O Processo de Sofrimento Familiar de Dependentes Químicos

Resumo: Geralmente os familiares mais próximos do dependente são os mais afetados, na tentativa de proteger acaba sufocando o indivíduo com suas preocupações não se dando conta que está deixando de viver sua própria vida em função do outro. Nesse processo a intervenção de um psicólogo faz-se necessário na tentativa de orientar e encaminhar para que esse cordão umbilical possa ser cortado, fazendo com que abra mão do dependente sem abandoná-lo. Com sua reestruturação psíquica e sua saúde mental no determinado equilíbrio, a possibilidade de ajudar o dependente nessa luta contra a dependência torna se mais possível.

Palavras-chave: Família, Dependência Química, Sofrimento, Saúde Mental.

1. Introdução

Através desse artigo busca-se esclarecer o processo de adoecimento de pessoas que convivem com dependentes químicos assim como o papel do profissional, de psicologia na diminuição desse sofrimento, buscando esclarecer de que forma essa intervenção pode ser feita para que a dependência do outro não seja um processo de adoecimento mútuo.

Nos dias atuais é comum o assunto dependências apresentar-se em qualquer tipo de comunicação, seja em uma roda de amigos, faculdade, e até mesmo na família, porém ela vem de uma forma em que certamente os envolvidos não são colocados como alguém que necessita de ajuda e sim são vistos como um drogado que não se fala sobre as consequências que o uso abusivo de drogas e a dependência química causam ao usuário, como problemas de saúde física e emocional, problemas sociais, problemas com a lei, entre outros. Mas, sabe-se também que as pessoas envolvidas com usuários abusivos e dependentes químicos, especialmente familiares e amigos, também são afetados de diversas formas. Nesse processo de dependência tanto sofre o dependente quanto quem está ao seu redor, podendo ocorrer um adoecimento entre ambos. Segundo Beattie (2003), o processo que o indivíduo tem tendência de viver focado no dependente químico desenvolvendo assim certa alienação de si mesmo, acaba trazendo consigo comportamentos como minimização de problemas, tentativas de controlar, proteger e assumir a responsabilidade e as consequências dos atos do dependente químico.

2. Desenvolvimento

O contexto do presente artigo tem como fundamento inicial o conceito de família: Entende-se como família um conjunto de pessoas que possuem ou não grau de parentesco e vivem na mesma casa dividindo o mesmo lar, quando um ou mais membros da família faz uso de substâncias químicas, a família é a primeira a sofrer os choques, as dificuldades, os conflitos, que se tornam comuns gerando sentimentos de tristeza, culpa e frustração, há um adoecimento emocional, sendo de fundamental importância que o familiar também se trate e ao mesmo tempo, receba orientações a respeito de como lidar com o dependente, apoiando e acelerando seu sucesso no tratamento. Se espera da família o cuidado a proteção, a construção de identidades e vínculos afetivos, visando uma melhor qualidade de vida a todos os seus membros e a inclusão social em sua comunidade, É a família quem, primeiro encoraja o usuário a se tratar. Muitas vezes o dependente não consegue entender o quanto a família o quer recuperado, mesmo que ela tome partido da situação, a fim de ajudá-lo. (ARAGÃO, 2009, p.117).

Nos tempos atuais as discussões sobre a temática drogadição estão em alta, falando-se assim sobre as consequências que o uso abusivo e a dependência química causam ao usuário, como problemas de saúde física e emocional, problemas sociais, com a lei, entre outros. Infelizmente muitas famílias encontram-se imersas em situações de sofrimento causadas pelo uso de drogas lícitas e ilícitas. Aflição, dor, angústia e culpa são alguns sintomas conflitantes que acabam destruindo os laços afetivos.

A Dependência Química é considerada um transtorno mental, em que o portador desse distúrbio perde o controle do uso da substância, e a sua vida psíquica, emocional, espiritual e física vai se deteriorando gravemente. Nessa situação, a maioria das pessoas precisa de tratamento e de ajuda especializada e adequada. Dependência química não é simplesmente um problema moral, está também entrelaçada a questões religiosas, de justiça. Sendo assim considerada uma doença BIOPSICOSSOCIAL. (GRUPO MAIA, 2017).

Apesar de não ser contagiosa a dependência química é uma doença que, termina contaminando toda a família, afirma Silze Morgado Roque. Quando os primeiros sintomas da dependência começam a aparecer, a primeira reação dos familiares é a negação, evitando-se falar do problema, dificultando assim a maneira de lidar com sua existência. Ocorre tensão, desentendimento, e as pessoas deixam de falar sobre o devido assunto não admitindo que isso esteja acontecendo logo na sua família, mantendo a terrível ilusão de que as drogas e o álcool não estão causando problemas na família. O codependente acredita que caso ignorado o problema irá desaparecer naturalmente. Além disso, algumas famílias acabam expulsando o dependente de casa, mas a mais comum é que as famílias facilitem, favorecendo e reforçando mesmo sem intenção o consumo de álcool e drogas.

Assim que os sintomas se tornam mais intensos, a realidade começa a incomodar a família e achar um culpado para o que está acontecendo, os pais costumam achar que o indivíduo foi influenciado pelos amigos, de más companhias, ou até mesmo que foi erro deles, acreditando que não foram pais presentes e que não deu o suporte necessário para que o dependente não entrasse no mundo das drogas.

Sabe-se que as pessoas envolvidas com usuários abusivos e dependentes químicos, especialmente pessoas da família e os amigos mais próximos, sofrem e são afetados de formas distintas, sentindo-se impotentes por não saberem como auxiliar o dependente químico, ou percebendo que o seu amor e cuidado não são suficientes para que este deixe de fazer uso da substancia da qual é dependente. Sendo assim, é no contexto familiar do dependente químico que se desenvolve a codependência.

A palavra Codependência surgiu nos centros de tratamento no final da década de 70. Logo no início o termo se referia a uma espécie de policiamento compulsivo da esposa em relação ao marido alcoolista, Lawson (1999), mas com o crescimento de outras dependências químicas o termo foi ampliado. O referido surgiu simultaneamente em diversos centros de Minnesota usado para descrever pessoas cujas vidas foram afetadas pelo envolvimento com um dependente químico. O codependente, filho, cônjuge, ou amante de um dependente químico, era visto como alguém que desenvolvera um padrão doentio de lidar com a vida, numa reação semelhante ao abuso de álcool ou drogas praticadas por outra pessoa, Lawson (1999) porém envolvendo-se emocionalmente com o problema do outro, a ponto de acobertarem as consequências dos atos dos dependentes.

Sendo compreendida também como a tendência de viver apenas focado no dependente químico, alienando-se de si mesmo. Eles apresentam vários comportamentos, porém os mais comuns de serem apresentados são os de minimização de problemas, mentiras e cumplicidades relativas ao uso abusivo das drogas e do álcool, tentativas de controlar, proteger e assumir as responsabilidades e as consequências dos atos dos dependentes químicos, essas e outros comportamentos acabam instaurando um clima de segredo dentro da família.

A ideia básica naquela época, quando surgiu a palavra codependência, era que os codependentes podiam ser definidos como pessoas que não conseguiam administrar suas vidas em função de uma relação comprometida com um dependente químico. Sendo uma doença emocional e comportamental, ela se caracteriza por um distúrbio acompanhado de ansiedade, angústia e compulsão obsessiva em relação a vida do dependente químico, chegando na maioria das vezes a desencadear doenças sérias como depressão, hipertensão, diabetes e outros males físicos. Podendo ser considerada também como a doença da negação. A princípio não se fala sobre o problema, depois, os próprios sentimentos são atenuados, desencadeando por último uma negação total dos sentimentos.

Justifica-se que os familiares codependentes também apresentam uma forma de dependência, não sendo de substancias, mas sim do vínculo com o mesmo, sendo que a sua intenção real é de ajudar o dependente. Porém o seu esforço ou tem pouco resultado, ou é em vão, pois o dependente usa de todo potencial de ajuda que recebe para fazer o uso desencadeado da devida droga. Enquanto o sistema permanecer instável, os problemas e crises são administrados pelo codependente e o dependente químico tem condições de continuar o seu uso.

O comportamento da família é inconsciente, compulsivo e ainda alimenta uma fantasia de poder inesgotável. Pelo fato de abrir mão da sua rotina, trabalho e planos para proteger o ansiado, visa assim impedir que esse problema chegue ao conhecimento de amigos, vizinhos e conhecidos, chegando até a regular a vida do mesmo, impondo regras, controlando refeições, banhos, lazer e etc. Por esse motivo, torna-se uma pessoa infeliz, sentindo-se explorado e impotente. Nesse processo, a perda de controle é inevitável e o grupo familiar pode manifestar doenças gástricas, cardíacas, enxaquecas e labirintites, além de distúrbios de comportamento em todos os membros.

A família por estar fragilizada, começa a se afastar, gerando assim uma desestruturação familiar, além da busca constante do isolamento, caracterizando assim como um refúgio tanto para a família, como para o dependente, mas isso acaba agravando ainda mais o problema. O primeiro passa para lidar com esse problema é assumi-lo, não podendo ficar indiferente a mágoa, raiva, dor, culpa, vergonha e etc., pois, isso adia a recuperação do ambiente familiar.

Segundo Correia (2002) A dependência química não tem cura, tem controle, a codependência tem cura e controle, porém exigem do codependente o reconhecimento e a disposição para lidar com os próprios limites, e uma abdicação do empenho compulsivo pelo controle da situação. O dependente químico luta para tentar controlar o seu vício e o codependente para controlá-lo, resultando assim em um círculo vicioso. É nítida a desorganização na família, seus membros assumem papéis rígidos e previsíveis, servindo como facilitadores, assim o dependente químico deixa de ter a oportunidade de perceber as consequências do abuso do álcool e drogas. No intuito de minimizar ou esconder o vício do familiar, o codependente começa a agir como um vigilante, procurando traços de ingestão de substancia no hálito, olhar, atitudes ou entre objetos pessoais do viciado.

Estando coberto de dúvidas, que correm por dentro, suspeitando de tudo, aos poucos, as tentativas de prevenir o uso das drogas, vira uma caçada a elas. Quando a desconfiança se torna realidade, a codependência faz com que a pessoa queira enfrentar essa luta sem ajuda, entrando em uma guerra silenciosa e solitária, e sem perceber, o codependente acaba apresentando os mesmos sintomas que o dependente, não conseguindo suportar a dor de ver um ente querido negligenciando a própria vida, o sofrendo tanto quanto ou até mais que o dependente.

3. Conclusão

Conclui-se que pelo fato de ainda haver esperanças, a internação desse indivíduo dependente torna-se inevitável. Pois, provavelmente houve a intenção e a esperança de conseguir acertar sem precisar da internação, porém, como não deu certo, inicia-se então, uma intensa e cansativa busca pelo tratamento adequado para aquele indivíduo. Nessa fase difícil a família encontra-se esgotada, desestruturada, sem esperanças e adoecida, por esse motivo é necessário que a família se conscientize sobre a seriedade da doença da dependência, a dificuldade de vivenciar situações destruidoras sozinhas, e alertá-la sobre a importância da busca de mecanismos de ajuda adequados, isso tudo no período da internação do indivíduo, para com que assim, a família possa estar preparada para conviver com essa doença, caso contrário, a desordem estará estabelecida nesta família, e a situação poderá se agravar. 

Independente do motivo que levou aquele sujeito a dependência, a família não deve se envergonhar, se isolar, fazer julgamentos ou reprovações, tampouco apegar-se a ressentimentos, e fingir que o problema não existe, pois, isso só irá fazer com que se afastem da realidade dos fatos, dificultando na busca adequada de soluções para enfrentar a doença.

Sobre o Autor:

Jair Castro de Santana - Graduando em Psicologia do 9º Semestre. 

Referências:

ARAGÃO, A.T.M; Milagres, E.; FLIGIE,N.B. Qualidade de vida e desesperança em familiares de dependentes químicos. Psico-USF, v.14, n.1, p. 117-123, jan./abr.2009.

BEATTIE, M. Co-dependencia nunca mais. Rio de Janeiro: Record, 2003.

CORREIA, R. F. A atividade física e o dependente químico em recuperação. [s.l..s.n] 2002.

Disponível: http: //www.antidrogas.com.br/mostraartigo. Último acesso em 25/10/17.

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LAWSON, T. Alcoolismo – uma orientação para as famílias. Ed.Raboni, 1999.> 

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SANTANA, Jair Castro de. O Processo de Sofrimento Familiar de Dependentes Químicos. Psicologado, [S.l.]. (2019). Disponível em https://psicologado.com.br/psicopatologia/saude-mental/o-processo-de-sofrimento-familiar-de-dependentes-quimicos . Acesso em .

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