Transtorno de Personalidade Evitativa

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1. Introdução

O referido trabalho tem por objetivo, esclarecer muitos aspectos do Transtorno da Personalidade Evitativa, porém, não só sua descrição ou critério diagnóstico, mas também sua presença no desenvolvimento humano, aspectos genéticos e neurofisiológicos, como afeta a cognição, e principalmente, compreendê-lo a partir de uma teoria da personalidade.

Nesse trabalho estão incluídas várias disciplinas, logo, cada uma abordará um aspecto diferente do transtorno, facilitando a compreensão deste. As disciplinas envolvidas no direcionamento das pesquisas deste trabalho são: Psicologia do Desenvolvimento da Criança e do Adolescente, que trabalha com o desenvolvimento normal e patológico na visão de John Bowlby; Genética e Comportamento Humano, onde serão discutidas não apenas as bases genéticas do transtorno, mas também a fisiologia da personalidade; Processos Básicos em Psicologia II, que aborda o desenvolvimento cognitivo, mas especificamente a descrição e o comprometimento do raciocínio, da tomada de decisão, da resolução de problemas e a auto regulação; e finalmente a disciplina Psicologia da Personalidade, disciplina esta, centro do trabalho, onde será observada a descrição nosológica do transtorno e sua compreensão a partir de um teórico da personalidade, neste caso, Karen Horney, tendo em vista comentar as manifestações da patologia através da Psicanálise Interpessoal.

A importância desse trabalho visa, além do crescimento pessoal, quanto aos nossos conhecimentos em psicologia e do benefício que este conhecimento trará a sociedade, o enriquecimento de fonte de pesquisa quanto a este transtorno da personalidade, visto que, o rico conteúdo presente neste trabalho, poderá auxiliar a compreensão e pesquisa de outros acadêmicos de psicologia, ou qualquer outro curso inserido na área da saúde mental.

2. Descrição Nosológica do Transtorno da Personalidade Evitativa

2.1 Definição

Para a 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5 (2014), o Transtorno da Personalidade Evitativa é um padrão difuso de inibição social, sentimentos de inadequação e hipersensibilidade a avaliação negativa que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos, ou seja, trata-se de um transtorno onde nota-se uma timidez predominante, sentimento de incapacidade, alta sensibilidade a repressões e críticas, com tendência ao isolamento social.

Acredita-se que pessoas com este transtorno possuam baixa autoestima, julgando-se socialmente incompetentes e desagradáveis, evitam todo e qualquer tipo de contato social por um medo extremo de humilhação, ridicularização e desprezo, e ainda, seu comportamento tenso e cauteloso provoca o deboche de outrem confirmando suas dúvidas quanto a si mesmos. “Indivíduos com o transtorno da personalidade evitativa ficam inibidos em situações interpessoais novas, pois se sentem inadequados e têm baixa autoestima.” (DSM-5, 2014, p. 673).

2.2 Características de Personalidade e Comportamento

Além da descrição, o DSM-5 (2014) cita ainda, diversas características de personalidade e comportamentos que podem ser identificados na vida pessoal dos indivíduos com o transtorno:

Visto que indivíduos com esse transtorno estão preocupados com serem criticados ou rejeitados em situações sociais, podem apresentar um limiar bastante baixo para a detecção de tais reações […]  Ao menor sinal de desaprovação ou crítica, podem se sentir extremamente magoados. Tendem a ser tímidos, quietos, inibidos e “invisíveis” pelo medo de que toda a atenção seja degradante ou rejeitadora. Acreditam que, independente do que digam, os outros entenderão como algo “errado”; assim podem não dizer absolutamente nada (DSM-5, 2014, p. 673).

Ademais, a obra descreve também características e comportamentos do transtorno na vida profissional. Diz que indivíduos com Transtorno da Personalidade Evitativa esquivam-se de atividades no trabalho que envolva contato interpessoal significativo devido a medo de crítica, desaprovação ou rejeição. Afirma ainda que ofertas de promoção na vida profissional podem não ser aceitas pelo fato de novas responsabilidades poderem resultar em críticas dos colegas. Da mesma maneira, verificam-se problemas em relação à socialização dos mesmos.

“Apesar de seu forte desejo de participação na vida social, receiam colocar seu bem-estar nas mãos de outros […] Esses indivíduos veem-se socialmente incapazes, sem qualquer atrativo pessoal ou inferiores aos outros.” (DSM-5, 2014, p. 673).

2.3 Sinais e Sintomas

“Indivíduos com o transtorno da personalidade evitativa costumam avaliar vigilantemente os movimentos e as expressões daqueles com quem têm contato.” (DSM-5, 2014, p. 673)

Geralmente, os sujeitos detém de uma problemática maior no que diz respeito a vida profissional e social, identificados visualmente por terceiros como isolamento, ansiedade pelo modo de reação a crítica, e, à vista disso, são tidos como “solitários” e/ou “tímidos”. Além disso, possuem um número de relacionamentos muitíssimo limitado, o que prejudica a resposta a problemas pessoais pelo pouco, ou nenhum apoio de amigos ou confidentes.

Esses indivíduos sentem muito ansiosos diante da possibilidade de reagirem a crítica com rubor ou choro. São descritos pelas outras pessoas como “envergonhados”, “tímidos”, “solitários” e “isolados”. Os maiores problemas relacionados a esse transtorno ocorrem no funcionamento social e profissional. […] Esse indivíduos podem ficar relativamente isolados e em geral, não apresentam uma rede grande de apoio social capaz de auxiliá-los a espantar crises (DSM-5, 2014, p. 673, 674).

Como sintomas, apontam-se sentimento de incapacidade visto que, apesar de haverem tentativas, na maioria das vezes não conseguem criar amizades, o que acarreta a criação de uma imagem distorcida de si mesmo, por conseguinte, baixa autoestima, além de que, o forte desejo por apreço e respeito dos demais, outrora, não correspondido, acomete aos sujeitos idealizações mentais de vínculos com outras pessoas.

“Desejam afeição e aceitação e podem fantasiar relacionamentos idealizados com os outros.” (DSM-5, 2014, p. 674).

2.4 Critérios Diagnósticos do DSM

Para os autores da 5ª edição do DSM, o Transtorno de Personalidade de Esquiva, é indicado por quatro (ou mais) dos seguintes critérios diagnósticos:

  1. Evita atividades profissionais que envolvam contato interpessoal significativo por medo de crítica, desaprovação ou rejeição.
  2. Não se dispõe a envolver-se com pessoas, a menos que tenha certeza de que será recebido de forma positiva.
  3. Mostra-se reservado em relacionamentos íntimos devido a medo de passar vergonha ou de ser ridicularizado.
  4. Preocupa-se com críticas ou rejeição em situações sociais.
  5. Inibe-se em situações interpessoais novas em razão de sentimentos de inadequação.
  6. Vê a si mesmo como socialmente incapaz, sem atrativos pessoais ou inferior aos outros
  7. Reluta de forma incomum em assumir riscos pessoais ou se envolver em quaisquer novas atividades, pois estas podem ser constrangedoras.

Outros transtornos da personalidade podem ser confundidos com o Transtorno da Personalidade Evitativa, em razão disso, deve-se atentar as diferenças através de seus aspectos característicos.

O transtorno evitativo e o Transtorno da Personalidade Dependente são concomitantes quanto a algumas particularidades como hipersensibilidade a críticas e sentimento de inadequação, apesar de que o enfoque de preocupação do transtorno de esquiva seja evitar rejeição e humilhação e o enfoque do transtorno dependente é ser cuidado.

Da mesma forma, o Transtorno da Personalidade Esquizoide e Esquizotípica, junto com o transtorno evitativo, caracterizam-se pelo isolamento social, no entanto, indivíduos evitativos desejam o convívio social, já os esquizoides e esquizotípicos satisfazem-se ou até mesmo optam por este isolamento.

Muitos indivíduos demonstram traços da personalidade evitativa. Estes traços somente constituem o transtorno de personalidade evitativa quando são inflexíveis, mal-adaptativos e persistentes e causam prejuízo funcional ou sofrimento subjetivo significativos (DSM-5, 2014, p. 675).

2.5 Aspectos do Desenvolvimento Normal e Patológico

Tendo como referência no aspecto de desenvolvimento a visão de John Bowlby, contamos com sua famosa “Teoria do Apego”. A mesma visa que, assim como os animais, os seres humanos criam vínculos afetivos, que, ao longo do tempo tornam-se insubstituíveis.

Para Bowlby (1997) apego é um tipo de vínculo no qual o senso de seguran­ça de alguém está estreitamente ligado à figura de apego. No relacionamento com a figura de apego, a segurança e o conforto experimentados na sua presença permitem que seja usado como uma “base segura”, a partir da qual poderá se explorar o resto do mundo.

Segundo Ramires e Schneider (2010) seu ponto de partida foi a observação do comportamento, foi tomada por alguns clínicos como uma versão do behavioris­mo, equívoco que decorre, para o autor, da confusão entre apego e comportamento de apego. Todavia, o teórico esclarece:

Uma diferença importante entre “apego” e “comporta­mento de apego” é que se o “comportamento de apego pode, em circunstâncias diferentes, ser mostrado a uma variedade de indivíduos, um apego duradouro ou laço de apego é restrito a muito poucos (Bowlby, 1989, p. 40).

Bowlby (2002) afirma que, o desenvolvimento de um apego infantil saudável está relacionado à sensibilidade do adulto que cuida da criança, isto é, sua capacidade de responder adequadamente aos sinais emitidos pelo bebê – tais como choro, sorrisos, comportamentos motores, reflexos – já em seus primeiros dias de vida.

Mary Ainsworth, colega de pesquisa de Bowlby, foi à primeira pesquisadora a demonstrar que criança-cuidador diferenciam-se em suas qualidades de relações, sendo assim, possível a sua classificação.

Para provar isso, Ainsworth usa de um processo de laboratório denominado “Situação Estranha”.

O experimento foi estruturado […] nas seguintes etapas: a) incialmente, o bebê permanece com a mãe; b) em seguida, a pessoa não familiar ingressa no ambiente; c) posteriormente, a mãe se retira e o bebê permanece com o estranho; d) a mãe retorna ao local e a pessoa não familiar sai do ambiente; e) dando sequência ao experimento, a mãe se retira e o bebê permanece sozinho; f) posteriormente, o estranho retorna; g) por fim, a mãe volta ao local e a pessoa não familiar se retira do ambiente (Gomes, 2012, p. 26).

Sua categorização de apego em seguro, ambivalente e evitante, baseado nas diferentes reações das crianças ao experimento foi, consequentemente, sua maior contribuição para a Teoria do Apego. De acordo com Suárez e Rodríguez (2009), bebês com apego seguro, geralmente protestam e choram quando a mãe sai de cena, acolhendo-a com felicidade quando ela retorna. São crianças que utilizam o cuidador como uma base segura para explorar o ambiente, mas, ocasionalmente, regressam a ele para se sentirem protegidas.

Já bebês com apego evitante quase nunca choram quando a mãe deixa o local onde estava e evitam-na em seu regresso. Tendem a se mostrar indiferentes e não a procuram se precisar de seu auxílio. Os bebês com apego ambivalente apresentam comportamentos ansiosos, mesmo antes de a mãe sair do ambiente, mostrando-se muito raivosos nos momentos em que ela se ausenta. Quando a mãe retorna, esses bebês expressam ambivalência ao buscar contato com ela, mas, ao mesmo tempo, demonstram resistência e raiva quando a mãe se aproxima, demorando muito para se acalmar e cessar o choro. Os bebês ambivalentes são passivos e exploram pouco o ambiente.

Gomes (2012) afirma que, indivíduos com padrão de apego evitante tendem a mostrar-se, pouco confortáveis nas relações, valorizando excessivamente sua autonomia, igualmente aos indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquiva, porém, segundo o DSM-V (2014), o transtorno surge no início da vida adulta, e este tipo de apego manifesta-se em bebês, entretanto, o DSM-V (2014) também afirma que o comportamento evitativo costuma iniciar na infância pré-verbal ou verbal, pondo em evidência a relação do padrão de apego evitativo com o Transtorno da Personalidade Evitativa.

A característica essencial do transtorno da personalidade evitativa é um padrão difuso de inibição social, sentimentos de inadequação e hipersensibilidade a avaliação negativa que surge no início da vida adulta […] O comportamento evitativo costuma iniciar na infância pré-verbal ou verbal por meio de timidez, isolamento e medo de estranho e de novas situações. (DSM-V, 2014, p. 673, 674).

3.  A Relação dos Aspectos Genéticos com o Transtorno

3.1 A hereditariedade do Transtorno

Personalidade pode ser conceituada como um conjunto de comportamentos que caracterizam determinado indivíduo. Os transtornos da personalidade refletem, portanto, padrões persistentes deste comportamento, que são acentuadamente desviados das expectativas da cultura deste indivíduo.

Distinguir personalidade normal e patológica não é simples, por este motivo, é adequado considerar desvios quantitativos e dimensionais do que é considerado normal, logo, uma abordagem genética se dá com uma compreensão do papel dos fatores genéticos na personalidade normal.

“Considerando que os fatores genéticos parecem relevantes para traços da personalidade normal, é razoável supor a importância dos genes na determinação de personalidades que desviam do normal.” (NETO e cols., 2011, p. 40).

Atualmente, leva-se em consideração que, genes não são responsáveis pelos transtornos da personalidade em si, mas pela predisposição aos mesmos, à vista disso, deve-se levar em consideração o ambiente e a influência deste no indivíduo.

A biologia e a genética molecular vêm colaborando progressivamente para o entendimento e o tratamento dos pacientes psiquiátricos. No entanto, até hoje, não foi possível encontrar genes específicos para os diversos transtornos mentais. Nos TP, os genes não podem ser considerados responsáveis pelo transtorno, mas, sim, pela predisposição. Consequentemente, é fundamental se considerar o ambiente em que vive o indivíduo e a interação com ele estabelecida (Morana et al., 2006).

É fato terem sido realizados poucos estudos sobre os transtornos da personalidade ansiosas, mais comuns no agrupamento C (dependente, evitativa e obsessivo-compulsivo), visto que é muito difícil diagnosticar como confiabilidade, estados ansiosos e traços da personalidade ansiosa. Por este motivo, vários estudos tem se focado em fobias e medos “normais”.

Seguindo este pensamento, o que leva os estudiosos a acreditarem em uma base genética para os transtornos da personalidade são algumas evidências encontradas em uma investigação em gêmeos, onde gêmeos monozigóticos (MZ) são mais concordantes que dizigóticos (DZ).

“[…] Com base nos registros de gêmeos da Noruega, verificaram que MZ foram mais concordantes que DZ nas medidas de um questionário de medos de animais, sociais e de lesões.” (Neto e cols., 2011, p. 43).

Com base em um experimento semelhante realizado nos Estados Unidos, Sadock B. e Sadock V. (2007) esclarecem que, além desta concordância, gêmeos monozigóticos criados separadamente são tão congêneres quantos os monozigóticos criados juntos, incluindo pessoalidade, interesses, atitudes, entre outros.

“[…] Gêmeos monozigóticos criados separados são tão similares como os criados juntos. As semelhanças incluem medidas múltiplas de personalidade e temperamento, interesses ocupacionais e de lazer e atitudes sociais.” (Sadock B.; Sadock V., 2007, p. 853).

Morana et al. (2006) concorda: “Estudos com gêmeos monozigóticos mostraram comportamentos bastante semelhantes em suas escolhas pessoais, sociais e profissionais, mesmo em indivíduos criados em ambientes diferentes.”

3.2 Genes relacionados com o Transtorno

Apesar de não haver nada concreto, as evidencias apresentadas indicam, apesar da dificuldade em delimitar o fenótipo, que os transtornos da personalidade são substancialmente influenciados pelos genes.

Como foi dito anteriormente, leva-se em consideração que, genes não são responsáveis pelos transtornos da personalidade em si, mas pela predisposição aos mesmos, à vista disso, deve-se levar em consideração o ambiente e a influência deste no indivíduo.

Concordando com a declaração, Neto e cols. (2011, p. 44) complementam ainda: “Portanto, uma questão crucial é identificar mutações e variantes gênicas relacionadas com traços de personalidade. É provável que o modo de transmissão seja complexo, envolvendo múltiplos genes em combinação com efeitos ambientais”

Em transtornos da personalidade com traços ansiosos, segundo Neto e cols. (2011), o fator gênico encontra-se presente no sistema serotoninérgico, e em transtornos da personalidade com traços impulsivos, o fator gênico encontra-se no sistema dopaminérgico. Concentrando no que diz respeito ao Transtorno da Personalidade de Esquiva, focamo-nos em fatores genéticos para transtornos com traços ansiosos.

Lesch e cols. (1996 apud NETO e cols. 2011, p. 45) um polimorfismo na região do promotor do gene, que codifica a proteína transportadora de serotonina (5HTT), que consiste na presença ou ausência de 44 pares de bases, produzindo um alelo longo (L) e um curto (S). O alelo L está associado a uma atividade transcricional duas vezes maior que o S.

Por isso, diversos estudos têm constatado uma relação entre o alelo S (curto) com traços de personalidade relacionados a ansiedade.

3.3 Os aspectos neurobiológicos do Transtorno

Existem ainda aspectos biológicos que não são de natureza genética, mas que também interferem no desenvolvimento da personalidade. Como exemplo, um comportamento de maior agressividade pode estar relacionado a níveis maiores do hormônio testosterona. Por outro lado, níveis aumentados de serotonina podem gerar um comportamento mais sociável (MORANA et al. 2006).

Sadock, B e Sadock, V. (2007), concordam ao assegurar que pessoas com traços impulsivos, podem também apresentar altos níveis de testosterona, 17-estadiol (estrogênio) e estrona. Alegam ainda, que níveis baixos de Monoaminoxidase (enzimas inibidoras da serotonina) nas plaquetas, têm sido associados a atividade e sociabilidade em estudantes universitários. Assim concorda Lesch e cols. (1996 apud NETO e cols. 2011, p. 45) ao relatar o polimorfismo citado no tópico 3.2, provando a relação dos níveis de serotonina com a personalidade. Outros fatores que podemos citar são alguns neurotransmissores, dentre os quais destacamos as endorfinas, a própria serotonina e a dopamina.

Sadock, B. e Sadock, V. (2007) atestam ainda que, as endorfinas possuem efeitos semelhantes aos da morfina exógena, como analgesia e supressão. Níveis elevados da mesma estão associados a indivíduos fleumáticos, isto é, calmo, frio e equilibrado. A serotonina como já foi dito, é relacionada a sociabilidade, visto que reduz a depressão e a impulsividade. Já a dopamina, tem seu aumento produzido por certos psicoestimulantes (p. ex. anfetamina) que resulta em euforia.

4. Os Processos Básicos em Psicologia

4.1 Raciocínio

“Raciocínio é o pensamento lógico que utiliza a indução e a dedução para alcançar uma conclusão” (SANDROCK, 2009, p. 307). Para trabalharmos o raciocínio em cima do Transtorno da Personalidade Evitativa, devemos dar enfoque no raciocínio indutivo que vai do mais específico ao mais geral, ou seja, categoriza todo um grupo a partir de apenas alguns membros deste. Sendo as conclusões extraídas nunca corretas, apenas mais ou menos prováveis, podendo a partir da indução fornecer resultados conclusivos negativos.

Um paciente com TEP acredita que “Eu sou socialmente incapaz e indesejável” e “As outras pessoas são superiores a mim e me rejeitarão ou pensarão em mim de maneira crítica, caso venham a me conhecer melhor”, evitando qualquer tipo de relacionamentos por mais que os deseje. Assim, além da autodepreciação evidente, sua linha indutiva de raciocínio evita cognitivamente e emocionalmente atingir a temida disforia (BECK; FREEMAN, 1993, p. 202).

A dificuldade em avaliar as reações alheias, os leva a interpretar erroneamente uma reação neutra ou positiva como sendo uma reação negativa. Procuram por reações positivas em pessoas, cujas opiniões são irrelevantes a sua vida, tais como padeiro ou motorista de ônibus.  Eles não dispõem de critérios internos com os quais possam julgar a si mesmo de maneira positiva, baseando-se unicamente em sua percepção do juízo dos outros.

Uma perspectiva mais cognitiva, sobre o paciente com transtorno evitativo de personalidade, pode ser encontrada nos escritos de Karen Horney:

Com pouca ou nenhuma provocação, ele sente que os outros o menosprezam, não o levam a sério, não fazem questão de sua companhia e, de fato, o ignoram. Seu autodesprezo, o torna profundamente inseguro quanto às atitudes dos outros para com ele. Sendo incapaz de aceitar a si mesmo tal como é, possivelmente ele não consegue acreditar que os outros, conhecendo-o com todos as suas deficiências, possam aceitá-lo com um espírito de amizade e apreço (Horney, 1950, p. 134 apud BECK; FREEMAN, 2000, p. 202).

4.2 Tomada de Decisão e Resolução de Problemas

A tomada de decisões envolve o pensamento no qual os indivíduos avaliam alternativas e fazem escolhas entre elas (SANTROCK, 2009, p. 309). Levando em conta esta afirmação, dois termos são importantes para a resolução de um problema, a Intencionalidade e o Planejamento, o sujeito da ação precisa estar disposto a resolver o problema e precisa traçar um plano.

Os pacientes evitativos têm um forte desejo de atingir o seu objetivo em longo prazo, de estabelecer relacionamentos mais íntimos. Se sentem vazios e solitários e desejam modificar suas vidas, terem amizades íntimas, um emprego melhor. Porém quando pensam no custo de arriscar experimentar emoções, podendo elas ser negativas, para eles é algo excessivamente ruim, é o temor a disforia.

Logo, concluem: “Se não me aproximo, se não me arrisco, não serei rejeitado ou magoado”, e passam a elaboram milhares de desculpas para não fazer o necessário para atingir seus objetivos: “Eu não vou gostar de fazer aquilo”, “Eu vou me sentir pior [ansioso, entediado, etc.] se fizer aquilo”, “Vou fazer isso mais tarde”, “Não estou com vontade de fazer isso agora”. Quando vem o “mais tarde”, eles invariavelmente utilizam as mesmas desculpas, continuando com a evitação comportamental (Beck; Freeman, 1993, p. 204).

Esses indivíduos chegam a acreditar que não são realmente capazes de atingir seus objetivos, de tomar a decisão, de ter iniciativa. Eles fazem certas suposições: “Não há nada que eu possa fazer para mudar minha situação”, “Por que tentar? Não vou conseguir de qualquer jeito”, “É melhor perder por desistência do que tentar e perder”. São infelizes com seu atual estado, mas sentem-se incapazes de mudar mediante seus próprios esforços ou tomadas de decisão.

4.3 Auto-Regulação

De Jou e Sperb (2006), afirmam que: “A Psicologia Cognitiva através de seu enfoque do processamento de informação postula que a mente é um sistema cognitivo, que habilita o ser humano a interagir no seu meio. Este sistema, por sua vez, tem a capacidade de se monitorar e auto-regular, potencializando o próprio sistema”. Portanto, a terapia cognitiva propõe um trabalho em torno da negatividade, autodepreciação e confiança, do paciente com o transtorno da personalidade evitativa.

Segundo Beck e Freeman (1993), o tratamento com pacientes com Transtorno da Personalidade Evitativa envolve o estabelecimento de uma aliança de confiança entre paciente e terapeuta, incentivada pela identificação e modificação dos pensamentos e crenças disfuncionais do paciente acerca desta relação. Esta relação terapêutica pode servir de modelo para os pacientes questionarem suas crenças acerca de outros relacionamentos; pode também oferecer um ambiente seguro para tentar novos comportamentos, tais como assertividade, com outras pessoas. Técnicas de manejo do humor são empregadas para ensinar os pacientes a manejar depressão, ansiedade e outros transtornos.

Beck e Freeman em sua obra Terapia Cognitiva dos Transtornos de Personalidade (1993), concluem que uma das complicações que poderiam interferir no tratamento cognitivo padrão é que estes pacientes evitam pensar sobre coisas que causam emoções desagradáveis. Uma vez que a terapia cognitiva requer que o paciente experimente tais emoções e registre os pensamentos e imagens que acompanham as várias experiências emocionais, esta evitação cognitiva e emocional pode mostrar-se um sério impedimento ao tratamento.

O objetivo não é o de eliminar a disforia de vez, mas aumentar a tolerância do paciente a emoções negativas. Um diagrama esquemático, para ilustrar o processo de evitação, e uma forte base racional para aumentar a tolerância à disforia, ajudam os pacientes a concordar em experimentar sentimentos negativos na sessão, uma estratégia que poderá ser implementada de maneira hierárquica. A tolerância ao afeto negativo dentro das sessões poderá ter de preceder tal prática de “disforia” ou “antievitação” fora da terapia. Uma chave importante para aumentar a tolerância consiste no contínuo desmentido de crenças concernentes ao que os pacientes temem que acontecerá caso experimentem disforia.

A terapia familiar ou conjugal pode ser indicada, bem como o treino de habilidades sociais. Finalmente, o tratamento também engloba a identificação e modificação de esquemas mal adaptativos mediante intervenções envolvendo imagens mentais, psicodrama, revisão histórica e diários de previsões.

5. Compreensão do Transtorno segundo a teoria de Karen Horney

5.1 O desenvolvimento psicológico saudável segundo a teoria

Para entender as ideias centrais de Karen Horney, é necessário inteirar-se do conceito fundamental de seu sistema, a ansiedade básica.

Cloninger (1999) dando introdução a Psicanálise Interpessoal, entende por ansiedade básica, o sentimento produzido por um desamparo desenvolvido na infância, devido à ausência de cuidados parentais adequados, ou seja, não é algo inato, mas resultantes de interações sociais, sendo assim, qualquer ato que perturbe a relação segura entre pais e filhos, pode tornar-se uma ansiedade básica.

Neste contexto, a criança pode optar por três estratégias comportamentais: aproximar-se, voltar-se contra ou afastar-se.

Segundo Horney, os indivíduos tentam lidar com sua ansiedade básica adotando uma solução de conformidade ou submissão, aproximando-se das pessoas, adotando uma solução agressiva ou expansiva, indo contra as pessoas, ou tornando-se indiferentes ou resignadas, afastando-se das pessoas (FADIMAN; FRAGER, 2004, p. 154)

Segundo Cloninger (1999), o ideal seria a criança ter a capacidade de escolher de modo flexível entre essas estratégias, optando pelo modo que se adapte melhor a aquela circunstância em particular. Fadiman e Frager (2004) concordam ao afirmar: “As pessoas saudáveis se conduzem de maneira apropriada e flexível em todas as três direções […]” (p.154)

5.2 Aspectos (características) do transtorno relacionados com a teoria

Fadiman e Frager (2004) afirmam: “As pessoas saudáveis se conduzem de maneira apropriada e flexível em todas as três direções, mas no desenvolvimento neurótico estes movimentos se tornam compulsivos e indiscriminados.” (p. 154)

Logo, pessoas saudáveis são flexíveis na escolha de sua estratégia comportamental, assim, adaptam-se perfeitamente a diversas circunstâncias em particular, porém, na maioria das vezes, neuróticos enfatizam uma dessas estratégias.

Em sua obra Self-Analysis (1999), Horney descreve os diferentes tipos de comportamento neurótico, que são resultado do uso excessivo de estratégias para enfrentar a ansiedade básica.

Fixar uma das estratégias comportamentais em sua personalidade, leva a criação de uma necessidade neurótica. As necessidades neuróticas, que Horney dividiu em dez, são defesas irracionais contra a ansiedade, e são baseadas nas três estratégias comportamentais. São elas:

Necessidade neurótica de afeto e aprovação

Necessidade neurótica de um parceiro dominador

Necessidade neurótica de poder

Necessidade neurótica de exploração

Necessidade neurótica de prestígio

Necessidade neurótica de admiração

Necessidade neurótica de realização ou ambição

Necessidade neurótica de auto suficiência

Necessidade neurótica de perfeição

Necessidade neurótica de limites restritos a vida

Considerando o Transtorno da Personalidade de Esquiva, concentrar-nos-emos na necessidade neurótica de afeto e aprovação.

Tal necessidade neurótica inclui os desejos de ser amado, agradar outras pessoas, e atender às expectativas dos outros. As pessoas com este tipo de necessidade são extremamente sensíveis à rejeição e críticas e temem a raiva ou hostilidade dos outros, assim como as características de personalidade e comportamento do indivíduo evitativo.

A característica essencial do transtorno da personalidade evitativa é um padrão difuso de inibição social, sentimentos de inadequação e hipersensibilidade a avaliação negativa […] Apesar de seu forte desejo de participação social, receiam colocar seu bem-estar nas mãos de outros (DSM-V, 2014, p. 673).

A necessidade neurótica de afeto e aprovação está incluída no uso excessivo da estratégia comportamental aproximar-se, isto é, trata-se de uma personalidade chamada submissa, condescende ou complacente. A personalidade submissa é caracterizada por necessidade intensa e contínua de afeto e aprovação, um anseio de ser amado, desejado e protegido.

Indivíduos com o Transtorno da Personalidade Evitativa, anseiam por relacionar-se, entretanto, sua baixa autoestima baseada em sentimentos de inadequação, sua timidez predominante entre outras características, os fazem evitar qualquer tipo de contato, a menos que tenham certeza que serão bem recebidos.

 “Desejam afeição e aceitação e podem fantasiar relacionamentos idealizados com os outros […] indivíduos com transtorno da personalidade evitativa desejam ter relacionamentos com outras pessoas e sentem sua solidão de forma profunda.”  (DSM-V, 2014, p. 674, 675).

6. Considerações Finais

O estudo do Transtorno da Personalidade de Esquiva/Evitativa, por ser um transtorno da personalidade do agrupamento C (evitativo, dependente e obsessivo-compulsivo), não é muito explorado, entretanto, possui pesquisa suficiente para que haja intervenção profissional eficaz.

Este trabalho foi construído visando uma interdisciplinaridade, com disciplinas de diversos eixos do conhecimento, e que apesar de diferentes, se completam, facilitando a compreensão do tema, logo que, mostra de forma dinâmica, diversos pontos de vista do mesmo fato.

Estas disciplinas interligam-se perfeitamente. Ao longo do semestre, percebeu-se que os assuntos abordados por elas completavam-se umas às outras, contribuindo diretamente para o direcionamento correto deste trabalho acadêmico e colaborando positivamente para a aprendizagem individual, tanto em relação ao Transtorno da Personalidade Evitativa, quanto aos outros transtornos da personalidade.

Dominar bem estas disciplinas foi fundamental para a produção deste artigo, levando em conta que habilidades e competências versáteis bem desenvolvidas, um dos objetivos do trabalho interdisciplinar, são pontos positivos de um bom profissional da saúde mental.

Levando em consideração estes fatos, infere-se que, apesar dos obstáculos desta produção, o tema foi bem abordado, levando uma melhor compreensão tanto para os leitores, quanto aos próprios autores deste artigo, tendo em vista a multidisciplinaridade como fator chave para tal, possibilitando uma grande interação e integração de conhecimentos.

Sobre os Autores:

Thalisson Samuel Silva dos Santos -  Discente do curso de Psicologia - 3º período - Centro Universitário do Norte (UNINORTE).

Tainá Pinto - Discente do curso de Psicologia - 3º período - Centro Universitário do Norte (UNINORTE).

Referências:

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__________. Apego e perda: a natureza do vínculo. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

CLONINGER, Susan C. Teorias da Personalidade. 1 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

DE JOU, Graciela Inchausti; SPERB, Tania Mara. A metacognição como estratégia reguladora da aprendizagem. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 19, n. 2, 2006.

DSM-5. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Personalidade e Crescimento Pessoal. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2004.

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