Tentativas de Autoextermínio em Adolescentes Acolhidos no Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil – CAPSi – do Município de Itabira-MG

Tentativas de Autoextermínio em Adolescentes Acolhidos no Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil – CAPSi – do Município de Itabira-MG
(Tempo de leitura: 7 - 13 minutos)

Resumo: A adolescência é um período delimitado por transformações que podem acarretar grandes dificuldades de adaptação e conflitos que veem acompanhados de problemas emocionais. O presente artigo teve como objetivo estudar as variáveis sexo, idade e motivação nas tentativas de autoextermínio de adolescentes de 10 a 18 anos, acolhidos no CAPSi de Itabira-MG, no período entre janeiro de 2010 e abril de 2011. Os resultados alcançados comprovaram que houve maior prevalência em adolescentes do sexo feminino, sendo a idade mais atingida dezesseis anos. No quesito motivação, o índice mais alto deveu-se a ambiente familiar conflituoso. Os resultados alertam para a necessidade de desenvolvimento e implementação de políticas públicas preventivas, no sentido de dedicar maior atenção a esses jovens, assistindo-os dentro de seu contexto socioambiental.

Palavras-chave: Tentativa de Autoextermínio, Adolescente, CAPSi, Cidade de Itabira, Minas Gerais.

1. Introdução

O presente artigo teve como objetivo estudar as variáveis sexo, idade e motivação nas tentativas de autoextermínio de adolescentes de 10 a 18 anos acolhidos no CAPSi de Itabira-MG, no período de janeiro de 2010 a abril de 2011.

A adolescência é um período delimitado por grandes transformações biológicas, físicas, psicológicas e sociais e, também, pela busca da identidade. Tais mudanças podem ser acompanhadas de grandes dificuldades de adaptação no que se refere à imagem corporal, aceitação no grupo de amigos, conflitos relativos ao início da vida amorosa e sexual, problemas familiares, experimentação de álcool e/ou outras drogas, entre outros. Esses conflitos acarretam problemas emocionais como baixa autoestima, tendência à depressão, ansiedade, insegurança, sentimento de onipotência, isolamento e labilidade emocional.

Um estudo realizado em noventa países estimou em 7,4/100 mil a taxa de suicídios entre jovens de 15 e 19 anos (WASSERMAN, D; CHENG, Q; JIANG, GX, 2005). Segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS (2000), os jovens brasileiros correspondem ao grupo cujas taxas de suicídio mais cresceram durante os últimos 20 anos. Somente em Minas Gerais, pelos dados da Secretaria de Saúde, no ano de 2006 a mortalidade decorrente de lesões autoprovocadas voluntariamente apresentou uma porcentagem de 7,5% entre jovens de 20 a 29 anos de idade.  Um estudo realizado por Souza, Minayo & Cavalcanti (2006) demonstra que as taxas de suicídio em Itabira são mais elevadas do que as da população brasileira. Na conclusão de seu estudo, os autores apontam para o desconhecimento da implantação de normas e rotinas para a notificação desse problema, que é notório na saúde pública do município estudado. Ressalta-se, ainda, a necessidade de que sejam promovidas discussões acerca de programas, tratamentos e prevenção para os grupos mais vulneráveis ao suicídio, que podem ser detectados pelos Programas de Saúde da Família, mas que necessitam, também, de atenção profissional especializada. A nosso ver, no caso de adolescentes, um dos dispositivos dessa atenção especializada poderia ser o CAPSi.

O assunto relacionado à tentativa de autoextermínio de crianças e adolescentes constitui temática relevante para a área de saúde mental. Durante cinco anos, observou-se o crescimento acentuado do número de acolhimentos de adolescentes, encaminhados pelo Pronto Socorro, pelo Programa de Saúde da Família - PSF, ou por uma escola, além de demanda espontânea, após terem cometido atentado contra a própria vida.

As variáveis idade, sexo e motivação caracterizam a população de risco, o que pode facilitar uma política de previsão, promoções de prevenção e melhor adequação ao tratamento desse comportamento causador de sérios problemas psicológicos e sociais além dos físicos, em sujeitos que ainda estão construindo sua identidade e ocupação na vida.

2. Metodologia

Foi realizada uma pesquisa documental nas fichas de acolhimentos e/ou prontuários de adolescentes, observando-se a faixa etária de 10 a 18 anos. Segundo a OMS, a adolescência teria início aos 10 anos de idade e fim aos 19 anos. Porém, o público atendido nos CAPSi é de 0 a 18 anos. Dentre todos os acolhimentos feitos de janeiro de 2010 a abril de 2011, foi feito um levantamento daqueles encaminhados por tentativa de autoextermínio. Foram identificadas as variáveis idade e sexo, e sua análise quantitativa foi expressa em gráficos. Posteriormente, realizou-se uma análise qualitativa das queixas e motivações que levaram esses jovens à tentativa de autoextermínio, também expressa em gráfico. Nesse item, foram incluídos depoimentos de trechos encontrados nos prontuários.

3. Apresentação e Discussão dos Resultados

Foram selecionados prontuários dos pacientes do CAPSi de janeiro de 2010 a abril de 2011. As informações contidas nesses documentos foram concedidas pela coordenação geral da saúde mental da cidade referida. Dentre os 254 casos acolhidos nesse período, foram analisados 35 prontuários de pacientes que cometeram tentativa de autoextermínio por motivos diversos.

De acordo com as variáveis relativas a sexo, notou-se que em 94% dos casos, a prevalência é feminina.

Figura 1: Sexo dos sujeitos que foram acolhidos no CAPSi de Itabira-MG por tentativa de autoextermínio, de janeiro de 2010 a abril de 2011.

Fonte: Prontuários do CAPSi; Itabira, 2010/2011

Figura 1: Sexo dos sujeitos que foram acolhidos no CAPSi de Itabira-MG por tentativa de autoextermínio, de janeiro de 2010 a abril de 2011.

Segundo Cassorla (1994), quanto ao sexo, os homens apresentam uma frequência de suicídio três vezes maior que as mulheres. Essa relação é constante nas diferentes faixas etárias; contudo, para o sexo feminino, a chance de cometer tentativas de suicídio é de três a quatro vezes maior. Teixeira (1997) conclui que o sexo feminino sobressaiu-se nos 4 anos dos diagnósticos de suicídio e lesões autoinfligidas. Ao analisar os prontuários e conversar com outros profissionais a respeito do sexo de adolescentes atendidos após cometerem tentativa de autoextermínio, apenas duas profissionais acolheram dois pacientes do sexo masculino desde dezembro de 2006, quando se deu a abertura do CAPSi de Itabira.

Com relação à idade, pode-se verificar, na figura 2, que há um destaque maior em sujeitos com 16 anos de idade, o que corresponde a 31%. A seguir, aparecem os sujeitos com idade de 17 anos, o que corresponde a 23%. Nota-se que há tentativas em todas as idades que correspondem à adolescência.

Figura 2: Idade dos sujeitos que foram acolhidos no CAPSi de Itabira-MG por tentativa de autoextermínio, de janeiro de 2010 a abril de 2011.

Fonte: Prontuários do CAPSi; Itabira, 2010/2011

Figura 2: Idade dos sujeitos que foram acolhidos no CAPSi de Itabira-MG por tentativa de autoextermínio, de janeiro de 2010 a abril de 2011.

Conforme pode ser observado na figura 3, há diversas queixas que motivaram as adolescentes a atentarem contra suas próprias vidas.

Percebe-se uma maior frequência de queixas relacionadas a conflitos familiares (37%). Entende-se por conflitos familiares, os lares onde há desorganização do par parental e brigas constantes entre os familiares. Em seus depoimentos, a maioria dessas adolescentes fala do abandono por parte do pai ou da mãe, de constantes brigas com padrastos, mãe e irmãos.

Alguns trechos retirados dos prontuários podem ser destacados: “Tenho vontade de matar meu padrasto; meu pai, que está preso disse que pode mandar fazer o serviço”. “Infelizmente meu pai mora comigo, ele bebe muito, é muito ignorante e bate em todos lá em casa; agora o Conselho Tutelar falou com ele que ele vai ter que parar de bater, senão vai expulsá-lo de casa”. “Ninguém me quer mais onde eu moro, ninguém confia em mim, Tomei chumbinho porque eu estava revoltada, dependendo de favor; a família não me aceita e não tem confiança em mim”. “Não gosto do meu pai, ele é ausente, ter ou não ter é a mesma coisa”. “Meu pai só me ligou uma vez enquanto eu estava no hospital e, mesmo assim, nem tocou no assunto”. “Minha mãe diz que não sou filha dela.”

Em seguida, destaca-se a queixa de um episódio depressivo (10%). Nesse quesito, a adolescente, muitas vezes, não soube definir o que a motivou. Fala de sentimentos de tristeza, desânimo, vontade de morrer. “Eu desisti de mim”. “É mais forte do que eu imaginava”. “Deus tem que me ajudar a ir para o outro lado, porque não vejo nenhuma graça em viver”.  “Eu tenho baixa autoestima, às vezes dá um aperto no peito, medo de acontecer alguma coisa”.  “Não quero mais viver nesse mundo”. “Passava 24 horas chorando”.

A próxima queixa diz respeito à decepção amorosa (6%). As adolescentes atendidas no CAPSi relataram que foram abandonadas ou rejeitadas pelos namorados, além disso, falam sobre maustratos cometidos pelos companheiros. “Hoje, ele só beija eu quando está na frente dos outros, fala comigo que não gosta de mim, briga quando vê a casa desarrumada, quando a janta não tá pronta. Penso em separar, mas não consigo porque gosto demais dele” (sic). “Ele não gosta que eu saio”. “Eu me cortei foi por causa da minha mãe e de um menino que eu gosto há 4 anos e não vai pra frente” (sic).

No quesito abuso por violência (10%), as pacientes relatam episódios de agressão física e psicológica por parte de familiares (pais, mães, padrastos, irmãos): “Minha mãe me dá tapa na cara, quebrou o cabo de vassoura nas minhas costas”. Outra paciente afirma que o pai toma medicamentos psicotrópicos e bebe, ficando agressivo e batendo em todos em casa.  “Meu pai é muito ciumento e faz tratamento devido à depressão. Já me bateu muito, quase me cegou. Minha irmã mais velha também bate em mim”.

Nos casos em que a motivação é a gravidez (7%), adolescentes relatam que foram expulsas de casa pelos pais, estão grávidas de um homem compromissado ou, ainda, que o marido/namorado as abandonou. Uma paciente queixa-se que teve uma gravidez psicológica e sofreu bullying na escola, em casa e na vizinhança. Uma paciente, aos quatro meses de gravidez,  atirou-se da janela porque o marido havia saído de casa.

As adolescentes que citaram como motivo de tentativa de autoextermínio o envolvimento com álcool e outras drogas (6%), dizem que esse é o motivo de estarem agressivas e/ou deprimidas. Uma delas conta que a mãe, usuária de cocaína, teve um infarto por superdosagem e, então, atirou-se na frente de um carro após ter feito uso da droga.

Algumas pacientes expressam sentimento de culpa por algum motivo (3%); uma delas assume um envolvimento amoroso com o padrasto, o que provoca culpa em relação à mãe. Outra diz que não merece a família que tem. Duas delas alegam que deviam ser felizes e não o são. Uma paciente diz que é culpada pelo desentendimento dos pais.

No que diz respeito à queixa não especificada (11%), há depoimento em que a adolescente não consegue determinar uma queixa que a motivou: “Desde o início do mês, venho pensando em tirar minha vida, não tem porque, está tudo bem em casa, na escola, não aconteceu nada.”

No quesito “outros” (10%), podemos identificar como queixa os problemas mentais da mãe e história de autoagressão. Uma paciente que cortou os pulsos conta que a mãe já tentou autoextermínio na sua frente várias vezes, tomando remédios, cortando os pulsos. Outro sujeito diz que não consegue aprender na escola. A mãe de um garoto, que não fala sobre o ocorrido, afirma que quando o filho era pequeno, viu o vizinho morto após se enforcar.

Figura 3: Fatores que motivaram a tentativa de auto-extermínio em adolescentes acolhidos no CAPSI de Itabira-MG, no período de janeiro de 2010 a abril de 2011.

Fonte: Prontuários do Capsi; Itabira, 2010/2011.

Figura 3: Fatores que motivaram a tentativa de auto-extermínio em adolescentes acolhidos no CAPSI de Itabira-MG, no período de janeiro de 2010 a abril de 2011.

4. Considerações Finais

Sendo a adolescência um período de descobertas, no qual há uma relação com o porvir e o “novo”, destaca-se o número de jovens nessa fase que atenta contra sua própria vida. O presente estudo revela que é relevante o número de adolescentes, entre 10 e 18 anos, que foram acolhidos no CAPSI de Itabira, no período de janeiro de 2010 a abril de 2011 devido a esse fato. Foram 35 jovens, o que aponta uma média de 2,3% ao mês, observando-se que até a data presente ainda houve novos acolhimentos por esse motivo.

Os números apontam para uma prevalência do sexo feminino. A maioria usou métodos de ingestão medicamentosa. Esse fato corrobora várias pesquisas que apontam que há uma maior prevalência de depressão e tendência à introspecção entre as meninas, enquanto que os meninos tendem mais à ação.  Podemos verificar que essas tentativas acontecem entre todas as idades consideradas como fase da adolescência pela Organização Mundial de Saúde.

Em geral, esses adolescentes expressam um sentimento de tristeza, impotência diante de conflitos familiares. Alguns falam da necessidade de se fazerem ouvidas, respeitadas e entendidas. Muitas vezes, notou-se que a decisão de tirar a própria vida foi antecedida de sofrimento ou dificuldade em resolução de problemas.

Esses resultados apontam para a necessidade de uma maior atenção a esses jovens, no sentido de prevenção e promoção de programas que os assistam dentro de seu contexto socioambiental. É necessária a capacitação dos diversos profissionais que lidam com adolescentes, sejam eles professores, psicólogos, assistentes sociais, enfim, de toda a rede envolvida. Além disso, é preciso ampliar as possibilidades de lazer, cultura e profissionalização. Daí a importância do apoio social  e assistencial  a esses jovens , resgatando seu valor na sociedade, como sujeitos que merecem ter voz e atenção.

Sobre o Artigo:

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Programa de pós-graduação em Saúde Mental no Contexto Multidisciplinar orientado pelo professor  Marcos Klipan - Instituto Eficaz de Maringá/PR.

Sobre o Autor:

Luciana Gonçalves da Silveira - Profissional de Saúde Mental na prefeitura de Itabira - MG. Trabalhou no CAPSi e atualmente atua no NASF apoiando equipes do PSF. O artigo é o trabalho de conclusão do curso de Pós-graduação em Saúde Mental no Contexto Multidisciplinar.

Referências:

WASSERMAN, D, CHENG, Q; JIANG, GX.  Global suicide rates among Young people aged 15-19.  World Psychiatry, v. 4, p. 114-120, 2005.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Prevenção do suicídio: manual para professores e educadores. Genebra, 2000.

SOUZA, E. R; MINAYO, M. C. S. ; CAVALCANTE, F. G. O impacto do suicídio sobre o perfil de morbi-mortalidade da população de Itabira-MG. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.11, n. 2, 2006.

MINAS GERAIS. Secretaria Estadual de Saúde. Análise da situação de saúde de Minas Gerais 2006. Disponível em:  <http://www.saude.mg.gov.br>. Acesso em: 25 nov. 2010.

CASSORLA, R. M. S. ; SMEKE, E. L. M. Autodestruição humana. Caderno de Saúde Pública, v.10, p. 61-73, ano. Supl. 1. 

SILVA, Liliane de Lourdes Teixeira. Tentativa de auto-extermínio entre adolescentes e jovens: uma análise compreensiva. Belo Horizonte: UFMG, 2010. 104 p. Dissertação de mestrado - Programa de Pós Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.

TEIXEIRA, Ana Luiza Fortaleza; LUIS, Margarita Antonia Villar. Suicídio, lesões e envenenamento em adolescentes : um estudo epidemiológico. Revista Libero-americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v.5, número especial, p. 31-36, maio. 1997.

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