O Transtorno de Personalidade Borderline

1 1 1 1 1 Avaliações 0.00 (0 Avaliações)
(Tempo de leitura: 4 - 8 minutos)

Resumo: entende-se o transtorno de personalidade borderline (ou limítrofe) como um padrão globalna instabilidade emocional, nos relacionamentos interpessoais, na auto-imagem e uma constante instabilidade no humor. O seguinte trabalho é um estudo bibliográfico acerca dos aspectos norteadores do (TPB), visando sistematizar os conhecimentos acerca desse transtorno, elucidar os critérios diagnósticos, as possíveis causas, os aspectos de adesão do paciente ao tratamento do transtorno e abordar a perspectiva psicanalítica no cuidado desse fenômeno. Esse trabalho ressalta a relevância de estudar essa patologia que causa sofrimento tanto para o indivíduo acometido, como para quem convive com ele. Constata-se que tem a intenção de promover discussões sobre o tema e fornecer material de estudo para a psicologia e áreas afins.

Palavras-chave: transtorno de personalidade borderline, adesão ao tratamento, perspectiva psicanalítica

Considerações Iniciais

Os transtornos de personalidade se caracterizam por afetar todas as áreas que  influenciam a personalidade de uma pessoa, a maneira como ela vê o mundo, a forma como experimenta emoções e como se comporta na sociedade. Portanto, podem ser classificados como indivíduos que possuem um estilo de vida mal-adaptado ou prejudicial a si mesmos ou aos seus conviventes.

O transtorno de personalidade borderline é caracterizado como um padrão global de instabilidade no humor, nos relacionamentos interpessoais, na auto-imagem, sentimento de vazio, acentuada impulsividade, manifestando-se no início da idade adulta e percorrendo uma variedade de contextos e situações.

O conceito borderlinena literatura inglesa significa “fronteiriço”, isto é, referindo-se a uma constante instabilidade no humor, impulsividade nas emoções ou extremidades na tomada de decisões, afetando os mais diversos segmentos da vida do indivíduo.

Não raro, esse fenômeno pode acontecer em diversos extratos sociais, variadas culturas e contextos sócio-econômicos. Acomete cerca de 2% e 3 % da população, em um nível considerável de relacionamentos conflituosos, medo do abandono, dificuldade no controle de suas emoções e afetos, tentativas de suicídio.

Critérios do DSM-IV para o Diagnóstico de Transtorno de Personalidade Esquizóide

Para que uma pessoa possa ser diagnosticada com transtorno de personalidade borderline ela deve reportar suas experiências ao profissional atendendo e apresentar um padrão recorrente de instabilidade nos relacionamentos interpessoais, na auto-imagem e nos sentimentos de impulsividade que emergem no inicio da idade adulta e se faz presente durante o decorrer de sua vida, pode-se considerar portador desse transtorno indivíduos que apresentam no mínimo, quatro critérios apresentados pelo DSM-IV:

  • Iniciativas exageradas para evitar o abandono real ou imaginário.
  • Padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos caracterizados por alternância entre extremos de idealização e desvalorização
  • Perturbação do senso de identidade: instabilidade em relação à auto-imagem ou à percepção de si mesmo de modo marcado e persistente
  • Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais
  • Comportamento suicida recorrente; gestos, ameaças ou comportamento de automutilação
  • Instabilidade afetiva devido à reatividade marcante do humor
  • Sensação crônica de vazio
  • Raiva inapropriada e intensa ou dificuldade para controlá-la
  • Ideação paranóide passageira e relacionada ao estresse ou a sintomas dissociativos graves

Causas

Não existe uma única causa desencadeadora de tal transtorno, o que podem ser estudados são as combinações de experiências traumáticas vivenciadas na infância pelo sujeito, situações de vulnerabilidade social, nível elevado de stress ambiental ou limiar baixo de ansiedade. Esses podem ser fatores que predispõem o surgimento do problema.

A influência psicossocial que tem recebido muita atenção é a possível contribuição de um trauma da infância principalmente sexual e abuso físico (BARLOW, 2011). Desse modo, alguns estudos apontam os indivíduos com esse transtorno estão mais propensos a relatar situações de abuso do que sujeitos com outros problemas psicológicos.

Alguns pesquisadores apontam que o transtorno de personalidade borderline tem sido observado em pessoas que vivenciaram mudanças culturais em um curto espaço de tempo, ou ainda, alguns eventos estressores podem causar o comportamento instável.

Adesão do Paciente ao Tratamento do Transtorno

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR, 2002) classifica adesão ao tratamento como uma das condições primordiais na atenção clínica. Adesão é definida como um comportamento complexo que inclui não só as características do paciente, mas também do clínico e das estratégias de tratamento utilizadas (TANESI, 2007).

Raras às vezes, o paciente com transtorno de personalidade borderlineprocura tratamento clínico, porém, o processo de tratamento é dificultado pela própria limitação do paciente em obediência às regras do procedimento, por problemas com abuso de drogas ou por situações de tentativas de suicídio. Há uma relutância de muitos clínicos em atender os sujeitos com essa demanda, considerando o grau de dificuldade do problema.

Quanto ao efeito das intervenções psicológicas em pacientes com transtorno de personalidade borderline, (Binks apud TANESI 2007), em uma revisão sistemática, conclui que os problemas encontrados em pacientes com transtorno de personalidade borderlinepodem ser aliviados com tratamentos que envolvem conversa ou comportamentais, mas todas as terapias ainda estão na fase experimental. Os estudos são poucos e limitados para inspirar uma completa confiança em seus resultados. Os achados requerem replicação em estudos maiores no "mundo real".

As razões conscientes mais comuns referidas pelos pacientes para não aderirem ao tratamento e freqüentarem as sessões de psicoterapia são frustração com o tratamento, falta de suporte social e dificuldades logísticas em comparecer às consultas (Gunderson, 1989).

Dentre as dificuldades que essa estrutura de personalidade impõe ao trabalho psicoterápico, tem-se a inconstância de sua adesão ao tratamento, com diversas tentativas de “sabotagem” do processo; a tentativa de perverter os objetivos do tratamento, utilizandoo para fins diversos do que se concebe como uma melhora (ganho secundário da doença); a tentativa de formação de vínculos não terapêuticos e de intimidade com o terapeuta; a dificuldade em sustentar os progressos do tratamento, pois estes põem em risco seu status de dependência e controle; a dificuldade em sustentar a agressividade e angústia projetada no terapeuta, dentre outros entraves (ZIMERMAN, 2004).  

Psicoterapia com Ênfase Psicanalítica

É certo que o procedimento terapêutico e o manejo do profissional de psicologia deverá pautar-se no respeito à condição desse sujeito. Essa tarefa não é fácil, dado que se trata de entender um fenômeno de relativa complexidade, o que impõe grandes desafios no cuidado e enfoque terapêutico. A psicanálise utiliza seu arcabouço técnico e prático a fim de ampliar a visão desse sujeito e melhorar sua qualidade de vida.

O foco da ação terapêutica psicanalítica, no tratamento do transtorno borderline, é a ampliação do ego através do desenvolvimento das funções atrofiadas, que resultará no aumento da capacidade de mentalizar as experiências traumáticas e na contenção de experiências correlatas (TENENBAUM, 2007).

O tratamento clínico dirigido a esses pacientes, cujo quadro envolve um com-prometimento narcísico, logo a dificuldade de estabelecimento de uma relação transferencial produtiva impôs desafios à técnica psicanalítica, principalmente, na primeira metade do século XX, período em que tais casos foram tidos como “não-analisáveis”, sendo fonte de estudo e construção teórica, mas sem a obtenção de “resultados” efetivos. O ponto principal da inviabilidade da técnica analítica estaria na dificuldade de manutenção de um setting terapêutico com todas as regras que compõem o contrato estabelecido entre o analista e o paciente (ZILBERLEIB, 2006; ZIMERMAN, 2004).

No decorrer da psicoterapia, procura-se alcançar o desenvolvimento das funções egoicas por meio da substituição das identificações patógenas e através do desenvolvimento de defesas e mecanismos adaptativos mais maduros, bem como pelo ingresso em modos de funcionamento psíquico mais elaborados, que representam um avanço no desenvolvimento frente às formas arcaicas de relação objetal, nas quais esse sujeito está fixado (TENENBAUM, 2007; KERNBERG et.al., 1991).

Considerações Finais

A partir dessa revisão bibliográfica, pode-se constatar que esse é um fenômeno que incide principalmente na esfera da instabilidade emocional do sujeito, afetando os seus mais diversos segmentos sociais. A proposta da psicologia é sistematizar esse conhecimento e fornecer contribuições consistentes para potencializar a mudança. Buscou-se ampliar e conhecer os aspectos relevantes do diagnostico, bem como o aspecto de adesão ao tratamento, visto que esse perfil tende a perverter os objetivos do tratamento. Nesse caso, fala-se de uma leitura psicanalítica do fenômeno, com intuito de ajudar o sujeito a construir uma imagem de si e dos objetos de forma integrada e coerente. Assim, o trabalho do profissional de psicologia é realizar um atendimento a fim de viabilizar uma releitura sobre suas experiências com intuito de melhorar ou possibilitar novas formas de vínculos mais saudáveis e estáveis.

Sobre o Autor:

Alex Barbosa Sobreira de Miranda - Departamento de Psicologia. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Teresina, PI, Brasil. e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

American Psychiatric Association. (2002). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (4a ed. revised). Washington, DC: APA.        

BARLOW, D. H. M, R. D. Psicopatologia: uma abordagem integrada; tradução Roberto Galman, São Paulo: Cengage Learnig, 2011.

TANESI, Patrícia Helena Vaz et al . Adesão ao tratamento clínico no transtorno de personalidade borderline. Estud. psicol. (Natal),  Natal,  v. 12,  n. 1, abr.  2007 .   Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2007000100009&lng=pt&nrm=iso.

TENENBAUM, Decio. Desafio: abordagem clínica das psicoses e estados fronteiriços. XXI Congresso Brasileiro de Psicanálise. Porto Alegre, 09 a 12 de maio de 2007.

ZIMERMAN, D. E. Manual de técnicas psicanalíticas: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2004.

ZILBERLEIB, C.M.O.V. O acompanhamento terapêutico e as relações de objeto em pacienteslimites. Psychê. Ano X. n. 18. São Paulo, set. 2006. p. 53-66.

Informar um Erro Assinar o Psicologado