Inclusão de Pessoas com Autismo: Percurso Historiográfico e Político da Educação no Brasil

Inclusão de Pessoas com Autismo: Percurso Historiográfico e Político da Educação no Brasil
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Resumo: O presente artigo faz um percursos historiográfico e político da educação no Brasil dialogando com nuances da inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo. Remonta-se, ainda, no presente estudo, a evolução da nomenclatura e da concepção de autismo em alguns autores importantes. Atualmente acentuam-se as discussões acerca da política de inclusão de pessoas com autismo, que atualmente é considerado um transtornos do neurodesenvolvimento pelo DSM-V (2014). Durante todo o decurso temporal desde Bleuler e posteriormente Leo Kanner em seguida Hans Asperger, foram várias contribuições para se chegar a um consenso do que se sabe a respeito do autismo para então se elaborar possíveis formas de tratamento e inclusão dessas pessoas nos contextos como o escolar e o social.

Palavras-chave: Autismo, Transtorno do Espectro Autista, Inclusão.

1. Introdução

Muito se tem discutido recentemente acerca da política de inclusão de pessoas com autismo. O autismo, atualmente, é considerado um transtorno do neurodesenvolvimento. Além disso é interessante lembrar que desde quando foram realizados os primeiros estudos sobre esse transtorno até atualmente foram feitas várias mudanças em relação à nomenclatura e terminologia do transtorno do autismo.

Dessa forma, tendo em vista a preocupação com relação ao desenvolvimento de crianças com autismo faz-se esse presente estudo com a intenção de abordar tanto a temática relacionada à falta de capacitação por parte de alguns profissionais, quanto às política de inclusão. O texto faz uma busca histórica e também algumas conceituações do ponto de vista de autores que publicaram seus trabalhos abordando tal tema.

Do mesmo modo objetivou-se conhecer a origem do autismo e o pensamento dos estudiosos da época. Por essa razão foi elaborado um apanhado histórico breve de alguns autores mais relevantes para o autismo. Em função disso, abordou-se durante o presente trabalho os primeiros relatos acerca do autismo, bem como os estudos e pesquisas da época. Além disso, os temas esquizofrenia e psicoses são abordados brevementes.

Assim como é abordado o ponto de vista de Bleuler, que sofreu influência do pensamento freudiano e como consequência disso diagnosticava as crianças de sua época com base na teoria desenvolvida Freud sobre o auto-erotismo. Bleuler acreditava que essas crianças, por serem voltadas para o seu eu interior, acabavam por desenvolver um tipo de esquizofrenia. E, além disso, são apresentadas algumas conceituações acerca do autismo até se chegar à conceituação dada pelo DSM-V (2014).

Dessa maneira, para entendermos acerca do autismo, jamais poderíamos deixar de abordar a questão da inclusão dessas pessoas no espaço escolar, por esse motivo realizou-se uma busca de autores que pesquisaram políticas mais exitosas neste contexto. E, a partir disto, também foi realizado um percurso historiográfico da educação no Brasil, bem como as fases que esta passou até se chegar aos dias atuais.

2. Primeiros Relatos Sobre o Autismo e a Produção de Conhecimentos Sobre a Educação no Brasil nos Anos 70 e 80

Antes de mais nada, para entendermos um pouco mais sobre o autismo faz-se necessário realizar um apanhado histórico de quando se começou discutir sobre e o tema e quem foram os precursores. Um dos nomes que se destacou sobre esse assunto foi o médico austríaco Leo Kanner que em 1943 fez sua primeira descrição sobre o autismo (FERREIRA, p.27, 2004). Segundo Berquer (1983), apud Ferreira (2004), nesse mesmo ano o médico austríaco apresentou um relatório preliminar de seu material clínico, onde ele acompanhava onze crianças no ano de 1938, o que se percebia nessa época é que essas crianças eram inaptas em estabelecer relações com pessoas desde o início de suas vidas.

Essas crianças mostravam-se fechadas para o mundo exterior e, de acordo com os pais, tais comportamentos eram demonstrados desde o início da vida, ainda precocemente como descreve Ferreira (2004, p.28): “A criança não adota uma atitude antecipatória antes de ser carregada nos braços e não ajustava a posição do corpo ao da pessoa que a segurava”, dessa forma a descrição que os pais faziam de seus filhos é mais uma prova de que tais crianças manifestavam suas dificuldades de se relacionar com o mundo externo desde muito cedo.

O médico austríaco também faz um apontamento importante que, segundo ele não se observava os pais dessas crianças calorosos, eles pareciam não dar muita importâncias a “coisas” das quais não fossem abstratas. Kanner relata que mesmo em casamentos felizes eles se mostravam mais frios e mais formais, com isso, o teórico também estabeleceu uma pesquisa que verificava a partir de que ponto a doença dessas crianças ou a forma com que elas se apresentavam não tinha relação com a maneira com que esses pais as tratavam. (KANNER, 1983 apud, FERREIRA, p.28, 2004).

Silva (2006), aponta que, com base no discurso de Leo Kanner realizados em seus primeiros trabalhos no qual ele fez uma relação do transtorno com a maneira que os pais lidam com seus filhos, Kanner teria feito essa relação de maneira precipitada. Com isso se propagou para outros profissionais, o que acabou por iniciar um processo de culpabilização dos pais. Ferreira (2004), esclarece que Kanner em 1944 deu nome a essa síndrome descrita acima no texto de autismo infantil precoce. O médico trabalhou com a investigação da etiologia dessa  síndrome, dessa forma o mesmo adotou três níveis de investigação a primeira foi a organicista, a segunda funcionalista e a terceira psicológica. De acordo com os resultados das onze crianças descritas acima ele acreditava que as mesmas não possuíam uma capacidade inata de se relacionar com um mundo exterior, ou seja elas não nasciam com tal capacidade, sendo assim ele acreditava em uma causa biológica para tal incapacidade.

Posteriormente, já na década de 60, foram criadas as primeiras associações de autistas com objetivos de buscar melhorias de tratamento e também na educação, mas sobretudo para revelar que o que vinha sendo dito pelos profissionais não era de fato o que Kanner atribuía. Essas associações faziam explicações etiológicas no sentido biológico, e isso fazia com que diminuíssem a culpabilidade que o teórico acabava por atribuir aos pais. (SILVA, p.8, 2006).

Logo depois a partir da década seguinte em se tratando do contexto político-econômico no Brasil, Braga (2016), conta em um de seus trabalhos que nessa época a avaliação feita pelo setor econômico não foi positiva, por essa razão a década de “80” foi dada como a década perdida. O texto ainda acrescenta que “Os últimos anos da década de 1970 e os anos da década de 80, foram de muitas conquistas para os setores da classe trabalhadora ligados à educação” (SAVIANI, 2007 apud, BRAGA, p.02, 2016).

Conforme Cunha (1991 apud, BRAGA, p.02, 2016), no ano de 1978 houve muitas produções no campo educacional, mas ainda no mesmo texto é descrita a série de conferências com temas relacionados à educação:

A I conferência brasileira de educação realizada na PUC-SP, com a participação de 1,4 mil pessoas teve como tema central “a política educacional”. Já a II conferência brasileira de educação, realizada em Belo Horizonte (UFMG), em junho de 1982, teve seu público ampliado para 2 mil participantes e tematizou “ a educação na perspectiva de democratização  da sociedade. A III conferência brasileira de educação, ampliou o número de participantes para 5 mil, foi realizada em Niterói (UFF) em outubro de 1984  e debateu o tema “da crítica às propostas de ação” “ a educação e a constituinte”  foi  o  tema discutido na IV conferência brasileira de educação, realizada em setembro de 1986, na cidade de Goiânia (UFG e UCG), com 6 mil participantes. A quinta reunião foi sediada pela UnB, contou com 6 mil participantes e teve como tema central “ a lei de diretrizes e bases da educação (CUNHA, 1991 apud, BRAGA, p.03, 2016).

Bem como evidenciado no trecho acima, a partir dessa época começou a aumentar a produção sobre a educação, ocorrendo, inclusive, várias conferências para discutir sobre educação, sendo que a cada nova conferência ocorreu um aumento significativo no seu público.

Além disso, outro fato relevante a ser considerado na década de 60 foi a criação da LDB, conforme Dermeval Saviani (2004), o ensino no Brasil passou por várias reformas e a regulamentação desse ensino foi sendo feita conforme as necessidades e urgências que os grupos de políticos do país definiam. Dessa forma, perceberam no Brasil a falta de um plano de conjunto para unificar a ordem da educação, urgiu a criação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDB (SAVIANI, p.07, 2004).

Do mesmo modo, fazendo um paralelo com a psicologia da época percebe-se que nos anos 80 essa ciência fazia diversas críticas ao campo educacional e que, segundo o CFP (2013), tais críticas possibilitaram trazer para tal campo algumas melhorias na qualidade, fazendo com que as classes populares também fossem beneficiadas. A psicologia é recém chegada no que se diz respeito às discussões no campo das políticas públicas.

Ainda nesta mesma época, segundo o CFP (2013), o estado brasileiro passava por um processo de redemocratização e haviam vários movimentos sociais da classe trabalhadora de variados segmentos, inclusive movimentos de professores e movimentos ligados à Diretas Já (CFP, p. 33, 2013).

Logo depois, ao final dessa década (80), a psicologia trouxe para seu campo de estudos a temática do fracasso escolar, essa problemática fez com que tanto o campo da psicologia quanto da educação aprofundassem seus estudos. Nesse sentido, vários elementos foram levados em consideração nesse processo de investigação, como: a vida diárias dos alunos, práticas educacionais, relações com a escola, diferenças sociais e gênero. 

Segundo o CFP:

… Portanto essa discussão insere um novo eixo de análise do processo de escolarização: o papel das políticas públicas educacionais na constituição do dia a dia escolar e as atividades de ensinar e aprender desenvolvidas nas relações entre educadores e educandos. Assim pesquisar a escola, as relações escolares e o processo de escolarização a partir dos anos de 1980 significou pesquisar uma escola que foi e está sendo atravessada por um conjunto de reformas educacionais, fruto de políticas públicas no campo da educação escolar. (CFP, p.34, 2013).

Por outro lado, com base nesses relatos percebemos que a partir dessa época houve muitas mudanças na educação. Mas ainda faltava muita coisa para ser revista e repensada, sobretudo no que tange às pessoas com necessidades especiais.

Desse modo, com o compartilhamento de informações e a preocupação crescente das famílias dessas pessoas cada vez mais tem se discutido as políticas de inclusão dos portadores de necessidades especiais, especialmente nos espaços escolares. Portanto é indispensável que se conheça a política voltada para tais pessoas, que se busque saber sobre suas perspectivas. Além disso, de acordo com o CFP (2013), mesmo com a criação de tais políticas, para alguns municípios e estados são apenas programas de governo que na maioria dos casos não saem do projeto e os que são de fato criados, ao ocorrer uma transição de governantes os mesmos não recebem continuidade. Por essa razão fica notória a necessidade de se ocupar esses espaços para fazer valer direitos que jamais deveriam ser retirados de quem mais precisa.(CFP, p.35, 2013).

2.1 Esquizofrenia e Psicose

Bleuler era um médico psiquiatra que estudava as psicoses infantis. E antes dos estudos realizados por Leo Kanner crianças eram diagnosticadas como sendo esquizofrênicas exatamente pelo fato de elas serem voltadas para o seu mundo interior. É sabido que Kanner desenvolveu essa terminologia com base nos estudos de Freud sobre o auto-erotismo, criado para designar a sexualidade infantil precoce (FREUD, 1905, apud, FERREIRA, p. 34, 2004).  

Além do médico Léo Kanner, Hans Asperger expôs alguns quadros semelhantes ao autismo, quadros esses que apresentavam perturbações afetivas. Hans Asperger não teve muita visibilidade na época pelo fato de sua obra ter sido publicada logo no final da segunda guerra mundial e o fato de ter sido disponibilizada em alemão o pode ter contribuído também para sua pouca visibilidade ( MARFINATI; ABRÃO, p.256, 2014).

Até muito pouco tempo o autismo era considerado como uma psicose

As primeiras edições da CID não fazem qualquer menção ao autismo. A oitava edição o traz como uma forma de esquizofrenia, e a noma agrupa-o como psicose infantil. A partir da década de 80, assiste-se a uma verdadeira revolução paradigmática no conceito, sendo o autismo retirado da categoria de psicose no DSM-III e no DSM-III-R, bem como na CID-10, passando a fazer partes dos transtornos globais do desenvolvimento ( BOSA, p. 28, 2002 apud MARFINATI; ABRÃO, p.256, 2014) 

Mais recentemente, de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM-V (2014), o autismo está inserido como um transtornos do neurodesenvolvimento. O autismo está colocado no DSM-V como transtorno do espectro autista e, logo mais adiante explicaremos o por quê, mas vale ressaltar que ele está dividido em níveis de gravidade no que diz respeito à comunicação social e comportamentos restritos e repetitivos.

No nível 3 de autismo, que se refere à comunicação social, os déficits relacionados à comunicação causam graves problemas no processo de interação social. No nível 2 que se refere a comportamentos restritos e repetitivos, apresentam dificuldades em mudar o foco ou até mesmo suas ações. Por fim no nível 1, tratando-se de comunicação social, eles precisam de apoio, pois apresentam dificuldades para iniciar uma interação social e também demonstram pouco interesse em interações sociais em geral ( DSM-V, p. 52, 2014).

Acrescenta-se também que algumas características diagnósticas citadas no DSM-V ainda permaneceram as mesmas citadas por Kanner, sintomas que o mesmo afirmou iniciarem na fase da infância. De acordo com o estudo que ele fez com as onze crianças e apontou que as mesmas mostravam dificuldades em demonstrar afetos, e eram voltadas para seu interior.

A propósito, Marfinati e Abrão (2014) apud , faz uma discussão bastante pertinente no que diz respeito a outras concepções do autismo e o denominam psicose infantil, o que difere do entendimento do DSM e CID-10, cuja preocupações é “enquadrar” as características em padrões rigorosos com o objetivo de tornar uma linguagem comum. Com isso percebe-se que os exames laboratoriais ficam dispensados mas que por outro lado, levam a crer que a medicalização é a saída de resolução para tal problema. A seguir, os autores falam sobre isso no seguinte trecho:

… Almeja-se preencher a ausência de signos patognomônicos e a carência de exames de laboratório em psiquiatria. E continua, afirmando que o caminho é o da medicalização da psiquiatria, a fim de afastá-la de vez das influências filosóficas (Jaspers, fenomenologia, existencialismo, marxismo) e psicanalíticas (em especial, Lacan) (MARFINAT; ABRÃO, p.256, 2014 apud, CIRINO, p. 92, 2001).

Dessa maneira fica claro que psiquiatras, de forma intencional, tentam implantar a medicalização como meio de tratamento, e por fim afastar a psiquiatria das influências filosóficas.

2.2 Diferentes Concepções do Autismo

Se fizermos uma análise em trabalhos publicados sobre autismo, podemos observar uma grande variedades de nomenclaturas. Isso está intimamente ligado às formas de concepções acerca do autismo. Ora chamam de psicose, outrora síndrome precoce do desenvolvimento, anteriormente também chamada de esquizofrenia, indagam se é doença psiquiatra e se a causa é orgânica e etc. (BOSA, p.22, 2007).

Isto acontece pelo fato de “a concepção do autismo se dá pela própria concepção de cada profissional sobre a relação de desenvolvimento e psicopatologia” (BOSA, p.22, 2007). Com isso entende-se que dessa forma nunca conseguiremos chegar a um acordo comum.

2.3 Características Econômicas dos Pacientes de Kanner

Kanner acreditava que por ele ser um médico muito bem sucedido na sua época e possuir alto poder aquisitivo, as crianças que até a ele chegava vinham de família ricas, que tinha dinheiro para pagar o tratamento oferecido por ele. Ainda hoje existe uma ideia de que só aparece autismo em famílias com alto poder aquisitivo, entretanto sabe-se que isso não corresponde à realidade. O autismo pode aparecer em qualquer família de qualquer classe social, em qualquer tipo de cultura e nível econômico (Bosa, p.32, 2007). 

2.4 Dados em Relação à Etnia, Raça e Classe Social

De acordo com Joseph et al. (2016), nos Estados Unidos crianças afrodescendentes, hispânicas e asiáticas que atendem aos critérios para serem diagnosticadas com o transtorno do espectro autista são diagnosticadas muito mais tarde do que outras crianças. Isso acontece devido ao tipo de serviço recebido e acompanhamento dessas populações minoritárias.

Além disso, a nível de Brasil, retomando o conceito de políticas públicas, Zibetti et al. (2015), alerta para que nos atentemos à política de estado porque essa nem sempre pode ser entendida como política pública, por essa razão nós sabemos que essa população com necessidades especiais, sobretudo o autismo, merecem uma atenção redobrada no sentido de ter um diagnóstico precoce para que essa sejam encaminhadas para um tratamento adequado. Nesse sentido se essa criança pertencer a uma raça que é discriminada e pertencer a uma classe social menos favorecida, mais tardio será o diagnóstico da mesma, mais demorado será sua inclusão no espaço escolar e mais prejuízos terá como futuro adulto.

Além disso é necessário que voltemos nossa atenção para uma questão importante:  

Há a prática instalada de se estimular as escolas a atingirem metas nos programas de desenvolvimento, o que acirra a concorrência intranacional. Por ela a atribuição do fracasso escolar repousa à “gestão ineficiente ou à “cultura de repetência” e a racionalidade econômica é apresentada como meio de combate a ele. O enfrentamento ao fracasso escolar passa a ser traduzido em metas a serem atingidas, transpondo os imperativos do plano econômico na esfera da subjetividade da comunidade escolar, familiares e propositores de políticas (ZIBETTI et al. p.28, 2015). 

Portanto, o que tem a ver essa essa prática de se estimular as escolas a atingirem metas dentro do contexto relacionado à etnia, raça e classe social e principalmente com o autismo? Pois bem, faremos uma pequena reflexão para deixar clara esta correlação. Imaginemos que uma pessoa seja de uma raça na qual socialmente é discriminada e que essa mesma pessoa apresente o Transtorno do Espectro Autista e além disso pertença a uma classe social menos favorecida. E agora imaginemos que essa criança não seja diagnosticada precocemente, mesmo apresentando alguns sintomas característicos desse transtorno, mas que a família da mesma não possui as condições mínimas para arcar com despesas médicas e psicológicas ou não tenha conhecimento o bastante para buscar ajuda para essa criança e, que ao chegar à idade escolar ela seja inserida nesse contexto escolar e político adoecedor.

Por essa razão sabemos que a classe social, etnia e raça influenciam na questão diagnóstica e posteriormente no desenvolvimento dessa criança com necessidades especiais, uma vez que essa ambiente e contexto citado acima só contribui para o não diagnóstico desse transtorno e também para o não tratamento.

Com isso os autores acreditam que esse atraso na identificação do TEA pode acarretar em outro problema, como as estimativas de prevalência, por esses indivíduos não terem acesso a serviços especializados, por isso continuam sem ser identificados (Joseph; Soorya; Thurm, p.15, 2016). 

2.5 Terminologia do Transtorno do Espectro do Autismo

O TEA foi descrito em 1980 como transtorno mental, mas tem sofrido alterações conforme vem sendo atualizados os critérios do DSM. Tal manual passou da denominação de transtorno autista ou (autista) para Transtorno do Espectro Autista, “com base em critérios similares àqueles similares previamente utilizados para classificação do transtorno autista” (JOSEPH; SOORYA; THURM, p.4, 2016).

Os autores fazem menção a um ponto bastante importante sobre a terminologia do TEA que inclui termos usados pelo DSM-V, dessa maneira o termo utilizado torna-se generalista e não no sentido de que o autismo possui vários eixos. 

3. Alterações Neuroanatômicas 

Segundo Tamanaha, Perissinoto e Chiari (2008, p. 297), com base em pesquisas recentes o autismo infantil pode estar relacionado com o modelo neuroanatômico, acreditam-se que em indivíduos masculinos tenha correlação com a alta taxa de testosterona à qual os mesmos são expostos ainda no período inicial da gestação. Dessa formas esses autores afirmam que os cérebros masculinos são diferentes dos femininos, as mulheres demonstram capacidade de empatização enquanto que o cérebro dos homens funcionam de maneira sistematizantes. 

Alguns autores também levantaram hipóteses de que esses indivíduos possuem uma falha cognitiva que causem prejuízos a nível social e da comunicação. Esses autores afirmam ainda que eles possuem uma incapacidade de atribuir sentimentos, de identificação, o que resulta em prejuízos nas relações interpessoais. Além disso ainda afirma que: "Essas falhas ocasionam prejuízos na atribuição e na compreensão de estados mentais, que nem sempre estão explícitos nas situações dialógicas” (TAMANAHA; PERISSINOTO; CHIARI, p.297, 2008). Portanto os autores estão dizendo que esses indivíduos não conseguem ou não tem a capacidade de perceber estados emocionais em se tratando de relações interpessoais devido ao que eles acreditam ser ou chamam de falha cognitiva.

4. Algumas Conceituações Sobre o Autismo

Por vários anos estudiosos tentaram conceituar o autismo. Esses estudiosos fizeram várias ligações e diversas conceituações para se chegar a uma caracterização do que realmente é o Autismo, sendo que de acordo com o DSM-V (2014) esse quadro está classificado como sendo Transtornos do neurodesenvolvimento definido em vários níveis, conforme o supracitado.

Continuando faremos apanhado de conceitos na sua ordem cronológica, alguns desses conceitos já apareceram citados no texto mas de maneira aleatória. Então Leo Kanner em 1943 com o estudo de casos das onze crianças denominou esse conjuntos de sinais e sintomas distúrbios autístico do contato.

Coincidentemente em 1943, também conforme cita em seu texto Vieira (2016), Hans Asperger, fez publicações de artigos na qual ele tratava o autismo como psicopatia, caracterizada principalmente por apresentar dificuldades em manter interação social.

Em se tratando dos manuais psiquiátricos Vieira (2016) descreve em sua tese :

o autismo foi incluído em 1968 no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-II) na categoria de esquizofrenia de início da infância, mas a partir da década de 1980 foi retirado da classificação das psicoses e incluído no DSM-III como distúrbio invasivo do desenvolvimento (DIAS, 2015). Já no DSM-IV, em 1994, o autismo passou a ser considerado parte dos distúrbios globais do desenvolvimento, juntamente com outros como a Síndrome de Asperger e a Síndrome de Rett (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2005) e esta foi a classificação que durou mais tempo até então. Denominado Transtorno Autista, o autismo era descrito no DSM-IV pela tríade: a) prejuízos na área de interação social; b) dificuldades associadas à comunicação; c) frequente apresentação de padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses e atividades, além da possibilidade de transtornos associados, como a deficiência intelectual. Já a Síndrome de Asperger era descrita como um transtorno semelhante que incluía a apresentação de repertórios de interesses e atividades restritos, estereotipados e repetitivos, mas diferenciava-se pela ausência de deficiência de linguagem ou cognitiva (VIEIRA, p.17, 2016)

Dessa maneira o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais fez uma junção de vários transtornos por apresentarem características similares sendo eles: Transtorno Autista, Autismo de Alto Funcionamento, o Autismo Atípico, Transtorno Desintegrativo da Infância e a Síndrome Asperger e resolveu abordar os mesmo de uma maneira mais ampla, surgindo assim a nomenclatura Transtorno do Espectro Autista (TEA) (VIEIRA, 2016, p.17-18).

5. Educação Inclusiva de Pessoas com o Autismo e o Caráter Excludente

Antes de mais nada, para falarmos sobre educação inclusiva faz-se necessário trazermos um pouco sobre a história da educação no Brasil que, conforme Dermeval Saviani, ocorreu com a chegada dos Jesuítas em 1549, quando estes criaram a primeira escola brasileira. A Educação no Brasil passou por três grandes momentos: O primeiro pedagogia jesuíticas, o segundo representado pelas chamadas aulas “régias” e o terceiro pelas primeiras tentativas de se organizar a educação passando a ser responsabilidade do poder público ( SAVIANI, p.02, 2004).

Saviani (2004) afirma que a escola pública só pôde ser assim considerada quando se iniciou em 1890 os primeiros grupos escolares que eram composto também por três períodos. Entre 1931-1961 houve uma unificação da regulamentação da educação do país nas esferas: municipais, estaduais, federais e privada. Além disso em 1931 logo após a revolução de 1930, foi criado o conselho nacional de educação.

Posteriormente nas décadas de 70 e 80 que, do ponto de vista econômico, foram consideradas as décadas perdidas, já na área da educação houve diversos avanços no sentido de produção de conhecimentos, assim como conquistas para a classe de trabalhadores desta área. (BRAGA, p.4, 2016).

Podemos selecionar, portanto, alguns dos fatores que incluem a concepção crítica ideologia partindo de pressupostos, caros à tradição materialista histórica: a ideologia pode ser uma falsa atribuição das ideias sobre a realidade, a naturalização e concepções históricas, de fenômenos históricos e sociais, e, ainda a universalização de um caráter parcial destes fenômenos, de todo modo ela mistifica e impede uma compreensão que possibilite engendrar uma mudança política contundente (ZIBETTI, SOUZA, et al.,p.37, 2015).

Dessa forma Zibetti et al. (2015) deixa claro ao falar dessas falsas atribuições das ideias sobre a realidade, onde se cria toda uma ideia acerca de educação, inclusive sobre um tema muito discutido atualmente que é sobre a chamada educação inclusiva, mas que na verdade não beneficia quem deveria, e somente cria se uma falsa ideia de que existe uma política voltada para tal demanda que faz e acontece mas que na prática não passa de uma “falsa ideia”.

Além disso todas essas situações citadas sobre a política de educação no Brasil, como seria o processo de exclusão da pessoa autista na educação ? Por outro lado como seria sua inclusão ? Como se daria tudo isso, qual o caminho a ser percorrido, como fazer para incluir um indivíduo com autismo em um contexto escolar de ensino regular ? Dessa forma, Bosa e Camargo (2009), acreditam que uma maneira de incluir crianças com autismo no contexto escolar e, deixá-las juntas com outras crianças com mesma faixa etárias, isso impedirá que as mesmas se isolem cada vez mais.

Dessa forma Oliveira (2011) também fala da inclusão de pessoas com deficiência, mesmo com essas pessoas que apresentam dificuldades e limitações o ideal é que as trate da mesma forma perante os demais alunos. Elas possuem os mesmos direitos que as demais e um deles é de não serem tratadas de forma discriminatória. tanto a constituição federal de 1988 quanto o estatuto da criança e adolescente (ECA), tratam de garantir o direito da educação e o pleno desenvolvimento de sua pessoa e o preparo para o exercício de sua cidadania.

Conforme Sawaia (p.9, 2008), “a exclusão é processo complexo e multifacetado”, entendemos assim que exclusão não é uma coisa ou um material qualquer, mas que envolve o ser humano como um todo e demais relações com outros seres humanos. Sendo que não é uma falha e sim produto de um sistema que é falho, alias foi criado exatamente para ser falho.

6. Considerações Finais

Levando-se em consideração esses aspectos históricos e todo o percurso realizado para se ter uma definição do chamado na contemporaneidade Transtorno do Espectro Autista (TEA), podemos observar neste trabalho que foi um longo caminho até se chegar aos dias atuais. Durante todo esse tempo desde Bleuler e posteriormente Leo Kanner em seguida Hans Asperger, foram várias contribuições para se chegar a um consenso do que se sabe a respeito do autismo para então se elaborar possíveis formas de tratamento e inclusão dessas pessoas no contexto escolar, social e etc.

Com a finalidade de se conhecer mais sobre a educação no Brasil dita para “todos”, faz-se necessário que busquemos conhecer desde a primeira escola aqui implantada, acompanhar os avanços e perceber o que ainda falta, nesse sentido também é interessante estar a par do modelo de educação sobretudo se existe inclusão de pessoas com necessidades especiais, o que foi o foco do nosso trabalho. Além disso, há uma grande importância que profissionais que tenham interesse em trabalhar com o Transtorno do Espectro autista tomem conhecimento histórico de quando surgiu e quem foram os pesquisadores que mais contribuíram para se chegar a tal definição. De maneira geral entender como e quando começou e saber um pouco mais sobre a forma de pensar daquela época. Como conferimos no texto alguns sintomas e critérios de avaliação ainda permaneceram do DSM-V.

Faz-se necessário ainda em outra oportunidade falar melhor sobre esse assunto, que quanto mais forem abordados e discutidos, mais conhecimento serão adquiridos, e isso é essencial se para profissionais da área que consequentemente vão ajudar diretamente no tratamento e na melhoria de qualidade de vida desses indivíduos. Não somente nos que portam o transtorno mas também ajunto às pessoas que convivem com as mesmas.

Sobre o Autor:

 Marcelo Dias da Silva - acadêmico do 6º período de psicologia da Faculdade Católica Dom Orione - FACDO. 

Referências:

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  14. ZIBETTI, M. L. T. et al. psicologia políticas educacionais e escolarização. 1. ed. Florianópolis: Pandion, 2015.

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