O Processo de Constituição da Subjetividade do Sujeito Acometido Pelo Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social)

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1. Introdução

O presente trabalho busca evidenciar de uma forma bem ampla o processo de constituição da subjetividade do indivíduo vitimado pelo transtorno de ansiedade social (fobia social), levando em consideração os fatores que possam ser determinantes para esse acometimento, sendo os de socialização como os mais bem vistos para predisposição do adoecimento psíquico e os associados aos fatores de herança genética, os quais ainda carecem de comprovação científica.

O primeiro momento do trabalho é caracterizado pela apresentação da fobia social, suas características e o perfil das pessoas que são vitimadas por esse sofrimento psíquico de ansiedade. No decorrer do trabalho será abordado sobre o fator da socialização e na importância desta para delinear o processo de subjetivação do sujeito com suas possíveis interiorizações no seio relacional familiar caracterizado como socialização primária e na sociabilidade extrafamiliar, ou seja, em outras ordens sociais de interiorização vista como socialização secundária, e que ambas têm enorme importância para constituição da identidade subjetiva do indivíduo fóbico social. Em seguida será feito um paralelo para diferenciar a fobia social da timidez levando em consideração que ambas são formas de ansiedade.

Por fim, temos uma breve conclusão que aponta para importância do processo de socialização para obtenção da subjetividade, esta que é formada a partir da interiorização sociocultural que o indivíduo faz das variadas ordens sociais, sendo que o indivíduo acometido por esse fenômeno psicopatológico pode ser fruto justamente dessa imperfeita sociabilidade.

2. Desenvolvimento

A fobia social é caracterizada como um dos transtornos de ansiedade mais comuns e o qual foi muito negligenciado em boa parte de seu processo histórico, segundo Neto (2006) “até a metade da década de 1980, a fobia social era considerada um transtorno ansioso negligenciado”, pois muitas vezes foi confundido por leigos e até por profissionais da saúde, como uma timidez exacerbada, porém, o portador desse transtorno não apresenta apenas falta de confiança e desenvoltura vistos na timidez, mas apresenta segundo D’elRey (2014) um medo acentuado e persistente de uma ou mais situações sociais ou de desempenho.

A origem da fobia social é incerta. Logo, acredita-se que a mesma pode ser causada por hereditariedade genética ou que seja fruto de uma educação de repressão, ou da associação desses fatores, como por exemplo, a superproteção dos pais com os filhos ao impedi-los de ter suas próprias liberdades, atitudes essas que podem ter consequências negativas para esse indivíduo, ou seja, o excesso de preocupação ao proibi-los de sair de casa afastando-os da convivência social pode criar nesses indivíduos uma série de bloqueios para sua relação com a sociedade. Outra causa que pode ser determinante para a origem desse transtorno, é a história de vida marcada por fatores traumáticos, como por exemplo, um adulto que durante a sua infância, sofreu agressões na escola, rejeições de colegas, vivência de experiências negativas marcantes, falta de relacionamentos (amigos), etc.

A partir disso, podemos supor que a identidade e a subjetividade desse sujeito é criada intimamente com uma imperfeita socialização, sendo permeada de traços negativados pelo medo da sua exposição, da reação das pessoas para com ele e de desempenhar atividades à vista de olhares alheios, ou seja, olhares que não sejam de pessoas familiares a ele, o que consequentemente ultrapassa a tradicional timidez, tornando-se segundo Lima (2010) uma “Timidez patológica” que nega o contato com o social a todo custo.

Adentremos agora no processo de constituição do sujeito, no qual ocorre a aquisição de sua subjetividade, onde os fatores responsáveis pela socialização e assimilação da cultura podem ter papeis determinantes para que haja abertura suficiente para a instalação de um fenômeno psicopatológico, no caso o transtorno de ansiedade social, mesmo que ainda incerta sua origem, pode ser caracterizado por falta de assimilação cultural e convívio social ou por uma vivência social traumática.

Para Berger e Luckmann (1985) o indivíduo não nasce integrante da sociedade, mas com predisposição para sociabilidade. Podemos afirmar que este só consegue se tornar social ou integrante dessa sociedade quando internaliza ou interioriza a subjetivação e a objetivação de outrem, ou seja, ao internalizar o conteúdo já existente no seu seio relacional o indivíduo se torna membro da sociedade e consequentemente herda desse meio, comportamentos, conhecimentos e ideais que lhes auxiliaram para a construção de sua própria subjetividade, seja aceitando ou não a subjetividade do outro e a realidade social objetivada em uma socialização primária e posteriormente na secundária.

Somente depois de ter realizado este grau de interiorização é que o indivíduo se torna membro da sociedade. O processo ontogenético pelo qual isto se realiza é a socialização, que pode assim ser definida como a ampla e consistente introdução de um indivíduo no mundo objetivo de uma sociedade ou de um setor dela. Socialização primária é, a primeira socialização que o indivíduo experimenta na infância, e em virtude da qual torna-se membro da sociedade. A socialização secundária é qualquer processo subsequente que introduz um indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo de sua sociedade (BERGER e LUCKMANN, 1985, p.17).

Em relação à ideia de Berger e de Luckmann (1985), nos vem à tona uma dúvida, se a fobia social é característica de uma socialização primária ou secundária, logo a resposta deixa de ser uma incógnita, pois de acordo com o que já foi dito durante o texto sobre o transtorno de ansiedade social, a sua origem é incerta, mas sua causa não. Logo ela pode ser inicializada na socialização primária, ou seja, na família, a qual pode apresentar a esse indivíduo aprendizados e comportamentos de timidez acentuada ou uma educação repressora advinda de uma superproteção dos pais, o que contribui também para um atraso no desenvolvimento da autonomia individual.

Em relação à aquisição desse transtorno na socialização secundária onde já existe a socialização adquirida na primária, no caso, com a família, são encontrados os fatores externos como a não assimilação da cultura de outros indivíduos, a rejeição social por sua forma de ser, as vivências traumáticas como a violência, as exposições inesperadas, entre outras que são muito mais comuns durante a infância. No entanto, não seria surpresa se a origem desse transtorno fosse determinada como fruto de ambas as socializações, pois uma fortaleceria a outra no quesito da não socialização e que talvez não existisse fator genético envolvido, mas apenas uma imperfeita assimilação, uma aquisição de comportamentos e interiorização de atitudes que possam contribuir para a não autonomia individual e consequentemente a não adaptação à socialização e à rejeição do mesmo para a sociabilidade por não apresentar autonomia para lhe dar com as adversidades que surgirem.

Contudo, o certo é que o transtorno de ansiedade social é vivido por o sujeito, mas não é originado no sujeito por sua causa e por ele mesmo. Digamos que este pode ter traços genéticos, embora sejam mínimos, ou que se trata de algo que vem de múltiplas variáveis da socialização, da má sociabilidade e da repressão para com esta e nesta socialização.

Baseando-se na reflexão de Faria apud camaroti (2005), o qual argumenta que: “nem todo sofrimento psíquico, embora vivido pelo indivíduo seja originado nele e por ele mesmo”, podemos pôr em xeque um dos principais ou talvez o principal de todos os fatores que podem determinar o estado de sofrimento psicológico que é o fator o da socialização, pois o sujeito ao nascer tem predisposição à inserção social e quando inserido se encontra em uma sociedade já culturalmente permeada de comportamentos e conhecimentos pré-estabelecidos, e irrigada de pré-conceitos e estigmas. Logo, por esse individuo apresentar características que incidem ao desajuste e a “anormalidade”, ele se encontra envolto dos tais pré-conceitos e consequentemente é vitimado pela objetivação do saber já estabelecido culturalmente na sua sociedade e no seu seio relacional, o qual determina de forma total ou em partes a sua subjetividade, ou seja, aceitação do indivíduo à subjetivação criada para si por sua relação com o outro.

Em uma visão mais específica a subjetividade é criada quando uma pessoa, no caso uma criança, começa a identificar-se a si mesma ao depara-se com os significados característicos de objetivação de sua identidade em relação aos significados de outras identidades, ou seja, ela percebe sua identificação em comparação com a do outro e a partir disso ela encontra sua auto identificação, ou identidade subjetiva.

O fato de atribuir a causa da fobia social principalmente à socialização e não pondo tanto em xeque o fator da origem na herança genética se dá justamente por que esse transtorno é em sua maior parte associado a traços de personalidade voltados ao desenvolvimento de sua sociabilidade, ou seja, na fobia social a pessoa se sente ansiosa em situações sociais, sendo assim, fruto de compreensões e interiorizações de comportamentos e condutas socioculturais. Em relação à suposição de que esse transtorno possa ser de herança genética, essa não é aqui julgada como menos importante, más no que se refere à importância da sociabilidade e da subjetivação, o fator da hereditariedade aqui não tem o mesmo valor que o da socialização.

Segundo alguns autores a causa da fobia social parece estar associada à combinação de alterações genéticas e ambientais. Logo, é comum encontrarmos fóbicos sociais de famílias onde há alguém extremamente tímido, como um pai, uma mãe ou ate mesmo um tio ou um avô, e então acreditamos que possa ser uma questão de herança genética. Logo, também devemos levar e consideração que a criança no convívio diário com os comportamentos dessas pessoas que são tímidas vai aprendendo que o contato social é ameaçador, e o que é muitas vezes visto como uma hereditariedade genética é nada mais nada menos do que um aprendizado e uma interiorização de tais comportamentos. No entanto, não queremos aqui mostrar o que é certo ou errado, mas ter uma visão bem mais ampla em relação ao transtorno de ansiedade social. Contudo o que foi dito anteriormente é um exemplo de caso e não a forma exclusiva de causa ou origem do transtorno, bem porque como dito no início deste trabalho sua origem é incerta, podendo ser até fruto de uma infância traumática por diversos fatores sociais e talvez a melhor suposição seja a da combinação dos dois fatores, no caso, os fatores genéticos e os ambientais.

Outro ponto que merece ser destacado é saber diferenciar a timidez da fobia social. Segundo Lima (2010) “timidez é um processo psicológico inibidor de ações em um indivíduo, os tímidos ficam retraídos quando se deparam com situações novas...”, por outro lado se essa timidez é intensa e prejudicial aos aspectos funcionais do indivíduo ela pode ser caracterizada como fobia social ou transtorno de ansiedade social.

Quando a ansiedade sentida não causa prejuízo à vida funcional podemos dizer que é um caso de timidez, no entanto quando essa passa a prejudicar a vida normal, profissional, afetiva e social, quando atrapalha o desempenho da pessoa em todos os âmbitos de sua vida, podemos estar diante de um caso de fobia social (LIMA, 2010, S. P.)

Portanto, na timidez o sujeito sente dificuldade para realizar uma tarefa e não uma impossibilidade, já na fobia social há realmente a impossibilidade da realização de uma tarefa, com isso a diferença entre uma e outra está na intensidade da ansiedade que a pessoa sente, já que falar de ambas implica em falar de ansiedade.

Em relação a tudo que já foi dito sobre a subjetivação da identidade e à constituição do que é culturalmente visto como sofrimento psicológico no transtorno de ansiedade social pode-se dizer que a subjetividade deste indivíduo acometido e toda sua essência são produtos da socialização ou de sua imperfeita interiorização e que a mesma é enriquecida a partir dos processos culturais, sejam eles de primeira instância (família) ou de outras ordens sociais que são permeadas de comportamentos, conhecimentos, conceitos e ideais disponíveis para a interiorização nos indivíduos.

3. Considerações Finais

 Por fim, concluímos que o transtorno de ansiedade social também é um traço subjetivo formado nesse processo de subjetivação sociocultural e que o fenômeno psicopatológico da temida “timidez patológica” foi enraizado a partir de suas vivências ou da falta destas por atitudes repressoras, traumas e medos da sociabilidade. No entanto é também aceitável dizer que o transtorno de ansiedade social pode ter marcas de uma hereditariedade genética, mas acreditamos que ela não será sozinha sem o fator da socialização a causa ou origem da fobia social, ao passo que o fator da socialização é muito mais determinante para essa constituição subjetiva de sujeito vitimado. Logo, o acometimento característico pelos processos de socialização é mais bem visto como uma forma singular, enquanto que o de herança genética sempre tem o acompanhamento da sociabilidade, ou seja, é mais fácil determinar o acometimento da fobia social pela associação dos dois fatores do que valorizar o fator genético como determinante desse transtorno, pois sua origem ainda é tida com incerteza, mas a causa que é fruto das consequências da socialização é uma certeza.

Sobre os Autores:

Wanderlanne Vasconcelos Jeremias - Estudante do 7º período de Psicologia na Faculdade Luciano Feijão - Sobral/CE.

Welder de Paula Feijó - Estudante do 7º período de Psicologia na Faculdade Luciano Feijão - Sobral/CE.

Referências:

BERGER, Peter e LUCKMANN, Thomas: “A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento”, trad. Floriano Fernandes, Rio de Janeiro, editora Vozes, 1978, 4ª edição, 247 pp. (1ª edição em Inglês, New York, 1966).

CAMAROTI, Chayanne, et al. Re-descobrindo a Gestalt-terapia um olhar sobre a contemporaneidade. Pôster - IX Congresso e XII Encontro nacional de Gestalt-terapia. 2009. Acessado em: 24/11/2014. Disponível em: http://www.igt.psc.br/ojs2/index.php/cengtb/rt/printerFriendly/251/482.

D’ELREY, Gustavo J. Fonseca. Transtorno mental ou timidez: percepção dos leigos em relação à fobia social. Psychiatry on line Brasil, V. 19, 2014. Acesso em: 21/11/2014 Disponivel em: http://www.polbr.med.br/ano05/artigo0805.php

LIMA, Ana Lúcia. Timidez ou fobia social? Entenda a diferença. Banco de saúde. 2010. Acesso em: 21/11/2014 Disponível em: http://www.bancodesaude.com.br/user/870/blog/timidez-fobia-social-entenda-diferenca

NETO, Tito Paes de Barros. Fobia social: perfil clínico, comorbidade e diagnostico diferencial. Revista Psiq. Clínica. Cap. 33 p.5-9, 2006.