Filhos no Crack: Sob o Olhar de Mães

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Resumo: Estudos vêm revelando o aumento do consumo de Crack no Brasil em virtude do fácil acesso, alta letalidade e precocidade do primeiro uso. Diante desta situação o pânico toma conta das famílias, modificando totalmente a sua dinâmica, trazendo sofrimentos, tristeza e depressão para os pais. Assim, considerando-se que o usuário traz para a família uma série de novos comportamentos e novos desafios, esta pesquisa tem como objetivo: investigar as experiências de mães com filhos dependentes de Crack, identificar quais as formas de enfrentamento usado, analisar as mudanças que ocorreram na dinâmica familiar e conhecer os aspectos psíquicos e sociais das mães. Método: uma pesquisa de abordagem qualitativa, com análise descritiva, participaram sete mães que moram em uma bairro da zona norte na cidade de Aracaju. Foi utilizada a técnica em cadeias snowball, onde na própria comunidade uma mãe, indicou outras que vivenciam o mesmo problema. As conseqüências do consumo Crack são as séries de modificações para a configuração familiar. O estudo revelou que a membros da família são vitimas em alguns momentos e cúmplice em outros. Demonstrou também que as mães têm uma postura de sofredora, mas, afetuosa e preocupada com os filhos, cujo à maioria dos pais não participa efetivamente dos cuidados dos mesmos. Conclui-se que essas mães, chegam a apresenta patologias físicas e psicológicas, ainda esperam um futuro melhor; como a recuperação dos filhos, mesmo sabendo das dificuldades com o tratamento e a dependência da droga, e acreditam na importância do psicólogo no acompanhamento do usuário químico e da família.

Palavras-Chave: Usuários de drogas, Crack, Mães, Psicologia.

1. Introdução

O consumo de substâncias psicoativas, lícitas e ilícitas, é um dos mais preocupantes problemas de saúde pública no mundo. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima em até 270 milhões os usuários de drogas ilegais. Desse total, pouco menos de 10% podem ser classificados como dependentes ou “usuários de drogas problemáticos” e calcula-se que até 263 mil deles, principalmente jovens, morram anualmente, a metade por overdose (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2011).

No Brasil, a gravidade aumenta quando se trata do tratamento dos usuários de crack pois o país não se preparou para tratar os dependentes desta droga. Além das dificuldades inerentes ao atendimento médico e psicológico aos usuários, a rede de tratamento é pequena, precária e com profissionais pouco qualificados. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um país deve ter leitos para saúde mental suficientes para internar 0,5% de sua população, o que no Brasil, seriam 950 mil leitos. Todavia, o país tem cerca de 32,7 mil. Tal situação é decorrente da situação migratório, em que o país se encontra, ou seja, desde 2002, de um modelo baseado na internação para outro voltado para atendimento ambulatorial (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2011).

As dificuldades do tratamento são intensificadas muitas vezes pela falta de apoio de famílias desarticuladas, soma-se um sistema púbico de saúde particularmente desaparelhado para tratar a dependência química.

Os aspectos descritos acima levaram ao seguinte questionamento: qual o cotidiano das mães cujos filhos são dependentes do crack? Baseando-se nos questionamentos descritos e compreendendo a necessidade de uma investigação acerca do uso do crack e as repercussões nas relações familiares, busca-se analisar esse uso sob o olhar de mães.

São objetivos específicos deste estudo: identificar as mudanças na dinâmica familiar a partir do enfrentamento das drogas; analisar as mudanças que ocorreram na dinâmica familiar de mães cujo(s) filho(s) é(são) usuário(s) de crack; verificar como as mães lidam com as situações geradas pelo filho, usuário de crack; identificar as esferas física, psíquica e social das mães pesquisadas, abordando suas perspectivas para com os filhos.

2.  Revisão da Literatura

2.1 As drogas e seus efeitos

Diariamente, pessoas de todas as partes do mundo consomem diversos tipos de drogas a fim de aliviar dores físicas, diminuir tensões nervosas, fazer dormir ou permanecer acordado ou, simplesmente, sentir novas sensações.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define droga como: toda substância que, administrada ao organismo, produz modificações em uma ou mais de suas funções. As drogas trazem sérios problemas para os usuários, vão desde perturbações mentais, doenças e debilidades físicas.

O consumo de drogas constitui uma agressão a todo organismo e, o uso sistemático destas substâncias, termina por acarretar uma série de problemas físicos e psicológicos, ainda conforme a ONU estima-se que até 270 milhões de usuários de drogas ilegais, ou seja, 6,1% da população mundial está na faixa etária de 15 e 64 anos de idade. Deste total, pouco menos de 10% podem ser classificados como dependentes ou usuários de drogas e calcula-se ainda que até 263 mil deles, principalmente jovens, morram anualmente, a metade por overdose (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).

Especialistas brasileiros estimam que mais de dois milhões de brasileiros usem a droga, cujo poder destrutivo é superior ao da maioria das substancias ilícitas, devido ao fácil acesso, alta letalidade e precocidade do primeiro uso (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).

Portanto, o uso de drogas traz riscos graves à saúde, já que todas as substâncias psicoativas usadas de forma abusiva produzem aumento do risco de acidentes e da violência, por tornar mais frágeis os cuidados de autopreservação.

Há sem dúvida um entrelaçamento de fatores psicológicos com fatores sociais no uso das drogas. A curiosidade em experimentar novas sensações, a disponibilidade da droga e a existência de amigos que a usam ou a aprovam podem induzir uma pessoa a experimentá-la pela primeira vez. Isso é mais comum no caso das drogas que não causam dependência física. Há também a pressão do grupo que já utiliza a droga: o iniciante fica com medo de ser desprezado pelos colegas que se valem do tóxico.

Diante dessa realidade, nota-se o importante papel da família, pois não é novidade que a família representa o primeiro grupo social com a qual o sujeito mantém os seus primeiros contatos e sendo nela onde se adquire as primeiras aprendizagens e inicia o desenvolvimento dos aspectos concernentes a valores morais, padrões sociais, religiosos e costumes que irão constituir a base do seu caráter (CRUZ; MARQUES, 2009).

2.2 Breve Histórico da Política de Redução de Danos das Drogas

A Política de Redução de Danos (PRD) foi adotada como estratégia de saúde pública no final da década de 1980, especificamente no ano de 1989 em São Paulo, quando, conforme Mesquita (1991) o estado tinha altos índices de transmissão de HIV relacionados ao uso indevido de drogas injetáveis (MINISTÉRIO DA SAÚDE/BRASIL, 2008).

Em meio a este cenário foi elaborada uma proposta inicialmente como uma estratégia de prevenção ao HIV entre usuários de drogas injetáveis – Programa de Troca de Seringas (PTSs). A partir desse modo, a redução de danos foi se tornando uma estratégia de produção de saúde alternativa às estratégias pautadas na lógica da abstinência, incluindo a diversidade de demandas e ampliando as ofertas em saúde para a população de usuários de drogas (PASSOS, 2011).

Os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) apesar de serem a referencia no SUS para o atendimento de usuários de drogas em termos práticos isso quase não acontecia, sendo muito mais efetivos no tratamento de doenças psiquiátricas, prova disso é que em 2002 inicia-se a implantação dos CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas) como forma de constituir uma rede especializada com vistas à situação de escassez de serviço com esse perfil no SUS.

A redução de danos foca na prevenção aos danos, ao invés da prevenção do uso abusivo de álcool e outras drogas; bem como foca em pessoas que seguem usando drogas. É nesse sentido que a psicologia ganha destaque já que ela se insere nesse debate e surge como estratégia para a diminuição dos estigmas sociais que rotulam os usuários.

O objetivo principal da Política de Redução de Danos é evitar que as pessoas se envolvam com o uso de substâncias psicoativas. Se isso não for possível, para aqueles que já se tornaram dependentes, oferecer os melhores meios para que possam rever a relação de dependência, orientando-os tanto para um uso menos prejudicial, quanto para a abstinência, conforme o que se estabelece a cada momento para cada usuário (CONTE et al, 2006).

Nessa perspectiva, as ações de redução de danos promovem a organização de profissionais e usuários, trazendo contribuições significativas para a revisão das leis em vigor e proporcionaram o compartilhamento de saberes técnico e saberes populares, e por sua vez criam condições favoráveis para a construção de estratégias eficazes na abordagem dos problemas de saúde dos consumidores de álcool e outras drogas.

3.  O Crack

3.1 Conceituação

O crack é um tipo de droga produzido a partir da cocaína, e por seu baixo custo, tornou-se mais acessível que a cocaína, porém, seus efeitos no cérebro são bem maiores. O crack surgiu na década de 1970, mas foi se popularizando na década seguinte entre os moradores de bairros pobres de grandes cidades dos Estados Unidos, como Nova York, Los Angeles e Miami, especialmente entre jovens negros e de origem hispano-americana (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2011).

No Brasil, o primeiro relato de uso desse tipo de droga foi em 1989, na cidade de São Paulo e, dois anos após fez-se a primeira apreensão. Conforme pesquisas, acredita-se que o crack tenha entrado no país pelo Acre, vindo da Bolívia e do Peru, na década de 1980 e tornou-se uma versão da cocaína, e, por ser mais barata, passou a ser usada por grupos marginalizados (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2011).

De acordo com o Ministério da Saúde, o crack resulta da transformação do cloridrato de cocaína adicionado ao bicarbonato de sódio diluído em água e, após secar transforma-se em pedras, que podem ser consumidas através de inalação, sendo que após  inalado, produz  efeitos   imediatos,  levando  de  dez a  quinze minutos  até chegar à  euforia (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).

Estudiosos da área afirmam que, entre todos os tipos de drogas, o crack é o mais cruel: ao ser inalado leva aproximadamente oito segundos para atingir o pulmão e o cérebro, desencadeando efeitos imediatos, por isso o usuário precisa consumir cada vez mais para que possa manter a sensação de prazer constante (OLIVEIRA, 2011).

Estudos apontam que efeitos fisiológicos e psíquicos do crack são diretamente correlacionados à concentração sérica da droga. Segundo Silva (2008) os efeitos da droga sobre o humor se evidenciam 15 minutos após o consumo, acompanhados por aumento da pressão arterial e taquicardia. A euforia ocorre durante o aumento da concentração da cocaína no sangue, após atingir a estabilidade e o nível sérico, começa a cair e surgem os efeitos psíquicos: depressão, ansiedade, cansaço, irritabilidade e principalmente fissura intensa por mais droga.

Portanto, passados os quinze minutos, a necessidade de um novo consumo já se manifesta, caso não seja usado novamente, o sujeito pode chegar a um inevitável desgaste físico, podendo chegar a depressão profunda. O Censo de 2010 demonstra que, apesar de faltarem estimativas oficiais recentes, dados preliminares apontam que 1,2% da população usa ou já pode ter usado crack, ou seja, 2,3%  da população brasileira (OLIVEIRA, 2011).

O crack manifesta alguns sinais físicos facilmente identificados que caracterizam o seu uso: forte aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, suor intenso, tremor muscular, excitação acentuada, sensações de aparente bem estar, aumento da capacidade física e mental, indiferença a dor e ao cansaço, inquietação psicomotora (dificuldade para permanecer parado   e até quadros mais sérios de agitação), aumento do estado de alerta e diminuição do apetite, alteração do humor, euforia (desinibição, fala solta), sintomas de mal estar psiquico (medo, ansiedade e inibição da fala) (SILVA, 2008).

 O problema é agravado pela efetividade limitada das abordagens de tratamento para dependência de cocaína e crack discutidas pela comunidade científica e pela sociedade. No caso das drogas, o primeiro mal que devemos evitar é proclamar que temos alguma arma melhor do que as outras, vender ilusões. Há décadas, se estudam e se buscam tratamentos eficazes. E hoje, a eficácia de inúmeras abordagens é muito questionável (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2011).

4. A Inserção do Psicólogo na Política de Redução de Danos

O enfoque de redução de danos, difundido no Brasil a partir da epidemia de AIDS, vem sendo estendido para outros comportamentos de risco, tais como abuso de álcool e outras drogas.  Segundo Dalla-Déa (2004) a redução de danos lida com pessoas que têm algum tipo de comportamento de risco, e opta pela saúde e pela responsabilidade pessoal, ao invés da doença e da punição.

Pela sua aplicabilidade a Política de Redução de danos mostra-se importante para a melhoria da qualidade de vida dos usuários de álcool e outras drogas. Por essa razão, verifica-se a importância crucial da atuação do psicólogo nessa Política, que aponta claramente para a necessidade de capacitação dos profissionais de Psicologia para um trabalho preventivo e para o diálogo com profissionais de outras áreas em equipes multidisciplinares voltadas para a promoção de saúde dos usuários (DALLA-DÉA, 2004).

Para Romôa (2009) a intervenção do psicólogo deve ser focada no sujeito e não em uma suposta “doença”. Isso quer dizer que é necessário trabalhar no campo de produção de subjetividades, no desmonte das concepções higienistas rígidas e reacionárias. Assim, a redução de danos caminha para a busca da prevenção e promoção da saúde e não da culpabilização e moralização.

Para Pinheiro (2009, p.07), os psicólogos devem atuar com usuários tratando-os como sujeitos, e não como objetos. Não os considerando “doentes ou criminosos, mas sim como atores principais de um processo, é que se pode trabalhar para construir num caminho junto com eles, em vez de impor o caminho a ser trilhado”.

Verifica-se que o psicólogo em muito pode contribuir na redução de danos drogatícios, uma vez que seu trabalho abrange uma diversidade de ações que contribuem para melhoria da qualidade de vida do usuário.  Por essa razão, a atenção do psicólogo junto ao usuário deve visar o resgate da saúde, segundo Zuccaro (2009, p.05), desconstruindo a idéia de que todo usuário seguirá ao crime, à doença ou à morte.

5. Material e Método

5.1 Abordagem e Nível de Pesquisa

Um maior aprofundamento do assunto em questão, a saber, analisar o impacto familiar causado as mães pelos usuários de crack; expõe-se que o tipo de pesquisa a ser utilizada será a qualitativa em virtude de ser a que "melhor compreende e explica a dinâmica das relações sociais aprofundando no mundo dos significados das ações" (MINAYO, 2010, p. 53).

5.2 População/Amostra

A população abordada na presente pesquisa se constituiu de mães que têm filho (s) usuário (s) de crack, residente de uma comunidade da zona norte do município de Aracaju/SE. Os sujeitos da pesquisa constituíram-se de um grupo, formado por 7 (sete) mães, cujos filhos são usuários de crack.

O tipo de amostra escolhida será a não – probabilística por acessibilidade, pois segundo Vergara (2006, p.51), amostra por acessibilidade “longe de qualquer procedimento estatístico, seleciona elementos pela facilidade de acesso a eles”.

5.3 Coleta de Dados/Instrumentos

O instrumento inicial para coleta de dados foi uma entrevista semi-estruturada, seguida de observação participante, sendo utilizada também a técnica em cadeias (snowball) onde na própria comunidade uma mãe, indica outras que vivenciam este problema cotidianamente. A entrevista contempla dezoito questões abertas, permitindo aos entrevistados, total liberdade para as respostas. Portanto, foi adotado um roteiro básico e flexível enfocando questões relativas à temática.

5.4 Análise dos Dados

Foi utilizada nesta pesquisa a abordagem qualitativa, utilizando a análise de conteúdo, que segundo Chizzotti (2007, p. 98) é “um método de tratamento e análise de informações, colhidos por meio de técnicas de coleta de dados, consubstanciadas em um documento”. A referida técnica é utilizada na análise de textos escritos, orais, visuais, gestuais, dentro do âmbito da comunicação.

A análise foi descritiva contendo temas e categorias, que segundo Minayo (2010) é um procedimento que busca o significado de situações e padrões recorrentes na forma de termas ou categorias, centrando-se na comunicação e tem como alvo a mensagem e as técnicas de análise que admite através da comunicação e dos resultados alcançados atingir os objetivos da investigação. Para tanto, seguimos as etapas básicas para análise de conteúdo segundo Bardin (2010).

5.5 Procedimentos

No primeiro momento, foi feito contato com uma líder comunitária do bairro, a fim de conseguir mães dispostas a participar da pesquisa.  A líder me direcionou à casa de mães cujos filhos são usuários de crack e conversou solicitando a participação.

A segunda etapa teve a finalidade de coletar dados e traçar um perfil das mães moradoras de um bairro na zona norte na cidade de Aracaju, bem como informações sobre as mudanças na dinâmica familiar a partir do enfrentamento das drogas. Para tanto, realizaram-se entrevistas semi-estruturadas. Tal etapa foi consolidada pela validação de tais instrumentos através de um termo de livre consentimento e esclarecido - TCLE (apêndice II). Foi entregue a cada participante um TCLE, para que as mesmas assinassem e pudessem participar da pesquisa.

As entrevistas aconteceram no período da tarde das 16:00h às 18:00h, período em que as mesmas tinham concluído seus afazeres domésticos, nos dias 16/17/18 de outubro de 2011.

5.6 Procedimentos Éticos

Foram transmitidos aos participantes os objetivos da pesquisa, além de garantias de direito em relação ao não consentimento e de ser esclarecido quando solicitado, e ainda a garantia de sigilo sobre sua identidade conforme a resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

Foi entregue a cada participante o TCLE – (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido) para que as mesmas pudessem relatar os fatos, em seguida o mesmo foi entregue a pesquisadora devidamente assinado antes de iniciar as entrevista a fim de manter um relacionamento mais cordial e verídico.

6. Resultados e Discussão

Neste capítulo, são apresentadas as informações colhidas em entrevistas  a fim de investigar o cotidiano dessas mães cujos filhos são dependentes de crack.

Traçar o perfil de um grupo é importante porque conhecê-lo implica entender a sua origem, sua história, sua profissão, religião e seu meio socioeconômico. Isso porque, “o ambiente sociocultural é um dos fatores que determinam o modo de vida de uma dada comunidade” (OLIVEIRA, 2009, p.70).

Inicialmente, foram coletadas informações visando traçar o perfil das participantes:

Perfil das mães entrevistadas. Tabela 01

Mães

Idade

Escolaridade

Profissão

Nº de filhos

Estado civil

Renda Familiar

Religião

M1

33

Ensino médio

Prendas do lar

5

Solteira

2 SM

Evangélica

M2

38

Fundamental incompleto

Prendas do lar

4

Casada

3 SM

Evangélica

M3

45

Ensino Fundamental  

Serv. De Apoio /Prefeitura

2

Solteira

2 SM

Católica

M4

50

Ensino Fundamental  

Doméstica

5

Solteira

1 SM

Católica

M5

50

Ensino Fundamental  

Agente de Limpeza

4

Casada

2 SM

Católica

M6

53

Ensino Fundamental  

Prendas do lar

5

Casada

2 SM

Evangélica

M7

54

Ensino médio

Professora

5

Casada

3 SM

Católica

Fonte: banco de dados da pesquisa

*SM= SALÁRIO MÍNIMO

Verifica-se na tabela 1 um perfil bem heterogêneo, com a presença de mães não muito jovens, com média de idade em torno de 46 anos, com escolaridade de maior predominância o Ensino Fundamental, seguido por Ensino Médio, com renda familiar em média dois salários mínimos, a maioria católica e com 4 filhos em média.

6.1 Temas Analisados

Neste item serão analisados os discursos das mães mediante a abertura do tema e formação de categorias de análise. Partiu-se do pressuposto de que as relações humanas estão permeadas pela linguagem e as pessoas se comunicam através dos discursos que elas produzem, sejam eles orais ou escritos. Nessa interação, os sujeitos podem manter ou transformar as relações numa sociedade, posto que “o discurso contribui para a construção de todas as dimensões da estrutura social” (FAIRCLOUGH, 2005, p. 91). Além disso, é através da linguagem que se dissemina as condutas comportamentais geradas pelo ser humano.

Quanto ao tema Entendimento a respeito das drogas, foram elaboradas as seguintes categorias: tristeza e destruição.

 

Mães

 

M1

É uma destruição terrível com a pessoa e família.

 

M2

É muito triste, ele anda com quem não deve e eu vivo o tempo todo preocupada.

 

M3

Uma desgraça da vida, destruição da família e deles.

M4

 

É uma coisa terrível que está neste mundo, uma coisa terrível para a família e para eles.

 

M5

A droga só traz coisas ruins para todos

 

M6

É uma coisa ruim traz a destruição de toda a família

 

M7

É um caminho sem volta envolve toda a família

Verifica-se nos depoimentos das mães que as drogas trazem destruição e tristeza para as famílias, gerando desgraça que envolve toda a família. Nota-se também uma visão limitada das mães acerca da conceituação, já que drogas dizem respeito a muito mais do que tristeza e destruição. Sabe-se que elas geram tristezas e destruição, todavia, o tema droga é bastante complexo e envolve uma análise mais aprofundada.

A própria OMS considera a dependência de drogas como uma doença que requer cuidados específicos. Portanto, como qualquer outra doença, ela pode ser tratada e controlada, devendo ser encarada, simultaneamente, como uma doença médica crônica e um problema social. Todavia, Santos e Prata (2006) enfatizam que há uma resistência muito grande, tanto por parte dos próprios dependentes quanto por parte dos familiares em aceitar que o consumo de drogas é uma doença.

Conforme a OMS, a dependência de drogas corresponde a um estado mental e, muitas vezes, físico, que resulta da interação entre um organismo vivo e uma droga. Caracteriza-se por comportamento que sempre inclui uma compulsão de tomar a droga para experimentar seu efeito psíquico e evitar o desconforto provocado por sua ausência (SILVEIRA FILHO, 2005).

Em seguida, foi pergunto às mães há quanto tempo o filho (a) é usuário de drogas. A maioria respondeu que são usuários ha mais de cinco anos.

Com relação ao tema descoberta do uso, foram elaboradas as seguintes categorias: Relacionamentos e amizades.

Mães

 

M1

Através de um sonho, sonhei que ele estava com o rosto cheirando pó, aí comecei a ficar desconfiada, não sei há quanto tempo.

M2

 

Uma vez quando chegou tarde eu e o pai começamos a perguntar e ele afirmou prometendo que não usaria mais, porém o mesmo continua com o vício, há 5 anos.

M3

 

 As amizades, desconfiei quando começou os pequenos roubos em casa,

M4

 

No início os vizinhos diziam, mas eu não acreditava, então fiquei observando as amizades, aí tive a certeza. Há mais de 5 anos

M5

 

As pessoas começaram a falar e eu achei um pedaço de caneta (ele usava p cheirar cocaína). Há mais de 5 anos

 

M6

 

Descobri sozinha, comecei a ver as amizades e perguntei e eles afirmaram. Há mais de 5 anos

 

M7

 Através dos próprios amigos que saiam com ele há mais de 5 anos

Conforme descrito, as mães ficaram sabendo que o filho (a) era usuário através de várias fontes: amizades, pessoas, amigos, como também começaram a questionar o (a) filho (a), observando (sozinha), e até “sonhando”, conforme a mãe 1.

Parece que nessa categoria de análise, a família foi à última a saber, isso pode indicar problemas nos relacionamentos familiares, pois os pais não detectaram precocemente, só souberam por meio de fontes, ou seja, não conseguiram perceber algo de errado com seus filhos ou talvez, as mães passaram pelo sentimento de negação, com bem explicita Dr. Kalina (2005) que diante da descoberta de que o filho (a) está envolvido com drogas, a primeira reação da família é a negação, muitas se aborrecem com aqueles que tentam alertá-los, pois não acreditam que sua família pode estar em crise.

Portanto, o sentimento de traição é quase inevitável para a família, quando se vem à tona o dependente de entorpecentes, por mais que tivesse confiança, as decepções e frustrações são certeiras quando se percebem enganados e traídos (SILVA, 2008).

Quanto ao tema comportamento, foram elaboradas as seguintes categorias: agressividade, isolamento, desmotivação e sintomas clínicos.

Mães

 

    M1

Ficou muito agressivo, desorientado e muito nervoso.

 

M2

A agressividade o comportamento mudou muito, antes comia muito, agora come pouco, às vezes, queremos conversar com ele, mas não responde mais nada, fica calado e com olhos baixos.

M3

Abandonou os estudos, andava muito na rua, tinha hora de sair e não tinha hora de voltar.

 

M4

Muitas mentiras, agressividade, falta de respeito com os irmão, a frieza.

 

M5

Olha sempre para baixo, abandonou os estudos, começou a roubar em casa.

 

M6

A menina deixou o emprego e não liga para os filhos que hoje são 04 e um de 08 meses, o menino ficou mais calado, e muita tosse, cabeça baixa.

M7

Se tornou uma pessoa agressiva (já casou várias vezes, responde na justiça por agressão a companheira e outra esposa cortou o cabelo dela com uma faca), a gripe constante e a alimentação, por um período comia muito depois mudou completamente, come muito pouco.

 

 

As principais mudanças observadas pelas mães no comportamento do (a) filho (a) que indicaram o uso de drogas, tais como: agressividade, alto nível de nervosismo e estresse, desorientação, isolamento, falta de motivação para com os estudos e trabalho, como também sintomas clínicos, como: gripe, falta de apetite, tosse, entre outros.

Verifica-se que são várias as mudanças ocorridas no comportamento do usuário, como descreve Lourenço (2007): mudança brusca no comportamento; irritabilidade sem motivo aparente e explosões nervosas; inquietação motora; impaciência, inquietude, irritação; agressividade e violência; depressões; estado de angústia sem motivo aparente; queda do aproveitamento escolar ou desistência dos estudos; insônia, isolamento, evitando contato com amigos e familiares; mudança de hábitos, desaparecimento de objetos de valor, de dinheiro ou, ainda, incessantes pedidos de dinheiro, “más” companhias, entre outros.

Dr. Kalina (2005) acrescenta que a droga funciona como objeto externo a serviço de um "equilíbrio" que intenta restabelecer a homeostase para que possa lidar com a ansiedade e a angústia.

No tema: tratamento e como ele foi feito. De acordo com as respostas das entrevistadas, na sua maioria não foi feito nenhum tratamento e os poucos que participaram não concluíram o processo terapêutico.

Com relação ao tema: tratamento, foram elaboradas as seguintes categorias: Centro de atenção psicossocial – CAPS e Fazenda Esperança

Mães

M5 Participou do CAPS/Atalaia durante 2 meses, participava das terapias, depois desistiu, foi internado na Fazenda quando foi jurado de morte, ficou um mês.  

M6 Conversamos com a equipe do CAPS, escolheu as atividades para participar, mas só ficou dois dias.

M7 Foi ao CAPS participou de algumas terapias e na Fazenda muito trabalho voluntário, mas não ficou em nenhum.

De acordo com as respostas das entrevistadas, na sua maioria não foi feito nenhum tratamento e os poucos que participaram não concluíram o processo terapêutico.

Desse modo, os fatores de ordem social são muito importantes para a vida do drogado, se tratando da exclusão desse indivíduo tanto da sociedade como do âmbito familiar. A família do dependente químico deve contribuir na busca por ajuda especializada, lembrando-se que a dependência deve ser tratada, para que assim ele possa se inserir socialmente nos espaços dos quais foi excluído (ALMEIDA, 2007).

Com relação ao tema: acompanhamento da família no tratamento, foram encontradas as seguintes categorias: ausência, conselhos, acompanhamento.

Mães

 

M1

 O pai é muito ausente, não participa da educação como deveria, tive muitos problemas solicitava sua ajuda, mas não participava.

M2

 Tentamos conversar, o pai dá muito conselho, mas não adianta.

 

M3

 O pai é ausente, nunca deu atenção e só foi visitá-lo na cadeia uma vez.

 

M4

O pai foi embora quando ele nasceu nunca participou de nada na criação.

 

M5

É filho adotivo, os pais abandonaram quando nasceu, depois apareceram e o mesmo foi morar, mas não deu certo e retornou para a família o pai não participa da criação

 

M6

O pai conversa muito e dá muito conselho, mas não adianta.

M7

O pai é extremamente preocupado procura os tratamentos, mas o mesmo não demonstrava interesse de participar.

Constata-se que das sete mães pesquisadas, apenas três pais mostraram-se preocupados com o (a) filho (a), os demais, segundo relatos das mães nunca participaram, ficaram ausentes no tratamento. Nota-se que a presença do pai na participação dos problemas com a droga ainda é pequena, em virtude de ser atribuída a mãe cuidar do lar e dos filhos.

As pesquisas de Muzza (2006) revelam que o pai, ainda toma para si, e muitas vezes quase que exclusivamente, o papel de provedor econômico da família. Contudo, o autor chama a atenção para o fato de que não pode generalizar este modelo como próprio de todas as classes sociais, pois uma parcela importante das famílias dos adolescentes é monoparental e, frequentemente cabe às mães o desempenho dos papéis parentais, o afeto paterno parece atuar como um ponto de referência fundamental, uma vez que é um afeto culturalmente associado à aprovação ou reprovação dos comportamentos filiais, enquanto que o afeto materno é essencialmente incondicional.

Desse modo, a existência de um relacionamento pai-filho permeado de atitudes carinhosas impele o filho a perceber o pai investido de qualidades que o diferenciam e, nestas condições, o jovem é capaz de internalizar uma figura parental masculina solidamente estruturada, representante da sociedade adulta, tornando-se menos permeável a condutas desviantes.

Com relação ao tema: confiança, foram encontradas as seguintes categorias: confiança e desconfiança

Mães

 

M1

Confio no que ele diz por que é verdadeiro... (silencia e olha para baixo).

 

M2

Não há confiança, há uma suspeita eterna, principalmente quando há casos de morte no bairro.

M3

Não existe essa palavra, tento, mas não consigo, confio desconfiando, aliás desconfio mais do que confio.

 

M4

 Muito difícil para mim dizer isso, mas, não consigo ter confiança nenhuma.

 

M5

Confio desconfiando diante de tudo que já vivi com o ele.

M6

 Alguma coisa difícil de acreditar verificando 04 crianças abandonadas por ela, o menino apesar de estar no crack é mais tranquilo.

 

M7

Algo difícil de ser praticado só o pai acredita, na sua recuperação e mudança.

Foi analisada também a questão da confiança quando o (a) filho (a) retorna para casa. Entre as mães, apenas uma disse confiar no filho, as demais demonstraram desconfiança, em virtude dos atos praticados pelo filho (a).

Mesmo em personalidades bem adaptadas essa fase de transição, cheia de escolhas e decisões, e que já é difícil devido ao complexo mundo moderno, pode tornar-se ainda mais difícil se não houver o apoio da família e das instituições sociais, se o sentimento de confiança do adolescente não for estimulado, se suas realizações não forem reconhecidas ou se ele for excluído de uma participação importante na vida da comunidade. É necessário que família e escola se unam, procurando ajudar o jovem. A falta desse apoio pode determinar uma fuga para as drogas (VASCONCELOS, 2006).

Com relação ao tema: mudança do cotidiano, foram encontradas as seguintes categorias: descoberta e aspectos emocionais.

Mães

 

M1

Vivo sem paz, o coração dói, os nervos parecem que vão sair da carne, treme todo, não durmo direito passo a noite em oração.

M2

Mudou toda a rotina de minha vida, durmo muito pouco, tenho problemas de nervos, choro muito, problemas de taquicardia.

 

M3

Muita coisa mudou e ainda tem mudado, tenho medo, não tive apoio de minha família e me sinto discriminada em minha própria casa.

 

M4

 Mudou toda a minha vida, acabou o sossego em minha casa.

 

M5

 A casa caiu, fiquei sem chão, tive que enfrentar e pedir muita força a ele.

M6

Mudou tudo, a confiança acabou, o sofrimento chegou, quando escuto um tiro e eles não estão em casa, só descanso quando chegam.

M7

Aumentou as preocupações, ficou doente do coração, pressão alta e muita tristeza.

Verifica-se as principais mudanças ocorridas quando do descobrimento de o filho ser usuário de drogas, foram: tristeza (choro), nervosismo, abalos físico e psicológico, perda da paz e sossego, medo, sofrimento, preocupação, entre outros.

Estudos revelam que dependência de drogas, como o crack traz sérias mudanças para a dinâmica familiar, como bem expressam as pesquisas de Bursztein e Stempliuk (1999) apud Silva (2008) se as pessoas puderem entender que o uso da droga já indica uma dinâmica familiar comprometida, já está ampliando a concepção e expandindo a compreensão do fenômeno, de que não estamos abordando apenas um individuo que se droga e sim uma família que forma um sistema no qual a dependência química de um de seus membros é um dos fatores.

As transformações sofridas pela família são facilmente percebidas: as concepções de vida que serviam como modelos foram derrubadas e a estrutura familiar que antigamente a maioria das pessoas esperava construir já não é usual. As mesmas estão diminuindo de tamanho e seus núcleos já não são tradicionais. Por tudo, conflitos e tensões entre as famílias aumentaram sensivelmente com o passar dos anos (SILVA, 2008).

Desse modo, verifica-se que o uso de crack pode afetar a vida dos pais e dos filhos em suas relações familiares, pessoais e sociais, chegando a provocar danos físicos e psicológicos em todos os membros da família. Trata-se de um grave problema familiar e pessoal, que resulta em sérias consequências (SILVA, 2008).

Com relação ao tema: Consequências e problemas para a família, foram encontradas as seguintes categorias: Polícia, Roubo e Desconfiança.

Mães

 

M1

A polícia em minha casa, arma que ele trouxe.

M2

Trouxe a falta de paz, muita tristeza, doença e medo do que pode acontecer com ele se anda com pessoas que não deve.

M3

 Desunião falta de amor, cobranças de traficantes, tristeza e muita angústia.

M4

 

A desconfiança, a falta de respeito, a preocupação constante quando ele está em casa.

 

M5

 Trouxe a desconfiança, os roubos, a angústia e problemas de nervos.

M6

A menina abandonou os estudos o emprego vários filhos de vários casamentos onde o primeiro marido era usuário iniciando a mesma

 

M7

 A desconfiança, falta de sossego, aborrecimentos.

No tocante as consequências, verificam-se, conforme os relatos das mães que a droga trouxe um estado de constante medo, desconfiança, já que houve a presença da polícia em virtude de roubo, aspecto que gera a preocupação e a falta de sossego.

Algumas mães relataram que os filhos já se encontram apenados, alguns já foram alvo de traficantes, e um se encontra debilitado após seis tiros, as famílias relatam que praticavam pequenos roubos na comunidade.

Com referência ao tema: Enfrentamento da situação. foram encontradas as seguintes categorias: Conselho e Deus.

Mães

 

M1

 Dou muito conselho, o pai é policial, ele também já conversou, mas não adianta nada, faço muita oração e peço a Jesus para vigiar ele.

M2

Ele é responsável, trabalha me ajuda todo mês com (100 reais) se faltar qualquer coisa ele compra, não temos problemas com ele.

M3

Paguei as dívidas dos traficantes, tenho muita dificuldade, mas vou levando até o dia que Deus permitir, gostava de sair nos finais de semana, mas atualmente não saio para lugar nenhum.

M4

Tento conversar muito; dou muito conselho e tenho muita fé em Deus, promete mudar, mas não adianta.

 

M5

Tendo muita paciência, tentando orientar e lutando por ele até quando puder.

 

M6

Difícil vê-los cada vez mais magros e sem querer se alimentar direito.

M7

 

Procuramos contornar o que é possível, chegamos ao ponto de comprar casa para o mesmo morar com esposa, alugar casa, mas ele só fica alguns dias depois some e vende tudo por drogas.

Nota-se que há, segundo os relatos, uma preocupação em aconselhar o filho (a) e ter paciência para com as situações por ele (a) ocasionada. Percebe-se claramente o mito da mãe “boazinha” sofredora, que suporta tudo e espera em Deus. Todas foram unanimes em dizer que os filhos são jovens bons, uns foram coroinhas, frequentaram missas.

É importante ressaltar que a dimensão do problema torna o enfrentamento complicado, por isso, muitas vezes, a reação inicial mais comum dos pais é ignorar inconscientemente o problema, seguido pela negação, depois a minimização, e ocasionalmente, atribuindo a responsabilidade às “más companhias”. Gauderer (1998) apud Silva (2008) diz que essas reações são normais até certo ponto, já que, inconscientemente eles se sentem culpados por terem falhado como pais e por não terem sabido educar os filhos.

Com referência ao tema: Auxílio da família. foram encontradas as seguintes categorias: Conselho e Conversa

M8 Problemas de Justiça e roubos domésticos

Mães

 

M1

Tento mostrar as consequências e o pode acontecer com muito conselho.

 

M2

 Tentamos conversar, damos conselho, mas não adianta.

 

M3

Visito sempre, dou conselho, converso, mas sei que não adianta.

M4

A irmã procurou ajudá-lo acompanhando para o tratamento, mas ele não colabora, sempre estamos ao lado dele em todos os momentos.

M5

Procura tratamento, atualmente tomando remédio para ansiedade, esta semana levará para o hospital a fim de verificar medicação que está tomando.

 

M6

Conversado com os dois e procurado orientá-los, mas não tem resolvido nada.

M7

tentamos de tudo, neste momento nem sabemos por onde anda, assisto aos jornais todos os dias preocupados com alguma notícia ruim.

Na questão do envolvimento familiar, foi analisado o que família tem feito para auxiliar o filho (a) usuário de crack, verifica-se que as mães têm procurado mostrar as conseqüências que as drogas trazem, através de conversas e conselhos, ou seja, orientando os filhos.

Nota-se, mais uma vez, a presença da mãe conselheira, abnegada, que luta para o filho entender que as drogas não trazem benefícios. Para Burzstein, e Stempliuk (1999) apud Silva (2008), a descoberta da droga no seio familiar, geralmente é causadora de sensações de desespero e desamparo acompanhado de um assombroso sentimento de impotência que gera, muitas vezes, comportamentos complacentes e de cumplicidade, sem que necessariamente tudo isso seja feito conscientemente pelos pais.

Com referência ao tema: Motivos para o uso de drogas. foram encontradas as seguintes categorias: Amizade e disfunção de papéis familiares

Mães

 

M1

A principal seria a ausência do pai e as brigas constantes com a genitora depois, as amizades.

M2

Não há motivos que eu conheça, temos uma família, o pai ajuda no que pode, ele foi incentivado pelos amigos.

 

M3

As amizades e o meio aqui estão alastrado.

 

M4

As companhias

M5

As amizades

 

M6

Foi influencia de amigos que já eram usuários.

M7

Alego a desestrutura familiar, a mãe dele abandonou o pai quando ele era pequeno, e o mesmo teve que ser ausente para sustentá-los trabalhando muito, falta de amor, sentimento de rejeição.

Verifica-se que a maioria das mães acredita ser o fator responsável pela dependência química do filho a amizade, ou seja, as influências das companhias. Esse resultado contraria alguns estudos que indicam a existência de vários fatores que levam uma pessoa, principalmente, jovens, a encaminhar no mundo das drogas, sendo a desestruturação familiar, um dos principais fatores.

Estudiosos revelam ainda que a família fornece modelos e influência diretamente os padrões de conduta dos indivíduos, principalmente, se estes estiverem em processo de desenvolvimento, buscando definir os contornos de sua identidade e organizar seu sistema de valores (SILVA, 2008).

Segundo Muza (2006) a família pode ser considerada um fator de extrema importância quando se fala em dependência química, já que ela muitas vezes é um desencadeador deste processo.

Os estudos de Toscano Jr, (2005) apud Oliveira (2009) revelam que entre os principais fatores familiares de risco identificados em diversas pesquisas destacam-se: problemas de relacionamento entre pais e filhos, relações afetivas precárias e ausência de regras e normas claras dentro do contexto familiar (limites), uso de drogas pelos pais, irmãos ou parentes próximos, situações de conflitos permanentes, dificuldades de comunicação e a falta de acompanhamento e monitoramento constante dos filhos por parte dos pais, além da falta de apoio e de orientação.

Para Dias (2001) apud Silva (2008), é preciso entender o sistema familiar como um círculo de retroalimentação, já que o modo de funcionamento de cada membro afeta o do outro e, por sua vez, a totalidade que caracteriza o sistema afeta cada um dos sujeitos individualmente. A falta de diálogo entre cônjuges ou entre estes e os seus filhos pode levar o sistema familiar à entropia, ou à formas de interação patológicas por falta de informações e de comunicação. A comunicação e a informação são vitais para a manutenção do sistema, tanto internamente, quanto nas relações que se estabelece com o meio exterior.

Com referência ao tema: Responsabilização. Foram encontradas as seguintes categorias: Negação, Deus e Desatenção

Mães

 

M1

 Não. É uma mãe boa, faz demais, participativa, amiga, sempre estará de seu lado.

 

M2

Em momento algum, nunca viu isso em casa, o pai não bebe não fuma, nunca pensei que isso iria acontecer comigo.

M3

Sim em vários momentos, sou mãe, mas tenho consciência que posso ter errado, pergunto a Deus aonde errei?.

   M4

Sim. Quando era pequeno eu precisei trabalhar então ele ficava sozinho, ia apenas para o colégio a tarde ele ficava em casa, depois ficava na rua. Tenho muita vergonha do que eu passo com ele.

M5

Não porque sempre estive ao seu lado e ele pode contar comigo.

 

M6

Não, me considero uma boa mãe dedicada e atenciosa.

M7

 

Em momento algum, sempre fiz o melhor, o pai sempre fala da ausência para trabalhar e criá-los.

Verifica-se que a maioria não se sente culpada pelo filho (a) ser usuário de drogas, pois segundo elas sempre foram uma mãe “boa”, participativa, amiga, dedicada e atenciosa. As entrevistadas também ressaltam o fato de não haver outras drogas em casa, como incentivo aos filhos.

A literatura acerca dessa questão demonstra que não se trata de culpar os pais, pois isso significaria isolar-se numa causalidade linear. Todos os membros da família são, na realidade, vitimas de um jogo infinito onde o sintoma da dependência só irá perpetuar os efeitos (CRUZ & MARQUES, 2009).

Nesse cenário, todos os membros da família, que não seja o dependente químico, precisam aprender a lidar diariamente com sentimentos que são comuns a quem está nesta condição, geralmente, raiva, ressentimento, descrédito das promessas de parar, dor, impotência, medo do futuro, falência, desintegração, solidão do resto da sociedade, culpa e vergonha pelo estado em que se encontra (SILVA, 2008).  

Entre as mudanças físicas ocorridas nas mães, depois que o (a) filho (a) tornou-se usuário de crack, foram observadas as:

Com referência ao tema: Mudanças Físicas. Foram encontradas as seguintes categorias: Ansiedade e Insônia.

Mães

 

M1

Engordei muito, passo a noite em claro e como mais quando estou nervosa.

 

M2

 Tenho muita vontade de comer quando fico ansiosa, engordei muito.

 

M3

Perdi mais de 10 quilos, e não consigo engordar, tenho 45 anos e 45 quilos.

 

M4

Perdi muitos quilos, não vou nem me pesar.

 

M5

Com certeza, engordei.

  M6

 

Deixo de dormir no período que a menina some, fico sem apetite de tanta preocupação

 

M7

Sim, a ansiedade faz com que aumente o apetite.

Nota-se que entre as principais alterações físicas a ansiedade se mostrou mais presente, gerando outro problema, a obesidade e a insônia. Os estudos revelam que a família também é afetada quando um de seus membros consome entorpecentes. Não sendo apenas o dependente, mas todo seu ciclo familiar e pessoal que adoecem, seja no aspecto físico e/ou psicológico (SILVA, 2008).

Nos temas aspectos emocionais, foi verificada a presença de várias mudanças a partir do convício com o problema diariamente. As categorias de análises investigadas são:

Com referência ao tema: Aspectos Emocionais. Foram encontradas as seguintes categorias: Ansiedade e Humor deprimido

Mães

 

M1

Os nervos constantemente abalados, problema nas mãos ficam formigando, coração parece que vai sair pela boca e muita vontade de chorar.

 

M2

Choro muito tem problemas de nervo.

M3

Às vezes bate um desespero, choro muito, um oco por dentro não dorme direito, demoro a pegar no sono imaginando como ele está.

 

M4

Passei por uma fase de chorar muito, hoje não tenho lágrimas é como se não me admirasse com mais nada, durmo muito pouco.

 

M5

Desespero, angustia, chora muito, toma medicação (lexotam) e muita preocupação.

M6

Uma dor aguda no peito, uma vontade de chorar, quando vejo meus netos jogados sem a atenção da mãe.

 

M7

O pai ficou mais calado, muito triste quando some ou demora a aparecer.

Constata-se uma série de problemas de ordem emocional entre as mães, sendo a tristeza a principal delas, como bem expressa os estudos de Bergeret (1991) apud Silva (2008) que as famílias adquirem sintomas patológicos de reação perante a dependência de seus filhos. Pesquisas realizaram revelam que em 50% dos casos, os pais apresentam estados depressivos, ás vezes com tentativa de suicídio, sintomatologias neuróticas graves, alcoolismo, dependência de outras drogas, superconsumo de psicotrópicos, assim como condutas de automedicação.

Além disso, as drogas se inserem precocemente no sistema de comunicação familiar e acabam agindo como reguladores de conflitos, por essa razão, muitos pais apresentam afecções somáticas severas, tais como infarto e câncer, podendo levar a óbitos precoces. Existem notáveis correspondências entre a cronologia das doenças orgânicas dos pais e dos avós e as vicissitudes do percurso do jovem dependente químico (SILVA, 2008).

Com referência ao tema: Expectativa de Futuro. Foram encontradas as seguintes categorias: Estudar e Emprego.

Mães

 

M1

Que ele retorne os estudos faça um concurso e seja muito feliz longe desta vida das drogas.·.

M2

Peço sempre a Deus em oração que ele mude, para de usar e veja que o maior prejudicado é ele mesmo.

 

M3

Que ele saia da cadeia e volte a ser um homem ajuizado

M4

Não tenho nenhuma perspectiva, ele já foi preso 02 vezes, a primeira vez demos todo apoio, procuramos advogados para ajudá-lo, quando retornou para casa foi logo procurar os companheiros, agora está novamente preso. (roubo)

 

M5

Espero que ele crie seu filho retorne os estudos e arrume um emprego.

 

M6

Não tem esperança em melhoras porque os mesmos não desejam deixar as drogas

M7

 

Que o mesmo retorne ao trabalho, que sempre exerceu sendo um excelente pintor de carro e não cause problemas sérios a família (roubos).

As mães esperam que seus filhos possam retomar a vida de forma normal, ou seja, estudem e trabalhem. Apesar do problema elas acreditam no futuro melhor, têm esperança de que a situação vai mudar e seus filhos conseguirão  alcançar uma vida melhor e mais digna.

Embora contrariando os resultados de algumas pesquisas que demonstram que são poucos os usuários de crack que conseguem se recuperar e retomar sua vida normal. Das entrevistadas apenas 1 ainda encontra-se trabalhando e estudando o outros abandonaram ou estão presos.

Enquanto algumas pessoas, informadas dos perigos dos tóxicos, os abandonam após algumas experiências, outras tornam-se consumidores eventuais e outras ainda, consumidoras habituais, com dependência psíquica. É muito difícil para a própria pessoa ou para terceiros, prever o que irá acontecer. O futuro vai depender das condições psicológicas e sociais do iniciante (ZAGURY, 2009).

Com referência ao tema: Ajuda profissional. Foram encontradas as seguintes categorias: Centros de Atenção Psicossocial, Centros de Referência em Assistência Social, Psicoterapia e Terapia Ocupacional.

Mães

 

M1

Quando comecei a apresentar estes problemas fui ao posto e a médica me encaminhou ao CAPS, não fui porque lá tem muito doido, mas acho necessária a ajuda de um psicólogo, porém o do CRAS é para grupos não atende individualmente.

M2

 Já fui ao médico e ele me encaminhou para um psicólogo no CAPS, estou com os documentos para ir na próxima semana, acho necessário um profissional para nos ajudar (enfatizo o CRAS e suas funções, com grupos de mulheres tendo as reuniões nas segundas no período da tarde).

M3

Sim, em todos os meus momentos um psicólogo, médico, mas o CRAS só atende o grupo não consigo expor meus sentimentos, sei que todos sabem, mas é difícil, neste momento começa a chorar.

M4

Sim, acho importante para melhorar o nosso sofrimento, mas o CRAS só atende o grupo, tenho vergonha de expor meus problemas.

M5

Sim, acho necessário são pessoas capacitadas, participo do grupo do CRAS, fui muito bem recebida e me ajudaram muito, hoje as participantes diminuíram muito e o psicólogo só atende os grupos.

M6

Acredita ser necessário um profissional para todos, não tem tempo de participar das terapias de grupo do CRAS porque cria os netos e tem uma de apenas 08 meses.

M7

Até o momento só houve ajuda de um médico cardiologista, porém já foram encaminhados ao CAPS, mas o mesmo não quis participar de nenhuma terapia.

Nota-se que as mães buscaram ajuda, principalmente, no CAPS e no CRAS, demonstrando a importância do atendimento psicológico para o tratamento do filho (a) e para elas, porém questiona-se o atendimento em grupo, onde há uma maior exposição da situação vivenciada, o que não ocorre no atendimento clínico que é individualizado.

Segundo Lourenço (2007), o primeiro local a ser utilizado, sempre que possível, é a rede de apoio hospitalar de reabilitação ambulatorial, uma vez que é a mais econômica e ensina ao paciente como se ajustar a uma vida sem substância, voltando a funcionar no “mundo real”. Os casos que justificam a hospitalização (internação) podem ser aqueles em que o dependente apresenta problemas clínicos ou psiquiátricos sérios e que não responderam ao aconselhamento ambulatorial, em casos em que o dependente vive a uma grande distância do hospital e em casos em que a vida dos pacientes está em tamanho caos que é difícil ou impossível lidar com eles em bases ambulatoriais.

A internação, de acordo com Cruz (2006) oferece um repouso que afasta o paciente do ambiente que perpétua o seu abuso com as drogas, permitindo esforços para a consolidação da abstinência através de atendimento médico/psiquiátrico e suporte emocional, prevenindo também o risco grave de auto ou hetero-agressão. Nela, também é mais provável que o paciente não abandone o tratamento.

Para compreender os ilimitados modelos de tratamento, Figlie, Ribeiro, e Laranjeira (2005) afirmam que se faz necessário saber de primazia que não há serviços melhores do que os outros, e sim pacientes mais indicados para cada serviço. Existem vários tipos de lugares que se propõem a realizar o tratamento de dependentes químicos e cada um possui vantagens e desvantagens na prestação de auxílio. Dependendo do momento de cada usuário, um serviço é mais indicado do que o outro. No entanto, independentemente da linha adotada, deve-se levar em consideração o indivíduo e o contexto em que está inserido

Uma das questões relevantes para o tratamento são as ações que nos remetem à aderência ao tratamento, segundo Figlie Ribeiro e Laranjeira (2005) o índice de abandono do tratamento é extremamente alto entre os dependentes de cocaína, acredita-se que mais da metade dos pacientes marcam a primeira consulta e não comparece a ela, outro terço assiste a uma ou duas sessões e não volta mais. Isso significa que é muito grande a chance da perder de até dois terços dos pacientes usuários de cocaína, em menos de um mês.

Acima de qualquer estratégia, o tratamento da dependência é uma busca constante de uma sólida mudança no estilo de vida, com a consciência de que será uma mudança árdua, complexa, marcada por erros e escorregões. Qualquer processo de modificação de comportamentos, independentemente da adicção, em maior ou menor grau, é assim. Cabe à família, ao meio social e à equipe de profissionais do indivíduo, motivá-lo para alcançar os objetivos (BRASIL, 2008).

Kaufmann (1989) ressalta que para os fármacos dependentes a família é um fator crítico no tratamento e sua forma de atuação é fundamental nos programas terapêuticos, sendo necessário considerar os padrões comuns de relacionamento destas famílias e um procedimento estabelecido e eficaz para controlar o uso da droga. Outros estudiosos têm salientado que manter a melhora de um paciente sem que atuemos em seu meio familiar se torna demasiadamente trabalhoso e complicado.

A experiência clínica e mesmo a pesquisa literária comprovam este conhecimento, pois repetidas vezes vemos que a mesma família que conduz o dependente ao tratamento, resiste à idéia de que ela própria o realize juntamente com o encaminhado, de maneira consciente ou não (SILVA, 2008).

Especialistas afirmam que o melhor modo de combater as drogas é a prevenção por meio de informação, educação e diálogo, pois tais estratégias ainda são os melhores caminhos para impedir que o vício se estabeleça. Quanto já usuário, o tratamento recomendado é a psicoterapia e/ou participação em grupos de apoio, utilizando também em concomitância de importância os medicamentos que reduzem os sintomas da abstinência ou que bloqueiam os efeitos das drogas (SILVA, 2008).

7. Conclusão

O presente estudo demonstrou inicialmente que o atendimento destinado ao usuário de drogas no Brasil passou um processo moralizante, patológico e criminalista. Portanto, a necessidade de prover cuidado ao usuário esteve historicamente associada, de um lado, à saúde mental, de outro ao pecado e às questões da justiça.

Hoje, torna-se imperativa a necessidade de estruturação e fortalecimento de uma rede de profissionais centrada na atenção à saúde e assistência social e psicológica, por meio de equipes multidisciplinares voltadas para a promoção de saúde com ênfase na redução de danos.

A pesquisa junto às mães revelou que elas descobriram que seus filhos eram usuários de droga por meio de vizinhos e amigos, porém muitas não acreditavam no fato e esse descobrimento trouxe para o seio familiar sensações de desespero e desamparo, acompanhado de um sentimento de impotência que geraram, muitas vezes, comportamentos complacentes e de cumplicidade, caracterizando pelo mito da mãe “boazinha”.

As famílias também passaram por um sentimento de traição, quando veio à tona o uso das drogas, aspecto que gerou decepções e frustrações. A reação inicial das mães foi ignorar inconscientemente o problema, seguido pela negação, depois a minimização, ocasionalmente, atribui a responsabilidade às más companhias e depois entregando o mesmo a Deus.

Verifica-se que a trama familiar das mães pesquisadas é complexa, cuja maioria dos pais não participa efetivamente do problema do filho. Não foi observada, nos depoimentos das mães, a presença de diálogo entre pais e filhos, aspecto indicativo de que estas famílias apresentam dificuldades de expressão e manifestação de afeto e diálogo. Estes pais apenas são provedores, dão conselhos, ou conversam, mas não se impõe como participante na busca de tratamento ou na procura do mesmo.

Nas falas relatadas pelas genitoras o motivo que levou a consumir drogas em sua maioria esteve, associado á relação de amizades no bairro, uma maneira de não decepcionar os amigos (acreditam), garantindo em troca o respeito e aceitação, pois os mesmo sempre se reúnem no mesmo horário,  todas tem conhecimento do fato e sabem o local.

Uma das questões importantes para o tratamento é a participação dos envolvidos nas terapias. No bairro pesquisado algumas mães demonstraram ter vergonha em expor seus problemas ao grupo de terapeutas do CRAS.

Outro fator é a aderência ao tratamento pelo usuário, já que o índice de abandono no processo terapêutico é extremamente alto, principalmente entre os dependentes de crack.

O investimento nesse tipo de atendimento no campo da saúde pública rompe com os estigmas e preconceitos contra o usuário de drogas. Sendo assim, o psicólogo é capaz de somar esforços na luta da igualdade de acesso dos usuários de drogas ao sistema público de saúde, a fim de que estes possam se beneficiar de intervenções preventivas rumo à promoção da sua saúde.

Portanto, o que se pode depreender nesse estudo, é que os cuidados destinados aos usuários de outras drogas têm uma relação historicamente construída, que vem sofrendo grandes e intensas transformações, sendo o atendimento psicológico um grande aliado, pois trabalhando no campo de produção de subjetividades, desconstruindo concepções preconceituosas, como a de dependente químico, revelando que por traz de um usuário tem um sujeito que precisa de atendimento integral de sua saúde, ou seja, que considere os aspectos bio-psico-socio-histórico-econômico-cultural do processo saúde-doença atrelado ao abuso de drogas.

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