Análise do Texto “Alunos de Psicologia e a Educação para a Morte” sob a Perspectiva da Saúde Mental e Trabalho

Análise do Texto “Alunos de Psicologia e a Educação para a Morte” sob a Perspectiva da Saúde Mental e Trabalho
(Tempo de leitura: 5 - 10 minutos)

Resumo: Os principais objetivos deste artigo foi verificar como estão sendo tratados a morte e o morrer no curso de Psicologia e compreender como os acadêmicos vêem essa temática. Buscar o entendimento dessas questões propiciando uma ampliação do assunto e trazer maiores informações tanto aos docentes quanto aos discentes. Com base neste estudo será feito uma comparação teórica dos principais aspectos entre a Saúde mental do trabalhador, com o texto em questão, ao qual se menciona “Alunos de Psicologia e a Educação para Morte” que ao abordar esta temática sentem que não estão preparados para a prática da postura de um futuro profissional ao lhe dar com a morte e o morrer.
Palavras-chave: profissional de saúde, alunos de psicologia, morte.

Para os profissionais da saúde parece mais fácil desconhecer e negar a morte do que ter que encará-la e enfrentá-la. Segundo Kubler-Ross (1998) as mudanças ocorridas nas ultimas décadas, mudanças essas que afinal, são responsáveis pelo crescente medo da morte, pelo aumento do numero de problemas emocionais e pela grande necessidade de compreender e lidar com os problemas da morte e do morrer.

Junqueira e Kovács (2008) citam em seu artigo que diante desse quadro de temor da morte, pesquisadores verificaram a necessidade de se oferecerem cursos para os profissionais da saúde que abordam o tema da morte e do morrer. Esses cursos incluíam visitas a cemitérios, cuidados a pacientes terminais, confecção do próprio atestado de óbito e exercícios com fantasias de morte.

Observa-se, na história, mudanças na concepção de morte. Antigamente, o processo morte e morrer era considerado uma etapa da vida cotidiana do ser humano, a última por assim dizer, da vida neste mundo. Questões relacionadas à morte eram vividas com tranqüilidade, tratadas em ambiente familiar, inclusive com a presença de crianças, experenciando e vivenciando com naturalidade o processo de finitude.

Atualmente em nossa sociedade, a aceitação da morte já não é mais observada, mas sim, recusada e considerada um tabu. Apesar de termos a certeza da morte, não possuímos tranqüilidade para dialogar sobre a angústia do findar e de suas repercussões em nossas vidas.

O processo de morte e morrer estão cada vez mais solitário, medicalizado e hospitalizado, onde familiares, crianças ou adultos, já não o vivenciam. O que era antes vivenciado por todos, hoje é escondido e negado pela maioria.

E como os profissionais de saúde lidam com o assunto?

Quanto aos cursos para esta realidade Trucharte, et al. (2003) a formação acadêmica do  psicólogo  é  falha  em  relação  aos  subsídios  teóricos  que  possam embasá-lo na prática institucional [...] não provê com o instrumental teórico necessário para a atuação nessa realidade.

A questão da morte era escassamente abordada nas salas de aula dos cursos universitários, formadores de futuros pesquisadores e profissionais, e, Junqueira e Kovács (2008) destacam ainda que, na formação do psicólogo, há pouco espaço para reflexões sobre o tema da morte, embora já existam algumas iniciativas em nível de graduação, pós-graduação e extensão.

A morte passou a fazer parte do cotidiano do profissional de saúde. Nas escolas, no âmbito familiar, no contexto organizacional, entre outras situações, o psicólogo vê-se frente à morte e, nas tentativas de suicídio, situações que necessitam de intervenção psicológica.

Sendo assim, a formação recebida nos cursos de graduação e a forma de inserção do psicólogo no setor de saúde, pouco contribui para a compreensão das formas e da dinâmica da prática médica e da organização dos serviços de saúde, onde na verdade o psicólogo contribui na explicação e/ou intervenção no processo saúde/doença. (SPINK, 2007. p. 30).

De acordo com Trucharte, et al. (2003) o psicólogo habituado a trabalhar aspectos e esquemas corporais certamente domina o limiar da verbalização, tendo como cerne sua atuação o expressionismo gestual, capaz de exprimir toda e qualquer espécie de sentimentos.

Junqueira e Kovács (2008) verificaram que é fundamental acolher a pessoa doente, ser continente, dar apoio, trabalhar questões espirituais, ajudar nas despedidas da vida e das pessoas que ama, buscar o apoio da família, auxiliar no seu desligamento da vida material e na aceitação da morte. O respeito aos desejos e opções e a postura de aceitação do inevitável por parte do profissional são atitudes fundamentais para que a pessoa possa morrer com dignidade.

Apesar de a morte sempre fazer parte da vida de todas as pessoas, essa pode não encontrar representação nítida no processo mental, devido ao fato de esse ser um processo de vida desconhecido e de não haver modo de se aprender a enfrentar a morte a não ser por intermédio dos livros, conforme relata Junqueira e Kovács (2008) em seu artigo.

Em comparação Trutarche, et. al. (2003) diz que, o mais significativo nessa vivência é a constatação de que o paciente terminal ensina aos profissionais de saúde uma nova forma de vida, uma nova maneira de encarar as vicissitudes que permeiam a existência, uma forma de vivência mais autentica onde os valores decididamente sejam preservados [...] que, na maioria das vezes, permeiam as relações interpessoais.

Mas qual é a correlação que há entre a Saúde mental do trabalhador, com o texto em questão, ao qual se menciona “Alunos de Psicologia e a Educação para Morte”?

Primeiro, compreendamos o que é morte. Segundo o site de enciclopédia Wikipédia, a Morte (do latim mors), o óbito (do latim obitu), falecimento (falecer+mento) ou passamento (passar+mento), ou ainda desencarne (deixar a carne) são termos que podem referir-se tanto ao término da vida de um organismo como ao estado desse organismo depois do evento. As alegorias comuns da morte são o Anjo da Morte, a cor negra, ou o famoso túnel com luminosidade ao fundo. A morte é o fenômeno natural que mais se tem discutido tanto em religião, ciência, opiniões diversas. O Homem, desde o princípio dos tempos, tem a caracterizado com misticismo, magia, mistério, segredo. Para os céticos, a morte compreende o cessar da consciência, exatamente quando o cérebro deixa de executar suas funcionalidades.

Atualmente, ingressamos imaturos, inexperientes e, sobretudo muito jovens na universidade, sempre com a certeza de aprender a curar e preservar a vida. Contudo, nada nos é dito ou ensinado sobre a morte. Será que encaramos a morte como um processo natural da vida? Não dialogamos com nossos professores sobre nossos anseios, medos e dúvidas acerca do processo de finitude. Estamos preparados para lidar com a morte e o morrer? Como encaramos este processo?

Ensinam-nos as diversas formas de cuidar, reabilitar, curar, baseando-se em teorias humanísticas e holísticas. Porém, nossa onipotência não nos permite entender que a morte é um processo natural da vida. Achamos que os professores não preparam seus alunos para enfrentar a morte e o morrer de seus pacientes. Não ensina que a morte faz parte da vida e que esta atravessará, cotidianamente, nossos caminhos.

Anita Bifulco (Psicóloga do Setor de Cuidados Paliativos da Disciplina de Clinica Medica da Universidade Federal de São Paulo) vem explicitar de forma simples a importância de compreender este tema controverso, “Falar da Morte é falar da Vida. Muitos ficarão surpresos com isso, justo a morte, assunto tido como funesto, tenebroso, a maioria foge até de pronunciar o seu nome, quanto mais dissertar sobre ela. Mero engano. E justamente se permitindo falar dela e sobre ela que aprendemos a plenitude do significado da Vida. Deveríamos, por ínfimos minutos diários, ter por hábito pensar em nossa finitude”. E completa fazendo algumas indagações: “O conhecimento da finitude humana é essencial ao saber de todos que lidam com a área da saúde e educação, pois a Morte fará parte, mais cedo ou mais tarde, de seu cotidiano. Se não entendemos nem a morte nem os sentimentos nossos que a norteiam, como entender aquele paciente que tem seus momentos finais tão presentemente vividos, quais seus anseios, medos, duvidas, inquietações? Como, efetivamente, podemos auxiliá-lo, quando sua cura já não é mais possível? Que recursos, disponíveis em nós, como seres humanos e profissionais, estariam por bem servindo a esse cuidar?”

É desta forma que se pensa na Educação para morte voltada para o fator equilibrador da saúde mental de acadêmicos em formação. Não se trata somente da lida da subjetividade e psicodinâmica do outro em sofrimento, trata-se da forma com a qual este futuro profissional vai permanecer sensível a esta demanda mantendo o seu equilíbrio mental e permanecendo saudável psiquicamente; como aborda Crema (2001), “tudo aquilo que se nega pode se tornar inconscientemente traiçoeiro e transformar-se num pesadelo sintomático; permeando uma vida de horrores e subtraindo da consciência a transitoriedade e finitude”.

Sendo assim, estudos ligados à saúde mental no trabalho trazem uma discussão sobre a possível relação entre o trabalho e sofrimento psíquico. E quanto a isto, DEJOURS (p. 103, 1992) relata que: “o trabalho não causa o sofrimento é o sofrimento que causa o trabalho”. O sofrimento produzido pelo trabalho é aproveitado pelo sistema capitalista para aumentar a própria produção. Assim, o sofrimento desperta no trabalhador mecanismo de defesas psíquicas, que é a verdadeira fonte de exploração da organização do trabalho.

Considerações

Ao término dessa pesquisa percebemos que na visão dos profissionais da saúde, a possibilidade de vivenciar a morte é real. É interessante compreender que os profissionais estão cientes que a morte e o morrer aparecem em seu cotidiano, tanto familiar, quanto profissional. Porém, uma questão ainda fica sem resposta: Por que os acadêmicos deixam as faculdades sem o preparo suficiente para lidar com as questões relacionadas com a finitude?

Entendemos que as concepções sobre morte e morrer mudaram no decorrer da história, modificando também o pensar do homem em relação ao seu próprio morrer. Contudo, a única certeza que possuímos é a consolidação do nosso findar, apesar de que em nosso inconsciente, a morte nunca é possível quando se trata de nós mesmos (Kluber-Ross, 1998).

Na pesquisa, realizada ficou evidenciada a diversidade de comportamentos dos profissionais frente à morte. Sentimentos de dúvidas, medo, ansiedade, vazio, desconhecimento do assunto e impotência se misturam e se transformam em um emaranhado de emoções que se traduzem nos relatos das experiências vivenciadas no cotidiano da profissão. Esta análise evidencia claramente o quão despreparados os profissionais saem das universidades no que tange o processo de morte e morrer.

Deste modo, temos uma certeza que possa servir de futura inquietação para pesquisadores do assunto. Enquanto os profissionais de saúde, presentes em todas as Instituições de saúde, reais cuidadores, profissionais responsáveis em cuidar do paciente, de sua família e de sua comunidade, a inaceitável ausência de preparo direcionado ao processo morte-morrer dentro das Universidades. O que foi desvelado ao final desse estudo sobre a morte e o morrer? Talvez, seja mais uma constatação de indignação, dúvidas e incertezas que temos sobre o mistério da vida.

Nesse estudo, o processo morte-morrer nas universidades a as deficiências da abordagem desse assunto na graduação na área de ciências humanas, de saúde e ciências sociais, frente ao processo de finitude, serviu para mostrar que o tema tem que ser mais debatido e trazido para nossa realidade.

Sobre os Autores:

¹ Marnilza Pereira Nazaré - Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade Nilton Lins, e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. – Manaus/AM.

² Rafaella Ferreira Magalhães - Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade Nilton Lins, email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. - Manaus/AM.

Referências:

DEJOURS, C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez Oboré, 1992.

JUNQUEIRA, Maria H. R.; KOVÁCS, Maria Júlia. Alunos de Psicologia e a Educação para a morte. São Paulo, 2008.

KUBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a Morte e o Morrer. 8ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

SPINK, Mary Jane P. Psicologia social e saúde: práticas, saberes e sentidos. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007.

TRUCHARTE, Fernanda Alves R. et. al. Psicologia Hospitalar: teoria e prática. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

Pesquisa Eletrônica:

WIKIPEDIA. http://pt.wikipedia.org/wiki/Morte

BIFULCO, A.V. Psicologia da morte. Artigo: www.eventos.med.br/tanatologia/2/textos/psicologiadamorte.pdf

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