Transtorno Dismórfico Corporal: Características de um Grupo Praticante de Atividades Físicas

1 1 1 1 1 Avaliações 0.00 (0 Avaliações)
(Tempo de leitura: 5 - 9 minutos)

Resumo: Este estudo teve como objetivo investigar se há maior incidência de comportamentos que indiquem Transtorno Dismórfico Corporal entre homens e mulheres, de 20 a 30 anos, praticantes de atividades físicas. Participaram da pesquisa 10 adultos sendo 5 mulheres e 5 homens, foi aplicado um questionário semi estruturado em uma academia da cidade de Brotas-SP que abordou assuntos relacionados à saúde física, dados demográficos, autopercepção corporal, atividades físicas e comportamentos. Apenas 2 participantes apresentaram possuir características de TDC, sendo apenas um participante de cada sexo.

Palavras-Chave: Transtorno Dismórfico Corporal, Praticantes atividades físicas, Transtornos Psíquicos.

1. Introdução

A imagem corporal é composta pelo tamanho e aparência do corpo, das respostas emocionais somadas ao grau de satisfação, derivadas da percepção que se tem dele (Ross, 1994). A beleza, grosso modo, é um conceito histórico social. Dessa forma, ela está em constante mudança (CASTILHO, 2001). Esse culto à imagem corporal vem crescendo a cada dia. Observam-se pessoas sacrificando seus corpos a qualquer custo em nome desse padrão de beleza ditada na contemporaneidade.

Na Idade Média os níveis de exigência com o corpo eram menores, apenas no período Renascentista, o ideal de beleza segue a esteira do padrão estético Greco-Romano, o qual voltou a vigorar. Esse modelo atinge seu ápice no século XXI no consumo desenfreado em que vivemos.

No início do século XXI, a superexposição de modelos corporais pelos meios de comunicação contribuiu e, ainda contribui, para uma divulgação da ótica corpórea estereotipada, também determinada pelas relações de mercado (RAMOS, 2009).

As pessoas aprendem a avaliar seus corpos por meio de interações com o meio ambiente. Por isso, a autoimagem está sendo reavaliada durante toda a vida do indivíduo. Essa pode ser influenciada pelas normas e padrões culturais que se modificam ao longo dos anos, conforme os interesses e potenciais de significados contidos em nossa sociedade, denominada capitalista. Parte dessa população passa a buscar uma imagem idealizada que, frequentemente, é reforçada pelos meios de comunicação, alimentando uma milionária indústria que não para de se expandir, uma vez que são várias as revistas, jornais e televisão que divulgam corpos perfeitos e modelados diariamente. Essa constatação diz respeito ao poder que a mídia exerce no sentido de cristalizar imagens, conceitos etc, influenciando comportamentos entre a sua audiência.

A busca pela perfeição corporal é confundida frequentemente com felicidade e realização, gerando assim grandes momentos de frustrações. É sabido que muitas pessoas possuem alguma característica de sua aparência que gostariam de modificar, porém quando essa busca pela beleza perfeita ultrapassa os limites, o risco de uma patologia se torna eminente.

Dessa forma, o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é uma patologia que induz a uma percepção errônea do corpo, gerando assim uma excessiva preocupação com a própria aparência, buscando obsessivamente a perfeição corporal. Outros comportamentos característicos são: olhar fixamente no espelho, ou evitar espelhos, comparar-se com outras pessoas, pedir reafirmações sobre o defeito, realizar cirurgias plásticas e tratamentos estéticos. Alguns desses comportamentos podem se tornar rituais que prejudicam as atividades diárias.

A característica central de uma pessoa que está acometida por este transtorno é notar um defeito imaginário em sua aparência física normal, se preocupando excessivamente com pequenas imperfeições físicas (ALLEN; HOLLANDER, 2000; PHILLIPS, ALBERTINI & RASMUSSEN, 2002; PHILLIPS & KAYE, 2007 apud RAMOS, 2009).

Muitas dessas pessoas buscam uma forma de se destacar na sociedade e compensar uma baixa autoestima. O corpo então se torna uma ferramenta na qual o individuo utiliza-se para a construção do seu EU.

Ultimamente triplicou-se o número de praticantes de musculação e exercícios aeróbios nas academias, principalmente entre jovens, 3500 academias estavam implantadas somente na cidade de São Paulo (SILVA E MOREAU, 2003).

Assim, nos últimos anos vem crescendo as diversas técnicas de cuidados ao corpo, tais como, procedimentos estéticos, dietas, cirurgias, entre outras. Homens e mulheres investem pesado cada dia mais, em tempo, dinheiro e energia em seus corpos.

Com isso, o uso de esteroides anabolizantes também vem crescendo nos últimos anos. Os anabolizantes são substâncias sintetizadas em laboratórios, relacionadas a hormônios masculinos, produzindo o aumento da massa muscular. As altas taxas de consumo dessas drogas vêm se tornando um problema de saúde pública, já que são encontradas facilmente em academias e lojas de suplementos, mesmo com sua venda proibida no Brasil sem prescrição médica (IRIART; ANDRADE, 2002).

Muitas das pessoas diagnosticadas com Transtorno Dismórfico Corporal utilizam as práticas acima citadas para diminuir o sofrimento que as afligem. As queixas mais comuns são com relação ao rosto, cabelos, seios, pele, dentes, genitais, e outras partes específicas do corpo. A insatisfação com o peso deve ser excluída como critério de TDC, pois está mais associada com Transtorno Alimentar (DE LÚCIA; PINTO, 2003).

Teorias biológicas sugerem como causa orgânica do TDC a desregulação do sistema serotoninérgico (FIGUEIRA et al., 1993; FIGUEIRA et al., 1999 apud MORIYAMA e AMARAL, 2007). Sabemos muito pouco sobre a etiologia e o tratamento, não temos informações se ele é hereditário ou quais fatores e vulnerabilidades geram uma predisposição.

No que se refere a instrumentos de avaliação do TDC o material é escasso. A maioria foi desenvolvida para algum transtorno que estão relacionados com o TDC tais como transtornos alimentares e os transtornos obsessivos compulsivos (RAMOS, 2009).

Como o TDC é pouco identificado pelos profissionais da área médica, estes tentam primeiramente solucionar as queixas de seus pacientes, realizando cirurgias plásticas por exemplo, mas essa relação médico-paciente se agrava pois o profissional nunca vai conseguir atingir as expectativas do paciente (RAMOS, 2009). Sendo necessário o acompanhamento de uma terapia psicológica preferencialmente Comportamental Cognitiva, pois ela foca diretamente no comportamento manifesto das pessoas.

2. Método

Foram selecionados para este estudo 10 participantes escolhidos aleatoriamente que frequentam uma academia de esportes chamada Active Gym, em uma cidade do interior paulista de pequeno porte, com aproximadamente 22 mil pessoas. Foram separados por gênero, sendo 50% mulheres e 50% homens com idade entre 20 a 30 anos. A academia possui atualmente uma média de 200 alunos matriculados.

Todas as 10 pessoas que foram convidadas a participar da pesquisa aceitaram prontamente. Os participantes foram abordados quando entravam no local, logo no Hall da academia e responderam um questionário auto aplicado de 20 perguntas semiestruturado que abordou assuntos relacionados à saúde física, dados demográficos, auto percepção corporal, atividades físicas e comportamentos, perguntas que foram elaboradas de acordo com os comportamentos manifestos por pessoas acometidas pelo TDC.

Os dados coletados foram baseados exclusivamente nas respostas dos participantes, sem nenhum outro dado diagnóstico e nenhuma informação foi disponibilizada para os participantes devido à condição de anonimato da pesquisa.

3. Resultado e Análise

Para se realizar a análise dos resultados considerou-se portador de TDC os participantes que apresentassem resposta negativa de não estarem satisfeitos com o corpo, que apresentassem respostas afirmativas nas perguntas sobre acreditar ter algum defeito aparente, aceitar fazer uma Intervenção cirúrgica para corrigir esse defeito, se passavam mais de uma hora por dia pensando que não estavam bem fisicamente, que se olhassem no espelho mais de 4 vezes por dia, que malhassem mais de 3 vezes por semana, ou seja, que preenchessem pelo menos 6 dos 10 comportamentos comuns em pessoas acometidas pelo TDC avaliados pelo questionário.   

A amostra se constituiu de 10 participantes, sendo 50% do sexo masculino e 50% do sexo feminino, apenas 20% apresentaram comportamentos indicativos de TDC, sendo um participante do sexo masculino e uma do sexo feminino. As respostas de ambos foram muito similares, ambos se olhavam mais de 10 vezes no espelho durante o dia, já tiveram depressão, nenhum dos dois tiveram problemas com anorexia e bulimia, frequentavam a academia 5 vezes por semana, inclusive apresentavam idades próximas, 27 e 28 anos respectivamente.

4. Considerações Finais

Observou-se que a preocupação dismórfica pode ser uma psicopatologia típica de nossa época e cultura, onde a sociedade de consumo cria modelos de corpos ideais e inatingíveis, mantendo homens e mulheres em perpétua insatisfação, que é o combustível do consumo. Assim, a preocupação dismórfica corporal pode ser sintoma de várias estruturas neuróticas ou psicóticas e não um distúrbio único.

O objetivo deste estudo foi identificar se há maior incidência de Transtorno Dismórfico Corporal entre homens ou mulheres, porém não se pôde chegar a uma conclusão, pois apenas um participante de cada sexo apresentou características de possuir TDC. Sugerimos que mais estudos devam ser realizados utilizando um número maior de participantes, com questionários que contenham mais questões que abordem os comportamentos desses indivíduos, com perguntas fechadas.

Sobre o Autor:

Sérgio Roberto do Amaral Menezes Junior - estudante de Psicologia do 5º Período Noturno do Centro Universitário Paulista - UNICEP em São Carlos.

Referências:

DE LUCIA, Mara C.S; Pinto, Kátia O.Dismorfia corporal: sintomas da realidade?Psicologia hospitalar. Sao Paulo, 2003, v. 1, n. 1, p. 36-53, 2003. Disponível em: <http://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/psi-18486>. Acesso em: 01 abr. 2013.

IRIART, Jorge Alberto Bernstein; ANDRADE, Tarcísio Matos. Musculação, uso de esteróides anabolizantes e percepção de risco entre jovens fisiculturistas de um bairro popular de Salvador, Bahia, Brasil. Caderno Saúde Pública,  Rio de Janeiro,  v. 18,  n. 5, out.  2002 .

MORIYAMA, Josy de Souza; AMARAL, Vera Lúcia Adami Raposo do. Transtorno dismórfico corporal sob a perspectiva da análise do comportamento. Revista brasileira de terapia comportamental cognitiva, São Paulo, v. 9, n. 1, junho, 2007.

RAMOS, kátia p. Escala de avaliação do transtorno dismórfico corporal: propriedades psicométricas. PUC Campinas, 2009. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=141560>. Acesso em: 01 abr. 2013.

ROSS, CE. Overweight and depression.  Journal of Health and Social Behavior. v 35 n (1): 63-79, 1994

SILVA ISMF, Moreau RLM. Uso de esteróides anabólicos androgênicos por praticantes de musculação de grandes academias da cidade de São Paulo. Revista Brasileira Ciência Farmacológica, v. 39:327-33, 2003.

Informar um Erro Assinar o Psicologado