O Neuropsicopedagogo Ante os Transtornos de Leitura e Escrita: Implicações para a Cidadania Plena

Resumo: Apoderar-se da língua escrita e falada como ferramenta de sobrevivência neste cenário mundial de informação e comunicação parece, a princípio, algo tão natural quanto andar e falar, no entanto o que este artigo pretende ressaltar não é o caminho natural deste processo, mas o sofrimento daqueles que, por questões neurobiológicas e/ou ambientais, não conseguem fazer parte deste universo. As neurociências muito têm a contribuir com esta abordagem, tendo em vista que a compreensão da neuroanatomia cerebral propõe um trabalho diferenciado e exitoso para evoluções desse quadro de impossibilidade na aquisição da língua, até bem pouco tempo tão rotulador e discriminatório. Neste contexto, as ações da Neuropsicopedagogia, juntamente com outras ciências, vão ao encontro da inclusão do indivíduo na sociedade excludente em que vivemos, desenvolvendo mecanismos que auxiliam no processo de empoderamento da língua, como ferramenta de auto-reconhecimento do indivíduo como pessoa e como cidadão.

Palavras-chave: Neuropsicopedagogia, Transtornos de Linguagem, Alfabetização, Cidadania.

1. Introdução

Sabemos que o cérebro é o órgão central do processo de informações e da aprendizagem, no entanto, seu desenvolvimento pode ser influenciado por  processos de ordem genética e ambiental, que, eventualmente, comprometem a evolução natural de uma criança. As conexões e redes funcionais se desenvolvem desde a concepção e, neste processo, algumas situações não esperadas podem ocorrer no desenvolvimento embrionário, comprometendo negativamente essas conexões.

É na gestação que a formação do cérebro se dá de forma mais delicada, implicando o crescimento global e a constituição fisiológica da particularização das áreas e das redes funcionais. Alguns traumas relacionados ao parto e ao período neonatal, como problemas respiratórios, infecções, prematuridade, baixo peso ao nascer e anóxia neonatal são altamente nocivos e desencadeadores de predisposição a atrasos de desenvolvimento e disfunções cognitivo-comportamentais.

Por outro lado, o ambiente onde essa criança é cuidada e por quem é cuidada pode implicar severamente o seu desenvolvimento biológico e as suas funções cognitivo-comportamentais. A observação minuciosa no desenvolvimento de uma criança pode ser profilática no surgimento de atrasos motores e cognitivos, evitando, assim, que possa ser mais traumático e definitivo o seu processo de crescimento global.

Ao nascer, sobre essa criança é depositada, principalmente por parte de seus pais, uma expectativa de que ela corresponda a todos os seus anseios ao longo de sua vida. Os pais elaboram o conceito de um filho que satisfaça a criança idealizada em seu imaginário, possuindo características que correspondem aos seus próprios anseios e necessidades, no entanto, nem sempre isso acontece. Os pais, em meio ao desenvolvimento de seus filhos, surpreendem-se, muitas vezes, com um impedimento a esse processo de ganho, de troféu e atropela aos seus anseios algo que eles não esperavam e que não aceitam.

Esse impedimento pode ser de várias ordens e intensidades. Se alguma deficiência é descoberta logo no nascimento do filho, o desespero e a impotência tomam conta de ambos. A partir daí, um processo longo, na maioria dos casos, se segue e é preciso então viver o luto diante da morte desse filho tão sonhado para, só então, iniciar o processo de aceitação dessa criança que ali está e que necessita ser cuidada e amada.

Em casos de menos impacto, mas não menos traumáticos, ficam aqueles que, ao iniciar o período escolar, imaginam o filho com um desempenho acadêmico excelente e este, ao chegar à idade da alfabetização, surpreendem com uma dificuldade no que diz respeito à aprendizagem, e então uma longa via crucis se estabelece.

No cenário escolar, a expectativa dos pais, bem como dos professores, é o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita. Impedido de alcançar esse conjunto de competências, por razões até então desconhecidas nos primeiros anos, o sujeito passa a ser considerado portador de uma “anormalidade” com a qual terá que conviver, pacificamente ou não, e um grande processo de rejeição, por parte de família, escola e colegas, começa a se estabelecer em seu mundo.

Devido a isso, no decorrer deste artigo pretendemos abordar o ‘transtorno de aprendizagem’ assim considerado no DSM 5 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 2014), manual para profissionais da área de saúde mental, que lista diferentes categorias de transtornos mentais e critérios para diagnosticá-los. Trata-se da Dislexia.

Segundo a Associação Internacional de Dislexia, este transtorno é assim definido:

“Dislexia é uma incapacidade específica de aprendizagem, de origem neurobiológica. É caracterizada por dificuldades na correção e/ou fluência na leitura de palavras e por baixa competência leitora e ortográfica. Estas dificuldades resultam de um Défice Fonológico, inesperado, em relação às outras capacidades cognitivas e às condições educativas. Secundariamente podem surgir dificuldades de compreensão leitora, experiência de leitura reduzida que pode impedir o desenvolvimento do vocabulário e dos conhecimentos gerais” 

Vivemos em uma sociedade que considera aprendizagem somente a que ocorre no âmbito acadêmico, ignorando aquela que o indivíduo traz com ele antes da inserção na escola, ou seja, sua cultura local, sua educação advinda dos pais, seu conhecimento implícito que diz respeito a todo e qualquer envolvimento com família, parentes, vizinhos, amigos, igreja. A escola parece ser sempre a principal, única e fidedigna fonte do saber. Assim sendo, ao fazer referência à baixa competência leitora e ortográfica de uma criança ou indivíduo, tem aí estabelecido o maior obstáculo para que uma pessoa possa ser inserida num mundo que requer a todo o momento a competência necessária para ser e estar no mundo.

2. Desenvolvimento

2.1 Pelos Caminhos da Dislexia

O conceito de Dislexia é abordado de diferentes formas se nos detivermos nos inúmeros estudos que são feitos. Uma delas, que vem ao encontro do que postula as Ciências da Saúde, apresenta como causa da Dislexia fatores orgânicos, como mal funcionamento cerebral, genética ou dificuldades cognitivas. Outra, defendida pelas Ciências Humanas, conceitua a Dislexia como uma consequência de fatores sociais, tais como letramento, fatores educacionais, ambientes familiares desfavorecidos e diferenças sócio-culturais.

Nesse contexto de discussões relevantes, erige-se a Neurociência como ciência capaz de desvendar esse antagonismo, estabelecendo o cérebro como o instrumento responsável para dar respostas às questões divergentes. Segundo Cosenza e Guerra (2011) apud Russo (2015). 

As neurociências estudam os neurônios e suas moléculas constituintes, os órgãos do sistema nervoso e suas funções específicas, e também as funções cognitivas e o comportamento que são resultantes das atividades dessas estruturas(p.142).

A partir daí, os avanços das neurociências permitem um olhar mais científico sobre o processo de aprendizagem e, mais ainda, a partir do progresso das tecnologias digitais, nos anos 90, é possível hoje estudar o funcionamento cerebral em tempo real, por meio da Ressonância Magnética Funcional, que permite mapear as funções cerebrais no momento em que uma ação de aprendizagem está acontecendo. Neste caso particularmente, enfocaremos em nosso trabalho o funcionamento das áreas cerebrais, em momento de leitura e escrita, para fundamentarmos o processo neurobiológico da apropriação dessas competências.

A descoberta do transtorno em questão ocorreu quando, em 1896, um menino de 14 anos de idade chamado Percy, sentindo-se com dificuldade na leitura e na escrita, fez uma consulta a um médico, Pringle Morgan, que observando suas dificuldades com o alfabeto e seus graves erros ao grafar as palavras, apesar de sua audição e visão normais, diagnosticou-o como portador de “cegueira verbal congênita” (MASSI & SANTANA, 2011).

Esse diagnóstico, em pleno séc. XIX, surgiu em analogia com outros casos semelhantes de dificuldades de leitura e escrita ocasionados por lesões corticais. Em decorrência disso, Hinshelwood, em 1917, propôs que todos os casos relativos a dificuldades na escrita pudessem ser explicados por um suposto comprometimento congênito do giro-angular, que se localizava na zona póstero-inferior do lóbulo temporal. Esse diagnóstico foi determinado por pesquisas afasiológicas localizacionistas pautadas em casos de adultos portadores de lesões neurológicas que alteraram sua capacidade de ler e escrever.

No exemplo dado acima, por meio dos estudos postulados pelas Neurociências, que se dedicam, em princípio, ao funcionamento do cérebro voltado apenas para revelar problemas de saúde, percebeu-se que os caminhos das Neurociências e da Educação não poderiam se excluir, tendo em vista a significância do cérebro para a aprendizagem. Temos como principal exemplo a Dislexia, estando comprovado que esta decorre de falhas no processamento fonológico, demonstrando, de forma evidente, as áreas cerebrais comprometidas que justificam essa desordem.

2.2 As Alterações Anatomoneurofisiológicas da Dislexia

Segundo o DSM-5 (2014, pag. 36), a Dislexia, Transtorno Específico da Aprendizagem, revela-se como “dificuldades na aprendizagem e no uso de habilidades acadêmicas cujos sintomas tenham persistido por pelo menos 6 meses, mesmo que com intervenções dirigidas a essa dificuldade”. Para um maior entendimento dessa desordem, cabem aqui os registros neurocientíficos que evidenciam as áreas cerebrais comprometidas quando da leitura e da escrita.

O cérebro está dividido em áreas corticais que trabalham em conjunto, mas que possuem, cada uma, funções específicas que são ativadas de acordo com a chegada de impulsos sensitivos, seja para ouvir, falar, refletir, organizar, andar, etc. A Figura 1 ilustra, didaticamente, a divisão dessas áreas cerebrais.

Áreas cerebrais

Figura 1. Áreas cerebrais

Verificamos que cada área está responsável por uma função que, diariamente, usamos sem perceber. Desse modo, para se realizar o procedimento da leitura e da escrita, a ativação de algumas áreas, ou associação delas é necessária. Para que estas áreas sejam ativadas, faz-se necessário que um fenômeno aconteça, a sinapse, que só ocorre em presença dos neurônios. Estes são constituídos de estruturas capazes de conduzir informações. Sua estrutura é diversificada, em sua maioria alongada, para facilitar sua função. O humano é organizado por cerca de 86 a 100 bilhões de neurônios.

Tendo em vista que a aprendizagem acontece por estímulos sensoriais, fica fácil concluir que qualquer impedimento, de origem neurobiológica ou ambiental, pode dificultar que as áreas cerebrais sejam devidamente ativadas e que a aprendizagem aconteça.

Para ser inserido no mundo da escrita e da leitura, a criança deve estar em situação de prontidão para ser alfabetizada. Isso significa que uma complexa integração dos processos neurológicos deve acontecer, bem como uma evolução harmônica de habilidades básicas, como percepção, esquema corporal, lateralidade, etc. Dessa forma, ela poderá iniciar o processo da função simbólica, que é a leitura e sua transposição gráfica, ou seja, a escrita. Lent (2010, p. 701-702) afirma que

Durante muitas décadas, os neurologistas pensaram que o hemisfério esquerdo, sede do “centro da fala” (como pensava Broca) era dominante sobre o hemisfério direito. Este, portanto, exerceria apenas funções coadjuvantes e secundárias. Um século depois, as evidências mostraram que não era bem assim, e o conceito de dominância hemisférica tornou-se ultrapassado. Percebeu-se que não há hemisfério dominante e outro dominado, mas sim dois hemisférios especializados. Um dos hemisférios se encarrega de um grupo de funções, o segundo encarrega-se de outro. [...] Ambos trabalham em conjunto utilizando-se de milhões de fibras nervosas que constituem as comissuras cerebrais e encarregam-se de colocá-los em constante interação. 

No processo de leitura e escrita ocorre a decodificação, ou seja, a discriminação visual dos símbolos impressos e a associação entre as palavras impressas e o som. No cérebro da pessoa com Dislexia há um comprometimento nas áreas responsáveis pela leitura e escrita, o que traz sérias dificuldades para aprender através da linguagem auditiva e visual, não conseguindo a criança apreender e integrar na sua experiência o que ouve e vê, manifestando-se aí o distúrbio da leitura e escrita.

Na Figura 2, que evidencia o hemisfério esquerdo, ficam exemplificadas as áreas do cérebro que não são ativadas no momento da leitura e escrita, caracterizando a Dislexia. Em laranja tem-se a área de Wernick, responsável pela decodificação e significado das palavras ouvidas ou lidas e a área em Vermelho, área de Broca, responsável pela organização dos atos motores que irão formar a fala.

Figura 2. Cérebro de uma pessoa sem Dislexia e outro de pessoa com Dislexia

Figura 2. Cérebro de uma pessoa sem Dislexia e outro de pessoa com Dislexia

Podemos perceber que na pessoa com Dislexia a área de Broca, responsável pela fala, está aumentada, tendo em vista o esforço que é feito para a emissão das palavras.

2.3 A Apropriação da Língua Materna e o Auto-Reconhecimento do Sujeito na Sociedade

Para que exista um bom desenvolvimento da habilidade linguística, é necessário que o indivíduo esteja devidamente alfabetizado na língua do meio em que vive. Não se apropriar da língua leva ao prejuízo do desenvolvimento da inteligência intrapessoal. Segundo Gardner (1995), esta é a capacidade que o indivíduo tem de saber lidar com seus sentimentos e emoções, de reconhecer suas limitações, ou seja, é estar bem consigo mesmo para que seja possível estar bem com os demais. Para Ferreiro (2006, p.57), estar alfabetizado: 

“É poder transitar com eficiência e sem temor numa intrincada trama de práticas sociais ligadas à escrita. Ou seja, trata-se de produzir textos nos suportes que a cultura define como adequados para as diferentes práticas, interpretar textos de variados graus de dificuldade em virtude de propósitos igualmente variados [...]”.

Foi nos anos 90 que começou a discussão em torno de termos como alfabetização e letramento, no Brasil, do illettrisme, na França, da literacia, em Portugal. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, embora a palavra literacy já estivesse dicionarizada desde o final do século XIX, foi também nos anos de 1980 que o fenômeno que ela nomeia, distinto daquele que em língua inglesa se conhece como Reading instruction, beginning literacy tornou-se foco de atenção e de discussão nas áreas da educação e da linguagem.

O termo letramento, surgiu a partir da constatação de que, apesar do domínio dos símbolos e de sua decodificação, ou seja, alfabetização escolar, as práticas sociais da leitura  escrita estavam deficientes. É Magda Soares (2003, p. 7) quem apresenta dados importantes sobre o tema: 

A partir do conceito de alfabetizado, que vigorou até o Censo de 1940, como aquele que declarasse saber ler e escrever, o que era interpretado como capacidade de escrever o próprio nome; passando pelo conceito de alfabetizado como aquele capaz de ler e escrever um bilhete simples, ou seja, capaz de não só saber ler e escrever, mas de já exercer uma prática de leitura e escrita, ainda que bastante trivial, adotado a partir do Censo de 1950; até o momento atual, em que os resultados do Censo têm sido frequentemente apresentados, sobretudo nos casos das Pesquisas Nacionais por Amostragem de Domicílios (PNAD), pelo critério de anos de escolarização, em função dos quais se caracteriza o nível de alfabetização funcional da população, ficando implícito nesse critério que, após alguns anos de aprendizagem escolar, o indivíduo terá não só aprendido a ler e escrever, mas também a fazer uso da leitura e da escrita, verifica-se uma progressiva, embora cautelosa, extensão do conceito de alfabetização em direção ao conceito de letramento: do saber ler e escrever em direção ao ser capaz de fazer uso da leitura e da escrita. 

De acordo com Ferreiro & Teberosky (1983, p. 180), na teoria exposta em sua obra Psicogênese da Língua Escrita, toda criança passa por quatro fases até que esteja alfabetizada:

  • pré-silábica: não consegue relacionar as letras com os sons da língua falada;
  • silábica: interpreta a letra a sua maneira, atribuindo valor de sílaba a cada uma;
  • silábico-alfabética: mistura a lógica da fase anterior com a identificação de algumas sílabas;
  • alfabética: domina, enfim, o valor das letras e sílabas.

No nível pré-silábico, o aprendiz acredita que se pode relacionar o que se ouve a símbolos, rabiscos ou desenhos e assim afirma que está escrevendo. A seguir, no nível silábico há um entendimento de que a palavra escrita representa apenas o nome da coisa e não a coisa em si e, ainda neste nível, pensa que, usando quaisquer letras, estará representando a palavra em questão. Não sabe ainda utilizar os caracteres certos para o registro da palavra.

Quando for questionado sobre quantas vezes se abre a boca para pronunciar a palavra é que o aluno terá a noção da quantidade de letras que usará e terá passado para o nível silábico. Ainda neste nível será capaz de escrever uma letra para cada sílaba ouvida, ou seja, sem correspondência sonora. Somente quando são realizadas atividades de correspondência entre a fala e a escrita, correspondência sonora, é que ele terá passado para o nível alfabético. Nesse nível ele acredita que as palavras escritas devem representar as palavras faladas, com correta correspondência entre letra e som. Estará, assim, alfabetizado, mas terão conflitos posteriores ao iniciar a comparação entre a escrita alfabética, espontânea e a escrita ortográfica em que nem tudo se escreve como se fala.

Segundo ainda Ferreiro & Teberosky (1983), o peso que se coloca sobre o domínio da língua é excessivo, preterindo a sua compreensão e organização. E está aí justamente o momento em que o aluno com transtornos de aprendizagem mostrará que não é capaz, como a maioria, de dominar a língua em sua plenitude. O aluno com Dislexia não conseguirá, por problemas na correspondência fonológica, passar do nível silábico para o nível alfabético. As áreas cerebrais responsáveis pela identificação dos símbolos gráficos e os significados destes para a posterior escrita estão comprometidas ou corrompidas, de forma que a criança não consegue ler e escrever corretamente “apesar da provisão de intervenções dirigidas a essas dificuldades” (DSM-5, 2014, p.36). 

2.4 As Implicações Socioemocionais nos Disléxicos e a Atuação do Neuropsicoedagogo

A Dislexia é um transtorno de ordem neurológica que não tem cura, no entanto, diagnósticos precoces e acompanhamentos adequados com uma equipe multidisciplinar atenuam o problema, levando o indivíduo a sair da situação de analfabetismo e ter uma vida normal apesar das dificuldades que o acompanharão ao longo da vida. O tratamento e a consequente superação do problema diminuem o impacto da deficiência na vida do sujeito, bem como implica sua aceitação na sociedade em que vive, aí incluídas família, colegas de escola e colegas de trabalho.

O sujeito que não lê e não escreve é considerado um analfabeto, embora possa compreender e ler o mundo que o cerca muitas vezes com muito mais propriedade que outro sujeito em situação de alfabetização. Na Dislexia não há comprometimento de ordem intelectual, embora seja difícil para as pessoas leigas entenderem o que se passa com uma pessoa inteligente “que não consegue aprender a ler e escrever”.

O estigma do fracasso começa a fazer parte da vida dos indivíduos disléxicos, cuja família não teve o esclarecimento necessário para um tratamento adequado e cuja escola não estava preparada para atuar sobre as dificuldades que se apresentaram.

Desse modo, apesar do conceito de inclusão se ter expandido rapidamente como um princípio fundamental para o sistema educacional, continua a existir uma contradição entre legislação e prática nas escolas ou salas de aula. Apesar da legislação e do discurso dos professores serem “inclusivos”, as práticas nas escolas nem sempre são consistentes com esses discursos.

Sabemos que o processo de inclusão escolar é difícil, contínuo e que precisa de políticas sociais inovadoras que consigam melhorar o atendimento educacional e as condições de vida dos alunos com deficiência. Dessa maneira, o envolvimento no trabalho de todas as pessoas que lidam com esses alunos se torna importantíssimo, tendo em vista que o seu sucesso no processo de inclusão vai ser dar neste contexto de educadores, assistentes operacionais, família, amigos e comunidade, todos trabalhando juntos em prol dos alunos” (Martins, 2008, p.13). 

Mesmo para aqueles que conseguem vencer as dificuldades da alfabetização, ainda assim, o medo e a incapacidade de compreensão do que leem são fantasmas que os acompanham sempre. Grandes são os desafios ao longo da vida para ingressar e cursar uma universidade ou mesmo ser inserido no mundo do trabalho. Com a autoestima comprometida, o sujeito foge da exposição pessoal, se a fala e a escrita constituem uma ameaça para seu sucesso. O sofrimento é evidente, já que muitos escondem sua fragilidade para não ser discriminado no meio em que atua.

Incluir passou a ser a ordem da vez, no entanto a sociedade se apresenta cada vez mais perversa e intolerante aos erros e dificuldades do outro. Não é fácil ser diferente num mundo que postula pelo igual, haja vista as lutas dos negros, transgêneros, homossexuais e pobres, que lutam incessantemente pelo tratamento igualitário nessa sociedade tão desigual.

O profissional neuropsicopedagogo entra neste contexto com uma bagagem diferencial, devido ao amplo conhecimento do que ocorre no cérebro de cada indivíduo com diferentes desordens. Além disso, conhecendo o cérebro e suas funções, é possível perceber mais do que outro profissional as implicações emocionais que qualquer transtorno pode trazer a um indivíduo e resgatá-lo desse contexto de escuridão para a luz da aprendizagem integral.

O estudo das neurociências ajuda o neuropsicopedagogo clínico a compreender a complexidade do funcionamento cerebral e as articulações entre cérebro e comportamento (RUSSO, 2015). A Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia SBNPP, em seu cap.II Art.10 (apud Russo (2015, p.15 )  ainda assegura que 

A Neuropsicopedagogia é uma ciência transdisciplinar fundamentada nos conhecimentos da neurociência aplicada à educação, com interfaces da Pedagogia e da Psicologia, que tem como objetivo formal de estudo a relação entre o cérebro e a aprendizagem humana numa perspectiva de reintegração pessoal, social e escolar.

Ao tomar consciência, por meio de testes específicos, do mal que aflige o aprendiz, o profissional neuropsicopedagogo indicará a intervenção também de um Fonoaudiólogo que intervirá diretamente no problema da correspondência letra-fonema, minimizando o problema e levando o aprendiz a dominar a leitura e a escrita. Muitas vezes isso se traduz num longo caminho, mas com a persistência no tratamento, as dificuldades vão se fazendo menores e o indivíduo vai conquistando o sonho de ler e escrever satisfatoriamente.

O neuropsicopedagogo irá, em adição, complementando a aprendizagem com aplicação de jogos e ações que envolverão a leitura, a escrita, as questões fonéticas e motoras, de modo a otimizar o processo de desenvolvimento da alfabetização  desse indivíduo.

Cabe lembrar que um diagnóstico só poderá ser dado em conjunto com uma equipe de profissionais que chegarão a um denominador comum sobre cada caso. Isso envolve médico, neuropsicopedagogo, fonoaudiólogo e, possivelmente, um psicólogo, se houver implicações emocionais já arraigadas devido ao tempo que se levou para procurar intervenção adequada. 

3. Considerações Finais

É importante ressaltar que quanto mais precoce a percepção do problema pelos pais e pela escola, mais cedo a intervenção acontecerá, evitando outros tipos de comorbidades. Esse transtorno acompanhará o indivíduo ao longo de sua vida. No entanto, ele saberá, após as intervenções, como lidar com esta dificuldade e as estratégias que deverá fazer uso para driblar as situações de dificuldades na leitura e escrita.

Numa sociedade em que a comunicação e a informação tornaram-se elementos fundamentais diante das tecnologias digitais, a incapacidade de exercer a língua em sua totalidade, figura como um grande empecilho para se exercer a cidadania plena. Apoderar-se da língua materna significa empoderar-se, e poder implica honra, respeito, dignidade.

A perda de qualquer capacidade imposta pela sociedade pode trazer danos irreversíveis e uma condição excludente na educação formal, levando ao avanço da marginalidade e da violência. Exercer a linguagem em sua plenitude é a mais honrada forma de existir e ser numa sociedade. 

Sobre a Autora:

Maria Lúcia Moreira Gomes - Mestre em Cognição e Linguagem. Psicopedagoga Institucional e Pedagoga Empresarial. Neuropsicopedagoga Clínica. Palestrante na área de Transtornos de Aprendizagem e Adaptação Curricular.

Referências:

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FERREIRO, E. Alfabetização em Processo. São Paulo: Cortez, 1996.

FERREIRO, E. O momento atual é interessante porque põe a escola em crise.

Revista Nova Escola. Entrevista. 1º de novembro de 2006

FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Tradução de Diana Myriam Lichtenstein et al. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.

GARDNER, Howard. Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. 1. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

LENT, R. Cem bilhões de neurônios? Conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo. Ed. Atheneu, 2010.

MARTINS, L. A. R. (org). Escola Inclusiva: pesquisa, reflexões e desafios. João Pessoa: Ideia, 2008

MASSI, G. & SANTANA, A.P. O.  Desconstrução do conceito de dislexia. Paidéia, set.-dez. 2011, Vol. 21, No. 50, 403- 411, 2011  capturado em 31 de março de 2017.

SOARES, M. Alfabetização e Letramento: as muitas facetas. Trabalho apresentado no GT Alfabetização, Leitura e Escrita, durante a 26ª Reunião Anual da ANPEd, realizada em Poçosde Caldas, MG , de 5 a 8 de outubro de 2003.

RUSSO, R.M.T. Neuropsicopedagogia Clínica. Introdução, Conceitos, Teoria e Prática. Curitiba: Juruá, 2015.

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GOMES, Maria Lúcia Moreira. O Neuropsicopedagogo Ante os Transtornos de Leitura e Escrita: Implicações para a Cidadania Plena. Psicologado, [S.l.]. (2019). Disponível em https://psicologado.com.br/psicopatologia/saude-mental/o-neuropsicopedagogo-frente-os-transtornos-de-leitura-e-escrita-implicacoes-para-a-cidadania-plena . Acesso em .

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