O Estresse como Fator Desencadeador da Gastrite Crônica: Resposta Fisiológica ou Psicossomátca?

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Resumo: O estresse vem sido citado como fator precursor de inúmeras doenças. Ele se manifesta fisiologicamente através dos sistemas nervoso e endócrino, integrados entre si. Ao receber um estímulo, o organismo propaga impulsos para o sistema nervoso central, autônomo e sistema límbico, desencadeando uma cadeia de reações, com ativação do eixo hipotálamo-hipófise e atuando no psiquismo. A partir daí, são liberados no organismo uma série de hormônios e neurotransmissores, levando a manifestações fisiológicas específicas, além de sensações psicológicas diversas. Existe um equilíbrio entre a secreção ácida e a produção de protetores da mucosa no estômago. Fatores estressores causam perda desse equilíbrio com elevação da acidez estomacal, desencadeando irritação do estômago e consequente inflamação da mucosa gástrica, a gastrite. A psicossomática traz uma visão do homem na sua totalidade, visto de forma integral, corpo e mente em um único círculo, interrelacionados. Traz o corpo como veículo de expressão das emoções. Simbolicamente o ser humano relaciona o aparelho digestivo a expressões que refletem uma série de emoções. O estômago tem a capacidade de acolhimento e é o local de depósito de tudo o que é engolido. Somatizar faz com que a mucosa gástrica perca sua função de fronteira interna, de barreira, expondo o corpo ao desenvolvimento da gastrite.

Palavras-chave: Estresse, Gastrite, Gastrite crônica, Psicossomática

Title: Stress as Triggering Factor of Chronic Gastritis: Physiological or Psychosomatic Response?

Abstract: Stress has been cited as a precursor factor of many diseases. It is manifested physiologically through the nervous and endocrine systems, integrated with each other. To receive a stimulus, the organism spreads impulses to the central nervous system, autonomic and limbic system, setting off a chain of reactions, with activation of the hypothalamic-pituitary axis and acting in the psyche. From there, they are released in the body a number of hormones and neurotransmitters, leading to specific physiological manifestations, and several psychological sensations. There is a balance between acid secretion and the production of protective mucous in the stomach. Factors stressors cause loss of this balance with increased stomach acidity, triggering stomach irritation and subsequent inflammation of the gastric mucosa, gastritis. Psychosomatic brings a vision of man as a whole, as fully, body and mind into a single circle, interrelated. It brings the body as a vehicle for expression of emotions. Symbolically the human digestive tract relates to expressions that reflect a range of emotions. The stomach has the ability to welcome and is the place to deposit all that is swallowed. Somatize causes the gastric mucosa lose its internal boundary function, barrier, exposing the body to the development of gastritis.

Keywords: Stress, Gastritis, Chronic gastritis, Psychosomatics

1. Introdução

Há muito tempo o estresse vem sido citado como fator precursor de inúmeras doenças. Acredita-se que estímulos estressores sejam capazes de perturbar o equilíbrio dinâmico do organismo, desencadeando distúrbios de diversas ordens, com consequentes lesões em órgãos e sistemas. O sistema gastrointestinal é um dos mais vinculados às alterações patológicas pelo estresse. Por trabalhar em condições extremas, distintas dos demais órgãos, o estômago necessita de condições favoráveis e limiares para realizar suas funções. Qualquer desequilíbrio na homeostase traz repercussões sobre o órgão, com risco de desenvolver doenças, sendo a gastrite a alteração mais comum.

Outra vertente, vinculada à psicossomática, também demonstra o estresse como fator desencadeador de problemas estomacais, mas não pela fisiologia, pela somatização de sentimentos. Quando o indivíduo não consegue externalizar o que lhe perturba, acumula tensão sobre determinadas regiões corporais, sendo o estômago um dos órgãos mais afetados.

O objetivo deste trabalho é aprofundar os conhecimentos acerca do estresse e suas respostas sobre o organismo, mais especificamente sobre o sistema gastrointestinal, avaliando como seria capaz de desencadear um quadro de gastrite crônica.

Para tal, foi realizado uma revisão da literatura existente, com pesquisa entre Setembro e Outubro de 2015, nas bases de dados Scielo, PubMed, Up toDate e Cochrane, utilizando-se dos termos Estresse, Gastrite, Gastrite crônica, Psicossomática e suas respectivas traduções para o idioma inglês. Foram incluídos artigos num período de 10 anos, sendo acrescentados trabalhos anteriores que fossem relevantes ao tema abordado, nos idiomas português e inglês. Os estudos fora do período estabelecido, em outras línguas e com metodologia inadequada foram excluídos.

Baseado nas referências encontradas, foi realizado um breve resumo sobre a anatomia e fisiologia do estômago, bem como uma abordagem sobre a gastrite e seus mecanismos desencadeadores. A seguir, foi feito um apanhado sobre o estresse e suas repercussões sobre o organismo e como a psicossomática age sobre o corpo, desencadeando doenças, em específica a gastrite crônica.

2. Desenvolvimento

Os distúrbios do estômago são causa frequente de doenças clínicas, em que lesões inflamatórias são particularmente comuns. O estômago é dividido em 4 regiões anatômicas principais: cárdia, fundo, corpo e antro. A cárdia (abertura superior do órgão) e o antro (região inferior em forma de cone) são revestidos principalmente por células foveolares, secretoras de mucina (principal glicoproteína do muco), que formam as pequenas glândulas. As glândulas antrais contém células endócrinas, tais como as células G, que liberam gastrina (hormônio peptídeo) para estimular a secreção luminal de ácido clorídrico pelas células parietais do fundo e corpo gástricos. As glândulas bem desenvolvidas do corpo e do fundo também contêm células principais, que produzem e secretam enzimas digestivas, tal como a pepsina (KUMAR et al, 2010).

O estômago é submetido a um meio extremamente ácido, essencial ao processo de digestão. O pH luminal gira em torno de 1 e para suportar tamanha acidez faz uso de mecanismos protetores capazes de estabilizar o ambiente interno, sem consequências lesivas ao órgão. A mucina secretada pelas células foveolares, o muco de pH neutro sobre o epitélio, além do rico suprimento vascular da mucosa são fatores que mantém o órgão em homeostase. Existe um equilíbrio entre a secreção ácida e a produção de protetores da mucosa no estômago. A perda desse equilíbrio causa diminuição do pH e acidez estomacal elevada, desencadeando irritação do estômago e consequente inflamação (KUMAR et al, 2010).

Gastrite é o nome dado ao processo inflamatório da mucosa gástrica. Trata-se de um grupo heterogêneo de alterações macro e microscópicas da mucosa, decorrente da injúria de origens diversificadas. A mucosa do estômago oferece resistência à irritação e normalmente pode suportar um elevado conteúdo ácido, no entanto pode irritar-se e inflamar-se em caso de disfunções que venham a desestabilizar o meio, geralmente por causas virais ou fúngicas, bacteriana (Helicobacter pylori), eosinofílica, atrófica, erosiva, por estresse, seja ele físico ou emocional, dentre outros fatores. Usualmente estes estão associados a uma resposta inflamatória aguda ou crônica (DDINE et al, 2012).

A gastrite aguda é um processo inflamatório transitório da mucosa estomacal, que pode ser assintomático ou causar graus variáveis de dor epigástrica, náusea e vômito, podendo chegar a ulcerações, hemorragias e hematêmese nos casos mais graves (KUMAR et al, 2010). Geralmente ocorre como consequência do rompimento de um dos mecanismos protetores da mucosa, sendo as causas mais comuns a síntese reduzida de mucina nos idosos, drogas que interferem na citoproteção fornecida pelas prostaglandinas, infecção por H. pylori, gerando inibição dos transportadores de bicarbonato, além do excessivo consumo de álcool, ingestão de químicos agressivos, radio e quimioterapia, por injúria direta da mucosa epitelial e das células estromais (VALLE, 2015).

Na gastrite crônica os sintomas são tipicamente menos graves, porém mais persistentes. Náusea e desconforto abdominal superior podem ocorrer, algumas vezes com vômito, mas a hematêmese é incomum (KUMAR et al, 2010). A causa mais comum da gastrite crônica é a infecção com o bacilo Helicobacter pylori, no entanto outros fatores irritantes crônicos como a cafeína, uso constante de álcool e tabaco, bem como o estresse psicológico também são considerados causas frequentes de gastrite (DDINE et al, 2012).

Hans Selye foi o primeiro estudioso que tentou definir estresse, atendo-se à sua dimensão biológica e relacionando-o a alterações nas condições de saúde. Em 1965 definiu o termo estresse como uma reação inespecífica do organismo frente a qualquer exigência, sendo um elemento inerente a toda doença, que produz certas modificações na estrutura e na composição química do corpo. Seria um conjunto de respostas frente a estímulos que ameacem a homeostasia do organismo. Trata-se de um desequilíbrio substancial entre a capacidade de demanda e a capacidade de resposta, condições em que o fracasso e a satisfação tem consequências importantes (FAVASSA et al, 2005).

O estímulo estressor pode desencadear respostas diferentes em diferentes organismos, gerando reações consideradas como positivas (taquicardia, respiração ofegante, explosão de alegria, prazer) ou negativas (medo, angústia, insegurança) (FAVASSA et al, 2005). A depender do estímulo estressor e do tipo de resposta desencadeada, o estresse pode ser classificado como estresse físico, por sobrecarga, por monotonia, ou como estresse psíquico (emocional ou psicológico). Pode ainda ser dividido como agudo, gerando respostas fisiológicas imediatas, como a reação de luta ou fuga, ou crônico, persistente por mais tempo, sem encontrar meios que o desativem (RIO, 1995).

O estresse se manifesta fisiologicamente através de dois sistemas, nervoso e endócrino, integrados entre si. Ao receber um estímulo, o organismo, através do Sistema Nervoso Central (SNC) envia impulsos para o Sistema Nervoso Autônomo (SNA) e Sistema límbico, desencadeando uma cadeia de reações, com ativação do eixo hipotálamo-hipófise e atuando no psiquismo. A partir daí, são liberados no organismo uma série de hormônios e neurotransmissores, levando a manifestações fisiológicas específicas, além de sensações psicológicas diversas, a depender do tipo, natureza e intensidade do estímulo (SILVA, 2010).

Diversos autores citam o estresse e outros sentimentos como desencadeadores de efeitos sobre o Sistema Gastrointestinal (SGI). Moreno e Araújo (2005), bem como Júnior et al (2013) trazem o estímulo gerado sobre o sistema límbico, bem como o sentimento de raiva, como fatores de hiperemia gástrica, gerando aumento da motilidade, da produção e secreção do conteúdo estomacal (pepsina, gastrina e secretina). Ambos os autores citam também o medo e depressão como fatores opostos, de redução da secreção gástrica e da motilidade. De acordo com Júnior et al (2013), o estresse gera isquemia da mucosa gástrica, o que acarretaria em processos inflamatórios, assim como lesões ulcerativas na parede do estômago.

O estresse emocional produz alteração sobre o sistema endócrino, com repercussão direta sobre a secreção gástrica, regulação dos fatores protetores da mucosa e percepção dos estímulos sensoriais no estômago (SCALON, 2011).

O estresse por si só não causa nenhum mal, não é suficiente para desencadear uma enfermidade orgânica. A medicina convencional alega que, para haver doenças relacionadas ao estresse, é necessário que haja alterações fisiológicas capazes de produzir mudanças adaptativas (SILVA, 2010). O estresse crônico, neste caso, ocasionará distúrbios metabólicos pelo excesso de cortisol e adrenalina circulantes no organismo. O aumento da secreção de ácido clorídrico e pepsina, com consequente redução do muco protetor, levariam a distúrbios no equilíbrio ácido-básico, desorganização das funções digestivas e alterações no peristaltismo, com consecutiva lesão estomacal (úlceras e gastrite) (MARSOLLA, 2009).

O estresse pode desencadear diversas manifestações fisiológicas capazes de quebrar o padrão homeostático e gerar um quadro de gastrite, no entanto inúmeros sintomas relatados por pacientes permanecem inexplicados pela medicina tradicional. Aqui entra a psicossomática.

A psicossomática traz uma visão do homem na sua totalidade, visto de forma integral, corpo e mente em um único círculo, interrelacionados. Traz o corpo como veículo de expressão das emoções. A somatização ocorre quando o indivíduo não consegue externalizar o que lhe perturba, causando no mesmo um sofrimento psíquico que passa a ser físico, levando ao adoecimento (JÚNIOR, 2013).

Simbolicamente o ser humano relaciona o aparelho digestivo a expressões que refletem uma série de emoções (CASTELLI e SILVA, 2007). Há fenômenos somáticos que acompanham as diferentes emoções ou afetos, expressados como queixas não explicáveis pela medicina convencional como distúrbios do trânsito esofagogástrico, ipigastralgias, peso abdominal, entre outras (JÚNIOR, 2013).

De acordo com Ballone et al (2007) o SGI é muito sensível às emoções. O estômago tem a capacidade de acolhimento e é o local de depósito de tudo o que é engolido (MORENO e ARAÚJO, 2005). Somatizar faz com que a mucosa gástrica perca sua função de fronteira interna, de barreira, expondo o corpo ao desenvolvimento da gastrite (BALLONE et al, 2007).

3. Conclusão

Existem causas e explicações fisiológicas que justificam o aparecimento da gastrite crônica. Estímulos gerados sobre o sistemas nervoso e endócrino geram desordens no equilíbrio entre a acidez natural do estômago e seus fatores de proteção, podendo desencadear lesões na mucosa gástrica. No entanto, nem todos os sintomas relatados por pacientes que sofrem com esta enfermidade conseguem ser explicados pela medicina convencional. Elementos do psiquismo tem se mostrado como importantes fatores capazes de gerar sintomas abdominais, constantemente associados ao estômago.

Independente dos fatores etiológicos, se fisiológicos ou psicossomáticos, cabe aos médicos estarem atentos ao estresse como fator de lesão, não apenas do estômago, mas de qualquer outro órgão ou sistema do corpo. Nestes casos, o tratamento alopático da medicina tradicional não surtiria efeito adequado e eficiente enquanto os distúrbios estressores estiverem presentes. Muitas vezes será necessário associar o tratamento medicamentoso ao psicológico em busca da completa reabilitação e cura do paciente.

Sobre os Autores:

Gilberto Vivas Mendes Neto - Acadêmico de Medicina na Faculdade de Minas - BH (MG), Graduação em Fisioterapia pela Universidade Católica do Salvador (BA), MBA pela Universidade Castelo Branco (RJ).

Otávio Augusto Menezes de Oliveira - Acadêmico de Medicina na Faculdade de Minas - BH (MG)

Evaristo Nunes Magalhães - Professor de Psicologia Médica na Faculdade de Minas - BH (MG), Doutor em Ciências da Saúde pela UFMG

Referências:

BALLONE, GJ; NETO, EO. Da emoção à lesão: um guia de medicina psicossomática. 2ª ed. São Paulo: Manole, 2007;

CASTELLI, Andrea; SILVA, Maria Júlia. "Faz isso, faz aquilo, mas eu tô saindo..." - Compreendendo a Doença de Chron. Rev Esc Enferm. USP, 2007;

DDINE, Cissa et al. Fatores associados com a gastrite crônica em pacientes com presença ou ausência do Helicobacter pylori. Arq Bras Cir Dig. 25 (2): 96-100; 2012;

FAVASSA, Celi; ARMILIATO, Neide; KALININE, Iouri. Aspectos fisiológicos e Psicológicos do estresse. Revista de Psicologia da UnC. v.2, n. 2, p. 84-92, 2005;

HAYNAL, A et al. Medicina psicossomática: abordagens psicossociais. 2ª ed. Medsi, 2001;

JÚNIOR, José Rocha et al. O sistema digestório e as emoções. Cadernos de Graduação - Ciências Biológicas e da Saúde. Maceió, v.1, n. 2, p. 97-110. Maio 2013;

KUMAR,Vinay et al. Robbins & Cotran, bases patológicas das doenças. 8ª ed, cap. 17, p. 771-839. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010;

MARSOLLA, Paula. Estresse e lesões gástricas. Dezembro 2009. Em www.webartigos.com. Acesso em Outubro 2015;

MORENO, Maria Teresa; ARAÚJO, Ceres. Emoções de raiva associadas à gastrite e esofagite. Psicologia da Saúde, 13(1), p. 30-87, Janeiro - Junho 2005;

RIO, Rodrigo Pires do. O fascínio do stress. Belo Horizonte: Del Rey, 1995;

SCALON, Daniela; FERNANDES, Walkyria. Abordagem osteopática na gastrite. Revista eletrônica Inspirar, v. 2,n. 2, Maio 2011;

SELYE, Hans. Stress: a tensão da vida. 2ª ed. Tradução de Frederico Branco. São Paulo: IBRASA, 1965;

SILVA, Juliana Fernandes da Costa. Estresse ocupacional e suas principais causas e consequências. Dissertação (Especialização em Gestão Empresarial) - Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro - RJ, 2010;

VALLE, JD. Doença ulcerosa péptica e distúrbios relacionados. In: LONGO, Dan; FAUCI, Anthony. Gastrenterologia e Hepatologia de Harrison. cap. 14, p. 99-121, São Paulo: AMGH, 2015.

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