Análise do Filme Cisne Negro a Partir da Psicologia Analítica de Jung: Reflexões Necessárias

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É necessário primeiro trazer uma sinopse do filme e depois fazer uma explanação da teoria de Jung para uma análise através da lente da psicologia analítica do filme Cisne Negro. O filme é um drama/suspense que conta a história de uma jovem bailarina de uma companhia nova-iorquina de balé obcecada pela perfeição, Nina. Nina é uma bailarina cuja obsessão pela dança supera todas as facetas de sua vida. Quando o diretor artístico da companhia decide substituir sua prima bailarina para a produção de estreia de "O Lago dos Cisnes", Nina é sua primeira escolha. Sua concorrente é a novata Lily. Embora Nina seja perfeita para o papel do Cisne Branco, Lily personifica o Cisne Negro. A rivalidade entre as duas bailarinas se transforma em uma amizade distorcida e o lado obscuro de Nina começa a vir à tona.

No filme são visíveis aspectos arquetípicos como Sombra, Persona, Animus, Anima e a sua integração com o Eu chamado na teoria de Jung de Self. E, por fim, o inconsciente coletivo. Passa a ser necessária a explanação do que vem a ser cada arquétipo e Self e depois será analisado como cada conceito se encaixa no longa.

A Sombra é um dos mais poderosos arquétipos: é fonte da agressividade, instinto, impulsividade, vitalidade e criatividade, por exemplo. Esta instância do inconsciente coletivo é fortemente projetada no outro, ou seja, o indivíduo vê no outro as características presentes em sua sombra, rejeitadas por ele. “Os homens tendem a projetar os impulsos de sua sombra rejeitada nos outros homens, de modo que, entre eles, surgem com frequência sentimentos negativos. O mesmo ocorre com as mulheres” (HALL e NORDBY, 2005, p.42).

A Persona se configura por ser não aquilo que se é realmente, mas aquilo que se acha que é e o que as pessoas acham que se é. É uma mistura das expectativas do sujeito consigo mesmo com as expectativas da sociedade quanto ao sujeito.

O Animus possui características como a razão, agressividade, conflitos, rigidez, destrutividade, atividade e está associado à masculinidade, também presente nas mulheres. E a Anima é a a parte feminina do inconsciente associada à docilidade, submissão, intuição e também está presente nos homens.

O Self é o arquétipo da totalidade, que organiza e oferece unificação aos demais arquétipos. Seu desenvolvimento depende da cooperação do Ego, que coordena quais os conteúdos inconscientes que passarão para a consciência. Geralmente ele é pouco desenvolvido nas pessoas, uma vez que este é um processo longo e extremamente difícil. O Self seria a harmonia, a complementaridade entre consciência e inconsciente. Em um Self bem desenvolvido, o Ego trabalha em sua parceria, não mais sendo o centro da personalidade do indivíduo. (HALL & NORDBY, 2005).

O inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, é herdado. Se constituí por um conjunto de sentimentos, pensamentos e lembranças compartilhadas por toda a humanidade. De forma mais aprofundada configura-se por um reservatório de imagens latentes, chamadas de arquétipos ou imagens primordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. O sujeito não lembra das imagens de forma consciente, porém, herda uma predisposição de reagir ao mundo da forma que seus ancestrais faziam.

A análise irá focar na protagonista, Nina. Em uma cena inicial Nina dança com a sua sombra com passos conturbados até que se sobressai e consegue trazer passos mais livres para a sua dança que é bem simbolizado pelas cores claras em sua roupa e pelos flocos de neve que caem de suas mãos.

Como foi dito anteriormente existe uma tendência de o sujeito projetar sua sombra no outro, isso faz com que Nina fantasie com Lilly realizando seus próprios desejos mais obscuros; como o seu desejo de ficar com o diretor da peça do lago do cisne. Assim acaba por reprimir o surgimento de aspectos indesejáveis da sua personalidade.

Fazendo uma referência à Freud, o criador da psicanálise configuraria a personalidade do “ser mãe” da mãe de Nina como narcísica por impor os seus desejos à filha sem pensar no sofrimento que isso gera. Nina se sente na pressão de cumprir com os desejos da mãe que é uma bailarina aposentada e frustrada com a sua carreira interrompida, a possibilidade de compensar o fracasso da mãe a obriga a expor o seu corpo a extremos. A sua persona de filha perfeita acaba por servir de consolo para si e para a mãe com o fim de não abrir feridas narcísicas no ego das duas.

À medida que Thomas pressiona Nina, esta começa a recuperar o Animus que existe dentro de si e com a agressividade dialoga com o cisne negro e o interpreta divinamente bem. Vale ressaltar que durante o longa Nina nem sempre usa criativamente, a sua agressividade e impulso chegando a se arranhar nas costas até sangrar, bater a porta contra a mão da mãe, assim quebrando o membro da mesma e criando um clima de disputa acima do real no grupo de balé.

Nina consegue interpretar bem os dois papéis (de cisne negro e branco) mas se fere mortalmente no fim do longa por falta de integridade entre a agressividade do seu arquétipo de Animus e a sua criatividade do arquétipo da Sombra. Com um Self integrado ela entraria em contato com o poder criativo de sua sombra, a agressividade de seu Animus e seus aspectos conscientes e inconscientes para desempenhar os dois papéis de forma exímia e sair ilesa.

O inconsciente coletivo se revela pelo desejo de dançar balé e pela valorização da dança como algo belo. A peça do cisne negro é repassada de gerações para gerações sendo modificada de acordo com as representações as quais o diretor da obra quer dar o enfoque. Sendo assim, Nina deve aos seus ancestrais a existência da peça e os passos da dança que reproduziu, embora o talento e habilidade da dança – arduamente treinada – sejam suas.

Cisne Negro é uma obra rica em detalhes que agracia todo o público “psi” sendo um poço de referências aos instrumentos de estudos de aspectos da personalidade que integram o sujeito como único na sociedade.

Referências:

TRINTADE, M. A Expressão dos Arquétipos Junguianos: Uma análise do filme Cisne Negro. Psicologado, 2016. Disponível em: <https://psicologado.com.br/resenhas/a-expressao-dos-arquetipos-junguianos-uma-analise-do-filme-cisne-negro> Acessado em: 12 jul. 2018.

HALL, C. S.; NORDBY, V. J. Introdução à psicologia junguiana. 8. ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

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