Análise do Filme "Aos Treze"

Análise do Filme "Aos Treze"
(Tempo de leitura: 5 - 10 minutos)

A Síndrome da Adolescência Normal

O filme norte-americano Aos Treze (2003), mostra uma realidade chocante da juventude atual. Seus medos, inseguranças, alegrias, sonhos e frustrações são considerados de maneira extrema. A jovem Tracy é uma garota “normal” de treze anos, uma boa aluna e boa filha. Ao entrar no colegial ela se depara com a jovem Evie, a garota mais popular da escola, que todos invejavam por ela ser desejada pelos garotos, ter amigas populares também, andar bem arrumada, etc. A mãe de Tracy era cabeleireira e tinha um salão em casa, levavam uma vida de classe média, sem luxo, pois tinha que sustentar sozinha Tracy e seu irmão, Mason.

A garota passa a ver que é a vida de Evie que ela quer, deseja fazer parte de um grupo legal, fazer compras, sair com garotos, enfim, Tracy busca sua identidade, o que é normal nesta fase, como confirma Aberastury e Knobel (1981)

Nesta busca de identidade, o adolescente recorre às situações que se apresentam como mais favoráveis no momento. Uma delas é a da uniformidade, que proporciona segurança e estima pessoal. Ocorre aqui o processo de dupla identificação em massa, onde todos se identificam com cada um, e que explica, pelo menos em parte, o processo grupal do qual participa o adolescente [...] (p. 32)

Na busca da própria identidade, pode ocorrer a identificação com figuras que chamamos de “identidade negativa”, em que é preferível ser alguém ruim do que não ser ninguém. É melhor fazer coisas erradas e ser lembrado por isso do que fazer o certo e ninguém levar em consideração. Foi o que ocorreu com Tracy. No início do filme mostra ela recitando um poema de sua autoria para sua mãe, mas Mel ouve e não se importa muito, desapontando a menina. Tracy começa a usar maquiagem, compra roupas novas e se aproxima de Evie. Numa tarde Tracy vai à uma loja e encontra Evie com uma amiga lá e vê as duas roubando alguns objetos. No início ela acha errado e sai de lá, senta-se no banco da calçada e enquanto uma mulher ao seu lado fala no celular, ela aproveita e rouba sua carteira cheia de dinheiro e exibe para Evie e sua amiga. Elas gastam todo o dinheiro com sapatos, e então Tracy passa a fazer parte do grupo.

Tracy depois disso muda radicalmente. Abandona suas antigas amigas da escola, fuma, bebe, coloca piercing na língua. No meio disso, surge o namorado de sua mãe, um ex-dependente químico que acaba de sair da recuperação pela segunda vez, e ela não gosta nada disso. Evie não tem seus pais e mora com sua tia que não dá a mínima pra ela, então ela passa a morar na casa de Tracy, até porque Mel era muito liberal.

Nesse momento se estabelece a forte tendência grupal de Tracy, como explica Aberastury e Knobel:

Desta maneira, o fenômeno grupal adquire uma importância transcendental, já que se transfere ao grupo grande parte da dependência que anteriormente se mantinha com a estrutura familiar e com os pais especialmente. O grupo constitui assim a transição necessária no mundo externo para alcançar a individualização adulta. O grupo resulta útil para as dissociações, projeções e identificações que seguem ocorrendo no individuo, mas com características que diferem das infantis. (1981, p. 37)

Evie e Tracy começam a usar drogas e álcool. Saem com garotos e Tracy transa pela primeira vez, não porque realmente quisesse fazer aquilo, mas por imitação da amiga. Começa a descobrir sua sexualidade e oscila para a bissexualidade, numa cena em que beija Evie na boca. Essa oscilação é normal na adolescência, porque é nesta fase que o jovem vai decidir o que vai ser para o resto da vida, e para saber o que é melhor é necessário entrar em contato. Aberastury e Knobel (1981) afirmam que a homossexualidade, tão comum nesta fase, está associada ao papel ausente ou inexistente da figura paterna:

O rapaz, ao não ter uma figura masculina com quem se identificar por déficit ou ausência da figura paterna, tentará procurar essa figura toda a sua vida (busca do pênis que dá potência e masculinidade). A moça fica fixada à relação oral com a mãe e no contato pele a pele, reprimindo e negando as possibilidades de uma relação com um pênis, pela inexistência do mesmo em suas relações objetais precoces. (p. 49)

A deslocalização temporal na adolescência é algo muito comum. É a tentativa de manejar o tempo que o jovem tem, geralmente de forma inadequada. Há dificuldade em diferenciar passado, presente e futuro. Isso ocorria com Tracy, pois ela não estudava direito como antes e não apresentou um trabalho porque não sabia a data. Essa deslocalização pode ser exemplificada tanto como um jovem que fica adiando um trabalho e começa na véspera, quanto uma jovem que começa os preparativos para ir à uma festa daqui 3 meses.

Para Aberastury e Knobel:

Na realidade, este problema deve ser estudado, psicodinamicamente, desde a perspectiva que nos oferece o analisar a paulatina elaboração das partes não discriminadas da personalidade à medida que o sujeito vai amadurecendo. O individuo se inicia como ser unicelular absolutamente dependente de um meio (mãe) e se desenvolve e diferencia progressivamente. Vai da indiferenciação mais primitiva à discriminação, que, [...] se dá num meio social com características determinadas. (1981, p. 41-42)

De uma forma mais ampla, a deslocalização temporal pode ser entendida como uma elaboração de luto do adolescente por estar perdendo seu status de criança, justamente por estar prestes a entrar na fase adulta, e como forma de defesa espacializa o tempo.

Uma característica marcante da adolescência e do filme também, é a contradição nas manifestações de conduta. Tracy queria ser livre e fazer o que quisesse, mas no seu íntimo ela queria limites, o que Mel não oferecia.

A conduta do adolescente está dominada pela ação, que constitui o modo de expressão mais típico nestes momentos da vida, em que até o pensamento precisa tornar-se ação para poder ser controlado. O adolescente não pode manter uma linha de conduta rígida, permanente e absoluta, ainda que muitas vezes o pretenda ou procure. (Aberastury e Knobel, 1981, p.55)

Essa é uma das principais marcas da adolescência: contradição na conduta. É isso que faz o adolescente ser adolescente, é uma anormalidade normal. Tracy projetava e introjetava tudo o que recebia, era inconseqüente.

Outro fato marcante da adolescência, que é praticamente regra, é a separação progressiva dos pais. Quando há uma relação de confiança entre pais e filhos, isso acontece de maneira saudável, caso contrário surgem problemas. A tendência grupal também fortalece isso, porque há momentos em que o grupo é mais importante que tudo. Para os pais, isso tende a ser uma fase difícil, em que eles se dão conta de que os filhos que pareciam tão pequenos estão quase adultos. No caso do filme, Mel demorou para perceber isso, ou não quis ver, que sua filha estava se tornando uma mulher (precocemente, mas estava). Não percebia que a garota se mutilava, usava drogas dentro do quarto e bebia de noite. Para ela eram só momentos de insanidade de Tracy e não tentava compreender o que ocorria.

Muitas vezes, os pais negam o crescimento dos filhos e os filhos vêem os pais com as características persecutórias mais acentuadas. (Aberastury e Knobel, 1981, p. 56)

Falar em adolescente é falar em flutuações do humor e do estado de ânimo. Essas flutuações variam da euforia à depressão. Isso é determinado pela qualidade da elaboração dos lutos que aparecem. Em Tracy isso era bem nítido, pois ela tinha momentos de euforia (mesmo sobre efeito de drogas), momentos depressivos, coléricos, chegando ao ponto de mutilar-se, cortando o próprio braço com tesoura ou lâmina, quando não sabia lidar com seus conflitos internos, quando era decepcionada, etc. Isso é normal na adolescência, os episódios maníaco-depressivos, em que a garota fica trancada no quarto por 2 dias e no final de semana sai se divertir com as amigas.

A quantidade e a qualidade da elaboração dos lutos da adolescência determinarão a maior ou menor intensidade desta expressão e destes sentimentos. No processo de flutuações dolorosas permanentes, a realidade nem sempre satisfaz as aspirações do individuo, ou seja, suas necessidades instintivas básicas, ou sua modalidade específica de relação objetal em seu próprio campo dinâmico. (Aberastury e Knobel, 1981, p. 58)

Através deste filme observamos o que para a maioria das pessoas é anormal para uma conduta de qualquer individuo, mas que para a Psicologia é a síndrome normal da adolescência, uma fase que todos passam. Tracy e Evie foram típicas adolescentes, estavam ansiosas por virar adultas e aceleraram o processo, cometendo excessos. Motivadas por causas internas, como o desejo de ser aceitas, chocar pessoas, chamar a atenção, fizeram grandes besteiras, pois a síndrome não justifica certos comportamentos inadequados para um bom convívio em sociedade, como roubar. Nem comportamentos que façam mal à própia pessoa, como mutilação e abuso de drogas.

O que houve na verdade foi a ausência de limites, de diálogo. Mel não quis enxergar que sua filha estava crescendo, e em vez de orientá-la, ignorou seus pedidos de socorro.

O pai de Tracy era ausente, o que já não foi bom pra ela. O namorado de sua mãe era ex-dependente químico e estava saindo da segunda internação, o que pra ela era terrível, pois ele chegou a bater na sua mãe enquanto estava drogado. Seu irmão, mais velho, assumiu que fumava maconha também, e alegou que a própria Mel sabia.

No caso de Evie, que não tinha os pais e ainda tinha sido abusada pelo tio, não foi diferente. Ela não tinha quem lhe colocasse limites, mas ela sentia que precisava disso, tanto que pediu para Mel adotá-la e cuidar dela, numa tentativa de obter carinho e proteção que nunca teve.

Ao final do filme, Tracy e Evie brigam e se separam, porque Mel não quis que ela continuasse na casa delas, então Evie faz com que sua tia e Mel descubram as drogas que Tracy tinha escondido no quarto, alegando que foi Tracy quem a influenciou a fazer tudo de errado e que ainda batia nela. Tracy fica completamente atordoada e sua mãe pela primeira vez lhe dá apoio, percebendo assim que sua filha cresceu, da pior maneira possível.

Histórias assim são mais comuns do que imaginamos. Por uma série de fatores, os pais deixam de enxergar que seus filhos estão crescendo e precisam de ajuda para lidar com essa nova fase de suas vidas, que naturalmente é complicada. Outro problema que surge, é a própria incapacidade dos pais de resolver certas questões e entender tais comportamentos de seus filhos. Por falta de informação mesmo, dizem que é coisa de “aborrescente”, de mal-criado, etc.

Adolescente não é criança nem adulto. É uma fase de transição criada pela sociedade, da passagem da infância para vida adulta. Uma época de assumir responsabilidades, crises existenciais, crises religiosas, de elaboração de lutos... enfim, não é fácil e deve ser compreendida. Os jovens são metamorfoses ambulantes.

Sobre o Trabalho

Trabalho apresentado à disciplina de Psicologia do desenvolvimento: adolescência. Professora Kelly - III Período de Psicologia da Faculdade de Pato Branco – FADEP

Referência

ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Mauricio. Adolescência Normal. São Paulo: Artmed, 1981.

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