Residência Terapêutica: o olhar do profissional de Saúde Mental

Residência Terapêutica: o olhar do profissional de Saúde Mental
(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Resumo: Esta pesquisa teve como objetivo investigar a implantação de Residências Terapêuticas (RTs) enquanto práticas substitutivas em saúde mental, na cidade de São Paulo. Buscou conhecer o funcionamento das residências e verificou como e até que ponto está sendo feita a reinserção de seus moradores na sociedade. A pesquisa foi realizada com 06 profissionais da área da saúde mental que tiveram experiência ou trabalharam diretamente com a Residência Terapêutica, através de uma entrevista semi-estruturada. Para a análise dos resultados, foram separados nove categorias em que se buscou perceber o oculto daquilo que não foi diretamente perguntado. Após a análise das entrevistas, entendemos que o modelo atende à necessidade dos sujeitos desinstitucionalizados, enquanto proposta de moradia, no entanto, muito ainda há por ser feito, desde a sobrecarga de trabalho imposta aos profissionais dos CAPS , até a significativa diferença entre o fechamento de leitos em hospitais psiquiátricos em relação às vagas abertas nas residências terapêuticas e no Programa De Volta para Casa. Porém, considerando todas as circunstâncias que envolvem a desinstitucionalização, a residência enquanto  mais um projeto substitutivo de apoio a saúde mental,  constitui-se em  um grande avanço em relação as condições anteriores a Reforma Psiquiátrica.
Palavras–Chave: Residência Terapêutica, Práticas Substitutivas em Saúde Mental,   Desinstitucionalização.

Esta pesquisa teve como objetivo investigar a implantação de Residências Terapêuticas (RTs) enquanto práticas substitutivas em saúde mental. Buscou conhecer o funcionamento das  residências e verificou como e até que ponto está sendo feita a reinserção de seus moradores na sociedade. Visou aprofundar as reflexões sobre estas propostas de moradias à partir dos depoimentos e experiências apresentadas  pelos profissionais de saúde.

A Reforma Psiquiátrica no Brasil teve inicio no final dos anos 70. É um processo que visa mudança de valores e praticas sociais para uma melhor condição de vida dos pacientes psiquiátricos. A desinstitucionalização tem como objetivo a reinserção social dos pacientes. Para tanto foram criados Serviços Terapêuticos Substitutivos, em especial, as Residências Terapêuticas (BRASIL, 2005).

Essas residências, integradas no espaço urbano, são destinadas às pessoas que estiveram em regime de internação superior a dois anos  e/ou usuários de outros serviços de apoio à saúde mental que perderem seus vínculos sociais e familiares.

 Conforme instruções do Ministério da Saúde, as residências não devem ser vistas como mais um “serviço” de saúde, mas como uma casa para os moradores. Cada moradia deve ser considerada única, buscando se aproximar dos gostos e hábitos de seus moradores. O que diferencia uma residência da outra, é a autonomia de seus moradores, por isso, há residência de cuidado intensivo com a presença de cuidadores 24 horas;  de cuidado parcial com cuidadores apenas durante o dia;  e de alto grau de autonomia com nenhum, ou quase nenhum, tipo de cuidador.  (VIDAL et al., 2008)

O Ministério da Saúde, pela portaria n° 106/2000 introduziu o Serviço de Residência Terapêutica no âmbito do SUS. A implantação da residência terapêutica exige laços entre gestor, comunidade, usuários, profissionais de saúde, rede social de apoio e o trabalho clínico com os moradores. A Residência Terapêutica deve estar vinculada ao CAPS ou outro dispositivo ambulatorial especializado em saúde mental. A equipe do SRT deve ser compatível com as necessidades dos moradores. Portanto, o suporte interdisciplinar deve considerar a singularidade de cada morador, e não apenas os projetos e ações baseados no coletivo (BRASIL, 2004).

WEYLER (2004) salienta a necessidade de verificar até que ponto as práticas manicomiais, continuam existindo sob este novo modelo, já que apenas a transferência de um espaço fechado para o espaço urbano, não garante a “extinção dos mecanismos de exclusão e segregação”. Durante a pesquisa, observou que os moradores continuam a viver nas casas como se estivessem no hospital psiquiátrico, quase não circulam pelo bairro ou pela cidade, e as relações sociais com a comunidade em que estão inseridos, são quase inexistentes.

FREIRE (2006) trata do tema saúde mental, nas Residências Terapêuticas, tendo como pano de fundo pesquisa realizada sobre atenção domiciliar no SUS. O cuidado domiciliar propicia um cuidado mais humanitário, no sentido em que se reconhece o sujeito enquanto ser, inserido em seu próprio espaço de convivência, parentes, amigos, etc. Para tanto, faz-se necessário um aparato, não apenas médico/ psiquiátrico, mas de habitação, cultura, lazer, trabalho, coisas que possam tornar a vida dessas pessoas menos desumanas.

Nossa pesquisa foi realizada com profissionais da área da saúde mental que tiveram experiência ou trabalharam diretamente com a Residência Terapêutica. Por meio de uma entrevista semi-estruturada, os profissionais foram convidados a relatar sua experiência sobre as residências e seu ponto de vista sobre a desinstitucionalização.

As entrevistas foram analisadas pelo método qualitativo, exploratório, mais precisamente, pela análise de conteúdo, em uma abordagem transversal .

CAMPOS (2007) , afirma que a análise de conteúdo vem se caracterizando como mais uma ferramenta para a compreensão dos discursos do ser humano. Para o autor o conteúdo apresentado ao pesquisador pode trazer aquilo que “de fato” o fenômeno apresenta, e torna visível o oculto, elucida o sentido, desvela intenções, compara, avalia, descarta acessórios e reconhece o essencial.

Foram entrevistados seis profissionais da área da saúde mental, em que o critério de inclusão dos sujeitos selecionados para a amostra foi  o de haver tido experiência com moradores de Residências Terapêuticas.

Com a concordância dos sujeitos da pesquisa, a entrevista foi gravada e, posteriormente,integralmente transcrita .

Para a análise e divulgação dos resultados, foram separadas nove categorias que o grupo julgou relevante para  discussão, são elas: o funcionamento das Residências Terapêuticas; as vantagens , desvantagens e/ou dificuldades da Residência Terapêutica; inclusão social; a importância da família na ressocialização do morador na Residência Terapêutica; lazer e trabalho dos moradores da Residência Terapêutica; profissional do CAPS; o papel do  cuidador; e  os reflexos da  desinstitucionalização .

Foram criados nomes fictícios para garantir o sigilo dos sujeitos.

Nome fictício

Profissão

Tempo de Trabalho CAPS / RT

Patrícia

Assistente Social

24 meses

Henrique

Psicólogo

21 meses

Paulo

Psicólogo

13 meses

Beatriz

Psicóloga

08 anos

Joana 

Terapeuta Ocupacional

10 anos

Vera

Terapeuta Ocupacional

26 anos na área de saúde mental

 

Funcionamento das Residências Terapêuticas :

Os seis entrevistados falam sobre um funcionamento normal , como uma casa, onde eles têm atividades diárias, como limpar, lavar roupa, cozinhar, entre outras atividades domésticas.

“(...)  eles têm que ter vida própria, o objetivo é exatamente isso, trazer pra eles a rotina familiar, o cotidiano, atividades, limpeza, higiene, conservação.” (Patrícia)

Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2004), os moradores têm de se apropriar dessa residência, os profissionais que os acompanham devem estimulá-los para que eles programem os próprios hábitos e costumes , realizando essas atividades cotidianas eles vão se reinserindo no processo psicossocial, começando a gerar certo grau de autonomia.

Em cada residência há  oito moradores com transtorno psiquiátrico  grave , que passaram anos em regime de internação ,essas residências podem ser mistas, masculinas ou feminina . Observamos que os moradores não são selecionados por grau de autonomia , conforme o  previsto na Cartilha do Ministério da Saúde ( BRASIL, 2004).

Também segundo os entrevistados a residência tem acompanhamento de um coordenador e nove  acompanhantes terapêuticos, incluindo os contratados para

“cobrir” folgas, que dividem os turnos para acompanhar os moradores, o que é fundamental para o funcionamento da residência ,  o Ministério da Saúde , previa 01 acompanhante noturno e dois diurnos.  (BRASIL,  2004)

 Os outros serviços de saúde do bairro (CAPS, UBS) tem vínculo com a residência, sendo essencial para oferecer ao morador o tratamento necessário.

“(...) ela é privilegiada, pensada pra pessoas que tiveram mais de dois anos de internação (...) a estrutura (...) suporta hoje sete cuidadores de saúde, um coordenador e a residência articulada ao CAPS. ” (Henrique)

Vantagens da Residência Terapêutica

De acordo com as entrevistas analisadas, podemos inferir que a vantagem principal é ter uma  residência com características pessoais ,“(...) então é uma grande vantagem né, pessoas que moravam em hospital psiquiátricos, por uma série de condições né, de miséria também, de abandono, de maus-tratos, hoje tem um lugar pra residir né e aí pensa-se então em muito mais possibilidades de tratamento né, aí sim começa-se a poder tratar né”( Henrique ) ,a entrevistada Beatriz declara: “Acho que a primeira e fundamental é ver uma pessoa que passou vinte e oito anos num hospital psiquiátrico poder, de novo, finalmente, voltar a andar na rua né, assim, ver outras pessoas né, então, realmente, é um recurso substituível... substitutivo do manicômio”. Estas afirmações estão de acordo com Freire (2006) quando afirma que a convivência em ambiente domiciliar proporciona maior noção de cidadania e inserção social.

Desvantagens e/ou dificuldades da Residência Terapêutica

Quando perguntados  sobre as desvantagens dos serviços de residências terapêuticas dois dos seis entrevistados apontaram como desvantagens a restrição da população atendida pelo serviço de residência terapêutica e o alto custo para manter as moradias.

“(...)Então assim, acho que ela ainda não consegue abarcar determinadas coisas né, e assim é muito recente né, então assim, ainda tem muita coisa pra gente construir (...)” (Beatriz)

Olha desvantagem, tem o custo né, (...).  relativamente alto, pra se manter uma moradia assistida, por outro lado dane-se né, por ser público e faz parte esse custo alto ....” (Paulo).

FREIRE(2006) , diz que  o processo de desospitalização para as RTs , é um investimento de alto custo. No entanto, os resultados obtidos mostram que o investimento vale a pena, pois dá a essas pessoas condições de vida mais dignas, certo grau de autonomia, melhor relacionamento entre os moradores e a comunidade. 

Inclusão social

Na categoria de inclusão social, dentre os seis entrevistados, quatro deles concordam que a inclusão social está relacionada ao indivíduo ter maior autonomia psicomotora,         “(...) reconstruir, eu acho que, uma autonomia... é... motora... é... de independência, pragmática, mas também, eu acho que alguma autonomia psíquica ” (Beatriz), de acordo com Leão e Barros (2011), a internação de pessoas com transtornos mentais deixou de lado as relações familiares e sociais interferindo no processo de saúde e doença mental, fazendo com que o indivíduo perdesse a sua autonomia e excluindo-o da comunidade.

Para a reinserção na comunidade, três deles citam que a inclusão depende dos profissionais da área da saúde (cuidador, acompanhante terapêutico, profissional do CAPS) para fazer essa articulação entre a comunidade e os moradores.

“(...) a idéia mesmo é tanto o CAPS quanto a equipe de cuidadores e a coordenação da residência né, é.. pensar políticas né, estratégias de...de integração (...)de sensibilização né das pessoas com relação a casa, com relação aos moradores, (...) apresentar o vizinho pro morador, bater papo, facilitar esse trânsito” (Henrique)

“Então o que pode promover maior inserção é essa dupla coisa. É o serviço de saúde ativar mais recursos no território, trabalhar de forma a integrar mais as suas ações” (Joana)

Um dos objetivos da residência é a integração entre os moradores com a comunidade, gestor, profissionais da saúde, rede de apoio. O Ministério da Saúde (BRASIL, 2004) cita que o trabalho do acompanhante terapêutico, é muito importante para o morador se reapropriar do espaço urbano e ajudar na aquisição de autonomia.

Além de a residência ser uma forma de inclusão social quatro deles citam que os outros dispositivos também incluem os moradores, tais como CAPS, Hospital Dia, Centros Comunitários, oficinas de trabalho, escola, fisioterapia que são recursos para integrar mais as ações dos moradores na comunidade.

“alguns moradores frequentam o CAPS, frequentam o Centro de Convivência né pra sua inserção social, inserção dentro do território né, então tem moradores que frequentam escolas do território né, saem vão pra feira” (Vera)

Segundo LEÃO E BARROS  (2008) o CAPS está se destacando dentro do contexto da política de assistência à saúde, por ter papel de articulador da rede de cuidados com saúde mental, aliando-se também a outros programas e ações como estratégia para reverter o modelo de assistência hospitalar psiquiátrica ,oferecer tratamento clínico , favorecendo a inserção do individuo na comunidade.

A importância da família na ressocialização do morador na RT

Dentre os seis entrevistados, todos concordam que a reintegração com os familiares é fundamental.

Nem todas as famílias acompanham adequadamente esses moradores, pois sentem temor de recebê-los de volta. O contato com esses familiares é muito difícil, visto que muitos não têm informação de sua família, ou mesmo, não têm mais familiares : “(...) aí você começa a ir um pouco atrás disso e ás vezes consegue localizar a família, reintegrar-los a família, muitas vezes  no inicio é muito difícil, que a família fica com medo e parece que vai ser devolvido, não quero de volta, então muitas vezes assim parece que fecha as portas, é super  resistente não quer conversar ”(Beatriz)

Esse trabalho começa , através das lembranças dos moradores, a partir de onde o coordenador da residência,dá inicio a busca pela família, “(...) a residência começa a acompanhar o caso da pessoa, o morador começa a entrar em contato, vê da onde é, retoma o contato com as famílias né (...)”(Henrique)

Para SANTOS (2009) a família é essencial na vida do ser humano, e o doente mental mais do que qualquer outro sujeito precisa muito de seus familiares, já que é na família que eles poderão encontrar carinho, amor, segurança e que isso é fundamental para o progresso do  tratamento .

Lazer e Trabalho dos moradores da Residência Terapêutica (RT)

Nesta categoria, dos seis entrevistados, cinco relatam a inexistência de um projeto específico desenvolvido pelas residências para a capacitação profissional dos moradores, e que é através do vinculo com o CAPS que as residências tem parceria com projetos de geração de renda: “Que eu conheça formal não, o que tem são é... projetos ligados aos CAPS (...)existem oficinas de trabalho, é.. projetos né de renda, de economia solidária né(...)” (Henrique)

A residência capacita esses sujeitos cada vez mais em direção ao resgate da autonomia, é através desse resgate que os próprios moradores buscam capacitações, cursos, escolas, etc.  “(...) a própria residência ela vai propiciando autonomia e através dessa autonomia, as pessoas vão buscando, buscando escola, então vão se capacitar, se capacitando pelos meios que a gente tem dentro da sociedade, né...” (Vera).

Segundo SALLES E BARROS (2009), após o adoecimento mental há menos opções sociais e a interrupção das atividades anteriormente realizadas , porém os pacientes podem encontrar outros afazeres e novas possibilidades sociais.  

“Se o indivíduo tem atividade e procura desenvolver algum trabalho por mais simples que seja, ele vai deixar de tomar mais remédio e vai ser um indivíduo mais ativo, porque o ócio é degradante ,(...) tá sempre em situação é, de um cidadão de segunda classe” (Patrícia).

Segundo Foucault (1978), foi justamente esta lógica capitalista que deu início em 1656, aquilo que se convencionou chamar de a Grande Internação, com o encerramento e isolamento dos loucos, mas eles não foram sozinhos, pois todos os grupos tidos como marginais, foram recolhidos nessas casas de internamento, isto porque o que se objetivava era a repressão da ociosidade e da mendicância. Não sendo produtivo, o louco, era também associado a classe dos vagabundos e ociosos.

O CAPS também tem atividades diárias, onde os moradores podem se quiser  participar. O lazer acontece à partir da gradual  retomada da autonomia , cada morador passa a escolher o que quer fazer dentro da própria casa:  “(...) como  é que a gente pensa o lazer dentro de um sujeito, o que eu penso em fazer aos finais de semana né, penso em ir ao cinema, penso ir ao shopping, penso em comer uma pizza , e eles realizam essas atividades (...)” (Vera)

Neste sentido, Camargo (1989) define lazer como “um conjunto de atividades gratuitas, prazerosas, voluntárias e libertárias centradas em interesses culturais, físicos, manuais, intelectuais e associativos, realizadas em tempo livre”. (CAMARGO, 1989, pg. 97) .

O “trabalho” realizado pelos moradores são os trabalhos domésticos, os cuidados diários com a casa : “(...) essas atividades cotidianas né, tem que cuidar da casa né, tem que lavar roupa, tem que fazer comida....” (Paulo), pois o foco primeiramente é resgatar a identidade e a autonomia do sujeito.

Profissional do CAPS

Em relação aos profissionais do CAPS, há unanimidade entre os entrevistados de  que eles  têm  bastante conhecimento sobre o assunto.Os profissionais do Caps,  não têm nenhum treinamento específico para trabalhar nas Residências Terapêuticas, mas os entrevistados ressaltam que ,eles  precisam, pelo menos, entender o que é uma RT  e qual o seu objetivo, “Então porque um bom funcionário de um CAPS precisa né, a priori entender o que é uma residência terapêutica, já conhecer né”. ( Henrique )

Segundo MIELKE (2009), O CAPS trabalha com uma equipe multiprofissional e as atividades desenvolvidas neste espaço são diversificadas, para Patrícia: “Quando o CAPS conta com uma equipe multidisciplinar que tem Terapeuta Ocupacional e outros é desenvolvida varias atividades”.

O trabalho de um profissional do CAPS que trabalha na Residência varia bastante , conforme cada Residência, mas o que mais se destaca nas entrevistas é a função de ajudar a capacitar e instrumentalizar os acompanhantes, trazer segurança para os moradores, tentar encontrar e manter vínculos com as famílias, ajudar os moradores em processos burocráticos, como tirar os documentos, quando não os tem e principalmente, fazer tudo com a intenção de construir um lar, de ajudar a tirar o estigma de paciente, de estar preso, buscando inserir o morador na sociedade e propiciar a ele uma vida mais livre.

Esse trabalho pode ser exemplificado na fala de Beatriz: “acho que uma grande parte do nosso trabalho, desde o começo, quando a gente pensa no coletivo, é isso... é construir um lar né (...) E ajudá-los a constituir mesmo um espaço em que as relações comecem a se estabelecer né (...)a gente vai tentar ai né, retomar o contato com a família e tentar montar algum tipo de projeto, não sabemos ate que ponto a gente consegue ir “. De acordo com MIELKE (2009), há uma preocupação com relação ao risco de manicomialização destes serviços, visto que muitos de seus profissionais trabalham ou trabalharam em hospitais psiquiátricos, havendo assim, necessidade de educação em serviço, maiores investimentos em estudos e pesquisas na área. Percebemos isso com a fala de Henrique: “Tem muito profissional de CAPS que ainda trabalha com mentalidade antiga, mentalidade mais asilar, mais de hospitais”.

Para esta mesma autora, muitos profissionais relatam o forte vínculo que é criado entre eles e os usuários, o que é visto pela equipe como facilitador no tratamento, “o vínculo do CAPS é muito forte com a residência (...) Esse vínculo é fundamental”. E de Joana: “os usuários vão te tomando como referencia mais do que o profissional medico porque muitas vezes você acompanha, ta do lado”.(Beatriz).

Cuidador

Conforme, o  Ministério da Saúde (BRASIL, 2004), a Lei nº 10.507/2002 diz que para o exercício da profissão de agente comunitário é necessário residir na área em que vai atuar, ter concluído o ensino fundamental e realizar o curso de qualificação básica para a formação de agente comunitário de saúde.  De acordo com o relato dos seis entrevistados, cinco deles concordam com a idéia de que o cuidador, ou melhor, o agente comunitário como eles denominam,não precisam ter uma formação específica, apenas o segundo grau completo. “ (...) os acompanhantes, eles não tem formação, nenhuma formação, eles tem segundo grau, por exemplo, (...)” (Beatriz).

Porém um dos entrevistados discordou da opinião do restante, dizendo:

“(...) eu acho que você tem que ter alguma experiência em saúde mental sem dúvida né, você tem que ter experiência em saúde mental é (...) eu não acho que é totalmente imprescindível a graduação, mas eu acho que faz diferença, faz né (...)” (Paulo).

Dois dos entrevistados citam que a capacitação dos agentes comunitários, é feita a posteriori , com o apoio do CAPS.  De acordo com uma das entrevistadas, depende do interesse, disposição  e vontade de cada cuidador, fornecer jogos, passeios, oficinas, atividades que  propiciem  socialização e distração para os moradores.

A carga horária destes profissionais é:

“Eles trabalham 12x36 né, então eles trabalham um dia no outro eles folgam né, assim, e ai se revezam então essas duplas né (...)”(Beatriz).

Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2004), durante a manhã ficam dois cuidadores na Residência e no período da noite apenas um, que  é essencial a existência de um ou mais profissionais de referência para cada morador . Na residência que visitamos, há sete moradores e nove cuidadores ( incluindo os folguistas) , ou seja número muito superior ao proposto pelo Ministério da Saúde, que também prevê um projeto terapêutico individual, o que não foi observado nas entrevistas, nem em nossa visita à Residência Terapêutica. O que observamos, é que há uma dependência muito grande dos moradores em relação aos cuidadores e que toda e qualquer atividade que eles venham a exercer, tais como lazer,inserção na comunidade   depende da disposição e qualidade do serviço do cuidador.

A  desinstitucionalização e as Residências Terapêuticas:

Dentre os seis entrevistados, todos entendem que o processo de desospitalização e as RTs, foram conquistas importantes  para os pacientes e com resultados positivos e significativos quando comparados aos pacientes asilados. No entanto, quase todos fazem ressalvas de que muito ainda há por ser feito:

“A desinternação deveria no meu ponto de vista, ser feita com mais cautela  (...) Existe sim, um interesse muito grande de organizar  essa, essa estrutura do doente psiquiátrico, mas ainda há muito por fazer, nós estamos engatinhando.”(Patrícia)

Neste sentido, PAULON (2003) diz que desospitalizar não é apenas desmontar o complexo psiquiátrico, derrubar muros, é preciso por parte dos profissionais da saúde mental uma nova  mentalidade que permita desinstitucionalizar o próprio conceito de loucura. Para a autora, esta mudança não ocorre por força da lei ou outros aparatos jurídicos e sim através de uma trabalho pedagógico de conscientização, tanto dos profissionais da saúde mental, como também da sociedade.

ela não é um processo simples né, não é só tirar do hospital que é desinstitucionalizar (...) essa desinstitucionalização prática né, que tira da instituição manicomial, mas pra qual instituição a gente leva também né, por mais que, tem essa discussão né, muitas vezes o hospital funciona dentro da residência também né, a lógica institucional acompanha não é porque tá na residência que deixa de ter uma lógica hospitalar”(Henrique)

AMARANTE (1995) diz que desospitalizar, significa retirar o sujeito do complexo hospitalar e enviá-lo para casa, enquanto que desinstitucionalizar é um processo muito mais amplo, é superar conceitos de que doença implica em “falta e erro”. Desinstitucionalizar na visão do autor, significa desconstruir práticas antigas, não apenas medicar ou fazer psicoterapia, mas permitir que o sujeito se torne um sujeito de direitos, de cidadania e não apenas um objeto do saber médico/psiquiátrico, e dentro deste processo, a ética é fundamental.

“(...) a residência terapêutica ela é um dispositivo não só pra quem não tem casa. (...) Na residência é uma coisa. É muito bonito o processo.. .a vida apropriada pelos moradores, e uma prática emancipadora (...) essa coisa de ver as pessoas sentando na reunião e conversando (...) O morador falando, como é que a gente faz pra defender nosso projeto?!  (...) os caras já começam a perguntar, cadê a pintura da casa? A casa é minha! Então é bacana ..”(Joana)

FERNANDES  (apud WEYLER, 2004) diz que a casa para o sujeito psíquico tem como função situar o “dentro e o fora”, permitindo assim ordenar as experiências e a constituição da subjetividade. Tendo os hospícios e manicômios como casa, estes são excluídos do convívio social, mantendo os cidadãos protegidos, dos perigos da loucura, legitimados, por um saber médico e científico, que os caracterizam como “perigosos e incapazes”.

(...) um morador que olha dizia um provérbio “que o homem é, tem que ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro, e eu queria ter uma casa, e agora eu tenho uma casa” (...) é devolver a vida pras pessoas né, as pessoas poderem ter de fato um espaço que não um canto do hospital psiquiátrico, com várias questões de maus-tratos né, impedimento da própria vida, sem documentação, sem desejos, tolhidos né de várias questões, eu acho que isso é um grande marco mesmo, eles avançaram.” (Vera)

Conforme Amarante (1994), ainda não é permitido ao louco viver a sua loucura, mas é preciso garantir cidadania, o direito de ser cuidado, permitir que ele seja um “sujeito de desejos e projetos”. 

Considerações finais:

Após a análise das entrevistas, a pesquisa bibliográfica e  visita a uma  Residência Terapêutica, entendemos que o modelo atende à necessidade dos sujeitos desinstitucionalizados, enquanto proposta de moradia. Considerando todas as circunstâncias que envolvem a desinstitucionalização, a residência enquanto  mais um projeto substitutivo de apoio a saúde mental,  constitui-se em  um grande avanço em relação as condições anteriores a Reforma Psiquiátrica.

O trabalho das residências terapêuticas está sendo feito de maneira gradativa. A cidade de São Paulo, conta com apenas 23 RTs, até o presente momento.

O despreparo das famílias para  abrigar e conviver com esse sujeito desinstitucionalizado, foi citado por todos os entrevistados, mas acreditamos que a implementação de um projeto oficial, de apoio social e psicológico para essas famílias, conforme previsto no Manual do CAPS , seria um importante  facilitador para o convívio familiar.

No âmbito do trabalho também não há nenhum programa implantado, o que não necessariamente é um problema, pois a proposta da reforma psiquiátrica não é tornar o sujeito produtivo , mas sim que seja reinserido na  sociedade.

Entendemos que o papel do acompanhante terapêutico ( ou cuidador) , é extremamente importante para o sujeito que  retorna ao convívio social após  anos de internação, porém é importante que este respaldo diminua gradativamente, propiciando ao sujeito a oportunidade de resgatar  seus gostos e interesses,adquirindo hábitos que vão desde cuidados pessoais e higiene, até o convívio social, permitindo assim, a gradual reconquista da autonomia.  

As residências não são separadas por grau de autonomia de seus moradores, nem tampouco possuem um projeto terapêutico individual, conforme a proposta inicial do programa, o que julgamos importante uma vez que , isso  possibilitaria a implantação de projetos específicos de acordo com a necessidade de cada morador.

Não foi objeto de nossa pesquisa os critérios adotados para a  seleção dos pacientes que são transferidos para as RTs, porém, destacamos a importância da presença de uma equipe multidisciplinar, da qual faça parte um psicólogo que contribua não apenas no processo de  seleção , como também para a melhoria das relações sociais, familiares e subjetivas dos moradores.

No relacionamento com a comunidade, os entrevistados relatam haver certa rejeição , mas que após o estranhamento inicial, aos poucos a convivência se harmoniza, a comunidade começa a interagir com os moradores  quebrando tabus e preconceitos.

 Por fim, durante nossa visita a residência , foi possível verificar que o funcionamento da casa é compatível com o que os entrevistados relataram. No entanto, muito ainda há por ser feito, uma vez que a rede de assistência à saúde infelizmente ainda é inadequada, não só para os portadores de distúrbios psiquiátricos, mas para toda a população que depende do serviço público de saúde. Os profissionais dos CAPS estão sobrecarregados, pois se constituem no mais importante vinculo das residências. È importante ressaltar, que dependendo da localização os Caps são mais equipados, enquanto em outras o atendimento é precário, 90% deles não funcionam 24 horas, e os 10%  restantes, muitas vezes não têm psiquiatra de plantão, o que inviabiliza a proposta de atendimento terapêutico para as famílias  , visitas domiciliares e  atividades de ensino ao núcleo familiar com vistas a facilitar a  volta do paciente para casa ;  atividades comunitárias com associação de moradores de bairros facilitando as trocas e a inserção das residências nas comunidades, dentre outros serviços previstos no Manual do Caps. Em alguns, não há a presença de Psicólogos, como parte da equipe, o que impossibilita outro serviço previsto no Manual que é o atendimento em grupo ou individual para o paciente e suas famílias , em outros não há Terapeuta Ocupacional, o que prejudica  a proposta de oficinas terapêuticas, oficinas geradoras de renda, etc.... No entanto, seus profissionais devem ser valorizados, pois fazem aquilo que é possível com os recursos disponíveis.  

Outro fato, que nos chamou a atenção foi  a significativa diferença de  fechamento de leitos em hospitais psiquiátricos quando comparados às vagas abertas nas residências terapêuticas e no Programa De Volta para Casa, que dada a sua importância e relevância merece  ser objeto de uma pesquisa futura.

Sobre o Artigo:

Artigo elaborado para o curso de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, sob orientação da Profª. Drª Dinorah Fernandes Gioia Martins.

Referências:

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AMARANTE, Paulo. Novos Sujeitos, Novos Direitos: O Debate sobre a Reforma Psiquiátrica no Brasil. Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 11 (3): 491-494, jul/set, 1995.

 BRASIL. Ministério da Saúde. Residências Terapêuticas: o que são, para que servem. Brasília, DF, 2004.

 BRASIL. Ministério da Saúde. Reforma psiquiátrica e política de saúde mental no Brasil.. Brasília, DF, 2005

 CAMARGO, Luiz Otávio de Lima. O que é Lazer. São Paulo. Brasiliense, 1989.

 FREIRE, F. H. M. A. Residência Terapêutica: Inventando novos lugares para se viver. Dissertação (Mestrado, curso de mestrado em enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro). Rio de Janeiro, 2006.

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