O Narcisismo e sua Representação na Sociedade de Consumo

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Resumo: Este artigo visa discutir como o consumismo tem gerado uma sociedade narcisista, essa transformação vem acontecendo a partir da implantação do capitalismo no cenário mundial. Através dessa temática que o filme “Delírios de consumo de Beck Bloom” se desenrola, mostrando o gasto incontrolável da protagonista para conseguir manter um ilusório bem-estar individual. A metodologia utilizada foi o cinema, que tem como objetivo entreter e nos fazer refletir sobre o que é apresentado. Desta forma, a obra fílmica explorada serve como um objeto de estudo para a análise de novas formas de vida, como o narcisismo na sociedade de consumo.
Palavras-Chave: consumismo; capitalismo; narcisismo; cinema.

Introdução

O advento do capitalismo vem gerando um consumismo exacerbado, ou seja, um tuborconsumismo, de acordo com Lipovestsky (2007) citado por Caniato e Nascimento (2010, p.27).  A partir dessa lógica, a sociedade acredita que para ter poder é necessário possuir objeto de consumo, mas ele tem um o prazo de validade – um período programado de danificar – demandando uma permanente troca de mercadorias. E é nessa dinâmica que o individualismo se torna exagerado, pois há uma falta de investimento nos ideais, nas causas coletivas e nas relações gerando uma libido em seu próprio ego, mantendo indivíduos em estados regredidos de funcionamento narcísico.  

A partir dessas questões o cinema tem um papel fundamental na compreensão dessas expressões, pois ele não só tem a função de lazer, mas também de reflexão, ou seja, o espectador pode despertar uma atitude crítica sobre o tema demonstrado nele. Desta maneira, segundo Benjamin (1994) mencionado por Cagliani (2005, p.40) o objetivo do cinema “é tornar ‘mostráveis’, sob certas condições sociais, determinadas ações de modo que todos possam controlá-las e compreendê-las”. O cinema apresenta a realidade histórica, pois demonstra conteúdos intrínsecos da época, influenciando em modos de pensar e agir nas sociedades. Cada autor de um filme vive em uma realidade e a criação dele vai depender de sua percepção sobre o mundo. Por isso, a obra fílmica pode ser considerada o retrato e a interpretação da realidade vistos por um de seus integrantes. 

Filme: Os delírios de consumo de Beck Bloom

A obra fílmica “Delírios de consumo de Beck Bloom relata a vida de Rebecca, uma mulher que compra compulsivamente e acaba cheia de dívidas. Para tentar pagá-las começa a procurar emprego e por mais ironicamente que pareça, consegue um trabalho de colunista numa revista de economia. Lá, ela começa a dar dicas sobre finanças, mesmo tendo sua própria vida tomada pelo consumismo.

Com o novo emprego de jornalista, ela tentar reduzir seus gastos e procura uma associação de compradores compulsivos para se tratar, no primeiro momento sem muito sucesso. Mas, com o passar do tempo a sua compulsão por compras acaba isolando-a de algumas pessoas que ela gosta, como sua amiga e seu chefe (pretendente). Então, ela percebe que sua compra excessiva está atrapalhando sua vida e procura novamente reduzir os gastos com o auxílio do apoio psicológico, tendo sucesso.

Narcisismo como consequência do consumismo

Na visão psicanalítica, o narcisismo que acontece na infância é considerado como primário. Nesse primeiro momento, há um autoerotismo em que a energia libidinal estaria concentrada no ego servindo de proteção, além de uma fonte de fantasias. Essa etapa é indispensável para o desenvolvimento humano e não se refere como uma patologia. Com o passar do desenvolvimento essa energia libidinal ligada ao ego se deslocará para os objetos, ou seja, o ego narcísico passará a procurar o outro transferindo seu desejo e realização de sua satisfação. Para que haja um equilíbrio psíquico é necessário um balanceamento energético entre os investimentos no eu e nos demais objetos.

Mas, o narcisismo da sociedade de consumo não está ligado ao outro, do mundo exterior, nesse caso há uma regressão, a libido será redirecionada ao eu. Outras características marcantes desse narcismo são: valorização da autorealização, egocentrismo, eficiência, particularismo, hedonismo, busca por viver intensamente o presente, sedução e criatividade, fascínio pelo espetáculo e busca por novas realizações. Sentimento de desprezo e apatia pelo coletivo, buscando apenas a própria vantagem e só necessitando do outro como instrumento de confirmação do próprio eu.

De acordo com Costa (1988) citado por Caniato e Nascimento (2010, p.34), os distúrbios narcísicos desta época resultam de uma ampliação da experiência de impotência e desamparo, bem como de um clima de desorientação e ansiedade que tendem a se generalizar em nossa sociedade. Então, o narcisismo entra nessa realidade com o objetivo de evitar desprazer, dor, sofrimento ou privação. Por isso, quando se tem a frase de ordem - do ter e não do ser – o ego narcisista entra em ação para não haver solidão, exclusão e desprezo.

A sociedade de consumo marcada por publicidades fascinantes, prometendo um bem estar conquistado pela aquisição de produtos da moda, gera uma insegurança e infelicidade. Pois, os indivíduos que entram nesse jogo acabam por prosperar somente dessa forma. É notório como o narcisismo aparece nesse cenário tentando diminuir o mal-estar imposto na atualidade.

Delírios de consumo e o narcisismo

O filme “Delírios de consumo de Beck Bloom”, desperta de forma engraçada, como a compulsividade vem tomando espaço na sociedade e as pessoas cada vez mais compram com o ideal de serem as melhores, falseando uma ideia de felicidade. A cultura contribui, pois torna indivíduos com características extremamente narcisistas; onde há um predomínio do uso da imagem de ação em vez da reflexão para lidar com a ansiedade, um incentivo exagerado ao consumismo e o culto ao corpo.  

A compra compulsiva, demonstrada no filme através da protagonista, tem sido bem comum, ou seja, as pessoas recorrem ao consumo exagerado com a intenção de exibir sua imagem narcísica. Pois, os indivíduos projetam ideais para suprir a carência afetiva, devido o medo do abandono e do vazio. Então, o narcisismo entra como uma proteção do ego, mas este escudo acaba por afastar o eu da relação com as outras pessoas. A obra fílmica demonstra como o narcisismo de Rebecca afasta-a das suas amizades e do seu chefe.

Não se ver esse filme apenas como distração, mas para perceber as novas configurações demonstradas nele e interpretar a contemporaneidade. Por exemplo, a moda faz com que renovemos com rapidez os objetos criando um hedonismo centrando em satisfações imediatas. Também incentivando um individualismo, sem investimento nos ideais, a protagonista do filme exerce esse papel quando compra roupas que estão na moda e nem se quer as usam. É nesse sentido que os objetos de consumo são adquiridos para se obter status e diferenciação social. Pois, este último é uma forma de manter-se protegido da exclusão.

O marketing e a publicidade, sabendo desse medo e fraqueza, criam propagandas chamando as pessoas para as compras, há uma produção exacerbada para que haja um consumo, e consome-se mesmo que não tenha um valor, há um desperdício. No início do filme, Rebecca não consegue se controlar com as liquidações e promoções com aqueles verbos imperativos. Ou seja, ela ainda não conseguiu se desligar do narcisismo egóico. Mas, ao final do filme, a energia libidinal da protagonista está ligada às outras pessoas, por exemplo, ela se entende com seu pretendente e sua amiga. Esses dois últimos, anteriormente foram vítimas do seu egoísmo, mas ela consegue melhorar e o narcisismo passa a funcionar de forma normal.

Conclusão

A sociedade de consumo juntamente com o narcisismo têm gerado pessoas egoístas e individualistas. O filme “Delírios de consumo de Beck Bloom” demonstra esses temas de uma forma bastante criativa e descontraída. É notório que a compulsão é valorizada pela lógica social, na qual impõe o ter em detrimento do ser, incentivando ainda mais o narcisismo patológico, pois é a partir dele que a relação com outros não é assumida.

A publicidade tem um papel importante nesse consumo desenfreado, principalmente em suas propagandas em que mostram a magia dos ídolos idealizados pelas pessoas. Essas últimas, acreditando que sua insegurança irá melhorar adotam esses ideais todo para o seu ego, gerando uma sensação de desqualificação. Se a idealização não fosse o tempo todo bombardeada na mídia, provavelmente as pessoas seriam menos compulsivas.

O presente artigo pretende contribuir na compreensão que o narcisismo faz parte do desenvolvimento humano, mas ao passar do tempo ele deixa de ser direcionado ao eu e passa a ser apontado para o objeto, nesse caso, as pessoas. Por isso, quando se tem uma sociedade que privilegia o consumo, o narcisismo é deflagrado favorecendo indivíduos frágeis e sozinhos. Mas, é importante deixar claro, conforme nos diz Freud (1930) citado por Caniato e Nascimento (2010,p.35), nossa felicidade e mesmo nossa saúde depende diretamente da capacidade de amar.

Sobre o Autor:

Patrícia Jesus de Oliveira - Estudante do quarto semestre de Psicologia da Faculdade Nobre de Feira de Santana – Bahia.

Referências:

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CAGLIANI, Bia. Cinema e pós-humanismo. Disponível em: http://www.cchla.ufpb.br/caos/biacagliani1.pdf. Acesso em: 21.10.2011

CANIATO, Angela M. Pires; NASCIMENTO, Merly L. Vargas. A subjetividade na sociedade de consumo: do sofrimento narcísico em tempos de excesso e privação. Disponível em: http://www.psicologia.ufrj.br/abp/. Acesso em: 24.10.2011

CANIATO, Angela M. Pires; KAPOIA, Alessandro. O narcisismo na cultura - a opressão narcísica na contemporaneidade vinculada à sociedade de consumo. Disponível em: http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?pid=MSC0000000082005000200017&script=sci_arttext. Acesso em: 24.10.2011

DELÍRIOS de consumo de Becky Bloom. Direção: P. J. Hogan. Elenco: Isla Fisher, Hugh Dancy, Krysten Ritter, Joan Cusack e outros, DVD color. 104 min. (2009).

MOURA, Joviane. O Conceito de Narcisismo Na Construção Teórica da Psicanálise. Disponível em: https://psicologado.com.br/abordagens/psicanalise/o-conceito-de-narcisismo-na-construcao-teorica-da-psicanalise. Acesso em: 21.10.2011

PORTELA, Luciano. A Imagem Fílmica e sua Importância Histórica. Disponível em: http://www.mnemocine.art.br/index.php?option=com_content&view=article&id=201:a-imagem-filmica-e-sua-importancia-historica&catid=42:historia-no-cinema-historia-do-cinema&Itemid=67. Acesso em: 21.10.2011

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