Os Sintomas Psicossomáticos no Dependente Químico

Os Sintomas Psicossomáticos no Dependente Químico
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Resumo: O presente trabalho pretende mostrar como o uso de substância química apresenta sinais e sintomas psicossomáticos nas diferentes fases da dependência. Através de uma experiência de um caso clínico apresentado por um usuário de crack, atendido em clínica de recuperação, pode-se identificar que existem influência e relação direta dos efeitos e consequências da droga e sintomas psicossomáticos que atingem a mente e o corpo do dependente, tanto no período que antecede na fase da fissura onde o desejo compulsivo pela droga é excessivo, durante o uso, e após na síndrome de abstinência. Portanto, a importância de se fazer um diagnóstico complexo dos sintomas psicossomáticos relacionados à dependência química, no aspecto biopsicossocial e espiritual para que o dependente químico seja tratado conforme a sua personalidade e características de comportamento e ao mesmo tempo de forma integral: corpo, alma e espírito, e no seu psiquismo como um todo, resgatando o seu potencial se tornando responsável pelas suas escolhas e consequências que podem ocorrer após o uso de SPA – substâncias psicoativas, através da percepção de sinais que antecedem as recaídas, podendo evitar com mudanças de atitudes e hábitos, aprendendo a ter mais consciência de si e obter melhor qualidade de vida.

Palavras-chave: Sintomas Psicossomáticos, Crack, Dependência Química, Psicossomática.

1. Introdução

Na atualidade, o alto índice de consumo de diversas substâncias psicoativas tem sido alvo de muita preocupação por parte da saúde pública e da sociedade em geral. No caso do crack, em particular, com seu poder de causar dependência cada vez mais rápida, forte e intensa, tem conseguido atingir pessoas de todas as camadas sociais, econômicas e culturais, trazendo consequências que vão desde alterações comportamentais por parte do dependente, conflitos nos relacionamentos familiares, até prejuízos sociais, financeiros, de saúde e segurança pública. Por isso, tem-se estimulado a realização de estudos que buscam um aprofundamento das causas e efeitos das drogas no organismo e de um tratamento adequado para cada caso específico.

2. Dependência Química

Como relata Gurfinkel (1996), “a dependência do toxicômano, atinge uma intensidade limite que implica em uma nova qualidade, a escravidão ante o objeto que se torna objeto exclusivo de um prazer necessário”.

O dependente químico tem como características de personalidade e comportamento: baixa autoestima, rejeição, abandono, carência afetiva, insegurança, medo, raiva, tristeza, culpa, arrependimento, vergonha, ambivalência (ama e odeia ao mesmo tempo), egoísmo, mentira, chantagem emocional, oscilação do estado de humor, impulsividade, imaturidade, agressividade, baixa tolerância à frustração, transtornos de conduta, e dentre outras que comprometem até o caráter do dependente. Estes comportamentos são mencionados pelo próprio dependente, através de informações e relatos colhidos durante anamnese, assim como, no decorrer do tratamento.

Tais atitudes podem levar ao usuário cometer desde pequenos delitos, até crimes mais graves, tais como: furtos, assaltos, tráfico de drogas, prostituição e até mesmo homicídio para obter a droga e sustentar o próprio vício, principalmente no caso do crack, no período mais crítico de sua dependência. Com isto, o dependente é tratado com discriminação e preconceito, prejudicando ainda mais a sua imagem na sociedade e interferindo de forma negativa no decorrer do tratamento.

A síndrome de Dependência, segundo a Classificação Internacional de Doenças, Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (Organização Mundial da Saúde, 1992) é descrita por um conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, no qual o uso de uma substância – ou uma classe de substâncias – alcança uma prioridade maior para um determinado indivíduo que outros comportamentos que antes tinham valor (FIGLIE, 2004).

Dentro do contexto social é preciso entender o dependente como sendo um ser  exclusivo em suas particularidades, como indivíduo inserido em um sistema onde é vítima e ao mesmo tempo agressor, sendo muitas vezes cobrado e julgado injustamente pela sociedade. Deve-se observar o que está por trás da sua história de vida e as necessidades individuais, para que ele tenha um tratamento adequado nas diferentes fases da sua dependência, seja no uso esporádico, frequente, abusivo, fissura, abstinência ou recaídas.

Constata-se que a psicossomática tem uma grande contribuição para com a dependência química, pois possibilita o dependente a estar mais consciente de sua doença e a observar o que acontece no seu organismo, se tornando responsável pela escolha que faz. Através do autoconhecimento, que é um processo de descobertas para despertar o potencial que habita em cada dependente, pode-se levá-los a uma fonte de aprendizagem para buscar respostas e modificar a própria história, e dessa forma, a doença pode ser encarada como um desafio a ser enfrentado para atingir o equilíbrio entre mente e corpo.

Durante o atendimento psicológico realizado em dependentes químicos, através de observações e relatos sobre as fases da dependência, o paciente descreve a presença de sintomas psicossomáticos que ficam evidentes, principalmente na fase de fissura. A fissura pode ocorrer antes de usar substâncias psicoativas e também durante a fase de abstinência no período de tratamento.

Portanto, houve interesse em pesquisar sobre a relação da psicossomática com a dependência química, assim como, de que forma o dependente pode identificar os sinais de alerta preliminares que antecedem a recaída e indicar um caminho através da percepção antecipada, para evitar as recaídas e como isto poderá ajudá-lo a permanecer em abstinência num período mais prolongado de seu tratamento.

3. Psicossomática

Psicossomática é uma abordagem que estuda a integração entre mente e corpo. Todo o ser humano é psicossomático, pois a cada sentimento ou emoção, o corpo reage com hormônios e sinapses feitas através de neurotransmissores. O Transtorno Psicossomático é um conjunto de sintomas estabelecidos na relação mente - corpo, alterando o estado emocional, refletindo em patologia somática que pode levar ao adoecimento físico, psíquico e espiritual. O sintoma pode se manifestar no corpo ou na mente, mostrando que há um desequilíbrio.

O dependente químico apresenta sinais e sintomas psíquicos e físicos tanto no período de uso abusivo e prolongado da substância química, como na fase da fissura e de abstinência, que podem levar ao desequilíbrio psicossomático e o mau funcionamento do organismo como um todo. Portanto, é de extrema importância um estudo minucioso na relação dos sintomas psicossomáticos com a dependência química, assim como, um tratamento de acordo com as necessidades individuais de cada dependente nas diferentes fases da dependência.

De acordo com Mello Filho (2010): “Psicossomática, é uma ideologia sobre a saúde, o adoecer e sobre as práticas de saúde, é um campo de pesquisas sobre estes fatos e, ao mesmo tempo, uma prática de uma medicina integral”.

Descrevo um pouco mais sobre a relação direta entre psicossomática e dependência química, como as emoções interferem no corpo desencadeando sensações, assim como, sintomas físicos e psíquicos em decorrência do uso de substâncias psicoativas.

4. Psicossomática e Dependência Química

Tanto a psicossomática quanto a dependência química estão diretamente relacionadas entre si, num espaço temporal causa e efeito com vários acontecimentos; dependendo do fato e do tempo que ocorreu uma situação traumática na vida, trazendo consequências a curto, médio e longo prazo para a saúde. Na visão psicanalítica, a psicossomática reflete na expressão do sofrimento físico em decorrência dos sintomas psicopatológicos e a importância de identificar na história do dependente químico a causa deste sofrimento.

A dependência química é uma doença complexa que tem como causa vários fatores: predisposição genética e hereditária, convívio social, perdas financeiras, morte na família, abandono e rejeição por parte dos pais, abuso sexual na infância, desestruturação familiar, conflitos nos relacionamentos, divórcio, desemprego, estresse, crises vitais, ociosidade, deixar de praticar esportes e de ter um estilo de vida saudável. Estes e outros fatores contribuem de forma direta ou indireta, levam o indivíduo a buscar uma fuga da situação em que se encontra através da droga, como uma forma de anestesiar e amenizar a dor emocional ou para preencher um vazio espiritual, pois pode se sentir afastado de seu relacionamento com a divindade e distanciado da realidade em que vive na família e trabalho.

Não existem doenças orgânicas ou doenças psíquicas, pois corpo e alma adoecem simultaneamente. A expressão psicossomática remete não a um estado, mas a uma essência, a do ser humano (GRODDECK, S.D.).

A dependência inicia-se no processo mental, através de alterações dos estados emocionais e afetivos, com autoestima baixa e desinteresse por si mesmo, falta de cuidados pessoais, depressão, estresse, ansiedade, insônia, traumas de infância, abusos sexuais e violência física. Desta forma, o dependente abandona-se cada vez mais, como uma forma lenta e progressiva de aniquilar com a sua própria existência, como se fosse uma morte em doses “homeopáticas”. Não têm mais prazer em viver, não suporta mais tanta frustração, podendo muitas vezes levar à tentativa de suicídio, desenvolver uma doença psicótica e em último estágio, chegar a ter uma parada cardiorrespiratória, overdose, entrar em coma e até vir a óbito.

Observa-se através da queixa do dependente químico o que está por trás da dependência das drogas, relatos de sofrimento psíquico e físico relacionados ao passado e registrados no inconsciente, tais como: traumas físicos e psicológicos, apegos e perdas, sentimento de culpa, rejeição, ressentimentos, medos, dúvidas e incertezas com relação ao futuro. Isso, traz de certa forma, angústia, ansiedade, depressão e frustração de desejos não cumpridos, levando a somatizar alguns sintomas e uma necessidade de buscar compulsivamente a droga como forma de aliviar a sua dor emocional, que tem como consequência os sintomas físicos do seu uso abusivo.

No início da dependência alguns sintomas psíquicos podem contribuir com o uso de droga, tais como: ansiedade, angústia e stress; levando a ter um comportamento compulsivo após o período prolongado da droga. Vindo acompanhado posteriormente de uma depressão por não ter as suas expectativas preenchidas, ou se sente frustrado de acordo com os valores pré-estabelecidos pelos mesmos e como consequência vem os sentimentos de arrependimento, culpa e vergonha diante de si, da família e sociedade.

Tudo isto também pode estar relacionado com o fato de se calar diante de uma dor emocional ou de um trauma inconsciente não identificado do passado, podendo ser a causa inicial de seus conflitos, e não ter sido tratado de forma terapêutica adequada quando os primeiros sinais apareceram. Com isso, os sintomas podem agravar-se e o indivíduo reprime cada vez mais os seus sentimentos e num determinado momento precisa uma “válvula de escape” como fuga para amenizar tanto sofrimento.

É onde a droga entra como um objeto da busca pelo prazer e satisfação, um anestésico para dar alívio imediato que duram apenas alguns segundos, que após o uso intenso e prolongado da substância vem acompanhado de um período de desprazer com sintomas de depressão, que poderá trazer sequelas físicas e psíquicas. Portanto, aparecem os sintomas psicossomáticos no período de uso abusivo e compulsivo das substâncias psicoativas, onde ocorrem alterações do humor, delírios visuais e auditivos, alucinações, ideias suicidas, paranoia e fobias. Sendo estes sintomas variáveis de acordo com o período, quantidade e tipo de droga utilizada e com a personalidade de cada indivíduo.

5. Conclusões

Os sintomas psicossomáticos interferem diretamente na dependência química nas diferentes fases, principalmente na fissura. Dessa forma, as sensações físicas e psíquicas do dependente podem ajudá-lo a se conhecer melhor através da identificação de sinais de fissura para evitar as recaídas.

 O dependente químico possui características de personalidade bastante variáveis e pode-se observar que os sintomas de ansiedade o levam a ter comportamentos compulsivos que influenciam diretamente nos aspectos biológico, psicológico, social e espiritual e refletem desde a fase inicial, crítica e abusiva da dependência, como na fissura como na abstinência. Assim é observado que a dependência química é uma doença bastante complexa que apresenta sintomas psicossomáticos, pois em todas as fases de uso o dependente relata sensações psíquicas que resultam em sintomas físicos em decorrência da sua dependência.

É preciso ter sensibilidade e percepção para se descobrir o que está inconsciente por trás do universo psíquico do dependente, identificar a causa da ferida emocional, e trazer à consciência e na memória a responsabilidade pelas escolhas que fez, através de seu tratamento e recuperação. Isto serve para que o indivíduo possa, através da sua fala, enfrentar a realidade, aliviar a dor emocional que o consome e o sintomas físicos e psíquicos trazidos pelas drogas. Expressando os seus temores e angústias, evitando-se assim maiores consequências, resgatando e valorizando o potencial humano, adormecido e anestesiado pelas drogas.

É a partir do momento presente, através da verbalização dos seus conflitos vivenciados no passado, dos traumas e tragédias que a dependência gera, que haverá a possibilidade a motivação, com o indivíduo procurando se ocupar com trabalho, atividades físicas e culturais que preencham o tempo com mais aproveitamento do seu rendimento e criatividade.

O dependente químico deve ser tratado como um ser psicossomático integrado entre mente e corpo, não somente devem serem vistos os sintomas físicos e sequelas que ocorrem com o uso das drogas, e sim a busca da identificação da causa que o levou a usá-las, o seu fortalecimento psíquico para evitar situações de risco que o levam a recair, promovendo mudanças de hábitos saudáveis, eliminando atitudes e comportamentos repetitivos que reproduzem os mesmos resultados.

O tratamento e recuperação devem ser biopsicossocial e espiritual, de forma sistemática com disciplina para que se tenha êxito. O dependente tem condições plenas de ter o domínio total de seus desejos e impulsos, aprendendo a lidar e a aceitar as suas frustrações e perdas. É preciso que o dependente químico aprenda a ter força de vontade, determinação para evitar as recaídas e obter sucesso no seu tratamento, assim como, superar os traumas emocionais e enfrentar a realidade em que vive. Caminhando com esperança para um futuro cada vez melhor, com mais qualidade de vida, longe e livre das drogas, para se tornar um vencedor da sua própria existência, produtivo e vitorioso na sociedade.

Enfim, a psicossomática tem a sua importância e contribuição na dependência química para identificar a presença de sintomas nas diferentes fases da doença. Deste modo, deseja-se despertar o interesse por outros profissionais da saúde em desenvolver pesquisas científicas com este tema, que possam contribuir para que os resultados sejam satisfatórios. Beneficiando o dependente químico que tem sofrido muito em nossa sociedade, para que ele aprenda a perceber-se como ser integral, mente corpo e alma, tendo mais consciência e responsabilidade pelas escolhas que faz, e assumindo mais as consequências dentro da realidade.

“Não há doenças psicossomáticas, todas as doenças são psicossomáticas.” PERESTRELLO. (Mello Filho)

Sobre a Autora:

Ana Célia Almeida - Psicóloga, especialista em Psicologia da Saúde - UniFil, e Aconselhamento Hospitalar - ISBL, atualmente trabalha como Psicóloga na Comunidade Terapêutica MEPROVI no tratamento de dependentes químicos, desde 2009. 

Referências:

FIGLIE, Neliana Buzi e col. Dinâmicas de grupo aplicadas no tratamento da dependência química. São Paulo: Roca, 2004. 298p.

GURFINKEL, Décio. A pulsão e o seu objeto-droga - estudo psicanalítico sobre a toxicomania. Petrópolis: Vozes, 1996. 294p.

MELLO FILHO, Júlio de; e Cols. Psicossomática hoje. Porto Alegre: Artemed, 1992. 616p.

VOLICH, Rubens Marcelo. Psicossomática. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000. 203p.

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