A Análise dos Sonhos e o Conhecimento da Natureza Humana

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Desde a publicação de “A interpretação dos sonhos” de Sigmund Freud, em 1900, a compreensão sobre a natureza humana ganhou novos significados. Ao incluir o conceito de Inconsciente no paradigma científico, o médico austríaco abriu as portas para a desconstrução de mitos e formalidades que ainda persistiam na sociedade de seu tempo. Seguindo um princípio determinista, típico da ciência forjada em fins do século XIX, Freud colocou o Inconsciente no centro das ações humanas, sendo tal componente o responsável pela configuração mesma do ser, influenciando todo o seu psiquismo e suas ações no mundo. Nesse contexto, os sonhos tomam papel primordial para o conhecimento do verdadeiro homem, de sua natureza profunda, que molda toda sua realidade exterior.

O que até então era apenas objeto de especulação ou de interpretações alegóricas ou místicas, de cunho popular, passa a fazer parte do rol de estudos de base objetiva. Segundo Freud,

“Os sonhos nunca dizem respeito a trivialidades: não permitimos que nosso sono seja perturbado por tolices. Os sonhos aparentemente inocentes revelam ser justamente o inverso quando nos damos ao trabalho de analisá-los” (FREUD, 1996, p. 213).

Como bem afirma FROMM, Freud “reconheceu, pela primeira vez, o sintoma neurótico como algo determinado por forças dentro de nós mesmos, como algo que faz sentido quando se possui a chave para entendê-lo” (FROMM, 1973, P. 45).

Ainda que marcada por uma forte sexualização em sua interpretação e restrita à ideia de que os sonhos sempre são realizações de desejos, a teoria freudiana serviu de base para desenvolvimento de novos caminhos para se chegar ao Inconsciente a partir do reconhecimento das imagens geradas nos períodos de sono.

Um desses novos caminhos interpretativos foi proposto por Carl Gustav Jung, cujos seminários sobre interpretação de sonhos realizados em língua inglesa no período entre 1928 e 1930 chegam agora ao Brasil pela Editora Vozes (Seminários sobre análises de sonhos: notas do seminário dado em 1928-1930 por C.G. Jung. Organização de William McGuire. Tradução de Caio Liudvik. Petrópolis, Vozes, 2014). Durante muitos anos, esse material ficou restrito a um pequeno e seleto grupo e só tinham acesso a ele aqueles analistas que tivessem aprovação das instituições que os mantinham. Graças ao trabalho de organização desenvolvido inicialmente por R.F.C. Hull e complementado por William McGuire, os apreciadores da obra de Jung, estudantes e profissionais de psicologia e psicanálise têm em mãos um material riquíssimo em conteúdo para aprofundamento numa das áreas mais controversas da psicologia.  

Como ser objetivo com algo tão subjetivo? Nesse contexto, JUNG aponta um sinal: “O sonho é uma tentativa de assimilar coisas ainda não digeridas. É uma tentativa de cura” (JUNG, p. 43). E ao longo dos seminários, ele apresenta um conjunto de sonhos de seus pacientes e os coloca em discussão com o grupo de estudos. A cada página ele vai descortinando possibilidades, abrindo caminhos de interpretação, partindo de referenciais do próprio sonhador, bem como estabelecendo ligações com temas universais (um sonho com um touro, por exemplo, leva Jung a fazer uma digressão sobre a relação com Mitra e a elaboração da vida social).

Um detalhe interessante desta obra é a manutenção de certo tom mais trivial do discurso. As transcrições feitas mantiveram a fluência da palavra do médico suíço, o que nos permite acompanhar o raciocínio e, ao mesmo tempo, sentir como as ideias iam sendo construídas na medida em que apresentadas pelo autor. Também são mantidos os diálogos e intervenções dos participantes. Há momentos em que é possível perceber a sutileza do humor de Jung ao abordar algumas questões. Em outros, flui um conjunto de citações históricas e conhecimentos de culturas diversas que embasaram e deram sustentação a muito do que Jung desenvolveu em suas teorias. É como se estivéssemos frente a frente com ele, sentindo também nosso Inconsciente mobilizado pelo conjunto sistêmico de seu raciocínio.

Como citado anteriormente, há traços referenciados à teoria freudiana, mas Jung já aponta novos rumos em seu trabalho, desconstruindo a abordagem de seu iniciador na Psicanálise. Enquanto Freud postulava que nos sonhos certas imagens oníricas seriam expressões disfarçadas de algum sentimento (ao invés do paciente sonhar com o próprio médico, no sonho apareceria outra pessoa para representá-lo, como um mecanismo de disfarce, um ocultamento que precisaria ser desvendado), Jung já busca uma concretude maior em seu objeto de estudo:

“Afirmo que o inconsciente diz o que quer dizer. A natureza nunca é diplomática. Se a natureza produz uma árvore, é porque quis fazer uma árvore, não se enganou querendo fazer um cachorro. E assim o inconsciente não busca disfarces, nós é que o fazemos” (JUNG, p. 51).

Ele extrapola o conceito de sexualidade e apresenta uma abordagem que vai do simbólico ao histórico, objetivando a construção de uma nova imagem do sujeito, que se vê frente a frente com sua realidade interior querendo ser conhecida.

Jung apresenta nesses seminários praticamente todos os temas com que trabalhou ao longo de sua trajetória na construção da Psicologia Analítica: anima, animus, inconsciente coletivo, sombra, entre outros. É num destes seminários que ele apresenta pela primeira vez o conceito de Sincronicidade, que somente em 1930 viria a ser desenvolvido formalmente em livro.

Os “Seminários sobre análise de sonhos” vêm enriquecer sobremaneira a literatura de psicologia disponível em língua portuguesa, acrescentando valiosas informações à tão vasta obra de Carl Jung e abrem um leque de opções para o estudo sistemático deste componente tão essencial em nossas vidas, o sonho, e que tantas vezes tratamos como uma coisa engraçada ou sem sentido.

Para além desta compreensão, os seminários mergulham a fundo na dinâmica do Inconsciente e sua profusão de imagens que revelam seus significados na medida em que compreendemos sua dinâmica, seu movimento, sua historicidade:

“São pequenos dramas, cada um com seu preâmbulo, situação dramática, catástrofe e solução, embora de certa forma estáticos. Porém, se analisarmos uma série de sonhos, descobriremos que há um movimento, um movimento circular, ou melhor, uma espiral. E ainda, isto nos dá uma maior sensação de certeza e segurança em saber que uma suposição equivocada poderá ser corrigida ou verificada nos sonhos seguintes; e conseguimos ter uma muito melhor impressão da análise de sonhos quando podemos seguir uma série de sonhos da mesma pessoa” (JUNG, p. 293).

Provocador e perturbador de nossas consciências com seus conceitos que foram tidos por muitos como mais místicos do que científicos, Jung é uma referência fundamental para quem deseja se aprofundar no conhecimento da mente humana e trabalhar no sentido de levar o homem a sua individuação, fazendo a integração completa de todo o seu ser.

Sobre o Autor:

Camilo de Lélis Mendonça Mota - psicanalista, terapeuta holístico e membro da Associação Brasileira de Psicanálise Transpessoal.

Referências:

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos I. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standart brasileira. Volume IV. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

FROMM, Erich. A linguagem esquecida: uma introdução ao entendimento dos sonhos, contos de fadas e mitos. 4ª edição. Tradução de Octavio Alves Velho. Rio de Janeiro, Zahar, 1973.

JUNG, Carl G. Seminários sobre análises de sonhos: notas do seminário dado em 1928-1930 por C.G. Jung. Organização de William McGuire. Tradução de Caio Liudvik. Petrópolis, Vozes, 2014.

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