A Vegetoterapia caracteroanalítica como método clínico: contribuições reichianas para a psicossomática

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Esse texto tem como objetivo discutir sobre o método clínico de compreensão e tratamento dos transtornos psicossomáticos sob a perspectiva da vegetoterapia caracteroanalítica. A clínica pressupõe um método que privilegia a singularidade e a escuta atenta do sentido, numa atitude desenvolvida entre a escuta da subjetividade do paciente pelo terapeuta e a realidade objetiva dos sintomas orgânicos, que pode ser medida por aferições médicas. A argumentação teórica e técnica elaborada por Wilhelm Reich, no tocante a interpretação somatopsicodinâmica dos sintomas, considera o ser humano em sua unidade corpo/psiquismo em sua dimensão energética. O conceito de biopatia surge como princípio norteador de entendimento do desequilíbrio do funcionamento orgânico, intimamente atrelado à historicidade e a estruturação defensiva/caracterial do sujeito. Pretende-se, ao fim do trabalho, expor a problemática do câncer nesse enquadre.

PALAVRAS CHAVE: Vegetoterapia caracteroanalítica; Método Clínico; Transtornos Psicossomáticos.

Considerações iniciais sobre o Método Clínico e a Relação Mente/Corpo

Iniciaremos esse texto tecendo algumas considerações sobre o exercício da clínica como postura ética e epistemológica mediante o sofrimento humano. Etimologicamente, como nos afirma Levy (2000), clínica significa estar presente ao leito do doente, em postura de observação e cuidado. Exercer essa postura requeralguém que esteja em estado de vulnerabilidade, disponível para uma relação de ajuda na qual um cuidador (terapeuta/médico) vai se propor a realizar uma pesquisa, observação, levantamento de hipóteses e tentativas de intervir sobre a condição de dor, para alívio, cura, tratamento e conseqüente melhoria das condições de vida do doente.

As diversas concepções de cuidado e de cura estão intimamente atreladas a uma evolução histórica das idéias sobre a relação existente entre o corpo e o psiquismo. As medidas disciplinares sobre o corpo, no decorrer dos séculos, têm sido usadas, nas mais diversas sociedades, como instrumentos de autoridade e dominação no decorrer da história humana, principalmente no tocante ao controle da sexualidade e dos sentidos (Foucault, 1993; Capobianco, 2003). Ou seja, a concepção social de corpo está diretamente interligada ao objetivo cultural de cidadania, o perfil de ser humano desejado socialmente.

Realizando um breve retrospecto, desde a Grécia Antiga, existe uma preocupação com a discussão entre a dicotomia mente (alma, essência) e corpo, muito ligada à compreensão da natureza e do processo saúde/doença. Penna (1990) cita Platão, que, em seus pressupostos, ocupou-se da divisão dos processos anímicos e corporais na determinação do conhecimento do mundo, privilegiando a Alma, concebida como pura inteligência que contempla a essência das coisas, que possui uma condição imortal: a nossa visão de mundo, o conhecimento, seria decorrente de reminiscência de vidas anteriores – a percepção das coisas pressuporia que há algo a priori que se igualiza na herança da essência prévia (mundo das idéias x mundo material).

Com a Idade Média, com a instauração do cristianismo como paradigma religioso oficial, encontramos a morte do corpo e dos sentidos em favor de uma vida imaterial, divina com a idéia da purificação e expurgação pelo sofrimento por meio de castigos e punições, auto-flagelações e controle intenso sobre o prazer e a sexualidade. São retomadas idéias platônicas no sentido de encontrar a alma imaterial e imortal, centelha da luz divina que anima a dimensão finita, mortal e material do ser humano. LeGoff e Tuong (2005) remontam a tensão existente entre as visões de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, esse último valorizando as experiências corporais na determinação do conhecimento do mundo e da iluminação de Deus sobre os seres humanos.

A partir da instauração do capitalismo como modo de produção, transformações decisivas ocorreram nas relações do ser humano consigo mesmo e com a natureza. Conforme nos assinala Figueiredo (1998) e Bock (2001), prevalece no mundo uma visão pragmática e materialista, na qual o corpo funcionaria como uma máquina, assim como todos os fenômenos do universo. O paradigma dogmático cede lugar para os avanços científicos, principalmente no tocante ao estudo da anatomia, por meio da dissecação de corpos (antes invioláveis durante a Idade Média) e o desenvolvimento de tecnologias e cuidados médicos. É importante destacar que, nesse momento, a vertente filosófica que predomina no fazer científico aporta-se nos pressupostos positivistas que vão desconfiar dos sentimentos, das percepções humanas, na configuração do conhecimento sobre a realidade, numa ruptura que deve existir, por parte do investigador, entre sujeito e objeto do conhecimento, ou seja, entre corpo e alma, pois ambas são compostas de substâncias diferenciadas. Assim, a ciência da natureza constitui-se pautada na negação dos sentidos (impressões subjetivas) para a elaboração de teorias, implantando as noções de objetividade e neutralidade, que ainda hoje perpassam várias vertentes de pesquisa.

No entanto, com a emergência da Psicanálise como campo de saber e tratamento do sofrimento humano, podemos perceber uma ruptura com o pensamento positivista da relação corpo/mente, no sentido que a histeria revela sintomas de um corpo erógeno, subjetivamente representado e habitado. As investigações organicistas da medicina tradicional não conseguem compreender como os sintomas se desenvolvem sem uma clara correlação com distúrbios e lesões neurológicos/fisiológicos, pondo em cheque o método anatômico de conhecimento das patologias. Partindo de Charcot e posteriormente Breuer e Freud, inaugura-se na medicina um tratamento da doença orgânica pelo psiquismo, inicialmente pela sugestão hipnótica evoluindo para a utilização da técnica de associações livres, escuta do discurso e manifestações do inconsciente e interpretação dos sintomas na relação transferencial (Mezan, 2001; Berlinck, 2000; Aguiar, 2002).

Assim, abre-se um caminho terapêutico para exercício de uma clínica aberta para a singularidade do mundo interno de cada paciente, a construção única e particular de sua trajetória de vida e sentidos de mundo, ocorrendo, no encontro entre paciente/analista concomitantemente a pesquisa e o tratamento (vertente epistemológica) e o respeito ao encontro na alteridade, numa relação intersubjetiva (dimensão ética). Como bem nos diz Aguiar (2002), o encontro clínico tem como características centrais: ―(...) a incerteza, o tateamento, a sugestão, a dúvida, a diferença, enfim, o singular‖ (p. 615).

A Vegetoterapia Caracteroanalítica, como poderemos observar em seguida, será uma abordagem que tentará superar a dualidade existente na discussão corpo/psiquismo, inaugurando um método clínico que considera tanto a dimensão subjetiva/representacional do sujeito como também as suas manifestações orgânicas, numa postura paradigmática de relação intrínseca através da idéia de unidade funcional entre rigidez de defesas caracteriais e rigidez muscular/orgânica de funcionamento fisiológico/energético. Vamos nesse momento nos aprofundar um pouco mais nessas questões.

A Vegetoterapia Caracteroanalítica: Panorama Histórico e Principais Conceitos

Nesse percurso, Wilhelm Reich, enquanto exercia a Psicanálise na Clínica Psicanalítica de Viena e coordenou os célebres Seminários sobre a Técnica Analítica na década de 20, contribuiu para ampliar a função do corpo na psicoterapia, ao desenvolver seus estudos sobre as defesas caracteriológicas, observando as reações somáticas advindas do processo de interpretação e intervenção na dinâmica psíquica dos pacientes, na interpretação e na relação transferência/resistência (Reich, 1990). Elaborou o conceito de couraça de caráter (Brandão, 2008), como forma de compreender as tensões musculares subjacentes às defesas psicológicas vividas pelo sujeito em análise, ao entrar em contato com os conteúdos dolorosos e ameaçadores que foram recalcados. A partir de suas investigações e seu interesse na interface entre o conceito metapsicológico de libido desenvolvido por Freud e a produção de energia bioelétrica e metabólica no corpo decorrente da circulação orgânica no ato sexual, Reich criou a vegetoterapia caracteroanalítica, que consiste numa abordagem em que o analista intervém diretamente no corpo dos pacientes, através de um entendimento econômico e energético da psicodinâmica dos sintomas, interrelacionando aspectos somáticos com os conflitos inconscientes do sujeito, atuando diretamente nos bloqueios emocionais decorrentes da estase – energia libidinal acumulada decorrente do processo de frustrações no desenvolvimento psicossexual infantil (Trotta, 2008; Araújo, 2008b).

A observação das resistências em sua prática como psicanalista fez com que Reich aprofundasse o seu caminho "biopsicoterapêutico". Utilizou essas observações para compreender e estudar o comportamento dos pacientes, começou a dar mais atenção às manifestações da estrutura corporal e suas correspondentes atitudes, relacionando-as com o comportamento caracterial. E aquilo que no início era apenas uma observação e uma sinalização para o paciente tornou-se um novo método de trabalho, com intervenções diretamente voltadas às áreas de tensão corporal. Por trás de tudo isso existia o paradigma de que os distúrbios emocionais do paciente instalam-se no corpo sob a forma de tensões, posturas contraídas, bloqueios de energia, tipos característicos de movimento e rigidez, originando a estase energética, energia essa ligada à sexualidade freudiana, a libido, energia que impulsiona a vida e ao prazer, que pode estar bloqueada, acumulada negativamente no organismo, causando as couraças e dificuldades no fluxo energético.

Reich preocupava-se com a comprovação da realidade física da libido. Freud descrevera a libido como uma força biológica indefinida, porém as pesquisas de Reich identificavam essa força como uma energia elétrica, diferente em certas partes do corpo — sobretudo nas zonas erógenas — que se alterava com a excitação sexual. Essa energia corresponde às correntes vegetativas do corpo. Sob esse prisma, Reich (1988) tenta, então, formular o movimento que acontece durante o orgasmo: TENSÃO MECÂNICA - CARGA BIOELÉTRICA - DESCARGA BIOELÉTRICA - RELAXAMENTO, que denominou de "fórmula do orgasmo", que se aplica a todos os seres vivos, nesse movimento contínuo de contração e expansão – a pulsação característica do estado de saúde.

A partir daí desenvolveu uma nova forma de abordar o desconforto emocional, a psicopatologia e as enfermidades. Esta nova abordagem, inicialmente chamada de vegetoterapia caractero-analítica e depois orgonoterapia. Tal metodologia mantém os princípios psicanalíticos básicos integrando elementos do corpo somático e do corpo energético tanto no diagnóstico como no processo psicoterapêutico. Facilita a expressão direta das emoções, potencializando as recordações e, portanto, a possibilidade de elaboração analítica. Depois dessas descobertas desenvolveu-se todo o movimento das terapias psico-corporais neoreichianas, como a Análise Bioenergética, a Biossíntese, a Massagem Biodinâmica, para citar as mais conhecidas no Brasil. Considerando o homem um sistema complexo e único, a terapia reichiana não separa e nem confere ao psiquismo a primazia em relação ao somático. Soma e psiquê são expressões da unidade energética, assim, o psiquismo é apenas parte de um sistema muito maior que é o homem.

A terapia psicocorporal é uma tentativa de aplicação das leis do funcionamento energético no tratamento do ser humano, trabalhando com o homem – somático e psíquico – de forma integrada. O pressuposto básico é que o organismo humano possui uma dinâmica - sangue, órgãos, respiração, vísceras, todos possuem um movimento de funcionamento, podemos dizer que é o nosso movimento "somático". Os sentimentos também determinam movimentos corporais (contraímos quando sentimos medo, o coração acelera quando sentimos raiva). Então, os movimentos de funcionalidade de cada órgão vão ser influenciados, modificados, facilitados, ou impedidos pelo movimento dos sentimentos e vice-versa, de maneira que o organismo vai se moldando dentro da delimitação do somático e do psíquico. Portanto, a terapia reichiana tenta recuperar o equilíbrio do sistema neurovegetativo através do desbloqueio das tensões corporais cronificadas que impedem o livre fluxo da energia vital.

A vegetoterapia caracteroanalítica atualmente encontra-se fundamentada e sistematizada por Federico Navarro (neuropsiquiatra italiano), sua contribuição está pautada fundamentalmente, em suas técnicas, com o sistema neurovegetativo (simpático e parassimpático), objetivando a genitalidade orgástica do indivíduo inserido na sociedade. Ou seja, através de um trabalho progressivo de análise e movimentação corporal, busca propiciar ao paciente uma auto-regulação energética, ajudando-o a vivenciar sua potencialidade orgástica, o prazer de estar vivo, pulsante, sem bloqueios psicocorporais.

O terapeuta possui uma postura ativa frente ao cliente, através de um trabalho contínuo e contíguo de exercícios, visando a redistribuição e desbloqueio de energia presa (estase) no indivíduo, devido aos traumas que ele pode ter sofrido durante toda a sua história de vida. Para isso, o terapeuta faz uma coleta extensa de dados, através de uma série de entrevistas de anamnese, analisando a história sócio-familiar e orgânica do cliente. Logo após essa fase, parte-se para a terapia propriamente dita, a qual acontece com o cliente deitado em um colchão especial, utilizando-se de massagens de mobilização energética no sentido céfalo-caudal. De acordo com Navarro, esse é um trabalho profundo, suave, sem violência, de dissolução das couraças (bloqueios musculares) no qual o terapeuta tenta metodologicamente compreender e intervir para propiciar um fluido movimento energético no paciente. Após a realização dos actings (movimentos corporais expressivos e mobilizadores de energia), há um momento em que o paciente verbaliza sobre suas reações, e o terapeuta fica numa cadeira ao lado esquerdo dele, o qual corresponde ao cérebro direito, dos sentimentos, maternagem, criatividade, síntese.

A emoção básica trabalhada na vegetoterapia é o medo (desenvolvido no período pré, neo ou pós-natal), o qual paralisa as energias do indivíduo e consiste na origem das doenças psicossomáticas. Esse medo pode estar expresso em entraves energéticos no funcionamento orgânico de algum dos sete anéis energéticos do corpo, que são, de acordo com o desenvolvimento céfalo-caudal:

  1. olhos, ouvidos e nariz (telereceptores) – ligados a gênese da psicose (distorção na interpretação e compreensão do mundo);
  2. boca – zona primordial da afetividade e ligação primária com a mãe, com bloqueios energéticos ligados aos transtornos depressivos;
  3. pescoço – separação entre corpo e cabeça, área bastante sensível, pois propicia canal onde passam a alimentação e a respiração. Área onde se encontra a garganta, canal expressivo da voz e emoção – bloqueios revelam tendências narcisistas e de exagerado controle (medo de perder a cabeça – loucura);
  4. tórax e braços – expressam identidade biológica e sensação de eu – área do coração;
  5. diafragma – músculo bastante ativo na respiração, característico de atitudes masoquistas de ansiedade, culpa e ansiedade frente ao prazer sexual;
  6. abdômen – vísceras e emoções encontram-se nessa área, que pode estar bloqueada, revelando dificuldade de contato com os sentimentos. Está ligada ao controle dos esfíncteres e tendências à meticulosidade e obsessão;
  7. pélvis e pernas – predomínio da sexualidade genital. Na criança, dificuldades na fase fálica podem causar contrações que impedem o fluxo de energia chegar ao genitais, caracterizando quadros como histeria, por exemplo.

Quanto mais primitivo for o estresse traumático, ou seja, quanto mais superior for o entrave energético a nível de anéis (na direção céfalo-caudal), mais sério é o problema do indivíduo, a nível psicopatológico.

Dependendo do cliente, a vegetoterapia precisa ter um acompanhamento médico para ajudar a recompor o seu equilíbrio energético, utilizando-se de homeopatia, acumputura e vitaminas. Tudo isso para propiciar uma aumento da energia no corpo, ou uma melhor distribuição da mesma. O terapeuta deve, no momento da anamnese e leitura corporal, fazer um diagnóstico energético de seus pacientes, que segundo Navarro, podem classificados como:

a) hiporgonóticos – pessoas com baixa carga energética, portadoras de núcleo psicótico (bloqueio ocular), que tiveram estresses na vida intra-uterina;

b) desorgonóticos – pessoas portadoras de bastante energia, mas desorganizada no corpo, característico de quadros de traumas na amamentação e desmame;

c) hiperorgonóticos desorgonóticos – pessoas com muita energia, mas desorganizada. Característica de traumas na passagem da criança para o uso intencional da neuromuscularidade (9º mês até a puberdade), envolvendo bloqueios, principalmente, a nível do pescoço e diafragma;

d) hiperorgonóticos - grande quantidade de energia, não canalizada de forma adequada. Característico de bloqueios pélvicos – histeria e neurose.

Transtornos Psicossomáticos – O Conceito de Biopatia

A vegetoterapia conceitua como biopatias os estados mórbidos nos quais a medicina oficial não reconhece a etiologia. São quadros patológicos sistêmicos e/ou degenerativos dos quais se conhece apenas a patogênese, em que um componente de ordem psicológica determina, desencadeia ou influencia a disfunção dos aspectos biológicos do indivíduo.

Para Reich, toda patologia tem sua origem numa disfunção (no sentido de contração) dos sistema nervoso autônomo, alterando toda a função biológica da pulsação plasmática do organismo, reduzindo sua condição energética. A contração simpaticotônica propicia modificações no ambiente celular negativas a sua vitalidade, aumentando a estase energética. Nesse sentido, a biopatia seria uma forma de resignação biológica, resultante de uma situação existencial que o indivíduo encontra-se incapaz de adequar-se adequadamente, voltando a energia estásica resultante do conflito para o impedimento da homeostase fisiológica. A biopatia, dessa forma, seria o sinal de canalização, a nível celular, da loucura, da perda do controle, do desequilíbrio.

Baker (1980) considera que as patologias estariam relacionadas com uma simpaticotonia crônicas advindas da ansiedade do homem em deparar-se com sua impotência orgástica, ou seja, com a sua incapacidade de canalizar saudavelmente sua energia, devido a seus mecanismos de defesa caracteriais. Ou seja, o indivíduo não consegue Ter uma vida gratificante e funcional pela fórmula do orgasmo, estando sob o peso de constantes frustrações. A respiração, nesse contexto, é comprometida - dificuldades de respirar estariam relacionadas a anseios e defesas ao contato com as sensações emocionais, vindas do corpo.

Segundo Navarro (1991), a simpaticotonia está intimamente ligada com a emoção do medo, a qual deve ser foco da terapia corporal: ―A emoção é um fenômeno vital de resposta a uma solicitação externa (...) A emoção primária de consequências negativas é o medo (que no fundo é sempre o medo de morrer, ou melhor, de não viver adequadamente‖ (p.12).

Dessa forma, o medo é a emoção/base das patologias, por ser o elemento determinante/desencadeante da contração. É uma emoção que permanece impressa ou reprimida do consciente, mas encontra-se presente no organismo, inscrito a nível celular, expresso e vivenciado na oportunidade de entrar em contato com os bloqueios energéticos através dos actings da terapia que, como vimos, têm o objetivo de mobilizar a energia estagnada e evitar a entropia.

Para ilustrar melhor o conceito de biopatia, podemos lançar um olhar sobre o câncer, objeto de pesquisa de Reich durante muitos anos, que gerou diversos artigos e o posterior desenvolvimento da vegetoterapia em orgonomia. Segundo o autor, o câncer é basicamente uma putrefação ativa do tecido, resultante da falta de impulsos para a expansão energética a nível orgânico – ou seja, uma alta potencialidade para a contração e a estase, mas sem possibilidades de expandir-se, canalizar-se, de forma que o fluxo de energia diminui, interrompe-se. Nos casos de câncer, o organismo desistiu de fazer sua energia circular, causando no indivíduo um estado contínuo de resignação emocional, uma vida sem prazer.

Uma respiração precária, segundo Baker (1980) provoca uma respiração celular interna precária a nível de tecidos, seguido de acúmulo de dióxido de carbono e anoxia. Dessa forma, o processo de carga e descarga encontram-se comprometidos, a fórmula do orgasmo perde a importância na vida do indivíduo, que não consegue perceber com prazer o seu mundo. Geralmente os tumores ocorrem em locais onde a simpaticotonia e a contração estásica provocam fortes couraças musculares nos indivíduos.

De acordo com Navarro (1991), um tumor pode ser conceituado como toda produção celular patológica constituída de um tecido neoformado sem fenômenos inflamatórios. Nesse sentido, o câncer enquadraria os tumores considerados como malignos, caracterizados por células irregulares, deformadas, que se reproduzem e podem se alastrar por todo o corpo.

Alguns tumores benignos podem ser herdados desde o nascimento, podendo tornarem-se malignos em condições de imunodepressão do organismo, em situações de estresse profundo e ou prolongado para o indivíduo. É interessante notar que a vegetoterapia trata de um ―terreno‖ energético que é herdado pela criança desde a concepção, gestação e nascimento. Tendo em vista essa premissa, o medo pode ser vivenciado até mesmo na vida embrionária/fetal, no qual a relação mãe/feto foi caracterizada pela ameaça iminente de morte, ou rejeição. São indivíduos, segundo a categoria diagnóstica, hiporgonóticos, com o medo registrado a nível celular em seus organismos, cuja fragilidade podem potencializar a alteração da cadeia de DNA das células, acarretando a reprodução desordenada de células desestruturadas. Essa predisposição hereditária, somada a condições estressantes ambientais, rompem os frágeis mecanismos de defesa do indivíduo, em que para reagir à morte emocional, o organismo produz a vida de um tumor. São pessoas geralmente marcadas pelas perdas, medo, melancolia, abandono e vazio, com conflitos pessoais dramáticos e prolongados. Momentos de depressão influenciam a sua imunologia, propiciando um ambiente favorável para a criação de um tumor.

É importante ressaltar que toda biopatia está intimamente relacionada a compreensão da construção das defesas narcísicas do sujeito mediante as ameaças do mundo externo ou interno, que Reich conceituou como caráter. Uma clínica que trate qualquer transtorno psicossomático deve prestar atenção aos padrões de rigidez dessas defesas, que se expressam em formas de se comportar para além do discurso verbal de nossos pacientes. Como bem nos fala Berlinck (2002), o sistema psíquico pode ser compreendido como nosso sistema imunológico mediante o mundo externo, ou seja, constrói-se nas defesas e nas estruturas cada vez mais complexas de interrelação e atribuição de sentidos aos eventos que nos ocorrem na dinâmica do processo de viver. Assim, mudanças psicológicas acarretam simultaneamente mudanças orgânicas, tendo em vista a formação contínua de novas sinapses e conexões posturais a partir do processo de mobilizar as defesas psíquicas e trabalhar com a musculatura contraída e a distribuição energética/erógena do corpo.

Sobre o Autor

*Psicólogo (CRP11/2962), Trainee em Análise Bioenergética e Psicoterapia Biodinâmica. Mestre em Psicologia – UFRN. Doutorando em Psicologia Clínica – PUC/SP (Núcleo de Psicossomática e Psicologia Hospitalar). Professor Assistente da Universidade Estadual do Piauí e da Faculdade Santo Agostinho. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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