Nada Fica: a Ansiedade, a Atenção e o Consumo da Informação Digital – um Estudo Teórico

Nada Fica: a Ansiedade, a Atenção e o Consumo da Informação Digital – um Estudo Teórico
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Resumo: O mundo hoje vive a era da informação, caracterizada pela velocidade com que as informações são produzidas e consumidas por todo o mundo. Também é característica dessa era a efemeridade destes conteúdos e a inabilidade das pessoas em reterem a informação consumida. Correlacionada a esta premissa, em seguida, reflete-se sobre a capacidade do ser humano sobre o foco desejado, sobre a atenção, a concentrada e a necessária para a absorção das supracitadas informações. A incapacidade de focar, aliada a diversos aspectos da condição humana no atual cenário sócio-econômico, pode despertar ou amenizar sintomas ansiosos. A hipótese apresentada é que existe uma correlação intrínseca entre o consumo de informação de forma digital nas mídias sociais; a maneira com que essa informação é exposta influencia diretamente a forma de absorvê-la e de gerenciar o foco e a atenção sobre ela. Através dessa dinâmica, pode ocorrer um aumento ou diminuição da ansiedade. Através de estudo teórico e compilação bibliográfica e referencial, o delineamento de correlação entre estas situações foi realizado. As informações obtidas e estruturadas através desta pesquisa teórica poderão ser utilizadas no embasamento de um estudo pragmático experimental para a sua testagem e, posteriormente, a criação de propostas de ações que viabilizem políticas informativas e de consumo consciente de informação em meios digitais.

Palavras-chave: Ansiedade, Atenção, Informação Digital.

1. Introdução

Hoje, com a velocidade com que se consome informação nas suas mais diversas formas e vertentes, observamos um exponencial aumento de vários tipos de distúrbios de aprendizado, aumento de condições estressantes e flagelos relacionados ao seu acúmulo, ansiedade patológica e distúrbios relacionados a sintomas ansiosos. Sem contar a recorrente diminuição da capacidade de concentração, de não somente aqueles que lidam constantemente com o consumo de informação por necessidade da natureza de suas atividades, mas também, de todas as pessoas que simplesmente baseiam suas vivências e relações em ferramentas digitais de relacionamento e interação, como o Facebook, o Instagram, websites de notícias, entre tantas outras que dispomos. O consumo de informação sob forma digital é o que caracteriza nossa sociedade e o nosso momentum de consumo, desde o acesso a pesquisas de caráter acadêmico e descobertas científicas, notícias do mundo e de nossos microcosmos e regiões mais restritas, atualidades e relações sociais e políticas e de negócios, até o compartilhamento de crenças e valores na forma de boletins, memes e correntes.

Com base no exposto, este estudo teórico visa identificar relações, dentre as tantas existentes e possíveis, sustentado pela literatura disponível, identificável como válida (posto que muito do que é compartilhado não passa de mera especulação ou argumentação sem cunho científico), entre o consumo de informação de forma digital, mais especificamente através das mídias sociais e sua influência, para o aumento ou amenização, da ansiedade e da capacidade de concentração daqueles que as consomem.

O título deste estudo, NADA FICA: A Ansiedade, a Atenção e o Consumo da Informação Digital – Um Estudo Teórico, refere-se à sensação e percepção recorrentes de incapacidade de retenção de informação de forma satisfatória e também à incapacidade de concentração em tarefas ou atividades simples do cotidiano, relacionadas ao consumo desenfreado de conteúdo efêmero e transitório,  que nos coloca constantemente em estado de alerta sobre as próximas notificações e novidades que alimentarão e satisfarão uma necessidade crescente de consumir essas mesmas novidades. Este estado de alerta se torna tal que nossa capacidade de concentração progressivamente se deteriora, prejudicando diversos aspectos cognitivos, sensoriais e mesmo da memória, impedindo que consigamos focar, já que nos tornamos cada vez mais sensíveis a pequenos e transitórios estímulos. Com isso, nos tornamos avessos a situações que exijam uma permanência maior, e isso não se detém somente nas questões de ordem profissional ou acadêmica: nossas capacidades de nos relacionarmos, de assimilar e significar acabam sofrendo alterações consideráveis.

Portanto, se faz necessário entender melhor os aspectos que permeiam o consumo de informação de forma digital, através da análise crítica da bibliografia disponível, e correlacioná-los com as características essenciais da ansiedade e da capacidade de concentração. Através desta pesquisa bibliográfica, poderá-se identificar informações decisivas sobre as formas e frequências do consumo de informação digital e os sinais de ansiedade, assim como a (in)capacidade de concentração, na tentativa de correlacioná-las plausível e coerentemente.

Desta forma, será possível prover bases favoráveis para o desenvolvimento de estudos que irão visar as comprovações de forma experimental das hipóteses aqui levantadas e demonstradas, além de lançar luz e dados seguros para o desenvolvimento de políticas de consumo consciente e evitação, prevenção, controle e melhora de sintomas ansiosos, assim como da capacidade de concentração e foco.

Além de ser um tema extremamente recorrente, pertinente e atual, considerando os aspectos dos estudos e suas repercussões no estilo de vida pós-moderno, esta pesquisa justifica-se pela necessidade da identificação de formas de consumo adequadas, que visem propiciar às pessoas as informações possíveis e necessárias para que elas possam refletir sobre o que, como, quando e quanto estão consumindo e como isso às estará atingindo caso optem ou não por uma forma de consumo consciente, caso optem pela mudança consciente de seus hábitos. Para tanto, é necessário que se estabeleçam as relações, os prós e contras do estilo de consumo a que estamos habituados.

Assim, este estudo começou através de uma pesquisa integrativa, considerando várias áreas do conhecimento humano, se apropriando de ferramentas e formatos dos mais diversos, como artigos científicos de áreas complementares, intra e inter-disciplinares de psicologia, medicina, sociologia, antropologia, comunicação, informática, entre tantas outras; livros que pesquisam os temas tratados de forma isolada e conjuntiva; teses e dissertações, além de respeitados websites.

Ao longo de seu desenvolvimento, foram sendo identificados pontos de convergência que assumiam e justificavam a hipótese de correlação, assim como ampliavam ainda mais o leque de opções de temas possíveis. Com a pesquisa bibliográfica, começaram a ser identificados e analisados os textos mais coerentes para a correlação proposta, assim como, através de seu fichamento, as passagens que mais traziam entendimento sobre a interconexão dos fatos e dados obtidos.

Após a análise do material, foi realizado o desenvolvimento das informações de forma integrativa, concomitantemente com a escrita do texto argumentativo que constitui grande parte deste estudo. Por fim, após todas as considerações, resultados adquiridos e discussão sustentada, foram realizadas as considerações finais do estudo, que sustentam a necessidade de um projeto experimental pragmático para a validação empírica dos dados teóricos recolhidos, assim como, para a possibilidade de geração de novos estudos que poderão subsidiar a constituição de políticas de consumo consciente, que considerem a realidade socio-econômica no qual estará inserido, programas de prevenção, diminuição e trabalho dos sintomas da ansiedade e de melhora da capacidade de concentração.

2. Tema

2.1 Tema Geral

Ansiedade, atenção e informação.

2.2 Delimitação do Tema

Ansiedade, atenção, foco, consumo de informação, mídias digitais.

3. Problema de Pesquisa

Determinar, teoricamente, através de compilação e análise bibliográfica e referencial, se ansiedade e capacidade de concentração possuem correlação com o consumo de informação de forma digital, provendo base para um posterior estudo pragmático experimental. 

4. Objetivos e Metas

4.1 Objetivo Geral

Analisar os aspectos e características da ansiedade e concentração, identificando possíveis relações com o consumo de informação digital.

4.2 Objetivos Específicos

4.2.1 Realizar pesquisa bibliográfica sobre os aspectos de ansiedade e concentração.

4.2.2 Verificar as formas e frequências de consumo de informação digital.

4.2.3 Identificar possíveis relações entre as formas de consumo de informação digital e as informações sobre ansiedade e capacidade de atenção concentrada.

5. Justificativa

A ansiedade é o grande tema de nossa geração, acometendo cerca de 33% da população mundial (segundo dados da Organização Mundial de Saúde - OMS). Em diversas instâncias da atuação humana, tais como nos mercados econômicos, em suas mais variadas categorias, na vida acadêmica, na interação social em vários âmbitos e instituições em que é compreendida, a condição ansiosa se caracteriza como potencializadora de diversas complicações crônicas e patologias que acompanham a sociedade. Novas condições são descobertas e terminologias são criadas para caracterizar os desdobramentos da ação da ansiedade patológica no cotidiano do ser humano contemporâneo.

Como reflexa e inerente, a ansiedade alerta e provê condições para a autopreservação. Contudo, hoje, ela reflete uma exacerbada antecipação de situações estressoras que, de outra forma, poderiam ser tratadas com maior racionalidade e minúcia.

O foco é a capacidade de atender a determinada situação ou estímulo com atenção e cuidado, minúcia e zelo, interesse e presteza; manter-se em algo por um período adequado, dada a situação. Hoje, percebemos não somente uma diminuição drástica da capacidade focal adequada requerida para diversas atividades, como uma flutuação intermitente entre interesse e dispersão, ansiedade e relaxamento.

Se relacionam à ansiedade e à capacidade focal, no mundo observado, o consumo e o acúmulo de informações rasas e rápidas, principalmente através do meio digital, dos canais fundamentalmente baseados em rede interconectada, onde a velocidade é característica normativa e norteadora. Este despejo adidático e desenfreado não possui limites e seu acesso é livre, frenético. Estar conectado é estar atualizado com a rapidez das notícias, chistes, plataformas e tendências. É não se aprofundar em praticamente nada.

Dentro destas premissas, é de suma importância o interesse científico em identificar e futuramente, correlacionar o consumo de informação digital com as condições observadas em indivíduos que, de forma despropositada e desenfreada, tentam absorvê-la e explicitam flutuações ansiosas e de capacidade de foco e concentração em decorrência deste consumo. É imperativo que o assunto seja estudado e analisado para uma melhor compreensão. Desta forma, justifica-se o processo de análise teórica dos temas propostos para um enlaçamento e entendimento mais adequados sobre esta possível correlação, para que, futuramente, suas possibilidades e hipóteses sejam postas à prova através de testagem pragmática experimental. Com isso, após essas averiguações, poderá se direcionar o trabalho para o sentido do desenvolvimento de políticas e técnicas de consumo consciente, adequado e pertinente, desta categoria informacional.  

6. Metodologia

6.1 Tipo de Pesquisa

A natureza do estudo será do tipo aplicada, pois se utilizará de conhecimentos já existentes para resolver um problema prático. Utilizará uma abordagem qualitativa para a interpretação e análise das informações obtidas acerca do problema de pesquisa.

Em relação aos procedimentos que serão adotados, a pesquisa será dos tipos bibliográfica e documental, pois se valerá de informações de publicações científicas, livros, anais de congressos, websites, reportagens etc.

6.2 Fontes

A fonte utilizada no estudo  bibliográfico para fundamentação  teórica é composta de livros, artigos científicos, teses e dissertações e websites que visam o campo de estudos da ansiedade, concentração e o uso de mídias digitais, nos mais diferentes âmbitos e campos de conhecimento, e que tratam do tema com bastante propriedade.

6.3 Instrumentos e coleta de informações

A coleta de dados e informações será realizada através de fichamento dos livros, artigos científicos, teses e dissertações e websites.

6.4 Procedimento e Coleta de Dados

Após fichamentos dos livros, teses, dissertações, artigos científicos e websites, os argumentos serão organizados de acordo com os objetivos geral e específicos deste projeto para compor o entendimento mais apropriado acerca da possível correlação dos temas.  

6.5 Análise dos Resultados

Os resultados obtidos através desta pesquisa serão organizados através de desenvolvimento em artigo teórico que resultará no referido trabalho de conclusão de curso, desenvolvimento concomitante com o processo de coleta e análise das informações.

7. Resultados e Discussão

7.1 Velocidade e efemeridade

O mundo hoje vive a era da informação, caracterizada pela velocidade com que conteúdos e informações são publicados e consumidos, principalmente pelas vias da internet, a grande centralizadora e difusora. Como disse Barreto (2005, p.118) , “com o aparecimento da sociedade da informação, ocorreram grandes e significativas alterações nos suportes de memória, nas noções de tempo e de espaço, o que se reflete, sobremaneira, na relação sujeito/informação/ conhecimento.”

Os principais canais da estabelecida (grande) mídia tradicional, rádio, jornal, televisão, possuem braços digitais em quase todos os principais portais e redes de comunicação atuais. Isso sem contar com a informação produzida de forma independente, nem sempre certa e assertiva: opiniões e pontos de vista. Desse modo, o consumo de informação pelos meios digitais se tornou a forma mais fácil e rápida de auto-afirmação e sustentação de valores e ideias, para a manutenção da sensação de conforto e felicidade que os usuários podem alcançar através da seleção de seus conteúdos.

Nejrotti (2006) diz “(A bolha de filtros) Baseia-se na ideia de que redes sociais que usam algoritmos para definir as atualizações mais importantes aos usuários tendem a fornecer gradualmente conteúdo que se alinhem aos interesses e opiniões dos mesmos. A pessoa fica isolada em sua ilha de preferências”. Filtros são disponibilizados para este fim; contudo, a imensa quantidade de informação e métodos de captação de atenção são indireta e diretamente responsáveis por questões centrais da saúde de nosso tempo (MOZILLA, 2018), como a influência nos índices de depressão e a ansiedade da população em todo lugar.

Para além de tudo isso, a capacidade de concentração em atividades e situações, de retenção de informação pertinente, também é modificada, dada a variabilidade e mutação de notícias e tendências. Como testemunhado pelo escritor Nicholas Carr em seu proeminente artigo (e precursor do livro The Shallows: What The Internet Is Doing to Our Brains – A Geração Superficial: O Que a Internet Está Fazendo com os Nossos Cérebros?) “Is Google Making Us Stupid?”, a capacidade de focar a atenção e se concentrar em tarefas que antes pareciam típicas e fáceis se tornou um fardo a ser superado constantemente:

(...) Nos últimos anos, tive a sensação desconfortável de que alguém, ou algo, mexeu com meu cérebro, remapeando o circuito neural, reprogramando a memória. Minha mente não está definhando - até onde posso dizer - mas está mudando. Eu não estou pensando do jeito que eu costumava pensar. Eu posso sentir isso mais fortemente quando estou lendo. Mergulhar em um livro ou em um artigo extenso costumava ser fácil. Minha mente ficava presa na narrativa ou nas voltas da discussão, e eu passava horas passeando por longos períodos de prosa. Isso raramente acontece agora. Agora, minha concentração frequentemente começa a se tornar arrastada depois de duas ou três páginas. Eu fico inquieto, perco o fio, começo a procurar por outra coisa para fazer. Eu sinto como se eu estivesse sempre puxando meu cérebro rebelde de volta para o texto. A leitura profunda que costumava vir naturalmente se tornou uma luta (CARR, 2008).

Para compreender melhor estes fenômenos, seu desenrolar e real influência nas vidas das pessoa, é necessário que se faça uma análise de cada aspecto para que se possa alcançar uma contextualização apropriada das condições atuais do consumo de informação e sua possível correlação com a ansiedade e a capacidade de atenção e foco, e suas características.

7.2 Entendendo a ansiedade

Hoje, de acordo com a OMS, a proporção da população global que possui transtornos ansiosos é de 3,6%. Um número de mais 260 milhões pessoas, em suas mais diferenciadas definições, sofrem de transtornos ocasionados pela ansiedade (WHO, 2017). 

Em nível anatômico e fisiológico, a ansiedade, assim como o estresse, trata-se de uma resposta natural do corpo: possui raízes nas reações de defesa dos animais, que ocorrem em resposta aos perigos encontrados em seu meio ambiente. Quando frente a uma ameaça ao seu bem estar ou perigo iminente à sua integridade física, ou mesmo sua sobrevivência, acontece uma série de respostas neurovegetativas que caracterizam a reação de medo (MARGIS, 2003).  

Hoje, a ansiedade possui definições mais específicas para o contexto, mas que não diferem tanto em essência, como explica Castillo (2000, p.20 apud ALLEN,  et al., 1995; SWEDO, et al., 1994): "Ansiedade é um sentimento vago e desagradável de medo, apreensão, caracterizado por tensão ou desconforto derivado de antecipação de perigo, de algo desconhecido ou estranho."

Ela continua:

“A ansiedade e o medo passam a ser reconhecidos como patológicos quando são exagerados, desproporcionais em relação ao estímulo, ou qualitativamente diversos do que se observa como norma naquela faixa etária e interferem com a qualidade de vida, o conforto emocional ou o desempenho diário do indivíduo” (CASTILLO, 2000, p.20 apud ALLEN, et al., 1995; SWEDO, et al., 1994).

O transtorno começa quando a emoção passa do ponto, e em vez de mover o indivíduo para frente, para a ação, o nervosismo exagerado o trava, impedindo que compromissos corriqueiros e diários, e simples tarefas sejam cumpridas. O cérebro (através de áreas como o hipocampo e a amígdala) analisa o ambiente e identifica aquelas possíveis situações ameaçadoras. Diante desses prováveis riscos, são disparadas uma série de reações: as glândulas suprarrenais liberam doses extras dos hormônios adrenalina e cortisol, dilatando os vasos sanguíneos, fazendo o coração bater mais rápido e preparando os músculos para a ação (o que dispara as reações físicas características). Os supracitados hormônios alcançam o cérebro, estimulando a produção de neurotransmissores que deixam certas regiões da massa cinzenta em estado de alerta. O transtorno ocorre quando uma ou mais dessas etapas ocorre de forma exagerada, transformando qualquer estímulo em ameaça, gerando respostas desnecessárias por parte do organismo (BIERNATH, 2018).

Portanto, o patológico ansioso se mostra quando existe uma mudança brusca em relação ao estímulo daquilo que é vivido e a reação em resposta, bastante diferente do que é clinicamente e academicamente aceito para a resposta ansiosa comum. É comum a apresentação de sintomas específicos, como tontura, tremores, sudorese, falta de ar, taquicardia, gagueira, insônia, desmaios. Os distúrbios decorrentes da ansiedade patológica podem ser fobias (específica, social), transtorno obsessivo compulsivo, ataques de pânico, transtorno de estresse pós-traumático e ansiedade generalizada (CASTILLO  et al., 2000). Contudo, existem diversos fatores que influenciam o tipo de resposta ansiosa. Sobre as condições de vida do indivíduo e sua constituição biológica, Margis diz:

(...) é lícito imaginarmos que a interação de fatores ambientais (os eventos de vida estressores) com a predisposição genética para transtornos de ansiedade, modulada pelas capacidades do sujeito em lidar com estes estressores, determinada também geneticamente, resultaria no surgimento de um transtorno de ansiedade (MARGIS, 2003, p. 65).
Em síntese, eventos de vida estressores podem ser entendidos como preditores ambientais de ansiedade e depressão. Fatores genéticos desempenham um papel nas diferenças de suscetibilidade individual a estes eventos (MARGIS, 2003, p. 71).

Portanto, é correto afirmar que cada pessoa, dependendo de sua constituição e predisposição genética, pode responder de diferentes formas aos estímulos externos e ambientais. Estes, contudo, continuam sendo fatores determinantes para o disparo de reações ansiosas nos indivíduos.

7.3 Ansiedade que gera desconexão

Além dos sinais ansiosos, outro aspecto preponderante em como as pessoas são atingidas pela sua relação com o acesso à informação desenfreada é sua capacidade de focar a atenção. O dicionário Aurélio da Língua Portuguesa traz diversas definições de foco para diversos campos de atuação e conhecimento, mas no que concerne ao campo da atividade humana específica para a atenção, pode-se considerar a sexta definição: "6, Ponto (8) de convergência" (2010, p. 355). Ou seja, é o ponto para o qual converge a atenção.

Goleman (2013) diz que a atenção é o que nos conecta ao mundo, moldando e definindo nossa experiência. Ele também discorre sobre o efeito do consumo de informação digital desde a idade mais tenra:

As crianças de hoje estão crescendo numa nova realidade, na qual estão conectados mais a máquinas e menos a pessoas de uma maneira que jamais aconteceu antes na história da humanidade. Isso é perturbador por diversos motivos. Por exemplo: o circuito social e emocional do cérebro de uma criança aprende através dos contatos e das conversas com todos que ela encontra durante um dia. Essas interações moldam o circuito cerebral. Menos horas passadas com gente — e mais horas olhando fixamente para uma tela digitalizada — são o prenúncio de déficits (GOLEMAN, 2013, p. 30-31).

Atividades antes realizadas com cadência, sequência e tranquilidade, calma e ensejo, hoje passam despercebidas ou são finalizadas sem cuidados básicos, como Zuin & Zuin (2011, p. 221) bem explicaram:

E é justamente a possibilidade de acessarmos uma quantidade inacreditável de informações, por meio das atuais tecnologias digitais, que porta consigo a contradição de nos depararmos com infinitos conhecimentos e possibilidades de relações de forma e instantânea e, ao mesmo tempo, não conseguirmos nos concentrar on line para que construamos representações mentais que durem o tempo necessário para a formação dos conceitos.

E continuam sobre a oferta de informações:

Diante da oferta monumental de informações obtidas por meio dos meios de comunicação de massa, principalmente a internet, o indivíduo foca sua atenção por pouquíssimos instantes nos dados expostos nas telas dos computadores, uma vez que novos como que clamam para links serem acessados. Contudo, a qualidade dessas ligações muitas vezes contrasta com a quantidade das informações, as quais dificilmente são assimiladas, pois não há o tempo e nem o esforço necessários para que o indivíduo possa estabelecer relações entre os conceitos de modo a tencioná-los e, assim, criar uma miríade de novos significados (ZUIN & ZUIN, 2011, p. 221).

A capacidade de retenção de informação, dentro deste espectro informacional, é reduzida, já que não existe uma necessidade real de aprendizado ou capacidade significante. Tudo pode ser consultado instantaneamente, a qualquer momento, por telefones celulares na palma na mão, ou pela tela de um computador com acesso a internet. Segundo Carr (2011, p. 180):

 

...a divisão da atenção exigida pela multimídia estressa ainda mais nossas capacidades cognitivas, diminuindo nossa aprendizagem e enfraquecendo a nossa compreensão. Quando se trata de suprir a mente com a matéria-prima do pensamento, mais pode ser menos.

Assim como explicitado por Zuin & Zuin (2011), Goleman (2013) também afirma que esse despejo, além de transformar nossos hábitos de atenção para a ineficiência, nos deixa sem o tempo necessário para a reflexão sobre as mensagens.

Sobre a concentração, ainda ilustram:

Não é fortuito o fato de que os indivíduos têm contumazes dificuldades de concentração, principalmente quando se “conectam” com outras pessoas e, ao mesmo tempo, leem informações nos mais variados sítios de notícias. É como se as caixas de e-mails nos chamassem a todo instante para que seus e-mails e mensagens fossem imediatamente lidas e respondidas (ZUIN & ZUIN, 2011, p. 221).

Türcke (2010, p. 266-267, apud ZUIN & ZUIN, 2011, p. 221) discorre sobre o processo de consumo de informação de forma fragmentada e constante, utilizando o termo “trituração da concentração”:

De modo fulminante, o choque (audiovisual) concentra a atenção num ponto, para poder triturar essa concentração através de incontáveis repetições. O meio de concentração é, propriamente, o meio de decomposição [...]. A tela, o grande recheio do tempo livre, penetrou profundamente, por meio do computador, no mundo do trabalho; a ordenação de processos inteiros de produção e administração perpassa por ela, de tal modo que se apresenta como o ensino do futuro.

7.4 Afirmação e dependência

Zuin & Zuin (2001) explicam que a sutileza da informação através das palavras perde o compasso quando copiadas e coladas constantemente, sendo freneticamente despejadas nas mais diversas cores e tamanhos. Dessa forma, continuam:

Freud chamou nossa atenção quando, em seu livro O mal-estar na civilização, nos disse que as tecnologias da fotografia e do gramofone nada mais eram do que materializações da memória, pois eram capazes de reter, respectivamente, as fugidias impressões visuais e auditivas (FREUD, 1997, p. 43 apud ZUIN & ZUIN, 2011, p. 222). Ironicamente, em tempos de universalização da distração concentrada no capitalismo globalizado, o atual mal-estar concerne ao fato de que a forma hegemônica de utilização das tecnologias digitais dificulta a permanência de nossa concentração em seus produtos e, portanto, da memorização dos conteúdos informacionais. Ou seja, a capacidade de concentração se torna cada vez mais fugidia diante da oferta infindável de informações que atualmente dispomos.

Com tudo isso estabelecido, é lógico o raciocínio de que o consumo de informação de forma desenfreada, sendo um dos aspectos mais evidentes da utilização da internet e de suas possibilidades, está intrinsecamente relacionado à incapacidade de focalizar a atenção.

Para além das questões sobre concentração e expandindo o alcance das resultantes do consumo de informação digital nas modalidades que observamos e, aproximando os conceitos de respostas ansiosas de uma compreensão baseada em sintomas e atitudes que podem ser observadas, muito se fala hoje sobre os transtornos provenientes deste tipo de utilização, pois além das dificuldades supracitadas (concentracionais), observam-se certos tipos de comportamentos, sensações e pensamentos, padrões relacionados à atividade informatizada deste consumo, o que nos dá parâmetros de comparação para o entendimento dos porquês.  

Um destes padrões é o que foi chamado por Günther Anders como vergonha prometeica, em sua tentativa de compreender as características destas tecnologias como um processo social. Ao relacionar sua denominação ao mito de Prometeu, que roubou a técnica de produção do fogo dos deuses para dá-la aos humanos, Anders afirma que o ser humano atual se incomoda em “apresentar, diante dos olhos dos aparelhos perfeitos, sua patética condição de ser carnal, a imprecisão de sua condição humana. Na verdade, ele tinha mesmo que se envergonhar diante disso” (ANDERS, 2002, p. 23 apud ZUIN & ZUIN, 2011, p. 220).

Justamente por se envergonhar de sua condição de fragilidade e de sua existência perene, o ser humano, ao invés de refletir sobre suas próprias fraquezas, já que a vergonha é um sentimento de conotação moral, opta por se assemelhar cada vez mais aos seus produtos, ao viver e produzir no ritmo das máquinas. A vergonha sentida passa a ser compensada por uma entrega, por assim dizer, de corpo e alma, ao sortilégio da força, durabilidade, precisão e infalibilidade da máquina (ZUIN & ZUIN, 2011, p. 220-220).

Nessas condições, o ser humano tenta se fazer perfeito, reproduzindo somente o que denota sua condição de felicidade. Ele molda sua atuação e exibição frente às máquinas a partir de um pressuposto de infalibilidade e perfeição. O consumo de informações, principalmente nas mídias sociais, segue este parâmetros. Só é consumido, e de forma inapropriada, o que convém para esta afirmação. Com isso, hoje, observamos diversos transtornos decorrentes desta utilização exacerbada e galgada em aspectos de infalibilidade e condicionamento de imagem. Os termos mais utilizados atualmente, segundo Liu e Potenza (2007) são o pioneiro Internet Addiction (Dependência de Internet) e Problematic Internet Use (Uso Problemático de Internet), ainda sem formas de unanimidade sobre suas abrangências, conforme citado por Abreu (2008).

Abreu (2008) afirma, sobre a questão epidemiológica da Dependência de Internet:

A Dependência de Internet pode ser encontrada em qualquer faixa etária, nível educacional e estrato sócio-econômico. Inicialmente, acreditava-se que esse problema era privilégio de estudantes universitários que, buscando executar suas atribuições acadêmicas, acabavam por permanecer mais tempo do que o esperado, ficando enredados na vida virtual. Entretanto, tais pressuposições mostraram ser pura especulação. Sabe-se, hoje, que à medida que as tecnologias invadem progressivamente as rotinas de vida, o contato com o computador cada vez mais deixa de ser um fato ocasional e, portanto, o número de atividades mediadas pela Internet aumenta de maneira significativa, bem como o número de acessos e tempo medido na população brasileira (...) (IBOPE, 2008 apud ABREU, 2008, p. 159).

Chou e Hsiao (2000), também citados por Abreu (2008) realizaram um estudo com 910 estudantes em Taiwan e o resultado foi de uma incidência de 5,9% de Dependência de Internet. No estudo, os usuários mais pesados de internet relataram mais consequências negativas em seus estudos e suas rotinas diárias do que aqueles que utilizam a rede de maneira mais amena. Entre os aspectos psiquiátricos, a relação de Dependência de Internet e comorbidades psiquiátricas são: depressão e transtorno bipolar, transtornos de ansiedade e TDAH.

Segundo Fortim (2013), os principais problemas caracterizantes se referem à dependência psicológica, que inclui um desejo irresistível de usar a rede. Este desejo caracteriza-se pela incapacidade de controlar seu uso e gera alguns sintomas bastante específicos: irritação quando não conectados e euforia assim que conseguem acesso; obsessão pela vida virtual, não se importando pela vida presencial, com o sono, a alimentação ou os relacionamentos offline. Fortim ainda afirma que a preferência pela vida virtual em detrimento da presencial, pode trazer muitas consequências negativas, tais como colocar em risco relacionamentos importantes (casamentos, relações entre pais e filhos, etc.), prejuízos escolares e do trabalho.

Existem características específicas que constituem e explicam a necessidade de obtenção de informação e do uso sistemático da internet para a manutenção da vida social. Citando Fortim (2013), Teixera et al. (2015) descrevem que a internet trata-se de um espaço transicional entre o aspecto ilusório, que não deixa o computador, e o aspecto real, que influencia emoções e sentimentos verdadeiros, que de outra forma, não seriam propiciados na vida física. “Estes viciados relatam sofrer por terem este problema e buscam orientação pela incapacidade de deixar o uso pela cobrança dos familiares devido à ausência deles no convívio social”, diz Teixeira et al.

O acesso à internet por pessoas compulsivas, muitas vezes, é uma forma de evasão da realidade, ou seja, uma forma de obtenção de prazer, distração e alívio de problemas. Elas têm a sensação de estabilidade e controle sobre os relacionamentos virtuais e temem não serem aceitas caso se exponham de verdade. Normalmente, os usuários acreditam manter sob controle a interação virtual, porém na vida offline, não têm o mesmo poder. No entanto, a grande problemática está justamente, no fato dos dependentes terem a vida restrita à internet e, ao contrário do que imaginam, são controlados pela mesma (FORTIM, 2013 apud TEIXEIRA et al., 2015).

Desta forma, a utilização da internet por pessoas tímidas é tida como uma forma de libertação, pois ali elas podem assumir um outro aspecto de suas identidades e personalidades, sem julgamentos. “Às vezes, atitudes e pensamentos agressivos, sexualizados e escondidos são expressos em frente à tela do computador, mas não são demonstrados na convivência diária com as pessoas” (FORTIM, 2013 apud TEIXEIRA et al., 2015).

Ou seja, as pessoas, com suas ideias e auto-imagem imperfeitas, buscando formas de libertação de condições sociais muitas vezes impeditivas e castradoras de suas personalidades ideais, além de se adequar a comportamentos cada vez mais condizentes com a velocidade da informação como esta é promulgada, se abrem às realidades e técnicas que os meios digitais propagam como formas de estabelecimento e alcance de conceitos bem quistos e desejáveis, como produtividade, profissionalismo, sucesso profissional e pessoal, felicidade constante, se colocando a mercê dos efeitos provenientes dessa sistemática.

7.5 As mídias sociais

Dentro de todas estas premissas, sabemos que hoje o maior fluxo de atividade e consumo de informação on-line se dá nas mídias sociais digitais, plataformas de vídeo e aplicativos de mensagens instantâneas, como Facebook, YouTube e WhatsApp, que lideram os índices de utilização (STATISTA, 2018). Com isso, é imperativa a elucidação dos aspectos da Dependência de Internet nessas plataformas. Guedes (2016), em seu estudo sobre a dependência em Facebook, afirma que “alguns relatórios indicam que o uso abusivo aumenta o isolamento da vida real, paradoxalmente trazendo mais danos às relações da vida real”.

No estudo, Guedes (2016, p.3) trata da ironia da condição:

As redes sociais são predominantemente utilizadas para manter o contato off-line, o que comprova a importância da ferramenta no âmbito acadêmico, profissional ou pessoal. Ironicamente, um efeito colateral de uma tecnologia criada para unir as pessoas tem sido objeto de pesquisas que indicam que mais de 50% dos usuários de redes sociais se consideram mais infelizes que seus próprios amigos. “Nas redes sociais, as vidas são editadas de acordo com um padrão de falso idealismo que não pode ser alcançado na prática, gerando frustração.” Um quarto dos entrevistados fala sobre sintomas de depressão profunda ao “descobrir que as vidas de seus amigos são melhor que a deles”.

Guedes (2016) afirma que a dependência de Facebook está diretamente relacionada aos mecanismos de gratificação do cérebro humano e pode ser mais comumente observada em indivíduos mais ansiosos, depressivos, narcisistas ou com baixa auto-estima, o que motiva uma busca por recursos para a modificação do humor. “A ativação do sistema de recompensa através da auto-exposição pode gerar um quadro de dependência que leva ao uso excessivo de mídias sociais. (...) podem elevar os níveis de dopamina endógena na área de recompensa do sistema nervoso central (...)” diz o autor sobre o processo de auto-exposição e utilização das plataformas para o alcance da satisfação dentro desta forma de consumo, citando Schultz (2002) e Chen e Kim (2013).

Em relatório publicado pela Royal Society for Public Health da Inglaterra, “acredita-se que o vício em mídia social afete cerca de 5% dos jovens, com as mídias sociais sendo descritas como mais viciantes do que cigarros e álcool” (RSPH, 2017). O relatório ainda traz relações sobre o uso de mídias sociais com diversas patologias e situações, como a ansiedade e a depressão. Os números mostram que um em cada seis jovens ainda experimentará algum distúrbio de ansiedade em algum momento da vida e que estes índices tiveram um aumento de 70% nos últimos 25 anos. Os próprios jovens disseram que a utilização de quatro entre cinco das plataformas mais usadas fazem seus sentimentos de ansiedade piorarem (RSPH, 2017).  

Pesquisas sugerem que jovens que são usuários pesados de mídia social - gastando mais de duas horas por dia em sites de networking como Facebook, Twitter ou Instagram - têm mais probabilidade de relatar problemas de saúde mental, incluindo sofrimento psicológico (sintomas de ansiedade e depressão). Vendo amigos constantemente de férias ou curtindo a noite pode fazer os jovens sentirem que estão perdendo, enquanto outros aproveitam a vida. Esses sentimentos podem promover uma atitude de "comparação e desespero" entre os jovens. As pessoas podem ver fotos e vídeos com fotos altamente photoshopadas, editadas ou encenadas, e compará-las com suas vidas aparentemente mundanas. As descobertas de um pequeno estudo, encomendado pela Anxiety UK, apoiaram essa ideia e encontraram evidências de que a mídia social alimenta a ansiedade e aumenta os sentimentos de inadequação (RSPH, 2017).

Através do exposto, considera-se evidente a possibilidade de correlação destes vários fatores: o consumo da informação de forma digital, principalmente através das mídias sociais, sua influência na capacidade de atenção das pessoas através de técnicas de bombardeamento de novos conteúdos e sua consecutiva resposta ansiosa, considerando essas condições. E, por conta da carência e necessidade de estudos e aprofundamento sobre os temas descritos, também considerando os aspectos positivos possíveis de utilização da internet e das mídias sociais, busca-se um entendimento que proveja bases para o desenvolvimento de estudos pragmáticos experimentais que sustentem a criação de políticas de consumo consciente e orientações pertinentes à sociedade.

3. Conclusão

Este estudo teórico procurou sintetizar, através de uma análise da bibliografia disponível em vários meios, definições sobre ansiedade e a capacidade de concentração, e possivelmente correlacionar a influência que o consumo de informação de forma digital, mais especificamente nas mídias sociais, pode exercer sobre estas questões, traçando conexões sobre o uso das ferramentas utilizadas e a exibição sistemática de sintomas ansiosos e a diminuição da capacidade de concentração. Foi possível, através das informações obtidas, definir de forma lógica a influência real que estes meios possuem sobre a existência de sinais ansiosos e sobre a capacidade de concentração dos indivíduos, especialmente do público jovem, que os utiliza em maior escala e constância, como visto em vários dos textos consultados para a argumentação deste estudo.  

Foram utilizados materiais diversos como fontes de pesquisa e referência: artigos científicos que tratassem do tema, ou mesmo estudos que ligassem as hipóteses desenhadas para o projeto; livros de diversos segmentos como psicologia e sociologia e que abordassem o tema de forma categórica; artigos e textos críticos de autores notoriamente dedicados ao assunto, em plataformas digitais, websites, revistas e jornais online, além de relatórios de instituições voltadas para o estudo específico do tema, como foi o caso do #StatusOfMind, desenvolvido pela Royal Society for Public Health e o Depression and Other Common Mental Disorders, publicado pela Organização Mundial de Saúde.

Através desta congregação, considerando os resultados obtidos pelos diversos materiais consultados, foi possível observar, ao longo dos efeitos mais evidentes e contínuos, como os de auto-afirmação e desconexão, gerados pela bolha de filtros e a vergonha prometeica e a necessidade de exibição de modelos ideais de rendimento e atuação social, descrito por Günther Anders, uma influência significativa do consumo de informação digital por meio das mídias sociais no aumento de traços ansiosos (além de transtornos depressivos) e da capacidade de concentração dos indivíduos que as utilizam, contribuindo para uma desconexão generalizada que influencia a forma de se estabelecer relações consistentes, tanto em atividades corriqueiras quanto de forma mais duradoura e socialmente.

Com isso, foi possível estruturar de forma analítica os aspectos e características da ansiedade e da concentração essenciais para o entendimento buscado, possivelmente correlacionadas com o consumo online de informação, o que dará as bases para futuros planejamentos relacionados ao desenvolvimento de projeto experimental pragmático que teste as hipóteses apresentadas, além de planejamentos relacionados à prevenção de sintomas ansiosos e melhorias na capacidade da atenção concentrada.

Por fim, se faz necessário o aprofundamento sobre o tema e a testagem prática que correlacione o consumo de informação digital e o uso de mídias sociais com sintomas ansiosos e a capacidade de concentração, para que as significações apresentadas neste estudo possam vir a conhecer comprovação científica e indicar novos dados, para que outras e novas visões e hipóteses sejam cabíveis para futuros projetos.

Sobre o Autor:

Antonio Francisco Malagutti Junior - Graduado em Psicologia (UNIFAE/São João da Boa Vista); Designer, Publicitário e Empresário, diretor de criação e operações da agência Estúdio M2OC. 

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