A Felicidade Conjugal - Liev Tolstói

A Felicidade Conjugal - Liev Tolstói
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A Felicidade Conjugal, Editora 34 - 2009 - foi o primeiro grande romance publicado por Tolstói em 1859. Com ternura e minuciosas descrições das estações, da primavera quando a onda da paixão começa a se desenrolar entre sua personagem principal, Macha, ainda jovem, com um senhor mais maduro, Sierguiéi, surpreende por sua atualidade. Este lindo romance desfila pelos primeiros arroubos da paixão. As horas parecem não passar quando seu amor está longe. A longa espera, que pode parecer longa, mas às vezes nem é. Sua ausência parece ser insuportável. "Por que tens que viajar tanto? " questiona a jovem apaixonada. Não daria para ficar o tempo todo ao meu lado? Pensa o apaixonado.

Os teóricos da paixão e do amor, em sua maioria, advogam que a paixão dura entre dois a dois anos e meio, no máximo, porque a adrenalina, a sensação de letargia, de enlevamento, de vontade de não fazer nada, de delírio, como se estivesse sempre sob a ação de uma droga dopadora, que ao mesmo tempo lhe tira do ar e lhe dá a sensação que pode conquistar o mundo ao lado do amado, torna os apaixonados improdutivos, a ponto de sofrer um colapso nervoso, desorganizando todo sistema do ser humano.

Assim permanecia nossa Mária. Ah, os arroubos da paixão. Sentimo-nos como se estivéssemos nas nuvens. Tornamo-nos bobos ao pensamento do amado. O que queremos fazer e aprender é para lhe  agradar e ter sua total e individida admiração. Assim age a personagem de Tolstói. Inocente, submissa, infantilmente alegre, cresce aos olhos do seu amado. Aprende piano, começa a rezar, jejuar, ajudar ao próximo, a sua alegria torna-se tão contagiosa que ela não pode conceber um mundo com pessoas tristes. "é tão bom viver no mundo!" suspira Mária, a querida Macha de Sierguiéi. Poderia haver maior felicidade do que  a que estou sentindo? indaga-se Mária. Gosto de tudo tão simples, o mundo pacato com meu amado me basta.

Ah, o desejo, o desejo, este enganador e vil sentimento. Enganador, porque ele nos promete algo sempre distante, e quando pensamos que o alcançamos, ele se afasta para um pouco mais longe. Parece uma linha de pescador. Dá um pouco de linha para o peixe iscado, e quando o peixe pensa que está livre ele o captura e o mata. Assim somos nós, os seres humanos, eternos desejantes, querentes e carentes...Sempre querendo mais.

Tolstói descreve todos os passos dos sentimentos humanos de encontro ao outro. Primeiro sentimos a paixão, aquele sentimento incontrolável que nos tira do ar, da terra e nos faz levitar à vontade e desejo de estar com quem amamos.  "... mas ele dava-me felicidade e elevava-me muito acima do mundo  inteiro"(p.64) afirmava a apaixonada Mária. Depois, conseguimos satisfazer nosso desejo: O casamento, não queremos mais ninguém ao nosso lado. Nosso amado nos basta...O objeto do nosso desejo encontra-se ao nosso alcance. Mas o vil enganador se instala e pede mais. Mária já não se satisfazia com o gorjeio dos campos, com seu amado chegando ao fim da tarde para lhe ouvir tocar piano. Gente começava a lhe  fazer falta. Queria movimento, desejava algo que nem sabia o que era. "...embora ele estivesse comigo, comecei a sentir-me solitária, comecei a sentir que a vida se repetia, e não havia quer em mim quer nele nada de novo, e que, pelo contrário, nós como que voltávamos ao antigo. (...) Amar era pouco para mim, depois que eu experimentara a felicidade de apaixonar-me por ele. (p.70) . Tolstói consegue expressar exatamente a insatisfação do ser humano. A paixão é transitória, ela pode se acabar completamente e os dois se separarem, ou pode se transformar em amor, mas de uma forma diferente, mais acomodada, talvez, mais serena, mais tranquila.

Mudaram-se para a cidade grande, e...quando menos se esperava, ela sentia falta do cortejo, do desejo, de ser admirada e desejada por outrem que não o seu Sierguéi. Contudo, ela consegue elaborar seu sentimento e a i mpede de cometer adultério. Ela compreende, afinal que pode ser feliz e amar seu marido, não como antigamente, mas de uma forma diversa.

Em um diálogo sincero entre os dois, eles compreendem, que o que viveram no início não voltaria, faz parte de um cenário idílico, de início de apaixonamento, conhecimento entre duas pessoas. Contudo, podem construir algo mais sereno e cultivar a felicidade a partir de sua conscientização de que não podemos constantemente ser movidos a emoções transitórias, mas a escolhas inteligentes e sensatas, para viver a felicidade, não como a idealizamos, mas como ela se apresenta e a construímos um com o outro.

Assim, numa tarde de primavera, Mária entendeu que aqueles primeiros tempos não voltariam, e tenta se convencer de que talvez, talvez...nem fossem tão felizes assim como ela imaginara.

"A partir desse dia, terminou o meu romance com meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa, e que ainda não acabei de viver...." p. 114.

Que bom seria, que neste mundo  líquido, de relações líquidas, quando tanto homens como mulheres correm para o próximo relacionamento, de paixão em paixão, procurando algo que satisfaça seu desejo, sem o encontrar, claro, pudessem construir seu amor, com a paixão de sua mocidade, com quem se comprometeram diante do altar e pudessem reconstruir seu amor a partir de decisões que trouxessem a verdadeira felicidade para si e para o outro a quem jurou amar até que a morte os separasse.

Tolstói, no século XIX conseguiu retratar o relacionamento a dois, com precisão, ternura e beleza.

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