Uma Reflexão sobre Solidão e sua Relação com o Consumo de Álcool por Mulheres no Brasil

Uma Reflexão sobre Solidão e sua Relação com o Consumo de Álcool por Mulheres no Brasil
(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Resumo: Esse trabalho de revisão bibliográfica buscou identificar possíveis relações entre solidão e consumo de álcool entre mulheres no Brasil. É possível encontrar estudos envolvendo álcool e mulheres constatados em Vargas (2006), Bauer (l982), Blume apud Zilberman (2005), Cortaza (2007), Hernández (2007).  Além disso, a abordagem sobre solidão aparece como um tema transversal em estudos como o de Angerami-Camon (1999), ao abordar sobre a questão do suicídio afirmando esse autor que a solidão está tão distante das nossas reflexões, tornando-se apenas realidade quando da experiência, vivência e emoção desesperadora. A solidão por si abarca todas as contradições que envolvem a conceituação dos fenômenos humanos. Como resultado foi constatado que o consumo de álcool é um dos fatores que podem ensejar a solidão e que este hábito vem crescendo entre mulheres com possíveis implicações nas relações sociais.

Palavras-chave: Álcool, Solidão, Mulheres, Saúde Mental.

1. Introdução

O objetivo deste trabalho foi de realizar uma revisão bibliográfica sobre solidão e consumo de álcool entre mulheres no Brasil. O interesse pelo tema, especialmente englobando assuntos tão abrangentes e complexos, nasceu da vontade de entender e conhecer melhor as literaturas e pesquisas realizadas nesse contexto.

No que se refere ao álcool e mulheres, existem diversos estudos e pesquisas amplamente divulgadas e de grande relevância, porém, quando o tema é solidão, é fato que muito pouco foi pesquisado, estudado e publicado no Brasil.

Entretanto, no mundo virtual, os apelos mais chamativos se fazem presentes em formas de codinomes, poesias, crônicas, relatos, desabafos e desesperos. Basta clicar: http://www.google.com.br, digitar a palavra “solidão” e você não estará mais sozinho, um desfile de sites e frases surge na telinha. 

Ao visitar o site espiritismogi, constatamos parte da seguinte narrativa: “... depois de minha separação, desencontrei-me completamente entregando-me à solidão, ao álcool e às drogas..”

De acordo com as literaturas, artigos científicos e a mídia eletrônica pesquisada, alguns anos atrás o convívio entre copos para o consumo de álcool era mais usual entre os homens. Porém, hoje, este comportamento tende a ser praticado também entre as mulheres, muito embora, por vezes de forma mais cautelosa ou envergonhada BICHO (2008).

O número de mulheres dependentes do álcool aumentou nas últimas décadas, conforme indica o "I Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira" (LARANJEIRA et al., 2007). Posto isto, este trabalho vem suscitar esta temática, buscando a compreensão entre a solidão e a bebida alcoólica no universo feminino.

2. Considerações sobre o Álcool e seu Consumo por Mulheres

O Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), no ano de 2002 divulgou um estudo sobre o uso de álcool na população geral no qual se evidenciou que 74,6% da população fazem uso do álcool ao longo da vida. Foram entrevistadas 9.528 pessoas num total de 108 cidades do Brasil com mais de 200 mil habitantes, na faixa etária compreendida entre os 12 e 65 anos de idade

Atualmente o consumo de bebidas alcoólicas sugere ser um fenômeno universal, compondo como a base essencial dos principais problemas de saúde pública de vários países do mundo (CORTAZA, 2007)

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a bebida mata mais do que a tuberculose e a Aids no mundo. No caso das mulheres, desde a década de 70, o consumo de álcool pelo público feminino aumentou consideravelmente (LENAD, 2013)

O brasileiro está bebendo mais e de forma mais nociva. Esta é uma das conclusões do II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), divulgado em abril deste ano, revelando uma estimativa de que 11,7 milhões de pessoas sejam dependentes de álcool no país. O levantamento produzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concluiu também que os 20% dos adultos que mais bebem ingerem 56% de todo o álcool consumido por adultos.

O número de mulheres dependentes do álcool aumentou nas últimas décadas, conforme indica o "I Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira". A pesquisa investigou em detalhes como o brasileiro bebe e mostrou que, em duas décadas, a proporção de mulheres entre a população alcoólatra passou de 10% para 30% (LARANJEIRA, 2007).

Com a realização do II Levantamento Domiciliar no Brasil, os autores constataram que o uso na vida de álcool por mulheres foi de 68,3%, com destaque para as mulheres de 25-34 anos de idade, com 73,0% de menção a uso na vida. A dependência de álcool, por sua vez, foi constatada em 6,9% das mulheres entrevistadas. Esses dados sugerem haver aumento no consumo de álcool entre as mulheres no Brasil (CISA, 2005)

Ao contrário de outras drogas ilícitas, como a maconha, a heroína e a cocaína, o álcool é uma substância que se aceita um consumo moderado, desde que em adultos saudáveis, uma vez que se trata de uma substância com venda legalizada.

Gunzerath (2004) contextualiza que o National Institute of Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA) refere-se ao termo "beber moderado" para aludir ao consumo com limites onde não há prejuízos ao indivíduo e sociedade. O NIAAA esclarece que o termo "beber moderado" é normalmente utilizado para descrever a quantidade e frequência do uso de álcool quando comparado ao não uso (abstinência) ou o abuso de álcool, mas enfatiza que estas definições podem ser problemáticas por não levarem em conta as possíveis consequências maléficas e benéficas ao individuo decorrentes do uso de álcool em longo prazo.

Laranjeira (2007) comprova que a literatura internacional estabelece em 5 doses ou mais para os homens e 4 doses ou mais para as mulheres, num único episódio – o limite do beber em “binge”, expressão que indica um estado de consumo de risco.

De acordo com os dados apresentados no I Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na população Brasileira, (LARANJEIRA et al., 2007), ressaltam que 52% dos Brasileiros acima de 18 anos bebem (pelo menos 1 vez ao ano), destacando que 65% são homens e 41% mulheres. Revela ainda em seu estudo que os adultos que bebem, 60% dos homens e 33% das mulheres consumiram pelo menos 5 doses ou mais de bebidas alcoólicas no último ano, considerando o maior índice de consumo, ou seja, quando mais beberam

No mesmo estudo, (LARANJEIRA et al., 2007), chamam a atenção para esse modelo de beber, o “binge”, que é uma prática conhecida na literatura internacional como “binge drinking”, ou “beber em binge”, o termo é usado para definir o “uso pesado do álcool”. O autor revela que as mulheres usuárias dessa forma de beber alcançam a marca de 18%.  Um dado relevante no estudo citado é a constatação de que o local onde as mulheres mais bebem em “binge” é em suas próprias casas e se enquadram na feixa etária de 45 a 59 anos. Em suas considerações, (LARANJEIRAS et al., 2007), enfatiza que, embora o uso nocivo e a dependência do álcool predominem entre os homens, ainda não foi percebido na população geral brasileira um fato que já ocorre nos países desenvolvidos, ou seja, uma maior aproximação entre o número de mulheres com o álcool

Todavia, ainda que a prevalência de dependência entre as mulheres siga aumentando, no que diz respeito aos países desenvolvidos, isto não tem sido indispensável pelo incremento dos estudos prospectivos das necessidades femininas, Brasiliano (apud BRADY et al., 1993; KESSLER et al., 1994; HOCHGRAF, 2001).

Segundo (GALDURÓZ et al 2000) foi realizada uma pesquisa nas as 24 maiores cidades do Estado de São Paulo, totalizando 2.411 entrevistas, estimando que 6,6% da população estavam dependentes do álcool. Decorridos dois anos, a mesma população foi pesquisada, constatando-se um aumento significativo para 9,4% de dependentes.

Carlini (2001) apresentou outro estudo domiciliar, que englobou as 107 cidades com mais de 200 mil habitantes – correspondendo a 47.045.907 habitantes, que significou 27,7% do total do Brasil, cuja amostra totalizou 8.589 entrevistados, teve como principais resultados sobre o uso do álcool, a dependência de 17,1% para homens e 5,7% para mulheres

De acordo com estudos de Brasiliano (2005 apud ANTHONY, HELZER, 1991; KESSLER et al., 1994; WALTER et al., 2003; NOLEN HOEKSEMA, 2004), com relação ao uso de álcool segundo os dados dos principais levantamentos epidemiológicos realizados nos Estados Unidos e no Brasil, conforme Tabela 1, constata-se que o número de mulheres alcoolistas vem aumentando nos Estados Unidos desde o “Epidemiological Catchment Area Study” (ECA). No início dos anos 80 e atualmente, estima-se que a prevalência de dependência de álcool ao longo da vida seja de 20,1% para os homens 8,2% entre as mulheres americanas.

Tabela 1 – Dados dos principais levantamentos epidemiológicos realizados no Brasil e nos EUA para abuso/dependência de álcool.

FONTE

ANO

HOMENS (%)

MULHERES (%)

RAZÃO HOMEM : MULHER

ECA (Anthony, Helzer)

1991

23,8

4,6

5.2 : 1

Kessler et al

1994

20,1

8,2

2.4 : 1

Almeida Filho et al

1992

15,4

1,3

11.8 : 1

Galduroz et al

2000

10,9

2,5

4.4 : 1

Carlini et al

2002

17,1

5,7

3.0 : 1

Para (BRASILIANO, 2005), no Brasil a tendência é semelhante, ainda que a pesquisa epidemiológica seja escassa (ALMEIDA FILHO et al., 1992; GALDURÓZ et al., 2000; CARLINI et ao., 2002). Há apenas um levantamento da população geral, que estimou que a razão homem : mulher é próxima à encontrada nos estudos americanos (3 homens : 1 mulher) (CARLINI et al., 2002)

São muitos os dados que apontam para o aumento do consumo do álcool, como enfatiza (BRASILIANO, 2005), ao mencionar um recente trabalho no Brasil que revela um aumento no consumo do álcool per capita em 74,5% entre os anos de 1970 e 1996.

Ressalta ainda, o consumo do álcool e outras drogas não eram privilégios restritos somente aos homens, pois há quase 2 séculos seu abuso já era identificado, mesmo chamando a atenção para a inexistência de qualquer narrativa de casos de dependência entre mulheres. Isso sugere que a crença era de que o uso problemático dessa substância fosse um modelo meramente masculino.

Portanto, para (BRASILIANO, 2005 apud BLUME, 1986), visto por este prisma, não seria inadequado, inferir que o estudo sistemático da dependência feminina tivesse mais de 50 anos e a busca de abordagens que atendam as necessidades das mulheres, remonta uma história de apenas 20 anos

Destaca a autora que nestes anos, o preconceito histórico sempre permeou o universo feminino em relação ao uso de álcool e drogas em mulheres, bem como menor prevalência desse problema entre elas, tornou difícil o reconhecimento da dependência como sendo um problema significativo para o sexo feminino, Brasiliano (2005, apud HOCHGRAF, 1995; STEIN, CYR, 1997).

Conforme a pesquisa realizada por (CORTAZA, 2007), o problema não é apenas pela prevalência do consumo do álcool, mas também pelas amplas raízes sociais desse hábito, além da falta de percepção dos riscos gerados pelo seu uso. A Organização Mundial de Saúde enfatiza que os problemas ligados ao álcool têm alcançado proporções alarmantes, trata-se do principal fator de risco nos países em desenvolvimento e o terceiro nos países desenvolvidos. A OMS afirma ainda que, o alcoolismo é a quarta causa de incapacidade física e mental no mundo (HERNANDEZ, 2005)

Carlini (CEBRID, 2004), revela que num total de 367 Hospitais Psiquiátricos Brasileiros, 39.186 internações foram em decorrência da dependência do álcool. Cabe ressaltar que o uso abusivo de drogas constitui um fenômeno complexo com consequências desfavoráveis na saúde individual, familiar e na sociedade

A literatura científica ressalta que, para cada alcoolista, existe uma família disfuncional e, pelo menos, uma mulher com problemas físicos e psicológicos relacionados com o adicto (HERNANDEZ, 2007)

De acordo com as estatísticas apresentadas anteriormente pelo CEBRID, observou-se o índice crescente do número de usuários e apreciadores do álcool, dentre esses, as mulheres

Sugere-se que o alcoolismo feminino tenha a influência da emancipação feminina, iniciada nas últimas três décadas, sendo uma vitória para as mulheres que acreditaram haver conquistado o seu espaço na sociedade. Junto a isso, uma nova realidade se inseriu no campo das patologias sociais. As mulheres não só conseguiram igualdade junto aos homens na busca pela autoafirmação, direitos e independência como também estão se igualando no que diz respeito ao consumo de drogas (SIELSKI, 2004)

O alcoolismo não podia escapar dessa nova realidade, na França, sugere-se que o alcoolismo feminino já alcança números expressivos (SIELSKI, 2004)

As reflexões do psiquiatra especialista em dependência química (SIELSKI, 2004), relatam que quando iniciou o atendimento ao usuário de drogas em 1979, era pouco comum o acolhimento a paciente do sexo feminino, fato esse, atribuído segundo o médico à cultura machista da época. Afirma o referido médico que no final da década de 70 era uma base de 5 homens para 1 mulher em tratamento. Atualmente, o quadro sofreu significativas transformações, pois, segundo relatos do médico, nos grupos de apoio que atende, 50% são mulheres

O maior agravante no alcoolismo feminino é o fato das mulheres não procurarem tratamento contra as drogas. Elas se sentem discriminadas e muitas não reconhecem que são dependentes (SIELSKI, 2004)

Infere Blume (1990, apud ZILBERMAN e cols 1994), que a mulher é concebida pela sociedade mais imoral, mais lutadora, de comportamento sexual impróprio, quando rotulada como usuária de álcool ou drogas e isto possivelmente contribui para que procure o tratamento com menos frequência comparado aos homens, devido à vergonha que sente

O alcoolismo feminino é um dos problemas mais cuidadosamente ocultados, por causa da condenação social que recai sobre ele. As grandes bebedoras são objeto de maior desprezo, comparativamente ao homem. Estas são consideradas pessoas irresponsáveis, perturbadas que provocam a sua própria ruína e consequentemente da sua família, as mulheres não se querem identificar como alcoólicas e, além disso, os seus familiares incentivam-nas a ocultar a situação para salvar a reputação. Com frequência, as famílias resistem a aceitar esta realidade; com efeito, não agrada a ninguém saber que a mão que embala o bebê, é uma mão tremula (Artigo O Alcoolismo Feminino I  - Revista Evangélica Novas de Alegria).

Nesse sentido Brasiliano (2005, apud BLUME, 1986; BRIENZA, STEIN, 2002), ressalta, embora possa ser dito que existe um preconceito social em relação a qualquer dependência de substâncias psicoativas, é a mulher ainda mais estigmatizada que o homem. Enfatiza ainda que estereótipos de maior agressividade, inclinação à promiscuidade, descuido no cumprimento do papel familiar estão mais habitualmente associados às mulheres que aos homens dependentes.

O alcoolismo na mulher mostra ser uma conduta sintomática de um desequilíbrio de neurose latente ou real, sendo muito mais amiúde do que no homem. Supõe-se que o alcoolismo degrada mais velozmente a personalidade da mulher, porque a reação social de intolerância é mais viva e mais precoce contra a mulher alcoólatra do que contra o homem (VARGAS, 2004).

De modo geral, fisiologicamente, as mulheres vivenciam os efeitos das drogas psicoativas muito mais precocemente que os homens.  O desenvolvimento do alcoolismo em mulheres perpassa por diferentes caminhos daqueles que ocorrem com os homens.             Distintas respostas são encontradas quando se discute essa problemática. Considerando o ponto de vista biológico, as mulheres são metabolicamente menos tolerantes ao álcool do que os homens. A suscetibilidade para o desenvolvimento de complicações clínicas é maior entre as mulheres, além de sofrerem maiores riscos de mortalidade que os homens (NOBREGA, 2005)

Segundo Brasiliano (2005 apud LINDENBERG, AGREN, 1988), para as mulheres alcoolistas, esta taxa de mortalidade é 5 vezes maior que a esperada na população geral

De acordo com (BAUER, 1982), somente nos Estados Unidos e no Canadá existem aproximadamente doze milhões de alcoólicos. Um terço deles são mulheres. A autora questiona: Porque elas bebem? O que estão procurando? Quem são as mulheres que acham que o álcool seria uma solução para seus problemas? Conclui que, embora muitos mecanismos psicológicos possam ser aplicados tanto a mulheres quanto a homens, alguns não o podem e existem umas poucas concepções, na literatura atual, que diz respeito aos aspectos específicos do alcoolismo feminino

De um ponto de vista psicológico, sugere-se que o beber excessivo é, para as mulheres, acima de tudo um modo de agir antipersona. Como diz Jung (apud BAUER, 1982), a persona é um complexo funcional que surge por razões de adaptação, então uma atitude exterior ligada ao relacionamento com objetos de fora não passa de uma espécie de máscara indispensável para a existência no coletivo, mas alheia à individualidade

3. Solidão e Álcool

Conforme (ANGERAMI-CAMON, 1999), a solidão escapa de nossa compreensão sempre que damos a ela um enredo de dimensões meramente perceptivas.    Do ponto de vista da Psicologia, (SILVA, 1988) definiu solidão como sendo um estado em que se vive só, longe e isolado das demais pessoas e que deve demandar um esforço de adaptação muito investido para que o indivíduo não seja conduzido ao enlouquecimento. Sob a ótica da psiquiatria, segundo (SILVA, 1988), a solidão quando espontânea, revela uma certa desadaptação do indivíduo ao mundo exterior, ao convívio social, provocada geralmente pela timidez excessiva, pela introversão ou devido a uma certa esquizofrenia latente

É neste contexto que (JEREMIAH, 1992, p. 11) afirma que: “É bem possível que a solidão seja a enfermidade da presente década, ou mesmo de todas as décadas dos meados e do último quarto de nosso século XX”.

Não é desconhecido o fato de um número cada vez maior de pessoas que se queixam de solidão. É possível que a carência pela qual passe as relações interpessoais, talvez pelas condições da própria vida moderna, que aglomera pessoas sem a menor afinidade entre si, seja uma das causas (JEREMIAH, 1992)

Quando inferiu sobre os conceitos de solidão, João (1987) considerou, essencialmente, a condição de isolamento e separação dos outros como fatores desencadeadores da mesma, e, por conseguinte, de fortes sentimentos de desamparo e desorientação. Este autor frisa que, a simples presença dos outros não é suficiente para evitar ou eliminar o sentimento de solidão, pois a mesma, nada mais é do que o resultado do indivíduo que se faz solitário

Sobre esta vivência atribulada, de forma até muito poética, em suas considerações sobre Solidão (DOLTO, 1998), expressa, utilizando uma simbologia carregada de situações do cotidiano, a incompletude que permeia a vida do homem, mesmo que esteja envolto de conquistas e bens materiais, que é determinada pelo vazio e sentimentos de dor e desprazer que a solidão acarreta, transformando seus melhores dias em total monotonia

Para Barret (apud JEREMIAH, 1992), em uma sociedade onde a maioria das pessoas vive em cidades ou subúrbios muito impessoais, onde os entretenimentos eletrônicos frequentemente substituem os diálogos entre as pessoas, onde estes mudam de um emprego para outro, de estado civil, de um matrimônio para outro, a solidão tornou-se uma autêntica epidemia.

Fazendo uma compreensão desse jogo relacional entre solidão e álcool, os autores de “Modelos de Alcoolismo”, Siegler e Osmand apud (BAUER, 1982) afirmam que o alcoolismo, como a esquizofrenia e a dependência de drogas, é uma enfermidade controversa. Ou seja, trata-se de uma condição indesejável que alguns consideram doença, outros falha moral e outros, finalmente, distúrbio psicológico. Pode ser identificado também como um problema social, uma deterioração, uma interação familiar defeituosa ou o resultado inexplicável dessa agradável atividade social que é o ato de beber

Em sua pesquisa, Borges (2012), relata que no decorrer de seus estudos foram identificados sentimentos de prazer, tristeza, preconceito e solidão em relação ao consumo do álcool por mulheres. Quando o beber se torna constantes os parentes e amigos se afastam, os homens recebem mais apoio da família para procurar tratamento, enquanto que as mulheres recebem mais apoio das amigas. De acordo com sua percepção, pelo fato de não terem o apoio da família nesse processo a solidão aumenta e as chances de recuperação diminuem.

4. Solidão e perda através do Ciclo Evolutivo

A solidão é a vivência que acompanha o homem em todas as suas experiências, como testemunho da sua incompletude e imperfeição, e, por sentir essa carência que constitui sua natureza; é que o faz estar sempre em busca daquilo que perdeu (DOLTO, 1998; KLEIN, 1991; ANGERAMI-CAMON, 1999)

Dolto (1998), em suas considerações ressalta que desde o nascimento o recém-nascido já vivencia esse sentimento de desamparo, separado das entranhas nidificantes da mãe que o faz descobrir uma nova modalidade de vida, em que sua sobrevivência depende desse ar comum a todas as criaturas. Ameaçadora para sua sobrevivência, a solidão não largará mais esse homem, essa mulher. Pode-se inferir que este momento de separação, rompimento, é a primeira perda, a primeira angústia, portanto, o primeiro contato com sua solidão

De acordo com (KLEIN, 1991), no início da vida pós-natal o bebê vivencia ansiedades provenientes de fontes internas e externas.

Apoiando-se neste pensamento, torna-se evidente que isto não constitui algo tão singular, trata-se, sobretudo de uma relação muito complexa, principalmente se entendermos o caráter de causa e efeito subjacente a ela, onde a ansiedade surge como produto do rompimento deste elo entre esses dois seres: mãe e filho. São deste rompimento que se constituem os sentimentos de desamparo, angústia, abandono e solidão. Sentimentos que por toda a vida, poderão ser a causa raiz dos conflitos que o indivíduo irá experimentar

Sobre isto, (QUINODOZ, 1993) pontua que Freud publicou a revisão de sua teoria sobre a angústia em resposta à publicação de O trauma do nascimento de O. Rank  que também tinha procurado explicar a angústia de separação enfatizando que todas as crises de angústias podiam ser consideradas como tentativas de ‘ab-reagir’ ao primeiro traumatismo, o do nascimento.

Este trecho referente à literatura freudiana torna claro o reconhecimento, a angústia não só resulta do traumatismo do nascimento, como também de que a ação humana reveste-se desse sentimento frente a situações remetendo à recordação daquele evento traumático, precipitando um comportamento típico na vida adulta

Quinodoz (1993) referindo-se a teoria freudiana relata que segundo Freud, os perigos capazes de desencadear uma situação traumática variam de acordo com os diferentes períodos da vida, e eles têm em comum a característica de implicar a separação ou a perda de um objeto amado, ou a perda de amor por parte do objeto. Levando desta forma a um acúmulo de desejo insatisfeito e, deste modo, a uma situação de desamparo.

A questão do nascimento é entendida como uma situação que prenuncia um estado de desamparo, e produz no indivíduo, já no primeiro momento de sua vida extrauterina, um desconforto e, principalmente, os sentimentos de carência, fragilidade, vulnerabilidade, impotência e solidão.

Fazendo um entendimento desta teoria, pode-se observar que, se expressa de situações aparentemente muito comuns, uma necessidade fundamental de relação afetiva, simultaneamente à saudade que se sente ao pensar em deixar alguém querido. Desta maneira, a angústia de separação traduz a emoção dolorosa mais ou menos consciente – que acompanha a percepção do caráter efêmero das relações humanas, da existência do outro e de nossa própria existência. Porém, ao mesmo tempo, é uma emoção estruturante para o ego, porque ao sentir a dor da solidão nos traz à consciência da existência como ser só e único em relação ao outro, e que o outro é diferente de nós. É assim que a angústia de separação força nosso sentimento de identidade, bem como nosso conhecimento do outro, este outro que na psicanálise chama-se de objeto para distinguir do sujeito. (QUINODOZ 1993) diz que: “O caráter precioso do objeto e do sujeito deriva de que cada um é único, nasce de sua solidão”.

5. Considerações finais

A questão do consumo de álcool pela mulher moderna e solidão foi discutida sob o ponto de vista de vários teóricos, cada um com uma abordagem distinta, porém, conduzindo a um mesmo entendimento: o de que o consumo de álcool no Brasil precisa ter um olhar mais crítico, mais responsável, como bem alerta Laranjeira (2004), quando conclama que o “álcool não é um produto qualquer”.

Ao lado disso, sobre a mulher moderna, ainda pesa sobre seus ombros muitos preconceitos e a solidão parece ser percebida como coisa de quem não tem o que fazer, portanto, a mulher pode estar em busca de superar uma imagem solidificada pelas influências sociais e culturais as quais foi submetida. Apesar de uma gama de informações a respeito dos danos do álcool, suas propagandas ainda são as mais atrativas, seu consumo legalizado e a solidão combina com todos esses ingredientes, dando uma conotação de falsa normalidade

Desse modo, considerando a enorme lacuna de publicações relacionando a solidão e o consumo de álcool entre mulheres no Brasil e a esta crescente demanda, esse trabalho buscou trazer a luz algumas reflexões possíveis sobre o assunto no intuito de suscitar o debate para o tema.

Sobre os Autores:

Maria de Nazaré Kramer Mendonça - Maria de Nazaré Kramer Mendonça, Psicóloga pelo Instituto Luterano de Ensino Superior de Manaus – UL-BRA/1999. Especialização em Psicologia Clínica – ULBRA/2001. Especialização em Ética (Universidade Fede-ral do Amazonas - UFAM/2002). Pós-Graduação em Dependência Química (Universidade Castelo Branco do Rio de Janeiro – 2008). MBA em Gestão de Serviços em Saúde (Universidade Federal do Amazonas - UFAM/2013). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Geraldo Vieira da Costa - Geraldo Vieira da Costa, professor associado da Universidade Federal do Amazonas, Doutor em Psicologia, graduado em Administração e Engenharia Civil. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Rerefências:

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BARRET apud JEREMIAH, Davy. Superando a Solidão. São Paulo: Candeia, 1992.

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