A Bulimia e a Prática Excessiva de Exercícios Físicos em Adolescentes

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Resumo: Esse artigo objetiva compreender como a bulimia ocorre, visando focar o processo da prática excessiva de exercícios físicos nessa temática. O artigo apresenta pesquisas bibliográficas de caráter descritivo, exploratório com abordagem qualitativa e tem como finalidade levar o conhecimento dessa problemática que se configura de suma relevância para os dias atuais. Diferentes estudos discutem a relação da prática excessiva de exercícios físicos em adolescentes com bulimia nervosa, não há consenso sobre diagnósticos para considerar o exercício físico como inadequado ou adequado e seu uso recursivo para perda de peso. Por outro lado, a prática de exercícios físicos pode ser benéfica desde que seja orientada e supervisionada. Acredita-se que mais pesquisas são necessárias para quantificar de forma direta o nível de atividade física para uma clarificação melhor de como se da essa relação.

Palavras-Chave: Bulimia, Adolescentes, Exercícios Físicos, Excessiva

Introdução

A marca registrada da bulimia nervosa é comer uma grande quantidade de alimentos – geralmente, mais alimento inútil do que frutas e vegetais – em comparação ao que a maioria das pessoas comeria em circunstâncias semelhantes (Fairburn e Cooper, 1993; Wilson e Pike, 2001).

Os critérios diagnósticos da bulimia nervosa (BN) estão focados nos comportamentos de compulsão alimentar com subsequente purgação, bem como auto avaliação indevidamente influenciada pela forma corporal e peso. De uma forma geral, a prevalência de bulimia, está entre 1,1 e 4,2%%. Geralmente, o perfil dos pacientes que desenvolvem esses distúrbios é de adolescente do sexo feminino, raça branca e alto nível socioeconômico, porém se tem observado que esse grupo é cada vez mais heterogêneo, tendo se realizado diagnósticos em pré-adolescentes e em pacientes de níveis econômicos mais baixos (Barlow, 2011).

Os transtornos alimentares são considerados doenças de difícil tratamento. Assim, é consenso entre os profissionais de saúde mental que esses pacientes devem ser atendidos por uma equipe multidisciplinar, incluindo o profissional de educação física no processo terapêutico (Cenci et al.,2009).

De acordo, com a literatura existem vários impactos positivos da prática regular de exercícios físicos para a saúde, benefícios como manutenção do peso corporal, controle dos níveis de colesterol e além de benefícios psicológicos e sociais como melhora da autoestima e do convívio social. No entanto, indivíduos com transtornos alimentares (TA) frequentemente não se beneficiam, na medida em que podem utilizá-los como estratégia para perder peso de forma inadequada e por vezes de forma compulsiva (Teixeira et al.,2009).

Este artigo tem a finalidade de apresentar uma revisão literária sobre a prática de exercícios físicos em indivíduos com transtornos alimentares, principalmente a bulimia nervosa. Como também, visualizar melhor a questão do ”excesso” dentro da ótica do prejudicial à saúde das pessoas, principalmente em adolescentes com bulimia. E ainda, observar estratégias terapêuticas e práticas de exercícios físicos dentro de um padrão adequado e benéfico para essas pessoas.

Aspectos Gerais da Bulimia

A bulimia nervosa apresenta como principal característica episódios de ingestão alimentar incontrolável, seguidos por algum tipo de purgação. Nessa doença observa-se a prática de consumir uma quantidade de alimento muito superior à que seria ingerida pela maioria das pessoas em um mesmo período de tempo e em ocasiões semelhantes, acompanhada de sensação de perda de controle. Essa sensação leva a condutas extremas, como a provocação de vômito, o uso abusivo de laxantes e/ou diuréticos, prática excessiva de atividade física, além de dietas extremas ou jejuns, objetivando evitar as possíveis consequências do alimento que foi consumido em excesso (Barlow, 2011).

A bulimia com purgação tem várias consequências para a saúde (Pomeroy, 2004). Uma é o aumento da glândula salivar causada por vômitos repetidos, o que faz que a face tenha uma aparência bochechuda. A ação repetida de vomitar também corrói o esmalte dos dentes na superfície interna da parte frontal deles. Mais importante: o vômito continuado desarranja o equilíbrio químico dos fluídos corporais, incluindo os níveis de sódio e potássio (Barlow, 2011).

No Brasil, são poucas as pesquisas na área. O estudo de base populacional desenvolvido por Nunes, Olinto, Barros e Camey (2001) demonstrou que a percepção inadequada do peso corporal de jovens mulheres entre 12 e 29 anos de idade (sentir-se gorda) tem um papel mais importante na determinação dos comportamentos alimentares anormais do que o real índice de massa corporal (IMC).

Outro estudo, realizado em 1999, analisou revistas nacionais voltadas para o público adolescente. Foram coletadas algumas frases de reportagens sobre beleza e as autoras puderam constatar, também no país, a divulgação de um padrão estético que é imposto às adolescentes e compromete sua saúde física e mental (Santos & Serra, 2003).

Assim, o medo de engordar intenso entre as adolescentes favorece o desenvolvimento de comportamentos de risco para os transtornos alimentares como a realização de dietas extremadas, atividades físicas em excesso, utilização de medicamentos diuréticos, laxantes e anorexígenos e provocação de vômitos (Andrade & Bosi, 2003). Especialmente em relação às práticas inadequadas de controle de peso entre adolescentes, os dados são alarmantes.

Nos Estados Unidos, um estudo realizado no estado de Minnesota mostrou que as adolescentes africanas e as miscigenadas relataram com mais frequência alta satisfação corporal (40,1 e 44,3%, respectivamente), enquanto hispânicas e asiáticas declararam menos satisfação (19,8 e 20,0%, respectivamente); e que as africanas expressaram quase três vezes mais satisfação corporal do que as caucasianas (Kelly et al., 2005).

Por outro lado, alguns pesquisadores da área concluem que mulheres pertencentes à raça negra apresentam maiores índices de temor à obesidade do que mulheres caucasianas, provavelmente pelo preconceito que sofrem por parte da população de raça branca (Smith, Thompson, Raczinsky & Hilner, 1999). Não obstante, a maioria das pesquisas atuais aponta que a insatisfação com o corpo, a distorção da imagem corporal e a realização de dietas para perder peso e de exercícios físicos que visam ao emagrecimento ocorrem na mesma proporção para mulheres caucasianas, negras, latinas, índias e asiáticas. É crescente o número de relatos de transtornos alimentares em países em desenvolvimento e em diferentes etnias, o que comprova que o temor da obesidade já é universal no mundo globalizado (O'Dea, 1994).

Durante a adolescência, sabe-se que os amigos passam a ter influência importante na socialização. McCabe e Ricciardelli, (2006) sugerem que tanto a mídia quanto o grupo social (amizades) têm papel mais significante na insatisfação corporal entre os adolescentes do sexo masculino do que os pais. Adolescentes do sexo feminino encorajadas por amigas meninas têm mais chances de fazer dietas. Além disso, amigas do mesmo sexo exercem mais influência do que as mães em meninas na adolescência tardia, em relação a atitudes e comportamentos relacionados à alimentação. Mais ainda, o reforço social exercido pela família, pelo grupo de pares e pela mídia em adolescentes e adultas jovens para ter o corpo magro relaciona-se à presença de sintomas bulímicos e prediz o início de sintomas nesta população (Oliveira & Hutz, 2010).

Sugere-se que aproximadamente 80% dos pacientes com diagnóstico de anorexia nervosa (AN) e 55% dos pacientes com bulimia nervosa (BN) praticam exercício físico de forma compulsiva em algum momento de sua história clínica. Estudos mostram que os transtornos alimentares também podem ser encontradas em atletas de alto nível; ginastas, jóqueis e corredores olímpicos colocam-se ao lado de bailarinas profissionais entre as populações de maior prevalência (Teixeira et al.,2009).

A prevalência da AN na população geral é de 1% e no caso da BN a prevalência pode chegar a 4% (Oliveira & Bosi, 2003).

Os transtornos alimentares constituem patologias graves, complexas e com alto grau de morbidade, sobretudo na adolescência, quando frequentemente iniciam e afetam ampla e severamente o desenvolvimento do indivíduo.

Segundo Cury (2005), esse padrão inatingível de magreza, amplamente difundido na mídia (televisão, revistas, cinema) e nos desfiles e comerciais, etc. já penetrou no inconsciente coletivo e aprisionou as pessoas dentro de si mesmas. Em consequência disso, mais de 98% das mulheres não se vêem bonitas. As mulheres nunca foram tão expostas a ideais estéticos quanto hoje, era da tecnologia da produção de massa. Desta forma, mulheres passam para outras mulheres estes mandatos, escravizando-as e colocando-as em padrões rígidos (Serra, 2001).

Percebe-se, então, que as práticas alimentares e os padrões estéticos corporais caminham juntos. Mais do que tendência ou produto da disponibilidade alimentar, os modelos de beleza são indicativos de distinção social e sinalizadores das diferenças entre classes sociais (Carreteiro 2005).

Assim, a magreza muitas vezes é buscada pelas meninas através de comportamentos de risco que levam à instalação dos transtornos alimentares (Melin & Araújo, 2002).

Aspectos Conceituais Sobre Exercícios Físicos

Segundo Caspersen et al., atividade física é qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulta em um gasto energético maior do que os níveis de repouso. Já o exercício físico é uma atividade física estruturada, ou seja, uma sequência planejada de movimentos repetidos sistematicamente, que possui frequência, duração e intensidade delineadas, com o objetivo de melhorar ou manter um ou mais componentes da aptidão física relacionada à saúde. Esporte é uma atividade física que envolve habilidades e capacidades motoras específicas de uma modalidade, com regras predeterminadas, que visa à competição entre os praticantes.

A atividade física pode ser classificada, de acordo com a intensidade, em leve, moderada ou vigorosa. Ainsworth et al.18 utilizam o múltiplo da taxa metabólica de repouso (MET) para classificar a intensidade da atividade. O MET é expresso em consumo de oxigênio em repouso por unidade de massa corporal; assim, 1 MET equivale a 3,5 mL/kg/min. Exemplificando, uma atividade física realizada para 2 METs requer duas vezes o metabolismo de repouso de um indivíduo, 3 METs são três vezes o valor de repouso, e assim por diante19. Atividade física classificada como leve equivale a 4 METs, moderada, a 6 METs e vigorosa, a 8 METs18. Pode-se usar a caminhada como um exemplo para facilitar a compreensão. Caminhar a uma velocidade rápida que ainda permita ao indivíduo manter uma conversação sem dificuldades é uma atividade física moderada. Logo, caminhar devagar seria classificado como atividade leve, e a presença de respiração ofegante seria indício de atividade vigorosa.

Muitas adolescentes demonstram preocupação excessiva com o peso, mas esta observação isolada não é suficiente para o diagnóstico de um transtorno alimentar. No entanto, nessas condições as adolescentes têm sete vezes mais chances de desenvolver um transtorno alimentar e devem ser acompanhadas com atenção. Sabe-se que as pacientes com transtornos alimentares tendem a esconder os sintomas de sua doença, o que pode oferecer problemas para o diagnóstico precoce (Rilo & Silva, 2004).

As adolescentes que exercem práticas restritivas, em sua maioria, perceberam seus hábitos alimentares como normal o que pode estar sendo traduzido por elas como "não problemáticos". Isto sugere que a naturalização e a banalização das práticas irregulares de exercícios físicos tornam o comportamento nocivo, ou seja, que apresenta riscos para a saúde, algo sem maiores repercussões, fazendo com que essas adolescentes não percebam seus hábitos de exercícios físicos de risco como um problema que pode afetar a saúde. É interessante recuperar a idéia de que a negação do risco para a saúde representado por essas práticas é algo comum entre adolescentes que apresentam algum transtorno alimentar, principalmente no caso da anorexia nervosa (Vale et al.,2011).

Modelo de Tratamento da Bulimia Nervosa

Alguns objetivos e cuidados que devem ser seguidos em um programa de exercícios físicos para o tratamento de pessoas com TA e principalmente a bulimia nervosa (Beumont et al.,2005).

1. Promover saúde por meio da educação e da prática regular de exercícios.

2. Enfatizar o cuidado com a saúde, com a imagem corporal e com a autoestima.

3. Colaborar com a recuperação de peso, promovendo, principalmente, ganho de massa magra e diminuindo o tecido adiposo.

4. Incentivar a prática de exercícios como uma alternativa de atividade social.

5. Desmistificar crenças e mitos referentes à prática excessiva e inadequada.

Em pacientes com BN, a prática excessiva de exercícios físicos nem sempre é frequente, no entanto merece toda uma atenção na tentativa de combater qualquer dano a saúde das adolescentes. O melhor programa de exercícios para esses pacientes seria uma combinação entre exercícios aeróbicos e resistidos. O incentivo pela prática de modalidades coletivas também pode contribuir com a autoestima e a autoconfiança do indivíduo. O foco no tratamento da BN seria mostrar a atividade física estruturada como uma alternativa de controlar o peso sem o uso de dietas, contribuindo com a formação de uma imagem corporal positiva e na melhoria de sintomas depressivos e ansiosos (Teixeira et al.,2009).

Considerações Finais

É relevante perceber que mais pesquisas são necessárias para se chegar a um consenso que melhor identifique o indivíduo com bulimia nervosa que pratica atividade física de forma compulsiva. Não há subsídios suficientes para ditar com precisão o que seria excessivo na prática de exercício físico, o que se pode observar é que existe uma relação bastante clara da bulimia nervosa com a prática de atividade física, que na fase da adolescência se aflora com maior intensidade, e de acordo com algumas produções literárias, nem sempre seu uso recursivo é utilizado de maneira benéfica. 

Acredita-se que mais pesquisas são necessárias para um maior entendimento e também para se obter resultados válidos para que sejam aplicados significamente pelos profissionais na ajuda para com os indivíduos que necessitam desse esclarecimento, e ainda, promover a prática de exercício físico de forma benéfica e estruturada.

Refrências:

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