A Representação da Esquizofrenia no Cinema

A Representação da Esquizofrenia no Cinema
(Tempo de leitura: 6 - 11 minutos)

Resumo: Este trabalho se propõe a observar a forma como o cinema hollywoodiano representa a esquizofrenia, visto que o conhecimento do público sobre o tema quase sempre se resume ao senso comum e o cinema pode contribuir para a formação desse conhecimento. Para isso analisamos os filmes Clube da luta e Psicose, que tem protagonistas esquizofrênicos. A ideia é verificar se o cinema apresenta uma visão condizente com o conhecimento técnico acumulado sobre o tema.
Palavras chave:
psicose, esquizofrenia, cinema, representação

Introdução

A Organização Mundial de Saúde - OMS estima que 1% da população mundial tenha esquizofrenia. É um transtorno bastante conhecido pela sociedade e, por ser um tema complexo e intrigante, aparece com certa frequência na arte, no cinema em especial. No entanto, este conhecimento quase sempre é reduzido ao senso comum, gerando muitos preconceitos.

Este trabalho tem como objetivo observar como se dá a representação da esquizofrenia no cinema hollywoodiano, verificando se a forma como ele caracteriza essa psicose colabora com o senso comum ou fornece um maior conhecimento sobre o assunto.

O corpus é composto por um filme de sucesso de crítica e público: Psicose (1960).

Para isso, inicialmente foi realizada uma revisão bibliográfica sobre o tema, estudando a literatura de especialistas da saúde e psicanalistas. Em seguida foi escolhido um filme cujo tema central seja a esquizofrenia. Por fim verificamos se a representação condiz com os traços descritos pela ciência, tais como alucinações, delírios, isolamento social etc. Também foi realizado um estudo sobre a experiência proporcionada pelo cinema, constatando sua capacidade de influenciar o público.

1. A Esquizofrenia

A esquizofrenia é um transtorno psicótico caracterizado pelos seguintes sintomas (no mínimo dois):  delírios; alucinações; discurso desorganizado (p. ex., frequente descarrilamento ou incoerência); comportamento amplamente desorganizado ou catatônico; sintomas negativos (embotamento afetivo, alogia ou abulia).

A CID-10 e o DSM-IV reconhecem os seguintes subtipos de esquizofrenia: Tipo Paranóide; Tipo Desorganizado; Tipo Catatônico; Tipo Indiferenciado e Tipo Residual.

No Tipo Paranóide ocorrem delírios (crenças falsas que se baseiam em inferências incorretas sobre a realidade) ou alucinações (falsas percepções, que podem ser auditivas, visuais, gustativas, olfativas e táteis), sem proeminência de discurso desorganizado, comportamento desorganizado ou catatônico ou afeto embotado ou inadequado. 

No Tipo Desorganizado ocorre proeminência de discurso desorganizado, comportamento desorganizado e afeto embotado ou inadequado.

O Tipo Catatônico é caracterizado por: imobilidade motora evidenciada por cataplexia (incluindo flexibilidade cérea ou estupor); atividade motora excessiva (aparentemente desprovida de propósito e não influenciada por estímulos externos); extremo negativismo (uma resistência aparentemente sem motivo a toda e qualquer instrução, ou manutenção de uma postura rígida contra tentativas de mobilização) ou mutismo; peculiaridades dos movimentos voluntários evidenciadas por posturas (adoção voluntária de posturas inadequadas ou bizarras, movimentos estereotipados, maneirismo ou trejeitos faciais proeminentes); ecolalia ou ecopraxia.

No Tipo Indiferenciado ocorrem sintomas de esquizofrenia, mas estes não permitem a classificação nos subtipos citados anteriormente (Tipos Paranóide, Desorganizado ou Catatônico). No Tipo Residual estão ausentes delírios e alucinações, discurso desorganizado e comportamento amplamente desorganizado ou catatônico proeminentes, mas existem evidências contínuas da perturbação, indicadas pela presença de sintomas negativos ou por dois ou mais sintomas como crenças estranhas, experiências perceptuais incomuns, etc.

Dentre os conteúdos compreensíveis da psicose podem-se destacar alguns aspectos como a relação existente entre o conteúdo do delírio e as vivências anteriores do indivíduo (JASPERS, 2000). Ou seja, o delírio não é, de todo, fora da realidade da pessoa, tendo sempre uma relação com os fatos de sua vida.  Para Friedmann, toda formação delirante baseia-se no conflito vivencial que consiste no fato de a vontade individual ser dominada pela vontade total da comunidade. Há ainda o fato de que, em algumas vezes, o delírio representa condição necessária para aquele que delira e que, sem esse delírio, colapsaria (JASPERS, 2000)

Diversas são as atitudes do indivíduo em relação à doença. Alguns apresentam incapacidade de reconhecer o caráter estranho do comportamento, outros apresentam medo diante da transição do estado consciente para o inconsciente. Há ainda aqueles que apresentam perplexidade, uma incapacidade de aprender vivências novas e aqueles que relatam os conteúdos delirantes sem preocupação ou constrangimento, preocupando-se apenas com recaídas ou internações (JASPERS, 2000).

De acordo com o Código internacional de Doenças (CID 10),

Os transtornos esquizofrênicos se caracterizam em geral por distorções fundamentais e características do pensamento e da percepção, e por afetos inapropriados ou embotados. Usualmente mantém-se clara a consciência e a capacidade intelectual, embora certos déficits cognitivos possam evoluir no curso do tempo. Os fenômenos psicopatológicos mais importantes incluem o eco do pensamento, a imposição ou o roubo do pensamento, a divulgação do pensamento, a percepção delirante, idéias delirantes de controle, de influência ou de passividade, vozes alucinatórias que comentam ou discutem com o paciente na terceira pessoa, transtornos do pensamento e sintomas negativos (CID 10, cap.V. F20)

A mesma fonte também atenta para o cuidado de não fechar o diagnóstico em casos de esquizofrenia aguda, cíclica e reação esquizofrênica, visto que são eventos momentâneos. O mesmo vale para o transtorno esquizotípico, que é “caracterizado por um comportamento excêntrico e por anomalias do pensamento e do afeto que se assemelham àquelas da esquizofrenia, mas não há em nenhum momento da evolução qualquer anomalia esquizofrênica manifesta ou característica.” (CID10, cap.5) Bem como nos casos de alteração de personalidade pelo uso de substâncias químicas diversas.

A CID10 caracteriza ainda a chamada depressão pós-esquizofrênica, que ocorre após o fim de uma crise. Ela é caracterizada por uma desordem cerebral crônica, que é acompanhada por mudanças na percepção e no pensamento, delírios e alucinações. As alucinações mais frequentes em pessoas esquizofrênicas são as auditivas, com vozes sussurrantes ou claras, que discorrem sobre o comportamento da pessoa ou dá ordens e as visuais, podendo visualizar coisas ou, até mesmo, pessoas

2. Cinema

O cinema foi criado no fim do séc. XIX e consiste na projeção de imagens sucessivas que geram a sensação de movimento. É considerado uma importante forma de arte e de entretenimento popular, conquistando a nomeação de Sétima Arte.

Com o aperfeiçoamento da tecnologia, algumas pessoas passaram a ver o cinema como uma possibilidade artística. Houve uma junção de várias artes: literatura, teatro, dança e música. E o próprio cinema criou técnicas de expressão tais como ângulos de câmera, passagem de cenas e etc. Assim o cinema virou a Sétima Arte, contemplando aspectos visuais e sonoros.

O cinema dá a impressão de que é a própria vida que vemos na tela, brigas verdadeiras, amores verdadeiros. Mesmo quando se trata de algo que sabemos não ser verdade, como o Pica pau amarelo ou O mágico de Oz, ou um filme de ficção científica como 2001 ou Contatos imediatos do terceiro grau, a imagem cinematográfica permite-nos assistir a essas fantasias como se fossem verdadeiras; ela confere realidade a estas fantasias. (BERNARDET, 1980, p.125)

Assim, o espectador acaba por considerar informações passadas direta ou indiretamente, desde que elas não pareçam estranhas o suficiente para serem negadas pela consciência.

Apesar de generalizar ao falar da passividade do espectador, a ideia de Mauerhofer é pertinente e remete a famosa política “pão e circo” do império romano, que nos dias de hoje pode ser representada pelo cinema hollywoodiano. Nesse sentido, ele fala ainda:

O cinema se coloca assim na posição de uma realidade irreal, a meio caminho entre a realidade cotidiana e o sonho meramente pessoal. A experiência do cinema canaliza a imaginação, dando-lhe ainda o alimento de que tanto precisa.
(MAUERHOFER, 1966. Apud XAVIER.1983,p.379)

Como dito, esse aspecto de passividade se aplicaria mais aos filmes hollywoodianos, que são focados no mercado, ou seja, têm fácil assimilação e mais apoio popular. Isso justifica a escolha dos filmes ditos comerciais para este trabalho.

3. Análise dos Filmes

3.1 Psicose

O filme Psicose (Psycho, no original), do diretor Alfred Hitchcock, estreou em 1960. É um clássico do cinema mundial que se imortalizou, dentre outras coisas, pela cena do assassinato na banheira. Uma mistura de suspense e terror.

O próprio título já remete ao transtorno psicótico. Com o desfecho da história, fica claro que se trata de esquizofrenia. É um jovem, Bates, que assume a personalidade da mãe, e acredita que a mesma ainda esteja viva, conservando com seu cadáver em casa. Ou seja, a ideia que o filme passa é que ele tem alucinação, uma falsa percepção, seja visual ou auditiva, de que sua mãe ainda vive. E na cena em que o psiquiatra revela toda a história ele mostra como a esquizofrenia tem relação direta com a história de vida do jovem. Não há referência a fatores genéticos e, pela forma geral como se apresenta, pode ser classificada como esquizofrenia indiferenciada.

Em relação ao convívio social, também fica claro o isolamento de Bates, característico de uma psicose, visto que ele vive isolado no motel que não recebe hóspedes. No entanto, apresenta comportamentos estranhos de manter o estabelecimento funcionando perfeitamente, mesmo que ninguém apareça e também mostra traços de comportamento infantil, como se tivesse idade de uma criança. Duas cenas atestam esse aspecto: a conversa com Marion enquanto ele come o sanduíche e a cena que mostra o quarto de Bates cheio de brinquedos. Já em outras cenas, ele exibe um comportamento perfeitamente normal, o que é aceitável já que a esquizofrenia não compromete necessariamente a capacidade intelectual.

Na história, o garoto mata a mãe e o padrasto, por não aceitar tal relação. A mãe não vivia mais só com ele, mas também com o padrasto. Então ele mata a mãe a traz para a realidade na forma de alucinação.

Apesar de ser um filme hollywoodiano, não é um filme previsível nem segue um modelo estabelecido. Na verdade esse filme marcou o cinema mundial, sempre aparecendo nas seleções de melhores filmes.

No que se refere á esquizofrenia, o diretor foi muito feliz na representação, já que, de maneira geral, ela condiz com as referências do tema. Embora possa haver alguma estigmatizarão por parte dos espectadores pelo fato de Bates ser um assassino.

4. Considerações Finais

Considerando relevante a possível influência dos filmes sobre o público em relação à formação de conceitos sobre a esquizofrenia, foi possível verificar nos dois filmes, com base nos estudos científicos acumulados, aspectos condizentes e não condizentes em suas representações.

Consideramos que o filme pode omitir um ou outro aspecto, por ser uma narrativa curta, ou até mesmo exagerar na intensidade de um determinado comportamento, o que é comum no cinema.

No filme Psicose, depois de analisado, foi possível a constatação de aspectos que não contradisseram o CID10, por exemplo. Para esse filme, os resultados obtidos foram satisfatórios, sem apresentar dissonância em relação à realidade.

Um aspecto que devemos ressaltar é a questão da agressividade do personagem esquizofrênico do filme, o que pode levar os espectadores a acreditarem que este é um sintoma característico/necessário do transtorno, sendo que este não é tão frequente quanto o cinema faz parecer.  Ou seja, os filmes podem acabar transmitindo uma imagem negativa do esquizofrênico. Os comportamentos agressivos, quando ocorrem na esquizofrenia, geralmente estão associados a delírios e alucinações muito intensos que perturbam o julgamento do indivíduo e a falta de uso de medicação psicotrópica apropriada.

Sobre o Trabalho:

Artigo realizado para obtenção de nota na disciplina de Teorias da personalidade, do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí - UESPI, supervisionado pelo professor especialista Edson Rodrigues Taumaturgo.

Sobre os Autores:

Diêgo Meireles - Aluno do quarto período do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí.

Lorenna Barradas - Aluno do quarto período do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí.

Referências:

BERNARDET, Jean-Claude. O Que é Cinema. São Paulo. Brasiliense, 1986. (Coleção Primeiros Passos)

JASPERS. Psicopatologia Geral. Psicologia compreensiva, explicativa e fenomenologia. Vol. 1

MAUERHOFER, Hugo. A psicologia da experiência cinematográfica. In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

OMS. CID-10 Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde. rev.2008. Disponível em: http://www.datasus.gov.br/cid10/v2008/cid10.htm. Acesso em: Junho/2010.

OSCAR, LEITE, O Que é Psicanálise. São Paulo. Brasiliense. 1984. (Coleção Primeiros Passos)

PSICOSE(Psycho). Alfred Hitchcock.  EUA: 1960. São Paulo: Paranount Pictures. Rmvb(01h47min). p&b.

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