Análise crítica do filme: “O buraco”

(Tempo de leitura: 3 - 6 minutos)

O filme “O buraco” mostra uma garota que possui o transtorno psicológico da obsessão. Segundo o DSM-IV, as obsessões, são definidas por:

  1. Pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes que, em algum momento durante a perturbação, são experimentados como intrusivos e inadequados e causam acentuada ansiedade ou sofrimento.
  2. Os pensamentos, impulsos ou imagens não são meras preocupações excessivas com problemas da vida real.
  3. A pessoa tenta ignorar ou suprimir tais pensamentos, impulsos ou imagens, ou neutralizá-los com algum outro pensamento ou ação.

No inicio do filme não é muito claro qual dos personagens possui obsessão, pois é difícil identificar o individuo obsessivo. Liz, a personagem que se mostra interessada em um de seus colegas do colégio, filho de um cantor de rock muito famoso, começa a agir de forma não maleável para conquistar a atenção dele.

De inicio ela o observa enquanto joga futebol, depois pinta os cabelos de loiro, - porque acha que ele sente atração por mulheres loiras - mas depois ela tem uma ideia, (que só no final do filme foi apresentado), de entrar no buraco junto com mais três colegas, Geoff, Frankie e Mike Steel, onde somente poderiam sair de lá quando ela estivesse conquistado de vez Mike Steel, seu grande amor. Entretanto seus colegas não sabiam disso, apenas achavam que iam ficar presos durante três dias fazendo uma festinha íntima. Porém, não foi o que aconteceu.

Entretanto, eles não saíram mais e ela estava o tempo todo com a chave. Seu amigo de confiança nunca voltou para busca-los, pois ela era a autora principal da ideia. Todavia, muitas coisas foram acontecendo aos poucos, a comida e a bebida foram acabando, não tinham como tomar banho, sua amiga adoeceu cronicamente, mas ela não fazia absolutamente nada para salvá-los, pois o seu objetivo era fazer com que Mike se apaixonasse por ela da mesma forma, nem que pra isso colocassem sua vida e de outros em risco. Logo mais tarde, sua amiga faleceu e o Geoff foi morto por Mike, por causa de uma latinha de coca, mesmo assim ela não desistia.

No final, só ela se salvou com vida. Acusou seu Martin como culpado desse episódio apavorante. Porém o que queremos discutir aqui é a postura da Psicóloga no filme enquanto os policiais investigavam o caso.

Uma Psicóloga criminal é convocada pela Policia para ir à procura da verdade, pois Liz está muita abatida e psicologicamente doente, demonstrando traumas severos. Aos poucos esta psicóloga vai entrevistando Liz e transmitindo os resultados a Policia, que fica impaciente com a demora do fim do caso.

A Psicóloga leva Liz para casa, tirando ela do hospital psiquiátrico, mas continua lhe visitando e acompanhando toda sua rotina com gravações. Enquanto isso a policia recolhe o depoimento de Martin, que é o principal suspeito do ocorrido, acusado principalmente por Liz. Como nada é confirmado, logo ele é solto e ela se demostra preocupada e apavorada com a situação.

Ele logo a procura em sua residência, pedindo explicações de sua acusação, já que Liz tem certeza que ele não é culpado. Chorando muito na grade da Represa da cidade, porque não sabia como escapar das acusações, ele é empurrado por Liz, que fica com medo de todas as pessoas descobrirem a verdadeira história e, mais uma vez, ela é a culpada.

Mais tarde, a Psicóloga vai visitar Liz. Passando pela cozinha, ela vê um pote de gesso quebrado no chão e logo se preocupa. Quando entra no quarto de Liz, ela a vê deitada, como se tivesse acabado de ter uma crise de delírios e assim começam a conversar.

Ela diz à psicóloga que quer voltar ao buraco para lembrar-se de toda a história. A Psicóloga insiste para não irem até lá, mas Liz se desespera desejando voltar ao local, afirmando precisar disso para lembrar-se da verdade, que na realidade não tinha esquecido. Ao chegar ao buraco, Liz comenta a aparência deste, achando-o diferente. Logo depois começa a narrar tudo o que aconteceu ali durante os dezoito dias.

No fim da conversa, ela confessa ser a autora de tudo, da ideia do buraco, explicando sua atitude através do amor que sentia por Mike, seu colega. Neste momento a Psicóloga lhe ouve em silêncio e surpresa.

O policial chega e diz que encontraram Martin morto como se tivesse cometido suicídio, confirmando sua autoria no crime, pois estava com a chave dentro do bolso. A psicóloga, que tinha acabado de ouvir a verdade, não se manifestou, mas logo percebeu que ela o matou e que tudo isso era recorrente a obsessão de Liz. Encerrando o filme e transmitindo ao telespectador que a Liz, personagem principal, na verdade, era doente psicologicamente e perigosa.

Mas o que podemos observar em tudo isso? Será que a Psicóloga deveria contar aos policiais a verdade? Ou deve calar-se, e manter segredo, já que Liz confia muito nela e lhe transmiti medo?  Afinal tudo se resolveu e ninguém jamais descobrirá a verdade, pois só Liz e ela são as pessoas que sabe da verdadeira história.

Por um lado apresentando-lhes o Código de Ética do Psicólogo, das responsabilidades do psicólogo no Art. 1°f diz “Fornecer, a quem de direito, na prestação de serviços psicológicos, informações concernentes ao trabalho a ser realizado e ao seu objetivo principal.” Ou seja, em relação ao filme, é dever da Psicóloga anunciar suas novas informações (ultima conversa com Liz) para a policia, já que ela, além de tudo, lhe contratou para ajudar na busca pela verdade e esta lhe deve uma satisfação.

Por outro lado nos Art. 9°, 10°, 11° diz, respectivamente: “É dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de proteger, por meio de confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou organizações, a que tenha acesso no exercício profissional.” “Nas situações em que se configurem conflito entre as exigências decorrentes do disposto no Art. 9° e as afirmações dos princípios fundamentais deste Código, executando-se os casos previstos em lei, o psicólogo poderá decidir pela quebra de sigilo, baseando sua decisão na busca do menor prejuízo.” “Quando requisitado a depor em juízo, o psicólogo poderá prestar informações, considerando o previsto neste Código.”

Porém, neste caso é mais sensato que a psicóloga realize uma denuncia, levando em consideração que o Psicólogo deve zelar pelo bem estar social. Se por acaso, através das informações que ele ou ela obteve do sujeito coloquem em risco a vida de terceiros, como no caso do filme (Liz em liberdade pode assassinar outras pessoas somente para conseguir seu objeto desejado), o (a) psicólogo (a) tem toda autonomia de comunicar à justiça, para que ela, por si só, tome as providências conforme a Lei. Ou se por acaso o psicólogo concluir que seu paciente sofre de algum distúrbio psicológico (como no caso de Liz que demonstrou a presença sinais e sintomas do transtorno obsessivo e sociopatia), este tem todo o direito de encaminha-lo para um tratamento adequado, em que seja preservada a saúde do sujeito e da população.