Políticas Públicas e Saúde Mental: um Estudo Descritivo em um CAPS no Interior de Rondônia

Políticas Públicas e Saúde Mental: um Estudo Descritivo em um CAPS no Interior de Rondônia
(Tempo de leitura: 14 - 27 minutos)

Resumo: O objetivo dessa pesquisa foi conhecer e descrever o funcionamento de um Centro de Atenção Psicossocial num município do interior de Rondônia. O estudo foi delineado a partir de uma abordagem qualitativa de natureza descritiva. As informações foram coletadas por meio de entrevistas semi-estruturada, respondidas por funcionários da instituição investigada. Os resultados mostraram que o funcionamento da instituição difere do que é proposto pelo Sistema único de Saúde – SUS no que tange aos recursos humanos e estruturais. Conclui-se que a organização, a estrutura e o suporte básico desta unidade de atendimento psicossocial, exibem lacunas as quais necessitam de investimentos de políticas públicas voltadas a saúde mental. Contudo, no se refere ao atendimento foi possível constatar que os funcionários expressam total envolvimento e disposição em função de colaborar com os usuários, neste quesito, a unidade teve êxito e apresentou-se como um lugar oposto ao representado erroneamente pela sociedade.

Palavras-chave: Centro de Atenção Psicossocial, Reforma Psiquiátrica, Usuários.

1. Introdução

A implantação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) no Brasil é recente. Há pouco tempo, uma pessoa portadora em sofrimento psíquico recebia tratamento somente em Hospitais Psiquiátricos, públicos ou privados. Hoje, além destas instituições, uma Rede de Serviços de Saúde Mental implementada pelas Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde vem suplementar esse tratamento, obtendo maior êxito nos resultados. O Centro de Atenção Psicossocial – CAPS - faz parte da rede e oferece serviços às pessoas que se encontra em sofrimento psíquico bem como seus familiares.

Assim, o CAPS, se insere com o objetivo de é oferecer atendimento à população de sua área de abrangência, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. É um serviço de atendimento de saúde mental criado para ser substituto às internações em hospitais psiquiátricos (BRASIL, 2004, p.13).

O objetivo deste estudo é compreender o funcionamento de uma instituição e por fa tores diversos foi escolhido um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no interior de Rondônia com intuito sanar parte das dúvidas e trazer conhecimento sobre esta forma de tratamento que pode revolucionar o auxilio prestado às pessoas que necessitam dessa atenção. Conhecercomo se deu a implantação desta nova forma de tratamento; observar como acontecem os atendimentos; qual o quadro de funcionários, que indivíduos são beneficiados pela instituição; quais são as dificuldades enfrentadas pelos colaboradores, e principalmente observar se o centro de atenção psicossocial em questão tem suporte e oferece as ações previstas pelo ministério da saúde. Tais questionamentos serão em boa parte sanados no decorrer do estudo.

Para que acontecimentos, fatos e mudanças de tamanha complexidade sejam compreendidos é necessário antes, conhecer a história que guarda todo o contexto de formação destes, para tanto, serão apresentados uma breve fundamentação teórica, que tem como intuito discernir sobre o modelo de tratamento antes da reforma psiquiátrica, o surgimento do CAPS, delimitando para o CAPS I, em seguida uma exposição de resultados obtidos a partir de uma entrevista semi-estruturada, realizada com parte do quadro de funcionários da instituição e posteriormente uma análise desses resultados culminando em uma discussão que será embasada em referenciais teóricos.

2. A Reforma Psiquiátrica e o Novo Caminho para o Tratamento Mental

A saúde já fora definida por alguns teóricos como a ausência de doença, no entanto, organização mundial de saúde utiliza o conceito de “perfeito bem-estar físico, mental e social” (SEGRE, FERRAZ, 1997).  Saúde mental então é a sanidade, a presença de um estado mental sadio. Trabalhar nessa área até alguns anos atrás, significava trabalhar em hospícios e manicômios imundos, ainda eram poucos os que se opunham a essa forma de tratamento psiquiátrico (AMARANTE, 2011, p.18)

O indivíduo com distúrbios ou patologias mentais era considerado uma ameaça, especificamente por ser atribuída a eles, uma desorganização no âmbito social. Essa ideia torna-se mais evidente na concepção de Emil Kraepelin (1988 apud AMARANTE, 2011, p.31) de que: “todo alienado constitui de algum modo um perigo para seus próximos, porém em especial para si mesmo.” Acreditava-se que estes, não detinham de capacidade de convivência com pessoas consideradas normais, desta forma eram excluídos da sociedade e internados em manicômios, assim como já foi feito com os portadores da famosa “lepra”. Na década de 70, especificamente em 1978, com o Zeitgeist favorável por conta do contexto de redemocratização no Rio de Janeiro, o MTSM (Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental) teve grande influência no processo de reforma psiquiátrica (BRASIL, 2005).

Segundo Amarante (1995), em 1987, no encontro dos MTSM foram tomadas medidas estratégicas na luta por uma “sociedade sem manicômios”. Desde então vem sendo aplicadas medidas que tentam mudar a situação dos doentes mentais na sociedade. Surge então o fortalecimento desse projeto por meio da Lei Paulo Delgado, que previa o fim do tratamento psiquiátrico clássico, esse processo que ainda se estenderá por longos anos, tem inicio com a extinção dos manicômios e a implantação de novos métodos assistenciais como os centros de atenção psicossocial.

De acordo com a Lei Federal nº 10.216, de 06/04/2001, da reforma psiquiátrica brasileira, os indivíduos com transtornos mentais, devem usufruir de seus direitos assim como serem tratados com “humanismo e respeito” em seus tratamentos. De acordo comVieira Filho e Nobrega, (2004), acredita-se que o centro de atenção psicossocial, é uma das instituições de porte mais adequada, pois tem como prioridade o atendimento de pacientes com patologias mentais graves, com tratamentos intensivos, semi-intensivos e não intensivos.

Sendo assim, essa pesquisa se volta especialmente para esta nova forma de tratamento que surgiu com a reforma psiquiátrica, tendo foco na implantação do CAPS, suas funções e contribuições à sociedade.

2.1 Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)

O CAPS é uma instituição complexa, que também trabalha com internações, e pode auxiliar na extinção dos hospitais psiquiátricos. Previsto para ser uma das principais formas de incluir a saúde mental no sistema único de saúde (SUS). De forma que este passe a assumir as responsabilidades na administração dos atendimentos no território (VIEIRA FILHO; NOBREGA, 2004).

A criação do primeiro CAPS ocorreu no ano de 1987 na cidade de São Paulo, em 1992 já havia cerca 208 funcionando no país, no entanto não detinham dos recursos necessários. Em 2011 foram catalogados 689 CAPS no território brasileiro (ROTOLI, ZANATTA, 2011). A expansão dos centros de atenção psicossocial está representada no quadro a seguir.

Quadro 1 - Expansão de centros de atenção psicossocial no Brasil. (2002 a 2011)

Fonte: Coordenação de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas/DAPES/SAS/MS, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Nestes centros de atenção psicossocial, conforme Rotoli e Zanatta (2011), o paciente dispõe de uma equipe multidisciplinar, que desempenha funções diversificadas e apresentam atividades físicas, farmacológicas e outras. Este atendimento diário oferecido pelo CAPS evita a internação no hospital psiquiátrico, promovendo assim a interação do paciente com o meio social, inserindo o mesmo, nas suas tarefas diárias, facilitando a interação no ambiente familiar e com a comunidade em geral.

De acordo com o Ministério da saúde (2013), o CAPS tem como função: Oferecer atendimento diário, evitando internações, atender indivíduos portadores de transtornos graves de forma que este, ainda mantenha o vínculo com a família, introduzir esses indivíduos no ambiente social, auxiliar na atenção da saúde mental na rede básica, organizar a rede de atenção mental nos municípios, organizar estrategicamente a política e a rede se saúde mental da região, e promover a inserção do indivíduo por meio das atividades de lazer, exercícios e aproximação com a família (BRASIL, 2013)

Para um melhor desempenho das funções do centro de atendimento psicossocial, este se dividiu em algumas especialidades, formando assim alguns tipos de CAPS, são eles: CAPS I, CAPSII, CAPS III, CAPSi e CAPSad, sendo o CAPSi estruturado especialmente para receber crianças e adolescentes, e o CAPSad, preparado para receber dependentes químicos, por ser especializado em álcool e drogas (BRASIL, 2013). A seguir será observada a distribuição dos tipos de CAPS no Brasil.

Tabela 1 – Série histórica CAPS por Tipo (Brasil, 2006 ‐2011).

Ano

CAPS I

CAPS II

CAPS III

CAPSi

CAPSad

CAPSad III

Total

2006

437

322

38

75

138

-

1010

2007

526

346

39

84

160

1155

2008

618

382

39

101

186

-

1326

2009

686

400

46

112

223

-

1467

2010

761

418

55

128

258

-

1620

2011

822

431

63

149

272

05

1742

Fonte: Coordenação de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas/DAPES/SAS/MS

 O CAPS I atende em municípios com população entre vinte e setenta mil habitantes e deve funcionar das oito às dezoito horas, de segunda a sexta. O CAPS II atende a população de municípios entre setenta e duzentos mil habitantes, funcionando também das oito às dezoito horas, de segunda a sexta, porém pode estender esse horário até as vinte e uma horas. O CAPS III atende municípios com população acima de duzentos mil habitantes e funciona em período integral. O CAPSi Oferece atendimento a crianças e adolescentes em municípios com mais de duzentos mil habitantes e tem funcionamento como o CAPS II. Por ultimo e não menos importante, o CAPS ad que é voltado para o atendimento de dependência química, em municípios com população superior a cem mil habitantes e funcionamento semelhante ao anterior. No entanto, a ênfase desta pesquisa será o CAPS I.

2.1.1 Uma Breve Descrição do CAPS I

O objetivo do CAPS I é oferecer atendimento aos pacientes, reinseri-los em suas atividades diárias e na sociedade. O atendimento neste tipo de CAPS é voltado especialmente para adultos com transtornos mentais severos, em municípios com uma população igual ou superior a vinte mil habitantes (BRASIL, 2004)

Segundo a portaria n° 336/GM, de 19 de fevereiro de 2002, que estabelece que todos os CAPS deve obedecer a diversidade profissional, que varia de acordo com cada tipo de CAPS, pois cada um tem suas características quanto ao tipo e número de funcionário. No caso do CAPS I, a equipe mínima deve conter nove profissionais, sendo eles: Um médico psiquiatra ou com formação em saúde mental, um enfermeiro, três profissionais de nível superior das seguintes categorias; psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo e demais profissionais necessários ao projeto terapêutico, e quatro profissionais de nível médio ou técnico, como auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão (BRASIL, 2004)

Esta equipe deve organizar-se para desenvolver e trabalhar como projetos terapêuticos e atividades de reabilitação psicossocial, eles devem ainda, desenvolver e fazer manutenção do ambiente terapêutico já que este ambiente é extremamente necessário para a evolução de seus usuários. O processo de reconstrução dos laços familiares sociais e comunitários deve fazer parte do projeto, já que possibilitaram a autonomia dos pacientes. (BRASIL, 2004)

Para Lobosque (2004) uma das principais mudanças que ocorreu com a reforma psiquiátrica foi a abertura de portas, já que nos antigos manicômios os pacientes eram encarcerados presos por muros, grades e sua própria demência, e o centros de atenção psicossocial revolucionaram esse modelo de instituição, mantendo suas portas abertas e conquistando seus pacientes com sua forma dinâmica de tratamento.

É nesse contexto que o CAPS I se fundamenta, buscando uma melhor qualidade de vida para seus pacientes, através de projetos e abordagens inovadoras que facilitam a integração do indivíduo com o meio social. Para tanto o CAPS I utiliza-se da Lei 10.216, de 06 de abril de 2001 art. 5°, § único, que define as formas de tratamento em intensivo, semi-intensivo e não intensivo. Sendo o atendimento intensivo, aquele que é destinado aos pacientes que necessitam de acompanhamento diário, o semi-intensivo, para pacientes que necessitam fazer acompanhamento frequente, mas não precisam apresentar-se diariamente, e o não intensivo, é para pacientes que em função de seu quadro clínico tem menos assiduidade no CAPS (BRASIL, 2004).

Segundo o Ministério da saúde (2004), o CAPS é fundamental na estrutura de um determinado território, pois vai muito além de dados geográficos, um território é antes de tudo um local habitado por seres humanos. O território é construído fundamentalmente pelas pessoas que nele habitam, com seus conflitos, seus interesses, seus amigos, seus vizinhos, sua família, suas instituições, seus cenários (igreja, cultos, escola, trabalho, boteco etc.) É essa noção de território que busca organizar uma rede de atenção às pessoas que sofrem com transtornos mentais e suas famílias amigos e interessados (BRASIL, 2004).

Para a construção do CAPS, é necessário antes avaliar todos os recursos afetivos sanitários, sociais, econômicos, culturais, religiosos e de lazer, pois como se pode observar, um território é mais do que simplesmente geográfico, é também social, e implica cuidados necessários para manutenção da saúde dos indivíduos que estão inseridos nele. Todavia, a sociedade só atentou-se para este fato quando os MTSM começaram sua luta para a reforma psiquiátrica, revolucionando a forma de tratamento dos doentes mentais e implantando o CAPS como uma das primeiras medidas para tal mudança. (BRASIL, 2004)

3. Metodologia

3.1 Tipo de Pesquisa

A pesquisa foi delineada por meio do método qualitativo, que se apresenta mais apropriado para o intuito da pesquisa que resume-se na compreensão do funcionamento institucional do CAPS. Para Minayo, (2010) todo estudo deve ser produzido pela articulação entre a teoria a que se refere e a realidade empírica, desta maneira o método escolhido é fundamental para tornar coerente a abordagem que será realizada pelo investigador em suas perguntas. No que se refere ao campo da saúde coletiva os métodos mais frequentemente utilizados são os quantitativos e os qualitativos. Minayo (2010) define-se o método qualitativo como é o que se aplica ao estudo da história, das relações, das representações, das crenças, das percepções e das opiniões, produtos das interpretações que os humanos fazem a respeito de como vivem, constroem seus artefatos e a si mesmos, sentem e pensam.

3.2 Instrumentos

Foi utilizada uma entrevista semiestruturada, contendo treze questões abertas elaboradas pelas autoras. Toda entrevista é uma ação comunicativa, de acordo com Gil (2008) entrevista pode ser definida como: “A técnica em que o investigador se apresenta frente ao investigado e lhe formula perguntas, com objetivo de obtenção dos dados que interessam à investigação.” E também utilizou-se da observação sistemática de grande importância em pesquisas como estas.

3.3 Procedimentos

O estudo iniciou-se com uma visita no dia treze de setembro de dois mil e treze, às onze horas, a um centro de atenção psicossocial (CAPS) do interior de Rondônia, um ambiente com estrutura mínima adaptada de uma casa comum e suporte básico.

Ocorreram duas visitas ao CAPS I, com o intuito de conversar com gestora a respeito da pesquisa e averiguar se esta estava de acordo, posteriormente para a entrega da carta de apresentação oferecida pela instituição de ensino. Só então pode-se efetuar a terceira visita, que diferente das anteriores tinha como intuito a pesquisa em si, basicamente a entrevista e a observação.

4. Resultados e Discussão

A partir dos relatos dos respondentes buscou-se fazer um recorte das falas considerando as partes que respondia as questões levantadas.

Sobre a data de implantação do CAPS, a gestora não soube explicar: “não se tem certeza sobre a data da criação do CAPS municipal e cita-se o ano de dois mil e sete” (sic). Tem como função acolher e dar atenção psicossocial aos usuários, isso porque trata-se do CAPS I. De acordo com a secretária, o quadro de funcionários é composto da seguinte da forma:

Quadro 2: Distribuição do quadro de funcionários, 2013.

QUADRO DE FUNCIONÁRIOS DO CAPS I

         CAPS PESQUISADO

Assistente Social

Assistente Social

Clínico Geral

Clínico Geral

Coordenador

Coordenador

Enfermeiro

Técnico de Enfermagem

Pedagogo

-

Psicólogo

Psicólogo

Psiquiatra

-

Secretária

Secretária

Terapeuta Ocupacional

Terapeuta Ocupacional

Fonte: As autoras, 2013.

No que se refere aos tipos de atendimento oferecidos pela instituição,a gestora afirmou que este“é um centro de atenção psicossocial básica, de acolhimento ao usuário, e aos familiares, com atividades terapêuticas, as visitas domiciliares, para ver junto com a família qual a necessidade e auxiliar nas medicações que o médico passa, os remédios controlados, a gente também dá um recurso encima da medicação, que vem junto com sistema SUS. Agora começaremos a ter as visitas porque entrou no nosso quadro a assistente social. E também ver se nossos pacientes estão tomando a medicação, ver se dormem direito. Não temos no momento, mas é importante o trabalho comunitário” (sic).

O CAPS I oferece atenção psicossocial básica, acolhimento ao usuário e aos familiares com atividades terapêuticas, visitas domiciliares, para observar junto com a família quais são as necessidades, auxiliando no controle das medicações que são fornecidas pelo SUS (sistema único de saúde). Apesar de citarem visitas domiciliares como parte do atendimento, a instituição não possui projeto fomentado em Lei para a interação do indivíduo na sociedade, mas medidas já estão sendo tomadas para que o mesmo aconteça.

O CAPS funciona diariamente com o trabalho da psicóloga, três vezes na semana, o atendimento do clínico geral nas segundas e terças, que inclui a triagem feita pela técnica de enfermagem e a renovação da receita de trinta e trinta dias, também a terapia ocupacional que acontece todos os dias, além da disposição de todos os funcionários do CAPS para qualquer eventualidade ou necessidade dos usuários. Em dias de atendimento médico são beneficiadas cerca de 85 usuários, que são não intensivo e semi-intensivo, pois a instituição não possui a estrutura necessária para atender usuários em nível intensivo. O CAPS está incluído no sistema único de saúde, e atende usuários das sete às treze horas.

No decorrer do estudo, foram expostas as dificuldades enfrentadas na instituição, sendo elas: a falta de alguns remédios na lista, a falta de um automóvel para a locomoção dos envolvidos, e a lacuna no quadro de funcionários, por exemplo a necessidade de um psiquiatra e a exclusividade da psicóloga. Mas as principais seriam então o preenchimento da lista de medicamentos fornecidos aos usuários e do quadro de funcionários. Com relação a um atendimento de urgência com usuários em crises os respondentes afirmaram nunca terem presenciado crises intensas, no entanto é notável a presença dos usuários que chegam emocionalmente abalados, falando alto e exaltados. A comunidade tem preconceito em relação aos atendimentos no CAPS, gerando uma resposta negativa nos usuários que recebem esse preconceito para si, acreditando que realmente é parte excluída da sociedade.

Nesse sentido, a terapia ocupacional é de grande importância no auxílio ao tratamento dos usuários, evitando assim a solidão ou até mesmo o descaso. A principal atividade do CAPS que dá esse suporte são as oficinas onde geralmente eles fazem atividades como: pintura, crochê, artesanato, trabalhos com argila, e isso faz com que interajam e se distraiam, comportamentos esses, que auxiliam muito no tratamento.

A estrutura não é apropriada para uma instituição como o CAPS, no entanto, percebe- se o empenho dos funcionários, que apesar de poucos recursos conseguem tornar o ambiente acolhedor utilizando os artesanatos confeccionados pelos próprios usuários, deixando harmonioso e receptivo.

A saúde mental tem uma história própria dentro do contexto internacional, tanto quando se refere às mudanças pela superação da violência asilar, quanto, pelos esforços dos movimentos que buscavam melhorias na atenção voltada aos pacientes psiquiátricos (BRASIL, 2005).

A respeito da função do CAPS, nota-se que “é um serviço de atenção básica mental, para as pessoas que tem “problemas”, psicológicos e outros” (sic). Desta forma, se pode observar que o CAPS transcende tal afirmativa, segundo Amarante (2011) esses serviços possibilitam o acolhimento de pessoas em crise e todos os envolvidos, assim como, o esforço para que possam expressar seus medos e frustrações juntamente com a família. Para tanto é necessário que haja a implantação de vínculos afetivos e profissionais, entre colaboradores e usuários, e que os primeiros, estejam efetivamente dispostos e compromissados a ajudá-los.

Os centros de atenção psicossocial têm funções regulamentadas na Portaria n.º 336/GM  Em 19 de fevereiro de 2002 tornando assim uma estrutura padronizada que deve ser seguida em todos os CAPS do tipo I. Essas funções regulamentariam um “padrão” básico de atendimento. A instituição observada trabalha em grande parte, dentro dos parâmetros necessários, e podem perceber-se os esforços em cumprir tais funções. No entanto, existem divergências como se pode observar no quadro a seguir:

Quadro 3: Análise de funções do CAPS.

FUNCÕES DO CAPS SEGUNDO O MINISTÉRIO DA SAÚDE (2013)

FUNÇÕES DO CAPS SEGUNDO A COORDENAÇÃO ONDE REALIZOU-SE O ESTUDO

Oferecer atendimento diário, evitando internações.

Oferece atenção psicossocial básica.

Atender indivíduos portadores de transtornos graves de forma que este, ainda mantenha o vínculo com a família.

Observar junto com a família quais são as necessidades.

Introduzir esses indivíduos no ambiente social.

Visitas domiciliares.

Auxiliar na atenção da saúde mental na rede básica.

 

-

Organizar a rede de atenção mental nos municípios.

Auxiliar no controle das medicações que são fornecidas pelo SUS (sistema único de saúde)

Organizar estrategicamente a política e a rede se saúde mental da região.

-

Promover a inserção do indivíduo por meio das atividades de lazer, exercícios e aproximação com a família.

Acolhimento ao usuário e aos familiares com atividades terapêuticas.

Fonte: As autoras, 2013.

A partir das informações apresentadas, nota-se que embora haja uma deficiência na estrutura funcional, o CAPS analisado fornece atendimento básico e os colaborados estão sempre engajados em proporcionar o bem-estar do usuário e de seus familiares, sendo as deficiências citadas anteriormente, decorrentes da geopolítica do município.

Em relação ao funcionamento diário, percebeu-se em uma análise estreita da resposta, como são compromissados os colaboradores: “quando eles chegam aqui conversamos, orientamos, às vezes nos veem sentadas aqui na frente, mas estamos aqui para que quando chegue alguém darmos assistência, as vezes uma simples conversa ajuda o usuário” (sic). Isto, além das atividades básicas de atendimento. Práticas que se confirmam no trecho de Amarante (1995): “uma prática que reconhece, inclusive, o direito das pessoas mentalmente enfermas em terem um tratamento efetivo, em receberem um cuidado verdadeiro, uma terapêutica cidadã, não um cativeiro”. Observa-se o quão importante é a relação colaborador/usuário, e a forma de atenção voltada aos usuários, afinal, são cidadãos, indivíduos com os mesmos direitos que o resto da sociedade.

Os centros de atenção psicossocial diferenciam-se por alguns fatores, são eles: o perfil da população dos municípios e clientela atendida (ROTOLI, ZANATTA, 2011). De acordo com tais influências, o CAPS onde as informações foram colhidas é considerado um CAPS do tipo I, conforme Amarante (2011) o CAPS I é um centro de atenção psicossocial que oferece atendimento a municípios com população entre vinte mil e setenta mil habitantes, este tende a funcionar das oito até às dezoito horas, de segundas as sextas, neste contexto a uma divergência, pois, a instituição atende somente das sete às treze horas.

De acordo com Amarante (2011), uma iniciativa ousada para a época da reforma psiquiátrica foi à criação de cooperativas de trabalho para os pacientes dos hospitais psiquiátricos, essa pode ser considerada uma base para a formação do CAPS. Algo que confirma essa afirmativa são as oficinas organizadas no CAPS no qual se realizou o estágio, que traz características observadas na primeira cooperativa denominada LavoratiUniti (Trabalhadores Unidos) que tinha como intuito incentivar a reinserção do usuário na sociedade.

As oficinas são estratégicas para o tratamento no CAPS, assim como na própria família, trazendo ao usuário ferramentas para sua reinserção e o rompimento do isolamento através da vivência subjetiva. Aspectos esses que irão promover a reinvenção da vida cotidiana dos indivíduos. As oficinas possibilitam que o usuário retome ou conquiste a sua vida social, tendo autonomia e reconhecimento como cidadão. (SCHRANK, OLSCHOWSKY, 2007)

Neste contexto Lobosque (2007)expressa a importância dos laços afetivos e de reinserção no CAPS: “A promoção de laços sociais é, certamente, função precípua dos dispositivos, das iniciativas e das ações que esse Congresso Brasileiro de CAPS aborda”. Esses laços sociais resumem-se a efetiva participação do indivíduo no meio, este, precisa se sentir parte do ambiente em que vive, sentindo-se útil e “encaixado” nos padrões que o próprio indivíduo absorve da sociedade.

Desta maneira, os respondentes descreveram: “Por isso é tão importante à terapia ocupacional, é bom que eles tenham algo para se ocupar e evitar ter maus pensamentos. Geralmente eles fazem pintura, crochê, artesanato, argila, tem vários tipos de oficina para estarem interagindo” (sic). São estas, as atividades que integram o indivíduo, que os distraem, os fazem sentirem-se uteis, afinal, o CAPS é um centro de “atenção” desse modo deve contemplar aspectos de um ambiente agradável de atenção e não simplesmente atendimento, desta maneira não pode tornar-se um espaço burocratizado e repetitivo, tende a ser um espaço que trata de pessoas e não somente de suas doenças. (AMARANTE, 2011).

Sobre as dificuldades encontradas em realizar o trabalho na instituição, foi notável na fala dos respondentes: “Tem a lista de remédios, não tem como se locomover, falta um carro que se seria necessário ter, e não tem todos os profissionais, seria importante ter um psiquiatra e uma psicóloga que seja apenas do CAPS. O principal seria então os remédios e a exclusividade da psicóloga”. (sic) Percebe-se a dificuldade enfrentada pelos funcionários para exercer um trabalho de qualidade. A junção de todos esses fatores, mais o preconceito da sociedade recrimina os usuários causando certo receio na família, que na maioria dos casos não dispõe do conhecimento necessário para lidar com seu familiar adoecido.

Nesse sentidoSchrank e Olschowsky(2007) questiona o apoio ao familiar do paciente em sofrimento psíquico: Será que a família dispõe de um preparo emocional e assistencial para acolher e cuidar de seu familiar adoecido? Como a família tem participado no resgate da cidadania do doente mental? A família tem recebido orientações suficientes para colaborar no cuidado de seu familiar?

Durante o estudo observou-se que os cuidadores e familiares sentem receio de expor que fazem parte da vida cotidiana dos usuários, evitando assim aproximações com o CAPS e todas as atividades que o envolvam, tornando inviável a integração entre usuário, colaboradores e família.

5. Considerações Finais

Com base nos estudos apresentados pode-se considerar que, o centro de atenção psicossocial no qual realizou-se o estudo faz parte do novo modelo de tratamento de saúde mental que vem sendo moldado desde a reforma psiquiátrica, modelo este, que tem como intuito melhorar o atendimento dos indivíduos com necessidades como estas, inserindo essas pessoas no âmbito social para que possam levar uma vida normal na medida do possível e poder sentirem-se parte igualitária da sociedade .

A partir do estudo realizado, pode-se observar o quão importante é o CAPS para a sociedade, cujas contribuições suprem parte das necessidades dos indivíduos que residem na região. No entanto, a organização, a estrutura e o suporte básico desta unidade de atendimento psicossocial, exibem lacunas as quais impedem o desenvolvimento adequado do atendimento. Por outro lado, os profissionais que ali trabalham expressam total envolvimento e disposição ao atendimento aos usuários.

Cabe aqui ressaltar que o estudo apresentado não esgota o assunto, haja vista que esse é um tema amplo e complexo exigindo maior aprofundamento sobre a as questões debatidas.Portanto, por se tratar de um modelo de tratamento mental que pode ser considerado novo, acredita-se ser necessário que este, ainda seja alvo de grandes pesquisas futuramente.

Sobre os Autores:

Deigna Lais Oliviak - Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Rolim de Moura – FAROL.

Jarismara Quednau - Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Rolim de Moura – FAROL.

Margarida Mônica de Medeiros - Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Rolim de Moura – FAROL.

Maria Camila Barros - Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Rolim de Moura – FAROL.

Eraldo Carlos Batista - Professor do Departamento de Psicologia da Faculdade de Rolim de Moura – FAROL, Especialista em Metodologia e Didática do Ensino Superior, Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal deRondônia – UNIR. E-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

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