História da Psicossomática

1 1 1 1 1 Avaliações 0.00 (0 Avaliações)
(Tempo de leitura: 5 - 9 minutos)

Na Antiguidade o adoecer era considerado uma manifestação de forças sobrenaturais, sendo a cura buscada em rituais religiosos. As práticas terapêuticas e as concepções de vida, de saúde e de morte eram intimamente ligadas a essas crenças.

Na civilização assírio-babilônica (III milênio a.C.) curas rituais e mágicas coexistiam com tentativas de estabelecer procedimentos por analogia, com referencia à mitologia, à metafísica e à astronomia. No Egito Antigo, junto as crenças religiosas emergiram princípios de um raciocínio analógico na compreensão dos sintomas e na escolha terapêutica. Datado de cerca de 1500 a.C., o papiro Ebers já esboçava uma descrição do corpo humano, de suas doenças e de quadros clínicos detalhados, acompanhados de procedimentos terapêuticos e de prognósticos. No século V a. C, Heródoto assinalava a divisão em especialidades na medicina egípcia. O Antigo Testamento preconizava medidas de profilaxia e de higiene pessoal e coletiva por intermédio de regras alimentares e de organização social.

No século VI a.C., os filósofos pré-socráticos, buscavam um princípio que explicasse a unidade da natureza, tentando situar o corpo e suas doenças na trama das forças do Universo. Tales de Mileto questionou a origem divina dos fenômenos da natureza. Aleméon, de Cretone, sustentava que a saúde era expressão do equilíbrio do Homem com o Universo. Empédocles, de Agrigento, sustentava que o corpo era formado por quatro elementos, fontes dos “humores”. Estes estariam subordinados à luta permanente entre o amor (fonte de integração) e o ódio (fonte de desintegração).

Segundo Volich (2000), a partir de Sócrates, gradualmente surgiu à idéia de que o homem seria constituído não apenas por um substrato material, mas também de uma essência imaterial, vinculada aos sentimentos e à atividade do pensamento, a alma. No âmbito da medicina, essa discussão determinou diferentes vertentes na compreensão da doença, da natureza humana e da função terapêutica.

Hipócrates, nascido na Ilha de Cós, por volta de 460 a.C. construiu uma medicina naturalista, baseada em uma metodologia e deontologia específicas. Para ele o corpo humano era um todo cujas partes se interpenetram. Hipócrates introduziu a idéia de unidade funcional do corpo, onde a alma exerce uma função reguladora. O homem era uma unidade organizada, que poderia desorganizar-se, o que propiciaria a emergência de uma doença.

O termo “psicossomático” foi utilizado pela primeira vez em 1818 por Heinroth, psiquiatra alemão, Ao fazer referência a insônia e a influência das paixões na tuberculose, epilepsia e cancro.  No século seguinte as descobertas de Freud permitiram uma melhor compreensão desses fenômenos. Em 1922 Deutsch reintroduziu esse termo em Viena.

Neves (1998) destaca que as afecções psicossomáticas estão para o final do século XX, assim como as histerias estiveram para o final do século XIX. A autora traça algumas linhas de desenvolvimento da psicossomática, destacando as contribuições de Franz Alexander e seus colaboradores da Escola de Chicago, e os trabalhos de Spitz e da Escola Psicossomática de Paris. Franz Alexander e seus colaboradores desenvolveram uma teoria que buscava as relações entre emoções reprimidas e sua repercussão no plano físico, levando aos sintomas. A partir de 1950, com os trabalhos de Spitz observou-se a decisiva influência que a ausência da figura materna exerce no plano da psicopatologia, e constatou-se que essa ou outras ausências no psiquismo aumentavam a disposição à doença. Em 1962 surge a Escola Psicossomática de Paris, representada por Pierre Marty, Chistian David, Michel Fain e Michel M’Uzan; e em 1972 foi criado o Instituto de Psicossomática, sob a direção de Pierre Marty, com a finalidade de formar psicossomaticistas, promover a pesquisa e fornecer atendimento clínico.

Volich (1998) destaca que desde sua origem a psicossomática foi marcada pelas descobertas de freudianas, durante toda a sua obra Freud apresenta uma reflexão entre o psíquico e o somático. O modelo etiológico da histeria e da neurose atual constituem as primeiras referências da psicanálise para pensar a relação entre fatores psíquicos e doenças orgânicas. Todos os pioneiros da psicossomática tiveram contato com as formulações freudianas, reconhecendo as contribuições desta para as suas teorias.

A Escola de Chicago

os Estados Unidos o interesse pela psicossomática surge por volta dos anos 30, consolidando-se em meados deste século com Alexander e Dunbar da Escola de Chicago. Esses dois autores dirigiam seus trabalhos no sentido de buscar estabelecer relações entre conflitos emocionais específicos e estruturas da personalidade com alguns tipos de doenças somáticas, como úlceras, enxaquecas, alergias, asma e distúrbios digestivos. Eles consideram que os transtornos psicossomáticos seriam “conseqüência de estados de tensão crônica, relativa à expressão inadequada de determinadas vivências, que seriam derivadas para o corpo” (Cardoso, 1995, p.10).

Instituto de Psicossomática de Paris 

Na França, a partir dos anos 50 um grupo de psicanalistas, liderados por Pierre Marty, ampliou de maneira significativa a teoria e a clínica psicossomática, introduzindo uma continuidade conceitual e clínica entre a abordagem médica e  psicanalítica da sintomatologia, tanto psíquica quanto somática. O objetivo inicial desses teóricos era melhor compreender as patologias somáticas cuja dinâmica não correspondiam ao modelo da conversão histérica, utilizando o conceito psicanalítico de neurose atual.

 Volich (1998) diz que gradualmente foi se desenvolvendo um corpo clínico e teórico que considera a sintomatologia a partir de uma concepção essencialmente metapsicológica e, sobretudo, econômica. É uma tentativa de compreender os destinos da excitação pulsional no organismo e sua possibilidades de descarga.

Segundo Marty (1994) a patologia somática não conversiva é o resultado da impossibilidade de elaboração da excitação através dos recursos psíquicos do indivíduo, em função de uma estruturação deficiente, no plano representativo e emocional, do aparelho mental.

Marty (1994) acredita que em grande número de pacientes que apresentam uma sintomatologia somática não conversiva é possível constatar um empobrecimento da capacidade de simbolização das demandas pulsionais e de sua elaboração através da fantasia. O modelo proposto por Marty ressalta a idéia de que um menor grau de atividade mental, corresponde a uma maior vulnerabilidade somática. Diante de um traumatismo, um indivíduo com uma atividade mental pouco desenvolvida não teria recursos mentais suficientes para lidar com o excesso de estimulação, e esta desorganização passaria a atingir as funções somáticas, menos evoluídas.

Neves (1998) demonstra que Michel Fain traz uma abordagem complementar a de Marty. Esse autor defende a idéia de que uma sobrecarga de excitação que ultrapassa os limites do ego para responder, quer por imaturidade, no caso do bebê, quer por um desenvolvimento precário, no adulto. 

Escola de Boston e Conceito de Alexitimia

Durante a década de 1970, dois analistas americanos,  Jonhn Nemiah e Peter Sifneos,  se propuseram a realizar pesquisas sobre a forma diferenciada de se comunicar dos pacientes psicossomáticos, através de um estudo com análise de entrevistas psiquiátricas, gravadas com pacientes que apresentavam alguma doença psicossomática clássica; constataram que alguns desses pacientes demonstraram uma impressionante dificuldade de expressar ou descrever suas emoções através da palavra, assim como uma acentuada diminuição dos pensamentos fantasmáticos.

Através de outras observações estes autores concluíram que os pacientes com doenças psicossomáticas clássicas, apresentavam freqüentemente uma desordem específica nas suas funções afetivas e simbólicas, acarretando uma forma de se comunicar confusa e improdutiva. Esta maneira peculiar de se comunicar desses pacientes, foi denominada alexitimia, que significa falta de palavras para as emoções (Taylor, 1990).

Cerchiari (2000) diz que apesar desses estudos atuais demonstrarem que essa maneira peculiar de se comunicar não é específica dos pacientes com doenças psicossomáticas clássicas, a contribuição de Nemiah e Sifneos é de importância fundamental, pois chamaram a atenção para um aspecto do funcionamento psíquico e apontaram , uma direção a tomar sobre a exploração da vida intra-psíquica via estudo da comunicação entre paciente e analista.

Perspectiva evolucionista

De acordo com essas teorias o aparelho psíquico não é um acessório de luxo do desenvolvimento humano, mas ele exerce uma função essencial de assimilação e elaboração dos estímulos provenientes da realidade externa e do meio interior. Se o curso normal do desenvolvimento humano aponta para a formação de estruturas, de dinâmicas e de funções cada vez mais complexas, é necessário considerar que o objetivo desse desenvolvimento é sobretudo assegurar o equilíbrio de um organismo permanentemente solicitado por estímulos externos e internos. Mas para atingir esse equilíbrio, algumas vezes o organismo responde a essas solicitações através de respostas anacrônicas, primitivas, menos elaboradas do que é ou já foi capaz. O ser vivo não é capaz apenas de organizações, hierarquizações e de associações, mas também objeto de movimentos regressivos e destruição e desorganização. A patologia também faz parte dos meios do individuo para regular sua homeostase, ou suas relações com o meio.

Neves (1998) destaca que além dessas perspectivas, deve-se destacar um outro enfoque que, partindo da noção de vazio representacional e da dificuldade em utilizar recursos mentais para lidar com sobrecargas de estimulação, vai em outra direção: Christophe Dejours, por exemplo, trabalha com a importância das relações intersubjetivas e com a noção de intencionalidade do sintoma, conceito fenomenológico diferente de intenção.

Curso online de

TCC - Terapia Cognitivo-Comportamental: Principais Fundamentos

 TCC - Terapia Cognitivo-Comportamental: Principais Fundamentos

Aprofunde seus conhecimentos e melhore seu currículo

Carga horária:  20 Horas

Recém Revisados