, tais como a psicoterapia centrada na pessoa e a gestalt-terapia, dão destaque, em seu campo teórico e metodológico, à afirmação do vivido, ao aprendizado por meio da experiência imediata e à interação homem-mundo. A própria relação terapêutica é uma experiência de crescimento, o próprio contato terapêutico é uma prova de desenvolvimento, é nesse contato terapêutico que o indivíduo aprende a compreender a si mesmo, a preferir de uma forma independente e significativa, a estabelecer com êxito relações pessoais de uma forma adulta (BEZERRA, 2007).

Chabrol (1990) recomenda as psicoterapias analíticas, dependendo de sua forma, sua intensidade e sua duração, principalmente da psicopatologia associada à depressão. A farmacoterapia deve ser sempre completada por uma psicoterapia, e somente com as duas técnicas funcionando juntas é que um paciente com depressão pode superar suas dificuldades emocionais.

Desta forma, Wallerstein (1986, apud TREVISAN, 2004) postula que para a psicoterapia ser efetiva ao máximo, cada abordagem deve combinar com o paciente para quem ela é mais adequada. Para ele, o ecletismo se torna necessário pelas propriedades do nosso próprio aparato cognitivo e perceptivo, pela forma sujeita os erros como nós organizamos a realidade.

Para Hendin (1981, apud TREVISAN, 2004) a psicoterapia também contribui para a abordagem do paciente com risco de suicídio, diz que o terapeuta não deve reduzir o tratamento ao manejo e controle do paciente, mas é importante compreender de que forma o paciente usa sua morte potencial como parte de sua adaptação, evitando armadilhas contratransferênciais e trabalhando psicodinamicamente.

Schestatsky e Fleck (1999, p. 42) sob esse aspecto são incisivos:

As psicoterapias psicodinâmicas breves tradicionais têm em comum a concepção da depressão como um fracasso adaptativo resultante de conflitos intrapsíquicos, e mais modernamente, de distúrbios relacionais. Ao invés de se dirigirem aos sintomas depressivos em si mesmos, elas têm como objetivo usar a relação terapêutica para investigar e esclarecer esses conflitos precoces, principalmente os relacionados com problemas de privação, proximidade e intimidade afetiva.

Segundo os autores Schestatsky e Fleck (1999) a psicoterapia ou Terapia Interpessoal (TIP) é um tratamento de tempo limitado, planejado designadamente para tratar a fase aguda das depressões maiores, unipolares e não-psicóticas, desenvolvido e testado através de testes clínicos randomizado o qual procura concentrar como foco do tratamento uma área-problema.

Consideram quatro as áreas problemas, as quais frequentemente são encontradas nos pacientes deprimidos, sendo assim definidas como:

1. Luto (perda por morte);

2. Disputas interpessoais (com parceiro, filhos, outros membros da família, amigos, companheiros de trabalho);

3. Mudança de papéis (novo emprego, saída de casa, término dos estudos, mudança de casa, divórcio, mudanças econômicas ou outras mudanças familiares);

4. Déficits interpessoais (solidão, isolamento social).

Essas áreas problemas podem estar combinadas, uma, ou, duas, para serem eleitas como foco, priorizando-se as mais diretamente relacionadas com o desencadeamento do episódio depressivo atual. A TIP está estruturada para, em geral, ser realizada em 16 sessões, com freqüência semanal.

Schestatsky e Fleck (1999), fala da Terapia Interpessoal de Manutenção (TIP-M) é uma forma de tratamento de manutenção que parte da ideia de que o paciente deprimido, além de ter vulnerabilidades biológicas e de personalidade, possui um contexto psicossocial e interpessoal que lhe predispõe à repetição.

A Terapia Interpessoal de Manutenção foi desenvolvida para conservar a recuperação e restringir esta vulnerabilidade para episódios futuros. A TIP se preocupa em transformar o contexto psicossocial associado com o episódio depressivo, a TIP-M busca reforçar o contexto psicossocial do estado de remissão, agindo com pressupostos da "medicina preventiva", para ajudar o paciente ou nos problemas que persistiram após a recuperação, ou, muitas vezes, na resolução daqueles que surgiram com a recuperação. Desta forma, o terapeuta que realiza TIP-M deve estar atento para os sinais iniciais de problemas interpessoais que sejam similares àqueles identificados como tendo contribuído para episódios depressivos prévios.

As psicoterapias são métodos de tratamento para problemas de natureza emocional, nos quais uma pessoa treinada, mediante a utilização de meios psicológicos, estabelece deliberadamente uma relação profissional com a pessoa que busca ajuda, visando retirar ou transformar sintomas existentes, corrigir padrões disfuncionais de relações interpessoais, como também promover o crescimento e o desenvolvimento da personalidade (WOLBERG,1998, apud CORDIOLI,1998).

Schestatsky e Fleck (1999, p. 42) afirmam que as psicoterapias apresentam formatos, mas compartilham características.

Os diversos formatos das psicoterapias compartilham pelo menos uma ou mais das seguintes características: foco centralizado em temas de perdas e separação, seleção de pacientes altamente motivados, e ênfase relativa nas interpretações transferenciais e na elaboração da raiva e pesar pela terminação sempre iminente da terapia.

2.2.4 Depressão e a Mulher

Segundo Teixeira (1998) há diferentes explicações para a incidência da depressão entre homens e mulheres. Uma das linhas de raciocínio, que é mais difundida, afirma que não há diferenças reais entre os dois sexos, mas sim, uma característica feminina de pedir ajuda em situações depressivas. As outras linhas de explicação são: a biológica, social, fatores ambientais estressantes. A maior incidência de depressão na mulher não se deve exclusivamente ao comportamento relativo ao pedido de ajuda. Muitos estudos têm tentado produzir qual a procura dos serviços de saúde por ambos os sexos, quer seja em relação a diferentes tipos de patologia quer em relação à patologia depressiva.

Uma outra direção de estudos biológicos tem ocorrido nas diferenças hormonais entre o homem e a mulher. Estes estudos têm utilizado como elemento de análise os quadros clínicos que emergem em períodos próprios da vida das mulheres e em relação aos quais se postula a existência de uma determinação hormonal. O período pré-menstrual constitui de fato uma fase de alta vulnerabilidade que se acompanham no plano afetivo, alterações do humor com irritabilidade e labilidade emocional, podendo por vezes assumir uma tonalidade depressiva e ansiosa.

Ainda não foi possível identificar quaisquer alterações hormonais específicas desta fase que condicionem aquele acontecer vivencial. Apesar de que nas mulheres predispostas para adoecer de depressão, as alterações periódicas do seu estado afetivo, mês após mês, aumentam a possibilidade de desenvolvimento de um estado depressivo crônico, dependente não só de fatores neuro-endócrinos, mas também de fatores psicossociais.

De acordo com o mesmo autor, existem vários períodos de influência hormonal que pode vir a desencadear a depressão na mulher (período pré-menstrual, uso de contraceptivos orais, parto e puerpério, menopausa). Como também existem as causas sociais, estresse, entre outras, que ainda não é possível ter explicações.

Segundo Justo e Calil (2006) as possíveis diferenças nas manifestações depressivas entre homens e mulheres, em âmbito biológico, chamam a atenção o funcionamento hormonal e suas consequências, não podendo deixar de frisar que as evidências ainda são escassas, que até a adolescência, a prevalência de depressão parece ser semelhante entre os dois sexos. Outros autores tomam a menarca como referência para a virada das diferenças de prevalência para a depressão entre os dois sexos.

Seeman (1997, apud JUSTO; CALIL, 2006) fala que já se argumentou que a ciclicidade na liberação de estrogênio, com grande flutuação de suas quantidades circulantes, típica do funcionamento da mulher entre menarca e a menopausa, poderia ser mais importante que os níveis absolutos de hormônio circulante, enquanto causa da vulnerabilidade ao estresse, e indiretamente à depressão.

Justo e Calil (2006) comentam que alguns estudos epidemiológicos concluíram que a diferença de prevalência entre os sexos para a depressão maior surge na adolescência, quando ocorrem mudanças hormonais. Porém, alterações comparáveis incidem em outros momentos de vida da mulher. Assim, gravidez, menopausa e o uso de anticoncepcionais não teriam influência expressiva nas taxas de prevalência de depressão. Os autores falam que as diferenças nos papéis sociofamiliares exercidos por homens e mulheres e suas implicações psicológicas podem ser muito significativas para as diferenças entre eles, quando se tornam deprimidos, mesmo que não funcionem como fatores determinantes exclusivos. 

No entanto, pode-se dizer que a mulher já conseguiu muitas mudanças na sua vida sociofamiliar e, mesmo trabalhando fora, ela consegue arranjar tempo para os afazeres domésticos, as atividades profissionais, cuidados pessoais, aperfeiçoamento acadêmico e, provavelmente, tornando-se uma mulher mais estressada e sobrecarregada. Desse modo, poderia causar ou agravar os sintomas depressivos.

Outro fator que pode estar associado à prevalência de depressão em ambos os sexos, é o abuso sexual na infância. Entretanto esse tipo de violência ocorre mais frequentemente nas mulheres. Em alguns contextos, as mulheres parecem apresentar mais sintomas somáticos que os homens.  É digno de nota o fato de que cada vez mais se demonstra que homens e mulheres respondem de modos diferentes aos antidepressivos, o que reforça a importância dos aspectos biológicos em relação à depressão (JUSTOS; CALIL, 2006).

2.3 Suicídio

Segundo Mello (2000), o suicídio é ato humano complexo e, embora as tentativas sejam freqüentes, raros são os casos que resultam em óbito. No entanto, os números vêm aumentando de maneira considerável. 

Uma das definições de suicídio refere-se ao ato humano de causar a cessação da própria vida. Essa definição implica, em primeiro lugar, que o termo suicídio só pode ser usado no caso de morte ou de circunstâncias cuja sequência causal leva à morte e na qual tenha havido intencionalidade do sujeito (MENEGHEL, 2004).

Para Kaplan, Grebb e Sadock (2007) o suicídio não é um ato ocasional, ao contrário, trata-se de evitar um problema ou crise que estar acarretando, constantemente, intenso sofrimento, sendo conexo com necessidades frustradas ou não satisfeitas, sentimentos de desânimo e abandono, conflitos ambivalentes entre a sobrevivência e um estresse intolerável; a pessoa suicida emite sinais de angustia. A Organização Mundial da Saúde (OMS) analisa o suicídio como problema de saúde pública, pois configura uma entre as dez causas mais freqüentes de morte em todas as idades, da mesma forma que é a segunda ou terceira causa de morte entre 15 e 34 anos de idade. Estima-se que, para cada suicídio, existem pelo menos dez tentativas suficientemente sérias ao ponto de exigir atenção médica.

O suicídio é de maneira geral, mais comum entre os homens com idade entre 25 e 35 anos, ao passo que as tentativas de suicídio são mais usuais em mulheres com idade entre 18 e 30 anos.  Entre as pessoas que tentam o suicídio é comum a presença de problemas psicossociais, emocionais, transtornos do humor, principalmente a depressão maior, dentre outros.

Para o Meneguel (2004), no Brasil, as mortes por suicídios, embora subestimadas, são de baixas magnitudes quando comparadas a outras regiões, porém mostram-se crescentes na faixa do adulto jovem, principalmente no sexo masculino. Existem sub-notificação da mortalidade por suicídio, que varia de acordo com a região e a cultura, já que o suicídio é um tema tabu na maioria dos grupos sociais.

Consideram-se fatores associados ao suicídio: as tentativas prévias, a doença afetiva, o isolamento social, a história familiar, a declaração de intenções e uma série de variáveis demográficas e socioeconômicas. Em relação às condições socioeconômicas, observou-se que o suicídio ocorre nos extremos: entre os menos favorecidos socialmente e entre os privilegiados.

De acordo com Meleiro (2004), pode-se assegurar que os aspectos biológicos do suicídio são um dos principais subsídios contribuintes para a consignação do comportamento suicida, e que os progressos realizados nos estudos deste campo da ciência podem trazer em breve táticas potenciais de abordagem preventivas e eficazes do suicídio. Relata que o suicídio pode ser visto como um assassinato em 180 graus, um suicídio não seria suicídio se ninguém soubesse que foi suicídio.

De acordo com o mesmo autor, o suicídio está bastante relacionado a vários tipos de doença, por exemplo, à AIDS, ao acidente vascular cerebral, ao infarto do miocárdio, à esclerose múltipla, à doença de Parkinson e à insuficiência respiratória crônica de diversas etiologias. Dentre as doenças, as psiquiátricas são as mais relatadas. Os resultados entre os vários pesquisadores, no entanto, são discrepantes, colocando-se como prevalentes: a depressão, a ansiedade, os delírios, os transtornos de personalidade e o uso de substâncias psicoativas (incluindo o álcool). Dependendo do autor, uma delas abanca a lista.

Para Barraclough e Hughes (1987, apud MELLO, 2000) a frequência do suicídio entre as patologias também é bastante variável, por exemplo, a depressão pode ser responsável por 45% a 70 % dos suicídios. Esta é, sem dúvida, a causa preferida pelos autores como a maior responsável pelo suicídio, chegando alguns deles a afirmar que suicídio é sinônimo de depressão. Esta tendência, por parte da literatura psiquiátrica, de sempre associar o suicídio à doença mental, principalmente à depressão, é questionável. A ideação suicida e a tentativa de suicídio são critérios diagnósticos desta doença nos códigos vigentes. É difícil imaginar, entretanto, que a pessoa que sobrevive a uma tentativa de suicídio não esteja desanimada, frustrada. Assim, o diagnóstico de depressão, nestes casos, é delicado (Mello, 2000).

Hammond (2001, apud BAPTISTA; BORGES, 2005) cita que muitos países vêm gastando somas significativas de dinheiro e treinamento de profissionais de saúde no intuito de diminuir a incidência de tentativas de suicídio ou mesmo desenvolver programas preventivos nacionais.

Dados da Organização Mundial de Saúde (2001) revelam que aproximadamente um milhão de pessoas comete suicídio por ano em todo o mundo e entre 10 e 20 milhões de pessoas tentam se suicidar. Então, suicídio é uma das principais causas de morte de adultos jovens.

As tentativas, bem como os suicídios, estão ligadas a uma série de fatores de risco que devem ser levados em consideração por profissionais de saúde, principalmente clínicos e equipes de ambulatórios e enfermarias, para que se possam diagnosticar precocemente indivíduos que tenham ideação suicida, e acompanhar, de forma mais focada, aqueles que já tentaram o suicídio.

Segundo Baptista e Borges (2005) podem-se averiguar diversas pesquisas epidemiológicas sobre ideação, tentativas e suicídios em vários países desenvolvidos, no entanto, o Brasil ainda necessita de mais pesquisas epidemiológicas sobre tal temática, isto é, pesquisas que abarquem autópsias psicológicas em indivíduos que se suicidaram. Fala da autópsia psicológica que é a caracterização retrospectiva da vida de uma pessoa já falecida, através de método indireto e indiferencial, ou seja, por meio de relatos de familiares, colegas, companheiros de trabalho etc., e de revisão de documentos pessoais (notas, diários, cartas).

O suicídio inclui uma gama de circunstâncias muito complexas, cujos contornos são vagos e incertos, não sabemos quando efetivamente trata-se de suicídio, ou acidentes, casualidade, homicídio, doença ou quaisquer outros atos autodestrutivos, é muito difícil. Tentativas de suicídio são determinados de auto-agressão, em que o indivíduo não tem certeza da sobrevivência, demonstrando uma intenção autodestrutiva e uma consciência vaga do risco de morte. Equivalentes suicidas, ou chamados de “para-suicídios” ou suicídios inconscientes, são atos que não se divulgam de modo explícito e evidente, e sim de forma incompleta, desarticulada, simbólica como se averiguam em certos acidentes, homicídios provocados pela vitima e automutilações (KOVÁCS, 1992).

Kovács (1992, p. 173) fala do suicídio como:

Existe um grau crescente de intencionalidade quando se consideram ideias de suicídio, passando-se para desejos, ameaças, tentativas e finalmente ao ato consumado. Será que o individuo quer mesmo morrer ou viver? Em cada situação deve ser levada em conta a intencionalidade e letalidade do ato. O suicídio é um ato muito complexo, portanto, não pode ser considerado em todos os casos como psicose, ou como decorrente de desordem social Também não pode ser ligado de forma simplista a um determinado acontecimento como um rompimento amoroso, ou perda de emprego. Trata-se de um processo, que pode ter tido o seu inicio na infância, embora os motivos alegados sejam tão somente os fatores desencadeantes.

Existem momentos em nossas vidas que podemos ter ideias e desejos de morte no caso, quando estamos desesperançados ou desanimados,mas até chegar cometer o ato suicida, existirá uma série de variáveis em jogo que tem de ser consideradas. A autora comenta que considerando as doenças mentais, as taxas de suicídio são mais altas entre indivíduos portadores de melancolia, em que o desejo de morte pode ter sido suficientemente satisfeito na psicose (KOVÁCS, 1992).

Segundo a pesquisa, alguns Estados brasileiros já apresentam taxas elevadas e preocupantes, comparáveis apenas a países que aparecem nos primeiros lugares do ranking mundial de suicídios. O Piauí foi o Estado do Nordeste que mais registrou casos de suicídios femininos, entre os homens, o Piauí ficou na terceira colocação (PORTAL DO PIAUÍ, 2008).

2.3.1 Tipos de suicídio

De acordo com Durkheim (2003), o suicídio tem embasamento social e não individual.  Descreve suicídios de acordo com Jousset e de Moreau de Tours em:

Suicídio maníaco - deve-se tanto a alucinações quanto às ideias provenientes do delírio. O doente se mata para escapar a um perigo ou a uma vergonha imaginária, ou para obedecer a uma misteriosa ordem recebida do alto, etc. Como também, os motivos desse tipo de suicídio e a maneira como evolui, referem às características da doença de que geralmente derivam, ou seja, a mania.

Suicídio melancólico - relaciona-se geralmente a um estado de extrema depressão, de exagerada tristeza que faz com que o doente já não consiga apreciar de maneira sadia as relações que com ele tem as pessoas e as coisas que o cercam. Nenhum prazer o interessa; enxerga tudo de maneira sombria. A vida aparece-lhe como aborrecida ou como penosa. Dada a constâncias dessas disposições, o mesmo acontece com as ideias de suicídio; surgem-lhe dotadas de grande fixidez, e os motivos gerais que as determinam são sempre sensivelmente os mesmos.

Suicídio obsessivo - neste caso, o suicídio não é causado por nenhum motivo especial, real ou imaginário, mas tão-somente pela ideia fixa da morte, que sem razão representável, apodera-se soberanamente do espírito do doente, o qual se torna obcecado pelo desejo de se matar, embora tenha perfeita consciência da não existência de um motivo racional para fazê-lo. Durante todo o tempo de manifestação dessa resistência, o doente se vê mergulhado em um estado de tristeza, de depressão, e sente na cavidade epigástrica uma ansiedade que aumenta a cada dia.  Entretanto, a partir do momento em que o doente renuncia à luta, e resolve se matar, esvai-se a sua ansiedade, e a calma regressa. Se a tentativa de suicídio fracassa, às vezes, ela é suficiente, mesmo falhando, para abrandar, por algum tempo o seu desejo doentio.

Suicídio impulsivo ou automático - não é mais motivado que o antecedente; não tem nenhuma razão de ser, seja na realidade, e na imaginação do doente. Mas em vez de ser produzido por uma ideia fixa que atormenta o espírito durante um período mais ou menos longo, e que de forma paulatina vai dominando a vontade cada vez mais, ele resulta de um impulso instantâneo e imediatamente irresistível. Em um abrir e fechar de olhos, a ideia já aparece desenvolvida no espírito do indivíduo. Todos os suicídios vesânicos, ou são desprovidos de motivo aparente ou sua determinação provém de motivos puramente imaginários.

De todos os suicídios que foram caracterizados, o que pode parecer mais complexo ao discernimento dos que se observam nos homens de espírito são é o suicídio melancólico. Muitas vezes e, com certa freqüência, também o homem normal que se mata se encontra em um estado de abatimento e depressão idêntico ao do alienado. Para saber se todos os suicidas são loucos, não nos indagamos se agem ou não de maneira livre, baseamos nos caracteres empíricos que as diversas condições de mortes espontâneas proporcionam à observação (DURKHEIM, 2003).

2.4 A Auto-Imagem

Rogers e Kingert (1977) falam da noção do “eu”, como sendo uma estrutura perceptual, isto é, um conjunto organizado e mutável de percepções relativas ao próprio indivíduo. Esta estrutura perceptual faz parte, evidentemente ­parte central da estrutura perceptual total que engloba todas as experiências do indivíduo em cada momento de sua existência.

O ser humano é perspectivado como tendo uma tendência inata para desenvolver as suas próprias potencialidades. A sua capacidade de desenvolvimento, ou de autodireção, apresenta duas extensões que interagem uma com a outra e simultaneamente com o meio ambiente social: a tendência atualizante e o sistema de auto-regulação. O organismo tende a ir ao encontro dos seus próprios fins (ROGERS; KINGERT, 1977).

Esta tendência constitui a fonte de energia e de ação, ou seja, de motivação para o ser humano.  Quando o ser humano consegue assumir a sua diferença e a sua individualidade, revelando-se aos outros naquilo que ele propriamente é, deixa de sentir-se isolado, passando a acreditar nele e não em algo que os outros dizem sobre ele.

Rogers e Kingert, (1977) concluíram que a eficácia da tendência à atualização do eu depende do caráter realista da noção do eu. Essa noção é realista quando há correspondência ou congruência entre atributos que o indivíduo acredita possuir e aqueles que de fato possuem.  Para que a ação diretriz da noção do eu possa exercer-se de maneira ativa, para que possa acarretar a satisfação subjetiva do indivíduo e a potência do seu comportamento, é necessário que esta noção seja realista. Para ser realista, deve fundamentar-se na experiência autêntica da pessoa, naquilo que ela realmente experimenta, tendo como condição essencial a liberdade experiencial.

De acordo com Souza (2002) a auto–estima é o que a pessoa sente em relação a si mesma. A pessoa tem uma boa imagem sobre si, acredita que os outros gostam dela e confiam em suas capacidades, se a auto-estima for alta e,quando é negativa, a pessoa acredita que não é capaz, que não tem potencial, que não sabe lidar com as situações da vida.

A auto-imagem aparece na interação da pessoa com seu contexto social, consequência de relações constituídas com os outros e para consigo mesmo. Deste modo, o ser humano pode entender e antecipar seus comportamentos cuidar-se nas relações com outras pessoas, aprender a decifrar o meio ambiente em que vive e tentar ser o mais apropriado às exigências que lhe são feitas e que ele sugeriu para si mesmo (MOSQUERA; STOBÄUS, 2006).

De acordo com os autores supracitados todo ser humano tem necessidade de valorização positiva, ou auto-estima positiva, no sentido de mais real, a qual é aprendida mediante a interiorização, ou introjeção das experiências de valorização realizadas pelos outros para ela. Bem como nosso organismo é um todo integrado, com possibilidades dinâmicas de auto-realização, é muito importante relacionar entre si auto-imagem, auto-estima e auto-realização, como ser humano.

Segundo Moyses (2001) uma auto-estima apropriada pode ser determinada como o nível de confiança que um sujeito tem em si próprio, do sentimento de capacidade do enfrentamento aos empecilhos e desafios da vida. É a competência individual de saber lidar com os processos e intervenções de problemas internos e externos, acerca - de adequação e possibilidade de expressar suas próprias necessidades e desejos - é a expressão maior do termo amor próprio. Adverte também que, um dos aspectos importantes dentro deste conceito de auto-estima é a referência ao auto-conceito o qual advém de processos cognitivos e é fruto da percepção que a pessoa tem de si mesma. Tal processo de percepção está sujeito a uma série de fatores, tanto externo, quanto internos à própria pessoa, informações que durante o processo de vida em sociedade o indivíduo adquire a seu respeito.

Segundo Rogers (2001, p. 40), o indivíduo traz dentro de si:

A capacidade e a tendência, latente se não evidente, para caminhar rumo à maturidade. Em um clima psicológico adequado, essa tendência é liberada, tornando-se real ao invés de potencial. Isto se mostra evidente na capacidade do indivíduo para compreender aqueles aspectos da vida e de si mesmo que lhe estão causando dor e insatisfação, uma compreensão que investiga, por detrás do conhecimento consciente de si mesmo, aquelas experiências que escondeu de si devido à sua natureza ameaçadora.

De acordo com Galvão (2001), repetidamente a pessoa pode pensar muito em morte, em pessoas que já faleceram, ou na sua própria morte. Muitas vezes há um desejo suicida, com tentativa ou não, achando ser esta a “única saída”, ou mesmo para “se livrar” do sofrimento. Estes sentimentos são provocados pela própria depressão, que faz a pessoa culpar-se, sentir-se inútil ou um peso para os outros. Esse aspecto faz com que a depressão seja uma das principais causas de suicídio, principalmente em pessoas deprimidas que vivem solitariamente. A própria tendência a isolar-se é uma consequência da depressão, a qual pode gerar um ciclo vicioso de desesperança, pensamentos ou tentativas de suicídio, evitando ajuda médico terapêutico adequada.

Segundo Shneidman (1990, apud ATKISON, 2002) consequência mais desastrosa da depressão é o suicídio, entretanto as mortes por suicídio nem sempre são notificadas (devido ao estigma e ao fato de que muitas mortes acidentais provavelmente são suicídios), mulheres tentam mais o suicídio, aproximadamente três vezes mais do que os homens, sendo que os homens têm mais êxito em se matar do que as mulheres. O maior número de tentativas de suicídio da mulher está relacionado com a incidência de depressão entre elas. 

2.5 Angústia

A angústia não é apenas um fenômeno psicológico e ôntico, isto é, que se refere somente a uma entidade ou a algo dado, e sim, sua dimensão é ontológica, pois nos envia à totalidade da existência como ser-no-mundo. A angústia ostenta em Heidegger um cunho existencial necessariamente humano. Só o homem se angustia, não o animal, bem como apenas o homem existe e tem uma compreensão do ser. A diferença entre Kierkegaard e Heidegger, reside no fato de que em Kierkegaard a angústia divulga o nosso ser finito, o nada de nossa existência perante o da infinitude de Deus, enquanto que Heidegger abandona esta perspectiva teológica e pensa a angústia somente como fenômeno existencial da finitude humana (WERLE, 2003).

Segundo o autor supracitado, a diferença entre angústia e o temor reside no fato de que a angústia é mais ampla que o temor. O temor é direcionado a um episódio determinado da nossa existência, enquanto a angustia é completamente indeterminada, não sabemos de que nos angustiamos. Apresenta- se nas nossas ocupações do cotidiano. Assim procuramos nos ocupar com as coisas do mundo, em vez de nos preocupar, e sair desta estranha indiferença na qual nos joga o mundo. Mas com isso, sempre afundamos ainda mais na angústia.

O fenômeno angústia, sendo vivencialmente semelhante, é, contudo mais profundo no seu enraizamento corporal e tem limites fenomenológicos mais complicados de definir. A sua representação interior configura-se como algo causador de um desconforto interno global, de colorido visivelmente ideo-afectivo, experimentando-se como qualquer coisa que, difusamente, comprime e constrange, difundindo-se por todo o pensar e todo o sentir. Trata-se, por consequência, não de uma sensação encontrada nesta ou naquela zona corporal, como acontece com o fenômeno ansiedade, mas sim de um fidedigno sentimento, estacionado a elementos de natureza anímica e espiritual, cuja tonalidade emocional toca também os limites do desconforto (CARDOSO, 2001).

A angústia é decorrência da falta de base da existência humana, e essa existência é o intermediário do nascimento e da morte. O homem possui um projeto de vida fundamentado em experiências passadas que são continuadas pelo futuro, o qual o homem não consegue controlar, é limitado pela morte. Tal projeto será sempre incompleto. Nesse contexto, a angústia vem a divulgar o ser autêntico e a liberdade como potencialidade. Na angústia todas as entidades em que o homem estava mergulhado se afastam e se transformam em nada (HEIDEGGER, 1999, apud CARDOSO, 2001).

Angustiamos-nos, mas não sabemos definir o porquê. A angústia reside no puro fato de existir, o simples ser-no-mundo. Sentimos-nos estranho na angústia, o que nos angustia é um nada. O ponto “positivo” deste fenômeno é que ele coloca pela primeira vez a existência humana diante de si mesma, fazendo com que o Dasein (é o modo de ser do indivíduo, ente que possui um relacionamento fundamental ao ser, ou seja, o de encontrar-se na zona de abertura do ser, na qual os indivíduos podem revelar-se como tais: existência.) possa exceder a si mesmo, conseguindo uma situação real de transcendência, revela-lhe a autenticidade e inautenticidade como probabilidades de seu ser, probabilidade de o homem sair da inautenticidade, na qual ele vive, e assumir a autenticidade (HEIDEGGER, 1989, apud WERLE, 2003).

De acordo com Queiroz (2007) não há como fugir da angústia. Expressa que não há projeto de existência em curso que não se dê sem que o ser em gestação se encontre com ela. A angústia estiola o sujeito e na tentativa de dar conta desta, o ser em desenvolvimento só tem duas saídas: fugir ou ignorá-la. Primeiro o homem é livre para depois se definir como ser, isto nos remete a uma máxima sartreana de que a “existência precede a essência”. Colocando em bom termo, temos primeiro que o homem é livre e é esta liberdade que o marca como sujeito para sempre inquieto, portador da angústia de existir.

A angústia nos advertiu que os significados do mundo mudaram e que os contatos com os outros seres humanos perderam seu próprio significado.  É neste significado que para Heidegger a angústia consentiu o ingresso à auto-reflexão. Para a perspectiva hermenêutica, as pessoas que se habituam a um estado de ansiedade não somente têm de ser diagnosticadas de um ponto de vista clínico, mas é imprescindível que comecem um processo de reflexão sobre sua própria existência. Esse indivíduo é livre para escolher, mesmo se decide não encarar esses problemas e utilizar somente ansiolíticos, mas nesse caso dificilmente poderá dar uma solução a seus problemas existenciais (CAPRARA, 2003).

3. Metodologia

O procedimento do trabalho deu-se por meio de pesquisa qualitativa, sendo que essa trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis, ou seja, abordagem qualitativa aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas (MINAYO, 1994).

O estudo foi realizado no Serviço Escola de Psicologia – SEP, da Faculdade Integral Diferencial – FACID, localizado na Rua Coelho de Resende, 70, Centro. As entrevistas foram realizadas no mês setembro de 2008. O estudo contou com a participação de seis clientes do sexo feminino que estão em atendimento no SEP – FACID ou fizeram atendimento psicológico no local e ano de 2008. São mulheres na faixa etária de 20 a 44 anos, idade esta estabelecida segundo Papalia (2006), como condizente com o período de adulto jovem. As participantes devem ter sido encaminhadas ao SEP, devido à depressão, ideação suicida e/ou tentativa de suicídio. Ressalta-se que não houve restrições quanto à condição econômica.

As participantes foram identificadas com nomes de flores, no intuito de preservar a sua identidade.

A tabela abaixo apresenta a caracterização das participantes:

TABELA 1 - Caracterização dos participantes

 

Identificação

Idade

Estado Civil

Escolaridade

Profissão

1

Rosa

44

Solteira

Ensino fundamental

Completo

Dona de casa

2

Girassol

40

Solteira

Ensino Médio Completo

Dona de casa

3

Margarida

43

Casada

Ensino Fundamental

Incompleto

Dona de casa

4

Violeta

35

Casada

Ensino Superior

Recepcionista

5

Lírio

30

Casada

Ensino Médio Completo

Promotora de vendas

6

Cravo

21

Solteira

Ensino Fundamental Completo

Agente de viagens

A coleta de dados foi realizada mediante a aplicação de uma entrevista semi-estruturada. O contato com as participantes ocorreu por meio da instituição supracitada. De acordo com Minayo (2006), a entrevista semi-estruturada é aquela que combina questões abertas e fechadas, facultando ao entrevistado discorrer sobre o assunto em foco.  Foram verificados prontuários das participantes e averiguado na anamnese o diagnóstico, juntamente com telefones. Logo após, entrou-se em contato com as mesmas, convidando-as para a participação no estudo. Das seis entrevistadas apenas uma respondeu a entrevista na sua residência, as demais entrevistas foram realizadas no Serviço Escola de Psicologia (SEP).

O registro da fala dos participantes foi feito através de anotações e uso de gravação, posteriormente os depoimentos foram ouvidos e transcritos totalmente e, em seguida, agrupados em categorias para auxiliar a análise dos dados.

 A coleta de dados se processou após o consentimento livre e esclarecido das entrevistadas, que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE (BRASIL, 1996), que por si só manifestaram a sua acedência à pesquisa e no mesmo instante foi requerida à autorização para gravação da entrevista. Sendo garantido o anonimato dos participantes, como também a probabilidade de que pudessem desistir em qualquer fase do estudo, ou se recusassem de participar do mesmo.

Foi realizada a análise de conteúdo de acordo com as respostas dos participantes e objetivo do estudo. Ressalta-se que os dados foram identificados em seis categorias e analisados de acordo com o que se propõe a pesquisa.

 A descrição dos dados pode apontar três finalidades, segundo Sousa (1994), sendo essas de: estabelecer uma compreensão dos dados coletados, confirmar ou não as questões norteadoras, e ampliar o conhecimento sobre o assunto pesquisado, articulando-o ao contexto cultural da qual faz parte. Através dessa análise será feita uma produção parcial de tudo que foi registrado para uma posterior divulgação. Contudo, por meio das aplicações de entrevista semi-estruturada, será possível determinar as dificuldades e as consequências que a depressão causa na vida de cada indivíduo.

De acordo com Minayo (2003), a análise de conteúdo representa um conjunto de técnicas de análise de comunicação, acerca de procedimentos e objetivos de descrição de conteúdo das mensagens, obtendo dessa forma indicadores quantitativos ou não, que permitam a dedução de comportamentos referentes às condições de produção/recepção das mensagens.

Na resolução dos critérios éticos 196/1996, sobre pesquisa envolvendo seres humanos, diz que todo procedimento de qualquer natureza envolvendo o ser humano, cuja aceitação não esteja ainda consagrada na literatura científica, será considerado pesquisa, e, portanto, deverá obedecer às diretrizes da presente resolução (BRASIL, 1996).

A pesquisa envolvendo seres humanos deverá observar: adequação aos princípios científicos que  a justifiquem com possibilidades de responder a incertezas; prevalência dos benefícios sobre os riscos previsíveis; obediência à metodologia adequada; justificativa plena da utilização do placebo em termos de não maleficência; contar como consentimento livre e esclarecido do sujeito da pesquisa; contar com os recursos humanos e materiais necessários que garantam o bem estar do sujeito da pesquisa, com adequação entre competência do pesquisador e o projeto proposto;  previsão de procedimentos que assegurem a confidencialidade e privacidade, proteção da imagem e não estigmatização; desenvolvimento em indivíduos com plena autonomia, a fim de assegurar seus direitos (FURTADO, 2002).

4. Resultados e Discussão

4.1 Percepção Sobre Si Mesma

De acordo com Galvão (2001), os pensamentos, que freqüentemente ocorrem nas pessoas deprimidas, são os de se sentirem sem importância, culpando-se em excesso, sentido-se fracassadas até por acontecimentos do passado. E que muitas questões comuns do dia-dia deixam-nas com tal pensamento. A forma que a pessoa vê a si mesma e ao mundo estruturam crenças, experiências, sendo fundamentais na construção do indivíduo.

Assim, é importante o indivíduo enfrentar sua vida de uma forma mais construtiva, mais inteligente e mais socializada e satisfatória.

Percebeu-se que as entrevistadas se sentem incapazes, sozinhas, abandonadas, não acreditam em si mesmas, tornando-se pessoas tristes e sem importância. Tanto para elas quanto para outros, constituem-se um problema, e suas vidas, sem sentido, conforme as verbalizações abaixo:

“... sou muito insegura e medrosa, não tenho segurança em mim, acho que não sou capaz das coisas, sempre quando tem algo de errado eu sou a culpada, essa sensação de culpa que causa a insegurança...” (Violeta 35 anos).

“(...) eu não tinha disposição para trabalhar... para mim eu não tinha casa, não tinha ânimo para nada, não queria ver ninguém, só queria ficar dentro de um quarto trancada (...) A pessoa não podia mais falar comigo que eu tinha raiva, me estressava, parecia que eu ia explodir, não tinha paciência para nada...” (Lírio 30anos).

“(...) eu não ligava assim para nada em casa, eu mesmo dizia assim meu Deus o que é que está acontecendo comigo, pra mim eu não tinha casa, não tinha filho, não tinha nada, a gente fica como aérea, como se a vida tivesse acabado...” (Margarida, 43 anos).

“(...) ansiedade ficava muito nervosa, aí quando meus irmãos saiam para trabalhar eu ficava fazendo à mesma coisa, ficava preocupada, me sentia sozinha, ficava tensa...” (Rosa, 44anos).

De acordo com Jones (1999), a depressão pode apresentar-se de forma leve, como também sob a forma de uma melancolia permanente, que elimina o brilho da vivência, deixando a pessoa sem ação, impossibilitada, não conseguindo desempenhar as tarefas mais simples, levando-as a perder o interesse pela própria vida.  

Pôde-se perceber outros sentimentos nessas falas, como o de se sentirem ninguém, não se dando valor, nem importância. Rogers (2001) fala da noção do “eu” como sendo uma estrutura perceptual, isto é, um conjunto organizado e mutável de percepções relativas ao próprio indivíduo. Essas percepções são: as características, atributos, qualidades, e defeitos, capacidades e limites, valores e relações que o indivíduo reconhece como descritivos de si mesmo e que percebe como constituindo sua identidade. Verificou-se que as entrevistadas não se valorizam, não acreditam no que podem fazer, preocupam-se muito com os julgamentos que as outras pessoas proferem sobre elas, deixando-as inseguras e com muito medo.  

Segundo Mosquera e Stobäus (2006) a auto-imagem surge na interação da pessoa com seu contexto social. O ser humano pode perceber e adiantar seus comportamentos, cuidar-se nas relações com outras pessoas. Podendo decifrar o meio ambiente em que vive e arriscar-se ser o mais adequado às cobranças que lhe são feitas e que ele sugeriu para si mesmo. Todo ser humano tem necessidade de ser valorizado, essa valorização é aprendida mediante a interiorização das experiências realizadas pelos outros para ela.

Quando uma pessoa tem uma boa auto-imagem, ela acredita nela e as outras pessoas passam a acreditar também, confia nas suas capacidades, e as outras pessoas também acreditam, pois primeiro precisamos acreditar em nós mesmos, para nos tornamos acreditados. Quando negativa, acredita que não é capaz, que não tem nenhum potencial, que não consegue lidar com as situações da vida. Como consequência pode levar ao suicídio (SOUZA, 2002).

Segundo Rogers (2001), é importante que a pessoa torne-se semelhante ao que queira ser, mostre-se mais autoconfiante, aceitando suas atitudes com relação aos outros, vendo-os como mais semelhantes a si mesmo.  Dentre esses sentimentos podemos destacar: insegurança, culpa, solidão, medo de julgamentos, dentre outros.

Dessa forma, segundo Papalia (2000), a ligação entre comportamento e saúde aponta os inter-relacionamentos entre as perdas físicas, cognitivas e emocionais do desenvolvimento, pois o que as pessoas sabem sobre a saúde afeta o que elas fazem, e o que fazem afeta como se sentem.

No relato a seguir, verificou-se a angústia e o sofrimento em relação aos sentimentos internos sobre si mesmas. A falta de acreditar que são capazes de vencer quaisquer obstáculos na vida é muito forte para essas mulheres, as quais preferem isolar-se do mundo para não provar a fraqueza ou a falta de confiança pessoal.

“(...) foi... (pausa) me sentir sozinha foi isso por mais que eu tivesse minha família eu me sentia sozinha” (Rosa, 44 anos).

“(...) pra mim eu não tinha disposição pra trabalhar, minha disposição era de ficar deitada mesmo, eu não tinha ânimo pra nada, não queria ver ninguém, as meninas me chamavam pra deitar lá fora no alpendre, quando elas saiam, eu voltava e me trancava no meu quarto e não queria ver ninguém” (Margarida, 43 anos).

“(...) uma dor que vem da alma que você não consegue explicar, é uma dor que você não sabe por que está sentindo, porque você está triste ou porque você está chorando... você se fecha no seu mundo e que você acha que aquilo ali é o melhor pra você, você não vê que existe pessoas que dependem de você, pessoas que precisam de você (...)” (Lírio, 30 anos).

“(...) tem a falta de aceitação de mim mesma... medo, insegurança, como se eu não fosse capaz, embora muita gente que me conhece diga que não, que eu estou errada, mas não é... (pausa) o que eu acho é mais forte, infelizmente... (sorrir) o que eu acho é bem mais forte (Violeta, 35 anos).

De acordo com Werle (2002), a angústia não é apenas um fenômeno psicológico e ôntico, ou seja, que se refira somente a um ente ou a algo dado, mas sua grandeza é ontológica, envia-nos um conjunto da existência como ser-no-mundo. Assim como Kierkegaard, a angústia assume em Heidegger um cunho existencial necessariamente humano. Apenas o homem se angústia, não o animal, bem como só o homem existe e tem uma compreensão do ser. A angústia revela o nosso ser finito, o nada de nossa existência diante da infinitude de Deus.

Segundo Caprara (2003), a angústia nos adverte que os significados do mundo se modificaram e que os contatos com os outros seres humanos perderam seu próprio significado.

Exatamente isso que pode se perceber durante a declaração das entrevistadas, como se a vida não tivesse mais nenhum significado para elas. A vida para essas mulheres estava sem sentido, sem lógica, sem nenhum fundamento existencial.

4.2 Percepções Sobre a Depressão

De acordo com as entrevistadas, há sintomas semelhantes, em relação à depressão. Sobre o conhecimento da depressão apenas uma relatou ter lido um pouco sobre a doença. Descobriram que estavam com depressão após sentirem vontade de se isolar, não conseguirem mais dormir, não encontrarem coragem de viver o seu dia-dia, deixando de fazer as coisas básicas da condição humana. Uma das entrevistadas não queria acreditar na doença, achava que estava era ficando louca. A angústia, a dor que dizem sentir é muito grande.

As entrevistadas passaram a ter a confirmação de um diagnóstico de depressão após a tentativa e/ou ideação suicida. Ao serem conduzidas ao hospital, o médico diagnosticou uma doença depressiva. Todas relatam sobre sua dor e sua angústia como algo inexplicável.

“Exatamente quando comecei a perder a vontade de tudo... ter que lutar pela vida estudar trabalhar... não tinha coragem de fazer nada, nada, nada... simplesmente nada ...” (Violeta, 35anos).

“(...) na realidade não sabia o que era depressão, pela questão da insônia, eu não dormia, depois veio pensamentos negativos, impaciência, irritabilidade, eu achava mesmo que estava era ficando louca (...)” (Lírio, 30 anos).

“(...) eu queria ficar dentro de um quarto sozinha, qualquer coisinha eu estava chorando, pensando assim que ia morrer (...)” (Margarida, 43 anos).

“(...) me isolo e começo a pensar mil coisas... coisas do tipo... (pausa), às vezes as piores coisas que não dar certo pra mim e outras que não deram (...)” (Cravo, 21 anos).

Segundo a DSM-IV, o transtorno Depressivo maior apresenta sintomas como: insônia ou hiper-insônia, agitação, fadiga ou perda de energia, sentimento de inutilidade, capacidade diminuída de pensar. A depressão é considerada um transtorno quando os sintomas prejudicam o funcionamento dos indivíduos para exercerem as funções normais do dia - dia (ATKISON, 2008).

Nas falas a seguir pode-se verificar como a depressão, provoca sentimento intenso de sofrimento, tristeza e dor. Sendo essa uma doença considerada para todas como muito ruim.

“É pior que uma dor física, porque é psicológica, a dor física você toma um remédio e passa, ela não, você tem que esperar o tempo passar para ir também ...” (Violeta, 35 anos).

“É algo horrível agente fica triste... tristeza... a gente esquece das pessoas que estão conosco... é uma coisa terrível mesmo ...” (Girassol, 40 anos).

“É você fica naquela fase sozinha, mesmo com muita gente perto de você é ficar naquela fase de tristeza... se sentir a ultima da criatura da face da terra” (Rosa, 44 anos).

“É ruim demais... é um momento ruim da vida da gente, a depressão é ruim demais... pela primeira vez que deu isso em mim, mais é ruim” (Margarida, 43 anos).

As entrevistadas relatam que no auge da depressão, isto é, quando a doença está no seu ápice, diz sentir um sofrimento muito grande e uma tristeza profunda, uma dor que elas não sabem como esclarecer, apenas sentir, como sendo a pior dor do mundo. A depressão para essas mulheres é considerada como se fosse a pior doença do mundo, sendo muito difícil lidar com ela, por causa das oscilações, “um dia você acorda bem, outro dia você dorme bem e acorda mal”, relato de uma das entrevistadas. Comentam sobre o tanto que envolvem a família, e o quanto esta sofre, mexendo assim com toda uma estrutura familiar.

De acordo com Porto (1999), a palavra depressão significa um estado afetivo normal (tristeza), como um sintoma, um vestígio ou outras doenças. Hoje significa uma patologia de humor, a qual precisa ser identificada, sendo que não está relacionada ao caráter do indivíduo nem à própria vontade do mesmo. A tristeza constitui a resposta humana universal às situações de perda, desbarato, desilusão e outras adversidades.

4.3 Percepções sobre a Ideação Suicida

Das seis entrevistadas apenas duas tiveram ideação suicida, isto é, pensaram em cometer o ato, enquanto as restantes executaram tentativas.

Segundo Barraclongh e Hugrs (1987, apud Mello, 2000), a ideação e a tentativa são critérios da depressão. Os mesmos descrevem que em muitos países vem se treinando profissionais com o desígnio de diminuir a incidência de suicídios, há milhões de pessoas que cometem suicídio em todo o mundo, o qual é considerado um dos principais motivos de morte do adulto jovem.

Os sentimentos que as entrevistadas relataram após pensar no suicídio são de pessoas que não tinham o direito de tirar a sua própria vida, sentindo-as assim, com remorsos, culpa e muito arrependimento. Uma das entrevistadas, que pensou no suicídio, preferiu não acreditar que tinha pensado sendo isso um pensamento insuportável, como se lutasse para não pensar. Pensar em suicídio para essas mulheres gera muita dor e sofrimento. No entanto, consideram o ato como a única saída, mesmo achando que os pensamentos vão passar e que nenhum sofrimento pode ser eterno. Porém, a depressão faz com que elas se sintam tão impresumíveis, deixando-as com uma percepção muito negativa sobre suas vidas.

Segundo Ross (2000), os sentimentos de aflição, vergonha, culpa, escondem muito da raiva e da fúria que sentem por si mesmas. Não obstante ,não nos cabe julgar se esses sentimentos são maus ou vergonhosos, mas perceber o verdadeiro sentido, como algo humano. Descreve a morte como um acontecimento temeroso, um medo universal, mesmo sabendo que podemos dominá-los em vários níveis.

Eu penso que a única solução é essa, penso que esse é o ápice da depressão, a pessoa não querer mais viver, apesar desse todo aparato religioso que tento me agarrar, mesmo assim eu contínuo... (pausa), sendo a única solução a morte, sem outra saída, até me emociono falando disso”... Mas nunca tentei nada contra a minha vida, até hoje só pensamentos “... (Violeta, 35 anos).

“(...) que aquela dor que aquela pessoa está passando é a pior dor do mundo, que é a pior situação do mundo, que seria a única solução... só que naquele momento ele não pensa num familiar, ele não pensa em si, que pode ter muita coisa a viver, que aquilo é passageiro, que aquilo vai passar e que nada vai ser pra sempre e que nenhum sofrimento é eterno (...) (Lírio, 30 anos).

“(...) é algo... (pausa) no momento em que você está com depressão, no momento que tu tá, você se vê sem saída, acha que a porta da salvação é o suicídio, e não é depois que agente melhora vê o tanto que machuca agente... (pausa) que não é a saída para resolver os problemas, para tirar a dor e a angústia que sente, eu acredito muito em Deus, e até mesmo as pessoas que acreditam no espiritismo, diz que a vida para quem tenta o suicídio é a pior...” (Girassol, 40 anos).  

Notou-se, ainda, no relato dessas mulheres, que mesmo querendo se apegar a família ou a religião, o sofrimento sentido vai além de todos esses aparatos. No momento em que estão na crise depressiva, não vêem ninguém ao seu lado, nem mesmo elas próprias.

4.4 Percepções Sobre a Tentativa de Suicídio

Segundo as mulheres entrevistadas, o suicídio é uma forma de aliviar a dor, a amargura, e, no momento, não se pensa em nada, em ninguém, apenas em aliviar o sofrimento.

 “... creio que seja uma maneira muito covarde de acabar com sua vida e é covarde porque a pessoa pensa que não tem saída não... nada pode ser resolvido, e sendo que pode há muitas possibilidades...” (Cravo, 21 anos)

“... um pensamento ruim que eu não sei explicar direito... sim a gente fica angustiada, pra gente é como não ta vivendo, pensar nisso eu fico com remorsos, pois tenho os meus filhos eu dependo de mim...” (Margarida, 43 anos).

“(...) eu fiquei me sentindo culpada, porque minha família sofreu muito... comecei a pensar melhor, fiquei agradecendo a Deus por não ter acontecido o pior e ainda hoje agradeço por ter sobrevivido... pois vi o que eu causei na minha família” (Rosa, 44 anos).

“(...) me senti muito envergonhada, ao mesmo tempo vi que não era a saída ideal... senti-me grata a voz que me falou para eu parar, não sei se era o meu pensamento, eu me senti agradecida (...)” (Girassol, 40 anos).

Percebe-se um grande arrependimento dessas mulheres após tentarem o suicídio, tornando-se evidente quando relataram o equívoco que iriam cometer, fazendo-as entender que seus familiares também sofreriam com isso. Passaram a não querer mais tentar o ato, decorrente da forma como este ato mobilizou a família. Porém, em nenhum momento pensaram em si mesmas, apenas em como a sua família iria sofrer diante de tal ato. Como também falaram de Deus, do medo de seu castigo para com elas, medo de ir para o inferno ou sofrer muito mais após a morte.

No entanto uma das quatro entrevistadas relatou que se sentiu mal porque não teve êxito no que queria fazer, isto é, não teve sucesso no suicídio. E que o fato de não conseguir foi uma decepção, mas depois se sentiu muito sensível e diz que é uma maneira covarde de acabar com a vida, pois existem outras possibilidades de solucionar problemas, apesar de, no momento de desespero, a pessoa não conseguir visualizar.

Desta forma, é notável que a depressão foi a causa principal para que as entrevistadas tentassem e/ ou mesmo pensassem em suicídio. As suas dores e suas angústias eram tão grandes que não conseguiam suportar, achando melhor tirar a vida para que não sofressem mais.

De acordo com Galvão (2001), a depressão há um desejo suicida, com tentativa ou não, o indivíduo considera ser a única saída para se livrar da dor e angústia. Assim, a depressão constitui-se uma das principais causas de suicídio, especialmente, em pessoas deprimidas que vivem isoladamente.

4.5 Percepções sobre Reflexos da Depressão no Cotidiano

Todas as entrevistadas relataram que a depressão atrapalhou suas vidas no seu dia-dia, tanto no trabalho quanto nos seus afazeres domésticos e no relacionamento com os namorados e com as pessoas. Não saiam de casa, isolavam-se, não queriam ver ninguém e assim ficavam incapacitadas de ser ativas nas suas atividades do cotidiano, conforme os que seguem:

“(...) Ah sim em tudo, já perdi emprego, namorado por causa disso, futuros namorados porque nem mesmo chegou a ser, e passeios, estudos, atrapalhou de todas as formas possíveis” (Violeta, 35 anos).

“(...) atrapalhou, porque eu não tinha coragem de trabalhar, a gente fica sem ânimo pra nada, sem força pra nada, eu não ligava pra nada dentro de casa...” (Margarida, 43 anos).

“um pouco, porque dificulta assim, porque eu tenho dificuldade de me envolver com as pessoas, de falar, de interagir com as pessoas” (Rosa, 44 anos).

“Sim, tipo no meu trabalho... eu não me concentro direito no meu trabalho e fico achando que é melhor que termine logo de trabalhar pra eu ficar pensando naquilo, naquele problema” (Cravo, 21 anos).

Segundo Canale e Furlan (2006), a depressão pode ser causada por um processo de lentificação dos processos psíquicos, humor depressivo, estando associado à ansiedade e à angústia, diminuição de energia, não encontrando prazer no que faz, desinteresse, e não se dispondo a nenhum planejamento futuro.   

Galvão (2001), diz que muitas vezes as demandas do dia-a-dia desencadeiam os pensamentos de menos valia e de aflição. As pessoas podem apresentar dificuldade de atenção, uma dificuldade de concentração. Por isso sentem-se sem nenhuma capacidade para agir, nem mesmo as menores decisões são capazes de tomar; exageram, colocando efeitos desastrosos, quando as suas decisões dão erradas.  

4.6 Percepções Sobre a Depressão e Religião

Verificou-se que das seis entrevistadas, três falaram de apegar-se à religião como uma forma de não cometer o suicídio. O medo de ir para o inferno ou um outro lugar pior do que o que já vivem também foram receios revelados na entrevista. As outras três relatam a família como um dos motivos para não tirar a vida pois esses não mereciam tal sofrimento. Se a família não era culpada pelo sofrimento desmereceria vivenciar essa situação. Uma das entrevistadas relatou conversar com pessoas mais velhas quando se sentia com problemas.

A família torna-se o ponto de referência para as pessoas em sociedade, essa deve guiar os seus filhos para construir identidade e autonomia. Uma pessoa com auto-estima diminuída pode sentir-se desvalorizada, incapaz com relação a si mesma, demonstrando fortes sentimentos de incerteza e ansiedade, e em relação ao outro, significativa dependência (PALHETA; LEAL, 2002).

“(...) às vezes eu estou aperriada eu digo vou já pegar o meu terço e vou rezar, pego meu livrinho vou ler, umas partes boas... e às vezes quando eu sinto os meus problemas gosto de dividir com pessoas mais velhas do que eu, até mesmo na igreja vou conversar com elas...” (Margarida, 43 anos).

“(...) foi assim eu fiquei me sentindo culpada, porque minha família sofreu muito”... Quando perguntei a minha irmã como eles tinham passado a Natal, ela respondeu rezando... “Senti muito culpa porque estava causando muito sofrimento a minha família” (Rosa, 44 anos).

“(...) o que me segura para não fazer isto é a minha mãe, acredito que ela não mereça ... não suportaria se perdesse um dos filhos, eu não posso só pensar em mim, é muito sofrimento pra ela eu fazer isto [...]” (Violeta, 35 anos).

“(...) é assim o suicídio, é o maior desespero do ser humano, é não acreditar em Deus, inclusive que a punição é ir pra o inferno mesmo, eu que acredito que existe esse lugar e que a punição é ir pra lá mesmo, e eu tenho o maior pavor de ir e acho que por isso mesmo nunca fiz porque o meu medo é esse, né (...)” (Violeta, 35 anos).

Há outras percepções nessas falas: a oração como um meio de esquecer o sofrimento e até mesmo de não pensar sobre ele; o medo de magoar os familiares, sem em nenhum momento pensar em si mesmas, não se gostar em primeiro lugar, pois, em momento algum, dizem não tentar o suicídio por elas mas , pela família que não merece sofrer ou pelos filhos dependentes de cuidados ; e, por fim o medo de ir para o inferno.

Segundo Justo e Calil (2006) discorrem, as diferenças nos papéis sociofamiliares desempenhados por homens e mulheres e suas sugestões psicológicas podem ser muito significativos para as diferenças entre eles, quando se tornam deprimidos, mesmo que não funcionem como fatores determinantes exclusivos. 

5. Conclusão

O presente trabalho abordou a depressão como maior causadora de suicídio, pensamentos suicidas ou tentativa de suicídio em mulher adulta. Na busca de compreender e analisar as consequências psicológicas da tentativa de suicídio em mulheres adultas jovens depressivas, constatou-se a presença de muito sofrimento, culpa, remorso e angústia, assinalando este ato como a única maneira de aliviar a dor.

Outros objetivos nomeados para a realização deste estudo advieram em analisar a consequência psicológica após a tentativa de suicídio; verificar se as mulheres adultas jovens que não conseguiram finalizar a ideia suicida tendem a aumentar os seus sintomas depressivos; como também averiguar se essas mulheres que apresentam sintomas depressivos tendem a pensar e a desejar o suicídio.  

Com base nos dados que foram coletados e analisados, percebeu-se que as mulheres adultas jovens não aumentaram os sintomas posteriormente à tentativa de suicídio, não tenderam a reincidência do ato. De acordo com o relato das participantes, o ato suicida gera muita culpa, remorsos e arrependimentos. Todas as entrevistadas dizem ter sentido vontade de morrer, sendo que quatro realmente tentaram o suicídio e duas apenas pensaram. Apenas uma delas diz ter como consequência a sensibilidade e a decepção por não ter conseguido.

Estas mulheres passaram a dar valor à vida após a tentativa de suicídio, devido aos familiares, elas olharam mais para estes e perceberam o grande sofrimento que lhe causavam. Outro fator de destaque, foi a espiritualidade, pois acentuaram sua fé em Deus, porque expressavam o medo de ir para o inferno, ou um lugar pior do que já estavam.

Ainda relataram que sentiam uma dor e angústia muito grande, que não sabem explicar por que choram ou ficam tristes, considerando a autodestruição um alívio. É visível que essas mulheres estão vivenciando um conflito entre a angústia e a culpa por tentar tirar a vida, uma vez que não se consideram no direito de eliminar a própria vida, mas que no auge da depressão, vêem no suicídio a única saída viável, ou seja, a única solução “prudente”.

Verificou-se que algumas destas mulheres não gostam de falar a palavra suicídio por considerarem-na muito forte e carregada de preconceito social, por isso empregam “besteira” no lugar de suicídio.

Ressalta-se que, as quatro entrevistadas tentaram suicídio utilizando  medicação do dia-dia, tomaram em doses muito altas, fazendo-se necessária a internação hospitalar para desintoxicação. Logo depois da tentativa foram diagnosticadas com quadro depressivo pelos médicos. Uma das quatro entrevistadas usou a medicação juntamente com o álcool, ficando em coma por alguns dias. Verificou-se também que elas não tentam mais o suicídio, contudo, não deixaram de pensar no ato.

Este estudo confirmou que a depressão é uma doença que afeta a mulher adulta e tem uma relação com a ideação ou com a tentativa de suicídio. No entanto, vale evidenciar que a depressão e suicídio não é um comportamento típico do universo feminino, visto que as mulheres buscam mais auxilio e ajuda profissional do que os homens.

Ressalta-se que nem todas as pessoas depressivas cometem o suicídio, porém das seis entrevistadas, as que não tentaram o suicídio, pensaram no ato.

Assim, diante da exposição da realidade vivida por estas clientes, espera-se que os gestores de nosso país consigam ampliar a importância dos psicólogos para as pessoas, principalmente para as que estão em depressão, como também investir em pesquisas para melhor analisar essa doença. Contudo, faz-se necessária a realização de novos estudos sobre o fenômeno, tanto de caráter psicológico como sociológico, para aprimorar e gerar novas fontes de intervenções junto à população, buscando táticas que gerem alcances preventivos.

Sobre o Autor:

Celma Soares da Cruz Luz - Psicóloga formada pela Faculdade Integral Diferencial (FACID) Teresina-PI

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