A Biogênese da Maldade Humana

A Biogênese da Maldade Humana
(Tempo de leitura: 3 - 6 minutos)

Resumo: Esse estudo enfatiza as implicações e influências da sociedade ao homem, levando em consideração influências psicológicas, o presente trabalho abordará a questão da maldade e da violência humana. Tendo como análise e suporte o livro O Senhor das Moscas de Willian Golding, que revela os lados mais obscuros da humanidade.

Thomas Hobbes: O Homem é o Lobo do Próprio Homem

Ao longo de vários anos, filósofos procuraram respostas sobre a origem da violência e da maldade humana, Thomas Hobbes caracterizou a natureza humana como egoísta e dominadora. Para ele, quando deixado livremente, guiando-se por seus próprios impulsos, o homem converte-se no lobo do próprio homem. Daí que, para Hobbes, não foi outro o propósito de criação do Estado Civil senão o de regrar e limitar a natureza bélica dos homens, permitindo assim a vida conjunta.

[...] o estado natural do homem é a guerra uma vez que não existe um governo que estabeleça ordem. Nesse sentido, sendo todos os homens iguais em seu egoísmo, a ação de um só encontra limite pela força do outro - o homem é o lobo do próprio homem e é por isso que abrimos mão de parte de nossas liberdades para que possamos ter um governo que nos ajude sobreviver a nós mesmos (O Leviatã, Hobbes Thomas 1587-1666).

No romance O Senhor das Moscas de Willian Golding, a queda de um avião lotado de crianças, cai em uma ilha do pacífico. Os jovens sobrevivem e abordam primeiras impressões de liberdade, e após um medo do desconhecido. Aos poucos, formam um grupo, imitando uma frágil sociedade “democrática”. Eles delegam um líder. Longe de convenções sociais, inicia-se uma busca por sobrevivência, procurando não se esquecer que são “britânicos civilizados”.

Por serem crianças e estarem sem a presença de um adulto, imagina-se que essa sobrevivência seria uma aventura, cheia de caçadas, banhos de mar “liberdade”. Mas não é o que ocorre. Após elegerem um líder, eles delegam funções, tendo como mais importante manter uma fogueira acessa para sinalizar um resgate, mas logo seus instintos começam a aflorar e as funções que antes eram prioridade passam a ficar em segundo plano.

Inicia-se uma disputa de poder, entre a democracia de serem civilizados, e os instintos da natureza humana.

Se revertido a uma forma primitiva de vida - deixando a civilização – existe uma regressão ao estado de selvageria ou estamos diante da verdadeira natureza humana?

“A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.” (FREUD, 1926).

Freud adota um enfoque segundo o qual os bons modos do homem civilizado estariam fragilmente apoiados em uma base de instintos fora de controle.

Na obra “O Mal Estar da Civilização” (FREUD, 2011) o tema principal é o embate das relações sociais versus pulsões individuais. Segundo Freud, para manter-se em um nível adequado ao convívio social o indivíduo deve submeter-se a uma série de regulamentos artificiais impostos pelo Estado, reprimindo boa parte dos seus instintos naturais. Tal repressão só é possível através do medo gerado pelos tabus presentes nas sociedades desde a pré-história e transmitidos atualmente através das religiões.

No livro O Senhor das Moscas, as crianças retomam um estado primitivo demonstrando selvageria, como caçar e matar uns aos outros por “proteção” de um grupo.

Com base em determinados pensadores como Freud e Hobbes, pode ser feito a associação desse fato, de que a partir do instante que perdemos o contato com as regras sociais, como a moralidade, regredimos ao nosso estado original e primitivo, tendo como propulsor os instintos e desejos, que são recalcados por uma democracia e socialização.

 Por ser a natureza humana má e egoísta é que surge a sociedade. A necessidade de organizar em civilização é, em primeiro lugar, a necessidade de manter a espécie. Este modo de pensar a sociedade logo remete o:

“Tudo o que o homem construiu – as artes, as ciências, suas instituições e a própria civilização – num contexto mais amplo, não passa de sublimações dos seus impulsos sexuais e agressivos. Neste sentido, pode-se afirmar que, sem as defesas é impossível a civilização, e que uma sociedade livre e sem necessidade de controle está fora de cogitação.” (GUSMÃO, 1998, p. 2).

Freud dizia que a tendência a destruir e a praticar o mal tem suas raízes na própria natureza da mente humana e que todos nós, sem exceção, carregamos um componente que incita à maldade. Os pensadores que vieram depois reforçaram essas descobertas, ao concluir que o mal está no caráter, na personalidade. Ou seja, ele repousa dentro das pessoas - e pode vir à tona ou não.

Ainda assim, a fragilidade desse sistema fica diariamente evidente nos atos de violência que permeiam qualquer sociedade. Embora comumente as pessoas tratem a violência e a maldade como fatores externos de ordem política, social ou mesmo cultural ao qual o homem estaria submetido, talvez seja uma atitude mais saudável reconhecer que tais características são intrínsecas à nossa natureza.

Sobre o Autor:

Daiane Regina Pinto - Discente do curso de Psicologia da Universidade Paranaense – UNIPAR. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

Golding, W. O Senhor das Moscas. RJ. Nova Fronteira. 1954. 248 p.

Hobbes, T. Leviatã. SP. Martin Claret. 2007. 519 p.

Teorias e Argumentos. Análise de filme sobre a justificação do estado: O Senhor das Moscas. Disponível em: < http://lrsr1.blogspot.com.br/2011/02/analise-de-filme-sobre-o-problema-da.html > Acesso em: 29 de julho de 2014.

Zaltzman, N. A psicanálise tem meios para refletir sobre o mal: Estudo feito em torno do livro "O espírito do mal". Reverso vol.33 no.61 Belo Horizonte jun. 2011. Disponível em: < http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0102-73952011000100006&script=sci_arttext > Acesso em: 27 de julho de 2014.

Beier, R. O Senhor das Moscas e o mal inato do ser humano. Hum Historiador. Disponível em : < http://umhistoriador.wordpress.com/2012/06/06/o-senhor-das-moscas-e-o-mal-inato-do-ser-humano/ > Acesso em: 12 de julho de 2014.

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